23/02/2015

9.647.(23fev2015.8.8') Zeca Afonso

Nasceu a julho1929
e morreu a 23fev1987
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Via JERO

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 "Mal haja a noite assassina e quem domina sem nos vencer
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excerto de entrevista 1984
https://www.youtube.com/watch?v=Q48aFXRjBCo&feature=youtu.be
 "Temos é que ser gente, pá!" 
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Vampiros
(no último concerto dele)
https://www.youtube.com/watch?v=ZUEeBhhuUos
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VEJAM BEM
https://www.youtube.com/watch?v=Io_RidA1mlI
 Cantares de Andarilho (1968)

Vejam bem 
que não há só gaivotas em terra 
quando um homem se põe a pensar 
quando um homem se põe a pensar 
Quem lá vem 
dorme à noite ao relento na areia 
dorme à noite ao relento no mar 
dorme à noite ao relento no mar 

E se houver 
uma praça de gente madura 
e uma estátua 
e uma estátua de de febre a arder 

Anda alguém 
pela noite de breu à procura 
e não há quem lhe queira valer 
e não há quem lhe queira valer 

Vejam bem 
daquele homem a fraca figura 
desbravando os caminhos do pão 
desbravando os caminhos do pão 

E se houver 
uma praça de gente madura 
ninguém vem levantá-lo do chão 
ninguém vem levantá-lo do chão 

Vejam bem 
que não há só gaivotas em terra 
quando um homem 
quando um homem se põe a pensar 

