29/09/2014

8.807.(29set2014.8.8') Bernardo Santareno

Nasceu a 19nov1920
e morreu a 29set1981
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O nome dele: António Martinho do Rosário.
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24NOvemBRO2017
JORNAL i
Primeira figura da dramaturgia portuguesa do século XX, o autor de “O Judeu” é hoje um dramaturgo pouco lembrado, lido e representado, apesar da invulgar actualidade das problemáticas ideológicas e sexuais que explorou nas suas peças. Faria hoje 97 anos. 

Bernardo Santareno, hoje uma dessas referências sem corpo que o ouvido apanha um pouco ao acaso e a memória guarda sem vontade, é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário, médico psiquiatra de profissão, a auxiliar o escritor no tratamento dramático de conflitos agudos, não raro resolvidos numa liturgia trágica de sangue, angústia e desespero, onde ressoa o modelo grego, adaptado à sociedade portuguesa. No nome literário reunia, aos trinta anos e num livre arbítrio pelo qual sempre se bateu, o desejo de ascese, dirigido ao cidadão comum que só aparentemente era, e o de ficar ligado à sua terra natal: Santarém.
 Com esse nome começou por assinar três livros de poesia em edição de autor: A Morte na Raiz (1954), Romances do Mar (1955) e Os Olhos da Víbora (1957), a anunciarem algumas das temáticas e das tensões preferenciais da sua obra dramática. Muito embora o lirismo não seja uma faceta a desprezar na sua obra, foi, no entanto, como homem de teatro que Bernardo Santareno se impôs. A «narrativa dramática» O Judeu (1966), que transparentemente punha em causa o fascismo e apelava para a necessidade de o subverter, constitui um marco no panorama do teatro português contemporâneo, saudado à época como uma revolução.
Português, Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade. Assim se autobiografava, num despojamento de si próprio, em Março de 1974, volvendo dessa altura da vida o olhar ao caminho andado. Tinha então 54 anos e um público sentido sobretudo com a imaginação, devido à acção vigorosa da censura: vigiando conteúdos e formas, proibindo, amputando, examinando previamente os espectáculos teatrais, consumindo a energia criadora, demovendo de criar.
Neste drama, de clara textura biográfica, inverte Santareno o tom predominante do teatro épico de matriz brechteana a que habituara o público (sobretudo o público leitor de teatro) e aproxima-se da descrença, indivisivelmente individual e geracional. A personagem «Escritor», sempre insubmissa, vinha a palco, não para recolher os aplausos a que teria direito como primeira figura da dramaturgia do século XX portuguesa e intelectual empenhado com larga intervenção política, mas para anunciar a tragédia da desistência – do teatro e da vida, corporizando o sentimento de angústia e de desespero que se apossara dos nossos dramaturgos: «assim temos vivido em Portugal. Tenho quarenta e cinco anos de idade e... estou farto, cansado, já não acredito em nada. Estou desesperado, a vida dói-me horrivelmente. Perdi tudo [...]. Esperança, progresso, luta, futuro, beleza, camaradagem, povo, juventude ... São papéis rasgados para mim.»
 Não seria esta a sua última peça, mas, por assim dizer, a derradeira – a 14ª estação de uma via sacra que a crítica habitualmente reparte por dois ciclos criativos: o primeiro, de estrutura dramática tradicional, com um forte apelo genuinamente popular, inicia com A Promessa, publicada em 1957 juntamente com O Bailarino e A Excomungada, a confirmarem ambas uma arte voltada para a exploração das forças irracionais, e prossegue com O Lugre (que recolhe a sua experiência como médico embarcado na frota bacalhoeira), O Crime da Aldeia Velha (1959), António Marinheiro, Édipo de Alfama(1960), Os Anjos e o SangueO DueloO Pecado de João Agonia (todas de 1961), Anunciação (1962). Menos extenso é o segundo ciclo, começado com O Judeu, depois de uma pausa em que contacta com novas sintaxes teatrais.  Prossegue com O Inferno(1967), A Traição do Padre Martinho (1969) e o drama-meditação final Português, Escritor, 45 Anos de Idade (1974), onde sentimos detonar a explosão da sua própria vida.
Após o 25 de Abril de 1974 escreve ainda uma série de peças curtas reunidas sob o título Os Marginais e a Revolução (1979) e continua a sua intervenção em entrevistas, prefácios, artigos de teorização de reconhecido mérito, dispersos por publicações periódicas. O autor de António Marinheiro morre em 1980, longe do porto a que apontou. O foco tombava então sobre o trágico vazio deixado. Obscuridade súbita no teatro e na cena cultural portuguesa. Ainda o fascismo e as suas mil maneiras de matar.
O Punho, localizado no terreno conflitivo da Reforma Agrária e que vem a sair em 1980, logo após a sua morte, adquire assim o significado de testamento espiritual.
Reunida em quatro volumes, a sua obra está editada pela Editorial Caminho. Aguarda (re)leituras e adaptações. 
https://ionline.sapo.pt/589616?source=social
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Bernardo Santareno
via Instituto Camões
http://cvc.instituto-camoes.pt/pessoas/bernardo-santareno.html#.VClcKGddV1Y
Textos de/para teatro
1957: Teatro: Vol. I: A promessa, O bailarino, A excomungada.
1959a: O crime da Aldeia Velha.
1959b: O lugre.
1960: António Marinheiro (o Édipo de Alfama).
1961a: Os anjos e o sangue.
1961b: O duelo.
1961c: O pecado de João Agonia | Irmã Natividade.
1962: Anunciação.
1966: O Judeu.
1968: O inferno.
1969: A traição do Padre Martinho.
1974: Português, escritor, 45 anos de idade.
1974: Os vendedores de esperança.
1974: A guerra santa e O milagre das lágrimas.
1974: O Senhor Silva (renomeado primeiro Na berma da estrada e, mais tarde, Monsanto.
1979: Os marginais e a revolução: Restos, A confissão, Monsanto, Vida breve em três fotografias.
1980: O punho.

SANTARENO, Bernardo (1984-1987). Obras completas (org. Luiz Francisco Rebello). Lisboa: Caminho, 4 volumes.
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biografia via Portal da Literatura
http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=224
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SOBRE A PEÇA O judeu
http://estudoslusofonos.blogspot.pt/2012/04/bernardo-santareno-o-judeu.html
(...)
O Judeu é uma narrativa dramática em 3 actos, publicada em 1966 e estreada em 1981 no D. Maria II, com encenação de Rogério Paulo. Generalizadamente considerada como uma obra maior de todo o teatro português, retrata o calvário do dramaturgo setecentista António José da Silva, queimado pelo Santo Ofício em 1739.António José da Silvaautor de comédias e óperas, nasceu em 1705 e ganhou popularidade com o teatro de bonifrates, uma imitação jocosa da ópera italiana muito popular na época. O carácter satírico das suas peças irritou um Santo Ofício dedicado a combater o Iluminismo e o racionalismo com autos de fé, aos quais o povo fantizado assistia como a um espetáculo.
A peça começa com um António José da Silva, filho de judeus e cristão-novo, com 21 anos de idade e estudante de Direito, a viver com receio de ser torturado e encarcerado pela Inquisição, algo que acontece logo no início da obra, com um auto-de-fé, onde o protagonista, sua mãe, Lourença Coutinho, e outras pessoas ouvem o seu julgamento e os insultos do povo. Será um auto de fé no qual destaca a retórica manipulatória do sermão do sacerdote convidado. Esta manipulação e intolerância caracterizam um Portugal obscurantista, o qual, ao longo da peça, será ironizado e criticado pelo Cavaleiro de Oliveira, um escritor português que se refugiara no estrangeiro para fugir à Inquisição e que tem a função de narrador-comentador. Esta personagem estabelece a ligação com o público e até invoca diretamente o público português do momento como "sombras fugidias da esperança e do temor". O Cavaleiro defende constantemente a inocência de António e critica a situação do país:

“Que Portugal seja um relógio, em muitos anos atrasado da hora que segue a Europa civilizada […] Quando toda a Europa esquecendo vai já o repugnante pesadelo dos autos-de-fé, quando mesmo a vizinha Espanha cuida de os espaçar e esconder…Portugal lança-os aos olhos horrorizados do mundo […] Protesto! Porque à Inquisição se deve o empobrecimento do Reino; porque, para subsistir, o Santo Ofício inventa judeus como outros fabricam moeda…!” 

