e morreu a 29nov1969
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António Alves Redol
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Via Juvenal Amado:
A nuvem de estorninhos não cessa de enovelar e subir, de despenhar-se e fugir. Os estorninhos juntam-se para se defenderem do milhano que os espreita; já sabem que se dispersarem as garras não os poupam. Assim, em multidão, o perigo afasta-se. Os estorninhos ensinam os homens--- os homens teimam ainda em não compreender a lição.
in GAIBÉUS
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na Rua Alves Redol
em Vila Franca de Xira
está o museu do neo realismo
http://www.museudoneorealismo.pt/
Movimento literário, surgido em Portugal, no terceiro decénio do séc. XX, que, inspirado na literatura norte-americana de preocupações sociais e no romance regionalista brasileiro, procurou instaurar uma literatura comprometida com os pincípios do realismo socialista, tematizando sobretudo as condições de vida dos camponeses.
(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Lisboa, Círculo de Leitores, 2003)
GÉNESE DO MOVIMENTO
Inspirado pelas teorias marxistas do materialismo histórico e dialéctico, divulgada nos meios políticos e intelectuais portugueses em meados dos anos 30, o movimento cultural do Neo-Realismo começa a desenhar-se a partir de importantes polémicas literárias então publicadas em periódicos como O Diabo, Sol Nascente e, alguns anos mais tarde, a revista Vértice, que afirmavam uma veemente oposição ao subjectivismo presencista, ao defenderem uma “arte útil” virada para os problemas reais da sociedade, fazendo assim a ruptura com o ideário romântico e positivista do século XIX. Na verdade, as condições político-sociais de uma década marcada não só pela crescente oposição entre fascismo e comunismo, como pelos ecos de sofrimento da Guerra Civil Espanhola e o início da II Guerra Mundial, exigiam a uma nova geração de escritores maior intervenção cívica e cultural, solidarizando-se desde logo com os desígnios progressistas da esquerda europeia, desde a Revolução Russa à Front Populaire, em França, ou à defesa da ética republicana, em Espanha.
Neste contexto, obras como Ilusão na Morte (novelas, 1938) de Afonso Ribeiro, Sinfonia da Guerra (poemas, 1939) deAntónio Ramos de Almeida, ou logo depois Gaibéus (romance, 1939) de Alves Redol, Rosa dos Ventos (poemas, 1940) deManuel da Fonseca, e Esteiros (1941) de Soeiro Pereira Gomes, vêm reforçar uma nova tendência na literatura portuguesa, traduzida desde cedo por um forte espírito engagée, isto é, politicamente empenhado na transformação das condições sociais do País, desenvolvendo temas como os conflitos de classe, a elevação moral dos oprimidos ou a esperança no futuro do Homem, identificando-se assim, de imediato, com o movimento de oposição ao regime salazarista do Estado Novo.
***Via
https://www.facebook.com/pages/Alves-Redol/270564172979879?fref=ts
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biografia
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/AlvesRedol/BiogARedol.pdf
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Via António Caetano:
excerto do Romance "FANGA"


Quem o visse correr por aquelas ruas fora, julgaria que o rapaz levava algum toiro na cola. Direito a casa, ninguém foi capaz de lhe tolher o caminho, embora as perguntas chovessem de todos os lados
- Eh Manuel!... Como foi isso homem?...
- Apanhaste um calor, hã!...
Mas êle não ouvia nem via, porque tinha todo o corpo carregado da mesma alucinação. Julgavam-no apavorado de vergonha os que reparavam na sua carreira e queriam conversar, para depois ficarem no paleio algum tempo.
- O rapazinho vai mesmo moídinho de pancadas.
- Pancadas não direi, ti Rosa. Mas sempre é um vergonhaço.
- Qual coisa mulher.
Havia algumas que afirmavam ter ouvido os seus gritos tôda a noite.
- Até cortava o coração, alminha!
- Fôsse meu filho...
- Eh Manuel!... Como foi isso homem?...
- Apanhaste um calor, hã!...
Mas êle não ouvia nem via, porque tinha todo o corpo carregado da mesma alucinação. Julgavam-no apavorado de vergonha os que reparavam na sua carreira e queriam conversar, para depois ficarem no paleio algum tempo.
- O rapazinho vai mesmo moídinho de pancadas.
- Pancadas não direi, ti Rosa. Mas sempre é um vergonhaço.
- Qual coisa mulher.
Havia algumas que afirmavam ter ouvido os seus gritos tôda a noite.
- Até cortava o coração, alminha!
- Fôsse meu filho...
https://www.facebook.com/cfmcarvalho?pnref=story
O grande escritor, resistente ao fascismo e militante do PCP, Alves Redol, lembrado no dia do 103º aniversário do seu nascimento!
Alves Redol, António Alves Redol, nasceu em Vila Franca de Xira a 29 de Dezembro de 1911 e ainda muito jovem iniciou essas duas actividades, assumindo com coragem as consequências da sua postura, num tempo em que o fascismo se instalava e mergulhava o País numa negra noite que se prolongaria por várias décadas – num tempo em que as perseguições e a repressão caíam sobre todos os que, de uma forma ou de outra, ousassem contestar e combater o regime fascista.
É natural que assim seja, já que Alves Redol foi, é, uma figura maior da Literatura Portuguesa, um escritor de dimensão internacional, e complementou essa sua actividade literária com uma intensa e constante intervenção política, enquanto resistente antifascista e militante comunista.
Basta ter em conta a situação em Portugal e no mundo quando, num verdadeiro acto de coragem, Alves Redol publicou Gaibéus, em 1939.
No nosso País, o processo de fascização do Estado, concebido por Salazar,
inspirado na fascismo italiano e no nazismo alemão, tinha acabado de ser concretizado, com a censura férrea; a proibição dos partidos políticos; a promulgação do famigerado Estatuto Nacional do Trabalho; a imposição da Constituição fascista; a criação do Tribunal Militar Especial, da polícia política (então chamada PVDE), do campo de concentração do Tarrafal, da Legião Portuguesa, e de todo um vastíssimo conjunto de instrumentos repressivos. Isto enquanto, lá fora, terminava a guerra de Espanha com a vitória dos fascistas e Hitler dava início à II Guerra Mundial e ao seu sonho de domínio do mundo.
inspirado na fascismo italiano e no nazismo alemão, tinha acabado de ser concretizado, com a censura férrea; a proibição dos partidos políticos; a promulgação do famigerado Estatuto Nacional do Trabalho; a imposição da Constituição fascista; a criação do Tribunal Militar Especial, da polícia política (então chamada PVDE), do campo de concentração do Tarrafal, da Legião Portuguesa, e de todo um vastíssimo conjunto de instrumentos repressivos. Isto enquanto, lá fora, terminava a guerra de Espanha com a vitória dos fascistas e Hitler dava início à II Guerra Mundial e ao seu sonho de domínio do mundo.
O próprio Redol relembra esse tempo num prefácio que escreveu, em Maio de 1965, para mais uma edição de Gaibéus. Diz ele:
«Gaibéus tem a sua história. Banal talvez, às vezes ingénua, noutras sábia ou astuta, mais do que tudo dramática. Gaibéus nasceu quando muitos morriam por nós. Não o esqueçamos. Seria absurdo, mesmo num mundo paradoxal, olvidar o que a esses devemos. Impõe-se recordar certas datas: em Março de 1938 as tropas hitlerianas entravam na Áustria; em Setembro ocupavam o território dos Sudetas e conseguiam a paralisia estratégica da Checoeslováquia; em Março de 1939, ainda sem combate, o nazismo ocupava o resto daquele país; em 1 de Setembro de 1939 penetrava na Polónia. Seguiu-se a segunda grande guerra, que deixou o rasto do seu apocalipse 55 milhões de mortos e 5 milhões de desaparecidos. Pressentiram-na desde 1936 muitos homens desse tempo. Eu estava com eles. Gaibéus germinou nessa época e foi consciência alertada antes de ser romance. Quem o ler, portanto, deve ligá-lo às coordenadas da histórias de então. Só dessa forma saberá lê-lo na íntegra».
