30/11/2014

9.146.(30nov2014.10.33') Alexander Search - Heterónimo de Fernando Pessoa

Nasceu a 13junho1888
e morreu a 30nov1935
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Via arquivo pessoa
http://arquivopessoa.net/textos/1280

EPITÁFIO - Aqui jaz Alexander Search - T

EPITÁFIO
Aqui jaz Alexander Search
Que Deus e os homens deixaram só,
Que sofreu e chorou ser escárneo da natureza.
Recusou o Estado, recusou a igreja,
Recusou Deus, a mulher, o homem e o amor,
Recusou a terra em volta e o céu além.
Resumiu assim o seu saber:
(...)e amor não há
Nada no mundo existe de sincero
Salvo a dor, o ódio, a luxúria e o medo
E mesmo estes são ainda suplantados
Pelos males que causam.
Andava pelos vinte anos quando morreu
Estas foram as suas últimas palavras:
Deus, a Natureza e o Homem, malditos sejam!
***
Via Citador
Alexandre Search
Alexander Search
Quem Sonha Mais?Quem sonha mais, vais-me dizer — 
Aquele que vê o mundo acertado 
Ou o que em sonhos se foi perder? 

O que é verdadeiro? O que mais será — 
A mentira que há na realidade 
Ou a mentira que em sonhos está? 

Quem está da verdade mais distanciado — 
Aquele que em sombra vê a verdade 
Ou o que vê o sonho iluminado? 

A pessoa que é um bom conviva, ou esta? 
A que se sente um estranho na festa? 
*Morte em VidaUm dia mais passou e ao passar 
Que pensei ou li, que foi criado? 
Nada! Outro dia passou desperdiçado! 
Cada hora já morta ao despontar! 

Nada fiz. O tempo me fugiu 
E à Beleza nem uma estátua ergui! 
Na mente firme nem credo ou sonho vi 
E a alma inútil em vão se consumiu. 

Então me caberá sempre ficar 
Qual grão de areia na praia pousado, 
Coisa sujeita ao vento, entregue ao mar? 

Ah, esse algo a sofrer e a desejar, 
Inda menos que um ser inanimado 
Sempre aquém do que podia alcançar! 
*Mania da DúvidaTudo para mim é um duvidar 
Com a normalidade sempre em cisão, 
E o seu incessante perguntar 
             Cansa meu coração. 
As coisas são e parecem e o nada sustém 
O segredo da vida que contém. 

A presença de tudo sempre perguntando 
Coisas de angústia premente, 
Em terrível hesitação experimentando 
             A minha mente. 
É falsa a verdade? Qual o seu aparentar 
Já que tudo são sonhos e tudo é sonhar? 

Perante o mistério vacila a vontade 
Em luta dividida dentro do pensar, 
E a Razão cede, qual cobarde, 
             No encontrar 
Mais do que as coisas em si revelam ser, 
Mas que elas, por si só, não deixam ver. 
*PerseverançaNão digas que o trabalho é desperdiçado, 
Nem que o esforço falha ou parece, no fundo; 
Não digas que aquele ao dever curvado 
É um entre os tantos sonhos do mundo. 

Pois não é em vão que em golpes seguidos, 
Com pressa medida, em fragor crescente, 
O mar actua nos rochedos batidos 
E invade a praia, ruidosamente. 

É certo que enfrentam suas investidas, 
Do seu bater forte parecem troçar, 
Esmagam com força as vagas erguidas 
E em espuma fazem as ondas rasgar. 

Mas ele bate e bate com força 
Em dias, semanas, em meses e anos, 
Até que apareça mossa sobre mossa 
Que mostre seus gastos, pacientes ganhos. 

E os anos passam, as gerações vão, 
E menores se quedam as rochas cavadas; 
Mas ele, com lenta e firme precisão, 
Baterá na terra suas altas vagas. 

Certo como o sol e despercebido 
Como duma árvore é o seu crescer, 
Trabalha, trabalha sem ser iludido 
P'la tenaz imagem que se pode ver. 

E quando o seu fim de todo obtém, 
Em sonoro embate, p'ra fender, se lança, 
Seu poder imenso ainda mantém 
E, inda mais além, nas águas avança. 


in "Poesia"
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