03/05/2018

6.523.(3mAIo2018.8.8') mAIo68

50 anos depois...
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15maio2018...No Museu Júlio Pomar...dirigido pela Sara Matos (d' ALCOBAÇA que vos abRRaça)
exposição que fica até 29seTEMbro2018
 Foto de Atelier-Museu Júlio Pomar.
 https://www.facebook.com/ateliermuseujuliopomar/photos/gm.188712591945865/1787867987945900/?type=3&theater
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13mAIo2018
Manuel Augusto Araújo escreveu:
a não-revolução!
 
 O impulso revolucionário é desviado para o território do espectáculo. Os mitos dadaístas e anarquistas na política e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.

Maio 68 faz cinquenta anos. A 13 de Maio a França assistiu à maior greve geral de sempre, que paralisou o país. Uma greve só comparável à greve de 1936 e à que antecedeu a Comuna de Paris. A maior greve geral que alguma vez aconteceu na Europa ou em qualquer parte do mundo.
Era o culminar de lutas operárias que se tinham intensificado desde os princípios dos anos 60, com lutas enquadradas, algumas desenquadradas, pelas estruturas sindicais, e das lutas estudantis desse ano.
Estudantes e operários confluíram nesse dia numa batalha contra o poder gaulista, corporizado por um general reaccionário que até aí tinha a maior oposição em Miterrand, um político oportunista.
Maio 68 destrói o jogo de xadrez em que esses dois filibusteiros se enfrentavam. Destrói o jogo mas não destrói o tabuleiro. O jogo irá continuar com outros gambitos e, como os lances imediatos e os seguintes a curto e médio prazo mostraram, são eles que acabam por sair triunfantes.
Triunfo no quadro político e comunicacional que também é verificável nos percursos dos principais intervenientes no Maio 68. Uma das ilustrações da imagem desse triunfo, é ler na M Magazine du Monde (revista do Le Monde de 6 de Janeiro) que Daniel Cohn-Bendit e Romain Goupil estão a fazer um filme para a televisão comemorativo dos 50 anos de Maio 68.
Dois soixante-huitards, dois destacados lideres estudantis, um anarquista o outro trotskista. Cohn-Bendit, que mediaticamente se tornou na cara de Maio 68, a partir da década de 70 aproximou-se dos Verdes alemães, foi eleito em 1994 deputado europeu e co-presidente do grupo parlamentar Verde no Parlamento Europeu, que abandonou em 2014 com um discurso inflamado a favor do federalismo.
Romain Goupil é um cineasta que rapidamente evoluiu para posições da direita. Ambos foram apoiantes de Macron, esse meteorito fabricado pelos media, um reaccionário que se apresentou ao eleitorado acima dos partidos tradicionais afirmando o propósito de reformar a política, uma linguagem recorrente de direita que muito seduz os chamados independentes e também muito tem seduzido algumas esquerdas.
É um percurso de distanciação a quaisquer resquícios revolucionários que já tinha sido trilhado por outros distintos dirigentes estudantis como Alain Glucksman, Bernard Henry-Levy, Guy Lardeau, Christian Jambert, Jean Paul Dulié, que formaram a corrente dos Novos Filósofos que desenvolveram e desenvolvem as teorias mais conservadoras, nos antípodas do que defendiam em Maio 68.
São convictamente atlantistas, violentamente críticos da «abominação do colonialismo do homem branco», defensores do capitalismo em todas as suas formas, atacam o multiculturalismo que consideram ser «o racismo dos anti-racistas».
Raros são os que, como Alain Krivine e Alain Cyroulnik, continuaram fiéis aos ideais trotskistas que perfilharam na juventude. É o que significativamente sobra da poeira de estrelas do Maio 68. Não é um acaso comemorar-se Maio 68 com saudosismos serôdios e manipulações da história, nem é um acaso a involução dos seus líderes se atentarmos nas teorias da Internacional Situacionista (IS), a sua base teórica e ideológica, onde pontificavam Guy Debord1.
No primeiro número da revista da IS (Junho 1958) apregoam ser preciso mudar o mundo. Já a razão era «para não se entediar (…) o tédio é uma realidade vulgar dos jovens enraivecidos e pouco informados e essa rebelião de adolescentes, instalados confortavelmente na vida, não tem perspectivas e está bem distante de ser uma causa. Os situacionistas fazem o julgamento dos tempos livres e sentenciam-nos» considerando que «a política constitui uma alienação comparável à da arte».
A IS move-se num mar encapelado de contradições que acabam por contaminar Maio 68. Afirmam que «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes activos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (...) «com novas formas de acção contra a política e a arte».
Dizem querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau» considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução.
Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lénine recorre para em Que Fazer?2 combater as ilusões originadas por essa convicção sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.
Interessante são as recorrentes referências da IS à arte, colocada em paralelo e no mesmo plano da política. Interessante mas não inesperado. A IS deriva da Internacional Letrista (IL), fundada em 1952 por um grupo de jovens artistas de vanguarda, onde já se encontra Guy Debord, que em 1957 se refunda na IS, onde se associam à IL o Movimento para uma Bauhaus Imaginista, o grupo Cobra e a London Psychogeographical Association.
Nas fundações desse edifício teórico estão, entre outras, as ideias de Isidore Isou:  «A evolução social não é o instinto de sobreviver mas a vontade de criar (...) a criação é a mais alta forma de actividade humana e a arte a forma mais alta de criação, e a poesia a mais alta forma de arte».
E, sobretudo, as de Chtcheglov que em Formulário para um Novo Urbanismo declara: «Estamos entediados na cidade, não há mais o Templo do Sol. Entre as pernas das mulheres que passavam, os dadaístas imaginaram uma chave de macaco e os surrealistas uma taça de cristal. Está tudo perdido. Sabemos como ler todas as promessas nos rostos – o último estágio da morfologia. A poesia dos outdoors durou vinte anos. Nós estamos entediados na cidade, nós realmente temos que nos esforçar para ainda descobrir mistérios sob os empedrados, o mais recente estado de humor e poesia».
É o urbanismo utópico de Chtcheglov que projecta uma «capital intelectual do mundo», uma espécie de Las Vegas fouriérista enxertada numa Disneylândia surrealista, onde a razão de viver se descobria vagueando pelos seus bairros e jardins, os «diversos sentimentos catalogáveis que se encontram nos acasos da vida corrente» e em que a principal actividade dos seus habitantes seria «a permanente deriva».
De modo oblíquo, o urbanismo utópico de Chtcheglov, pela mão dos situacionistas, irrompe em Maio 68. «Debaixo dos Empedrados a Praia», «A nossa esperança só pode vir dos desesperados»; Decreto o Estado de Felicidade Permanente»; «Vivam sem tempos mortos», «A vida está alhures» palavras de ordem que poderiam ter sido escritas por Chtcheglov por desejar resgatar a vida com a poesia tinha que estar na rua, como cantará Leo Ferré a celebrar Maio 68.