O carácter de processo, assim como os jogos de luz e sombra e o recurso a gravações e projeções pretendem produzir um efeito de distanciação do público, seguindo a matriz do teatro épico (cf. também este link) de Bertolt BrechtA intenção é mostrar a proximidade entre os valores e as crenças do tempo dos autos de fé e aqueles da sociedade do Estado Novo, o que sublinham as semelhanças físicas e linguísticas entre Salazar e algumas personagens, como o Inquisidor-Mor, a presença da PIDErepresentada pelo Estudante Pálido ou o presságio do Holocausto através do sonho profético de Lourença, mãe de António José.
Quando o Estudante Pálido fita António José da Silva de um forma cruel e intensa, causando-lhe terror e insegurança, o Cavaleiro de Oliveira traça uma comparação indirecta entre o clima de terror e medo da Inquisição e da repressão salazarista:

"(Com desgosto e revolta), Medo. O mesmo medo que enruga a mais pura alegria, que gera cobras na cama dos amantes, que deita neve nos mais negros cabelos, que seca o leite no peito das mães… No meu país quem governa é o medo! Os olhos e os ouvidos do medo crescem e multiplicam-se por toda a parte: Nem o pai, nem a mãe, nem a esposa,nem o irmão servem de porto abrigado; armadilhas de traição eles podem ser também. Em Portugal, as varejeiras do medo por toda a banda voam e em todas as cousas, vivas e mortas, de imprevisto pousam. Muitas, muitíssimas são; sem conto, realmente. As nojentas, as ardilosas, as pestíferas varejeiras do medo!
(Aponta enérgico para o sítio do palco onde o Estudante Pálido, meio oculto entre as pregas da cortina de fundo, aparece espiando o Judeu:)
Espião miserável, varejeira maldita!!
(O Estudante Pálido, como uma sombra, logo desaparece.)
Conhecem-se pelo fedor a podre, pela luz assassina dos olhos…
(Levanta-se com ímpeto; escarninho, desesperado:)
Na Europa civilizada, Portugal é a fortaleza do Medo; espiões e polícias, os seus alicerces e guarda!"

No final da peça, depois da imolação de António José pelo fogo, o Cavaleiro de Oliveira grita «Iluminai o Povo de Portugal!». Ao reclamar que só um povo esclarecido será capaz de combater as atrocidades que se repetem ao longo dos tempos, o Cavaleiro de Oliveira culmina a preocupação didática da peça.
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Texto da peça a PROMESSA
http://promessa-santareno.blogspot.pt/


PRIMEIRO ACTO
Cozinha em casa de Salvador. Lareira grande, baixa, praticável. Ambiente que resuma os usos e os credos dos pescadores portugueses: não apenas os duma certa região (Nazaré ou Póvoa de Varzim, por exemplo), mas os da costa em geral. É madrugada. Ouve-se, lá fora, um mar bravíssimo e o vento rijo. Ao subir o pano, Salvador, só em cena, acocorado em cima da lareira, ateia o fogo com uma nova acha, soprando. Semi-obscuridade no resto do compartimento.

CENA I

MARIA DO MAR (Entra, vindo do quarto onde dorme com José: aindadesgrenhada, o cabelo comprido caído pelas costas, das mãos uma candeia acesa, erguida ao nível do rosto, saia negra muito rodada, blusa vermelha.) ¾ Bom dia, pai!

SALVADOR (Enchendo o cachimbo; veste camisola de grossa lã preta.) ¾Bom dia, rapariga!

MARIA DO MAR (Que vai pendurar a candeia num prego, para tal existente na coluna da lareira.) ¾ Maldito tempo!... (Agressiva.) Vossemecê dormiu aí?!

SALVADOR ¾ Levantei-me ainda não eram quatro horas: não podia com o frio...

MARIA DO MAR (Alisando os cabelos com um pente.) ¾ O pior, é a lenha... Muito friorento vossemecê me saiu, pai! Até na cama tem frio...

SALVADOR (Que fixa o fogo.) ¾ Estou velho, rapariga...

MARIA DO MAR (Troça crispada.) ¾ Não é da idade, pai: isso... é do sangue!

SALVADOR ¾ Estou velho... e só.

MARIA DO MAR (Pára, de súbito, atirando com o pente para cima duma mesa.) ¾ Mais vale só, que mal acompanhado!

SALVADOR (Silêncio; fixando Maria do Mar.) ¾ Explica-te, Maria do Mar!...

MARIA DO MAR (Brusca, atando a saia na cinta.) ¾ Ora!... Que tempo mais malvado!...

SALVADOR ¾ Queres tu dizer com isso, que a minha Rosária ¾ Deus a tenha em descanso! ¾ não era boa com­panheira?...

MARIA DO MAR (Cantarolando.) ¾ Ai, la-ri-ló-lé... Vossemecê não está bom, meu pai? Põe mau sentido em tudo quanto eu digo!...

SALVADOR ¾ Como tu estás mudada, Maria do Mar! (Silêncio.) E como tu me tratas!... Tens razão: eu, agora, não passo dum peso morto...

MARIA DO MAR (Que prepara o café.) ¾ Vossemecê está em sua casa, meu pai... (num rom­pante) em sua casa, com o seu filho José e o seu filho Jesus! Aqui, a estrangeira sou eu... (a bater no peito com ambas as mãos)eu, eu é que sou a estranha! Não tenha medo, meu pai: está em sua casa, com a sua gente... Não, não pesa a ninguém!

SALVADOR ¾ Mas o pão que eu como, é teu! Eu já não tenho braços... nem pernas... (Mostra um par de muletas.) Ai, Maria do Mar, isto é muito triste!...

MARIA DO MAR (Sempre a trabalhar.) ¾ O pão que vossemecê come, é do seu filho José: ele é quem o ganha...

SALVADOR ¾ Dele ou teu, não é o mesmo? Ele não é o teu homem?!

MARIA DO MAR (A bater com a cafeteira, nervosa.) ¾ Meu homem?! (Riso frenético.) Deixem-me rir! (A cantar.) Ai, la-ri-ló-lé... o meu homem!

SALVADOR (Com estranheza.) ¾ Estás doida, rapariga? Que diabo tens tu?!

MARIA DO MAR (Angustiada, quase a chorar.) ¾ Maldito tempo! (Vai abrir a janela: claridade do exterior, mar e vento mais audíveis.) Ah, mar! Ah, filho dum cão! Que o demónio te beba, malvado! (Fecha violentamente a janela.) E há cinco dias que isto dura!... (Num ímpeto, girando em redor si mesma.) Estou farta do mar, entende? Farta, até aqui! (Indica os cabelos.)Mar, mar, mar... O mundo não é só o mar, meu pai!

SALVADOR ¾ Para a gente é, Maria do Mar: se tu, rapariga, até do nome lhe pertences!

MARIA DO MAR ¾ É verdade, meu pai: Deus marcou-me! Foi logo desde a nascença... Marcadinha, meu pai, logo marcadinha! (Mutação rápida.)Mas então o seu filho hoje não se levanta? (À porta do quarto: irritada.)Zé!... Ah, Zé!... São mais que horas: levanta-te, homem!

SALVADOR ¾ Deixa-o, mulher, deixa-o dormir: ele hoje ainda não pode ir ao mar. Talvez amanhã... Talvez o tempo mude hoje, durante o dia...

MARIA DO MAR ¾ Ora, ora, meu pai! Vossemecê cuida que o Zé tem pena, por não se poder fazer ao mar? Bem se importa ele com o mar!

SALVADOR ¾ Não se importa?! Com que se há-de importar um pescador, Maria do Mar? Tu sempre tens coisas...

