17/03/2017

9.339.(17mar2017.8.8.8") Joaquim Gomes

Nasceu a 9mar1917
e morreu a
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foi 1 cAMARada com quem reuni muitas vezes
 em Alcobaça.
Ele pernoitou, em minha casa, várias noites para evitar a deslocação para Lisboa durante a noite.
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9mar2017
avante
http://www.avante.pt/pt/2258/emfoco/144414/
Vida de Joaquim Gomes
é exemplo para as novas gerações

CENTENÁRIO No dia em que passam cem anos sobre o nascimento de Joaquim Gomes, o Avante! evoca aspectos marcantes do percurso de vida e de luta daquele que foi um dos mais destacados dirigentes e militantes do PCP, iniciado nos primeiros anos da década de 30 do século XX e que só a morte, em 2010, haveria de interromper. Permanece o exemplo de dedicação à classe operária, aos trabalhadores e ao povo, à democracia, ao socialismo e ao comunismo.
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Nascido na Marinha Grande a 9 de Março de 1917, numa família operária, Joaquim Gomes, como muitos outros meninos da sua geração e da sua classe, teve uma infância dura e breve: com apenas seis anos começou a trabalhar na indústria vidreira, como aprendiz, sujeitando-se à mais desenfreada exploração e a toda a espécie de violências e arbitrariedades. Não foi à escola, mas aprendeu a ler em casa e no sindicato, tornando-se desde muito novo um leitor compulsivo e interessado.

A dureza da vida na fábrica foi descrita pelo próprio numa entrevista concedida ao Avante! há precisamente dez anos, por ocasião do seu 90.º aniversário: se no turno das quatro da tarde à meia-noite se passava já parte da noite a trabalhar, «pior ainda era trabalhar no turno da meia-noite às oito da manhã. As crianças caíam com sono e os adultos não estavam com meias medidas: o mais suave era atirar um balde de água fria para cima. Mas muitas vezes queimavam-nos com o vidro para que eles acordassem».

Este ambiente de exploração, agravado no início da década de 30 com os efeitos da Grande Depressão, aliado à poderosa organização sindical e partidária que já então existia na Marinha Grande, despertam em Joaquim Gomes a revolta e a consciência política e de classe: entre 1931 e 1932, com 14 anos, tornou-se membro das Juventudes Comunistas, particularmente activa e prestigiada junto dos aprendizes das fábricas de vidro, cujas lutas frequentemente paravam a produção.

Foi pela sua participação activa numa greve de aprendizes que, juntamente com outros sete jovens, conheceu a sua primeira prisão, em Novembro de 1933. Foi aí que tomou conhecimento do levantamento operário de 18 de Janeiro de 1934, contra a fascização dos sindicatos, que assumiu na vila vidreira a sua máxima expressão. A chegada dos operários revoltosos à prisão, totalmente desfigurados pelos espancamentos, provocaram em Joaquim Gomes uma forte impressão. Se o objectivo dos esbirros era semear o medo entre os jovens operários, falharam por completo; o que se generalizou foi a determinação em prosseguir a luta contra o fascismo. 

Do Partido à clandestinidade 

Imediatamente após a sua libertação, em Março de 1934, Joaquim Gomes integrou o grupo de jovens comunistas a quem coube refazer a organização do Partido na Marinha Grande, e sobretudo nas fábricas de vidro, desmantelada após o levantamento de 18 de Janeiro e a repressão que se lhe seguiu. Por acção do Comité Local, no final do ano o fundamental das células encontrava-se já a funcionar em pleno, ao mesmo tempo que se levava por diante um impetuoso movimento de solidariedade material com as famílias dos presos, privadas dos seus meios de subsistência.

Por circunstâncias da vida, Joaquim Gomes mudou-se para Lisboa em 1937, onde trabalhou como operário, primeiro numa fábrica de lâmpadas e mais tarde numa outra, de garrafas-termo, onde se manteve por 12 anos. Pelo meio, casou-se com a sua companheira de sempre, Maria da Piedade Gomes.

Depois de uma breve passagem por organizações locais do Partido em Lisboa, nas quais entre outras funções foi distribuidor da imprensa partidária, Joaquim Gomes e Maria da Piedade foram chamados a tarefas centrais, passando a sua casa a funcionar como «ponto de apoio» ao Secretariado. Pela natureza das tarefas, ligadas à defesa dos dirigentes mais responsáveis do Partido, o casal teve que manter uma vida aparentemente «normal», longe de qualquer actividade política aberta.

Em 1952, Joaquim Gomes passou a integrar o Comité Local de Lisboa e, juntamente com a companheira, mergulhou na clandestinidade. 

Prisões, fugas e resistência 

Na sua vida clandestina, Joaquim Gomes, como muitos outros militantes comunistas antes e depois dele, travou decisivos combates com a PIDE, vencendo-os todos. Na sequência da sua prisão em 1954, teve a sua «grande experiência de combate com a repressão», recordou na já referida entrevista. Sujeito à tortura da estátua, exigiu uma cadeira para se sentar; face à recusa dos esbirros sentou-se no chão, sendo em seguida violentamente espancado. A cadeira acabou por vir: «Saí com este sentimento: fui eu que ganhei.» A fuga da prisão da PIDE do Porto, juntamente com Pedro Soares, foi uma segunda e importante vitória.

Em 1958, já membro do Comité Central, foi novamente preso e enviado para a Fortaleza da Peniche, da qual se evadiu em Janeiro de 1960, juntamente com Álvaro Cunhal e mais oito camaradas. O seu papel na preparação da evasão foi essencial. Na totalidade, Joaquim Gomes passou pouco mais de dois anos na prisão, graças às duas fugas que protagonizou. Já a sua companheira esteve presa quase seis.

Entre as tarefas e responsabilidades que assumiu na clandestinidade, Joaquim Gomes foi responsável pelas tipografias clandestinas em vários períodos: de 1955 até à sua prisão, em 1958; entre1960 e 1961 e novamente de 1971 a 1974; entre 1963 e 1965 foi redactor principal do Avante!.

Chamado ao Comité Central em 1955, foi eleito para esse órgão no V Congresso, realizado em 1957. Após a fuga de Peniche e a correcção do desvio de direita que nos últimos anos da década de 50 marcava a orientação do Partido, Joaquim Gomes passou ao Secretariado, onde permaneceu até 1963. Daqui até ao 25 de Abril foi membro da Comissão Executiva, com a responsabilidade de ligação ao Secretariado, no exterior, passando diversas vezes as fronteiras, iludindo sempre a vigilância policial.

A 25 de Abril de 1974, Joaquim encontrava-se reunido com outros dirigentes do PCP na casa clandestina de José Vitoriano, no Porto. Dois dias depois rumou a Lisboa, iniciando-se um novo capítulo na sua vida e na história colectiva do povo português.

Revolução, contra-revolução
e democracia
 

A Revolução de Abril veio alterar por completo a vida e os métodos de trabalho do Partido e dos seus mais experimentados e destacados dirigentes, como Joaquim Gomes: a dedicação sem limites à causa do seu Partido e do seu povo, essa continuou, em novas mas não menos exigentes condições. No VII Congresso (Extraordinário) do Partido, realizado em Outubro de 1974, foi publicamente apresentado como membro do Comité Central, da Comissão Política e do Secretariado, neste último organismo juntamente com Álvaro Cunhal, Sérgio Vilarigues e Octávio Pato.

Na construção, afirmação e reforço do Partido nas novas condições da legalidade, na luta pelo avanço da revolução e na luta contra a reacção, nos combates políticos e de massas em defesa das conquistas de Abril ou na intervenção institucional, Joaquim Gomes ocupou sempre um lugar destacado: foi membro do Comité Central até 1996, da Comissão Política e do Secretariado até 1988; entre 1988 e 1992 integrou a Comissão Central de Controlo e Quadros e, posteriormente, a Comissão Central de Controlo. Fez parte da Comissão Administrativa e Financeira e da Comissão do Património até ao fim da sua vida. Foi eleito para a Assembleia Constituinte, em 1975, e foi deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, sempre eleito pelo distrito de Leiria.

Joaquim Gomes por ele próprio
O Avante! clandestino 

«Quem pode imaginar quantas dificuldades é necessário vencer para montar, alimentar e manter uma tipografia nas condições de clandestinidade a que somos forçados? Quem pode imaginar quantos olhos e nervos têm sido gastos, em dias e noites seguidas, a juntar letras que nem sempre a escola ensinou a conhecer? Quem pode imaginar que, junto às caixas do “tipo”, têm crescido crianças e jovens que quase nunca brincaram com outras crianças e jovens, que da vida pouco mais conhecem que juntar letras e levar aos encontros, a horas certas o Avante! ou O Militante? E tudo isto não está nas páginas do Avante! ou nas linhas impressas, mas nas linhas que se não lêem e dificilmente se podem imaginar.»
Intervenção no VI Congresso
do PCP, 1965
A luta contra a reacção 

«A montagem de uma intentona engendrada à volta de uma suposta maioria silenciosa, que afinal não passou de uma minoria sediciosa, terminou em estrondosa derrota. Contudo, as derrotas sucessivas da reacção não podem, não devem, conduzir a optimismos que enfraqueçam a vigilância. (…) Não se deseja que no País se crie qualquer espírito de retaliação, mas é preciso defender as conquistas democráticas do 25 de Abril, pois o que está em causa é o futuro da democracia e a liberdade do povo português. É a independência da pátria que os fascistas tinham empenhado ao imperialismo.» 