«Gaibéus tem a sua história. Banal talvez, às vezes ingénua, noutras sábia ou astuta, mais do que tudo dramática. Gaibéus nasceu quando muitos morriam por nós. Não o esqueçamos. Seria absurdo, mesmo num mundo paradoxal, olvidar o que a esses devemos. Impõe-se recordar certas datas: em Março de 1938 as tropas hitlerianas entravam na Áustria; em Setembro ocupavam o território dos Sudetas e conseguiam a paralisia estratégica da Checoeslováquia; em Março de 1939, ainda sem combate, o nazismo ocupava o resto daquele país; em 1 de Setembro de 1939 penetrava na Polónia. Seguiu-se a segunda grande guerra, que deixou o rasto do seu apocalipse 55 milhões de mortos e 5 milhões de desaparecidos. Pressentiram-na desde 1936 muitos homens desse tempo. Eu estava com eles. Gaibéus germinou nessa época e foi consciência alertada antes de ser romance. Quem o ler, portanto, deve ligá-lo às coordenadas da histórias de então. Só dessa forma saberá lê-lo na íntegra».
Como escritor, Alves Redol ficará na história, em primeiro lugar, como o autor do primeiro romance do neo-realismo português – Gaibéus – e, depois, por uma vasta e diversificada obra literária: romances, contos, teatro, histórias infantis, ensaios, que marcaram impressivamente a nossa literatura e fazem dele um nome maior da história da cultura portuguesa.
Com Gaibéus, Fanga, Avieiros, Vindimas de Sangue, Uma Fenda na Muralha, A Barca dos Sete Lemes, Barranco de Cegos, entre outras obras, Redol trouxe para a literatura os problemas dos trabalhadores, os seus anseios, as suas aspirações, as suas lutas. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas peças de teatro, ele toma partido: com o seu talento, com a sua inteligência, com a sua sensibilidade, toma inequivocamente o partido dos explorados, dos oprimidos, dos humilhados e ofendidos, contra os exploradores e os opressores. E sabemos as implicações decorrentes de tal opção naquele tempo de ausência total de liberdade.
Não foi por acaso que Alves Redol conheceu por duas vezes a brutalidade da PIDE – como não foi obra do acaso o facto de ele ter sido o único escritor português obrigado a submeter os seus romances à censura prévia dos esbirros fascistas.
Para os comunistas, Alves Redol é, não apenas o grande escritor que todos conhecem, mas também o companheiro de luta, o camarada que recordam com saudade e admiração, o amigo de sempre e para sempre.
Para os comunistas, Alves Redol é, não apenas o grande escritor que todos conhecem, mas também o companheiro de luta, o camarada que recordam com saudade e admiração, o amigo de sempre e para sempre.
Redol entrou para o PCP no início dos anos quarenta, num tempo que foi decisivo para a construção do PCP com as características que hoje tem. Estava então em curso a Reorganização de 40/41, primeiro e decisivo passo para a construção dos III e IV congressos do Partido, realizados, um em 1943, quando o nazi-fascismo parecia prestes a concretizar a sua ambição de domínio do mundo, o outro em 1946, já depois da derrota dessa ambição, conseguida essencialmente graças à acção do povo da União Soviética e do seu glorioso Exército Vermelho.
Esses primeiros anos da década de quarenta e o exaltante trabalho partidário levado a cabo, revelaram-se decisivos para a transformação do PCP num grande partido nacional, marxista-leninista, vanguarda de facto da classe operária e vanguarda da resistência e da unidade antifascistas.
Tudo isso imprimiu à luta antifascista uma nova dimensão, um novo conteúdo e conduziu a um fulgurante ascenso da luta da classe operária, que adquiriu expressão significativa, primeiro, logo em 1941, com a greve dos operários têxteis da Covilhã e no ano a seguir com as grandes greves em Almada, Barreiro, Setúbal e no centro e norte do País. Em 1943, o movimento grevista, sempre sob a direcção do Partido, alastra e atinge proporções consideráveis. Em Julho-Agosto desse ano, na região de Lisboa e da Margem Sul do Tejo, participam em greves 50 000 trabalhadores – número que correspondia praticamente à totalidade dos operários industriais dessa região. E em 8 e 9 de Maio de 1944, ocorrem as históricas jornadas de luta na região de Lisboa e Baixo Ribatejo.
A intervenção decisiva do PCP na organização e na luta dos trabalhadores e na intensificação das acções antifascistas, granjeou-lhe grande e justo prestígio, traduzido na adesão ao Partido de milhares de novos militantes, entre eles muito e muitos intelectuais, incluindo parte significativa dos maiores escritores, artistas plásticos, músicos, cientistas, da altura.
O ideal comunista de liberdade, justiça social, paz e solidariedade atraiu ao PCP amplos sectores da intelectualidade: homens e mulheres de todas as áreas da cultura viram no Partido a força decisiva na luta contra o fascismo, a sua política obscurantista e a repressão cultural.
A propósito da intervenção antifascista da intelectualidade portuguesa, vale a pena recordar as palavras do camarada Álvaro Cunhal, no seu extraordinário Rumo à Vitória: «ao lado do povo, os intelectuais estão contra o fascismo. Tudo quanto há de melhor na ciência, na literatura e na arte, nas profissões liberais, está pela democracia, a paz, o progresso social (…) Nem a censura, nem a apreensão de livros, nem a liquidação de jornais e revistas, nem a proibição do trabalho científico, nem a fiscalização e a supervisão fascistas das associações culturais, nem o encerramento de revistas, puderam impedir a formação e o desenvolvimento do poderoso movimento democrático da nossa “intelligentsia” (…) A atitude geral dos intelectuais portugueses contra a ditadura fascista é, por um lado, a manifestação do isolamento desta, da falta de uma base de massas, da sua política obscurantista; é, por outro lado, a manifestação da amplitude do movimento democrático, do facto de que este ganhou todas as classes e camadas da população não-monopolista».
É neste contexto de luta intensa e de intensa intervenção do Partido que Alves Redol se torna militante comunista e, enquanto tal, desenvolve grande e empenhada actividade, quer participando na organização local do Partido, quer dando o seu contributo para a construção das greves de 1943/44 – na sequência das quais Soeiro Pereira Gomes é forçado a mergulhar na clandestinidade – quer, ainda, na organização dos intelectuais comunistas.
Nunca é demais recordar os célebres passeios de barco no Tejo, essa forma engenhosa de os intelectuais comunistas se encontrarem e reunirem iludindo a vigilância da polícia fascista – passeios de que Redol é um dos principais organizadores, com Soeiro Pereira Gomes e António Dias Lourenço.
Sempre vigiado pela PIDE – que, justamente, via nele um perigoso opositor do regime – Alves Redol prosseguirá até ao fim dos seus dias essas duas actividades iniciadas na sua juventude. Com uma coerência notável ele será sempre o grande escritor porta-voz dos explorados, o antifascista consequente, o militante comunista abnegado.
Morreu em 29 de Novembro de 1969, a um mês de completar os 57 anos de idade.
Morreu comunista e o seu funeral constituiu uma impressionante manifestação do apreço, da admiração, da gratidão que lhe votavam os trabalhadores e o povo. Pelo velório do grande escritor e cidadão exemplar – realizado precisamente aqui, nesta sala da Casa da Imprensa onde o estamos hoje a homenagear – passaram centenas e centenas de pessoas, e foram milhares, muitos milhares os que acompanharam o seu corpo ao cemitério da sua Vila Franca de Xira – uma multidão brutalmente reprimida pelas forças policiais. A confirmar que, mesmo depois de morto, Alves Redol continuava a meter medo ao fascismo.
Para os comunistas, assinalar o centésimo aniversário do nascimento de Alves Redol significa relembrar o grande escritor, autor de uma obra que, pela sua qualidade literária e pelos temas que aborda, constituiu, ela própria, um precioso instrumento da luta antifascista e que, por tudo isso, mantém incisiva actualidade e perdurará no tempo; significa, igualmente, relembrar o resistente antifascista e o camarada – guardando na nossa memória colectiva o seu exemplo de integridade, de inteireza de carácter, de coerência, de coragem.
(trabalho compilado com base na intervenção de Jerónimo de Sousa no centenário do nascimento de Alves Redol)
Via JERO
“Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem".