Essas ideias já tinham sido antecipadas por Walter Mehring um dadaísta que, em Berlim 1919, proclama em ??? O que é Dadayama???  dadayma faz / ferver o sangue / e a alma do povo / na panela onde se fundem / --um pouco de corrida— um pouco / de assembleia nacional-- / um pouco de Frente Vermelha / metade prateada / metade aço / mais a mais-valia /------= a vida quotidiana.
São as minas Dada espalhadas nos campos da política e da arte que irão rebentar na IL, um grupo de jovens artistas e intelectuais que durante meia dúzia de anos se juntaram procurando nos seus divertimentos encontrar um modo de mudar o mundo.
Se na época passaram quase incógnitos, tornaram-se conhecidos quando fecharam a IL para fundar com outros a Internacional Situacionista 3.
Serão os Lost Prophets de John Berger4, «o programa (ou anti-programa) dos situacionistas será provavelmente reconhecido como uma das formulações puramente políticas mais lúcidas destes últimos decénios da história, reflectindo de forma extrema a força do seu desespero e das suas privilegiadas fraquezas». 
O tédio é para os situacionistas a patologia social. A alienação e a ideologia, a hierarquia e a burocracia são, para eles, a estrutura do mundo. Consideram que todas as ideologias são uma alienação por isso definem posições, não uma ideologia.
Uma negação que acaba por ser uma afirmação, à semelhança da ideologia burguesa que se recusa com contumácia a assumir enquanto ideologia. Fazem essas denúncias, proclamando provocatoriamente que «não há situacionismo», enquanto se apresentam como revolucionários unicamente interessados nas liberdades.
Liberdades que significam o direito de fazer tudo e mais alguma coisa com as consequências que isso implica, num turbilhão que desconhece fronteiras. São princípios devedores do dadaísmo com as suas extravagâncias, cruezas e barbarismos que tornam impossível a meditação contemplativa.
«Esquecem ou não sabem reconhecer os dadaístas que a burguesia entediada com o seu próprio tédio já não se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.»
«À meditação que se tornou, no processo de degeneração da burguesia, uma escola de comportamento associal, contrapõe-se a distracção como uma forma especial de comportamento social. De facto as manifestações dadaístas asseguravam uma extrema distracção na medida em que faziam da obra de arte o centro de um escândalo. Ela tinha de satisfazer sobretudo uma exigência muito concreta: causar indignação pública» (Walter Benjamin)5.
Esquecem ou não sabem reconhecer os dadaístas que a burguesia entediada com o seu próprio tédio já não se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.
Os antecedentes históricos dos activistas da IS encontram-se na Alemanha que no rescaldo da I Guerra Mundial, na Primavera e no Verão de 1918, está em profunda crise. Os movimentos populares forçam a abdicação do imperador Guilherme, todas as esperanças são possíveis antes de serem defraudadas pelo governo do social-democrata de Friedrich Ebert que recuou em todos os campos políticos, sociais e económicos; de o levantamento espartaquista que lhes queria dar continuidade ser liquidado; de Karl Lieknecht e Rosa Luxemburgo serem assassinados.
No Clube Dada de Berlim, Grozs, Walter Mehring, Johannes Baader, John Heartfield, Raoul Hausmann saúdam entusiasticamente os tumultos, «o mundo dadaísta pode ser instantaneamente realizado». Cantam canções e recitam poemas incompreensíveis, aclamam sobre esse barulho de fundo o espontaneismo das massas que, segundo eles, dissolve as ideologias de esquerda e de direita.
Nesse clube renovam-se as consignas do Cabaret Voltaire de Zurique, fundado por Hugo Ball e Emmy Hennings, em que participam Marcel Janco, Richard Huelsenbeck, Tristan Tzara, Sofia Taueber-Arp e Jean Arp, fundadores de Dada, um movimento artístico anárquico, com objectivos artísticos e políticos cujos ecos, flutuando com os ventos da história, continuam a fazer-se ouvir nos nossos tempos, ainda recentemente foram a adubo do movimento punk.
«A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa» escreveu Karl Marx no 18 de Brumário de Louis Bonaparte6. «A história não se repete, mas por vezes pode rimar», dirá Mark Twain que acreditava que nenhuma ocorrência histórica era solitária, mas uma eterna repetição de algo que já aconteceu  noutro contexto, com outra forma, espoletada por outras razões.
Pensa Mark Twain e os situacionistas também o pensam pelo que, mudando o enfoque dos dadaístas mas usando a mesma lente, entendem que podem e devem fazer uma transformação espectacular de todas as coisas e também do seu contrário, usando «a coerência reversível do mundo moderno».
O impulso revolucionário é desviado para o território do espectáculo, a vida social como simbolismo. Os mitos dadaístas e anarquistas na política e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.
As suas teorias, que tinham bastante curso nos meios universitários alemães e franceses, expandem-se ainda mais aceleradamente quando um grupo de estudantes da Universidade de Estrasburgo faz uma edição de milhares de exemplares do panfleto da IS «A Miséria do Meio Estudantil», que terá profunda influência nas correntes de esquerda, sobretudo nas anarquistas e trotskistas, em que os comunistas, rotulados de tradicionais e burocratas, eram tão atacados como sempre o foram pelas direitas.
Maio 68 é a não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas importantes para mudanças na evolução das sociedades, mas que deixam intocadas as suas fundações.
Maio 68 é o momento nuclear desse processo. Uma revolução sem programa político, uma revolução sem revolucionários que faz um sobre investimento no existencial.
Faz isso enquanto abre o caminho para processos ousados que introduzem novas formas de luta na longa luta das mulheres, na nova luta pelos direitos dos homossexuais e, de forma embrionária, nas lutas ecológicas. Abrirá o caminho para novas frentes, a interrupção voluntária da gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc.
Faz isso mas também um desinvestimento em identidades instituídas o que produz uma paisagem aleatória em que se interroga o significado do que é político. As frentes de luta abertas por Maio 68, que se assumem como fracturantes, mesmo quando centrais de uma alteração de atitude social, não são mudança social, nem estão realmente empenhadas em transformações sociais radicais.
Quando proclamavam que iam mudar a sociedade logo se desmentiam com um desinteresse quase enfastiado pelas estruturas económicas e do Estado, embrulhado numa gritaria altissonante que mal lhe arranhava a pele. O cenário conhecido é o de um afinado processo de despolitização e de desmobilização na batalha por uma real mudança social que amortecem e tendem a anular.
Maio 68, recusando participar na construção dos alicerces em que se fundam as revoluções, é a fascinante festa bem expressa nas imaginativas palavras de ordem que excitam a criatividade e ocultam com fina casca colorida e luminescente o enorme vazio que o corroía por dentro.
«Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê», é provavelmente a chave da «Imaginação ao Poder». São palavras de ordem para todos os gostos, abrangem todas as áreas «Debaixo dos empedrados, a praia»; «É proibido Proibir»; «Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo»; «Amem-se uns aos outros»; «A anarquia sou eu»; «A arte está morta, libertemos a nossa vida»; «Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês»; «A cultura é a inversão da vida»; «Dez horas de prazer já»; «A economia está ferida, pois que morra!»; «Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século»; «Não se chateiem, chateiem os outros»; «A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista»; «A liberdade do outro estende a minha ao infinito»; «A arte está morta, não consumamos o seu cadáver»;«O estado é cada um de nós»; «Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor»; «Os sindicatos são uns bordéis»; «Não nos prendamos ao espectáculo da contestação, passemos à contestação do espectáculo»; «Autogestão da vida quotidiana»; «A felicidade é uma ideia nova»; «Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu»; «A Revolução tem deixar de ser, para existir»; «Tudo é Dadá».
São mais versos de um Cadavre Exquis surrealista do que palavras de ordem de um programa político. Como o programa político não existia ficam essas palavras, a sua carga poética, o seu vazio revolucionário em negação de outra frase recuperada de Saint-Just pintada nas paredes da Sorbonne: «Uma Revolução que não vai até ao fim cava o seu túmulo».
Não havendo programa, por esta pequena selecção se vê como há uma ideia subjacente de desenquadramento político. A tónica centra-se no espectacular e na personalização em que «os confrontos duros entre o verdadeiro e o falso, do belo e do feio, do real e da ilusão, do sentido e do não sentido, esbatem-se, os antagonismos tornam-se flutuantes» (Giles Lipovetsky)7
Nesse caldo de cultura, em que o hedonismo e a indiferença triunfam, narciso caminha para a era do vazio. Era do vazio em que se vive «a tensão lucidamente autodestrutiva da desesperada vitalidade», como dirá um dos seus epígonos, aduzindo «que a actual lógica de uma possível resistência abandona as ideias modernas de racionalidade global da vida social e pessoal para a desintegrar numa unidade de mini-racionalidades ao serviço de uma inabarcável e incontrolável irracionalidade, reinventando-as de modo a que elas deixem de ser partes do todo e passem a ser totalidades em múltiplas partes», o que logicamente encerra a resistência a esta sociedade, em qualquer uma das formas em que se manifeste e como se manifeste, num casulo onde se debate e agoniza condenada à danação do fracasso.
Essa «reinvenção de mini-racionalidades» acaba por ser um exercício de pacificação do estado de sítio «da global inabarcável e incontrolável irracionalidade», ritualizando uma suposta resistência em artifícios de sobrevivência em que o único objectivo é ser absolutamente o que se é, mesmo quando não se é nada se a esse nada se consegue colar um código de barras que passe nas caixas registadoras dos supermercados da política, da economia, das artes.
É um corte epistemológico, o dobrar a esquina da história em que «a 'dissolução' da história, nos vários sentidos que se podem atribuir a essa expressão, é, de resto, provavelmente, a característica que distingue do modo mais claro a história contemporânea da história 'moderna'» (Gianni Vattimo)8.
É o caldo da cultura do simulacro e da simulação, uma imagem feita de muitas imagens. Um poderoso holograma que se assume como nova realidade em que a vida é controlada por uma estetização descontrolada.
«Tudo se estetiza a si mesmo a política se estetiza em espectáculo, o sexo em publicidade e pornografia, e toda a gama de actividades se transforma em algo chamado «cultura», o que é completamente diferente de arte; esta «cultura» invade todos os campos através da publicidade e da semiologização dos médios» (Jean Braudillard)9.
A contaminação é viral. Perdem-se e deixam de haver pontos de referência. Em todos os campos desaparecem os parâmetros para se fazerem juízos de valor. Os juízos políticos, éticos, estéticos forjam-se no excesso até se banalizarem sem redenção.
Os situacionistas e a Internacional Situacionista, que tem em Guy Debord e Raoul Vaneigem10 os principais pensadores que organizam o seu corpo teórico, irá encontrar em Maio 68 a expressão das suas teorias, preconizando o irresolúvel paradoxo de uma «sociedade revolucionária» incorporar as tendências positivas do desenvolvimento capitalista deixando intocada a exploração desenfreada que o sustenta e sem nunca se definirem os crivos que fazem a avaliação das tendências positivas. 
Para eles, a situação revolucionária seria resolvida com a organização autogestionária das forças produtivas sem alterar as relações de produção. Uma situação insólita em que se enredam manipulando um cubo de Rubik à procura de soluções, como se o fundamental não fosse destruir o cubo.
«Maio 68 é a revolução sem revolução nem revolucionários. Um tumulto de contradições que tem vida curta.»
Maio 68 é a revolução sem revolução nem revolucionários. Um tumulto de contradições que tem vida curta. A IS nasce em 1967 extingue-se em 1972, marcada por inúmeras deserções e expulsões. Anselm Jappe, o último teórico e estudioso do Situacionismo, na continuidade de Debord, persiste em defender o legado desse movimento que, na sua opinião, instalou uma conspiração permanente contra o mundo mesmo admitindo que essa conspiração está estandardizada, foi absorvida pelo capitalismo.
Maio 68 é uma situação pós-revolucionária que se dissipou quase tão rapidamente quanto havia surgido, numa sucessão de momentos simbólicos que rapidamente se evaporaram.
Deixou um rasto de sedutoras frases-chave, uma poeira de estrelas por onde hoje se continua a navegar. Sem ser de facto uma Revolução e por até esvaziar o sentido de Revolução, teve uma repercussão imensa nos tempos seguintes, apesar do seu funcionamento bipolar.
Por um lado, desvaloriza e secundariza as lutas operárias e procura socavar o trabalho político dos partidos revolucionários, por outro, atira pedras às caras do poder que acabam por promover uma profunda alteração no modo de estar no mundo.
Uma das faces dessa moeda, a mais visível e persistente, foi a festa que ocupou as ruas, os grafitis, as discussões sem fim, as barricadas, as ocupações selvagens, a poética das palavras de ordem.
Um movimento de resistência ao deserto urbano em que se ocultava a sua outra face: a deserção e a indiferença que sobrevoavam e continuam a sobrevoar o mundo contemporâneo. É «a revolução sem finalidade, sem programa, sem vítimas nem traidores, sem enquadramento político». (Giles Lipovetsky).
A política tornou-se espectáculo. Destruíram-se convenções rígidas substituindo-as por outras convenções onde se firmam o feroz individualismo, a esteticização da vida, a cultura hedonista.
Maio 68 revelou com grande clareza um mundo tornado demasiado ligeiro, demasiado absurdo. Uma das suas palavras de ordem «Cada Vez é Nenhuma Vez» sintetiza-o de forma transparente. Nada se repete, tudo é meramente casual e por isso inenarrável. 
Os situacionistas, o núcleo político mais sólido de Maio 68, teorizaram sobre a sociedade do espectáculo na política e na vida, verificando «a generalização da sedução em que o espectáculo é a ocupação da parte principal do tempo vivido no exterior da produção moderna» (Guy Debord).
