11/08/2015

9.928.(11ag2015.8.8' ) Edith Warton

Nasceu a 24jan1862
e morreu a 11ag1937
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Via Pensador:
Abram bem o vidro. Deixem-me beber o dia!
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Há duas maneiras de espalhar a luz: ser a vela ou o espelho que a reflecte.
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A verdadeira solidão é viver entre todas essas pessoas amáveis que só pedem para fingir.
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Se pelo menos não vivêssemos tentando ser felizes, até que poderíamos nos divertir bastante.
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Ele desejava-a tal como ela era e não como ela gostaria de ter sido.

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Há senhoras que seguem a cultura em bandos, como se fosse perigoso encontrá-la sozinhas.

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autora de "A Idade da Inocência" 

http://hasempreumlivro.blogspot.pt/2009/10/idade-da-inocencia-de-edith-wharton.html
Edith Jones, Wharton pelo casamento, nasce em 1862 em Nova Iorque, no seio de uma
 sãs famílias mais tradicionais e abastadas da Costa Leste. Educada na Europa, movimenta-se
 dentro do círculo das elites de ambos os continentes, no ambiente restrito da aristocracia e 
da alta burguesia financeira, deparando-se com o desafio imposto pela sua personalidade 
anti-convencional em vencer os preconceitos típicos de uma sociedade ultra-conservadora 
para fazer aquilo de que mais gosta: escrever e publicar.
Aos 23 anos casa com o banqueiro Edward Robin Wharton, de quem se divorcia vinte e
 oito anos depois.
A sua primeira publicação de sucesso data de 1902 com 
The Valley of Decision. Antes tinha 
escrito The Touchstone (1900). No entanto, o primeiro grande romance só é publicado em 1905, 
coincidindo com a época do divórcio, cuja temática incide numa virulenta crítica à alta 
sociedade norte-americana.
O pendor realista está muito presente na obra desta autora, de espírito inconformista, o que 
se evidencia sobretudo em Ethan Frome (1911) a enfatizar a luta individual face à pressões sociais 
orientadoras da conduta; e, também, em The Custom of the Country de 1913. Mas é com A Idade da
 Inocência que em 1921 obtém o Prémio Pulitzer e o reconhecimento internacional como escritora. 
Contou, também, com o apoio incondicional de um grande amigo, o escritor Henry James,
 nome que dispensa apresentações.

Edith Wharton passa a viver em Paris, a partir de 1907 e, em 1915, é condecorada com
 a Legião de Honra Francesa pelo auxílio prestado a refugiados de guerra. Virá a falecer
 em França, na localidade de Saint-Brice-sous-Fôret, em 1936.

A trama de A Idade da Inocência gira à volta de um triângulo amoroso composto por 
Newland Archer, advogado, oriundo de uma família abastada, gestor das propriedades
 do vasto clã que inclui a própria família e a da mulher. As suas inclinações afectivas 
colocam-no num dilema que opõe o seu carinho por May – a jovem com quem parece 
destinado a casar-se e que perece reunir todos os atributos considerados válidos e que 
a tornam elegível para esposa de alguém com os pergaminhos de Newland – à paixão 
que nutre pela Condessa Olenska que, após passar uma longa temporada na Europa 
regressa, divorciada e com modos afrancesados, a remeter levemente para a licenciosidade 
da corte de Versailles no tempo do Rei-Sol.