“Se algum dia alguém me perguntasse que aprendizagem deveria um jovem fazer para chegar a romancista, se o ofício se ensinasse, eu diria que enquanto a vida lhe não desse todas as voltas e reviravoltas, amores, sofrimentos, repúdios, sonhos, frustrações, equívocos, etc., etc., (...) seria avisado que o mandasse ensinar a sapateiro, não para saber deitar tombas e meias solas, porque nem para tanto ele usufruirá, às vezes, com a escrita, mas para que ganhasse o hábito de padecer bem, amarrado ao assunto durante largos anos, antes que provasse o paladar gostoso de algumas horas de pleno prazer.”
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Via avante
http://www.festadoavante.pcp.pt/2011/noticias/alves-redol-e-manuel-da-fonseca-nasceram-h%C3%A1-100-anos
FESTA DO AVANTE! EVOCA ESCRITORES COMUNISTAS
Alves Redol e Manuel da Fonseca nasceram há 100 anos
Thu, 2011-08-18 12:25
Num ano em que a exposição política do Espaço Central da Festa do Avante! é dedicada ao 90.º aniversário do Partido, Liberdade, Democracia, Socialismo: um Projecto de Futuro, são evocados dois expoentes da cultura nacional e que são, ao mesmo tempo, parte integrante da história do PCP – Alves Redol e Manuel da Fonseca, ambos nascidos há 100 anos.
http://www.avante.pt/pt/1984/emfoco/117586/
José Casanova
Breve memória de Alves Redol
Conheci-o pessoalmente no ano de 1965.
Eu tinha saído do Forte de Peniche e, por intermédio de Redol e de um outro camarada, Francisco Louro, fui trabalhar para uma agência de publicidade – Êxito – da qual o primeiro era director artístico e o segundo, director administrativo.
Ali trabalhavam outras figuras destacadas da intelectualidade portuguesa, por sinal também militantes comunistas: Augusto da Costa Dias, que escrevera pouco antes o seu notável ensaio «A crise da Consciência Pequeno-Burguesa – o nacionalismo literário da geração de 90»; Alberto Ferreira, então entregue à tarefa de preparar o seu trabalho «Bom Senso e Bom Gosto – Questão Coimbrã» e Alexandre Cabral, que avançava na sua longa marcha camiliana.
Para mim, então um jovem de 25 anos, foi um deslumbramento conhecer tão relevantes personalidades da nossa vida cultural, especialmente ver ao vivo e falar de viva voz com o autor de tantos livros que tanto tinham marcado a minha adolescência e a minha juventude: Gaibéus, Fanga, Avieiros, Marés, A Barca dos Sete Lemes, Barranco de Cegos, Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos…
Pode dizer-se que havia ali gente suficiente para constituir uma célula do Partido… Todavia as coisas não funcionavam exactamente como hoje funcionam: a vigilância pidesca e a defesa do Partido impunham rígidas compartimentações orgânicas e obrigavam a mil cuidados conspirativos.
Coube-me a mim, por feliz circunstância, a tarefa – honrosa tarefa – de estabelecer e assegurar o contacto partidário com Redol, de lhe fazer a entrega regular da imprensa do Partido; de receber as suas quotizações e outras contribuições financeiras…
Por aquela altura, a PIDE começara a exigir cauções, em regra de dez mil escudos, aos presos que terminavam o cumprimento do seu tempo de pena: ou pagavam a caução ou permaneciam na prisão… e a Êxito, pela composição do seu quadro de pessoal – para além dos militantes comunistas, os que já referi e mais uns tantos, havia vários amigos do Partido – era um espaço privilegiado para conseguir o dinheiro necessário para essas cauções.
Guardo na memória, como recordação imperecível, esse tempo de militância: as «reuniões» que, então, fazíamos no gabinete de Redol: o director e o empregado subalterno, ali na condição comum aos dois de militantes comunistas; ali discutindo o Avante!, o Militante ou outros materiais do Partido que lhe entregara dias antes; ali debatendo a situação que se vivia no País e no mundo; ali falando de literatura; ali cimentando uma amizade que só a morte do grande escritor interromperia.
Vi Alves Redol, pela última vez, no Hospital de Santa Maria. Quase não conversámos porque o seu estado de saúde já não lho permitia.
Despedi-me dele no cemitério de Vila Franca de Xira – entre cargas das forças policiais e a resistência da enorme multidão que ali se deslocara.
E com um imenso adeus de camaradagem, de admiração, de amizade.
Domingos Lobo
http://www.avante.pt/pt/1984/emfoco/117588/
Paisagens humanas, luta e resistência
O património literário de Alves Redol
Alves Redol, nascido na sua Vila Franca de Xira há 100 anos, iniciou-se nas tarefas da escrita com um romance soberbo, romance que inaugura o nós no processo narrativo, estruturando, de modo fulgurante, o mais criativo, interventor e duradouro movimento literário do nosso século XX: o neo-realismo.
Com Gaibéus, de Alves Redol e Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, estabelecem-se as coordenadas fundamentais do quadro iniciador de um movimento cultural que pretendia traduzir, no processo literário, a luta pela dignidade da pessoa humana, como Armando Bacelar não deixou de assinalar numa nota crítica publicada em 1947 na revistaVértice.
É esta busca da dignidade que leva o então jovem autor (Redol tinha 28 anos quando publica Gaibéus) a percorrer o escuso universo dos descamisados, desses homens e mulheres que do Alto Ribatejo e das beiras desciam às lezírias pelas mondas e ceifas, trabalhando de sol a sol, amealhando uns cobres, escassos e sofridos, que lhes permitiam manter a courela e alimentar a prole nas suas serranas e madrastas terras. Este mundo da gente miúda, que olhava as éguas que pastavam de patas amarradas e exclamava, espelhando a consciência de que também eles eram éguas de mãos peadas, nunca antes fora abordado com a lucidez analítica e ideológica que o autor de Fanganos transmite nesse soberbo romance. Redol vai mais longe na abordagem dos processos do meio, sociais e materiais, que levam à desumanização do homem, que o impedem de não ter plena consciência da sua condição de explorado, de égua apeada, do que a análise que, por exemplo, o autor brasileiro Graciliano Ramos desenvolve no seu Vidas Secas,romance publicado um ano antes de Gaibéus e percorrendo os mesmo territórios de sujeição do homem face aos elementos e à usura de outros homens. Paradoxalmente, Redol não deixa de introduzir, na pirâmide social de Gaibéus, traços de solidariedade e consciencialização colectiva, que tornam este romance inicial um documento humano, uma viagem crítica, dialéctica e pungente, sobre esse território dos homens e mulheres que trabalhavam nos arrozais e sobre os quais pendia a mão persecutória de Agostinho Serra, mandante de senhores e essa abstracta e longínquaSenhora Companhia, omnipresente símbolo do capitalismo todo poderoso, causa última da degradação humana a todos os níveis da escala social. Redol, num desabafo agastado, define, com o seu verbo agreste e raso, a condição destes homens e mulheres: Os gados e os ceifeiros – tudo gado!.Em Fanga, regressará ao tema da sub-condição humana dos trabalhadores contratados, referindo-se-lhes, com a mesma secura verbal, como andando todos de cabeça baixa (…) como se tratasse de um bando de animais a comer na resteva.
A Senhora Companhia, símbolo maior da exploração das gentes da Borda d’Água, o capitalismo sem rosto, aparece referida em outros textos de Redol, nomeadamente emAvieiros e Barranco de Cegos.
Gaibéus mostra-nos um autor seguro no manejo da língua, senhor de um estilo claro, de uma peculiar forma de contar que percorreria, num labor incomum (Alves Redol teve vida breve, vindo a falecer com apenas 58 anos), 34 títulos, abarcando o conto, o romance, o teatro e as estórias para a infância; que se lançava à tarefa inicial de nos contar a saga desse rancho de homens e mulheres perdidos na lezíria imensa mas, igualmente, da oposição entre o gaibéu e orabezano, dado que este último, operário agrícola oriundo da região era já conhecedor de outras artes da lavoura, como a de valador e, nessa função se achava orgulhosamente superior aos ceifeiros. Possuía, para além disso, uma ténue percepção de classe e um poder reivindicativo que escapava aos gaibéus – e, a alguns destes rabezanos já o horizonte das fábricas de Alhandra e Alverca se abria como fuga possível à sujeição da terra e seus mandantes.
As rivalidades existentes entre os explorados, a falta de solidariedade e consciência colectiva de classe, será tema recorrente na dialéctica redoliana, a par da denúncia daqueles que, conseguindo promover-se socialmente, negam as suas origens e se transformam em traidores do povo, como acontece em Marés, Avieiros e, de forma politicamente mais comprometida, em O Muro Branco.