Seduzir, introduzir o jogo das aparências na realidade, fazer das simulações e dos simulacros o centro da actividade política e social, temas sobre que Braudillard se debruçou extensamente, culminam na aceitação da mistificação e da alienação enquanto normalidades no quadro da vida pós-moderna.
A ideologia dilui-se, os partidos transformam-se em máquinas eleitorais ao serviço dos poderes económico-financeiros dominantes que lhes dão apoio variável em linha com os benefícios que lhes são concedidos, desertando mesmo da ideia da democracia como território da luta de classes pacífica, preconizada pelos primeiros sociais-democratas.
A luta por mudanças sociais fragmenta-se em lutas por alterações de atitudes sociais, o que acaba por paradoxalmente desgastar a ideia de revolução. Tudo acaba por aparentemente desaguar num mundo de uma sociedade de abundância e consumo, a bête-noir que Maio 68 contesta violentamente nas ruas mas ama secretamente nas suas alcovas subterrâneas pelo que, passado o incêndio e feito o rescaldo, muito mudou para nada mudar.
O Príncipe de Salinas continuava vivo e aspira à eternidade, os seus salões continuam muito frequentados por esgrimistas de  floretes embotados. Alcançada a paz pantanosa, mesmo que seja invadida por pontuais sobressaltos, o clube dos ricos continua a prosperar, é cada vez mais restrito e enriquece a velocidades inimagináveis, os pobres são cada vez mais e estão cada vez mais pobres, a proletarização estende-se a todas as áreas da actividade produtiva mesmo que esses novos proletários não se reconheçam como proletários.
Um cenário complexo de luta e de lutas sempre ameaçadas pelos labirintos em que os minotauros se multiplicam e estão atentos para as desengatilhar. 
Em Maio 68 tornam-se mais visíveis os fios ideológicos porque se tece o pós-modernismo onde a recusa de narração dos factos passa a ser assumida como recusa da realidade em si, a desconstrução como a destruição de uma actividade política, artística, literária, filosófica, historiográfica activas, o ser individual como um ser livre e semelhante aos outros, para se transitar para uma actividade política, artística, literária, filosófica e historiográfica enquanto experiência de negatividades, ausências, obsolescências e o ser individual ficar aprisionado pelo querer ser diferente o que o torna uma figura mais adjectiva que substantiva.
A realidade deixou de ser um sistema operativo onde se actua para a transformar, no limite revolucionar, para se assumir como um território de uma hiper-realidade onde só as errâncias são possíveis sem dia seguinte. 
«Maio 68 foi um grande teatro de rua, com a administração em espectral ausência à espera que aquilo passasse», declara Alain Tanner a propósito do seu filme Jonas terá 25 anos no ano 2000, sobre as pessoas que viveram aqueles dias e que a seguir foram rejeitadas pela história por causa do seu insucesso, «o que importa, mais que os acontecimentos foi esse teatro colocar em cena as esperanças e os desejos ocultados, que continuaram a emergir à superfície».
Revisitar Maio 68 e os seus  fantasmas, vestindo-os com roupas mais em dia, é muito útil em momentos de crise, como as que actualmente se vivem, para desarmar a ideia de revolução.
Não é um acaso Guy Debord, o maior teórico da Internacional Situacionista, o teórico da sociedade do espectáculo, ter sido, em 2013, objecto de uma grande exposição na Biblioteca Nacional de Paris, que lhe adquiriu os arquivos, classificando-os como tesouro nacional. Hoje em dia não há, da direita à esquerda, político ou pensador que se preze que não cite Debord por tudo e por nada.
O que não quer dizer que o tenham lido, nem quer dizer que não se deva ler a sua obra com tudo o que nela se aprende, mas quer dizer que Guy Debord, como Maio 68 foram recuperados por esta sociedade que tão tão radicalmente pareciam contestar e que, ironicamente, os integrou no seu circo mediático. Um destino que não lhes causará grandes incómodos nem muito desagrado.
A forma como o poder e as forças que o suportam, estando ou não no seu exercício, olharam para Maio 68 foi clara e cinicamente expressa por André Malraux – um intelectual de esquerda que aceitou ser ministro da Cultura de De Gaulle, que no seu consulado provocou imensa indignação na intelectualidade francesa quando, em 1966, proibiu a representação de La Religieuse de Diderot.
Protestos mais violentos houve em Fevereiro de 68, quando demite Henri Langlois, um dos mentores da Nouvelle Vague, da presidência da Cinemateca Francesa, alegando problemas de gestão, quando o verdadeiro motivo era Langlois se ter recusado a censurar cenas do filme de Truffaut, Beijos Proibidos – numa entrevista ao Der Spiegel em Outubro de 1968: «no que respeita aos estudantes divertiu-me o laivo surrealista do movimento. Mas nem por um segundo levei aquilo a sério (…) a imaginação ao poder é, sem dúvida, um gracejo.»
Revisitar Maio 68 é também verificar que mais que uma revolução política, que nunca foi, foi uma revolução cultural que provocou grandes mudanças nas atitudes sociais. 
Maio 68 mudou o mundo sem o fazer saltar dos eixos, sem o descentrar das suas rotações e translações que se mantiveram íntegras, apesar dos muitos episódios que pouco as aceleraram e muito as desaceleraram até aos tempos de regressão política, económica e social que hoje se vivem.
Tem um legado que persiste e é importante, que deve ser limpo das ilusões e das boas intenções que plantou, das muitas tergiversações que produziu, dos bochornosos contubérnios em que se envolveu.
Ensinou, como talvez nunca se tenha verificado com tanta clareza em séculos de história, que o capital sabe desarmar e reduzir o impacto das lutas políticas, que as mistifica para tirar proveitos cercando as forças que de facto o ameaçam, que nunca hesita no uso de todas as armas dos seus arsenais, dos das armas aos comunicacionais, não recuando das mais violentas e bárbaras repressões às mais subtis e suaves persuasões, com a despolitização na linha da frente. 
Celebre-se Maio 68 com uma palavra de ordem que nunca foi dita nem grafitada, mas foi cantada por Leo Ferré em Il n’y a Plus Rien: A desordem é a ordem sem o poder. Talvez a melhor consigna de Maio 68 e das suas incandescentes cinzas.
  • 1. Debord, Guy – A Sociedade do Espectáculo, Antígona -Editores Refractários,2002; Commentaires sur la Societé du Spetacle, Gallimard, 1992
  • 2. Lénine – Que fazer?, Edições Avante!, 2017
  • 3. Internacional Situacionista – Antologia, Antígona-Editores Refractários,1997; Formulaire pour un Urbanisme Nouveau, Ivan Chtcheglov (pseudónimo Gilles Ivan) in International Situacioniste n.º1, Junho 1958
  • 4. Berger, John - Lost Prophets, in Leaving the 20th Century, editado por Christopher Ray, New Society 6, Março 1975
  • 5. Benjamin, Walter – A Obra de Arte na Época da sua Possibilidade de Reprodução Técnica (3.ª versão) in A Modernidade/Assírio&Alvim, 2006)
  • 6. Marx, Karl – O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, Edições Avante! 2018
  • 7. Lipovetsky, Gilles – A Era do Vazio, Edições 70, 1983
  • 8. Vattimo, Gianni – O Fim da Modernidade, Editorial Presença, 1987
  • 9. Braudillard, Jean – Simulacros e Simulação, Relógio d’Água, 1991
  • 10. Vaneigem, Raoul – Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano, Antígona-Editores Refractários,2003

