30/12/2014

9.312.(30dez2014.7.7') Miguel Urbano Rodrigues

Nasceu a 2agosto1925
*
e morreu a 27mAIo2017
 *
O PCP endereçou à família o seu pesar pelo falecimento de Miguel Urbano Tavares Rodrigues, reconhecido jornalista e escritor com percurso de intervenção política em Portugal e no estrangeiro, antes e depois do 25 de Abril, ao longo de muitas décadas. Era membro do PCP desde Janeiro de 1964.
Como jornalista exerceu funções diversas desde 1949, no «Diário de Notícias» e «Diário Ilustrado», posteriormente no Brasil, jornal «O Estado de S.Paulo» e «Portugal Democrático» e na revista brasileira «Visão» até 1974. Após o 25 de Abril de 1974 foi chefe de Redacção do «Avante!» e entre 1976 a 1985 director do jornal «O Diário».
Foi Presidente da Assembleia Municipal de Moura entre 1986 e 1988 e Deputado do PCP na Assembleia da República entre Agosto de 1987 a Outubro de 1995.
Destaca-se a sua intervenção como jornalista de investigação e reportagem, sendo autor de vários livros.
 http://www.pcp.pt/face-ao-falecimento-de-miguel-urbano-rodrigues
***
biografia
Miguel Urbano Rodrigues
http://www.diarioliberdade.org/component/comprofiler/userprofile/miguel.html
***
muitos artigos d' opinião em
http://www.odiario.info/
***