As linhas fundadoras de toda a configuração discursiva redoliana, vamos encontrá-las na figura do ceifeiro rebelde, e essa estrutura modelar será desenvolvida com rigor, coragem e premunição histórica e visionária, que acompanha os grandes autores, ao longo da sua vasta obra. Como afirma um dos personagens de Gaibéus: se não fossem eles (os gaibéus), mais braços da borda d’água arranjariam trabalho na Lezíria. E, mais assertivo e demolidor, noutra passagem: «Os patrões querem pessoas que não tenham domingos e se alimente de jornas baixas». 72 anos depois ainda esta verdade permanece imutável e a essência do capitalismo não mudou.
A escrita em busca dos sinais de transfiguração do real
Marés – «Em baixa-mar e praia-mar a vida agita-se como um grande oceano»
O tema das rivalidades entre assalariados é magistralmente desenvolvido no romance seguinte de Alves Redol, romance ainda de juventude: Marés. Rivalidades que serviam os interesses do patronato e que Redol, lúcido, inscreve no discurso narrativo: O Capataz sabia do ofício e incitava-os. Não eram companheiros – puxavam uns pelos outros como inimigos. (…) Esqueciam-se de que eram companheiros – que venciam a mesma jorna e tinham choupanas irmãs. A ausência de consciência e solidariedade sociais por parte dos assalariados será uma das traves mestras das teses permanentemente desenvolvidas na ficção de Redol: o poder dos exploradores só se exerce e mantém dado existirem divergências profundas entre os explorados.
Neste romance, de 1941, o autor regressa ao espaço da explanação, lírica e telúrica, da sua essência discursiva e efabulatória: as terras de riba Tejo, mas desta feita não já na lezíria imensa, nesse solo descampado e tolhido pelo sol, mas na margem Norte do rio grande, na sua Estremadura. As terras são já outras, a propriedade mais dividida e as durezas do Verão menos agrestes dado que já há sombras e árvores e os jornaleiros podem, para o sustento da prole e arredondo da féria, granjear a sua nesga de terra.
Neste romance, Redol afasta-se do épico estruturante deGaibéus, reflectindo sobre a decadência da aristocracia terratenente dos finais do século XIX e os contornos da ascensão de uma burguesia de merceeiros e industriais de riscado que a levaria, numa primeira fase, ao apoio da República e, anos volvidos, ao alinhamento acrítico com as teses mais retrógradas do salazarismo.
Marés, trata da ascensão de um filho do proletariado agrícola, Francisco da Silva Diogo, que, de marçano, ascende à categoria de patrão no comércio de secos e molhados. Retrato típico, e com tiques queirosianos, do self-made-man. O rapaz aprende cedo os meandros do negócio e, de especialista em subtrair no peso ou de deixar, por descuido, cair para o chão uma posta de bacalhau, passa a especulador, a açambarcador dos bens essenciais que o governo da República, face aos constrangimentos impostos pela 1.ª Guerra Mundial, quer tabelar. Hei-lo, vigarista, na plenitude da sua condição de burguês explorador e exercendo essa função contra o povo do qual nasceu. Mas ele é agora um homem, com amigos, com família, com alguma coisa de seu, os outros não passam de formigas: «A vida era aquilo mesmo», pensa, assustado, Francisco Diogo enquanto o Povo faminto lhe tenta assaltar a loja, «Uns formigas – outros homens. Os que estavam lá fora não eram seus irmãos. Ele caminhara e vencera. E a vida é dos que a vencem. Que a vencem, vencendo os outros, sem olhar como». E, desta vez, o ex-marçano vence uma vez mais graças à ajuda preciosa da GNR que afugenta a tiro a turba de revoltosos. Mas Redol irá deixar cair este filho do povo, este traidor de classe. A crise de 1929 arrastará o seu império de secos e molhados; o guarda-livros mostra-lhe, implacável, as letras que se vencem, o próprio filho não entende como todo o seu mundo ruiu e acabará, também ele, por desprezar o pai. E este, abandonado por todos, nem sequer tem coragem de se atirar para debaixo do comboio. Resta-lhe reflectir sobre o seu percurso e concluir que «Não há moral, porque a moral é criada e mantida por uns em prejuízo dos outros». Os Diogos, de todos os tempos, na sua ganância sem medida, «comer-se-ão uns aos outros», como Alexandre Pinheiro Torres não deixou de referir no estudo que dedicou a este notável, e actualíssimo, nas suas intrínsecas coordenadas, romance de Redol.Do herói negativo (Francisco Diogo), Alves Redol passará, no romance seguinte, à estruturação do herói positivo utilizando a personagem Olinda Carramilo.
Avieiros – Os ciganos do rio Tejo
Com o romance Avieiros, Alves Redol percorre a saga de um grupo humano raro na sua estrutura social, orgânica e cultural, esses nómadas do mar que, vindos das praias da Vieira se estabelecerão, com as suas frágeis barcaças, os seus saveiros, nas margens do Tejo, esse caminho antigo da gente da Vieira: das Caneiras, a Muge, de Escaroupim a Vila Franca. Perder-se-ão do mar e do rio, tornando-se lavradores em terras da Glória do Ribatejo? Incógnita que ainda hoje persiste e que nem mesmo Redol no seu estudo etnográficoGlória, Uma Aldeia do Ribatejo, consegue desvendar inteiramente. Mas os sinais profundos dessa identidade cultural, esse código do avieiro, permanecem nos gestos das mulheres, nos bordados, nos cantos das gentes da Glória – ainda por lá andam vivos e detectáveis.
Eis-nos, de novo, na margem esquerda do Tejo, nesse mar-rio que bordeja a Lezíria imensa. Neste espaço entre o rio e a terra larga da Senhora Companhia, desenvolverá Redol um dos seus mais interessantes romances, quer na análise social e humana do grupo principal, os avieiros, quer na técnica estrutural da narrativa. Tal como os gaibéus, também os avieiros são imigrados, gente vinda de outras terras em busca de melhor vida e sustento. Mas, o rio, tal como a lezíria, também tem os seus senhores, os seus donos, os seus capatazes.Neste romance emerge, pela vez primeira na escrita de Redol, a figura de uma mulher do povo, Olinda Carramilo, espécie de Catarina Eufémia da borda d’água, que conduzirá os pescadores, com argúcia e profundo sentido dos interesses do grupo a que pertence, da sua classe, a enfrentarem a ganância e a usura do Zé Malho, dono ou financiador das redes que, acolitado ao fiscal Júlio Gonçalves, por alcunha o Tubarão, vive da exploração dos pescadores, impondo-lhes condições intoleráveis na percentagem cobrada, sobretudo aquando da campanha do sável. Olinda organizará os pescadores em cooperativa e estes conseguirão comprar as suas próprias redes e enfrentar o Zé Malho e esse esbirro odioso que é o Tubarão: No Tejo não era Deus quem mandava, mas o Tubarão, o homem mais cruel, safardana e danoso que alguém deitara ao mundo.
Tal como Francisco Diogo, de Marés, Júlio Gonçalves, oTubarão, é igualmente um traidor de classe. Ex-pescador, arvorado em fiscal, será o capataz submisso e diligente do patrão Zé Malho. E, embora os pescadores saibam que, por detrás do Tubarão existem forças mais poderosas a vencer, que o Tubarão é o braço. Nada mais que o braço, Redol não deixa de denunciar, com veemência, os traidores de classe que estas personagens, na sua abjecção, representam.
Mas, mesmo resistindo, os pescadores, esses gaibéus do rio, serão alvo de uma actividade repressiva sem limites: o Estado, representado pelos fiscais da Senhora Companhia, protege o capital e a avidez dos Zé Malho. Eis, no subliminar metafórico, a denúncia de Redol. Mas o autor vai mais longe na análise deste microcosmos do país do fascismo, revelando em desassombro os limites da organização dos próprios explorados, as malhas que lhes tolhem a acção. E é a voz de Olinda, de novo lúcida, que acrescenta à tese o argumento demolidor: Mas o que eu vejo é que a gente se guerreia e os almocreves ganham com isso. Sempre ganharão com as divisões do povo, duramente o sabemos.
