Nasceu a 18nov1943
e morreu a 19out2012
***
19out2021
Via vida breve: A POESIA VAI ACABAR
.
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
.
.
—
MANUEL ANTÓNIO PINA (Sabugal, 18 de Novembro de 1943 – Porto, 19 de
Outubro de 2012), poeta, jornalista e escritor, in "Ainda não é o Fim
nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde", Assírio &
Alvim, 1974.
.
___________________
.
Imagem:
Manuel António Pina, em fotografia de autoria que desconhecemos.
*
Bertrand livreiros: Dia de recordar (o eterno) Manuel António Pina (18 de novembro de 1943 — 19 de outubro de 2012).
Sugestão de leitura: Para quê Tudo Isto? - Biografia de Manuel António Pina, de Álvaro Magalhães
Disponível aqui: bit.ly/Para-quê-tudo-isto
No
início dos anos 50, o pequeno Manuel António, então com 7 anos,
escrevia os primeiros versos. Também costumava sentar-se à mesa com um
livro aberto em frente ao prato da sopa e era repreendido por isso.
Assim começou uma relação com as palavras, essas crianças grandes, que,
com o tempo, se transformou em intimidade e coincidência. Na verdade,
essa relação foi uma história de amor, a história de uma vida de
palavras, como se fosse um livro, literatura.
Da
autoria de Álvaro Magalhães, talentoso escritor que muito bem conheceu
Manuel António Pina, Para Quê Tudo Isto? é a biografia do criador, que,
ao longo de trinta anos, ergueu uma das maiores e mais originais obras
literárias do seu tempo. Mas também nos dá a ler a sua personalidade
singular e cativante, o que inclui a arte de faltar a obrigações, ou,
pelo menos, chegar atrasado, a disponibilidade para a brincadeira e o
riso, o humor desconcertante, a genuína bondade, o talento supremo para a
conversa, o lado irascível e furioso ou o insaciável desejo de
infância, que correspondia a uma necessidade de recuperação do estado
puro do mundo. Sem esquecer as suas facetas mais ignoradas, como as de
professor, advogado, guionista, publicitário, ator de teatro, praticante
de artes marciais, revolucionário, adepto de futebol ou jogador de
póquer.
***
18noVEMbro2018
“Só agora começamos a saber como falar de Manuel António Pina”
Manuel António Pina faria este domingo 75 anos.
Homenageado no Porto, na Biblioteca Almeida Garrett, é cada vez mais
reconhecido como um autor essencial na poesia portuguesa pós-Pessoa.
“O Pina é um autor absolutamente gigantesco, e é grande em muitas frentes, e está tudo muito ainda por descobrir e desbravar”, diz o ensaísta Pedro Eiras, um dos oradores do colóquio dedicado a Manuel António Pina que irá decorrer terça-feira, no Porto, integrado nas jornadas Desimaginar o Mundo, um diversificado programa de homenagem ao autor de Todas as Palavras que terá este domingo, dia em que o autor faria 75 anos, o seu momento mais emotivo: Álvaro Magalhães, Germano Silva, João Luiz e Arnaldo Saraiva reunir-se-ão na Biblioteca Almeida Garrett para evocar o amigo comum numa “conversa entre amigos”, e antes disso, no mesmo local, Pedro Mexia, Inês Fonseca Santos e João Paulo Cotrim debaterão uma obra da qual, observa Mexia, “só agora começamos a saber como falar”.
Concebidas pela ensaísta Rita Basílio, autora do livro Manuel António Pina – Uma Pedagogia do Literário (Documenta, 2017) – e pela designer Sónia Rafael, estas jornadas já começaram a cumprir “um dos seus grandes propósitos, que era pôr as pessoas a falar de Manuel António Pina”, congratula-se a primeira, assinalando a colaboração do espaço Mira, de Manuela Monteiro, que convidou 24 fotógrafos a trabalharem sobre poemas de Pina – o resultado pode agora ser visto em duas exposições, uma na estação de metro da Trindade e outra no próprio Mira Forum – e criou ainda no Facebook o grupo Fotografias para o Poeta Manuel António Pina, que teve uma adesão invulgar, tendo recebido num tempo muito curto mais de duas mil imagens inspiradas por poemas do autor.