MODERNIDADE DE MARX

Via
http://www.odiario.info/?p=3509
e
http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=8052%3Amodernidade-de-marx&catid=61%3Acultura-revolucionaria
No Rio de Janeiro, em casa de uma amiga, caiu-me nas mãos por acaso um daqueles livros raros que nos lançam em meditação inesperada.
O título da edição brasileira, A Armadilha da Globalização, não é esclarecedor. Foi editado em 1998 pela Globo. Os autores são dois jornalistas alemães, Hans Peter Martin e Harald Schumann.
Hans Peter foi um dos três jornalistas convidados a acompanhar um estranho evento internacional realizado num hotel de luxo em São Francisco, em 1995. O promotor do Encontro, que não mereceu atenção dos media estadunidenses, foi Mikhail Gorbatchov. O tema era muito ambicioso: O futuro da Humanidade.
Participaram 500 representantes da chamada elite mundial, entre os quais George Bush pai, Margaret Thatcher, Ted Turner, da CNN, eminentes professores de Harvard e Oxford e economistas e sociólogos vindos da Europa, de Tóquio e Pequim.
Os debates duraram três dias e as intervenções não podiam exceder 5 minutos, com os pedidos de apartes limitados a 2 minutos.
Houve consenso relativamente a uma «tese» de David Packard, o poderoso patrão da Hewlett Packard. Apoiado em previsões estatísticas, afirmou com convicção que em meados do século XXI 20% da população mundial será suficiente, graças aos progressos da ciência e da técnica, para garantir o bom funcionamento da economia. Ficou implícito que uns 40% das classes médias então existentes terão uma vida agradável, mais ou menos ociosa por serem supérfluos para a produção.
Não ficou claro, porém, qual seria a função dos restantes 40%.
Nenhum participante defendeu a necessidade de eliminar essa fração sobrante da humanidade. Mas de algumas intervenções, aplaudidas, transpareceu que guerras, secas, inundações e epidemias incontroláveis contribuiriam para que a população do planeta Terra fosse reduzida ao nível considerado adequado pelos grandes do capital.
Interessado em conhecer a repercussão desse Seminário da elite da Finança mundial, soube por um amigo americano que Gorbatchov foi, no final, efusivamente felicitado.
A HISTÓRIA NÃO ACABOU; E O MARXISMO RENASCE
A previsão sobre o Fim da História foi formulada pelo norte-americano Francis Fukuyama em 1989.
Esse funcionário do Departamento de Estado, hegeliano fora de tempo, festejou prematuramente a morte do comunismo, proclamando a eternidade do neoliberalismo.
Transcorridas décadas, o seu exercício de futurologia é ridicularizado inclusive por acadêmicos de direita.
A História continua e a crise mundial iniciada nos EUA desacreditou o neoliberalismo.
Quanto ao marxismo, voltou a despertar um enorme interesse em escala mundial.
O Manifesto Comunista tem sido reeditado em dezenas de países. Congressos sobre Marx e a sua obra são promovidos na Europa, na América Latina, na Ásia.
Em França, um Seminário sobre O MARXISMO NO SÉCULO XXI, promovido na Sorbonne por Jean Salem, é acompanhado na Internet por umas 30 000 pessoas. Nos últimos anos, Salem tem corrido o mundo para falar sobre Marx em universidades europeias, asiáticas, africanas e latino-americanas.
Ensaios sobre o pensamento do autor de O Capital são editados em muitas línguas.
Marxistas como o húngaro István Meszaros, o italiano Domenico Losurdo, o inglês David Harvey, o alemão Michael Krakte, o argentino Claudio Katz, os franceses Georges Labica, Jean Salem e Rémy Herrera adquiriram prestígio mundial com a publicação de trabalhos que confirmam a extraordinária atualidade da obra de Marx.
A ofensiva do capital contra as grandes conquistas dos trabalhadores posteriores à da II Guerra Mundial, desencadeada após 1973, acentuou-se depois do fim da URSS. A contrarrevolução neoliberal, liderada por Thatcher e Reagan, tirou da gaveta as teses ultramontanas de Hayek e em poucos anos desmantelou na União Europeia o chamado «estado do bem-estar social».
A DESIGUALDADE AUMENTOU
Os mais ricos enriqueceram prodigiosamente, as massas oprimidas empobreceram e uma percentagem considerável vegeta hoje na pobreza ou numa miséria absoluta.
Um relatório da ONU divulgado em 1990 informava que 358 bilionários concentravam na época um património equivalente à renda total de 45% dos cidadãos mais pobres do mundo, 2.300 milhões de pessoas. Os três primeiros da lista tinham fortunas superiores ao PIB de países com 600 milhões de habitantes. Desde então o fosso aprofundou-se, mas houve mudanças na pirâmide dos bilionários. Hoje o homem mais rico do mundo é o mexicano Slim, que ultrapassou o americano Bill Gates, da Microsoft. Essa troca de lugares é por si só esclarecedora do nível da exploração a que são submetidos os trabalhadores do México.
As relações de poder alteraram-se profundamente no último quarto de século. A URSS desagregou-se, a Rússia e os países da Europa Oriental não são mais socialistas; a China, sob a direção do Partido Comunista, é um gigante mundial que pratica um capitalismo atípico; e os EUA, incapazes de superar a crise estrutural do capitalismo, desencadeiam guerras de saque na Ásia e na África no âmbito de uma estratégia de dominação planetária.
Um sistema midiático perverso, que desinforma a Humanidade, tornou-se o instrumento de poder fundamental para o imperialismo. O desencadeamento das agressões contra países que os EUA pretendem ocupar e saquear é sempre precedido de campanhas que as justificam em defesa das liberdades, da democracia, dos direitos humanos…
Desmontar a falsificação da Historia é, portanto, hoje uma exigência na luta contra a alienação dos povos.
Nunca foi tão necessário compreender o mundo e a estratégia da ideologia hegemônica, o capitalismo.
Essa situação favoreceu o «renascimento» do marxismo. Daí a importância dos intelectuais que contribuem para a modernidade de Marx neste início do seculo XXI.
Já Lenin dizia que não há revolução vitoriosa sem teoria.
DAVID HARVEY
Em recente visita ao Brasil, Ivana Jinkings ofereceu-me parte da monumental obra de David Harvey, nomeadamente a segunda edição de «Os Limites do Capital».