Os Avieiros, esse punhado de homens e mulheres da borda d’água, servirão a Alves Redol para denunciar o capitalismo feroz que se esconde sob o manto diáfano da retórica salazarenta e encenar as fugas, as resistências possíveis que o povo pode estabelecer em confronto com o capitalismo e definir nas páginas poderosas deste romance exemplar, embora limitado pelo cutelo da censura, um primeiro esboço de colectivismo e de combate.
Fanga - A saga dos homens sem terra
Ao contrário de Gaibéus e Marés, em Fanga Redol fala-nos desses homens desprovidos de terra, de uma leira sequer onde estender o sonho e repousar o corpo. Os que trabalham à fanga têm apenas a força dos braços, e com essa força alugam a terra dos senhores para a granjear num negócio do qual sairão sempre a perder: o que quer dizer que o dono da terra recebe sete partes da colheita, ao passo que o trabalhador só tem uma parte. Assim, os donos das terras, os latifundiários e seus lacaios, podem viver de costas direitas, gozando a vida sem esforço nem cuidados explorando, até ao tutano dos ossos, a turba de deserdados que lhes arrenda as terras: Bem vistas as coisas, o meu pai e outros tinham de trabalhar para o senhor Soromenho passear na Golegã e ainda para outro senhor gastar em Lisboa.
Alves Redol continua no Ribatejo, subindo o rio até às vastas planícies da Golegã. É outra a análise que o autor aqui nos traça da realidade portuguesa vivida nos grandes espaços fundiários nos quais, tal como acontecia no Alentejo, a exploração era mais feroz e desumana. Fanga, romance publicado em 1943, em plena 2.ª Guerra Mundial, portanto, estabelece, sem subterfúgios, os mecanismos dessa exploração à qual o fascismo, já sem máscara, dava suporte ideológico. Mas o autor, tal como em Avieiros, não deixa de reflectir nas páginas de Fanga sobre a ténue possibilidade de uma outra vida, de uma outra realidade: Manuel Caixinha aprenderá, com o suicídio do pai, com a dureza da sua experiência de vida, que a história, a história que os homens constroem com a sua força e vontade, não será sempre, como anátema ou destino, uma constante fatalidade. Manuel Caixinha, tal como Josefina Barra, sabem que o fatalismo da sua condição de explorados, de condenados à pobreza, não é irreversível: basta-lhe, para tanto, sacudir a ignorância, aprender a descodificar os sinais que os mantêm, secularmente, reféns dessa circunstância: Caixinha trocará as tabernas pela leitura, quer aprender, aprender muito, saber tudo. Saber, e isso será o principal, que os explorados são em maior número do que a minoria exploradora dos Soromenhos e Falcões (e, neste particular, os nomes estão, uma vez mais, carregados de simbologia) e que, essa maioria, se consciente, acabará por vencer. O difícil, a tarefa principal dos explorados é inverter, a seu favor, essa maioria, essa força, para conseguirem libertar-se, colectivamente, do jugo dos opressores.Se em Avieiros, Redol encena a tomada de consciência, por um grupo, do carácter comum da opressão, em Fangasublinha e sublima, nas falas de Manuel Caixinha, essa determinante de classe emprestando-lhe um sentido mais amplo: Eu sou os outros todos que vão comigo para a praça e ali se alugam. Sem eles nada valho.
Nas páginas de Fanga, Alves Redol mostra-nos como os trabalhadores, sujeitos a brutal exploração, começam a despertar para uma consciência de classe, a saber que só face à percepção da sua força colectiva poderão vencer os opressores. E Manuel Caixinha, tal como Olinda de Avieiros, ou o ceifeiro rebelde de Gaibéus esboçam os sinais que determinam essa consciência sem a qual não haverá nunca fuga, revolução possível.
Fanga é assim, pela dialéctica que o autor introduz na explanação narrativa (exploração vrs. consciência), pelo seu simbolismo contestatário, no contexto da obra redoliana, um dos seus títulos mais exemplares.
Porto Manso e o Ciclo Port-Wine – O fim do romantismo e os primórdios da industrialização
Deixando o seu Ribatejo natal, uma e outra margem do Tejo, Redol parte para terras do Douro para aí, nas escarpas que bordejam o rio, nos contar outras tantas estórias de luta, traição e exploração do homem pelo homem.
Em Porto Manso e no tríptico Port-Wine, (Horizonte Cerrado, Os Homens e as Sombras e Vindima de Sangue) Redol transfigura a paisagem romântica herdada de Júlio Diniz para de novo nos dar um testemunho pungente de um mundo ainda com traços feudais, de um país cercado pelos jogos de poder, pela usura, pela luta tenaz dos homens face à agreste natureza e pela posse da terra. Posse que simboliza poder, e, quanto maior for esse espaço, mesmo em socalcos de xisto que as chuvas e a filoxera vão amiúde destruindo, maior o poder e a sujeição de quantos não conseguem escapar ao redil de explorados.
É também sobre os sinais de um mundo em lenta e irreversível transformação; um universo fechado nas suas tradições, nas suas rotinas, nos seus rituais que começa a desmoronar-se face ao aparecimento do comboio, essamáquina infernal que transporta, com o fumo poluente das máquinas a vapor, os operários, a industrialização, o mundo novo – e um outro modo, mais violento e rapace, de exploração. O comboio substituirá os rabelos do orgulhoso arrais António do Monte e transformará as relações sociais e políticas, a paisagem e os homens. Mas é, igualmente, sobre as lutas dos pequenos produtores, os conflitos geracionais, o mito da terra, que o olhar de Redol se demorará uma vez mais arguto e demolidor; sobre esses clãs, grandes e miúdos, que têm na terra, nas escarpas do Douro, o seu território, o seu campo de combate desigual. Mas outras forças, exteriores ao seu próprio universo, se organizam para os derrotar. Não apenas a decadência da aristocracia face ao poder da burguesia em rápida ascensão (como Redol não deixará de aprofundar em Os Reinegros e, de forma linear, em Barranco de Cegos) mas o poder da grande finança, o capitalismo sem rosto, essa usura que levará à morte e à ruína, à Vindima de Sangue os pequenos produtores do Douro. A ganância que destruirá o rabelo de mestre António do Monte e o seu pequeno mundo.Neste ciclo sobre o Douro, que Alves Redol inicia com o romance Porto Manso e prolonga nos 3 títulos sequentes, o autor analisa, em soberbo enquadramento histórico-social, as vítimas de um processo, de um mundo em rápida transformação: a velha aristocracia fundiária, os pequenos produtores, uns e outros incapazes de travar a ascensão de homens sem escrúpulos (definido pela personagem Silva Costa) que apenas vêem no lucro e na cupidez, no poder do dinheiro, a sua razão de ser. Regressando a um tema recorrente na obra do autor de Gaibéus, a ausência de consciência de classe, tanto dos pequenos produtores como dos jornaleiros, e desse grupo último na escala social constituído pelos ranchos que vêm de Trás-os-Montes e das Beiras para as vindimas, que os transformará em vítimas fáceis dos grandes senhores das terras, Alves Redol traça e configura as complexidades de um tempo e de um sistema.
Redol não deixa de introduzir nestes títulos do Ciclo Port-Wine, nomeadamente em Vindima de Sangue, outras questões, como a luta entre Norte e Sul, dado que o vinho produzido no Sul é mais barato do que o Porto que o chão do Douro, agreste e xistoso, produz (e, quem no estrangeiro o consome nunca saberá, desde que no rótulo venha aposto o nome da região desse néctar famoso), e os caminhos da República, a ascensão de um burguesia mercantilista, e dos camilianos brasileiros torna viagem e o fim de uma aristocracia em rápido processo de definhamento.
O Douro serve a Redol para traçar o retrato realista de um tempo de mudança, de um tempo novo opondo-se ao tempo velho, arrastando nessa análise o fim do romantismo, do seudiáfano manto, e dando-nos das gentes do Alto Douro e Beiras o retrato invertido do pícaro genial de mestre Aquilino Ribeiro.