MARIA DO MAR (Ruim.) ¾ E vossemecê gosta muito do mar, não é assim? Não haja dúvidas que tem razões para isso! Veja o que ele fez das suas pernas... O mar, o mar!...

SALVADOR (Silêncio. Depois, triste.) ¾ Tu, dantes, eras bondosa e alegre. Agora, andas sempre triste... e já não és tão boa: que tens tu, minha filha?!

MARIA DO MAR ¾ Triste, eu?! Ora vejam lá!... Então conhece alguém, na borda de água, mais alegre que a Maria do Mar? Quem há para aí capaz de se rir como eu? Quem, meu pai?!  (Gargalhadas estridentes, nervosas.)Imaginem, eu, triste! Que razões, sim, que motivos teria eu para andar triste, meu pai? Como e bebo, tenho saúde, durmo bem... Só se fosse mal agradecida a Deus! (Mutação: inquieta, trocista.) Vossemecê esquece-se de que o seu filho é agora o sacristão cá da terra? (Olha o relógio, da parede.) São seis horas... está quase a tocar para a missa. (Chamando.)Zé! Levanta-te, Zé! Olha a missa! (Para Salvador.) Olhe, pai, disto é que ele gosta: da igreja, dos círios, da opa encarnada e das ladainhas... a isto é que o seu filho quer bem. Bem quer ele saber do mar!... Ora, o mar, o mar!... (Mutação.) Cá por mim, tenho-lhe raiva... Maldito mar! Por culpa dele é que eu... (A voz embargada pelo choro.)

SALVADOR ¾ Cala-te, mulher, não te castigue Deus!

MARIA DO MAR (Em fúria.) ¾ E quer maior castigo? Ainda maior, meu pai?! (Batendo com ambas as mãos na face.) Há para aí alguma mais desgraçada do que eu? Maria do Mar... Maria do Diabo, Maria do Diabo é que eu sou! (Mutação.) E veja se acaba de fumar, pai: daqui a pouco, ninguém pode respirar nesta casa! (Tosse. Empurrando a mesa e as cadeiras para o meio da sala.) Para quê? Para que me hei-de eu esfalfar a arrumar esta casa? Vem vossemecê e espalha tabaco e cinzas por toda a parte; o Jesus, coitado, tropeça aqui, tropeça acolá... e põe cada coisa para o seu lado; quanto ao Zé, pode bem o esterco che­gar-lhe ao nariz, que ele não dá por nada!... Ho­mens, homens, homens! Nesta casa só há homens...(Está a varrer o chão; pára de repente; depois, expressão trocista.)Homens?! Ai que ricos! (Cantarolando.) Ai, la-ri-ló-lé...

SALVADOR ¾ Ah, Maria do Mar! Olha que eu, muitas vezes até penso que tu me tens ódio, rapariga!

MARIA DO MAR (Crispada.) ¾ E porquê? Por que razão havia eu de odiá-lo, senhor?!

SALVADOR ¾ Que eu saiba, nunca te fiz mal...

MARIA DO MAR (Num grito.) ¾ Fez!

SALVADOR ¾ Eu?! (Pausa. Triste.) Ah, já sei... é por causa da promessa, não é?

MARIA DO MAR (Arrependida.) ¾ Ora, doidices! Vossemecê faz-me dizer coisas sem jeito, meu pai: que culpa tem vossemecê disso, dessa promessa?... (Ouve-se, mais forte, o vento.) Ai, que maldito tempo! ...

SALVADOR (Silêncio.) ¾ Vai falar com o padre, Maria do Mar: promessas assim, não devem fazer-se. Mas se, num momento de aflição, um pobre mortal as faz... deve mudá-las. Vai ter com o senhor Prior, Maria do Mar! Faz o que eu te digo, rapariga... Verás como, depois, tudo mudará nesta casa: vocês não são santos!...

MARIA DO MAR (Desdém e raiva.) ¾ É. Ele é. O seu filho quer ser santo!

CENA II

JOSÉ (Que ouviu a última fala de Maria do Mar. Vem descalço e veste uma camisola branca de lã.) ¾ Bom dia, pai!

SALVADOR ¾ Bom dia.

JOSÉ (Vendo as horas.) ¾ São horas...

MARIA DO MAR ¾ Tomas o café?

JOSÉ ¾ Depois da missa: hoje, quero comungar.

MARIA DO MAR (Irónica, para Salvador.) ¾ Está a ver?

JOSÉ (Calmo, duro.) ¾ A ver, o quê, Maria do Mar?

MARIA DO MAR ¾ São cá umas conversas nossas, Zé...

JOSÉ (Contraído.) ¾ Quais conversas?...

SALVADOR ¾ Ela diz que tu exageras, Zé... que não devias tomar tanto a peito a promessa... enfim, que...

MARIA DO MAR (Violenta.) ¾ Cale-se, pai! Bem me importa a mim isso...

SALVADOR ¾ Porque não falas tu com o padre, Zé? Ele muda-te a promessa... verás!...

JOSÉ ¾ Não, pai. Prometi: cumpro.

SALVADOR ( Indicando Maria do Mar. ) ¾ E ela?...

JOSÉ ¾ Também prometeu. E há-de cumprir.


SALVADOR ¾ Para quê, para que prometeram vocês uma coisa dessas?! Melhor fora que o mar me tivesse engolido a mim, naquela noite medonha! Melhor fora, me­lhor fora, Zé! Eu já não presto, não sirvo para nada...

JOSÉ (Para Maria do Mar.) ¾ Estás contente? Gostas?...

MARIA DO MAR (Zombeteira; sempre com nervosismo.) ¾ «Salva-os, Senhora, salva-os! Se eles chegarem vivos e sãos, aqui, de rastos, te prometemos que, como Tu e São José, em castidade nos casaremos!»(Mu­tação: dura, ironia fria.) Foi assim, não foi? Ainda me não esqueci, Zé... E vossemecê, pai, chegou vivo e são: não houve ninguém, lá na borda de água que não gritasse: «Milagre! Milagre!... »

SALVADOR ¾ E não foi, Maria do Mar, não foi? Nunca, em mais de sessenta anos de mar, eu vi uma tempestade assim... Que noite mais terrível! Lá ficaram o Toino d'Avó, o Zé Rocha... Não foi milagre? O meu barco era o mais pequeno, o mais velho... e chegou com todos os homens a salvo... foi o primeiro a entrar na praia! Foi, foi milagre, Maria do Mar. Nem quero que me lembrem aquela noite: as minhas pernas, as minhas pobres pernas...

JOSÉ ¾ Foi, pai, também creio que foi um milagre...

MARIA DO MAR (Irritação crescente.) ¾ Pois não foi, Zé? Olha, para mim, foi um grande milagre, não haja dúvida... Não há nada a discutir... está tudo certo... certíssimo: casámos, já lá vai um ano, e temos cumprido rigorosamente a promessa. Rigorosamente... Não é verdade, Zé? (Rindo alto: metal riscado.) E eu hei-de morrer purinha, tal como a minha mãe me botou ao mundo!...

JOSÉ ¾ Cala-te, mulher: tem vergonha!

[...]
CENA IV

JESUS ¾ Que foi isto? Onde foi?...

ROSA ¾ Os guardas atiram aos contrabandistas... ai, pobrezinhos!... Que as cinco Chagas de Cristo lhes valham!... (Escutando.) Não oiço mais nada... se ca­lhar, fugiram!...

SALVADOR ¾ Se eu pudesse... (deixa-se cair) não, não posso... não presto!... Ai, tia Rosa, eu já estou morto...

JESUS (Caminhando, a tactear os móveis, para a parta da rua.) ¾Aconteceu desgraça, meu pai... Tenho a certeza... aconteceu...


SALVADOR ¾ Senta-te aí, Jesus: não lhes podes valer...

JESUS (Senta-se num banco.) ¾ Eu sabia, eu já sabia! Que sonho!... Ai, meu pai, se conhecesse o sonho que eu tive...