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segunda-feira, 5 de maio de 2008


Maio de 68


A Universidade de Nanterre fora criada em 1965 para acolher os estudantes que, por várias razões, não haviam entrado nas escolas superiores tradicionais Em 23 de Março de 1968, descontentes com a disciplina rígida, os currículos escolares e a estrutura académica conservadora, os estudantes de Paris organizaram protestos e boicotaram as aulas. A polícia, usando bastões e gás lacrimogéneo, atacou os estudantes que ocupavam a Sorbonne e realizou prisões em massa. Em 3 de Maio de 1968 a Sorbone foi ocupada pelos alunos como resposta ao encerramento da Universidade de Nanterre pelas autoridades francesas, no dia anterior. Daqui resultou uma onda de contestação e ocupações das universidades por toda a França. Atacados brutalmente pela polícia, os estudantes desceram às ruas denunciando não só a brutalidade e a repressão policial, mas também a guerra do Vietname e as políticas imperialistas dos governos francês e americano. A polícia do presidente De Gaulle usou de grande violência para restabelecer a ordem. O protesto estudantil contra o autoritarismo e o anacronismo das Academias rapidamente se transformou, com a adesão dos operários, numa contestação política ao regime gaulista. Estudantes e trabalhadores aderiram às manifestações e estiveram unidos nas greves entretanto desencadeadas ou nas barricadas com que enfrentaram as chamadas forças da ordem. Em 6 de Maio, ocorreu um confronto entre 13 mil jovens e a polícia. Esta atacou lançando bombas de gás lacrimogéneo e os jovens responderam à pedrada. Em 10 de Maio, os estudantes ergueram barricadas nas ruas centrais de Paris que davam acesso ao Quartier Latin, centro universitário da cidade. A maior batalha entre a polícia e os manifestantes deu-se nesta área e ficou a ser conhecida pela “Noite das barricadas”. Em 13 de Maio deu-se a primeira manifestação conjunta de estudantes e trabalhadores. Mais de um milhão de pessoas aderiu a uma greve geral e marchou pelas ruas de Paris em protesto contra as acções policiais dos dias anteriores. Em 17 de Maio, mais 200 000 trabalhadores entraram em greve. Nos dias que se seguiram, o número de trabalhadores que aderiu à primeira greve geral na História da França foi aumentando. 11 milhões de trabalhadores envolveram-se numa greve que durou mais de 2 semanas.
Em 24 de Maio, o presidente De Gaulle anunciou que o governo levaria a cabo as reformas pedidas pelos estudantes e garantiu um aumento salarial significativo para os trabalhadores grevistas. Enquanto isso, em Grenelle, delegados governamentais negociavam com os sindicatos uma série de melhorias sociais para pôr fim à greve geral dos trabalhadores e assim poder afastá-los dos estudantes. Em 29 de Maio, o general De Gaulle viajou até às bases francesas na Alemanha para obter apoio do general Massu para uma intervenção militar em Paris. A situação foi controlada nos finais de Maio, com uma violenta repressão de que resultou mais de milhão e meio de feridos. Em 30 de Maio, uma manifestação de cerca de 1 milhão de conservadores, a chamada “maioria silenciosa”, marchou em Paris contra a greve geral e as reivindicações dos estudantes. De Gaulle propôs uma solução eleitoral e graças a ela obteve uma significativa vitória nas eleições de 27 de Junho. Os gaullistas acabaram por aumentar a sua maioria. A partir de então, o movimento estudantil enfraqueceu. Mas o governo de De Gaulle, abalado por este movimento, acabou por cair. Em 27 de Abril de 1969 o general De Gaulle renunciou à presidência da República, depois de tê-la ocupado durante dez anos. Os acontecimentos de Paris fizeram parte de um movimento mais alargado de contestação que ocorreu em vários países europeus (Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca, Espanha, Reino Unido, Polónia) e americanos (México, Argentina e Chile). Governos fascistas foram derrubados em Portugal e em Espanha, juntamente com a ditadura militar na Grécia. Em Inglaterra, uma greve de mineiros derrubou o Governo. Nos Estados Unidos, o presidente Nixon foi obrigado a renunciar e , aí, cresceu um grande movimento de oposição à guerra no Vietname, encabeçada pelos movimentos Hippie.
 http://sophiamar.blogspot.pt/2008/05/maio-de-68.html
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2008
in Militante
Sérgio Ribeiro





As lições de Maio de 68 em França

Todos os anos têm um mês de Maio. 1968 teve, claro, um Maio. Parece que sobretudo em França. Para se ser mais preciso, parece que sobretudo em Paris. O Mai 68! Um Maio que ficou na história. Para muitos aspectos da vida, da vida de muitos de nós. A quem o Maio de 1968 apanhou jovens, ou ainda jovens.

Para esses de nós, em 1968 jovens ou ainda jovens, a vida era cinzenta, bisonha, sem perspectivas. Menos para os que lutavam, para os que lutam sempre. Em Portugal, o fascismo, a guerra colonial, a emigração, faziam mais triste a vida. Para os que não lutavam, para os que não tinham a esperança que nasce na luta. Para os que só esperavam… talvez Agosto, talvez a queda salazarenta de uma cadeira em S. João do Estoril. Para esses, Maio de 68 foi um estampido, um clarão. Mudou muitas coisas. Na sua maneira de viver.

Quarenta anos passaram e há uma aura e nostalgia desse Maio de 68. Não só em França, em Paris, no Quartier Latin, na Sorbonne.

Mas, para os jovens de hoje, como contar o que foi esse Maio que tão mal, como toda a história, se conta? Que se conta ter sido o «Maio dos estudantes». Que foi. Mas que não foi só. Que foi também «Maio dos proletários» (1).





A situação anterior



Em França, De Gaulle era o símbolo do poder político. De direita. Com o pendor nacionalista que o fizera participar na Resistência, nela forjando a sua imagem, afirmando-se na primeira fase da CEE – como no episódio da «cadeira vazia» e na imposição do «interesse vital» – para a impedir de prosseguir caminhos que considerava contrários aos interesses da França, com um controlo da política interna que o levava a dizer, na mensagem de fim do ano de 1967: «no meio de tantos países abanados por tantos safanões (saccades), o nosso país continuará a dar o exemplo da eficácia na condução dos seus assuntos (affaires)».

No entanto, a situação não era como De Gaulle queria fazer crer, bem ao modo «chauvinista» de «grandeur» tipicamente francês. Havia luta social. Apenas a título de (outro) exemplo, como ponto culminante da luta quotidiana nos locais de trabalho o número de dias de greve passara de menos de um milhão em 1965 para 2,5 milhões em 1966 e mais de 4,2 milhões em 1967.

As centrais sindicais, a CGT, também a CFDT e, muito menos, a FO – frutos da estratégia de dividir os trabalhadores através da cisão sindical, que o pós-guerra tão bem ilustrou (como o 25 de Abril) –, e o PCF desenvolviam grande actividade. Também no plano institucional a influência do PCF era grande, e tivera, nas últimas eleições, mais de 22% dos votos.

«Les saccades» teriam de aparecer. Havia um mal-estar latente e crescente. 





O «Maio dos estudantes»



A 3 de Maio, em Nanterre, uma agitação provocada pelo «movimento 22 de Março» levou ao encerramento da faculdade; a 4 de Maio, a Sorbonne foi ocupada pela polícia, com desmesurada e violenta repressão, que provocou os primeiros confrontos.

Por erro e/ou cálculo, a reacção do governo agravou uma situação tensa e abriu a escalada da violência. A 6 de Maio, 20 mil estudantes protestaram contra a condenação de colegas. A polícia carregou brutalmente e fez muitos feridos. Os «pavés», que se tornaram «símbolos» do Maio dos estudantes, começaram a saltar dos pavimentos. Os protestos continuaram a 7 de Maio, e a 8 realizou-se um comício da UNEF (Union Nationale des Étudiantes Français), em que participou a CGT, que decorreu com massiva presença de estudantes e sem incidentes. A 9 de Maio, novos desfiles e à luta dos universitários juntaram-se os estudantes do ensino secundário, organizando várias manifestações em que núcleos da Juventude Comunista tiveram papel activo.

