11/08/2011

4.855.(11Ag10h50') Opinião do João Paulo Raimundo no Região de Cister d'hoje

Pera Rocha
A pera rocha é a rainha das frutas do Oeste. Os agricultores que a produzem não são os reis do Oeste, como deviam ser. Aqueles que conseguem exportar, através da associação com outros agricultores, ainda conseguem alguma margem de lucro interessante. O problema são aqueles agricultores que vendem quase em exclusivo para as grandes superfícies, como o Continente e o Pingo Doce, por exemplo. Neste momento os seus acionistas são dos mais ricos de Portugal, infelizmente muito à custa dos fornecedores. Entre esses fornecedores estão alguns produtores de pera rocha, que são explorados até ao tutano.
Há alguns anos, também eu acalentei o sonho de ser produtor de fruta de Alcobaça, o que ainda aconteceu durante alguns anos. Os meus pais tinham uma pequena exploração que não atingia os 10 hectares e uma pequena câmara frigorífica de 50 toneladas que eu arrumava sózinho, nessa altura ainda sem empilhador. Tantos sustos que apanhei com o tractor! Enquanto jovem, sempre trabalhei na fruta, nos intervalos da escola ia frezando, podando (aprendi num curso de poda com o Eng.Goucho), tratando e colhendo a fruta que a minha mãe depois vendia no mercado. Os meus pais tinham mercado e nunca sofreram o braço de ferro com as grandes superfícies. Quando o meu pai faleceu, fiquei a gerir os pomares sem mercado e encontrei a dificuldade da colocação da fruta, pois tinha de pedir por favor para me comprarem e, pior ainda, tinha de pedir por favor para me pagarem. Ainda vendi muitas toneladas através do Mercoalcobaça, estrutura que servia os pequenos agricultores muito bem, mas que infelizmente colapsou. Com cada vez mais responsabilidades noutra área da minha vida profissional, era óbvio que tinha de acabar, muito contra minha vontade, pois era uma actividade que executava com prazer. Não recebi qualquer verba para acabar com os pomares, nessa altura em que a Política Agricola Comum(PAC), muito incentivada pelos governos de Cavaco Silva, nos dizia que pagavam para abandonarmos as terras. Essa PAC foi a responsável pelos inúmeros terrenos que vemos hoje sem cultivo, um pouco por todo o País, ajudando a propagação de incêndios e fomentando o despovoamento do interior e o empobrecimento do País que podia e devia ser autosuficiente em matéria de produtos agrícolas. Esse novo arranque da agricultura faria diminuir o desemprego e reduzia importações, ou seja, daria mais riqueza ao País. O Governo tem de colocar medidas e incentivos no terreno com urgência.
Hoje faço uma pequena agricultura exclusivamente para consumo de casa, que me dá imenso gozo e que mata o bichinho de agricultor que habita o meu interior.
A nível local, é importantíssimo que a nossa Feira de S.Bernardo tenha uma mostra muito forte deste sector, com a pera rocha, os pêssegos e a Maçã de Alcobaça em grande destaque. Isto para além de outras actividades económicas do concelho, como é óbvio.
Quantas pessoas não pensarão como eu? Vamos lá, só com produção nacional e exportações se consegue inverter a dependência do estrangeiro e reduzir o défice externo.