Publicado em 1982, esse livro não se desatualizou, pelo contrário. Ajuda-nos a compreender uma humanidade diferente, ameaçada de extinção por um sistema que, sob a máscara da democracia, é tão perigoso como o nazismo.
Harvey não é um revisionista. Em Os Limites do Capital propõe-se a facilitar o entendimento dos textos do genial filósofo alemão, « adaptá-los de maneira que possam lidar com as complexidades da nossa época».
O objetivo é compreender um tempo em que o capitalismo, como ele afirma, se consolidou em países como o México, a África do Sul e a India e conseguiu implantar- se na Rússia e na China.
Harvey nos lembra que «o significado do Estado mudou dramaticamente nos últimos 30 anos e que o principal agente de pressão nessa mudança foi algo chamado globalização». Alinha com aqueles que «consideram o Estado como um momento vital na dialética e na função contraditória da acumulação do capital».
Noutro dos seus livros, o geógrafo e pensador britânico define o novo imperialismo como «fusão contraditória da política do Estado e do império e dos processos moleculares da acumulação do capital no espaço e no tempo».
Harvey, creio, cumpre hoje um papel que lembra o do francês Georges Politser no início do século XX, quando tornou o marxismo acessível a milhões de operários.
Harvey dirige-se a um público diferente, de intelectuais e jovens estudiosos do marxismo, mas isso não retira importância à sua obra.
Nestes dias de confusão ideológica em que partidos como o Syriza grego e o Podemos espanhol semeiam a confusão em meios progressistas ao surgirem com máscara de esquerda, os livros de David Harvey representam uma valiosa contribuição para o regresso de Marx.
Verifiquei, sem surpresa, no Brasil que a intelectualidade burguesa promove ali com entusiasmo o livro Marx no século XXI, de Thomas Pikkety. Tal como em Portugal, tentam apresentar o autor como um continuador de Marx quando, na realidade, o acadêmico francês é um reformador do capitalismo com uma mundividência antagônica à marxista.
Neste tempo de barbárie capitalista e de luta creio que a leitura da obra de David Harvey seria útil a dirigentes de partidos comunistas europeus que acreditam ingenuamente na possibilidade de contribuírem para a futura construção do socialismo utilizando as instituições criadas pela burguesia.
Vila Nova de Gaia, dezembro de 2014
***
Via:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=823842264360118&set=a.113367988740886.18583.100002030573081&type=1&theater
Atenas, 30 de Maio de 2015
Sobre a grécia
O SYRIZA SEM MÁSCARA
(por Miguel Urbano Rodrigues)
Manifestação do PAME, 1º Maio 2015. O governo presidido por Tsipras tem vindo aceleradamente a deixar cair as suas promessas eleitorais. Tanto no plano interno como no plano internacional, a sua política é a do patronato, do grande capital, dos pólos europeu e norte-americano do imperialismo. O governo Syriza-Anel, que tem contado com o apoio transparente da burguesia, cria dificuldades à luta dos trabalhadores, mas não pode impedir a ascensão da luta de massas. Depois do êxito dos desfiles do 1º de Maio multiplicam-se em toda a Grécia as manifestações e as greves. Pode suceder que o Syriza, que tão útil foi ao capital na oposição, perca essa utilidade agora que está no poder.
Os dirigentes das principais potências da União Europeia e os media controlados pelo capital projectam no mundo uma imagem da Grécia grosseiramente deformada. Na caracterização da crise começam por esconder que os empréstimos concedidos à Grécia se destinaram a financiar o grande capital financeiro no âmbito da estratégia da União Europeia. Contrariamente ao que amplos sectores sociais admitiram, o governo Syriza-Anel foi recebido com agrado pelas organizações e representantes do mundo empresarial.
A coligação do Syriza com o Anel - partido nacionalista e xenófobo - formou-se em poucas horas porque existia um acordo prévio. É aliás significativo que a Federação Helénica de Empresas (SEV) e o director-geral de Business-Europe tenham felicitado Alexis Tsipras logo após a sua nomeação para primeiro-ministro.
As linhas gerais da política capituladora do novo governo foram traçadas com antecedência, mas Tsipras e o seu ministro Varoufakis esforçaram-se inicialmente nos seus discursos por transmitir ao mundo a imagem de um governo de esquerda, empenhado em realizar reformas progressistas de ruptura com a política da Nova Democracia e do PASOK, que respondessem às aspirações do povo. Confundir as massas foi objectivo prioritário.
Acompanhando uma chuva de promessas, o governo criou uma linguagem enganadora. O memorando passou a chamar-se "acordo-ponte", a troika "grupo de Bruxelas”, as privatizações "colaborações".
HIPOCRISIA E SUBMISSÃO OSTENSIVA
O êxito eleitoral do Syriza a 25 de Janeiro foi uma consequência do profundo descontentamento popular. O povo votou contra a política da Nova Democracia – PASOK que arruinara o país, empobrecera dramaticamente os trabalhadores em nome da competitividade e rentabilidade do capital.
Num contexto em que o desemprego atingira os 26,8%, o Syriza fez promessas que na prática não ultrapassavam políticas assistencialistas similares às aplicadas por outros governos burgueses, inclusive os do PASOK e da Nova Democracia, para gestão da pobreza extrema e da miséria absoluta. Não tinha, sublinhe-se, a intenção de as cumprir, como ficou demonstrado.
Prometeu, por exemplo, restabelecer o salário mínimo em 751 euros, mas manteve-o em 580 euros. Afirmou que reduziria drasticamente o IVA, mas engavetou rapidamente a promessa, e agora está negociando o seu aumento. A condenação frontal da "austeridade" cedeu lugar a uma "austeridade suavizada". Transcorridas poucas semanas, ficou ainda mais transparente que o governo Syriza-Anel se propunha a desenvolver uma política capitalista, totalmente alinhada com a estratégia e as políticas da União Europeia.
Afirma despudoradamente que a Grécia pagará integralmente a sua gigantesca dívida externa de 374 mil milhões de euros, pela qual não cabe ao povo grego nenhuma responsabilidade. A lentidão das negociações com Bruxelas não deve gerar ilusões. Acabaram por chegar a um acordo, como ambas as partes desejavam. Segundo declarou Varoufakis, será assinado antes do final de Junho. Registe-se, porém, que na última reunião do Comité Central do Syriza um sector minoritário desse partido criticou o acordo, manifestando-se contra a sua aprovação.