CENA V

MARIA DO MAR (De volta.) ¾ Não se vê nada: fugiram, com certeza!(Fecha a porta da rua.) O Zé lá foi... direitinho à igreja!  Parecia um rafeiro atrás do dono...

SALVADOR ¾ Ó mulher, não sejas assim: o teu homem, como sacristão, sempre ganha alguma coisa... Não te faz arranjo esse dinheiro? Cala-te, deixa-o viver em paz... Olha que podia ter-lhe dado para pior: alguma vez viste o teu homem bêbado? Algum dia tiveste suspeita, ou cheiro, ou qualquer sinal doutra mulher na vida dele?...

MARIA DO MAR (Riso estridente, trocista.) ¾ Ele... o Zé?! Ai, deixem-me rir... Vinho, mulheres?... Oiça isto, minha mãe: o meu homem, com outras mulheres!... (Riso.)

SALVADOR ¾ Antes querias, talvez...

MARIA DO MAR (Com violência.) ¾ Antes queria, sim senhor! (Pausa.) Ao menos ficava com a certeza de que ele era um verdadeiro ho­mem... de que era a mim, e só a mim, que ele não queria!... Quem me dera, minha mãe, quem me dera...

ROSA (Grande espanto.) ¾ Ah, rapariga, tu estás doida?!

SALVADOR ¾ Não tenhas receio, Maria do Mar: ele é um homem a sério, direito, de boa raiz e de fruto são! Isso... é a promessa. Prometeu e quer cumprir: o meu filho é bom cristão, temente a Deus... Não tens outro mal para lhe botar em riba, Maria do Mar? (Indignado.) Tu, mulher, tu é que já não és a mesma: não temes a Deus, perdeste a fé, já não res­peitas nada...

ROSA (Admiração primeiro, logo enternecida.) ¾ Ai, rica filhinha da minha alma!? (Abraça-se a Maria do Mar.)

MARIA DO MAR (Quase a chorar.) ¾ Leve-me consigo, minha mãe, leve-me para a nossa casinha! Eu cá não posso, não aguento mais...

SALVADOR ¾ Quem é que te trata mal aqui, Maria do Mar? Pões e dispões de tudo, ninguém te pede contas, todos te respeitam... O teu lugar é aqui, nesta casa, ao pé do teu marido! É ou não verdade isto, Rosa?...


MARIA DO MAR ¾ Eu quero ir com vossemecê, minha mãe, viver sem­pre consigo... e não pensar mais em maridos ou quaisquer outros homens! Quero dormir na minha caminha: (a bater com as mãos no ventre e no peito) que eu estou limpa, minha mãe, continuo purinha como os anjos do céu! (Corre para o quarto de cama, voltando logo depois com um lençol na mão.) Cheire, mãe, cheire os meus lençóis: cheiram a incenso, a cera da igreja... não cheiram a homem, minha mãe, não cheiram a homem!(Arremessa ao chão o lençol. Agarra-se a Rosa, cho­rando convulsamente.)

ROSA (A gritar, exageradíssima.) ¾ Ai, que a minha filha perde-se nesta casa! Ai, que matam aqui a minha rica filhinha! ...

SALVADOR ¾ Tenha vergonha, mulher: é mãe dela, meta-a na ordem!

ROSA (Investindo contra Salvador.) ¾ Cale-se para aí, vossemecê: por sua causa, é que tudo isto acontece à minha filha! Por sua causa, por sua única causa... Maldita promessa, maldito casa­mento, maldita família! (Asmãos na cinta, exube­rante.) E para quê, para quê, não me dizem? Para lhe salvar a pele a si! A si, velho, que não presta, não serve para nada... (A gritar.) Coitadinha, coitadinha da minha filha! É uma desgraçadinha, uma infeliz... (Num rompante.) Ah! homem do diabo, quem é o seu filho, para botar ao desprezo uma rapariga como a minha Maria do Mar? Quem, quem?! Cale-se! Você não pode falar... (Lamento gritado.) Enganaram-nos, rica filha, enganaram-nos!

MARIA DO MAR (Subitamente soturna.) ¾ Deixe o tio Salvador, mãe: ele é bom para mim. Não foi ele quem fez a promessa. Fui eu e foi o Zé. A gente os dois, mãe!... Aqui, se há alguém que não presta, sou eu: não sou capaz de cumprir o voto, não sou! (Exaltação crescente.) Ah, minha mãe, diga-me cá, do fundo do seu coração: sou culpada? Tenho culpa de acordar de noite com a impressão de que estou toda molhada de sangue, de que me abriram o ventre? Diga, minha mãe, isto é mal? Queria ter filhos, como as outras! Nunca os terei, mãe, nunca!... Queria um homem, como o das outras! Tal e qual, mãe, tal e qual...

SALVADOR ¾ Falem com o padre, mudem a promessa...

MARIA DO MAR (Com raiva.) ¾ Ele não quer!

[...]

CENA VI

(Rosa e Maria do Mar saem, a correr, para a rua. A porta fica aberta: ouve-se, com maior violência, o temporal. Salvador, penosamente, consegue descer da lareira, deixando-se cair na berma desta.)

[...]

SALVADOR (Sempre a ver para o exterior.) ¾ Olha, Jesus: trazem um homem! Eu ajudo... espe­rem aí que eu ajudo-as... (Sai e volta logo depois com Maria do Mar e Rosa, estas amparando António Labareda, cambaleante e ferido, manchado de sangue.)


CENA VII
ROSA (Com receio.) ¾ Feche já a porta, tio Salvador. (Este executa.)Ajuda aqui, Maria do Mar... assim... (Fazem sentar An­tónio Labareda numa cadeira, junto do fogo. Depois, para Labareda.) Eh, rapaz!... Então?!... Anima-te, homem: estás salvo!... Cerra-me essa janela, Jesus... (António Labareda desmaia.)

MARIA DO MAR ¾ Ai, minha mãe, que ele morreu!

ROSA (Abrindo a camisa de labareda, para lhe palpar o coração.) ¾ Quais morreu, rapariga! Esta dentuça ainda há-de trincar muito pãozinho... Ah, Maria do Mar?... Eh, rapariga, tu já o viste bem? Assim... tão brancos, nunca eu vi outros dentes!... Passa-me a aguar­dente... (Observando a ferida do peito.) Ai, minha Nossa Senhora! É muito funda a chaga... não pára de sangrar... Temos que chamar o doutor, Maria do Mar!...

MARIA DO MAR ¾ Não digo que não, mãe: mas depois... mais logo... (vai espreitar pela janela) quando os guardas tiverem abalado... Nada, não se vê já ninguém... não oiço nada...

JESUS (Que foi buscar a aguardente.) ¾ Tome lá, tia Rosa!... (Fica junto do grupo, por detrás da cadeira de Labareda.)

ROSA ¾ Está frio que nem gelo, o diabo do moço! Enfim,... isto há-de passar... vai passar... Ah, Maria do Mar?...

MARIA DO MAR  ¾ Diga, mãe...

ROSA ¾ Anda, filha, vai arranjar a tua cama: vamos dei­tá-lo... E ligaduras, precisamos de ligaduras...

JESUS (Crescente ansiedade.) ¾ Rasgam-se os lençóis de linho... aqueles que eram da avó...

ROSA ¾ Tu estás doido, Jesus?! Quaisquer panos lavados servem...(Observando o ferimento.) É profunda a ferida... perdeu muito sangue... é capaz de ainda cá ter dentro a bala!...

SALVADOR (Que, desde o princípio desta cena, está retraído, imóvel, descontente.) ¾ Queira Deus que isto não nos traga malquerenças e dissabores: com a guarda não se brinca! Se eles descobrem...

MARIA DO MAR (Que rasga em tiras um lençol.) ¾ Não descobrem, meu pai!

SALVADOR ¾ Mas porque o trouxeram para aqui, para a nossa casa?...

ROSA ¾ Vossemecê queria que o deixássemos lá fora, com um temporal destesMais valia matá-lo logo, como aos cavalos feridos, tio Salvador! (A olhar Laba­reda, enternecida.) É um rapazinho, ainda tão novo!...