Um interesse que também mostra que, sobretudo no Porto, onde viveu grande parte da sua vida, Pina é uma figura muito popular e acarinhada, não apenas enquanto poeta, mas também como autor de livros infantis, boa parte deles encenados pelo seu amigo João Luiz no Teatro Pé de Vento, e talvez mais ainda como cronista, arte que praticou durante décadas no Jornal de Notícias, em diferentes formatos, e nos últimos anos a ritmo diário. “Só as suas crónicas são um continente infinito”, nota Pedro Eiras. “Já a poesia não é muito vasta, mas até por isso é menos desculpável o relativo pouco caso que se foi fazendo dela”, acrescenta. “Espero que se faça agora o mais possível: quando se tem uma mina de ouro, não há muita desculpa para não se ir escavar”.
https://www.publico.pt/2018/11/18/culturaipsilon/noticia/so-comecamos-saber-falar-manuel-antonio-pina-1851509“O Pina é um autor absolutamente gigantesco, e é grande em muitas frentes, e está tudo muito ainda por descobrir e desbravar”, diz o ensaísta Pedro Eiras, um dos oradores do colóquio dedicado a Manuel António Pina que irá decorrer terça-feira, no Porto, integrado nas jornadas Desimaginar o Mundo, um diversificado programa de homenagem ao autor de Todas as Palavras que terá este domingo, dia em que o autor faria 75 anos, o seu momento mais emotivo: Álvaro Magalhães, Germano Silva, João Luiz e Arnaldo Saraiva reunir-se-ão na Biblioteca Almeida Garrett para evocar o amigo comum numa “conversa entre amigos”, e antes disso, no mesmo local, Pedro Mexia, Inês Fonseca Santos e João Paulo Cotrim debaterão uma obra da qual, observa Mexia, “só agora começamos a saber como falar”.
Concebidas pela ensaísta Rita Basílio, autora do livro Manuel António Pina – Uma Pedagogia do Literário (Documenta, 2017) – e pela designer Sónia Rafael, estas jornadas já começaram a cumprir “um dos seus grandes propósitos, que era pôr as pessoas a falar de Manuel António Pina”, congratula-se a primeira, assinalando a colaboração do espaço Mira, de Manuela Monteiro, que convidou 24 fotógrafos a trabalharem sobre poemas de Pina – o resultado pode agora ser visto em duas exposições, uma na estação de metro da Trindade e outra no próprio Mira Forum – e criou ainda no Facebook o grupo Fotografias para o Poeta Manuel António Pina, que teve uma adesão invulgar, tendo recebido num tempo muito curto mais de duas mil imagens inspiradas por poemas do autor.
Um interesse que também mostra que, sobretudo no Porto, onde viveu grande parte da sua vida, Pina é uma figura muito popular e acarinhada, não apenas enquanto poeta, mas também como autor de livros infantis, boa parte deles encenados pelo seu amigo João Luiz no Teatro Pé de Vento, e talvez mais ainda como cronista, arte que praticou durante décadas no Jornal de Notícias, em diferentes formatos, e nos últimos anos a ritmo diário. “Só as suas crónicas são um continente infinito”, nota Pedro Eiras. “Já a poesia não é muito vasta, mas até por isso é menos desculpável o relativo pouco caso que se foi fazendo dela”, acrescenta. “Espero que se faça agora o mais possível: quando se tem uma mina de ouro, não há muita desculpa para não se ir escavar”.
O PÚBLICO ouviu vários dos ensaístas que intervirão terça-feira no
colóquio Desimaginar o Mundo — Manuel António Pina (1943-2018), que
decorrerá no palacete dos Viscondes de Balsemão, e não deixa de ser
significativo o facto de quase todos diversamente sublinharem o facto de
só agora, seis anos após a morte de Pina, se começar a passar de
algumas precoces intuições certeiras para uma leitura mais substantiva
da obra.