Intervenção no VII Congresso (Extraordinário)
do PCP, Outubro de 1974
O 18 de Janeiro 

«Para os operário vidreiros, aqueles que conhecem de algum modo a história do 18 de Janeiro, sabem que precisamente esta jornada se não pode desligar da unidade sindical. Foi depois da criação de um sindicato único da classe vidreira que os trabalhadores deram um impulso decisivo às suas lutas até à jornada gloriosa do 18 de Janeiro. (…) Só as raízes muito profundas do nosso Partido no seio da classe operária permitiu colmatar, em prazo relativamente curto, as profundas brechas abertas pela feroz repressão que caiu sobre o proletariado da Marinha Grande depois do 18 de Janeiro.» 

Discurso no comício evocativo
do 18 de Janeiro de 1934 Marinha Grande
Janeiro de 1975

O futuro 

«Temos possibilidades, e grandes, de cumprir o nosso papel. (…) É preciso que os militantes do Partido ganhem a consciência de si próprios. No caminho que temos que percorrer, ninguém nos substitui. Os comunistas não serão substituídos por ninguém.» 

Entrevista ao Avante!, Março de 2007
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militante mar.ab2017
http://www.omilitante.pcp.pt/pt/347/Efemeride/1138/Joaquim-Gomes-%E2%80%93-Uma-vida-inteira-de-luta!.htm

Joaquim Gomes – Uma vida inteira de luta!

Começou cedo, muito cedo, o combate que ininterruptamente travou Joaquim Gomes, operário vidreiro, destacado dirigente do PCP na clandestinidade durante a ditadura fascista e depois durante um longo período da democracia de Abril.
Um combate e uma vida exemplar de dedicação à causa da emancipação da classe operária e dos trabalhadores, da libertação do nosso povo, da democracia, do socialismo, sempre com o seu Partido que ajudou a construir. Um combate e uma vida que temos o dever de assinalar agora que passam, neste ano de 2017, mais precisamente em 9 de Março, cem anos do seu nascimento.
Joaquim Gomes faz parte daqueles homens que nunca foram meninos, como o não foram muitos dos homens da sua geração na então vila da Marinha Grande onde nascera, grande parte filhos de operários vidreiros que, entre os seis e oito anos, eram confrontados com a dureza e a severidade da vida na fábrica, em muitos casos em condições impiedosas. Elos mais fracos da cadeia de um sistema de exploração desumano e desumanizante, muitos deles, tal como Joaquim Gomes, cedo aprenderam o caminho da luta pelo direito a uma vida vivida em dignidade, como homens livres que queriam ser e que só a luta que corajosamente travavam lhes podia dar.
Joaquim Gomes viveu, trabalhou e iniciou a sua actividade revolucionária na Marinha Grande, numa época simultaneamente dramática e exaltante.
Dramática, porque o fascismo mostrava as suas garras, sucedendo-se actos de perseguição e violência sobre o movimento operário e seus dirigentes e activistas que amiúde conheciam a prisão, particularmente na Marinha Grande onde a crise do sistema capitalista de 1929-32 tivera efeitos devastadores na indústria vidreira, agravando as já duras condições de vida do operariado.
Exaltante, porque eram tempos de intenso e duro combate, de grande actividade reivindicativa e revolucionária, de esclarecida acção sindical e política. Desde logo, do ponto de vista da actividade partidária, com o PCP a levar à prática e a concretizar na Marinha Grande as decisões da sua Conferência de 1929, que, sob a direcção de Bento Gonçalves, levava em frente a sua reorganização visando a edificação de um partido de novo tipo, um partido leninista, combativo e ligado às massas e que vai ter uma intervenção decisiva no desenvolvimento da luta e na actividade sindical dos vidreiros, levando à unificação das diversas associações sindicais de classe numa única organização nacional da indústria vidreira – o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indústria do Vidro, que haveria de ser constituído em 1931 e que, em Setembro de 1933, por imposição da ditadura fascista de Salazar é encerrado, dando início à fascização dos sindicatos e contra a qual se haveriam de levantar os operários vidreiros em 18 de Janeiro de 1934.
Exaltante, porque é um período de intensas lutas vitoriosas, das «marchas da fome», de poderosas greves dos diversos sectores da indústria, das expressivas greves dirigidas por aprendizes por reivindicações salariais e contra o trabalho violento e arbitrário do patronato, alguns com doze anos de idade, como era o caso de Joaquim Gomes, e que ele próprio nos fala no seu livro «Estórias e Emoções de Uma Vida de Luta».
É a intensificação da luta e a sua inserção na trajectória do combate da classe operária vidreira, mas também o gosto pela leitura, que o conduzem à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesa, em 1931, tinha então 14 anos, iniciando a sua actividade em tarefas ligadas à difusão imprensa e angariação de fundos, incluindo para o Socorro Vermelho Internacional. Chega no período de maior intensidade da luta dos aprendizes. É o tempo da célebre «greve das alpargatas» e de outra greve que o iria marcar profundamente – a greve contra o imposto dos 2% para o chamado Fundo do Desemprego, decretado por Salazar em 1933. É preso em Novembro desse ano, tinha então 16 anos, e levado, com mais setde jovens, para as prisões de Leiria.
Alvo de violentas agressões em repetidos interrogatórios sobre a actividade das Juventudes Comunistas, seus dirigentes e reuniões, a tudo resistiu sem nada revelar. Preso durante quatro meses e meio, fica impedido de participar directamente no movimento insurrecional do 18 de Janeiro que os seus camaradas de profissão e de luta planeavam. Sabemos da sua amargura e tristeza por ter ficado de fora desse empolgante combate e de quanto lhe custou ver chegar à mesma prisão muitos dos protagonistas da revolta que a desigualdade de forças derrotou e que vão ser brutalmente torturados logo ali. Tal como sabemos do imenso orgulho do miúdo, que a dureza da vida e do trabalho forçou a ser homem antes do tempo, por ter sido capaz de resistir aos seus torturadores.
Libertado sem julgamento em Março de 1934, e com 17 anos feitos, vai encontrar na Marinha Grande um Partido flagelado pela repressão mas não rendido. Muitos dos revolucionários do 18 de Janeiro, uma grande parte comunistas, estão presos, serão condenados a pesadas penas de prisão e deportados para Angra do Heroísmo e Tarrafal. Era preciso refazer tudo, pôr de pé a organização, retomar o trabalho nas empresas, ligar os que tinham escapado à repressão, apoiar os presos e as suas famílias e continuar a luta. O jovem comunista Joaquim Gomes é chamado ao Partido e passa a fazer parte do Comité Local da Marinha Grande e a desempenhar importante papel na reactivação da organização do Partido nas empresas e no desenvolvimento do movimento de solidariedade aos presos e suas famílias, tarefa que atingiu uma amplitude e dimensão de que ainda hoje a Marinha Grande se orgulha. Em 1937, um novo emprego na Fábrica de Lâmpadas do Lumiar em Lisboa leva-o, com o acordo dos camaradas, a uma grande mudança na sua vida de militante. Integrado na organização do Partido na empresa, tem tarefas ligadas ao aparelho de distribuição da imprensa do Partido na industrializada zona de Alcântara.
Entre o desemprego que conheceu e uma nova actividade que lhe permite estabilizar a vida, Joaquim Gomes casa, em 1940, com a camarada Maria da Piedade, também ela marinhense, e ambos vão trilhar os duros e perigosos caminhos da luta de um partido que se vai afirmar nesses anos da década de 40 como um grande partido nacional, da classe operária, dos trabalhadores e dirigente da luta de resistência antifascista.
Uma década de trabalho exigente com a reorganização do Partido dos anos 40/41, de grandes lutas e actividade antifascista, o que impunha novas soluções e medidas de defesa do Partido. Joaquim Gomes cumpre agora a difícil tarefa de assegurar casas de apoio à Direcção do Partido. Da Marinha Grande ainda lhe chegavam os emissários com propostas para retomar o trabalho do Partido. Mas nem os seus velhos companheiros sabiam, nem Joaquim Gomes lhes podia dizer, que a tarefa era agora outra, não menos importante e, porventura, mais delicada – garantir em segurança o espaço vital para o desenvolvimento da actividade da Direcção do Partido.
Pelas suas casas passou a maioria dos dirigentes do Partido, incluindo José Gregório, outro marinhense, membro do Secretariado do Partido e com papel destacado na preparação do 18 de Janeiro. E foi José Gregório que, em nome da Direcção do Partido, propõe a Joaquim Gomes e a Maria da Piedade Gomes, no seguimento de um crescente cerco da polícia à sua casa de apoio, corria o ano de 1952, a sua passagem à clandestinidade, uma disponibilidade já antecipadamente manifestada.
Joaquim Gomes inicia esta nova fase da sua militância integrado no Comité Local de Lisboa. Trabalha na organização do Partido, acompanhando várias empresas, entre as quais a CP, mas é sempre nas diversas regiões do País que assumirá as mais variadas tarefas de direcção e organização, ligando e religando, fazendo e refazendo a malha por onde passa a corrente da luta do Partido e de um povo contra a ditadura.
Passará pelas prisões do fascismo mais duas vezes, mas como dizia, sorrindo, só na primeira é que lhe abriram as portas, nas outras fugiu. Na verdade, procurar fugir e recuperar o posto de combate não era apenas uma justa orientação, mas um dever que Joaquim Gomes levava a sério, bem como muitos outros camaradas.
Foi preso pela segunda vez em Janeiro de 1954. Suportou estoicamente a violência brutal dos interrogatórios, vencendo todos os medos, inspirado, como nos deixou escrito, no comportamento digno de outros seus camaradas perante os torturadores, como foi o de Francisco Miguel – o seu primeiro herói. Passou do Aljube para Caxias, dali para a prisão da sede da PIDE no Porto, donde se evade nove meses depois com Pedro Soares, membro do Comité Central do PCP, cerrando os ferros de acesso a uma claraboia, com o apoio dos companheiros presos e a ajuda do Partido no exterior. Volta à luta e em Dezembro de 1958 é preso juntamente com Maria da Piedade, na sua casa no Porto. Preso em Caxias, será conduzido para o Forte de Peniche e vai participar numa das mais espetaculares fugas das prisões fascistas.
O Joaquim Gomes que conhecemos não era apenas aquele homem profundamente humano e fraterno, corajoso e abnegado. Era um homem perseverante que possuía a serenidade dos combatentes de firmes convicções que se revelava quando era necessário enfrentar as condições mais adversas. Revelou-o muitas vezes, e particularmente na fuga do Forte de Peniche, em Janeiro de 1960, que protagonizou com mais nove camaradas, entre os quais Álvaro Cunhal. Fuga em que participou activamente, fazendo parte do organismo que a planeou e na superação das inesperadas e sérias contrariedades surgidas durante a fuga. Uma fuga que constituiu uma importante vitória do Partido e que em muito vai contribuir para o reforço do seu papel na criação da situação revolucionária que se aproximava.
Joaquim Gomes no seu percurso revolucionário foi assumindo as mais altas responsabilidades. Membro do Comité Central do PCP desde 1955 até ao XVI Congresso, em 1996. Integra, em 1963, a Comissão Executiva do CC, fazendo a ligação entre os camaradas da Direcção que se encontravam fora do País e as organizações do Partido no interior, num vaivém de passagens clandestinas da fronteira. Posteriormente, membro do Secretariado e da Comissão Política até ao XIV Congresso, em 1992, altura em que foi eleito membro da Comissão Central de Controlo. Exerceu responsabilidades até ao fim da sua vida no âmbito das Comissões Administrativa e Financeira e do Património Central.
Joaquim Gomes deu melhor de si à luta pelo derrubamento do fascismo e pela conquista da liberdade que chega com a Revolução de Abril.
No imediato assume a responsabilidade pela Direcção da Organização Regional do Oeste e Ribatejo, que abrange os distritos de Leiria e Santarém, e estará em todo o País dando o seu contributo nas batalhas em defesa da Revolução e depois na luta de resistência à ofensiva de recuperação capitalista e restauração monopolista. Numa fase posterior acompanhará também a D.O.R. de Setúbal.
Eleito deputado por Leiria logo em 1976 e até 1987, e ao mesmo tempo principal responsável por toda esta vasta Região, vimo-lo muitas vezes lá onde estava o problema, sempre solidário com as lutas dos trabalhadores, dos agricultores, das populações, ou dando apoio onde surgia o novo pela acção dos trabalhadores ou do movimento popular, fosse nos campos do Ribatejo, onde a Reforma Agrária dava os primeiros passos, nos portos de mar, onde nascia a nova realidade das cooperativas de pesca, nomeadamente em Peniche, nas muitas empresas e nas inúmeras batalhas em defesa da produção e do emprego face à sabotagem do patronato. Vimo-lo sempre atento, acompanhando directamente ou indiretamente as mais diversas e complexas situações, fosse as resultantes da arrastada crise por que passou a cristalaria da Marinha Grande, incentivando a procura de soluções, fosse para responder aos atrasos do desenvolvimento das respectivas regiões que acompanhava.
No momento em que evocamos a vida de Joaquim Gomes por ocasião do centenário do seu nascimento, não podemos deixar de lembrar a sua companheira de sempre, a mulher e revolucionária que foi Maria da Piedade, que no seu trajecto comum conhece a prisão e a violência policial fascista que enfrenta com a dignidade e a coragem dos combatentes convictos e firmes. Funcionária do Partido na clandestina durante 22 anos, com a sua saúde debilitada e a vida em perigo é libertada em 1964 na sequência de uma campanha nacional e internacional de solidariedade e logo voltou à clandestinidade e ao trabalho militante que prosseguiu com grande dedicação até ao 25 de Abril de 1974, continuando depois em tarefas de apoio ao Secretariado do CC. De uma dedicação inexcedível, de uma jovialidade cativante, Maria da Piedade constitui uma referência e um exemplo da mulher comunista dedicada à causa revolucionária do seu Partido de sempre.
Joaquim Gomes deixou-nos em 20 de Novembro de 2010. Modesto e discreto, era um patriota que serviu o seu povo e a sua pátria, orgulhoso de ser vidreiro, da sua Marinha Grande e da história heróica do seu povo, uma história que a sua vida de lutador incansável também dignificou.
A sua dedicação e disponibilidade revolucionária são um exemplo e um incentivo para prosseguir os combates de hoje.
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14mar2017