A República em «Os Reinegros», «O Muro Branco» e «Barranco de Cegos»
A análise mais vasta da sociedade que a República vem introduzir, os seus desvios e consequências, a ascensão ao poder dessa burguesia de merceeiros e industriais de riscado(o próprio pai de Redol tinha mercearias e padarias em Vila Franca de Xira, e o autor chegou a ser marçano nos estabelecimentos do pai, embora a contragosto), será brilhantemente retratada no romance Os Reinegros, o romance maldito de Redol, escrito em 1945 e proibido pela censura, publicado postumamente em 1972. Em O Muro Branco, o seu último romance, publicado em 1966, Redol regressa ao tema dos traidores do povo, na figura de Zé Miguel Rico e, lateralmente, abordando pela primeira vez na sua escrita a questão da homossexualidade, entendida aqui, em páginas de uma rara incursão pelo psicológico, comodefeito. A República, essa revolução burguesa, essa oportunidade perdida para o povo miúdo, terá tratamento analítico mais abrangente e socialmente aprofundado e crítico nessa obra prima que é Barranco de Cegos.
Esse trabalho de contínuo e apurado exercício ficcional, culminaria com a publicação, em 1961, desse título que a crítica considera o seu melhor romance e uma das obras-primas do romance português contemporâneo, a par deSeara de Vento, Sinais de Fogo, Esteiros, Casa na Duna, O Delfim. E é interessante repescar alguns paralelismos que Redol introduz neste texto, com estes dias que nos tentam fazer viver: a crise de 1891, com o país em bancarrota; as reservas do Banco de Portugal esgotadas; a falência doBanco Baring Brothers, em Londres; o fecho de fábricas, a falência do comércio, os suicídios em massa – crise esta, a de 1891/92, que se deveu, como a actual, «à especulação pura» dos mercados.Barranco de Cegos será uma espécie de obra síntese de todo o universo romanesco de Alves Redol. Os temas que o autor sempre manteve nas suas narrativas voltam a estar presentes, embora numa escrita muito mais segura, depurada e majestática: a busca de verosimilhança no dicotómico verdade/ficção; os mitos da Tradição, Família, Terra; o regresso a um lirismo absorvente e romântico na melhor tradição camiliana (Maria do Pilar/Zé Pedro); os medos da industrialização e os perigos do republicanismo vistos segundo o prisma do latifundiário; o mundo hierarquizado dos senhores da terra e a rebeldia espúria dos explorados (o Saca Rolhas).
Os Diogo Relvas, os senhores de Aldebarã, estão aí, vivos e de chicote em riste e sabendo que para as suas tarefas de esbulho e opressão «Homens para rebanho não faltam». Mas também a eles se oporão os Zé Fomecas, também eles, como Diogo Relvas, verão um dia os seus Palácios Mãe-do-Sol desmoronados.
As ideias centrais que estruturam a obra romanesca de Alves Redol são o espelho de um tempo e dele permanecerão sinais indeléveis na história portuguesa do século XX. Sem Redol e outros seus companheiros da escrita e da arte neo-realista, seríamos hoje seguramente mais pobres.
Os elementos, a paisagem e o espaço na estrutura narrativa de Redol
A água e o sol são elementos constantes na narrativa redoliana. A terra agreste, o sol inclemente, vamos encontrá-los nos romances Gaibéus, Fanga e Barranco de Cegoscomo denominadores de sujeição do operário agrícola, trabalhando de sol a sol, mais um factor que impõe as rédeas da exploração a juntar aos maiorais e aos donos do latifúndio. Igualmente a água como fonte de energia, como necessidade vital áuga, áuga, gritam os ceifeiros na Lezíria imensa; e, de outra forma, como elemento estruturante e conflitual da narrativa: o Tejo, em Avieiros, o Douro em Porto Manso. De resto estes dois rios vamos encontrá-los omnipresentes na descrição que o autor faz dos espaços, da paisagem em que os diversos romances têm lugar: Gaibéus, Marés, Avieiros, Fanga, Barranco de Cegos, O Muro Branco, Os Reinegros, quanto ao Tejo; Porto Manso, Horizonte Cerrado, Os Homens e as Sombras e Vindima de Sangue, no que ao Douro diz respeito.
Se nos romances que têm o Ribatejo como elemento telúrico principal o sol é de uma inclemência insuportável, como emGaibéus, «Só planície e céu – céu e planície», ou determinante do horário, do martírio a que os ceifeiros estão sujeitos e os levará à revolta no início dos anos 1960, sol sobre o qual construirão subliminares mensagens sociais através das «fandangadas»: Vai-te sol, vai-te sol,/Lá pra trás do barracão.../És alegria prà gente/E tristeza prò patrão; já a terra xistosa, agreste e dura dos socalcos durienses se estabelecerá como elemento principal de angústia e esforço dos alugados.O mar, ceifador de vidas, vamos encontrá-lo, na sua fúria elementar, como protagonista na estrutura romanesca deUma Fenda Na Muralha e, mais tarde, no guião que Redol escreve para o filme Nazaré, de Manuel Guimarães.
O espaço afectivo, aquele que a escrita de Redol melhor expressa e conhece, a paisagem pela qual o seu olhar se espraia com inquestionável e sensitiva paixão – não raro violenta face à realidade social que percepciona – é sem dúvida o das terras da Borda d´água, as terras da Estremadura e Ribatejo. Mas, igualmente, e com o mesmo percurso de perscrutador de paisagens humanas singulares, no seu realismo etnográfico, outras paisagens habitam nos seus romances não menos impressivas e profusamente reveladas na sua autenticidade e verosimilhança. Os romances do Ciclo Port-Wine e Porto Manso, são paradigmas dessa busca pela verdade das gentes e das paisagens que os povoam. É o homem face ao seu tempo, ao meio, à sua condição e às condicionantes sócio-políticas que o seu arguto olhar desvenda e que se inscreve na escrita modelar, interventiva e crítica do autor de Fanga.
Conclusão
A obra que Alves Redol ergueu, poderosa na sua configuração estética, interventiva e cultural, iniciou-se como uma contra corrente que se impôs, como antítese, à «política do espírito» desse ideólogo do fascismo que foi António Ferro, mas, de igual modo, e não menos combativo, opondo-se ao conservadorismo estético da Presença, sendo ainda, num registo mais sóbrio, igualmente de ruptura com o ideário político-cultural que António Sérgio e Raul Brandão defendiam nas páginas da Seara Nova.
A escrita de Redol é de claro compromisso com o povo e a sua cultura, com um projecto de elevação social e cultural do povo, definido pelo grupo neo-realista de Vila Franca de Xira (1936/37) e do qual faziam parte Alves Redol, Dias Lourenço, Garcez da Silva, Bona da Silva, Mário Rodrigues Faria, Arquimedes da Silva Santos e Carlos Pato.
Daí a pesquisa incessante das fontes: no Douro, nas lezírias do Tejo, na Lisboa das docas e do operariado urbano; na Nazaré dos amores desesperados, da heroicidade dos homens frente ao mar bravio, revelada em Uma Fenda na Muralha, imaginário que o autor transporta para o guião a partir do qual Manuel Guimarães realizou o filme Nazaré; as conversas no Aljube com um mercenário a soldo do franquismo, ou as metamorfoses de um herói (A Barca dos Sete Lemes); a Lisboa da 2.ª Guerra, cidade povoada de judeus em busca de um passaporte que lhes permitisse serem livres em terras da América (o Cavalo Espantado), tema, sobre a diáspora dos judeus, igualmente presente no livro de contos Nasci com passaporte de turista. Uma busca permanente desse espaço telúrico essencial, a um tempo lírico, desassombrado e agreste, o corpo textual interdependente do corpo social, pelos caminhos em que as tarefas dos homens, dos descamisados, melhor se expressa e afirma. As paisagens humanas, esse conflituoso, esquivo território em que o homem se representa inteiro, se move, se expõe, consciencializa, luta e transfigura.
Alves Redol constrói com autenticidade, uma plêiade imagética única e poderosa na ficção portuguesa de grande parte do século XX, anunciando outro tempo, o tempo da afirmação e da dignidade do humano, da sociabilidade, da arte romanesca como espaço privilegiado de intervenção cultural e política que o neo-realismo veio fixar e, como nenhum outro movimento literário e artístico do século XX português, tornar perene.
Esse posicionamento face à literatura vamos encontrá-lo logo em Gaibéus, no ceifeiro-rebelde, no qual o pensamento do então jovem escritor se projectava. Ele simboliza, no seu esquematismo individual, a idealização da consciência colectiva que só nas obras posteriores o autor desenvolverá com mais clareza. Daí o ceifeiro rebelde, demiurgo do sonho colectivo, saber que «Falava pelos homens que ainda não se haviam encontrado».