“É difícil engavetá-lo em qualquer grupo
ou tendência”, diz Rita Basílio. “Houve quem notasse muito cedo que a
crítica não lhe estava a dar suficiente atenção, como Arnaldo Saraiva, e
Eduardo Prado Coelho foi o primeiro a falar de Fernando Pessoa na obra
de Pina, tema que só por si dava uma tese de doutoramento, mas ninguém o
conseguiu propriamente situar”.
A questão da presença pessoana, a que o próprio Pina alude sibilinamente nos versos iniciais do livro Farewell Happy Fields, evocando o ano de nascimento do poeta da Mensagem –
“Entre a minha vida e a minha morte mete-se subitamente/ A Atlética
Funerária, Armadores, Casa Fundada em 1888 –, é uma evidência, mas
também um problema. “Onde Pessoa diz ‘desimaginar-me’, Pina fala em
‘desimaginar o mundo’, e esse desaparecimento do pronome ‘me’ estabelece
uma grande distância no modo como ambos lidam com a questão do
sujeito”, argumenta Rita Basílio.***
a notícia da sua morte no JN

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=2837815
Morreu sexta-feira à tarde, no Porto, o escritor e jornalista Manuel António Pina. Galardoado em 2011 com o Prémio Camões, o mais importante da Língua Portuguesa, tem uma vasta obra de poesia e literatura infantil, sendo também autor de inúmeras peças de teatro e de livros de ficção e de crónica. O corpo do escritor estará em câmara ardente a partir das 16 horas deste sábado na Igreja do Foco, onde às 9.30 horas de domingo é celebrada missa pelo bispo das Forças Armadas. O corpo seguirá depois para o cemitério do Prado do Repouso.
Manuel António Pina, jornalista, poeta e escritor tinha 68 anos, nasceu no Sabugal, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Vivia no Porto e foi jornalista do "Jornal de Notícias" durante três décadas, sendo repórter, redator, editor e chefe de Redação, mantendo até há poucos meses, na última página do JN, a crónica "Por outras palavras" e foi ainda cronista da "Notícias Magazine".
Foi galardoado em 2011 com o importante Prémio Camões, e a sua vasta obra é fundamentalmente constituída por poesia e literatura infantil, sendo também autor de inúmeras peças de teatro e de livros de ficção e de crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e televisão e editadas também em disco.
Na área da literatura, destacam-se os livros "O país das pessoas de pernas para o ar", "O têpluquê", "Gigões & anantes", "História com reis, rainhas, bobos, bombeiros e galinhas", e "O tesouro", enquanto que na poesia, sobressaem os títulos "Nenhum sítio", "Um sítio onde pousar a cabeça", "Cuidados intensivos", "Nenhuma palavra, nenhuma lembrança", "Os livros" e "Como se desenha uma casa" .
Prémio Camões que lhe foi atribuído em 2011, Manuel António Pina foi distinguido ao longo da sua longa carreira literária e jornalística com inúmeros prémios, nomeadamente o Prémio de Poesia da Casa da Imprensa (1978) ; Prémio Gulbenkian (1987); Prémio Nacional de Crónica Press Club/ Clube de Jornalistas (1993); Prémio da Crítica, da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários" (2002); Prémio de poesia Luís Miguel Nava (2003) e Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT (2005).A sua obra está traduzida em França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária.
Numa das suas últimas entrevistas que concedeu ao JN e questionado concretamente sobre as múltiplas homenagens de que tinha sido alvo, nos últimos tempos, Manuel António Pina disse reagir " Com desconforto e com gratidão. Também sou leitor, embora bissexto, daquilo que designa por minha "obra" e, sem pretender representar a rábula da modéstia, sou lúcido q.b. em relação a ela para aceitar iniciativas do género sem cepticismo".