Quem lá vem 
dorme à noite ao relento na areia 
dorme à noite ao relento no mar 
dorme à noite ao relento no mar
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Via Teresa Carvalho
ZECA AFONSO (1929 - 23 de Fevereiro de 1987)
É a imagem mesma da utopia. Do seu nascimento, em Aveiro, disse que parecia lembrar-se, associando-o a «uma luz muito difusa, translúcida», talvez a mesma que, acendida de esperança, mais tarde saberia erguer, com inegável talento, acima de um velho tapume de opressão e de censura. Avesso a espíritos de tutela, a feudos e a dimensões estreitas, sonhava com a cidade sem muros nem ameias. Decerto não por acaso, a escolha da senha para o desencadeamento das operações militares que em 25 de Abril de 1974 punham fim a quase meio século de ditadura em Portugal, recaiu sobre uma criação sua: «Grândola, Vila Morena».
O Dr. José Afonso, na boa tradição coimbrã exibida nas capas dos seus primeiros discos – Baladas de Coimbra, Baladas e Canções –, Zeca Afonso ou Zeca para a sua imensa roda de amigos, não foi apenas o trovador da luta pela liberdade, o cantautor-símbolo da Revolução de Abril ou a figura central do movimento de renovação da música popular portuguesa, iniciado na década de ’60. Criador notável, com uma extensa obra poética hoje rodeada da atenção crítica dos académicos, foi um músico de excepção, um intérprete de rara sensibilidade, referência de gerações sucessivas.
Zeca Afonso somou ao percurso africano do império – Angola, depois de uma primeira Infância em Aveiro, Moçambique, onde permanece até aos 10 anos e onde voltará em 1964, dando início ao seu «baptismo político» –, as andanças (ou voltas) de andarilho. Chegado a Coimbra em 1940, para frequentar o Liceu D. João III, os seus olhos, habituados ao ambiente de Belmonte, cidade onde à guarda de um tio salazarista fervoroso (o mesmo que lhe incutiu o gosto pela música) disse ter vivido «o ano mais desgraçado» da sua vida, como que se lavaram naquela atmosfera de boémia e de irreverência académica. Em Coimbra, o autor desse hino mobilizador que é «Venham mais cinco» e «O que faz falta» fez serenatas, entrou no viver desgovernado das Repúblicas, espécie de oásis de liberdade onde cantava à noite, viveu a mística da Briosa, deu provas de desaprumo militar, de incapacidade de «encornar sebentas» e de frequentar, sem falhas nem chumbos, o curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras, que conclui em 1961 com a apresentação da tese Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana. Em Coimbra, Zeca Afonso, que faz a sua estreia discográfica logo em 1953, viu, em fim, esboroar-se o «herói de capa e batina», pela perda da visão poético-estudantil, que, acelerada pelas dificuldades financeiras, deu lugar a uma tomada de consciência dos problemas sociais. «Menino do Bairro Negro», tema inspirado nos meios sociais miseráveis do Porto, e «Vampiros», um dos símbolos maiores da resistência antifascista até ao advento da liberdade, estavam, por esta altura, na forja.
À actividade itinerante de professor – em Mangualde, Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro – corresponde uma «acção de carácter existencial», inscrevendo-se à margem dos programas oficiais. Em 1967, regressado de Moçambique «em estado de revolta» e esgotado, não pela experiência da docência nem pela intensa actividade cultural, social e política que ali desenvolvera, mas pelo próprio sistema colonial, é colocado no Liceu Nacional de Setúbal. Definitivamente situado no campo de oposição ao salazarismo, a sua acção não se limita, entretanto, à sala de aula. Convidado a cantar nas colectividades da Margem Sul e, mais tarde, nas associações académicas, passa a viver com a PIDE à ilharga, intimidando, cancelando espectáculos, proibindo a radiodifusão das suas canções.
Impedido de exercer a sua actividade de professor a partir de 1968, por razões políticas, vê-se obrigado a encarar mais seriamente a carreira musical. Da sua actividade criativa, desenvolvida ao longo de mais de 30 anos repletos de aventuras fascinantes, marcadas pelo seu génio criador e pela coragem da sua postura cívica, resultaram discos marcantes de que há sempre que destacar Balada do Outono (1960), o LP Cantares de Andarilho (1968), o Álbum Traz Outro Amigo Também (1970), Cantigas de Maio (1971), representando o momento de viragem para formas de acompanhamento instrumental mais enriquecidas e elaboradas.
Aos entusiasmos heróicos do período revolucionário de Abril seguiu-se o desencanto dos anos ’80, agravado pela doença incapacitante, mais e mais cruel. A morte saiu à rua na madrugada de 23 de Fevereiro de 1987. Zeca Afonso, interventivo até ao fim, soube esperá-la com lucidez crua e um apurado sentido de humor.
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AVANTE DE 23FEV2012
Tributo ao meu amigo de sempre – Zeca Afonso
No 25.º aniversário da morte de José Afonso – o Zeca Afonso como lhe chamaram todos os amigos – o Avante! presta tributo ao compositor, poeta, cantor, militante insubmisso de causas justas, através do testemunho do seu amigo Alfredo Matos que tão bem o descreve como o que ele sempre foi: um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão.
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Foi um momento particularmente emocionante quando o Zeca, perante insistência continuada, a que não resistiu, interpretou, naquele local, naquela Vila, naquele ano, àquela hora e para aquela imensa multidão, aquele libelo acusatório temível e sempre actual – «os Vampiros». Que noite inesquecível!
Conhecemo-nos no início de 1967. Com frequência nos visitámos. Eu, na sua primeira casa, em Setúbal, o Zeca, na minha casa, no Barreiro e, aqui, conviveram, connosco, algumas vezes, dois grandes amigos comuns – o Carlos Paredes e o Adriano Correia de Oliveira. Momentos de conversa livre e amiga.
Desenvolvemos uma amizade sólida, na base de imensas cumplicidades, à volta dos nossos ideais, principalmente. Esta relação levou a que o Zeca tenha aderido e participado, com grande entusiasmo, naquele memorável espectáculo, um autêntico concerto, talvez a maior e mais vibrante sessão de poesia e canto que encheu como um ovo o ginásio do Luso do Barreiro, no dia 11 de Novembro de 1967, um sábado, da iniciativa do Cineclube do Barreiro – cuja direcção, liderada por Álvaro Monteiro, viria, por esse motivo, a ser presa pela PIDE – e da Comissão Cultural do Luso. Este foi mais um dos momentos em que tomámos nas nossas mãos a procura da liberdade que o poder fascista nos negava.
Adriano Correia de Oliveira não cantou porque, como explicou, estava na tropa. Odete Santos declamou poetas como António Gedeão e Manuel da Fonseca. Teresa Paula Brito interpretou Para Não Dizer Que Não Falei De Flores eespirituais negros. O virtuosismo de Carlos Paredes e Fernando Alvim em temas como Verdes Anos. Por fim, Zeca Afonso acompanhado à viola por Rui Pato. A apresentação, improvisada mas conseguida, esteve a cargo do barreirense Manuel Teixeira Gomes. Serviu de apoio à partitura com os textos do Zeca, o muito jovem, e meu filho, Vítor de Matos.
Uma multidão, impensável, naqueles tempos e naquelas condições, repetia com insistência:
«Vam-pi-ros», «Vam-pi-ros», «Vam-pi-ros»«Vam-pi-ros».
O Zeca não queria, resistiu até ao limite, mas era impossível não ceder ao pedido incessante da multidão. Todas as emoções transbordaram quando aquela Voz rompeu, como um grito, o momento de silêncio:

«No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada».

Ovação poderosa estalou na sala. E, em coro, todos, a uma voz, sublinham;

«Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada».

Estava a viver-se um impressionante e indescritível acontecimento, de grande impacto na região, que, num período de crescentes acções políticas oposicionistas, empolgou o começo da movimentação dos democratas para o intenso período eleitoral de 1969, em que, no Concelho do Barreiro, a CDE venceu, nas urnas, a União Nacional.
 *
 A 22 de Julho de 1970, Zeca dedicou-me «Por Trás Daquela Janela», Poema, por si criado e manuscrito, que posteriormente me entregou.
Estava eu, então, preso no Forte de Caxias. Foi em Maio daquele ano, no dia 3, que a PIDE assaltou, simultaneamente, no Distrito de Setúbal, de madrugada, oito casas, prendendo oito cidadãos: quatro, em Setúbal – Carlos Lopes, António Gonçalves, Fernando Carlos e Zacarias Fernandes. Um, na Moita – Staline Rodrigues. Um, em Alhos Vedros – Leonel Coelho. Dois, no Barreiro – Álvaro Monteiro e Alfredo de Matos.
Pelo Natal de 1972, este Poema, também com música do Zeca, de interpretação difícil como o próprio o referia, foi editado em disco, sob o título, Eu Vou Ser Como a Toupeira,que também incluiu a canção A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor Dias Coelho, dirigente do PCP, assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961. Eis o que diz o manuscrito:

Ao Alfredo Matos
Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se o mundo agora acordasse
Se aquela parede andasse
Se um grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue ao dia
Na noite que segue ao dia
O meu amigo lá dorme
De pé
E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré
Assina: José Afonso

Nas minhas cartas da prisão, à Eve, a minha companheira, dou-lhe conta das emoções ao ouvir aquela Voz, vinda de um gira-discos, que uma vez por semana, durante escassas horas, escutávamos intercalada com a voz de Paco Ibañez, de Jean Ferrat, de Léo Ferré, de Adriano Correia de Oliveira, de Beethoven… É a Voz. Aquela Voz. Nas cartas, eu ia escrevendo, frases espalhadas pelo texto que lá iam passando «… ondas eléctricas percorrem todo corpo, eriçando-lhe os pelos, tal pele de galinha, sensação que se vai repetindo, quando o nosso Zeca arranca o São Macaio… e, o Menino do Bairro Negro – Bairro, bairro negro onde não há pão não há sossego… e, Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar… e, Os Vampiros – No céu cinzento sob um astro mudo. Ao ecoar Maio Maduro Maio, o silêncio suspende a nossa respiração».

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No 1.º de Dezembro de 1970, no Forte de Caxias, escrevinhei um texto como se fosse um poema, dedicado ao Zeca, que dele nunca teve conhecimento, talvez porque o achei de valor muito reduzido, mesmo pobre, embora com algum simbolismo pelo lugar e condições em que foi criado. Ei-lo:

Um dia golpearam o pé da flor
Mas a criança agarrou a flor
Que voltou a dar pétalas garridas
Com um perfume ainda mais doce

E a flor se fez árvore

Depois negro vendaval
Arrancou seu forte tronco…
Mas vieram as crianças
As Mulheres e os homens
Que voltaram a plantar a árvore
Que voltou a dar flores e frutos
Para as crianças
As mulheres e os homens.