SALVADOR ¾ E o Zé? Que dirá o meu Zé quando souber disto?

MARIA DO MAR (Sacudida, nervosa.) ¾ Ora, meu pai, que é que ele há-de dizer?...

[...]


SEGUNDO ACTO

O mesmo cenário do acto anterior. É domingo de Páscoa. Tarde de sol. Janela e portas abertas: mar e céu azul. Ao subir o pano, Rosa e Maria do Mar preparam a mesa festiva, colocada ao centro: arroz doce, pão, carnes e vinho, além de frutos e bolos de folar.

CENA I

ROSA (A espalhar alecrim pelo chão: vestida para a festa, brincos e cordão de oiro.) ¾ Ai, que rico cheirinho!

MARIA DO MAR (À porta, olhando o céu, traje garrido, muito bem penteada e cuidada.) ¾ Ah, minha mãe?!

ROSA ¾ Que é lá?...

MARIA DO MAR ¾ Vossemecê já viu? As gaivotas andam doidinhas de todo: giram, tornam a girar... brincam umas com as outras... olhe, minha mãe, olhe ali!... Nunca as vi assim, tão...

ROSA ¾ Ora, é o tempo!... (A rir para o mar, espreguiçando-se.) Que dia, Maria do Mar, que dia! Ainda bem que é hoje o dia da ressurreição de Nosso Senhor e que a gente deve sentir-se alegre e cantar e bailar... (Puxa Maria do Mar, que ri, e dá com ela umas voltas de dança.)

MARIA DO MAR (Contente.) ¾ Deixe-me, minha mãe... então não querem lá ver?...

ROSA  (Que se deixa cair, afogueada, numa cadeira.) ¾ Hoje, até eu me sinto nova, Maria do Mar! Tenho o sangue, cá dentro, aos pulos... e apetece-me cor­rer... olha, subir e descer a ladeira da Senhora da Nazaré!... Estás a ver? É o tempo... Deus me perdoe, mas mesmo que hoje fosse sexta-feira santa, eu estaria alegre... (Vendo-se ao espelho.) Ah, rapa­riga?... Então não é verdade que esta cara... sim, apesar da minha idade...(arrumando o espelho, a rir alto) ora, tomaram muitas novas!... (Volta a compor a mesa.)

MARIA DO MAR (Que voltou para a porta, a olhar as gai­votas.) ¾ Parece que riem, que dizem maluqueiras umas às outras... olhe aquelas duas, ali, minha mãe!... Nunca, eu nunca vi disto!...

ROSA ¾ Sai daí, rapariga, vem ajudar-me: daqui a pouco, está cá o prior mais o teu Zé... Ele vem com o pa­dre, não vem?...

MARIA DO MAR (Que volta para dentro.) ¾ Pois... é o sacristão!...
 [...]

CENA   II

(Aparecem à porta, todas de negro, as 1ª, 2ª  e 3ª  Velhas.)

1ª VELHA (A observar Labareda que está no exterior, invisível para o espectador.) ¾ Ah, é aquele que está com o Jesus?! (Para dentro.) Ah, Maria do Mar?! Viva, tia Rosa!

ROSA (De mau humor.) ¾ Viva, tia Cremilda!

MARIA DO MAR ¾ Quer alguma coisa de mim, tia Cremilda?... (Para as outras duas Velhas.) Salve-as Deus!

3ª VELHA (Que entra.) ¾ O rapaz... é aquele que está com o Jesus e o tio Salvador?

1ª VELHA (Ainda à porta.) ¾ Bendita mãe que tal filho pariu! Aquilo é peixe do alto, peixe grosso e desenxovalhado!... (Entra.) Ele já está bom de todo, não está tia Rosa? Ai, rica amiga, agora entendo eu: as raparigas andam todas malucas com o demónio do rapaz!... Se te parece...

3ª VELHA ¾ Ah, Maria do Mar, ele irá ao baile, esta noite?...

2ª VELHA (Olhando para fora.) ¾ Ele não é casado, pois não, tia Rosa? A minha Joaquina viu-o ontem, ali pràs bandas da rocha... Não fala noutra coisa, até me doem os ouvidos! Raparigas casadoiras... Ele já é casado, Maria do Mar?

MARIA DO MAR (Ríspida) ¾ Eu sei lá, tia Maria da Avó! A mim é que me vem perguntar isso? Pergunte-lhe a ele...

2ª VELHA ¾ É que a minha Joaquina...

MARIA DO MAR (Hostil.) ¾ A sua Joaquina já não namora o Tó Rocha?

2ª VELHA ¾ Não, rica filha, há que tempos isso lá vai! O Tó Rocha é madraço, não gosta do trabalho, foge do mar...

1ª VELHA (Riso) ¾ Pois, são todos umas misérias... E os outros que ela tem namorado? O Raimundo, o Zé Polvo... eu sei lá!...

ROSA ¾ A tua filha é vária como o mar, Maria da Avó! (A 2ª Velha, zangada, vai para responder, mas contém-se.)

3ª  VELHA ¾ Ah, Tia Rosa, diga-me cá: donde é ele? Ninguém o conhece, aqui por estas redondezas...

1ª VELHA ¾ É homem do mar?

2ª  VELHA ¾ Ouvi dizer que lhe pregaram com cinco tiros em riba: coitadinho! (Intencional.) A Maria do Mar é boa enfermeira, lá isso é! (Para Maria do Mar.) Eh, rapariga? Perdeste a voz?... (Maliciosa, para as outras duas Velhas.) Pudera, está sôfrega com a pescaria!... (Riem as três Velhas.)

ROSA (Que continua a arrumar a mesa, ajudada por Maria do Mar.) ¾Não, não é do mar. É peixe do rio: não gosta de água salgada.

1ª VELHA ¾ Mas então donde é ele, tia Rosa?...

2ª VELHA (Sempre intencional.) ¾ Escondeste-o bem, Maria do Mar: ao que dizem, já cá o tens há quinze dias...

MARIA DO MAR (Picada, saracoteando-se.) ¾ Dezasseis, tia Maria da Avó, dezasseis dias.

3ª VELHA ¾ Então os guardas...

1ª VELHA ¾ Ora, os guardas fingem que não sabem: já passou tudo.

3ª VELHA ¾ Mas sendo assim, porque o têm vocês aqui escon­dido?...

2ª VELHA ¾ Ah, mulher, mas então tu não compreendes? É pra que as mais o não cobicem... não é, Maria do Mar?

MARIA DO MAR (Agressiva.) ¾ O que é que vossemecê quer dizer com isso, tia Maria da Avó?!

2ª VELHA (falsa.) ¾ Ó mulher, nada... Credo, sossega!... Não quero futurar nada de mau, rica amiguinha... Em todo o caso sempre te direi, para teu amanho, por causa das línguas deste mundo, que não deves tomar as coisas tanto a peito: qualquer outra pessoa que não te conhecesse como a gente, o que é que diria? Mordeu o anzol, a Maria do Mar está ferida!... (Para as outras duas Velhas.) Era, ou não era?...

1ª VELHA ¾ Ah, Tia Rosa?...

ROSA (Impaciente.) ¾ Estamos à espera do senhor Prior... ainda não temos pronta a mesa...

1ª VELHA (Escarninha.) ¾ Ouvi dizer que o seu genro...

MARIA DO MAR (Tocada.) ¾ O que é que dizem do meu homem? (A gritar.) Vamos, repitam-mo aqui, na minha casa, diante de mim, se têm coragem.

1ª VELHA ¾ Ah, Maria do Mar, tu não andas boa? Quem é que te quer ofender, mulher?! Esta agora!...

2ª VELHA ¾ Dizem que o teu Zé não gosta do hóspede: não admira, sempre é mais uma boca... (Matreira.) Que ele já está curado, que não há meio de sé ir embora lá para a terra dele, que és tu, Maria do Mar, que o não deixas partir... ora, tudo coisas assim! Falas do povo...

1ª VELHA (Idem.) ¾ Falatório de quem te inveja, Maria do Mar...