Nessa mesma entrevista e pronunciando-se especificamente sobre situação de crise que o país vive, afirmou o seguinte: " Diz-se que os povos felizes não têm história. Não é fácil (nem bonito) dizê-lo, mas às vezes, a infelicidade de um povo é a felicidade dessa espécie de historiadores do presente que os cronistas (sobretudo aqueles que, como eu, praticam sobretudo a crónica como género jornalístico e não literário) são"
reportagem do JN:""Onde sinto meu sangue é na poesia"
http://www.jn.pt/Reportagens/Interior970.aspx?content_id=1851023
***
as extraordinárias crónicas dele no JN:
por ex:
http://www.jn.pt/opiniao/default.aspx?content_id=2701798
O alerta do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos de que irá aparecer por aí, num futuro próximo, aquilo que o presidente desse organismo chama de "médicos de segunda", com diplomas obtidos em escolas privadas ou por "equivalência" (à maneira da controversa licenciatura de Relvas), devia ser levado a sério pelo Ministério da Educação, que tanto fala em "rigor" e em "qualidade".
A posição da Ordem dos Médicos surge na sequência da notícia de que uma escola privada terá arranjado maneira de transformar os seus licenciados em Ciências Biomédicas em turbolicenciados em Medicina (com dois meros anos de formação especializada), entrando por "equivalência" no 4.o ano da universidade espanhola Alfonso X, El Sabio. Tudo, como habitualmente, "dentro da lei".
O "caso Relvas" é apenas expressão daquilo que poderíamos classificar de "caso português", o chico-espertismo. Este atingiu proporções inimagináveis com o negócio de diplomas em que se tornou algum ensino superior privado (uma escola já oferece mesmo "licenciaturas duplas" em quatro anos, ao bom estilo promocional do "pague uma e leve duas").
A não ser que o Ministério da Saúde faça como o da Justiça, que não aceita licenciados à bolonhesa em Direito nas magistraturas, o mais certo é que os turbomédicos acabem no SNS-D (D de "desconstruído") do dr. Paulo Macedo: ficarão em conta e, para quem é, bacalhau basta.
***"O Pássaro da Cabeça
Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça
Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não
Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada
E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão
E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça."

https://www.facebook.com/sonhararealidade2013/photos/a.349115855209208.1073741828.349094905211303/1617229398397841/?type=3&theater
***
https://www.facebook.com/112890882080018/photos/a.114014221967684.7650.112890882080018/811989835503449/?type=1&theater
in COMO SE DESENHA UMA CASA (Assírio & Alvim, 2011)
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
Fotografia digital, por© alvesan Cats
*(LT)
***
Via: http://www.correiodoporto.pt/cultura/manuel-antonio-pina-nao-sermos-livres-e-absurdo

RELEMBRA-SE agora a entrevista a Manuel António Pina a propósito da publicação de O Tesouro (secretamente ilustrado por Manuela Bacelar), e disponível in http://www.casadaleitura.org/. Para o poeta foi a oportunidade de contar aos mais novos uma história verdadeira, que aconteceu mesmo (às vezes até parece mentira). A ilustração daquele dia em que se recuperou o tesouro da liberdade, um dia repleto de alegria deslumbrada, de quem não acredita e esfrega os olhos com receio de estar a sonhar, é hoje feita por Santiagu.
Que memórias guarda como as mais importantes da sua experiência pessoal da Revolução de Abril?
A rua, principalmente a rua. Os milhares e milhares de pessoas que, logo de manhã e, depois, pela tarde dentro, saíram espontaneamente para as ruas e praças. Sem convocatória, sem bandeiras, sem palavras de ordem, sem dísticos: apenas a voz. Aqueles gritos de “Liberdade! Liberdade!”, aquela alegria deslumbrada, de quem não acredita e esfrega os olhos com receio de estar a sonhar. Não havia ainda partidos a dividir-nos, não havia desconfiança, não havia suspeita. Nunca, como nesse dia e nos dias imediatamente a seguir, estivemos tão próximos uns dos outros. A minha cabeça e o meu coração estão, naturalmente, cheios de memórias desses desmesurados tempos. Mas a mais forte é decerto a desse dia inicial e, depois, a do primeiro 1º de Maio em liberdade, com a minha filha de 3 anos às cavalitas nos meus ombros, surpresa de tanta súbita felicidade à sua volta, levantando também ela o pequenino punho fechado no ar e gritando: “O povo unido jamais será vencido!”
