Nasceu a 10set1740
e morreu a 23jun1811
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Professor de Retórica e de Poética, membro da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino a partir de 1780.
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Via:
http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=7393
Nicolau Tolentino
[Lisboa, 1740 - Lisboa, 1811]
Poeta cómico e satírico, um dos maiores cultores desse género em toda a história da literatura portuguesa. Curiosamente, é à própria vida que vai buscar a inspiração da melhor parte dos versos, e desses mesmos versos tira o sustento para a vida. Seguir as composições humorísticas de Tolentino é conhecer, passo a passo, as aventuras da sua vida agitada e insatisfeita, desde os tempos em que, de mau grado, ensina Retórica, até ascender a cargos mais altos e próximos do poder. As dedicatórias a este ou àquele mecenas correspondem sempre a pedidos de favores, benefícios, condecorações, dinheiro ou colocações em cargos bem remunerados. Para tanto, explora a má consciência dos poderosos e desmascara o sistema corrupto que permite a uns dar benesses e a outros mendigá-las. Era taful, gostava de jogar, apreciava comendas: tudo isso vem expresso nos seus versos, com uma auto-ironia impressionante. Tanto assim é que deixou de poetar quando conseguiu o cargo que ambicionava: oficial da Secretaria de Estado dos Negócios Entrangeiros. Com tudo isto, soube retratar fielmente o seu tempo e os seus contemporâneos, os seus costumes e as suas ideias. Em A Guerra (sátira em quintilhas) denota a influência das ideias iluministas; em O Bilhar (em oitavas, tentando o género épico) ataca alguns dos mais evidentes vícios da época. Cultivou com mestria o soneto, a ode, a epístola em verso e por vezes a prosa. Só em 1801 publicou em volume (2 tomos) a obra completa. Mas é póstuma a melhor e mais completa edição das Obras Completas de Nicolau Tolentino de Almeida, com Alguns inéditos e Um Ensaio Biográfico-Crítico de José de Torres, em Lisboa, 1861. Recentemente foi publicada uma nova edição das suas Obras Completas, em 2 volumes, de Claude Maffre (2008-2011).
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. I, Lisboa, 1989 [actualizado em fev. de 2012]
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Via
http://www.inforarte.com/cantando1/docs/NicolauTolentinoAlmeida.htm
Nicolau Tolentino de Almeida (1722 - 1804)
Nasceu em Lisboa em 1722, morreu em Lisboa em 1804.
Filho de um Advogado da Casa da Suplicação, em Lisboa. Frequentou largos anos a Faculdade de Leis da Universidade de Coimbra (1760-69). Em 1767, com o curso ainda inacabado (e não se sabe se chegou a completá-lo ), obtém carta de professor régio de Retórica e de Poética. Depressa, no entanto, se reconhece pouco fadado para o ensino; procura então, por vários meios, que vão da súplica à lisonja, do auto-empequenecimento à provocação da piedade, transitar para a carreira burocrática; disto mesmo se encontra larga matéria nos seus versos.
Em 1780, consegue enfim ser nomeado oficial praticante, sem vencimento, da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino; e três anos depois ascende a Oficial Ordinário da mesma Secretaria.
Numa publicação anual da tipografia Rollandiana é que aparecem, entre 1779 e 1783, impressas pela primeira vez, ainda que anónimamente, composições do poeta.
Todavia só em 1801 reunirá ele, em dois pequenos tomos, as suas Obras Poéticas.
A obra de Nicolau Tolentino é fundamentalmente constituída por sonetos, odes, memoriais e sátiras. Estes últimos lhe granjearam a celebridade, a ponto de ele hoje representar, na historia literária portuguesa, quase por antonomásia, o papel de “ o satírico”
In: J. Prado Coelho - Dicionário de Literatura
Editora Figueirinhas - 1978
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http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4961.pdf
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https://www.youtube.com/watch?v=PurzESuUIGA
O colchão dentro do toucado
Via Citador
Sátira aos Penteados AltosChaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.
A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
- «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»
- «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...
in 'Antologia Poética'
Cegueira de AmorFiei-me nas promessas que afectavas
Nas lágrimas fingidas que vertias,
Nas ternas expressões que me fazias,
Nessas mãos que as minhas apertavas.
Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.
Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.
Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo
Em aras falsas, holocaustos puros.
in 'Antologia Poética'A Carnal Tentação DesenfreadaA carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede
Subisse de uma puta a infame escada.
Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.
Saiu da alcova a desgrenhada fúria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria:
Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras à luxúria
Jurei no altar de Vénus castidade.
in 'Antologia Poética'
Os AmantesAmor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;
O teu meu é mel azedo,
Não creio em teu gasalhado,
Mostras-me em vão rosto ledo;
Já estou muito escaldado,
Já d'águas frias hei medo.
Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.
Fartei-te assaz a vontade;
Em vãos suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?
És como os cães esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos ávidos dentes
Os ossos ensanguentados.
Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
Põe a mira em outra parte
Que daqui não tiras nada.
Busca algum fofo morgado
Que, solto já dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;
Que em sisuda casa honrada,
De papéis nunca avarento,
Dá com mão refalseada
Escritos de casamento,
Ora à filha, ora à criada.
Genealógico comprado
Lhe concede a peso d'ouro,
Em castelo imaginado,
Cabeça de fusco mouro
Sobre escudo golpeado.
Árvores de geração
Em pergaminho enrolado
Provas inegáveis são;
É um ramo desgraçado
De antigos reis de Aragão.
Dando ao mochila o lazão,
De Fílis a escada emboca,
Sempre em ar de protecção,
Alvo palito na boca,
Lisa varinha na mão;
Zomba de falsos brasões
Que não são no berço achados
E diz à moça as razões
De ter no teliz bordados
Dois cães e quinze leões;
As histórias lhe declara
Daquelas guerras felizes
E mostra, com mão avara,
Os ossos de dez narizes
Que seu quinto avô cortara.
Aturde a moça boçal
Com cem quintas, cem comendas;
E armando um mapa geral
Das suas imensas rendas,
Vai-se sem lhe dar real.
Mas se a teus farpões dourados
Não achas digno consumo
E os julgas mal empregados
Nestas cabeças de fumo,
Nestes peitos altanados,
Busca algum novel basbaque,
Que por pobre não saía,
Mas já mete o bairro a saque
Depois que engenhosa tia
Lhe armou duma saia um fraque;
Que, gravezinho, namora
Com brando e risonho aspeito,
Ponta de lenço de fora,
Molho de flores no peito,
Prenda de certa senhora.
Que um trapo a seu jeito ordena,
Temendo o pó das calçadas;
E antes de entrar na novena,
Com cuspo, pelas escadas,
Vai dando aos sapatos crena.
De gelo as pedras cobertas,
Como às vezes me fizeste,
Alta noite e a horas certas,
Quando o áspero nordeste
Deixou as ruas desertas;
Ouça duros assobios,
Precursores de alto insulto,
Retalhem-no ventos frios,
Ladrem ao postado vulto
Cem nocturnos cães vadios;
De paisanos salteado,
Ronda sem fé e sem lei,
De espadas velhas cercado,
E ao som da parte d'el-rei
Por força desembuçado,
Membrudo cabo vermelho
O apalpe ante os mais senhores;
Acha uma escova, um espelho,
Dezoito escritos de amores
E um pescocinho velho.
Firam teus acesos raios
Também na gentalha vil,
De crestados peitos baios,
Que começando em barril,
Vão por aumento a lacaios;
Busca algum que da cocheira,
Quando o patrão não sai fora,
Com os olhos na trapeira,
Limpando a sege, namora
Desgrenhada cozinheira;
Que de noite à sua porta,
Com famosos tangedouros
Que o Talaveiras conforta,
Lhe manda ternos amores
Sobre as asas da Comporta;
A quem a suja donzela,
Por almoço do costume,
Manda em sórdida tigela
O primitivo chorume
Da desflorada panela.
E se te não satisfazes
Com tanta conquista brava
Que nesta canalha fazes,
E ainda a funesta aljava
Pejada de setas trazes,
Não tens velhas presumidas
Que em fim de mês fingem dores
Só às moças concedidas?
E têm de compradas cores
As chochas faces tingidas;
Cuja boca pestilenta
Ante um espelho ensaiada,
Torcendo-se destramente,
Aprende a abrir a risada
Por onde inda resta um dente;
Que há sessenta anos donzelas
(caso raras vezes visto)
Têm títulos de capelas
Com um hábito de Cristo
Para quem casar com elas?
Busca alguma de bom caco
Que, pela fenda da saia
Marinhando o braço fraco,
Fisga o lenço de cambraia
Afastando o de tabaco;
Que em festival sociedade
Até o rapé reprova,
Chamando-lhe porquidade,
E vai fartar-se na alcova
De simonte e de cidade.
Amor, faze estas em postas,
Vai-lhe das lágrimas rindo
Já que de lágrimas gostas,
E não andes perseguindo
A quem te virou as costas.