E a árvore se fez bosque…

Aqui chegou o poeta…
Não há melhor melodia
Que esta faca afiada
Que este golpe de martelo
Que um vagido de criança

Treme a terra bem no fundo de nós
Acordam os Poetas
Os soldados erguem as armas
Galgam as águas dos rios
Rasgam as aves o céu…

Ouvi a sua voz
É Portugal que canta
É Portugal que está no seu poema
E a alegria volta cheia de música
Trova. Balada. Canção
O Poeta canta a vida da gente
Pescador. Camponês. Resineiro. Soldado
Poeta. Operário. Ceifeira. Doutor

Tudo é vida no seu canto
Flor. Árvore. Fruto. Pedra
Tudo em ti é movimento

Rei que tu não foste sendo
Ao teu País dás o teu grito
Há uma nuvem de gente no teu canto

Na tua voz há festa
Tem raiva o teu cantar
Há amor e esperança nas tuas Palavras
É Portugal que está no teu Poema
É Portugal que está na tua voz.

Dedicado à minha irmã, Conceição – presa em 1965, depois em 1968, activista política clandestina, membro do PCP, torturada pela PIDE de forma particularmente cruel – o Zeca escreveu um poema, oferecendo-lhe o texto por si manuscrito, na versão original. A letra, que ataca explicitamente a PIDE em homenagem a uma combatente expressamente nomeada, nunca chegou a ser gravada. Ei-la:

À Conceição Matos
Na Rua António Maria
Da Primaz Instituição
Vive a Maior Confraria
Desta válida Nação

E muita matula brava
Ainda pensava
Que havia de vir
Um dia assim de repente
Para toda a gente
Voltar a sorrir

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Na Rua António Maria
Convenha a todos saber
A patriótica espia
Sabe bem onde morder

Vela pela vossa morada
No vão duma escada
Sem se anunciar
E oferece a quem bem destina
Um quarto de esquina
Com vistas pr`ó mar

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Tem quatro letras apenas
Mas outro nome lhe dão
Nesta Fortaleza antiga
Só não muda a guarnição
E muita matula ufana
Cuidado que a mana
Morrera de vez
Deu graças à Dª. Urraca
Ao som da ressaca
Que o pagode fez

Mas eles, Conceição, vão
Lamber as botas
Comer à mão
Dum novo Pina Manique
Com outra lábia
Com outro tique

Aldeia da roupa branca
Suja de já não corar
O Zé Povo foi à França
Não se cansa de esperar

O capataz de fazenda
Pôs a quinta à venda
Para quem mais der

E os donos marcaram tentos
Com novos inventos
Doa a quem doer
Assina, Zeca Afonso

Sem que jamais cesse, a minha admiração pelo Zeca – é assim o trato, que eternamente se manterá, quando citado – assenta, ainda, na sua qualidade impar de criador de poesia e de músico, de compositor de génio, sempre irrepetível, de ser o seu próprio e maior intérprete e também pelo seu carácter íntegro, generoso, leal, solidário. Zeca, um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão.

O Zeca em Setúbal

O Zeca Afonso foi um dos fundadores e animadores do Círculo Cultural de Setúbal, como é sabido. Mas um dos locais privilegiados da sua actuação, assim como de muitos outros cantores e fadistas amadores, era a catedral da «conspiração» comunista, a «Academia Sapec», a taberna do nosso camarada Jerónimo Bárbara – o Sapec –, aberta há 43 anos, e que hoje, desde o seu falecimento, é o Restaurante Egas, mantendo persistentemente todos os domingos uma noite de fado.
Não é por acaso que o «Egas» é fiel depositário de uma reprodução do Avante! nº. 48, de Agosto de 1937, onde há um texto intitulado «O FADO E O FACISMO».
Curiosamente, na noite de 15 de Fevereiro passado, dia em que o Avante! fez 81 anos, a neta do Sapec, Carolina, leu entre acordes «A morte saiu à rua», grito de José Afonso contra o assassinato de José Dias Coelho, a 19 de Dezembro de 1961.