Para favorecer os grupos monopolistas e o patronato em geral, o governo precisa de realizar tímidas reformas nas áreas da política monetária e fiscal. As contradições existentes na União Europeia e no relacionamento desta com os EUA teriam de se reflectir no diálogo do governo com as potências imperialistas.Cabe lembrar que Washington disputa à Alemanha a hegemonia na Europa e tudo faz para sabotar as relações económicas do governo de Ângela Merkel com a Rússia.
O afastamento do ministro da Economia, Varoufakis, do papel de "negociador" foi tema de interpretações fantasistas. Na realidade, essa decisão não teve motivação ideológica, resultando da sua personalidade e estilo. É esclarecedor ele ter sido professor de uma universidade norte-americana e ser um keynesiano, defensor assumido do capitalismo e do aprofundamento das relações com os EUA. Declarou enfaticamente que está de acordo com 70% das medidas do memorando imposto pela troika.
O "Acordo de 20 de Fevereiro", negociado com o Euro-grupo, prolongou a validade do memorando. O governo Tsipras-Anel manteve todos os compromissos assumidos pelo governo de Samarás e os anteriores, e abre a porta a um pacote de novas medidas anti-populares: aumento de impostos, privatizações de infra-estruturas estratégicas, cortes em áreas sociais (saúde, educação, segurança social) e nos salários da função pública, benefícios fiscais para os grandes grupos económicos, etc. A privatização do porto do Pireu intensifica-se com o aumento do controlo privado para 51% – e perspectiva da venda de mais 16% num futuro próximo – bem como outras estruturas privadas e 14 aeroportos regionais.
Aliás, a Nova Democracia, o Pasok e o Potami apressaram-se a declarar que votarão a favor do Acordo de 20 de Fevereiro se ele for submetido ao Parlamento, e expressaram disponibilidade para aprovar qualquer acordo que mantenha a Grécia na zona euro.
MAIOR INTEGRAÇÃO NA NATO
O governo Syriza-Anel tem afirmado que pretende fortalecer as relações com os Estados Unidos e a NATO, instrumento militar da sua estratégia planetária de dominação imperialista. O ministro da Defesa, político de extrema-direita, defende um aprofundamento da cooperação com Israel. Ao visitar os EUA sugeriu a exploração conjunta dos recursos energéticos do Mar Egeu.
O governo coligado criou condições para a intensificação de manobras da NATO no país, alargando a cooperação com as bases militares da organização no território nacional. O ministro da Defesa propôs inclusive a instalação de mais uma base militar da NATO na ilha de Karpathos.
Não obstante a asfixia financeira, o governo de Tsipras aprovou uma verba de 500 milhões de dólares para modernização de aviões obsoletos Lockheed, destinados a missões de vigilância da NATO no sudeste do Mediterrâneo.
Numa exibição das suas contradições, discordou primeiro da imposição de um novo pacote de sanções à Rússia, mas depois aprovou-as. Aceitou também participar na escalada militar no Médio Oriente, invocando como pretexto "a protecção das populações cristãs" contra o chamado Estado Islâmico. Ampliam-se as relações com o estado terrorista de Israel, assumindo o perfil de uma aliança estratégica. Logo nos primeiros dias do actual governo, o ministro da Defesa sugeriu a criação de um espaço de defesa comum que inclua Chipre e Israel.
A Grécia acha-se cada vez mais envolvida nos projectos agressivos do imperialismo para a Região e, portanto, cada vez mais exposta aos perigos inseparáveis dessa política. É nesse contexto que o capital grego encara as suas relações com as outras potências capitalistas. A visita a Moscovo de Tsipras inseriu-se nesse quadro.
IRREDUTIVEL OPOSIÇÃO DO KKE
A direcção do KKE declarou desde o início da campanha eleitoral que não aceitaria em hipótese alguma participar em qualquer governo burguês.
O Partido Comunista está consciente das dificuldades da sua posição.
O facto de o Synapismos, núcleo do catual Syriza, ter sido formado por dissidentes do KKE contribuiu para que grandes media internacionais apresentassem o partido de Tsipras como força política radical e até revolucionária. O apoio do Partido da Esquerda Europeia (criado para desmobilizar a classe operária), de partidos comunistas reformistas como o PCF e o PCE ao governo Syriza-Anel, e da social-democracia europeia em geral também gerou alguma confusão.
O KKE desempenha um papel fundamental na organização da luta contra as medidas anti-populares do actual governo. A votação do projecto de lei que apresentou no Parlamento para abolição do memorando e das leis anti-populares tem sido adiada. Será certamente derrotado pela maioria.
O governo Syriza-Anel, que tem contado com o apoio transparente da burguesia, cria dificuldades à luta dos trabalhadores, mas não pode impedir a ascensão da luta de massas.
O Syriza com o seu populismo demagógico continua a confundir amplos sectores sociais. Mas a sua máscara apresenta-se cada vez mais esburacada. No momento em que escrevo multiplicam-se em toda a Grécia as manifestações e as greves. O êxito dos desfiles do 1º de Maio iluminou bem a atitude de milhares de trabalhadores perante uma política classista, favorável ao grande capital. Para os dias 11 e 23 de Junho foram convocadas pelo PAME – a frente de trabalhadores e organizações sindicais na qual o KKE desempenha um papel fundamental – grandes manifestações.
O capitalismo não tem soluções para a sua crise estrutural. Está condenado a desaparecer e a única alternativa é o Socialismo. O KKE não desconhece que no actual contexto europeu e mundial a agonia do monstruoso sistema de exploração do homem será provavelmente lenta. Mas como partido revolucionário marxista-leninista a estratégia do KKE não é elaborada em função de um calendário para a tomada do poder. Os comunistas gregos não excluem a possibilidade de uma agudização das contradições e antagonismos, situação essa que poderia desembocar numa guerra imperialista na Região.
De dirigentes seus ouvi repetidamente a afirmação de que [o Partido] está preparado para "todas as eventualidades".

