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e morreu a 13fev2002
http://www.avante.pt/arquivo/20020214/472c6.html
Faleceu, em Lisboa, com 72 anos, Carlos Aboim Inglez, membro do Comité Central do PCP e da Comissão Central de Controlo.
Muitas centenas de pessoas, entre as quais o secretário-geral do PCP, Carlos Carvalhas, e vários outros membros da direcção do Partido, passaram pela capela mortuária da Igreja de S. João de Deus, onde o seu corpo esteve em câmara ardente, prestando-lhe uma última homenagem. O seu funeral seguiu ontem, à hora do fecho da nossa edição, para o cemitério do Alto de S. João.
O Secretariado do CC do PCP, em nota à comunicação social, manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento deste «destacado militante e dirigente comunista» que «dedicou desde muito jovem a sua vida à causa dos trabalhadores e aos ideais do socialismo e da democracia».
Estudante do Curso de Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, empregado de livraria e delegado de propaganda médica, Carlos Aboim Inglez empenhou-se desde muito jovem na luta antifascista, desenvolvendo intensa actividade em colectividades populares e tornando-se dirigente do Movimento Associativo Estudantil, do Movimento da Paz e do MUD-Juvenil.
Membro do PCP desde 1946 e funcionário do Partido na clandestinidade desde 1953, assumiu diversas responsabilidades, tendo estado preso nas cadeias fascistas, durante dez anos. Tornou-se membro suplente do Comité Central em 1958 tendo passado a membro efectivo em 1974.
Foi membro do Executivo e do Secretariado da Direcção de Organização Regional de Lisboa e responsável pelo Sector Intelectual. Desde 1990 que era membro da Secção Internacional.
Aboim Inglez foi deputado à Assembleia da República e vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PCP, e também deputado ao Parlamento Europeu.
Foi membro da Comissão Central de Controlo e Quadros e pertencia actualmente ao Comité Central e à Comissão Central de Controlo.
***Dormiu em minha casa por 2 vezes para evitar a viagem para Lisboa de noite
depois de estar em reuniões aqui em Alcobaça
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Foi responsável da coordenação nacional dos professores
com a Zita Seabra...
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http://www.avante.pt/pt/1640/nacional/9413/
em Lisboa
Rua Carlos Aboim Inglez
O antigo dirigente comunista Carlos Aboim Inglez, falecido em 2002, entrou na toponímia da capital, na passada terça-feira, com a inauguração, na freguesia da Charneca, de uma rua com o seu nome. A placa foi descerrada pela sua companheira, Maria Adelaide, que vinha acompanhada pelas duas filhas, Margarida e Isabel. Junto ao local, várias dezenas de camaradas e amigos estiveram presentes.
Margarida Aboim Inglez fez uma intervenção sobre os sonhos e aspirações do seu pai. Contando a sua aproximação ao PCP – do qual foi membro do Comité Central desde 1958 e até à sua morte –, relatou outros aspectos da vida do histórico dirigente: «Era uma personalidade convicta, apaixonada e até obstinada, mas, simultaneamente, sempre capaz de aprender com os outros.»
Carlos Aboim Inglez passou dez anos na prisão e muitos mais clandestino. Depois da Revolução, destacou-se pelo seu trabalho teórico sobre vários temas, bem como na secção internacional do Partido.
Margarida Aboim Inglez recordou ainda outras das características do seu pai: «Comovia-o um rosto, um sorriso, tal como sorria, feliz, ao ver as massas em movimento, e sempre que reconhecia, na face do seu povo, a imagem confiante do protagonista da história.» E citando-o, terminou: «Através de tudo, fui feliz, com o muito que vós, e tantos mais, me deram enquanto vivo. Façam o mundo melhor, mais justo e mais humano. Por isso sempre lutei.» É tudo isto e muito mais que se esconde atrás da placa anunciando a «Rua Carlos Aboim Inglez – político».
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AO RETRATO DE CATARINA Carlos Aboim Inglez Esses teus olhos enxutos Num fundo cavo de olheiras Esses lábios resolutos Boca de falas inteiras Essa fronte aonde os brutos Vararam balas certeiras Contam certa a tua vida Vida de lida e de luta De fome tão sem medida Que os campos todos enluta Ceifou-te ceifeira a morte Antes da própria sazão Quando o teu altivo porte Fazia sombra ao patrão Sua lei ditou-te a sorte Negra bala foi teu pão E o pão por nós semeado Com nosso suor colhido Pelo pobre é amassado Pelo rico só repartido Tanta seara continhas Visível já nas entranhas Em teu ventre a vida tinhas Na morte certeza tenhas Malditas ervas daninhas Hão-de ter mondas tamanhas Searas de grã estatura De raiva surda e vingança Crescerão da tua esperança Ceifada sem ser madura Teus destinos Catarina Não findaram sem renovo Tiveram morte assassina Hão-de ter vida de novo Na semente que germina Dos destinos do teu povo E na noite negra negra Do teu cabelo revolto nasce a Manhã do teu rosto No futuro de olhos posto |

Aboim Inglês preocupou-se, nos últimos anos de vida, sobre o tema da globalização, sob uma perspectiva marxista, articulando-a com a noção de fases na mundialização do capitalismo e a noção de imperialismo.
Poeta, mostrou grande interesse pela poesia portuguesa, como se nota no facto de incluir várias notas sobre poesia no "Avante!", como a respeito de Sá de Miranda, Camões ou Gil Vicente. Interessava-o as relações entre o pensamento materialista e a controvérsia medieval entre o realismo e nominalismo.
Quando morreu, pediu para ser cremado ao som do Coro dos Escravos da Ópera Nabucco, de Verdi.
https://www.youtube.com/watch?v=BET3yKIUkOA
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UMA GOTA NO CAUDAL
Sozinhos, que somos nós?
Gota de água diminuta
sumida da terra enxuta....
Nem a sede de uma boca
pode assim ser saciada,
porque sós não somos nada,
nem fonte de nenhum rio,
nem onda do mar ou espuma,
maré de coisa nenhuma.
Gota a gota a terra bebe.
rompe o ventre e verte um fio,
cresce a fonte e faz-se rio.
Quantas rotas tem o mar?
Quantas vagas a maré?
Quem as conta perde o pé.
Gota a gota. Cada é pouca.
Mas se a vida é una e vária
cada gota é necessária.
Mesmo sós sejamos sempre
uma gota no caudal,
diminuta, fraternal.