INTERVENÇÃO DE JERÓNIMO DE SOUSA, SECRETÁRIO-GERAL, SESSÃO EVOCATIVA DO CENTENÁRIO DE JOAQUIM GOMES

https://www.youtube.com/watch?time_continue=19&v=ofcpR-MaXSk

«Joaquim Gomes entregou-se por inteiro à luta do seu Partido pela libertação do nosso povo e pela concretização do seu projecto emancipador»


http://www.pcp.pt/joaquim-gomes-entregou-se-por-inteiro-luta-do-seu-partido-pela-libertacao-do-nosso-povo-pela
Evocamos nesta data o centenário do nascimento de Joaquim Gomes, operário vidreiro, destacado dirigente do Partido Comunista Português, deputado, revolucionário de corpo inteiro, corajoso e firme lutador contra a ditadura fascista, pela construção de um Portugal democrático.
Evocamos hoje os cem anos do nascimento desse homem generoso que, dando o melhor de si, se entregou por inteiro à luta do seu Partido pela libertação do nosso povo e pela concretização do seu projecto emancipador da classe operária, dos trabalhadores, pelo socialismo.
Evocamos oito ininterruptas décadas de militância comunista revolucionária, tomando em mãos as mais exigentes tarefas e assumindo as mais elevadas responsabilidades.
Joaquim Gomes faz parte do núcleo de militantes que temos designado por construtores do Partido, homens e mulheres que, em condições extremamente difíceis e à custa de enormes sacrifícios pessoais e humanos – vida precária, clandestinidade, anos e anos ausentes do convívio familiar, prisões, torturas e a perda da própria vida – construíram com outros militantes valorosos o PCP e tornando-o no grande partido nacional que se afirmou na sociedade portuguesa como a força necessária e insubstituível na luta dos trabalhadores e do nosso povo, por uma vida melhor, por uma sociedade nova mais justa, mais democrática e mais igualitária, liberta da exploração e da opressão.
Joaquim Gomes conheceu o duro trabalho numa fábrica de vidro, tinha apenas seis anos. Seguiu o mesmo percurso de vida de exploração desumana que há muito estava reservado à maioria filhos das famílias operárias naqueles anos do princípio do século XX na Marinha Grande, onde nascera a 9 de Março de 1917.
Esse caminho dos «homens que nunca foram meninos» de que falava Soeiro Pereira Gomes e que tinha, na então vila da Marinha Grande, não apenas uma expressiva dimensão, mas também uma particular dureza e severidade que resultava das impiedosas condições do trabalho que vigoravam numa fábrica de vidros, fosse ela de cristalaria, com o trabalho organizado em “obragem” à volta de um forno e pago à peça, onde os aprendizes - a maioria iniciados entre os seis e oito anos de idade -, eram os elos mais fracos de sistema de exploração capitalista desumano, fosse ela uma fábrica de garrafaria de laboração contínua onde a violência do trabalho por turnos não era menor. Duas realidades que Joaquim Gomes experienciou.
Foi a dureza do trabalho, as difíceis condições de existência do operariado vidreiro, a sua própria inserção na trajectória de luta de uma classe com tradições e que, particularmente a partir dos anos vinte, crescentemente afirmava a sua identidade, independência, capacidade organizativa e reivindicativa, que forjou a personalidade corajosa e determinada do comunista de firmes convicções que era Joaquim Gomes.
Foi na “escola da luta do proletariado vidreiro”, que neste período assume uma grande dimensão, que cedo toma consciência do seu papel e lugar na luta contra a exploração e a opressão e se cimenta a sua apurada e consistente consciência de classe e política que o guiará toda a vida.
Joaquim Gomes iniciou a sua actividade revolucionária na Marinha Grande numa época, ao mesmo tempo dramática e exaltante, participando nas muitas lutas que então se travaram e que o vão levar pela primeira vez à prisão.
O final dos anos vinte e os primeiros anos da década de trinta do século passado são, para a classe operária vidreira da Marinha Grande, anos de audacioso combate em defesa das suas condições de vida e de trabalho, pela unidade sindical e o direito à livre organização sindical, e contra a exploração.
Um combate travado no quadro de uma perigosa conjuntura. Um tempo em que o fascismo tinha tomado o poder em vários países da Europa e em Portugal desencadeava uma poderosa ofensiva de perseguição e violência sobre o movimento operário e sobre organizações democráticas. Tempos dramáticos também em resultado da grande crise do sistema capitalista de 1929-32 que tem na indústria vidreira efeitos devastadores, que agravam ainda mais as já duras condições de vida do operariado da Marinha Grande.
Tempos perigosos sem dúvida, mas ao mesmo tempo exaltantes, de intensa actividade reivindicativa e revolucionária, de uma esclarecida acção sindical e política.
Exaltantes, desde logo do ponto de vista da actividade partidária, com o PCP a levar à prática e a concretizar na Marinha Grande com sucesso, no quadro de uma intensa actividade, as decisões da sua Conferência de 1929, que sob a direcção de Bento Gonçalves levava em frente a sua reorganização visando a edificação de um Partido de novo tipo, um Partido leninista, combativo e ligado às massas e que vai ter uma intervenção decisiva na unidade da organização sindical dos vidreiros e no desenvolvimento da luta.
Nas muitas lutas pelo aumento de salários, nas greves pela unificação das tabelas salariais, pelo fim do trabalho ao Domingo ou as greves simultâneas nas empresas de garrafaria no princípio dos anos trinta, a marcante e vitoriosa greve de nove meses, em 1932, na Guilherme Pereira Roldão que teve o apoio e a solidariedade de toda classe vidreira que garantiu o salário aos trabalhadores em greve. Grandes e pequenas lutas, nas quais se inscrevem também as “marchas da fome” e as expressivas greves dos rapazes aprendizes por reivindicações salariais e contra o trabalho violento e arbitrário do patronato, dirigidas por eles próprios, alguns com doze anos de idade, como era o caso de Joaquim Gomes.
Foi neste ambiente de intensa actividade e luta que se concretizou a unificação das diversas associações sindicais de classe (garrafeiros, vidraceiros, cristaleiros e lapidários) numa única organização nacional da indústria vidreira – o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indústria do Vidro – que haveria de ser constituído em 1931 e que, em Setembro de 1933, com a promulgação do Estatuto do Trabalho Nacional, cópia da Carta del Lavoro do fascismo italiano, a ditadura fascista de Salazar manda encerrar, dando início à fascização dos sindicatos e contra a qual se haveriam de levantar num acto de valentia os operários vidreiros em 18 de Janeiro de 1934, a primeira grande acção da classe operária portuguesa contra o fascismo.
Foi a escola da vida, do trabalho e da luta da classe operária vidreira que conduziu Joaquim Gomes à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesa, em 1931, tinha então 14 anos, iniciando a sua actividade em tarefas ligadas à difusão da imprensa e à angariação de fundos, incluindo para o Socorro Vermelho Internacional.
Uma adesão no período de maior intensidade da luta dos aprendizes. É o tempo da célebre “greve das alpargatas” e da greve dos 2% para o chamado Fundo do Desemprego, decretado por Salazar em 1933.
É preso em Novembro desse ano, com mais sete jovens e levado para os calabouços do Governo Civil de Leiria. Joaquim Gomes tinha então 16 anos.
José Gregório, outro marinhense, dirigente nacional do PCP na clandestinidade e com um papel destacado na condução da actividade desse tempo, deixou-nos sobre essas lutas uma referência no seu conhecido relatório sobre as lutas desse período e do 18 de Janeiro, escrevia então:
“Raivosos, os patrões e autoridades fascistas fizeram com que a polícia viesse prender e levasse algemados para Leiria os moços que mais se destacaram na luta. Mas apesar dos espancamentos, torturas físicas e morais de que foram alvo os moços sofreram com dignidade dando um belo exemplo de comportamento proletário e uma boa lição ao inimigo. (…) Entre os moços presos e torturados figurava em primeiro lugar o nosso camarada Joaquim Gomes que desde há muito se pôs por completo ao serviço do nosso Partido e da classe operária do nosso País”. (fim de citação)
Preso durante quatro meses e meio, Joaquim Gomes fica impedido de participar directamente no movimento insurrecional do 18 de Janeiro que os seus camaradas de profissão planeavam.
É conhecida a sua amargura e tristeza por ter ficado do lado de fora do movimento e quanto lhe custou ver chegar à mesma prisão onde se encontrava muitos dos protagonistas da revolta que a desigualdade das forças derrotou, para serem brutalmente torturados logo ali e depois deportados. No seu conjunto os revolucionários de 1934 sofreram mais de 250 anos de prisão e deportação e alguns foram condenados à morte pelo fascismo pelas condições que lhes foram impostas nos campos prisionais do Tarrafal e Angra do Heroísmo.
Vivências que o marcam profundamente. Liberto em Março de 1934 sem julgamento e com 17 anos feitos, vai encontrar na Marinha Grande um Partido debilitado e flagelado pela repressão.
Era preciso retomar o trabalho, pôr de pé a organização, refazer e reforçar a direcção, retomar a ligação às empresas, ligar os que tinham escapado à repressão, apoiar os presos e as suas famílias e continuar a luta.
O jovem comunista Joaquim Gomes é chamado ao Partido e passa imediatamente a fazer parte do Comité Local da Marinha Grande do PCP e a desempenhar um importante papel na reactivação da organização do Partido nas empresas. Tarefa que se cumpre logo nesse ano, com o fundamental das células das empresas a funcionar.
O levantamento tinha sido derrotado, o Partido debilitado, mas não estava rendido e disso também Joaquim Gomes dava provas!
Uma outra tarefa, também muito importante, era preciso fazer avançar. Apoiar as famílias dos presos e lançar um forte movimento de solidariedade. Joaquim Gomes participa activamente na dinamização desse movimento que teve uma amplitude que a Marinha Grande não esquece.
A recolha semanal de contribuições em dinheiro alargou-se à maioria dos trabalhadores das empresas e às colectividades para garantir às famílias dos presos os salários.
As tarefas do Partido de Joaquim Gomes como membro do Comité Local, prolongam-se até 1937. Ano em que um novo emprego na Fábrica de Lâmpadas Lumiar, o leva para Lisboa, sempre ligado e em articulação com o Partido.
Como afirmava, tratou-se de uma grande mudança na sua vida, tinha já então 20 anos. Integrado na organização do Partido da empresa, a sua principal tarefa neste período está ligada ao aparelho de distribuição da imprensa do Partido na zona industrializada de Alcântara.
O pesadelo do avanço do fascismo estava cada vez mais presente. Tempos que exigiam coragem redobrada, numa altura em que a ditadura de Salazar se tinha consolidado, o domínio nazi-fascista na Europa se manifestava de forma avassaladora e a Península Ibérica não tardaria a estar sob o total domínio do fascismo com o desfecho dramático da Guerra Civil de Espanha, em 1939, tal como não tardariam a fazer-se ouvir os tambores da II Guerra Mundial que se aproximava perigosamente.
Entre o desemprego que conheceu e uma nova actividade que lhe permite estabilizar a vida, Joaquim Gomes casa em 1940 com a camarada Maria da Piedade Gomes, marinhense também, ambos vão pisar os duros e perigosos caminhos da luta de um Partido que se vai afirmar nesses anos da década de 40 como um grande Partido nacional.