Archer é, também, um jovem de espírito inconformista – mas só em privado – que é sufocado 
pelo apertadíssimo espartilho das normas de conduta social, num meio onde a aparência
 de verticalidade e uma reputação sem mácula é tudo o que conta para a preservação do 
prestígio social desejável para se ser um modelo de conduta, invejado e imitado pelos 
demais. O equilíbrio precário entre impulsos e desejos a necessidade de submissão às 
convenções associados ao medo de se ser marginalizado levam Archer ao dilema 
existencial no qual reside o motor de desenvolvimento da narrativa.
May, a jovem com quem Archer é por todos os que o rodeiam subtilmente pressionado 
a casar, tem todas as qualidades que é suposto reunir uma jovem esposa de um 
advogado em início de carreira. Muito jovem, inexperiente, amante do exercício
 físico intenso, May não partilha do entusiasmo de Newland Archer pelas artes
 plásticas, arquitectura e paixão pelas letras. Talvez por a família da própria May 
ser de índole essencialmente pragmática, com os interesses centrados exclusivamente 
nos negócios e na vida social, os Weelland não conseguem interessar-se por actividades 
do foro intelectual senão superficialmente. A forma como May foi educada teve como 
prioridade o apego excessivo às convenções, o que cria algumas dificuldades no que 
respeita à conciliação das próprias afinidades com as de Archer. May é uma mulher
 inteligente mas frívola, com capacidade para amar mas a quem a educação revestiu
 de uma camada de gelo de tal forma espessa que se torna impossível de derreter. May
 tem sempre o gesto e o tom de voz certo para cada ocasião, tendo também desenvolvido
 a capacidade de colorir uma contrariedade ou censura com um sorriso ou uma frase 
apaziguadora. No entanto, esta característica acabará por fazer dela uma pessoa 
dissimulada e incapaz de enfrentar as situações, preferindo optar pela manipulação.

Ellen Olenska, legalmente casada com um aristocrata europeu reside em Paris. Prima 
de May, foi educada pela irreverente tia Medora Manson e pela maliciosa e condescendente 
Avó Catherine, as quais ajudaram a moldar uma personalidade tão inconformista quanto 
a de Archer. Após escandalizar a ultra-conservadora elite da costa este nova-iorquina, 
ao debutar com um vestido de cetim preto. Casa-se com um nobre da Europa do Leste, 
mudando-se para o Velho Continente, onde vive durante largos anos, numa atmosfera
 de luxo rendilhado de boémia, mas onde é respeitada. O fracasso do casamento com um 
marido de personalidade autocrática, além de dissipador, leva-a a regressar ao ninho da 
família de origem em busca de refúgio. Ao chegar, depara-se com a muralha das convenções. 
Todos parecem estranhar a sua maneira de vestir, ao olhar desconfiadas a figura da Condessa,
 desta vez num vestido de corte império, totalmente deslocada da figura estilizada das damas
 do início da belle époque, que olham com receio os seus modos exuberantes, recheados
 de estrangeirismos. No entanto, o principal motivo de receio é que a nódoa que constitui
 o estigma social altamente pejorativo de “mulher divorciada”, possa macular, de alguma 
forma, a aparência impoluta da imagem moral da família Weelland-Archer. O que mais 
abominam é a publicidade negativa que possa ser associada a um escândalo de ordem
 sentimental. Por isso, não é de estranhar que seja precisamente a família mais próxima 
a recear a presença da condessa Olenska. Sobretudo pela possibilidade de esta desviar
 a atenção de Archer relativamente à noiva. Por outro lado, temem a possibilidade de os 
seus pares lhe virarem as costas, recusando-se a sentar à mesa com uma mulher “transviada”.
 Na realidade, a maior parte dos convidados para o jantar de boas vindas a Olenska declina 
o convite. Para isso, será necessário recorrer aos Van der Luyden, o casal mais idolatrado 
e inacessível da Costa. O controlo social é apertadíssimo contando, para tal, com a minúcia
 que raia a mesquinhez dos árbitros das elegâncias, peritos em mexericos, como Sillerton
 Jackson que se entretém a apontar as supostas falhas dos outros de forma a desviar a
 atenção da própria conduta.


Olenska gosta de quebrar convenções a cada momento, apesar dos esforços para não o 
fazer – tanto na forma de vestir como na conduta em sociedade como, por exemplo,
 ao falar com homens, nem sempre bem conceituados no que toca a respeitabilidade 
com as mulheres, a qualquer altura do dia, independentemente do estado civil.
No entanto, a superioridade do carácter de Olenska destaca-se pela coerência com que
 ultrapassa convenções sem se sujeitar aos convencionalismos impostos pela opinião
 pública acerca de si própria. Sobretudo a de quem a não conhece directamente, a ela
 e às circunstâncias em que toma determinadas atitudes.