A 10 de Maio, a manifestação convocada pela UNEF foi impressionante, e decorreu sem incidentes assinaláveis. Mas à noite, perante aparatoso aparelho policial, 4 a 5 mil estudantes (apenas uma parte dos participantes na manifestação) levantaram barricadas. A reacção policial foi brutal, com muitos feridos e prisões.

Parecia haver intenção de levar os estudantes à exasperação, forçando o confronto violento (2). Terá sido «hábil» esconder o radicalismo e a provocação para concentrar a motivação da luta na agressão contra as liberdades académicas, na violência contra as manifestações, o que permitiu a movimentos e seus protagonistas tomarem a cabeça da contestação. Assim apareceram os esquerdistas com a direcção da luta na Universidade. E pode perguntar-se se o poder não teria estimulado o emprego de métodos que lhe traziam vantagens.

Ao mesmo tempo que havia quem empurrasse o movimento para formas violentas de luta, procurava-se dar-lhe uma orientação política. Antes das barricadas já o PSU sustentava que «para aqueles que têm por missão forjar o destino do país… o regime já pertence ao passado» e um dos seus dirigentes acusava o PCF de tudo ter feito para isolar os estudantes na sua revolta e só apresentar «reivindicações quantitativas necessárias mas insuficientes».





A manifestação de 13 de Maio



No comício de 8 de Maio, a UNEF pedira às centrais sindicais que se solidarizassem com os estudantes e promovessem uma manifestação «para defesa dos direitos de expressão sindical e política e contra a repressão policial». Seguiram-se vários encontros, e no dia 10 foi decidido entre as centrais sindicais e estruturas representativas dos estudantes convocar manifestações para 14 de Maio, em toda a França.

Entretanto, tudo se terá acelerado e a CGT propôs uma greve geral de 24 horas e manifestações para 13 de Maio, a CFDT deu o seu acordo, e as organizações estudantis juntaram-se, ou expressamente ou porque se consideravam em greve ilimitada.

O PCF afirmara, em várias ocasiões – como em comício a 10 de Maio e aderindo à greve e às manifestações –, o seu apoio a um movimento cada vez mais largo, cujas implicações políticas eram perceptíveis mas de que não se podia ainda medir a extensão.

A 13 de Maio, centenas de milhar de manifestantes desfilaram da Republique ao Quartier Latin. De manhã, dezenas de milhar de trabalhadores concentraram-se nos subúrbios, convergindo para Paris com uma sigla comum «Dix ans ça suffit!»(3).

O entusiasmo e a combatividade dos manifestantes, a satisfação por serem tão numerosos, a alegria da unidade, deram uma dimensão excepcional à manifestação, e um sentido novo. Não foi apenas um desfile que mobilizara centenas de milhar de manifestantes, foi também o culminar de uma série de desfiles que tinham sido organizados ao longo dos últimos anos, pela paz na Argélia, contra organizações fascistas, pelo aumento dos salários, na defesa dos direitos sociais. Durante horas, o fluir de operários e estudantes, ombro-a-ombro, foi, em si próprio, a expressão mais saliente do movimento que tomava corpo. Foi o signo sinal de um movimento social, que opunha ao gaullismo uma força só comparável a 1936. Talvez o possível salto qualitativo na luta pela democracia e pelo socialismo.





O «Maio dos proletários»




Aos estudantes, a classe operária trouxe o apoio da sua força. Pela greve, traduziu a vontade de quebrar a ofensiva contra as liberdades; pelas manifestações, colocou-se na primeira linha do protesto. E levantava claramente a questão do poder: poder autoritário ou democracia avançada.

Num documento de 22 de Maio, o PCF reafirmou posições e fez balanço: «A Universidade está doente de gaullismo. A Universidade francesa está esgotada nas suas estruturas, nos seus conteúdos, nos seus métodos. Universidade de classe, não admite mais de 10% dos filhos de operários e constitui uma imagem invertida da sociedade. O quadro conservador em que ela se fecha, mutilando a ciência, a cultura, a técnica, tornou-se insuportável para estudantes e professores. Para esconder a realidade e difundir mais facilmente ideologias reaccionárias, a grande burguesia esforçou-se por isolar a Universidade da vida política e social (…)».

Maio de 68 foi uma oportunidade de quebrar o círculo em que estava encerrada a Universidade. Em França. Mas não só. Se o grande capital «era incapaz de responder às necessidade dos homens e interesses da nação» não o era apenas em França, nem só em 1968. A partir de Maio de 68, ter-se-á tornado mais claro (4).

Como em 11 de Maio afirmara o PCF «os interesses essenciais dos estudantes e do conjunto dos trabalhadores manuais e intelectuais convergem na realização de uma tal Universidade que tornará possível o advento de uma democracia nova abrindo o caminho para o socialismo» (5).





A «moda da revolução»



Em Maio/Junho de 68 a «aurora da revolução» pairava sobre a França, a «esperança absoluta» incendiava corações como incendiava automóveis, o discurso empolgado derrubava um regime que já diziam por terra. Porque – afirmavam – os operários estavam amorfos, os comunistas incapazes e os sindicados «integrados», o Odeon era o lugar de todas as mutações sociais. Ali, onde nascia a nova vanguarda, a única capaz de escapar à esclerose, a única cujas ideias e métodos mereciam respeito.

Se Engels escrevera que «o mito parisiense faz debitar até à exaustão a palavra revolução», teria de se arrepender. Em Maio, o mito era rei. Ao que parecia, a questão deixara de ser «se a revolução pderia ir até ao fim e se a maioria a desejava, mas quando e sob que forma se realizaria» (6)(7). Durante duas ou três semanas, a revolução esteve na moda.

Mas a «nova revolução» tinha, claro, estranhos «compagnons de route». O chantre do «modelo americano» Servan-Schreiber saudava-a como «o despertar da França», Lecanuet e Duhamel, que votavam favoravelmente todos os planos e orçamentos, denunciavam com vigor as taras da universidade e interrogavam-se sobre «que grandes desígnios oferece a nossa sociedade à sua juventude?». Giscard d’Estaing insistia, em todas as oportunidades, no «mai(...)s». Tudo e todos com quem o capitalismo conta para a sua defesa, rivalizavam na «compreensão» das agitações. Por outras paragens, as cumplicidades eram idênticas.





«Revolução» e anticomunismo




Para os operários em greve, o acolhimento era menos caloroso – ou mais quente… Onde explodisse uma cólera há muito contida, não agitação mas protesto, as balas da polícia logo se soltavam, sem «compreensões» ou hesitações; as glosas sobre «revolução traída», «PCF esclerosado ou incapaz», «estudantes abandonados pela CGT»: eram tantas que o tema se tornou monótono. Pompidou acusava os comunistas de terem preparado um golpe de força e Rocard ripostava ter o PCF negligenciado a tomada de um poder pretensamente de rastos, vazio. Os ataques convergiam sobre o PCF, e todos tinham por finalidade enfraquecê-lo, dividi-lo, destruí-lo se possível, acabar, enfim, com um partido que a classe operária francesa há meio século vinha construindo.