Nesses anos e a partir da reorganização de 1940/41, a organização do Partido alarga-se a todo o País. São criadas fortes células de empresa, estreita-se a ligação às massas e sob a orientação do Partido têm lugar grandiosas lutas de massas, nomeadamente as greves de 1943, 44 e 46. Vive-se uma grande dinâmica do movimento de oposição à ditadura. Uma intensa actividade que impunha novas soluções e medidas de defesa do Partido nesse combate desigual contra a ditadura fascista que tinha declarado o PCP o seu principal inimigo, designadamente a implementação de rigorosas regras conspirativas, a criação de um alargado corpo de funcionários firmes e dedicados, uma Direcção Central estável, dispondo de um aparelho de apoio ao trabalho de direcção constituído por camaradas de alta confiança e rigorosa disciplina conspirativa.
Joaquim Gomes e a sua companheira Maria da Piedade, integram agora o aparelho de apoio à Direcção Central do Partido, uma tarefa que se prolonga por toda a década e à qual se entregam com enorme dedicação e responsabilidade, designadamente na difícil tarefa de assegurar “ponto de apoio” à direcção do Partido. Pelas suas casas passaram a maioria dos dirigentes do Partido nesses anos.
No seguimento de um crescente cerco da polícia à sua casa de apoio, a direcção do Partido, indo ao encontro de uma disponibilidade antecipadamente manifestada, propõe que Joaquim Gomes e Maria da Piedade passem à clandestinidade.
Estávamos em 1952, num tempo em que a reacção se agrupava, por todo lado, contra o movimento operário e o fascismo português, apoiado pelas principais potências ocidentais, se reforça. Um tempo em que a PIDE desencadeia uma violenta e constante repressão contra o PCP.
Joaquim Gomes inicia esta nova fase da sua militância comunista integrado no Comité Local de Lisboa. Trabalha na organização do Partido, acompanhando várias empresas, entre as quais a CP e no desenvolvimento das suas actividades, já como funcionário do PCP, é preso em Janeiro de 1954.
Suportou estoicamente os interrogatórios e a violência bruta que os acompanhava. Não presta qualquer declaração, seguindo as orientações do Partido. Passou do Aljube, para Caxias, dali para a prisão da sede da PIDE no Porto, donde se evade, nove meses depois com Pedro Soares, membro do Comité Central do PCP, cerrando os ferros de acesso a uma clarabóia, com o apoio dos outros companheiros presos e ajuda do Partido no exterior.
Volta à luta, assumindo o seu posto de combate e continua no trabalho de organização. Acompanha as lutas que então se desenvolvem no Norte e, no ano seguinte, assume novas responsabilidades como membro do Comité Central do PCP.
De 1955 a 1958 é responsável por duas tipografias do PCP em que se edita o «Avante!» e «O Militante».
Essas tipografias eram, no dizer do comunista José Moreira, responsável pela ligação às tipografias clandestinas e também do concelho da Marinha Grande, assassinado pela PIDE em 1950, «o coração da luta popular» a que acrescentava que «um corpo sem coração não pode viver».
Na verdade assim era. Das tipografias clandestinas do PCP saíram milhões de documentos vários – manifestos, folhetos, brochuras, jornais – que denunciaram a política e os crimes fascistas, informavam sobre a vida nacional e internacional, apelavam à organização e à luta, fomentavam a solidariedade para com as vítimas do fascismo, cabendo ao «Avante!» órgão central do Partido papel particular nesta acção.
Estes anos da década de cinquenta até 1958 são marcados por uma intensa actividade antifascista, do MUD Juvenil, das Comissões da Paz e da luta de massas nos anos de 1957/58 que Joaquim Gomes acompanha. Lutas que assumem particular expressão no quadro das eleições presidenciais de 1958 e que o regime fascista mais uma vez transforma em burla eleitoral. Burla que originou um amplo protesto de massas com greves e manifestações a que se seguiu uma prolongada e brutal repressão.
Joaquim Gomes volta a ser preso em Dezembro desse ano, juntamente com Maria da Piedade, no Porto. Preso em Caxias, será conduzido para o Forte de Peniche e participará numa das mais espectaculares fugas das prisões fascistas.
O militante comunista que esteve até há pouco tempo entre nós, não era apenas aquele homem de carácter, profundamente humano e fraterno, corajoso e abnegado, era um homem perseverante que possuía ainda a serenidade dos combatentes de fortes e firmes convicções que se revelava quando era necessário enfrentar as condições mais adversas.
Revelou-o muitas vezes e, particularmente, na fuga do Forte de Peniche, em Janeiro de 1960, que protagonizou com mais nove camaradas, entre os quais Álvaro Cunhal. Fuga em que participou activamente na sua preparação, fazendo parte do organismo que a planeou e na superação das inesperadas e sérias contrariedades surgidas durante a fuga. Uma fuga que constituiu uma importante vitória do Partido e que muito vai contribuir para o reforço do seu papel na criação da situação revolucionária que se aproximava e do retomar da via do “levantamento nacional” para o derrube do fascismo.
Nos anos sessenta, esses anos do “Rumo à Vitória”, novas tarefas tomará em mãos. Este é um tempo de apontar novos caminhos, rectificar orientações, de desenvolvimento do movimento social de massas, visando um levantamento nacional contra o regime. Um tempo de crescimento e reanimação das forças democráticas. Um tempo marcado pelo ascenso da luta de massas. Um tempo em que se agudizam todas as contradições da ditadura.
Neste período, uma grande responsabilidade que toma é a tarefa que resulta da criação da Comissão Executiva do Comité Central de que Joaquim Gomes faz parte, então constituída para dar resposta aos problemas imediatos no interior do País, quando se tomou a decisão de salvaguardar a segurança do Secretariado, a partir do exterior. É Joaquim Gomes que faz a ligação do novo organismo ao Secretariado, num vaivém de passagens clandestinas na fronteira.
Retomará em diversos momento até ao 25 de Abril a responsabilidade por tipografias clandestinas, nomeadamente entre 1963 e 1965 e entre 1971 e 1974. Na actividade internacional integrará diversas delegações para conversações com partidos irmãos.
Quando o 25 de Abril chegou tinha também a seu cargo a responsabilidade da organização regional de Setúbal, acompanhando a partir dali, a organização do Alentejo.
Joaquim Gomes no seu percurso revolucionário assumiu as mais altas responsabilidades. Membro do Comité Central do PCP desde 1955, até ao XVI Congresso em 1996. Membro da Comissão Executiva, será depois membro do Secretariado e da Comissão Política até ao XIV Congresso, em 1992, altura em que foi eleito membro da Comissão Central de Controlo. Exerceu responsabilidades no âmbito das Comissões Administrativa e Financeira e do Património Central até ao fim da sua vida.
Participará nos mais importantes fóruns de decisão do Partido. É dele, sob o pseudónimo Ferreira, o informe ao V Congresso do PCP, sobre ”Os problemas da terra e a aliança da classe operária com os camponeses”. Participa e intervém no VI Congresso onde apresenta o Relatório sobre “os problemas de organização” e em todos os outros Congressos, enquanto foi membro da direcção do Partido.
Joaquim Gomes deu melhor de si à luta pelo derrubamento do fascismo e pela conquista da liberdade que chega com a Revolução de Abril.
Com a Revolução em marcha e no imediato assume a responsabilidade pela Direcção da Organização Regional do Oeste e Ribatejo que abrange os distritos de Leiria e Santarém e estará em todo o País, dando o seu contributo nas batalhas em defesa da Revolução nascente, das suas conquistas, da consolidação da democracia e depois na luta de resistência à ofensiva de recuperação capitalista e restauração monopolista. Numa fase posterior acompanhará também a D.O.R. de Setúbal.
Eleito deputado pelo Círculo Eleitoral de Leiria, logo em 1976 e até 1987 e ao mesmo tempo principal responsável por toda esta vasta Região, esteve sempre lá onde a vida o exigia e os problemas o convocavam, sempre solidário com as lutas dos trabalhadores, dos agricultores, das populações ou dando apoio ali onde surgia o novo pela acção dos trabalhadores ou do movimento popular, fosse nos campos do Ribatejo, onde a Reforma Agrária dava os primeiros passos com a formação de Unidades de Produção, nos portos de mar, onde a dinâmica do movimento cooperativo das pescas se afirmava com o envolvimento de centenas de pescadores, particularmente em Peniche, nas muitas empresas e nas inúmeras batalhas em defesa da produção e do emprego face ao boicote e sabotagem do patronato. Vimo-lo sempre atento, acompanhando directamente ou indirectamente as mais diversas e complexas situações, fossem as que resultavam da arrastada crise por que passou a cristalaria da Marinha Grande, procurando e incentivando à procura de soluções, fosse para responder aos atrasos e carências, com iniciativas de captação de investimento para o desenvolvimento regional.
No momento que evocamos a vida de Joaquim Gomes por ocasião do centenário do seu nascimento, não podemos deixar de lembrar a sua companheira de sempre, a mulher e revolucionária que foi Maria da Piedade Gomes, que no seu trajecto comum conhece a prisão e a violência policial fascistas que enfrenta com a dignidade e a coragem dos combatentes convictos e firmes. Funcionária do Partido clandestina durante 22 anos, com a sua saúde debilitada e a vida em perigo, é libertada em 1964 na sequência de uma campanha nacional e internacional de solidariedade. Libertada voltou à clandestinidade e ao trabalho militante que prosseguiu com grande dedicação até ao 25 de Abril de 1974 e depois continuou em tarefas de apoio ao Secretariado do Comité Central. De uma dedicação inexcedível, Maria da Piedade constitui uma referência e um exemplo da mulher comunista dedicada à causa revolucionária do seu Partido de sempre.
Joaquim Gomes deixou-nos em 20 de Novembro de 2010.
Modesto e discreto, Joaquim Gomes, era um patriota que serviu o seu povo e a sua pátria, mas orgulhoso de ser vidreiro, da sua Marinha Grande e da história heróica do seu povo, uma história que a sua vida de lutador incansável também dignificou.
Como salientou Álvaro Cunhal «as vidas dos revolucionários valem como sementes nas vidas dos povos». A melhor forma de homenagear e honrar a memória de Joaquim Gomes, e de tantos revolucionários comunistas, é continuar a luta pela qual deram o melhor de si e das suas vidas.
É continuar a luta pela afirmação e concretização de uma alternativa patriótica e de esquerda capaz de retomar os caminhos de Abril e reafirmar os seus valores e conquistas.
Homenagear e honrar a memória de Joaquim Gomes é continuar a luta por uma democracia avançada, parte integrante da luta pelo socialismo.
É levar cada vez mais longe e erguer cada vez mais alto o ideal da construção de uma terra sem amos, que Joaquim Gomes e Maria da Piedade Gomes abraçaram e dignificaram com uma vida de coerência, dignidade, de entrega desinteressada ao serviço de uma causa justa, neste Partido, com tudo o que ele comporta de aspiração, sonho e projecto por um mundo melhor.