Para nos encontrarmos, face às lutas deste nosso tempo, precisamos destas vozes, desse grito que ia para o futuro,destes autores, deste exemplo cívico, cultural e humano que a obra de Alves Redol lúcida e plenamente inscreve na imanência do corpo textual da literatura portuguesa contemporânea.
Repesco aqui um excerto de um texto de Mário Dionísio publicado na Seara Nova em 1942: «Quando mais tarde se estudar a literatura portuguesa do século XX, os seus períodos de apogeu e os seus períodos de decadência, o estudo de Alves Redol impor-se-á como o estudo do primeiro grito de reacção contra a enxurrada de abstenções e falsidades» sobre a realidade desses tempos. A verdade opondo-se à mistificação, eis o que Redol oferece,reclamando, em pleno, o direito de cidade, às letras portuguesas.
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Bibliografia
Alves Redol – Horizonte Revelado – Museu do Neorealismo/Assírio e Alvim
Viviane Ramond – A Revista Vértice e o Neo-Realismo Português – Angelus Novus
José Manuel Mendes – Charrua em Campo de Pedras – Seara Nova
Alexandre Pinheiro Torres – Os Romances de Alves Redol – Moraes
Garcez da Silva – Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca – Caminho
Álvaro Salema – Alves Redol: a obra e o homem – Arcádia
Obras de Alves Redol
http://www.avante.pt/pt/2096/argumentos/128762/
Textos publicados e inéditos
Todo o teatro de Alves Redol
Não advogo, naturalmente, uma cultura teatral do fechamento ou da pacóvia ignorância, xenófoba e redutora, face a dramaturgias oriundas de outros países, mas defendo, isso sim, um critério mais exigente, mais criterioso e informado dos produtos culturais, que não tenham como vectores apenas as questões económicas das companhias, ou as pressões exercidas pelos adidos culturais, ou por modismos de passagem, mas que possam, nas suas consignas, colocar-nos perante o novo, o diverso, e a exigente pesquisa que no campo teatral possam surgir em dramaturgias alheias e, por essa via, contribuir para o nosso enriquecimento cultural. E, claro, defendo como princípio um panorama em que a dramaturgia portuguesa contemporânea não seja, como hoje é, face à implantação cénica dos textos, residual e subalternizada. Aos teatros nacionais, sobretudo, deve ser exigida a função primordial de amostragem e encenação de textos da nossa dramaturgia, tanto os clássicos como os contemporâneos, visando, desse modo a preservação, em território tão esquivo, na particularidade das artes cénicas, de uma dramaturgia nacional.
As preocupações dos autores indígenas perante o desinteresse das nossas companhias e dos responsáveis pela cultura, na criação de uma dramaturgia nacional, não é fenómeno apenas dos dias rapaces que vivemos. Se nos reportarmos ao século XX, em que este divórcio, por motivos políticos, sobretudo, foi mais evidente – constrangimentos que foram impostos pela censura, sendo a peça Forja, de Redol, um dos alvos dessa sanha persecutória – verificamos que as diferenças não serão substantivas.
Em 1946, com a criação do Teatro-Estúdio do Salitre, de Luís Francisco Rebello, entre outros, jovens actores e dramaturgos acolitados a um ensaísta de renome (Gino Saviotti), o Teatro português começa a abrir-se a novos horizontes e a outras preocupações estéticas. Nesse espaço foi possível ver representadas peças de Rebello, Vasco Mendonça Alves, Branquinho da Fonseca, Pedro Bom, Alves Redol (aí se estreia a sua peça Maria Emília) e Rodrigo de Melo, dramaturgos que nessa função encontravam um ambiente propício à criação cénica dos seus textos. Mas foi fogo-fátuo. Primeiro, a censura, com o seu habitual cerco castrador a tudo o que ressumasse laivos de modernidade e inteligência, depois, as sempre eternas dificuldades económicas impedindo o estabelecimento de um projecto continuado e duradouro.
Em 1947, começam a aparecer textos ensaísticos na recentemente criada revista Vértice, de Coimbra, nomeadamente sobre o teatro de Frederico Garcia Lorca. E é nessa revista que Luís Francisco Rebello se refere, com entusiasmo, ao teatro de Armand Salacrou e à sua peça Les nuits de la colére. Também Joaquim de Oliveira se referia, naVértice, «à situação catastrófica do teatro português» desses anos 1940, defendendo a criação de um movimento reformador que conferisse ao teatro a sua «verdadeira missão», defesa que hoje, e posta nestes termos, face à boçalidade e ignorância com que a actual maioria PSD/CDS trata as questões da Cultura, nos soa estranha e algo bizarra. Mas foram preocupações similares que levaram à criação, em Paris, do Teatro Nacional Popular, experiência da qual o teatro, tal como o entendemos, ainda hoje é herdeiro.
Anos volvidos, finais de 1950, no Porto, António Pedro iniciava um dos mais duradouros e profícuos projectos teatrais do século XX, com o Teatro Experimental do Porto. Um intelectual vindo das fileiras ideológicas do salazarismo, das hostes do dadaismo luso, mas convertido – após uma estadia em Londres – aos ideais socializantes, nessePortugal possível, no dizer de Ruy Belo, propunha um modo outro de entender o Teatro e de no-lo dar a ver. Num pequeno estúdio, com meios ínfimos, António Pedro encenou Torga, Santareno, Rebello, Francisco Ventura, António José da Silva, Romeu Correia, a par da grande dramaturgia europeia e anglo-saxónica: de Steinbeck, a Hugo Betti, de O’Neill, a Oscar Wilde, de Miller a Pirandello. O TEP foi, em termos nacionais, a grande escola de teatro, um mundo aberto à experimentação e às novas tendências que então afloravam e que iam de Coupeau a Stanislavsky.
A primeira tentativa de montagem da peça de Alves Redol,Forja, escrita em 1947, partiu do actor/encenador Rogério Paulo que, juntamente com um grupo de grandes nomes do nosso teatro, tentou encenar o texto, em 1960, no palco do então Teatro Avenida. Intenção que a censura frustrou. A estreia desta tragédia do autor de Fanga viria a ter lugar por um grupo de amadores do Buzi (Moçambique), dirigidos por Salvador Rego o qual, em 1965, a apresentou no Festival de Teatro de Manica e Sofala.
No longo Prefácio que, em Abril de 1966, Alves Redol escreveu para a edição do volume Teatro I (que incluía as peças Forja e Maria Emília) o autor explica o profundo significado social e político desse magnífico texto: A forja desta tragédia é Hiroxima, tão distante e tão perto de cada um de nós. Nela arderam homens como meus tios se queimaram em pequena forja de ferreiro, todos sacrificados à mesma mão incendiária que os devorou.1
Com organização, prefácio e notas de Miguel Falcão, o livroTeatro – Textos Publicados e Inéditos, dá à estampa o conjunto da produção dramática de Alves Redol. O organizador situa a obra de Redol no contexto mais largo do neo-realismo, percorrendo o historial cívico e criativo do autor, fazendo-o de forma pedagógica e informada, inventariando a sua vasta produção literária, acrescentando pistas de leitura e de pesquisa que nos parecem úteis e necessárias, não apenas para o estudo específico do nosso neo-realismo, mas abordando com acuidade e sentido crítico as próprias condições em que o Teatro português tem sobrevivido e os limites que hoje, face às derivas neoliberais, o tolhem e limitam.
O Teatro, como Redol e os seus pares o entendiam, deverá ser um jogo, um jogo levado às suas extremas coordenadas conflituais, expressando a própria condição do homem –incerta e vária. E será, segundo Dullin, o transbordar da imaginação sobre a vida que revela os homens a si mesmos.Roger Vaillant, no seu ensaio Expériense du Drame afirma que de todas as criações do homem, o espectáculo teatral é o que mais se parece com um organismo vivo. E essa componente, a Arte Viva que o Teatro é, só se realiza através da montagem cénica de um texto. É essa representação das dinâmicas, que profundamente estão implantadas na vida, que tem faltado à dramaturgia portuguesa. É necessário que o Teatro feito por autores portugueses passe do livro, do papel, deixe de ser um pré-texto, e se implante no corpo, na voz dos actores; cresça e se transfigure nas tábuas de um palco: só dessa forma, a Vida que os textos expressam se cumprirá inteira e o jogo se estabelece.