3ª VELHA (Que está outra vez à porta e admira Labareda.) ¾ Anda tudo doido com o raio do homem! Não me admira isso, Cremilda... Pudera!... Vocês já viram uns olhos como os daquele alma-do-diabo?... Ah, Maria da Avó, chega-te aqui, observa-me bem os modos dele... olha para aquilo! ...

[...]

CENA IV

(Aparecem à porta, o Padre, de sobrepeliz, e José, de opa vermelha, com um grande saco onde vai recolhendo as ofertas pascais. Com eles, além de mulheres e crianças, um homem velho que traz o crucifixo e os objectos necessários à bênção.)

PADRE ¾ Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

TODOS (Respondendo.) ¾ E sua Mãe, Maria Santíssima!

PADRE (Entra, seguido de José.) ¾ Que Deus abençoe os desta casa! (Dá a bênção a todos os presentes, que, recebendo-a, se ajoelham, com excepção de Labareda que fica de pé.)

SALVADOR ¾ Faça favor de se sentar, senhor Prior...

PADRE (Sentando-se à mesa.) ¾ Obrigado, Salvador! Estou muito cansado... essa ladeira já não é para as minhas pernas... já cá pesam sessenta e oito, Salvador... E tu? Ah, tu és mais velho... ora deixa-me cá ver...

SALVADOR (Contente, grande risada.) ¾ Faço setenta e dois no mês dos santos, senhor Prior!..

ROSA ¾ Tenha a bondade de se servir, senhor Prior: sem cerimónias! Eh, Maria do Mar?!

MARIA DO MAR (Sobressalto.) ¾ Minha mãe? ...

ROSA ¾ Vai buscar a garrafa... aquela do vinho velho: quero que o senhor Prior o prove!...

PADRE (Comendo.) ¾ Obrigado, Rosa! Hoje tiro a barriga de misérias... E tu, José? Que tem o teu homem, Maria do Mar?! Durante toda a visita pascal, por essas casas além, não fui capaz de convencer o José a meter um naco de carne na boca, ou a beber um só copo de vinho!... Tu sentes-te doente, rapaz?

JOSÉ (Sorriso triste.) ¾ Não se incomode comigo, senhor Prior: é que eu já comi, esta manhã, aqui em casa. (Pausa. Intencional.) A minha Maria do Mar cuida bem do ma­rido, senhor Prior!

PADRE (Com uma perna de galinha na boca.) ¾ Está bem, será assim, não duvido, mas... (Busca mutação.) Então onde pára o tal... intruso? (Re­parando em labareda.) É aquele?...

LABAREDA (A brincar com uma maca encarnada; trocista.) ¾ Eu próprio, senhor Prior...

PADRE ¾ E já estás bom?... Pois fica-te de emenda, meu rapaz: nada de contrabando, nada de coisas ilegais... Eh, Rosa, olha que este vinho sempre é dum quilate! (Saboreando.) De primeira, menina, de primeiríssima!... (Para labareda.) Muda de vida, rapaz: caminho direito, sempre em frente!...

MARIA DO MAR (Nervosa.) ¾ Já comeu do nosso bolo de mel, senhor Prior?...

PADRE (Comendo o bolo.) ¾ Sim senhora, muito bom... De primeira, Maria do Mar, de...

LABAREDA (Completando, irónico.) ¾ De primeiríssima!

PADRE (Pára de mastigar e olha, por momentos, desconfiado, para Labareda.) ¾ Quantos anos tens tu, rapaz? (Labareda encolhe os ombros e faz uma careta.) Vinte e quatro, vinte e cinco ? ...
 [...]

CENA V

LABAREDA (Só, com Maria do Mar.) ¾ Maria do Mar?!

MARIA DO MAR (Ergue-se bruscamente, e começa, nervosa, a arrumar os pratos.) ¾ Quando te vais embora, Labareda?

LABAREDA ¾ Tens pressa, Maria do Mar? Queres ver-me longe de ti?...

MARIA DO MAR ¾ Eu?... E porque havia de querer? É-me igual.

LABAREDA (Rápido.) ¾ Mentes!

MARIA DO MAR (A fazer muito barulho com a loiça.) ¾ É-me igual, é-me igual, é-me igual!

LABAREDA (Que prende Maria do Mar pelos pulsos.) ¾ Não baixes os olhos, Maria do Mar: tens medo?...

MARIA DO MAR (Violenta.) ¾ Medo, de quê? (Olha Labareda, fixamente, nos olhos.) Larga-me!

LABAREDA ¾ És capaz de me jurar aqui, assim... que queres que eu me vá embora?...

MARIA DO MAR ¾ Mas o que é isto?! (Desprende-se, num esticão: direita, orgulhosa.) Eu sou uma mulher casada, Labareda!

LABAREDA ¾ Mal casada, Maria do Mar...

MARIA DO MAR ¾ Bem ou mal... que sabes tu disso? Adivinhas, és bruxo?

LABAREDA ¾ Tenho os meus olhos: eu vejo tudo... eu sinto tudo...

MARIA DO MAR ¾ Pois estás enganado, desta vez.

LABAREDA (Tomando um braço de Maria do Mar.) ¾ Estarei? Não acredito...

MARIA DO MAR (Que se escapa.) ¾ Larga-me! Aqui no meu corpinho ninguém toca.

LABAREDA (Sensual.) ¾ Tu já não podes mais, Maria do Mar, eu bem o sinto... (Avança uns passos.) Ninguém, ninguém te toca?...

MARIA DO MAR ¾ Só o meu homem, o meu marido.

LABAREDA (Outra vez junto de Maria do Mar.) ¾ Nem ele, nem ele!...

MARIA DO MAR (Insegura.) ¾ Pois que julgas tu, Labareda? Eu sou uma mulher séria...

LABAREDA ¾ E nova e bonita...

MARIA DO MAR (A recuar.) ¾ Então nós recebemos-te em nossa casa, tratámos-te as feridas, salvámos-te... e tu é assim que nos pagas?! O Zé tem razão: tu és peçonhento, trai­çoeiro...

LABAREDA (Perseguindo Maria do Mar.) ¾ Eu só sei que estou doido por ti, Maria do Mar, que não vejo mais ninguém no mundo... (Abraça Maria do Mar) que não há força capaz de te arran­car dos meus braços! (Tenta beijar Maria do Mar.) Maria do Mar...

MARIA DO MAR ¾ Deixa-me!... Malvado... larga-me!... (A ceder.) Olha que vem aí gente... não, Labareda, não!... Larga-me, larga-me!...

LABAREDA (Apertando mais.) ¾ Tu tens de ser minha... já não podes fugir... já não és capaz...

MARIA DO MAR (Ainda a debater-se.) Nunca, nunca!...

LABAREDA ¾ Sim, Maria do Mar, sim...

MARIA DO MAR (Sem forças.) ¾ Ai, Labareda...

LABAREDA ¾ Gatinha... gatinha brava!... Tu já não dormes... Tu já não comes... Tu só pensas em mim... só em mim... és minha, Maria do Mar... tu és minha! (Beijam-se raivosamente. À porta, aparece Jesus: não vê, mas pressente: expressão ansiosa, aflita.)


CENA VI

JESUS ¾ Ah, Maria do Mar?!

MARIA DO MAR (Um grito desprende-se, rápida; mal recom­posta.) ¾ Ah, és tu... és tu, Jesus?

JESUS ¾ Ele está aí?... Está aí o Labareda?...

LABAREDA (Já seguro.) ¾ Estou, Jesus. Não quiseste acompanhar o cortejo? (Vai até junto de Jesus e dá-lhe uma palmada amigável nas costas.) Vamos conversar mais um bocado? Queres? Tenho ainda muitas coisas para te contar. Anda, Jesus...

JESUS (Ríspido: raiva e angústia.) ¾ Larga-me!

LABAREDA (A brincar.) ¾ Porquê, Jesus? Eu tenho peçonha?...

JESUS (Os olhos cegos muito abertos.) ¾ Tu tens peçonha... tu tens peçonha, Labareda!