29/12/2014

9.311.(29dez2014.23.44') Matilde Vieira - pré júnior - nadadora do CNAL


Foi convocada para treinos da selecção
http://www.fpnatacao.pt/noticias/1419371209-convocados-para-estagios-zonais
São conhecidos os nadadores convocados para os estágios zonais da Seleção Nacional Pré-Júnior que se vão realizar na Murtosa (Zona Norte), nos dias 10 e 11 de janeiro de 2015, e em Peniche (Zona Sul), nos dias 17 e 18 de janeiro de 2015. Estes estágios são promovidos pela Federação Portuguesa de Natação em colaboração com as Associações Territoriais.
***

Matilde, Inês e Carolina
***

Foto do CNAL
***

Matilde Vieira Vice-Campeã Nacional

O Clube de Natação de Alcobaça (CNAL) esteve em grande evidência, no passado fim de semana, nos Campeonatos Nacionais de Infantis, em Rio Maior, em piscina de 50m, onde se fez representar por 4 nadadoras: Sara Rocha, Filipa Silva, Inês Silva e Matilde Vieira, entre 468 nadadores presentes em representação de 89 clubes. O CNAL conquistou 2 lugares do pódio: Matilde Vieira (infantil B) chegou ao 2º lugar nos 100m Costas e ao 3º lugar nos 200 Costas.
No total foram batidos 15 novos recordes pessoais e dois recordes do clube onde mais uma vez Matilde Vieira se destacou ao bater os recordes dos 100 Livres e 200 Costas, o que deixa o CNAL mais uma vez orgulhoso dos seus atletas.

9.310.(29dez2014.21.12') Rudyard Kipling

Nasceu a 30dez1865
e morreu a 18 jan1936
***
biografia

http://www.truca.pt/ouro/biografias1/rudyard_kipling.html
***
O grande poema que me deram de prenda em 1975...
Se

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.
Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas
Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos
Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres
Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos
Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo
Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo
Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.
Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"
Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente
Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender
Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado
Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam
Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!

(Tradução de Vitor Vaz da Silva do poema "IF" de Rudyard Kipling)
***
Dito por João Villaret
https://www.youtube.com/watch?v=wbSzumecW5c
***
Via:
 http://www.arquivors.com/kipling1.htm
Dois poemas de Rudyard Kipling


A FÊMEA DA ESPÉCIE
  
Se o camponês do Himalaia encontra um urso feroz,
ele grita para o monstro, de modo a baixar-lhe o facho;
mas a ursa fêmea, acossada, mostra as garras, mostra os dentes,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando Nag, a cobra, astuto, ouve passos descuidosos,
se arrasta às vezes, de lado, evitando algum empacho;
mas a sua companheira não se arreda do caminho,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando os Jesuítas pregaram para os Hurons e os Choctaws,
rezavam por não ser presas do feminino penacho,
que elas – e não os guerreiros – é que os faziam tremer,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O peito tímido do Homem explode sem dizer nada,
pois da Mulher por Deus dada não se dispõe com despacho,
mas a história do marido confirma a do caçador –
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O Homem, urso em muitos casos, verme ou selvagem em outros,
propõe negociações e reconhece o contrato;
só muito raro é que torce a lógica da evidência
até a extrema conclusão, num imperdoável ato.

Medo ou tolice é que o impelem, antes de punir os maus,
a dar julgamento justo ao vilão mais irreflexo.
O júbilo aplaca-lhe a ira; dúvida e pena não raro
pasmam-no em muitas questões – para o escândalo do Sexo!

Mas a Mulher por Deus dada cada fibra de seu corpo
numa questão só aplica, de ânimo aceso em fogacho;
e por concluir a questão, prevendo falhas futuras,
a fêmea da espécie tem de ser mais mortal que o macho.

Quem Morte e tortura enfrenta pelos que tem junto ao seio,
não a detêm pena ou dúvida – não se curva a fato ou piada.
Isso é diversão para homens, de que a honra dela não pende;
Ela, a Outra Lei que nós temos, é aquela Lei e mais nada!

Ela não pode dar vida para além do que a engrandece,
como a Mãe do Infante ou como Companheira do seu Par;
e quando, faltando Infante e Homem, clama o seu direito
de femme (ou barão), é o mesmo o equipamento a empregar.

Com convicções é casada, pois faltam laços maiores;
suas rusgas são seus filhos, e ai de quem disso se esquece!
Não terá frios debates, mas pronta, desperta, instante,
a guerrear por esposo e filho, a fêmea da espécie.