Quando Mrs Beaufort cai em desgraça, devido à imprudência do marido nos negócios,
 a solidariedade de Olenska para com a prima é de uma coragem a toda a prova, 
ao contraria a atitude dos seus pares, que decidem votar o casal ao ostracismo, 
mediante um imprudente lance financeiro. Defendem, também, que uma escolha 
mal calculada deve ser mantida indefinidamente.


Perante isto, Olenska escolhe desde cedo, viver de acordo com as próprias regras
e ser ela própria a seleccionar as suas amizades. Primeiro, num contexto social onde 
lhe é permitido fazê-lo, como a Paris da viragem do século XIX para o século XX, 
onde conquista o prestígio social por mérito próprio, depois junto da família de origem,
 após o divórcio e, por último, novamente em Paris. Outro aspecto que faz com que
 Olenska se destaque da tribo a que pertence tem a ver com o estratagema “airoso”,
 dotado de falsa solidariedade, com que esta se tenta livrar dela, como o elemento incómodo,
 fazendo questão de sempre se afirmar como dona do seu próprio nariz e fazer o que 
muito bem entende. A própria família Van der Luyden, idolatrada pela mesma tribo
 como o protótipo da perfeição, acaba por ajudar a família de Ellen e May na altura 
de se livrarem daquela por a considerarem uma ameaça ao casamento de May. Para tal, 
organizam-lhe um jantar de despedida como se a homenageassem. Nesse momento, 
Ellen Olenska apercebe-se que todos a tomam por amante de Archer. Na realidade este chega, 
por duas vezes, a pensar em abandonar a cidade e traçar um plano de vida em comum 
com Olenska. Mas acaba sempre por ceder às pressões familiares, quer antes quer 
depois do casamento.

No epílogo, percebemos o lento processo de mudança, a marcar o comportamento 
das gerações seguintes, numa perspectiva optimista que transparece no discurso
 da Autora. Nos mais velhos, as atitudes e inibições solidificadas durante tantos anos,
 tendem a persistir. Só os jovens se movimentam segundo outras premissas. Assim se explica
 a atitude passiva de Archer numa altura em que poderia ter invertido o rumo das vidas de ambos, 
deixando-se levar pela inércia e comodismo. Atitude que transporta consigo, ao longo de toda
 a vida, passadas cerca de duas décadas. Isto porque a acção do tempo colabora no sentido da
 erodir a vontade e a iniciativa. Trata-se de uma das ideias mais importantes que a Autora
 pretende transmitir: Archer, após analisar todo o leque de oportunidades perdidas, 
apercebe-se de que viveu uma felicidade a meia haste, sem usufruir de todo o seu potencial.


Nesta fase da vida, Archer observa o comportamento dos jovens da geração a que pertencem 
os seus próprios filhos e de May, nos anos vinte do novo século, cuja mentalidade revolucionária 
favorece o afrouxamento das convenções, tal como acontece no vestuário, onde é abolido 
o espartilho e as saias começam a deixar ver as pernas.


Também nesta altura as fronteiras entre as classes sociais parecem ter ficado mais permeáveis, 
permitindo por exemplo, o fechar de olhos relativamente à origem de algumas fortunas. 
A mudança geracional ocorrida nos E.U.A., neste curto espaço de tempo, acompanha a 
evolução tecnológica, com a introdução e a disseminação do uso do telefone, as viagens
 mais rápidas. Tudo factores que aproximam a pessoas e agem como facilitadores da
 interacção social no sentido de permitirem ultrapassar algumas barreiras, desmantelar
 alguns preconceitos e desvalorizar estereótipos.


No entanto, a mensagem mais importante do romance é aquela que é introduzida por
 Ellen Olenska quando se refere à figura da Górgona que, ao contrário da lenda, não transforma
 propriamente os homens - ou as mulheres – em pedra. Apenas os endurece, no sentido 
em que “seca as lágrimas”. É a perda da inocência, onde o homem ganha, em troca,
 a resistência ao sofrimento. Ambos - inocência e sofrimento - se desintegram, devassados 
pela fria luz da realidade.


Onde o preço a pagar será, talvez, as emoções, doravante petrificadas…

Cláudia de Sousa Dias
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Com direção de Martin Scorsese, A Época da Inocência traz Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder no elenco.
https://www.youtube.com/watch?v=-HbZmFd8ONY
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