LABAREDA (A tentar compor, pegando na mão de Jesus.) Mas tu estás doido, Jesus? Então, tu...

JESUS (Retirando, rápido, a mão.) ¾ Não me toques, já te disse! (Silêncio. Depois, do­rido, frio.) Vai-te embora, Labareda. Vai já. O Zé tem razão: vai, vai para a tua terra...

LABAREDA ¾ Tu... tu tamhém? E porquê, Jesus?!

JESUS (Com lágrimas nos olhos.) ¾ Já estás bom. Vai-te embora!...

LABAREDA ¾ Disseste que eras meu amigo...

JESUS ¾ E sou. Mas... vai-te embora! (Chora como uma criança. Avança uns passas. Tropeça nos móveis.) Eu senti, Labareda... eu senti, Maria do Mar!... Sou cego... não vejo... mas sei: eu sei, eu senti aqui! (Indica o coração.) O Zé tem razão... Ele sim, ele é bom!... Vocês são traiçoeiros... víboras, víboras! (Soluça alto.)

LABAREDA (Sinceramente triste, a olhar intensamente para Maria do Mar: esta, os cabelos caídos, está transida, estática.) ¾ Pois sim, Jesus. Eu vou-me embora.

JESUS (Infantil, outra vez apaixonado.) ¾ É melhor, Labareda, é melhor... melhor para ti e... para ela! (Meio ajoelhado no chão.) Vai para a tua terra: o mar vinga-se, Labareda! O mar não é bom... julgas que é mentira? Fica e verás... Foge, Laba­reda, foge! Eu sou tão teu amigo... Foge! Na tua terra, tens cavalos, pássaros de todas as cores, gi­rassóis...

LABAREDA (Durante esta fala, escreveu rapidamente um bilhete que passa a Maria do Mar.) ¾ Adeus, Jesus! (Silêncio. Depois, profundo.)Adeus, Maria do Mar!... (Caminha para a porta. Quase a sair, volta-se: ardente, desesperado.) Nunca se deixa com vida uma víbora ferida... nunca! (Feroz.) Mata-se! Abate-se à paulada! Calca-se a pés jun­tos... (Sai.)


CENA VII

JESUS ¾ Maria do Mar?!

MARIA DO MAR ¾ Jesus?! (Corre para Jesus, levanta-o e abraça-se a ele, cho­rando convulsivamente. Na porta aberta, aparecem as três Velhas: curiosidade intensa, troça, alegria sel­vagem, depois, olham-se entre si com sinais de entendimento e fogem, em silêncio, umas atrás das outras. É quase noite.)


TERCEIRO ACTO

1º QUADRO

O mesmo cenário dos actos anteriores. É noite cer­rada. Candeia acesa. Lume na lareira. [...]

CENA I
[...]
SALVADOR ¾ Tu devias ir à devoção, ao Te-Deum, rapariga!... Ouviste o que disse o padre? E depois o teu Zé havia de gostar...

MARIA DO MAR (Rígida, violência interior.) ¾ Não vou.

SALVADOR ¾ Não sejas assim, mulher: tu tens os teus deveres...(Boceja.) Anda, vai-te preparar... (Sai.)

CENA II

MARIA DO MAR (Pausa. Feroz.) ¾ Ah, querem então que eu vá? Querem que eu saia, esta noite? São eles, eles próprios que querem?! (Num grito rouco.) Mas não quero eu! Não quero, não quero! (Tira do seio o bilhete de Labareda e volta a lê-lo.) Ah, minha Nossa Senhora, ajuda-me! Ajuda-me, ajuda-me, por amor de Deus! Que não sejam só castigos... Eu não posso mais... Não posso! (Lágrimas.)

JESUS (Medo; vida interior intensa.) ¾ Então ele... não se foi embora?

MARIA DO MAR ¾ Cala-te, mafarrico! Ele, ele, ele... Também te deitou quebranto, a ti?

JESUS (Certeza crescente.) ¾ Não foi. Eu sinto que ele ainda cá está...

MARIA DO MAR ¾ E depois?! Se o Labareda não tivesse partido, se ainda estivesse na vila? És tão amigo dele, devias estar contente! ...

JESUS (Rápido.) ¾ Eu já não gosto dele.

MARIA DO MAR (Ironia, agressividade.) ¾ E porquê?! Pode saber-se?...

JESUS ¾ Ele não gosta de ninguém, Maria do Mar.

MARIA DO MAR ¾ E isso que me importa a mim? Também eu não gosto dele...

JESUS (Triste.) ¾ Gostas.

MARIA DO MAR ¾ Tu calas-te, maldito? Mas ca1as-te duma vez para sempre, ouviste?... Nunca mais se fala aqui nesse homem. (Vai até à janela, escancara-a, fecha-a es­trondosamente e volta para junto de Jesus.)Gos­tava de saber onde aprendeste tu tanta coisa, tu, que nunca sais daqui, que nem barba tens ainda nessa cara!...

JESUS ¾ Tenho quinze anos, Maria do Mar.

MARIA DO MAR ¾ Ora velam lá!

[...]

JESUS ¾ Tu queres sair.

MARIA DO MAR (A dominar-se.) ¾ Sim, mas para ir à igreja: não ouviste o que disse o teu pai? Devo ir. São horas...

JESUS ¾ Não saias, Maria do Mar!

MARIA DO MAR (Medo, angústia.) ¾ Tu estás doido?!

JESUS ¾ Não, Maria do Mar, não vás ter com ele!

MARIA DO MAR ¾ Com... ele?!

JESUS ¾ Sim, com o Labareda... (Avança uns passas.) Não vás, peço-te pelo Santíssimo Sacramento! Não vás, Maria do Mar!

MARIA DO MAR (A disfarçar, riso estridente.) ¾ Vai-te deitar, Jesus! Estás tonto...

JESUS (Grito rouco.) ¾ Não vás!

MARIA DO MAR ¾ São mais que horas... (Põe a mantilha.) Vou ali à igreja... não me demoro...

JESUS ¾ Eu vou contigo.

MARIA DO MAR (Feroz.) ¾ Não!

JESUS ¾ Vais ter com ele... foi ontem... eu sei... Não mintas! Ontem, combinaram encontrar-se esta noite... É verdade!

MARIA DO MAR (Investindo.) ¾ E depois?! Se fosse verdade? Ele não me come, pois não?... Se por acaso eu o encontrar na rua, se ele me der a salvação, se me falar? Volto-lhe as costas?!

JESUS (Tropeça numa cadeira, que cai.) ¾ Ele é labareda... ele é fogo, Maria do Mar!

MARIA DO MAR (Frenética, dando uma volta rápida sobre si mesma, a rir nervosamente.) ¾ Ah, é? Se ele é lume, eu sou mar: aí tens! Apago-o num instante. (Riso.) Olha, sabes que mais? Não estou para te aturar. Vai-te deitar...

[...]

CENA IV


JOSÉ (Entra. Perturbado, inquiridor.) ¾ Ah, Maria do Mar?! (Silêncio.)Maria do Mar! (Silêncio. Depois, violento.) Não está ninguém, nesta casa?

JESUS (Medo.) ¾ Estou eu aqui, Zé... O pai...

JOSÉ ¾ Que é da Maria do Mar?

JESUS ¾ Saiu...

JOSÉ ¾ Há muito tempo?

JESUS ¾ Não, mesmo agora. Foi à...

JOSÉ ¾ Era ela, eu vi-lhe o vulto. Cá me parecia...

JESUS ¾ Foi à igreja... à devoção.

JOSÉ (Terrível.) ¾ Não foi!

JESUS ¾ Foi... foi, Zé: o nosso pai mandou-a ir ter contigo. Olha que foi...

JOSÉ (Que agarra violentamente Jesus.) ¾ Mentes! Ela foi para as bandas do moinho velho. É para esse lado a igreja? Tu mentes, Jesus! Eu vi-a, eu próprio, com os meus olhos...