Sem provocações e ameaças, a fêmea do urso assim briga;
e com a fala que envenena e rói, a cobra sem dó;
e vivisseção científica do nervo até que ele seque,
e de dor se estorça a vítima – como com o Jesuíta a squaw!

Assim é que o Homem, covarde, quando se ajunta em concílio
com seus bravos companheiros, para ela um lugar não rende
onde, em guerra com a Consciência e a Vida, levanta as mãos
a um Deus de abstrata justiça – que mulher alguma entende.

O Homem sabe! E sabe mais: que a Mulher que Deus lhe deu
deve ordenar sem impor-se, sem obrigá-lo ao agacho;
e Ela sabe, pois o avisa, e Seus instintos não falham,
que a fêmea da Sua espécie é mais mortal do que o macho!
 
 
 
 
A PROMETIDA
 
"Você terá que escolher entre mim e o charuto.”
CASO DE QUEBRA DE PROMESSA MATRIMONIAL, CIRCA 1885
 
Abram a velha charuteira,
dêem-me um Cuba bem fornido;
complicaram-se as coisas, Maggie
e eu nos temos desentendido.
 
Por causa do Havana brigamos,
brigamos por um bom charuto,
e eu percebo que ela exagera,
e ela então me chama de bruto.
 
Abram a velha charuteira;
que por um instante eu sossegue,
vendo através do véu azul
da fumaça o rosto de Maggie.
 
É bem bonita de se olhar –
Maggie, uma amável jovenzinha;
mas belas faces logo murcham
e até o mais puro amor definha.
 
Num Larranaga existe paz,
num Henry Clay a calma mora;
mas o melhor charuto logo
se acaba, e a gente o deita fora –
 
deita fora por outro, tão
perfeito, e escuro, e bem curtido;
coisa que com Maggie não faço,
por medo ao boato e ao alarido.
 
Maggie, minha esposa aos cinqüenta –
grisalha, e velha, e aquele humor! –
e não poder adquirir outra
nem por ouro, nem por amor!
 
Tornada na treva de agora
a luz ardente do passado,
e como a guimba de um charuto
o lume do Amor apagado –
 
a guimba extinta de um charuto
que no bolso se há de meter,
sem que, fumado até o toco,
se tenha outro para acender.
 
Abram a velha charuteira –
deixem-me ao menos refletir.
Aqui um suave Manila,
ali uma esposa a sorrir.
 
O que é melhor: a servidão
comprada ao preço de um anel,
ou todo um harém de morenas,
cinqüenta, presas a um cordel?
 
Hábeis e mudos conselheiros,
confortadores experientes,
e nem uma só das cinqüenta
para esnobar as concorrentes?
 
Pensamentos de manhã cedo,
consolo em épocas de abrolhos,
paz no silêncio do crepúsculo,
bálsamo antes que eu feche os olhos,
 
eis o que as cinqüenta hão de dar-me,
sem nada em troca demandar,
com só esta paixão sati (*):
cumprir seu dever e queimar.
 
Eis o que as cinqüenta hão de dar-me.
E, quando extintas e acabadas,
cinco vezes outras cinqüenta
novas servas me serão dadas.
 
Encostas da distante Java
e ilhas hispânicas também –
hão de outra vez enviar-me noivas
quando acabar o meu harém.
 
Não me preocupará vesti-las
nem tê-las bem alimentadas,
nem quando as gaivotas aninham,
nem no outono das chuvaradas.
 
Vou perfumá-las com baunilha,
temperar com chá suas peles;
Mouro e Mórmon terão inveja
ao ouvirem a história delas.
 
Pois Maggie escreveu numa carta
que eu escolhesse meu destino
entre o pequeno Amor chorão
e o grandioso deus Nico Tino.
 
E por menos de doze meses
do Amor não fui mais que um servente,
mas Sacerdote de Cabanas
fui por sete anos certamente.
 
Meus negros dias de solteiro
são coloridos no fulgor
de troncos que queimei somente
por Gozo, Amigos, Lida e Ardor.
 
Se me volto para o futuro
que provaremos Maggie e eu,
a única luz que há sobre os pântanos
é o duro Amor e o jugo seu.
 
Terei uma jornada livre,
ou nesses pântanos me afogo?
Se o fumo de um charuto o embaça,
devo seguir o incerto fogo?
 
Abram a velha charuteira –
deixem-me pensar outra vez;
velhos amigos, quem é Maggie
para que eu despreze vocês?
 
Um bom milhão de Maggies extras
aí estão para levar o andor.
Uma mulher é uma mulher,
mas um Charuto é puro Odor.

Acendam-me mais outro Cuba –
que fiel aos meus votos serei.
Se Maggie não vai ter rivais,
nenhuma Maggie esposarei.