Teatro – Textos publicados e inéditos, de Alves Redol – Prefácio, Organização e Notas de Miguel Falcão – Ed. Imprensa Nacional – Casa da Moeda/2013
1Alves Redol, Teatro I, 2ª. edição, p.32, Lisboa, 1970, |Publicações Europa-América\
Via RTP
http://ensina.rtp.pt/artigo/alves-redol-1-a-parte/
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http://ensina.rtp.pt/artigo/alves-redol-1911-1969/
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http://www.rtp.pt/rtpmemoria/?t=Alves-Redol-Vida-e-Obra.rtp&article=3263&visual=2&layout=19&tm=46
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http://www.rtp.pt/programa/tv/p8375
O percurso existencial e literário do escritor Alves Redol
A partir de uma entrevista concedida a Igrejas Caeiro na década de 50, propõe-se reconstituir o percurso existencial e literário de Alves Redol. Ao discurso direto vêm juntar-se imagens que ilustram os momentos mais marcantes daquele que é considerado o iniciador do neo-realismo em Portugal, num todo sublinhado ainda pela leitura, na voz da atriz Clara Joana, de textos de Redol e pela música de Carlos Paredes.
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira em 1911.
Através das suas palavras faz-se uma evocação da meninice do escritor, os tipos sociais que o influenciaram. Os ciganos e as gentes
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira em 1911.
Através das suas palavras faz-se uma evocação da meninice do escritor, os tipos sociais que o influenciaram. Os ciganos e as gentes
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http://www.rtp.pt/programa/tv/p28401
Mais um testemunho da vida de um escritor exemplar
Em 2011 comemora-se o centenário do nascimento do escritor Alves Redol, nascido em Vila Franca de Xira a 29 de Dezembro de 1911, um dos mais influentes nomes do Neorrealismo português.
Para além do registo de depoimentos de amigos, de pessoas que o conheceram, de familiares e de intelectuais seus contemporâneos, o seu filho António Redol presta um conjunto de depoimentos sobre momentos marcantes da vida de seu pai. Estes depoimentos revelarão ao grande público aspectos menos conhecidos (e alguns desconhecidos) só possíveis de serem contados por quem teve uma proximidade única com o escritor,
***
Sobre o livro GAIBÉUS~

http://www.citador.pt/biblio.php?op=21&book_id=1238
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Sobre MARÉS

http://www.citador.pt/biblio.php?op=21&book_id=1239
EXCERTO:
Para além do registo de depoimentos de amigos, de pessoas que o conheceram, de familiares e de intelectuais seus contemporâneos, o seu filho António Redol presta um conjunto de depoimentos sobre momentos marcantes da vida de seu pai. Estes depoimentos revelarão ao grande público aspectos menos conhecidos (e alguns desconhecidos) só possíveis de serem contados por quem teve uma proximidade única com o escritor,
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Sobre o livro GAIBÉUS~
http://www.citador.pt/biblio.php?op=21&book_id=1238
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Sobre MARÉS
http://www.citador.pt/biblio.php?op=21&book_id=1239
EXCERTO:
A porta cedia. Uma pedra caiu-lhe aos pés, depois de um tilintar de vidros. Mais pedras vieram. Deitou-se no chão – ouvidos atentos, respiração incerta.
Lembrou-se do Dionísio. Aquele sim, não voltava a cara ao mais pintado. Abrir ele mesmo a porta e mostrar-se.
– Eh, gente! Aqui estou!...
Braços abertos a tapar a entrada. Um sorriso de confiança.
– Então?!...
Mãos vazias de cacete ou pistola – mãos cheias de vigores.
– Quem quer que avance!
E os que viessem tombariam a seus pés. Os outros hesitariam – sem gritos. Vencidos. (…)
Mas o Dionísio, se vivesse, não estaria ali dentro com ele. Envolvido com os outros lá de fora, a abalar-lhe as portas com os ombros. O Dionísio passara a vida a ser servo – servo de todos, menos de si. E ainda bem que morrera. Porque sozinho valia um mar de gente.
Compreendia agora que tomara outro caminho. Nascera como o Dionísio e subira. Nascera formiga, como o Seu Isidro, e fizera-se homem. Homem que não via as formigas.
As portas rangiam. As pedras batiam no balcão.
Erguer-se e abrir as portas
– Irmãos! Tomai tudo, porque tudo é vosso!...
***

***
Lembrou-se do Dionísio. Aquele sim, não voltava a cara ao mais pintado. Abrir ele mesmo a porta e mostrar-se.
– Eh, gente! Aqui estou!...
Braços abertos a tapar a entrada. Um sorriso de confiança.
– Então?!...
Mãos vazias de cacete ou pistola – mãos cheias de vigores.
– Quem quer que avance!
E os que viessem tombariam a seus pés. Os outros hesitariam – sem gritos. Vencidos. (…)
Mas o Dionísio, se vivesse, não estaria ali dentro com ele. Envolvido com os outros lá de fora, a abalar-lhe as portas com os ombros. O Dionísio passara a vida a ser servo – servo de todos, menos de si. E ainda bem que morrera. Porque sozinho valia um mar de gente.
Compreendia agora que tomara outro caminho. Nascera como o Dionísio e subira. Nascera formiga, como o Seu Isidro, e fizera-se homem. Homem que não via as formigas.
As portas rangiam. As pedras batiam no balcão.
Erguer-se e abrir as portas
– Irmãos! Tomai tudo, porque tudo é vosso!...
***
29 de Dezembro de 1911: Nasce o escritor Alves Redol, em Vila Franca de Xira.
Escritor
português, natural de Vila Franca de Xira, António Alves Redol nasceu a 29 de Dezembro de 1911 e faleceu 29 de Novembro de 1969. Figura central do neo realismo português, foi autor de uma vasta obra ficcional, que inclui o teatro e o conto.
Filho de um pequeno comerciante ribatejano, obteve um curso comercial e, cedo, teve de se iniciar no mundo do trabalho. Ainda jovem, partiu para Angola à procura de melhores condições de trabalho, mas lá conheceu a pobreza e o desemprego. De regresso a Portugal, à capital, desenvolveu várias atividades profissionais e enveredou nos meandros da oposição ao Estado Novo ingressando no Partido Comunista. De início, tornou-se colaborador do jornal O Diabo, mas a sua veia literária acabaria por se manifestar em 1939. Empenhado na luta de resistência ao regime salazarista, compreendeu a literatura como forma de intervenção social e, nesse mesmo ano, surgiu o seu primeiro romance, Gaibéus, cujo assunto, relacionado com problemas
sócio-económicos
vividos pelos ceifeiros, fez desta obra o marco do aparecimento do neo realismo.
A sua literatura não se caracteriza pela escrita de histórias ficcionadas, mas essencialmente pela abordagem da realidade social e de experiências vividas.
Ao longo de uma longa e coerente produção literária, Alves Redol trouxe para o romance personagens, temas e situações, ignorados pela literatura, postura que lhe valeu, simultaneamente, o êxito junto de um grande público e o ataque impiedoso da crítica, que apontava como deficiências de escrita a linguagem simples da sua prosa e o esquematismo das tramas romanescas. Acusações que pareciam corroboradas pela despretensão e modéstia literárias manifestadas pelo autor nas epígrafes das suas obras, como sucede em Gaibéus, precedido do aviso de que "Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem". No prefácio a Barranco de Cegos (Lisboa, 1970), Mário Dionísio compara o destino da obra de Redol ao dos romances de Zola, que ao escolher temas malditos como o operariado e os conflitos sociais, recebeu durante anos a aversão dos críticos, até ser redescoberto em leituras inovadoras que revelaram a estrutura épica dos seus romances e a reformulação de mitos contemporâneos nessa prosa chocante, intensa, por momentos quase surrealista.
De entre a sua obra destacam-se Gaibéus (1939), Fanga (1943), a trilogia do Ciclo Port-Wine (1949-1953) e Barranco de Cegos (1962), porventura o seu romance mais conseguido. Escreveu também as peças de teatro Forja (1948) e O Destino Morreu de Repente (1967).
Alves Redol. In Infopédia
[Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
wikipedia(imagens)

Alves
Redol por Bottelho
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