8.793.(17mar2017.7.7.7") O Coro da Banda de Alcobaça

12mar2013
nasceu o Coro
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Em 2017
A Vera Santos é que rege o coro E ESCREVEU NO FACE:
"Na semana passada o Coro da Banda de Alcobaça celebrou o seu 4º aniversário. QUARTO!!
É um orgulho enorme fazer parte deste grupo fantástico e vê-lo crescer todos os dias. 
Obrigada a todos os que estiveram, aos que estiveram no nosso pensamento e a festejar à distância e a todos os amigos que demonstram sempre um grande carinho pelo Coro. 
Beijinhos a todos e vamos a mais um grande ano!!"
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Festejaram o 4.º aniversário:
Foto de Vera Santos.
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Foto de Vera Santos.
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10211618175625059&set=pcb.10211618202345727&type=3&theater
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assisti a 1 excelente concerto do Coro e Banda Filarmónica da Maiorga
Até recomendei ao P.Câmara que fizesse 1 contrato com as 2 instituições e fizesse repetir este concerto em 5 salas de espectáculos por todo o concelho...
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6.326.(17mar2017.13.33.31") Os 10 mandamentos

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17mar2017
hj fui à missa do funeral da Dona Eduarda, uma ex-trabalhadora da Câmara, uma extraordinária mulher da Cela Velha, esteve quase a ser Professora Regente da Escola Primária, depois cantava no Rancho Papoilas do Campo, d' ALCOBAÇA QUE VOS ABrrAÇA, uma utente do 1.º dia do Centro de Dia e do lar do CCCela...Vou fazer uma postagem dedicada a esta mulher...Entretanto, o Sr. padre fez a interpretação dos textos do dia...Lembrou-me a história de José, o que foi escravizado pelos irmãos e que depois se tornou poderoso junto do faraó...A estória dos 10 mandamentos... Justifica 1 reCORdar...
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o filme