(Traduções de Renato Suttana)
***
+2 poemas 
via: 
http://www.revistas.usp.br/clt/article/viewFile/49369/53447
O CONTO DE URIAS
“Havia em uma cidade dois
 homens; um rico e outro pobre.” 3
 JACK BARRETT foi a Qüetta4
 A rufo de tambor.
Com três partes do soldo
 Em Shimla5
 deixou Lenore6
.
Tombou tão pronto em Qüetta,
 Que nem viu de outubro a cor.
Jack Barrett foi a Qüetta,
 Sem justa explicação,
Estranha transferência
 No mais belo da estação.
Partiu era setembro,
 E morreu de supetão.
Jack Barrett foi a Qüetta,
 E lá se despediu,
Lutando por dois homens
 No “bom posto” que assumiu.
Lenore vestiu-lhe luto,
 Mas penúria nunca viu.
Jack Barrett hoje em Qüetta
 Inânime se espraia,
Mas quem apostaria
 Que em espírito não saia
A perguntar por que
 O arrancaram do Himalaia?
E quando o Toque do Clarim
 Ecoe sobre o Harnai7
,
E o Livro Negro da Chacota
 Enfim revele o guai,
Se a cova que devora a carne
 O espírito propele,
De quem mandou Jack Barrett lá
 Eu não desejo a pele.


COMPROMETIDO
“Você terá de escolher: ou seus charutos ou eu.” 8
ABRA a velha charuteira, dê-me um Havana encorpado,
Que meu noivado com Maggie está ficando complicado.
A causa da desavença reside no meu charuto.
Acuso-a de intransigência, diz ela que eu sou um bruto.
Abra a velha charuteira, que eu quero ficar entregue
Aos auspícios da fumaça, lembrando a face de Maggie.
Maggie é bonita de ver – promessa de amor certeira – ,
Mas beleza acaba em ruga, e amor não dura a vida inteira.
Tão pacato é um Laranaga, pacífico um Henry Clay9
,
E o melhor dos bons charutos em uma hora já fumei.
Fumei e troquei por outro – novinho, enxuto, perfeito –,
Já trocar Maggie por outra não será tão bem aceito.
Que tal Maggie em seus cinqüenta – grisalha, ranzinza e
velha –,
Sem Maggie sobressalente que restitua a centelha?
Nem que o fogo do passado se torne a luz do presente,
Quando o amor recenda a sarro como cinza remanente,
A ponta de um bom charuto – mas morto no bolso –
pode
Concorrer com fumo novo, que ao pigarro nos acode.
Abra a velha charuteira – que o momento é de escolher:
Aqui um suave Manilla10; lá um sorriso de mulher.
Qual será o melhor partido: servidão selada a anel
Ou um harém de folhas finas ofertadas a granel?
Cinqüenta noivas por caixa – conforto sincero e certo –,
Nenhuma delas bicuda com tanta rival por perto.
Meditação matutina; consolo em tempo de dor;
Paz na calada da noite; e, à porta do sono, torpor.
Eis o dote que as cinqüenta, em sacrifício, me darão
Com devoção de satis12 – incineradas na missão.
Eis o dote que as cinqüenta me darão sem compromisso
E, mortas, outras cinqüenta já estarão a meu serviço.
As ilhas das Caraíbas, e a ilha de Java também,
Cuidarão de manter sempre renovado meu harém –
Harém nutrido sem jóias nem sedas nem pão-de-ló –,
Caiam raios ou gaivotas, faça chuva ou faça sol.
Só o perfume da baunilha e o tempero de um bom chá
Darão charme às minhas noivas de vexar as de um paxá.
E Meggie insiste, por carta, que eu faça a escolha mofina
Entre o merencório Amor e a grande deusa Nicotina.
Faz doze minguados meses – se tanto – que sigo o amor,
Mas das graças de um Partagas13 sou primígeno cultor.
Minha vida de solteiro, há sete anos ou mais,
Brilha ao tabaco que acendo, quer na guerra quer na
paz.
Mas se o futuro com Maggie não der ponta que acender,
Nada mais que o amor ardente dará luz ao que vier.
Será luzeiro seguro? Ou morro com ele na lama?
Cubro de uma baforada ou sigo as chispas desta chama?
Abra a velha charuteira – vale a pena perguntar:
Quem é Maggie que me ordena amigas velhas dispensar?
Há milhares de outras Meggies igualmente em pé de caça
Mas mulher é só mulher, e um bom charuto é fumaça!
Outro Havana, por favor – que estou, bem sei, comprometido.