Para dividir o movimento operário e levá-lo à derrota, para levantar obstáculos à marcha para o socialismo por vias novas e francesas, para retardar a chegada de uma democracia avançada, a grande burguesia empregou-se a fundo. Um traço novo destes ataques (também de defesa), foi a critica de «esquerda», a tentativa de criar um partido rival do PCF, que o viesse acusar, não de ser revolucionário mas de ser morno, reformista, moderado, frouxo. Enquanto, por dentro, o procuravam descaracterizar, que esquecesse a sua base teórica, abandonasse as suas formas de organização, aceitasse que a história não é a luta de classes.

O anticomunismo não teria, até então, ido tão longe. Em Maio de 68 passou à acção política e teve numa parte da juventude, sobretudo na universidade, uma base, senão durável pelo menos como campo de manobra. (8)

Reconhecê-lo e denunciá-lo não é subestimar o contributo, a coragem, a determinação dos estudantes, a mudança real que trouxe à luta a entrada em cena de uma grande parte da juventude universitária, de parcela importante de intelectuais.

Se o Maio dos proletários só poderia ter por ambição contribuir para a aliança dos operários e dos intelectuais, toda a luta (da outra classe) era para a impedir.





Resultados políticos no curto prazo



Menos de dois meses mais tarde, e depois da greve ter mobilizado quase 10 milhões de assalariados, o gaullismo ganhou as eleições gerais. O partido governamental não só manteve a sua influência como ganhou 5 p.p. A consequência eleitoral do maior movimento popular que a França conhecera desde a Libertação, constituía uma derrota para a esquerda. O PCF desceu mais de 2 p.p., perdendo cerca de 600 mil votos.

Fracasso sério, que deu à maioria de direita os meios e o respaldo para aperfeiçoar o seu aparelho de dominação. Deste fracasso foi acusado, claro, o proletariado e as suas organizações, a CGT e o PCF. Não teriam «nem reconhecido nem compreendido» um movimento que «não estava no programa». Não teriam percebido o valor novo, transformador, revolucionário, das ideias, das formas de luta postas em acção pelos animadores do movimento dos estudantes. O poder estava vago, e não queriam sabido, ou não teriam querido, tomá-lo. Em resumo, as lições choveram de todos os lados. Decretou-se a derrota do comunismo e o espírito revolucionário passou a morar ora em Roccard ora em gaullistas «de esquerda». E podia ler-se que «a classe operária não seja já revolucionária, isso parece quase evidente». Porque se queria que fosse evidente. A nova utopia tinha, a esses olhos, uma vantagem inestimável: os seus protagonistas combatiam o PCF. A partir daí, era «compreendida».

No entanto, quem seguiu de perto Maio de 68 viu a classe operária no centro da luta. Onde continua.





Maio de 68 em Portugal, mero apontamento de ilustração



Em Portugal, o Maio de 68 também chegou. Embora, durante o fascismo, nada cá chegasse facilmente. Mas Maio de 68 chegou. Para o bem e para o mal.

Seguiu-se com interesse a evolução dos acontecimentos num País em que, para mais, tantos portugueses viviam. Com efeitos semelhantes, «à portuguesa». Com a esperança em caminhos mais abertos para o socialismo, com as utopias a criarem, em «outros», ilusões (e aproveitamentos) para outros «novos» caminhos.

Em Agosto de 1968, além da cadeira que se partiu e fez o ditador ir ao chão (mas não o fascismo), anoto uma visita a Paris para «ir ver» como tinha sido e como era. Em Maio de 1969, na Prelo, onde colaborava com assiduidade, resolvi publicar um livro com uma colectânea de textos do período de Maio a Maio 1968/69 (9) , procurando entrar numa «roda» em que não faltavam as «leituras de esquerda» (10), cheias de entusiasmo pelas «novas ideias», e de ataque ao consumismo… e ao comunismo.

Os textos do livro tratavam temas como gestão, autogestão, cogestão, participação, relevando a importância determinante das relações de produção. Neste apontamento, apenas acrescento que uma recensão do livro, para o Diário de Lisboa, que transcrevia parte do prefácio, foi todo cortado pela censura.





Maio?... «oui, mai(s)»!



Não se conclua que se menospreza, ou apenas se avalia Maio de 68 pela negativa. Para os que então eram jovens ou ainda jovens eram, juntamente com outros reflexos Maio de 68 motivou mudanças nas nossas vidas porque os costumes sofreram abanões de que a «moral oficial» nunca mais recuperaria. Lembrar como se viviam os quotidianos, como se relacionavam mulher e homem, é também reconhecer a importância do(s) Maio(s) de 68.

Por isso… Durante anos, uma pequena nota na primeira página do L’Humanité, assinada por André Wursmer com o título genérico de Oui… mais (11) , fazia-me sonhar (lutando) um Portugal em que o Avante! legal pudesse trazer trechos idênticos. Parecia que tudo se tornaria fácil. Lembrando essas notas, termino – com a satisfação do que se lê no «nosso» Avante!, e com a certeza de que nada é fácil – com um Mai 68? Oui… mais! (12)



Notas



(1) Para este artigo, vou servir-me, com frequência, do bem documento livro de Laurent Salini, Mai des prolétaires, editions sociales, notre temps, Novembro de 1968, de que fiz uma re-leitura, e de que aproveito alguns trechos em tradução livre, adaptada e com diferente «montagem» (SR).

(2) Segundo Salini, «se o poder tem a principal responsabilidade neste afrontamento, outros desejavam-no (...) Nem o “movimento do 22 de Março”, representado por Daniel Cohen-Bendit, nem os outros grupos já existentes ou formados “à balda” estavam, à partida, voltados para a massa estudantil. Nenhum era capaz de a mobilizar e de a conduzir. Mais: o desfasamento era grande, por exemplo, entre a táctica de “provocação” empregue pelo “movimento do 22 de Março”, e o estado geral dos estudantes.» (pág. 15 de Mai des prolétaires).

(3) «Dez anos….basta!!»

(4) Hoje, também o é, embora de outra maneira. Com Bolonha, com a desvalorização das licenciaturas, e a empresarialização dos mestrados e doutoramentos.

(5) Após citar André Glucksmann (que se salientou pelas suas posições mais que discutíveis durante Maio de 1968, e depois) – «É em relação a uma via revolucionária que os erros da esquerda e da direita aparecem como formas de doutrinalismo, de culto da paráfrase, de ausência de estratégia» –, Salini acrescenta que «(…) longe de transformar as “regras estratégicas em preceitos morais”, lutamos contra os esquerdistas  não porque eles tenham sido “a vanguarda do movimento de Maio”, não porque eles preparam a revolução, mas porque se voltam contra o Partido Comunista e a estratégia que ele propõe, travam a marcha do nosso povo para o socialismo, ajudam a contra-revolução, abrem a via às forças reaccionárias (…)». (pág. 154 de Mai des prolétaires).

(6) Hervé Bourges: La Révolution étudiante (Préface).

(7) Parafraseando Salini: Os sovietes estavam de volta; Cuba reencontrava 1848; a Comuna ressuscitava; as salas de redacção dos jornais, das rádios, das televisões povoavam-se de «Guevaras». As barricadas tornavam-se epopeicas e autarcas até aí calmos e acomodados, bruscamente revoltavam-se contra o capitalismo, empenhando-se em estimular as agitações, se possível violentas; Revisto e corrigido por «iluminados» (ou incendiados ou incendiários), o marxismo tornava-se interessante. O anarquismo adornava-se com as cores da primavera que tão bem «vão» com o negro. Em outras mãos que não as dos proletários, a bandeira vermelha parecia aceitável.