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Jean-Michel Trauscht
http://super.abril.com.br/historia/os-dez-mandamentos-a-verdadeira-historia-de-moises/
Diz a Bíblia: “E em Israel nunca mais surgiu um profeta como Moisés, a quem o Senhor conhecia face a face”. Esta frase está no último capítulo do livro do Deuteronômio, logo após a narrativa da morte do herói. Tamanha intimidade com Deus teria permitido que o líder israelita visse o próprio Criador (ainda que não o rosto divino, que não podia ser vislumbrado) e recebesse das mãos dele as tábuas com os Dez Mandamentos, a base da legislação sagrada que judeus e cristãos veneram até hoje. De quebra, segundo a tradição judaica, os cinco primeiros livros da Bíblia, que compõem a parte mais sagrada do Velho Testamento, seriam obra de Moisés.    
Só tem um problema: descobertas de historiadores e arqueólogos têm lentamente desmontado a saga de Moisés. O libertador dos israelitas talvez seja uma figura quase tão mitológica quanto Daenerys Targaryen, a heroína de Guerra dos Tronos. É verdade que um líder tribal chamado Moisés, ou algo parecido, pode até ter existido há 3 mil anos, mas basicamente nenhum feito atribuído a ele passa pela peneira do escrutínio histórico. Por outro lado, a saga que está na Bíblia não surgiu do nada. Ela é fruto de um longo processo histórico, que culminou na criação do monoteísmo. Essa saga, embora não contenha milagres e talvez seja complexa demais para virar novela, é tão fascinante quanto a narrada pelo Livro Sagrado. Vamos a ela.
A primeira pista para dissecarmos a verdadeira origem da lenda de Moisés está no nome dele e de seus parentes. Apesar de, segundo a Bíblia, todos eles serem israelitas, seus nomes não são em hebraico, a língua desse povo. As denominações “Moisés”, “Aarão” (seu irmão) e “Fineias” (seu sobrinho-neto) são derivadas do idioma egípcio.
“Moisés”, por exemplo, tem a mesma origem que as terminações dos nomes dos faraós Ramsés e Tutmósis. Os três derivam do egípcio antigo “msézs”, que significa “filhos de” – Ramsés, portanto, quer dizer “filho do deus Ra” (faraós não eram modestos). “No caso de Moisés, falta o nome da divindade da qual ele seria considerado filho”, destaca o teólogo Leonardo Agostini Fernandes, especialista em Antigo Testamento da PUC-RJ. Ou seja: o nome “Moisés” estaria para o nome “Tutmósis” assim como “son” está para “Anderson”. Não é um nome, mas um sufixo, que nem faz sentido sem o devido prefixo. Isso pode significar, primeiro, que o herói é completamente lendário. Segundo, que seus criadores queriam dar ao personagem um nome que soasse egípcio (já que o Egito era a grande potência da época), mas erraram a mão por não conhecerem bem a língua estrangeira. Mais ou menos como acontece hoje com quem batiza o filho como “Maicon”.
Mas por que inventar um personagem de nome “egipciado”, e não israelita (como seria se ele se chamasse “Saul” ou “Isaías”)? Provavelmente por causa do domínio que o Egito exerceu sobre vastas áreas do Oriente Médio no período final da Idade do Bronze (de 1500 a.C. até uns 1200 a.C.). Nessa época, boa parte dos territórios atuais de Israel, Palestina, Jordânia, Líbano e Síria não passavam de províncias egípcias, controladas pelos faraós com o auxílio de nobres vassalos das cidades-Estado da região.
Entre 1200 a.C. e 1100 a.C., porém, o império egípcio desmoronou – o motivo mais provável é que uma mudança climática tenha causado um período de fome, desestabilizando o Estado. E olha só: exatamente nessa época, como  arqueólogos do século 20 descobririam, surgiu uma nova onda de assentamentos nas montanhas de Canaã: seriam os primeiros vilarejos israelitas, levantados no vácuo de poder que instalou-se em Canaã com o fim do domínio dos faraós. Essa comunidade, como qualquer agrupamento humano, tinha suas histórias – lendas para serem contadas em volta da fogueira. Uma dessas lendas provavelmente envolvia rebeldes egípcios que ajudaram a fundar a própria comunidade na periferia dos domínios faraônicos, conforme o governo se desmantelava. As  figuras lendárias de Moisés (e de Aarão, e de Fineias) teriam nascido nesse momento de transição, como personagens de histórias orais, que cresciam e se multiplicavam de fogueira em fogueira, enquanto a comunidade israelita se firmava numa Canaã agora livre do jugo egípcio.
Quem conhece a Bíblia sabe que essa é uma realidade bem diferente da registrada ali. Só para recapitular: no Livro Sagrado, a comunidade israelita começou como uma família, por volta de 1900 a.C., cujo patriarca era justamente um homem chamado Israel (e nascido com o nome de Jacó). No fim da vida, Jacó/Israel sai de Canaã com seus filhos e netos. Sai para morar no Egito, onde José, outro de seus 12 filhos, é uma espécie de primeiro-ministro. A família cresce nos séculos seguintes até se tonar uma nação de mais de 1 mihão de indivíduos, encravada em pleno Delta do Nilo, bem longe de Canaã.
Essa nova nação, diz o texto bíblico, acaba escravizada pelos egípcios. Então surge Moisés, um descendente de Jacó que crescera como príncipe na corte egípcia. Ele liberta seu povo e termina guiando-o para Canaã, a terra que Jacó e seus filhos tinham deixado para trás 400 anos antes – a mesma terra que, lá atrás, tinha sido prometida por Deus a Abraão, avô de Jacó.
Na vida real, como a arqueologia deixa claro, não foi bem isso: a nação de Israel surgiu a partir de tribos que sempre haviam morado em Canaã mesmo. Eles eram cananeus da gema. Nunca, jamais, moraram no Egito. Muitos cananeus proto-israelitas (cujos netos e bisnetos formariam o povo de Israel lá na frente) certamente foram escravos de egípcios – inclusive dentro de Canaã, já que esse era o destino de vários habitantes de regiões dominadas. Daí teria surgido a história de que toda a comunidade israelita formou-se como nação enquanto era escrava.    
Mario Liverani, arqueólogo da Universidade La Sapienza, em Roma, é um dos pesquisadores que defendem essa tese. Seu ponto de vista é o seguinte: com o passar dos séculos, as sagas sobre a libertação do jugo egípcio dentro da Terra Prometida passaram a ser contadas como uma fuga épica do Egito para a Terra Prometida. Simples assim.  
Outra certeza dos historiadores é que Moisés não escreveu o quinteto inicial de livros bíblicos – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
As pistas a esse respeito são diversas, a começar pela presença de várias narrativas diferentes, e muitas vezes contraditórias, do mesmo evento nos livros supostamente mosaicos. Há, por exemplo, três versões diferentes dos Dez Mandamentos (veja nos boxes ao longo desta reportagem). Como ninguém imagina que Moisés andava se esquecendo das coisas e escrevendo a mesma história diversas vezes, com variações, a hipótese dominante desde o século 19 é que vários textos antigos foram costurados e editados para produzir o Pentateuco, os “cinco livros de Moisés”, que os judeus chamam de Torá.
Mais: todos os textos do Livro Sagrado foram escritos séculos depois do suposto Êxodo do Egito, que teria começado em 1446 a.C., segundo a cronologia bíblica. A redação dos primeiros textos data de, no mínimo, 800 a.C., época em que os israelitas já formavam uma sociedade próspera e organizada – ou seja, com exércitos, sacerdotes, escribas, burocratas; o único tipo de ambiente capaz de produzir obras literárias complexas. Essa fase teria começado quando uma dúzia de tribos se uniu nas montanhas de Canaã para formar um Estado propriamente dito, o reino de Israel. Em poucas gerações, porém, essa nação acabou dividida em duas: as rivais Judá, no sul de Canaã, e outra, ao norte, que manteve o nome antigo (Israel). A capital de Judá era Jerusalém, a cidade mais importante do reino original. Já os monarcas de Israel ( “Israel 2”, no caso) viviam na luxuosa Samaria.    
Seja como for, os habitantes dos dois reinos podem ser chamados de “israelitas”. E foram os reis, sacerdotes e escribas israelitas, tanto de Judá como de Israel, que colocaram no papiro as histórias de beira de fogueira que seu povo contava desde 1200 a.C., 1100 a.C. Essas histórias, diga-se, se tornariam a coluna vertebral do maior best-seller de todos os tempos, a Bíblia.
Mas não foram só lendas que entraram ali. Os textos da Bíblia, afinal, também funcionavam como uma Constituição para os israelitas. Segundo o que foi escrito no Livro Sagrado, Moisés recebeu das mãos de Deus a parte mais importante dessa Constituição – os Dez Mandamentos. Mas, se Moisés provavelmente é um personagem fictício, e a hipótese de que Deus escreveu Ele mesmo os Mandamentos, como está na Bíblia, é questão de fé, não de história com “H” maiúsculo, nos resta uma pergunta:
Quem escreveu os Dez Mandamentos? Boa parte da lista dos Dez Mandamentos – “Não matarás”, “Não cometerás adultério”, “Não roubarás” – provavelmente é bem mais antiga que a Bíblia, já que nenhuma sociedade consegue funcionar sem esse tipo de regra. Mas a forma definitiva das leis é bem mais recente.
Quase todos os especialistas concordam hoje que a versão mais antiga dos Dez Mandamentos é a que consta no capítulo 5 do Deuteronômio, livro bíblico “publicado” pela primeira vez em 622 a.C. Nesse ano, segundo o Antigo Testamento, um texto conhecido simplesmente como o “Livro da Lei” ou “Livro da Aliança” foi descoberto dentro do Templo de Jerusalém e levado até Josias, rei de Judá.
De acordo com a Bíblia, essa obra seria a compilação original das leis dadas por Deus a Moisés, que teria ficado esquecida por séculos. De acordo com a maior parte dos pesquisadores, essa obra é o livro bíblico hoje conhecido como Deuteronômio.
Trata-se de um livro que contém vários discursos atribuídos a Moisés. Ali, o líder lendário do passado recita as centenas de leis tradicionais da comunidade israelita; as Leis de Moisés, entre as quais estão os Dez Mandamentos.