Se Maggie não quer rivais, serei tampouco seu marido.
NOTAS
1. Eliot, T.S., “Rudyard Kipling” em On Poetry and Poets, Faber
and Faber, Londres,1984.
2. Kipling teria escrito este poema em homenagem ao amigo
Leander Starr Jameson (1853-1917), em quem identificava as
qualidades exaltadas. Em 1895, Jameson, sem a permissão explí-
cita de Cecil Rhodes – então primeiro-ministro da colônia britânica
do Cabo, na África do Sul –, liderou 500 homens em um ataque
contra os bôers, holandeses que colonizavam o Transvaal.
Derrotado, foi julgado na Inglaterra e passou alguns meses na
prisão. O que não o impediu de tornar-se herói popular em Londres
nem o progresso de sua carreira política na colônia. Em 1902,
com a morte de Rhodes, de quem sempre foi amigo, Jameson
assumiu a liderança do Partido Progressista na África do Sul. Em
1909, recebeu o título de sir. Jameson, Rhodes e Kipling compartilhavam
o ideal de uma África unida sob bandeira britânica. Gra-
ças a uma tradução de Guilherme de Almeida, If (Se...) também
se tornou muito popular no Brasil. Segue, na íntegra, a versão
famosa: Se és capaz de manter a tua calma quando/ Todo mundo
ao teu redor já a perdeu e te culpa;/ De crer em ti, quando estão
todos duvidando,/ E para esses, no entanto, achares uma desculpa;/
Se és capaz de esperar sem te desesperares;/ Ou, enganado,
não mentir ao mentiroso,/ Ou, sendo odiado, sempre ao ódio
te esquivares,/ E não parecer bom demais nem pretensioso; Se és
capaz de pensar, sem que a isso só te atires;/ De sonhar, sem fazer
dos sonhos teus senhores;/ Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo,
conseguires /Tratar da mesma forma esses dois impostores;/41
Cadernos de Literatura em Tradução, n. 5, p.27-42
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas/Em armadilhas as
verdades que disseste,/ E as coisas por que deste a vida,
estraçalhadas,/ E refazê-las com o bem pouco que te reste;/ Se és
capaz de arriscar numa única parada/ Tudo quanto ganhaste em
toda a tua vida,/ E perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,/
Resignado, tornar ao ponto de partida;/ De forçar coração, nervos,
músculos, tudo,/ A dar o que for que neles ainda existe;/ E a
persistir assim quando exausto, contudo,/ Resta a vontade em ti
que ainda ordena:“Persiste”!/ Se és capaz de, entre a plebe, não
te corromperes,/ E, entre reis, não perder a naturalidade;/ E de
amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,/ Se a todos podes
ser de alguma utilidade;/Se és capaz de dar, segundo por segundo,/
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,/ Tua é a terra, com
tudo o que existe no mundo,/ E – o que é mais – serás um Homem,
meu filho!
3. Citação bíblica (Reis II 12:1). Com essas palavras o anjo
Natan inicia a párabola com que censura Davi pela morte de
Urias. A história, paradigma do poema, é conhecida. O rei Davi
engravida Betsabá, mulher do soldado Urias, enquanto este está
fora, lutando por Israel. Davi tenta várias vezes convencer o soldado
a largar a batalha e ir dormir com a mulher, a fim de transferir-lhe
a paternidade. Como Urias se recusa a abandonar os
companheiros de luta, o rei ordena que o destaquem para um
posto em que ele não possa escapar com vida. A ordem é cumprida
e Urias morre. Davi, então, inclui Betsabá entre suas esposas.
 4. Qüetta, hoje, é uma cidade do estado do Baluchistão,
no Paquistão. Recentemente, tornou-se notícia como palco de violentos
protestos da população islâmica contra os ataques americanos
ao Afeganistão (outubro de 2001). O nome “Qüetta” tem
origem palavra kweita, do pashtu, e significa “forte”. De fato, cercada
de altas montanhas, a cidade constitui uma fortificação natural.
Em 1876, foi ocupada pelo exército inglês e, em 1887,
anexada oficialmente à Índia sob jurisdisção britânica. Entre 1879
e 1881, desempenhou papel importante na guerra que os ingle-PINHEIRO, Gil. Três poemas de Kipling.
42
ses travaram contra os afegãos porque concentrava pontos estratégicos
de acesso ao território inimigo. Na verdade, a sorte do
infeliz Jack Barrett, que protagoniza o poema, parece estar ligada
aos conflitos que se seguiram a essa ocupação.
5. Encravada no Himalaia, a cidade de Shimla (ou Simla)
foi estação de férias e capital oficial de verão do governo britânico
na Índia (1865-1939). Kipling passou várias temporadas lá na
década de 80 do século 19. À época em que o poema foi escrito,
a cidade era famosa pelo clima de intriga e romance. Admirada
pela beleza e pela esplêndida visão que propicia dos picos nevados
é, atualmente, importante centro turístico da Índia.
6. Kipling, no original, não dá nome à mulher de Barrett.
“Lenore”, portanto, é uma invenção, ou se se preferir, uma traição
do tradutor por recurso de rima.
7.Região repleta de vales e montanhas em que está localizada
a cidade de Qüetta.
8. Em algumas edições, a epígrafe do poema é remetida
aos autos de um caso judicial de quebra de compromisso de 1885.
9, 10, 11 e 13. Laranaga, Henry Clay e Partagas são marcas
tradicionais de charutos originalmente fabricados em Cuba.
Manilla é o charuto proveniente das Filipinas.
12. Satis: viúvas queimadas vivas na pira mortuária de seus

maridos (prática tradicional na Índia, hoje proibida por lei).