CENA V

SALVADOR (Ainda mal acordado, aparece na porta do seu quarto.) ¾Então o que é isto?... Há alguma...

JOSÉ (Afasta, brutalmente, Salvador para o lado e entra no quarto.) ¾Deixe-me passar... (Logo depois, sai com uma espingarda na mão e dirige-se para a porta da rua. Sem se voltar.) Jesus?!

JESUS ¾ Zé?...

JOSÉ ¾ Ela... foi ter com ele? (Silêncio de gelo.)

SALVADOR (Que dá uns passos.) ¾ Não, Zé, fui eu que lhe disse para...

JOSÉ (Voltando-se, rápido.) ¾ Cale-se, meu pai. Vossemecê não presta, pai. Não serve para nada. Para nada deste mundo, ouviu? Aqui, sempre fechado nesta casa, e nem a minha honra... nem a honra da sua família, foi capaz de guardar! (Num urro feroz, para a imagem do ora­tório.) Acabou-se, acabou-se a promessa! Mentiste-me, atraiçoaste-me, tu também. Mas vais ver, vais ver como eu sei tirar a desforra! Tu, santa, tu tam­bém não prestas: és de barro, não falas, não ouves... Mentideira! Acabou-se, já não te quero! Estás a ouvir-me, santa? Olha, cuspo-te... (Executa.) En­ganaste-me... Não te quero ver mais! (Atira, pela janela, a imagem para o mar.) Que te beba o mar ruim!...

SALVADOR (Aflito, tenta agarrar José.) ¾ Ah, Zé... ah, filho, acalma-te, por amor de Deus! Tu estás enganado...

JOSÉ (Brutal, empurra Salvador, que cai no chão.) ¾ Suma-se da minha vista, homem! ... Antes o mar o tivesse levado a si, naquela maldito dia... Tinha sido bem melhor... (Já na porta da rua, voltan­do-se, odiento.) Bem melhor! (Sai.)

(Pano rápido.)

2º QUADRO

Ainda o mesmo cenário dos actos anteriores. São duas horas, dessa mesma noite de domingo de Páscoa. [...]

CENA I 
[...]
JESUS ¾ Vai procurar o Zé, Maria do Mar! Olha que...

MARIA DO MAR ¾ Procurá-lo aonde? Sei lá onde ele está?...

JESUS ¾ Está para as bandas do moinho velho: ele viu-te ir para lá...

MARIA DO MAR ¾ Pois que esteja. Até lhe faz bem: refresca as ideias!

JESUS (Terror.) ¾ E se ele topa o Labareda!?

MARIA DO MAR (Inquieta.) ¾ Sossega que não topa. Pronto, não vale a pena esperar mais tempo: vamos os três para a cama? O Zé dorme esta noite na igreja: (escarninha) foi pedir o conselho do senhor Prior...
[...]

JESUS (Cada vez mais inquieto, obstinado.) ¾ Acontece desgraça, Maria do Mar... Vai, vai lá!

MARIA DO MAR (Em fúria.) ¾ Cala-te para aí, rapaz! Queres que eu vá para esses lados, a estas horas? Queres que o Zé me veja e pense aquilo que não é verdade?!

SALVADOR (Sombrio, rancoroso.) ¾ E não é verdade, Maria do Mar?...

MARIA DO MAR  ¾ Não, senhor.

SALVADOR ¾ Mas tu gostas desse homem...

MARIA DO MAR ¾ Isso, é cá comigo.

SALVADOR ¾ Juras que ele nunca te pôs a mão, juras?

MARIA DO MAR (Desdém, agressividade.) ¾ Esteja descansado, velho: ninguém ainda me pôs a mão.

SALVADOR ¾ Juras? Pelas cinco chagas de Cristo?

MARIA DO MAR ¾ Juro.

SALVADOR ¾ Acredito em ti, Maria do Mar.
[...]

CENA II

(Entra José: desalinho completo, as calças e camisa rotas, manchas de sangue na roupa e nas mãos. Não traz a espingarda. Cruel, feroz, um brilho terrível nos olhos. Voz mais segura, mais rouca e profunda. Por momentos, olha intensamente Maria do Mar, parado, em silêncio. Esta, inteiriçada, o fácies rígido, corres­ponde: expressão de desafio.)

JOSÉ ¾ Saia daqui, meu pai. E tu também, Jesus. (Salvador e Jesus hesitam. Medo.) Não ouviram o que eu disse?! Vamos, daqui para fora, já!(Salvador encaminha-se para o quarto. José intercepta-lhe a passagem e leva-o até à porta da rua. Jesus segue-os.) Rua! Não os quero cá antes do Sol nascido! Ou­viram bem? (Sai Salvador.)

JESUS (À porta, implorante.) ¾ Ah, Zé?!...

JOSÉ (Num salto, empurra Jesus e fecha, violento, a porta.) ¾ Rua, rua!(Silêncio: fixa Maria do Mar. Avança uns passos. Maria do Mar recua.) E agora, a gente, minha pombinha!... Vamos conversar, sim?... (Si­nistro, odiento.) Maria perdida! Maria aluada! Ma­ria traiçoeira! (Maria do Mar estaca, crispada, a cabeça levantada e imóvel.) Foi logo na primeira noite? Talvez na segunda... Da terceira não passou, tenho a certeza! (Riso alucinado.) E eu... na igreja! Eu, a rezar por ti, cabra! Por ti, Maria da lua! Não dizes nada? Perdeste a língua, rica filha?! (Está com a cara quase encostada à de Maria do Mar; esta sempre imóvel, hirta.) Foi ali, no meu quarto, na minha cama? Foi, Maria perdida? Tu não ouves? E riam-se de mim, do sacristão? Pudera, pudera! (Riso.) Até eu acho graça! (Num salto de tigre, espalma as mãos, sujas de sangue, diante dos olhos de Maria do Mar.) Estás a ver? Vês bem, Maria do inferno? (Esfrega, raivosamente, as mãos no rosto, na cabeça de Maria do Mar.) Cheira, maldita, be­be-o: é o sangue dele! (Maria do Mar, com um grande grito de horror, procura fugir.)Quieta, cadela, está quietinha! (Domina-a.) Tu tens medo de mim? De mim, do Zê Tolo?! Como tu és cobarde e traiçoeira, como tu és reles!... (Riso.)Eh, Maria do Mar, tu gostavas dele, hein? Gostavas, a valer? (Aperta, com uma das mãos, o pescoço de Maria do Mar.) Havias de vê-lo agora! [...]Capei-o, Maria da lua! Capei-o eu, com estas minhas mãos!... Com estas mesmas, Maria maldita!
[...]

3º QUADRO

Largo principal, numa aldeia de pescadores da costa portuguesa. Esta aldeia está edificada sobre a rocha, em sítio alto que domina o mar. Vê-se a frontaria de várias casas, entre as quais está a de Maria do Mar. Uma taberna. Uma estrada que, subindo da praia, atravessa o largo de lado a lado. É a madrugada dessa mesma noite de domingo de Páscoa. Obscuridade quase total, ainda. [...]

CENA II
(Aparecem os guardas. Lanternas.)

SARGENTO (Bate à porta de Maria do Mar, com a coronha da espingarda.)¾ É a guarda!... Abram!... Abram!... Abram à guarda!... (Para os outros guardas.) Vamos arrombar! (Começam a executar à coronhada.)

JOSÉ (/.../ aparece à porta: Rígido, sereno. Silêncio. Todos se levantam, incluindo Rosa e Salvador. Expectativa dolorosa.) ¾ É a mim que procuram?

SARGENTO ¾ É a tua espingarda?

JOSÉ ¾ É minha.
SARGENTO ¾ Então acompanha-me!
[...]

Actividades:

1. Reconta, num máximo de duzentas e cinquenta palavras,  a acção de  “A Promessa”.

2. Imagina e escreve um fim feliz para esta peça de Bernardo Santareno.

3. Elabora um trabalho com um máximo de trezentas palavras sobre a "História do Teatro" ou a "Evolução do casamento do sec. XVI até hoje".


Jorge Antão