Ao tomar conhecimento do conteúdo do “Livro da Aliança”, diz a Bíblia, Josias ficou transtornado por perceber que seu povo não estava seguindo as leis divinas escritas ali. Não que Judá tivesse se convertido numa terra de adúlteros, ladrões e assassinos. Mas uma coisa era fato: enquanto o Livro da Lei falava o tempo todo que só existe UM Deus, Iahweh, e que cultuar outras divindades era um crime mortal, Judá era uma nação politeísta. Iahweh até era o deus principal. Mas tratava-se de apenas uma divindade em meio a tantas outras.   
Josias, segue a versão bíblica da história, iniciou então um projeto ambicioso de reforma religiosa. Primeiro, fez uma leitura pública do livro sagrado para todos os moradores de Jerusalém, para mostrar que Moisés em pessoa, o maior personagem das lendas israelitas, repudiava o politeísmo. Depois destruiu as estátuas de deuses pagãos, que existiam no próprio Templo de Jerusalém, o santuário de Iahweh.
Ele ainda eliminou os altares tradicionais na zona rural, onde sacrifícios costumavam ser feitos a Iahweh. Dali por diante, a adoração ao deus dos judeus, aquele que séculos mais tarde se tornaria o Deus com “D” maiúsculo dos cristãos e muçulmanos, ficaria totalmente centralizada no Templo em Jerusalém. A Bíblia, por fim, elogia esse conjunto de medidas com toda a pompa: “Não houve antes dele rei algum que se tivesse voltado, como ele, para Iahweh, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força, em toda a fidelidade à Lei de Moisés; nem depois dele houve algum que se lhe pudesse comparar.”
Só para lembrar: a história de Josias até aqui é a que está na Bíblia. Mas a verdade histórica sobre ele, ao que tudo indica, é outra, a que vamos ver daqui em diante. Para começar, a semelhança desse elogio bíblico com o que o Deuteronômio diz sobre Moisés no início desta matéria não é mera coincidência. É que, justamente na época de Josias, o Egito voltava a fincar garras em Canaã, coisa que não acontecia desde a fundação das primeiras comunidades israelitas, aquelas que contavam histórias sobre rebeldes libertadores em volta da fogueira, 600 anos antes de Josias.
De volta para o futuro. Os egípcios começam a avançar sobre Canaã na condição de aliados do Império Assírio, uma potência da Mesopotâmia (atual Iraque) que há séculos infernizava a vida dos israelitas. Em 722 a.C., os assírios haviam destruído o reino de Israel e anexado seu território. Nas décadas seguintes, chegaram perto de destruir Judá. O  reino acabou poupado.
Mas Josias agora temia pelo futuro de Judá. Sob a pressão de egípcios e assírios, seu reino poderia ter o mesmo destino daquele reino de Israel original, que acabou dividido. Sem falar que Judá era pequena até para os padrões da Antiguidade. Com área um pouco maior que a da região metropolitana de São Paulo, o reino não resistiria se perdesse a unidade política. Viraria parte do Egito, ou da Assíria, e terminaria sua odisseia na Terra, como já tinha acontecido com tantos povos e culturas do Oriente Médio.
Mas Josias tinha um plano. Para dar a unidade que ele imaginava necessária ao seu reino, o soberano adotou uma ferramenta inédita: proibir o culto a deuses estrangeiros. Só Iahweh, o deus nacional, poderia (e deveria) ser cultuado. Era uma forma eficaz de evitar influências de fora, que eventualmente poderiam rachar a nação.
Até porque, pelo que a arqueologia revela, os israelitas sempre tinham acreditado em vários deuses. É o contrário do que diz a Bíblia, já que ali o monoteísmo começa bem antes, com Abraão, o avô de Jacó, e sofre apenas alguns “soluços” de politeísmo. Mas não: além de Iahweh, os israelitas cultuavam Baal, Asherah, El… – deuses que faziam parte da mitologia de Canaã desde mais ou menos 2000 a.C.    
Josias, então, decide banir essa democracia ritualística com o propósito de fortalecer a unidade nacional. Como? Anunciando que encontrou um certo “Livro da Lei” perdido no Templo, um documento com quase mil anos de idade, contendo a palavra de Moisés, em pessoa. Um documento com o líder mais legendário ditando as leis “originais” dos Filhos de Israel. Na prática, aquilo servia como se fosse a Bíblia inteira, já que o Livro Sagrado, até onde se sabe, ainda não existia na forma como o conhecemos.
Na opinião de boa parte dos historiadores, essa forma final começava a nascer ali, sob a pena de Josias. O rei teria escrito ele mesmo (com a ajuda de sacerdotes e escribas) o “Livro da Lei”. Ele seria, então, o autor dos Dez Mandamentos. Ele teria criado a história na qual Moisés recebe as tábuas das mãos de Iahweh.
Agora, vamos convir: se você fosse um israelita típico, ficaria muito, muito tentado a obedecer essas leis. Nada podia ser mais fenomenal, mais sagrado, do que palavras escritas pelo deus nacional e entregues para o herói nacional, o homem que libertara seu povo da escravidão séculos atrás.
E, se você decidisse seguir mesmo essas leis, estaria fazendo exatamente o que Josias tinha imaginado: abandonaria seu politeísmo. Sim, porque, dos Dez Mandamentos, nada menos que três são ordens para desistir de uma vez por todas de venerar outros deuses. Tudo para não deixar a menor dúvida sobre o que significava ser um morador de Judá. Para aglutinar ainda mais a população, Josias implementou outra medida: o culto a Iahweh só poderia acontecer no Templo de Jerusalém. E uma nova religião nascia ali, em Judá: o judaísmo.
O “Livro da Lei” de Josias acabaria dando novas cores à história de Moisés. Agora o líder do passado não seria tratado apenas como libertador, mas também como legislador. O Pentateuco terminaria de ser escrito no século seguinte. E trechos do “Livro da Lei” iriam parar no futuro livro do Êxodo, que contaria a história de Moisés do jeito que ela é conhecida hoje – com a cestinha no Nilo, a abertura do Mar Vermelho (que provavelmente já era a lenda oral mais antiga dos israelitas) e, para fechar com chave de ouro, os Dez Mandamentos. A continuação da saga também ganharia sua forma final, com Josué, sucessor de Moisés, finalmente guiando o povo de Deus para dentro da Terra Prometida. Tudo numa grande ofensiva militar contra as cidades cananeias (e politeístas) da região. O ápice cênico, aliás, é a conquista da cidade murada de Jericó (veja na página ao lado) – outra história bíblica desmentida pela arqueologia, já que não havia uma cidade grande com muralhas na região quando Josué teria vivido.
Outro episódio marcante que a historiografia ajuda a descortinar é aquele que envolve um certo bezerro de ouro. A narrativa bíblica diz que Moisés passou 40 dias e 40 noites recebendo instruções de Deus no alto do Monte Sinai. Cansados de esperar o profeta, os israelitas teriam pedido a Aarão, o sacerdote do Êxodo: “Faze-nos um deus que vá à nossa frente”. Usando milhares de brincos de ouro, Aarão forjou então a estátua de um bezerro e construiu um altar diante dela, no qual foram oferecidos sacrifícios.
Essa história também teve uma inspiração clara na vida real. É que outra figura do passado israelita era fã de bezerros de ouro. Trata-se de Jeroboão, primeiro monarca de Israel, o reino do norte, que mandou construir duas dessas estátuas, uma em Betel outra em Dan, uma em cada ponta de seus domínios. A ideia era rivalizar com o Templo de Jerusalém, em Judá.
É óbvio que o reino do sul não gostou da ideia. Tanto que, durante sua reforma religiosa, Josias fez questão de visitar Betel (que a essa altura pertencia oficialmente à Assíria, após o fim do reino de Israel) e destruir o altar-bezerro construído por Jeroboão.
Moral da história: a narrativa sobre o bezerro no Êxodo também teria sido retrojetada – ou seja, inserida no passado – para justificar uma ação que Josias tomou na vida real.
Só tem um problema: a Judá forte e unida forjada por Josias não se mostrou um projeto bem-sucedido. A Assíria tinha sido ela própria dominada por outro reino da Mesopotâmia, por volta do ano 600 a.C.: o da Babilônia. Judá, então, virou um mero peão no jogo de xadrez entre a agora poderosa Babilônia e sua eterna pedra no sapato, o Egito. Josias morreu com Judá ainda de pé. Mas seus sucessores, sem grande habilidade diplomática, tomaram decisões que levaram à destruição do reino – e à deportação de milhares de membros da elite judaica para a Babilônia, em 586 a.C.
O que a história de Moisés tem a ver com isso tudo? Bem, 50 anos após o fim do reino de Judá, as famílias dos deportados foram autorizadas a voltar para casa e reconstruir Jerusalém. Como os israelitas do Êxodo, tiveram de atravessar o deserto no caminho para a terra natal.
Talvez seja por isso que, no Deuteronômio, Moisés morra pouco antes de seu povo adentrar a Terra Prometida. Na versão final do livro, redigida pelos exilados que estavam voltando, Moisés sai de cena sem o prêmio de colocar os pés em Canaã. E fica a mensagem: a vida do libertador não precisava disso para fazer sentido. Tudo já tinha valido a pena.
Essa característica inspiradora, de certa forma, ajuda a explicar o poder que a saga tem até hoje. A jornada árdua pelo deserto rumo à liberdade motivaria vários outros povos a enfrentar seus próprios “faraós”. É o caso dos responsáveis pela declaração de independência dos EUA, no século 18, que construíram a primeira democracia depois da Grécia Antiga. Os revolucionários ali quase transformaram a imagem de Moisés abrindo o Mar Vermelho no brasão de seu país.
É isso. Acredite você ou não que a história de Moisés foi escrita sob inspiração divina, o fato é que isso não muda em nada a força da mensagem que está ali. Uma mensagem de superação e de luta por liberdade que moldaria a história do mundo séculos mais tarde. E que continua viva e influente, milênios depois de todos os impérios da Antiguidade que oprimiam a pequena Judá terem virado pó. Parabéns, Josias. Você venceu.