Que motivações explicam a sua publicação sobre o 25 de Abril? O que é que ainda não foi contado aos pequenos leitores sobre este momento da História portuguesa?
O livro resultou de um convite da “April” e da Associação 25 de Abril, na sequência de uma sugestão feita pelo então presidente da República, Mário Soares. O convite foi-me feito numa sexta-feira à noite e o texto deveria estar pronto até domingo, pois na segunda-feira haveria uma reunião da comissão organizadora das comemorações dos 20 anos do 25 de Abril com o presidente da República, onde iria ser apresentado o projecto do livro. Escrevi-o nessa mesma noite, de um fôlego. No dia seguinte, a Manuela Bacelar ilustrou-o, também à pressa (acho que terá sido por isso que não quis assinar o trabalho). Quanto ao que ainda não foi contado aos pequenos leitores: penso que o essencial está contado (se alcança ou não esses leitores é outra coisa, e não depende já de nós, os que o contámos, ou tentámos contar). É natural que a exaltante experiência da liberdade que nós, os mais velhos, vivemos no 25 de Abril pouco diga hoje a jovens nascidos e criados em liberdade, para quem a falta de liberdade é algo incompreensível e absurdo. Foi o que também tentei dizer no livrinho, que não sermos livres é absurdo. Mas igualmente que a nossa liberdade (a individual como a colectiva) é um tesouro precioso que temos que proteger, e que opressão não é apenas um conto de meter medo, que muitos homens e mulheres (e crianças) continuam a viver oprimidos, às vezes bem perto de nós, e que isso inaceitável.
Em seu entender, qual foi o contributo da ilustração na publicação sobre o 25 de Abril?
Eu acho que, se é provavelmente verdade que uma imagem vale por mil palavras, não é menos certo que uma palavra vale por mil imagens. Depende da palavra e da imagem. Não conheço suficientemente a ilustração feita a propósito do 25 de Abril (julgo que estará a referir-se aos livros que tentam “contar” o 25 de Abril aos, como diz, “pequenos leitores”), para ter uma ideia se, no caso, essas imagens são das que valem mil palavras ou não. Espero que sejam. E também que as palavras escritas sobre o 25 de Abril valham mil imagens. Porque é tudo o que nos resta hoje: palavras e imagens.
Ver versão de O tesouro com ilustração de Evelina Oliveira aqui.
***Procurar este livro com desenhos
«Manuel António Pina vai ser recordado num livro com desenhos e pinturas de Agostinho Santos e textos de amigos sobre o poeta e jornalista, a lançar no sábado, no dia em que se cumpre um ano da sua morte.»
http://blogtailors.com/6976628.html
***
Via: http://blogue.sitiodolivro.pt/2011/11/18/manuel-antonio-pina/
Amor como em Casa
«Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.»
( in
“Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde”
***Via: http://blogue.priberam.pt/2012/10/manuel-antonio-pina-1943-2012.html

Calo-me
Calo-me quando escrevo
assim as palavras falam mais alto e mais baixo
Nada no poema é impossível e tudo é possível
mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo ( e como me calarei?)
no entanto ninguém é tão falador como eu
nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.
e vós também: não me faleis de nada ou falai-me
porque não sabeis o que dizeis
in Todas as palavras - poesia reunida (Lisboa, Assírio & Alvim, 2001)
***
Via: http://ahcravo.wordpress.com/2013/02/27/manuel-antonio-pina-figueira-da-foz-2012-3/

Junto à água
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.
Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!
E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia
***Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia
SAUDADE DA PROSA
Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,
nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava o que sabia.
E se regressava
oelo mesmo caminho
não encontrava
senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,
o rio não era rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.
Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?
**
um programa da RTP 2
http://www.youtube.com/watch?v=lwXvHORoMkE&feature=share
**
uma entrevista
http://www.youtube.com/watch?v=q4BGtNZFG94
***

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=899770166703431&set=a.602916893055428.1073741825.100000113696514&type=1&theater
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.
Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!
E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.
***

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Completas
A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
in Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância
*
imagem - K.rine Burckel 2012