(8) «Mesmo que se esforcem por reduzir a revolução social à violência e aos distúrbios, e a luta de classes à agitação, mesmo que tantos escritos procurem de novo impor a ideia de que o proletariado já cedeu a sua missão de gerar uma sociedade nova; mesmo que, pela primeira vez com esta amplitude, esquerdistas e anarquistas associados tentem fazer prevalecer os seus pontos de vista e fazer esquecer aos trabalhadores a sua história e as suas tarefas actuais; mesmo que a grande burguesia se lance sobre essas alavancas para dividir as forças que lhe disputam a direcção do país; mesmo que democratas não tenham ainda tomado consciência que a autoridade do partido comunista é a condição essencial (mas não a única) de toda a política de progresso real, as lições de Maio são vitais para o movimento operário e democrático.» (pág. 12 de Mai des prolétaires).

(9) De Maio a Maio, Prelo Editora, Junho de 1969, textos de Francette Lazard, Launay, Brière, Kahn, Bommensath

(10) Lembro um livro de Maria Antónia Palla, e interessantes discussões, na Prelo com António Reis, que nos «invadiu» com as «armas» de Marcuse…

(11) Sim… mas

(12) Maio de 68? Sim…mas!



Sérgio Ribeiro Sérgio Ribeiro http://www.omilitante.pcp.pt/pt/294/Efemeride/231/As-li%C3%A7%C3%B5es-de-Maio-de-68-em-Fran%C3%A7a.htm
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José Batista de Matos ajudou a construir 23 estações de metro em Paris e chefiou centenas de homens, mas em maio de 68 associou-se aos protestos e tornou-se num dos instigadores da greve numa estação da capital francesa.
O Português da aldeia de Alcanadas, na Batalha, chegou ao ‘bidonville’ de Champigny em abril de 1963 para «fugir à ditadura», deixando para trás as «idas de bicicleta à Marinha Grande para ir buscar o Avante» e as escutas clandestinas, em casa, da rádio Voz da Liberdade e da Rádio Moscovo.
Com 84 anos, José Batista de Matos conta entusiasmado «a visão apocalíptica» que teve quando, no início de maio de 68, durante a pausa de trabalho das obras do metro de Charles de Gaulle-Étoile, viu «o largo ao lado do Arco do Triunfo cheio de jovens sentados», foi falar com eles e sentiu «o germinar da vontade» de participar no movimento.
Depois, foi à Universidade da Sorbonne e integrou uma Comissão de estudantes-trabalhadores, a partir da qual organizou a greve junto dos seus colegas operários, mesmo sendo ele Chefe de obras de uma equipa. «Fizemos reuniões na Sorbonne e tentei com outros amigos – alguns Franceses, um ou dois Portugueses – parar o ‘chantier’ na Étoile, em que havia 60, 70 e tal pessoas. E conseguimos parar aquilo. O trabalho parou completamente», recordou, descrevendo o momento como «uma vitória muito grande».
José Batista de Matos começou a participar nas manifestações e ia às reuniões na Sorbonne do ‘Comité ouvriers-étudiants’ porque aquele mês foi para ele «o sonho de um mundo melhor» e «ao fim de 28 dias» conseguiu um aumento de 35 francos por semana», tudo «recordações fabulosas, não só a parte material mas a consciencialização das pessoas».
«Nós combinávamos os sítios das manifestações e qual o sentido dessa manifestação em République, Nation, Porte d’Italie, Étoile… Quando sabíamos que havia uma fábrica em greve lá íamos para incitar as pessoas a não irem abaixo», continuou, enquanto a mulher, Ascenção de Matos, recorda a «angústia» de o ver sair «de Vespa direto a Paris» quando na televisão «parecia que era a guerra».
Como «não havia gasolina nenhuma para ninguém, nem para os ricos», Batista de Matos conhecia um Português numa gasolineira «que tinha à parte um ou dois bidões de gasolina» e encheu-lhe o depósito da moto «uma vez ou duas».
O Português participou nas manifestações de rua porque «tudo se pode vencer com o número de pessoas», viu muita gente «a mandar até botas e ‘pavés’ à polícia» mas diz que nunca mandou nenhuma pedra às autoridades nem andou «a descalçar Paris», ainda que tenha tido de «fugir à frente da polícia» com o filho de sete anos.
«Todas as manifestações que havia, eu ia a todas. Não falhava uma sequer porque eu pensava que a minha presença podia ser benéfica para os outros, não para mim», sublinhou, apontando que nessa altura «ganhava bem» mas ia por uma «questão de respeito pelos outros e por solidariedade».
Ainda que houvesse «uma solidariedade bestial» entre os estudantes e os trabalhadores, chegou a haver uma reunião em que os operários, incluindo Batista de Matos, forçaram a entrada na Sorbonne e também no teatro Odéon. «Foi a primeira vez, na minha vida de homem, que no Odéon os senhores professores, doutores, se tratavam todos por tu. Não havia você, não havia senhor doutor. Aquilo transformou-me», contou o autor de «Uma vida de militância cívica e cultural», acrescentando que na sua boca tinha sempre a palavra «liberdade».
Batista de Matos recorda, ainda, ter participado na ocupação da Casa de Portugal na Cidade Universitária de Paris, onde comeu «à vontade que estava tudo cheio porque eram só filhos de ricos portugueses» e como havia «malta da LUAR e alguns antigos presos políticos ninguém se atreveu a chamar a polícia».
O Português continua a ser o rosto da emigração lusa no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, onde há um desenho a ilustrar o momento em que ele e dois companheiros penduraram uma bandeira vermelha numa grua em protesto contra a manifestação de apoio ao General de Gaulle, que iria pôr fim ao ímpeto do maio de 68.
«Há três anos, um senhor telefonou-me para minha casa porque foi ao Museu e viu essa fotografia. No dia 27 de maio, ele ia na manifestação dos ‘gaullistas’ e houve um ‘gaullista’ que ergueu a pistola para lá para cima para mandar para a gente», contou.
Do outro lado da linha, o senhor disse-lhe: «Ainda bem que você está aí porque houve um ‘gaullista’ que o queria matar a você e aos outros dois».
Batista de Matos recorda o maio de 68 como «o catalisador» e «a essência» da sua vida, acredita que «é preciso maio de 68 em permanência para combater as desigualdades porque 2% da população do mundo tem tanto como 98% do mundo» e diz que na sua vida associativa sempre se bateu para «ressuscitar um pouco o maio de 68».
«Eu hoje sinto o maio de 68 como a emancipação de uma camada de homens e mulheres que se bateram para a liberdade deles e dos outros e essa liberdade expressei-a pessoalmente quando em 1982 inaugurámos, com um Militar de Abril, um Monumento ao 25 de Abril em Fontenay-sous-Bois», concluiu o fundador da Associação Portuguesa de Fontenay-sous-Bois (93) que foi, também, Conselheiro das Comunidades Portuguesas durante oito anos.

 
https://lusojornal.com/2018/05/03/maio-68-o-portugues-que-liderou-a-greve-numa-estacao-de-metro-em-paris/
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