Bezerro sagrado

O bezerro de ouro não é exatamente um símbolo de idolatria. Ele ilustra a rivalidade entre Israel e Judá. Em Israel, bezerros dourados adornavam altares a Iahweh. Isso representava concorrência ao Templo de Jerusalém, que ficava em Judá. Como a Bíblia é em grande parte uma obra de Judá, o bezerro surge ali como o cúmulo da heresia.

Cabeça quente

Ao testemunhar o episódio de adoração ao bezerro de ouro, Moisés perde a cabeça e quebra as tábuas onde estão gravados os Dez Mandamentos, diz o capítulo 34 do Êxodo. Iahweh repõe o material destroçado, produzindo uma segunda versão. Só que esta surge bem diferente da primeira, como você pode ver no texto acima. Ou seja: na vida real, cada lista provavelmente foi escrita por um autor distinto, com décadas, ou séculos, de intervalo.

Dois templos, uma medida

Quase todos os fatos da vida de Moisés são episódios retrojetados – inseridos no passado para justificar ou sacralizar atos realizados no presente (o presente dos autores da Bíblia). É o que acontece no caso do Tabernáculo, o santuário portátil que, segundo o Livro Sagrado, os israelitas usaram nos 40 anos que passaram no deserto. A Bíblia diz que o Templo de Jerusalém foi inspirado nele. A verdade provavelmente é o oposto: o Tabernáculo seria uma obra de ficção inserida no passado para sacralizar ainda mais o Templo de Jerusalém.

Cenas dos próximos capítulos

Logo após a narrativa do Êxodo, vem outra, a da Conquista da Terra Prometida – que começa com a queda das muralhas de Jericó ao som de trombetas. O episódio da Conquista também não tem base histórica, e provavelmente foi criado entre o reinado de Josias e o exílio na Babilônia.

15/03/2017

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5.594.(15mar2017.7.7') Mafalda a constestatária...Quino...

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Mafalda nasceu a 15mar1962
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Quino nasceu a 17jul1932, em Guaymallén
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Joaquín Salvador Lavado Tejón 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Quino
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breve biografia de Quino
filme:
https://www.youtube.com/watch?v=YO4vNd4iq6A
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«Não é necessário dizer tudo o que se pensa; o que sim é necessário é pensar tudo o que se diz.»
Malfalda - Muda, Surda, Cega
«Já que amar-nos uns aos outros não dá certo, por que não tentamos amar-nos os outros aos uns?»
Mafalda - Crise (Português)
Quino por ele mesmo
Quino Mafalda
http://www.mibuenosairesquerido.com/pt/personalidades-argentinas/quino-mafalda/
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http://ensina.rtp.pt/artigo/mafalda-a-menina-contestataria-da-banda-desenhada/





De dedo em riste, Mafalda questiona o mundo e as perguntas que faz deixam-nos a pensar e a rir. Porque esta menina de cabelo farto e negro é refilona, irreverente, perspicaz, pessimista, inteligente. Odeia sopa e adora os Beatles. Afinal, tem só seis anos.

As tiras de Mafalda não são para miúdos. Porque, nestas histórias construídas em quadradinhos, a menina de seis anos fala sobre assuntos de gente grande, com um discurso assertivo e incómodo. Preocupada com o futuro do planeta e defensora dos direitos das crianças, a personagem saiu da gaveta do seu criador em 1964 para se transformar numa heroína da banda desenhada.
Devemos esta pequena contestatária a um argentino de Buenos Aires, cartoonista e filósofo, Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido por Quino. No início dos anos sessenta foi-lhe encomendada uma tira cómica para publicitar eletrodomésticos. Sem poder imaginar o tamanho do sucesso, desenhou uma menina com farta cabeleira negra e os pais, uma típica família da classe média.
Mafalda nasceu a 15 de março de 1962, mas não estava destinada a vender artigos para o lar e foi recusada. Dois anos depois saltou para as páginas do semanário “Primera Plana”, a comentar os grandes temas da atualidade do seu país e do mundo. As perguntas que faz e as suas frases exemplares como “Parem o mundo! Quero sair.” ou “A sopa é para a infância o que o comunismo é para a democracia”, cativaram de imediato os leitores. Depressa é publicada em livros de capa grossa na América Latina, na Europa e noutros cantos do planeta, em crescente popularidade.
Nos anos seguintes, Mafalda ganha um irmão e novos amigos, personagens que se tornam também elas uma referência e que vão desafiar a inteligência da pequena refilona com preconceitos e conservadorismos: Susaninha, que tem como objetivo de vida casar com um homem rico, Manolito (Manuelinho, em português), que só pensa em fazer negócio na mercearia do pai, o tímido Filipe, o ingénuo Miguelito, a diminuta Liberdade, assumida revolucionária, filha de hippies. E uma tartaruga, apropriadamente chamada Burocracia.
Em julho de 1973, ao fim de mais de 3 mil tiras, Quino desistiu do universo Mafalda para evitar a rotina e poder dedicar-se ao desenho de humor e à caricatura. A menina só reaparece em algumas campanhas de beneficência e em desenhos animados mas nunca em filmes, porque o autor rejeitou sempre as propostas da indústria cinematográfica. Certo é que as emblemáticas  histórias continuam atuais e são constantemente reeditadas, servindo de leitura a sucessivas gerações. O  humor inteligente desta menina zangada com o mundo, chegou a Portugal em 1970. E por cá continua até hoje.

***
2014
Via JN
Contestatária, refilona, pessimista. Mafalda, a personagem de banda desenhada criada pelo argentino Quino, celebra 50 anos, desde que apareceu no jornal "Primera Plana". Em Portugal, a data é assinalada com uma nova edição de todas as tiras humorísticas.
Apesar de ter sido criada em 1962, para a promoção de uma gama de eletrodomésticos, a famosa personagem de banda desenhada só apareceu pela primeira vez - carrancuda, com farta cabeleira negra - a 29 de setembro de 1964, no semanário argentino Primera Plana.
Filha de uma família da classe média argentina, Mafalda questiona a Humanidade e a existência da sopa, de dedo em riste e quase sempre com um ar preocupado. Uma "heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é", descreveu Umberto Eco em 1969.
Quino (Joaquin Lavado) foi publicando as tiras de BD da Mafalda - e de uma galeria de personagens que inclui Manelito, Filipe, Susanita, Miguelito, Liberdade e uma tartaruga chamada Burocracia - ao longo de nove anos e em vários jornais, ao mesmo tempo que mantinha o trabalho no desenho gráfico de humor.
Contra a maré de sucesso, o autor decidiu não mais publicar as tiras semanais a 25 de Junho de 1973, abrindo exceções para pedidos especiais, como quando desenhou Mafalda, em 1977, para uma campanha da UNICEF para os direitos das crianças.
Hoje, aos 82 anos, Quino sublinha que já desenhou tudo o que tinha a desenhar sobre Mafalda. Fica a obra, que, apesar de uma ou outra ruga da passagem do tempo, continua atual porque "o mundo é o mesmo".
Cinquenta anos depois, Mafalda continua menina e refilona e pode ser lida em "tablets" e telemóveis, está no Facebook, no Twitter e no Instagram e traduzida em vinte línguas.
Em Portugal, Mafalda foi publicada pela primeira vez em 1970 e desde então saíram vários álbuns e edições especiais.
Em outubro, a Verbo lançará "Toda a Mafalda - Edição comemorativa dos 50 anos", que inclui as tiras de BD, artigos de opinião e textos que enquadram a obra de Quino e que abordam a edição em Portugal, explicou à Lusa Maria José Pereira, daquela editora.
O livro, com 600 páginas, contará ainda com uma biografia atualizada de Quino, que inclui já o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, conquistado em maio.
"A Mafalda é uma personagem dos anos 1960/1970, de um contexto histórico inegável, mas está muito atual, porque as questões são as mesmas, os países são os mesmos. As preocupações não mudaram", disse Maria José Pereira.
Apesar de Quino ter estado várias vezes em Portugal, a editora não se recorda de Quino ter feito referências ao país na sua obra.
Em abril em Buenos Aires, Quino afirmou que o seu desejo é que as novas gerações entendam - tal como há 50 anos - a mensagem da banda desenhada da Mafalda. "Que os seres humanos se entendam melhor e nos deixemos de tratar tão mal o planeta".


Leia mais: Mafalda, a "heroína zangada", celebra 50 anos http://www.jn.pt/artes/interior/mafalda-a-heroina-zangada-celebra-50-anos-4148351.html#ixzz4bO8XqWCQ 
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via Marisa Roxo
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Via Cristina Franco
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Foto de Cristina Franco.
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