Porém se da plebe escura
Em pouco o triunfo prezas
E queres fina ternura,
Extremos, delicadeza,
Os freiráticos procura;
Gentes de mais alta esteira,
Ternos, finos corações,
Que em fechada papeleira
Vão guardando em batalhões
As cartas da sua freira;
Em chegando a condutora
Que os sacrilégios ateia,
Um destes de gosto chora,
Lambe com respeito a obreia
Por ter cuspo da senhora;
Posto na insípida grade,
Em almíscar perfumado,
Todo amor, todo saudade,
Comendo em doce babado
Os sobejos de algum frade;
Ao sublime estilo guinda
Sua discrição notória,
A que logo a freira linda,
Revolvendo na memória
Os dois livros de Florinda,
Responde: «Os conceitos sigam
Os holocaustos do altar;
Pois são, e as chamas o digam,
Pedir, quem pode mandar,
Preceitos que mais obrigam».
Entretanto um chantre velho,
A quem a rodeira engoda
E que em fechando o Evangelho,
Vai meter dentro da roda
O seu cachaço vermelho,
Freirático por fadário,
Tão guloso como amante,
Condessinhas pelo armário,
E sobre a deserta estante
Manjar branco e o breviário,
Que em podre filosofia,
Sectário da antiga lei,
Os Universais sabia
E armado do a parte rei,
Tudo a eito distinguia,
Arranca oleoso escarro,
Diz à rodeira um conceito,
Daqueles que já têm sarro,
Mete os óculos no peito,
Trono de amor e catarro.
Pois já que estes peitos vão
Franca entrada oferecer-te,
Amor, carrega-lhe a mão;
Aprendam a conhecer-te, Mas
paguem caro a lição;
Mete num cárcere a dama,
Do bom chantre os calcanhares
Vão curtir gota na cama
E o secular cruze os mares
Que foi descobrir o Gama.
E se queres empregar
As tuas setas de prova,
Quando alva lua raiar,
Vai sobre a Ribeira Nova
As asas equilibrar.
Brancos vestidos tomados,
Descobrindo as saias altas,
Entre as nuvens os toucados,
E com esbeltos paraltas
Os braços entrelaçados;
Verás ser aceito logo
Teu riso enganoso e brando;
Não esperam por teu rogo,
E em tu do alto assoprando
Verás chamejar o fogo;
Que alvos dedos delicados
A furto se vão beijando
Enquanto os pais descuidados,
A loja nova admirando,
Pararam embasbacados.
Verás sisudo estrangeiro
Contando grossos tostões
Ao refinado brejeiro,
Correio de corações
Que se compram por dinheiro;
Verás moça rebuçada,
Na cabeça lenço sujo,
Roupinha desatacada,
Recebendo do marujo
Um copo de limonada.
E enquanto escuto os gemidos
Que arrancas de tantos seios,
Deixa que em montes erguidos
Veja os naufrágios alheios
Enxugando os meus vestidos.
Se até nos teus estimados
Ervadas setas se embebem,
Se do teu riso enganados
Com bocas sedentas bebem
Veneno em vasos dourados,
Vão pé ante pé guiados
Por peitada cozinheira,
Mas, vendo os pais levantados,
Dentro de enrolada esteira
Ficam num canto encostados.
Quando alta noite sussurra
Rijo, sibilante vento
Que as grossas portas empurra,
E acorda o velho avarento
Com os cuidados na burra,
Deixando a cama ligeiro,
Corre portas e janelas,
Registando o quarto inteiro
Em roupão e em chinelas,
Com pistola e candeeiro;
Que tremor de coração,
Que semblantes enfiados
Os amantes não terão
Que, cos colos levantados,
Ouvindo o rumor estão?
Da janela debruçada
Desenvolve degraus falsos
Pálida dama assustada,
Os mimosos pés descalços,
A madeixa ao vento dada.
Pois se estes teus escolhidos,
Por cabedais, por figura,
Das Nises favorecidos,
Maldizem sua ventura
E saem arrependidos;
Como hei-de eu crer-te, que apenas
Vi de longe tranças de ouro?
Debalde outro engano ordenas
A quem de teu vão tesouro
Nunca teve mais que penas;
Do teu rol meu nome risca;
Em peito inda não cortado
Cevados anzóis arrisca,
Mas com peixe já sangrado
Não gastes a tua isca.
De meu pranto rociadas
Penduro as fatais cadeias,
Ao som de meus ais forjadas;
Arranco das rotas veias
Cruas setas despontadas.
Sangue inocente esparziram;
Mais à ideia me não tragas
Uns olhos que enxutos viram
Estas desgraçadas chagas
Que em teu serviço se abriram.
Dei-te os cuidados e os dias,
De tudo já foste dono,
Restam só melancolias.
Que glória te dá um trono
Posto sobre cinzas frias?
Teus golpes, de mim, que esperam?
Dá folga aos escravos mancos
Que em teu carro entorpeceram;
Deixa em paz cabelos brancos
Que entre os teus ferros nasceram.
in 'Antologia Poética'