23/06/2014

8.311.(23jun2014.9.2') Nicolau Tolentino

Nasceu a 10set1740
e morreu a 23jun1811
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 Professor de Retórica e de Poética, membro da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino a partir de 1780.
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Via: http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=7393
Nicolau Tolentino
[Lisboa, 1740 - Lisboa, 1811] 
Poeta cómico e satírico, um dos maiores cultores desse género em toda a história da literatura portuguesa. Curiosamente, é à própria vida que vai buscar a inspiração da melhor parte dos versos, e desses mesmos versos tira o sustento para a vida. Seguir as composições humorísticas de Tolentino é conhecer, passo a passo, as aventuras da sua vida agitada e insatisfeita, desde os tempos em que, de mau grado, ensina Retórica, até ascender a cargos mais altos e próximos do poder. As dedicatórias a este ou àquele mecenas correspondem sempre a pedidos de favores, benefícios, condecorações, dinheiro ou colocações em cargos bem remunerados. Para tanto, explora a má consciência dos poderosos e desmascara o sistema corrupto que permite a uns dar benesses e a outros mendigá-las. Era taful, gostava de jogar, apreciava comendas: tudo isso vem expresso nos seus versos, com uma auto-ironia impressionante. Tanto assim é que deixou de poetar quando conseguiu o cargo que ambicionava: oficial da Secretaria de Estado dos Negócios Entrangeiros. Com tudo isto, soube retratar fielmente o seu tempo e os seus contemporâneos, os seus costumes e as suas ideias. Em A Guerra (sátira em quintilhas) denota a influência das ideias iluministas; em O Bilhar (em oitavas, tentando o género épico) ataca alguns dos mais evidentes vícios da época. Cultivou com mestria o soneto, a ode, a epístola em verso e por vezes a prosa. Só em 1801 publicou em volume (2 tomos) a obra completa. Mas é póstuma a melhor e mais completa edição das Obras Completas de Nicolau Tolentino de Almeida, com Alguns inéditos e Um Ensaio Biográfico-Crítico de José de Torres, em Lisboa, 1861. Recentemente foi publicada uma nova edição das suas Obras Completas, em 2 volumes, de Claude Maffre (2008-2011).
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. I, Lisboa, 1989 [actualizado em fev. de 2012]
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Via http://www.inforarte.com/cantando1/docs/NicolauTolentinoAlmeida.htm
Nicolau Tolentino de Almeida (1722 - 1804)

Nasceu em Lisboa em 1722, morreu em Lisboa em 1804.
Filho de um Advogado da Casa da Suplicação, em Lisboa. Frequentou largos anos a Faculdade de Leis da Universidade de Coimbra (1760-69). Em 1767, com o curso ainda inacabado (e não se sabe se chegou a completá-lo ), obtém carta de professor régio de Retórica e de Poética. Depressa, no entanto, se reconhece pouco fadado para o ensino; procura então, por vários meios, que vão da súplica à lisonja, do auto-empequenecimento à provocação da piedade, transitar para a carreira burocrática; disto mesmo se encontra larga matéria nos seus versos.
Em 1780, consegue enfim ser nomeado oficial praticante, sem vencimento, da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino; e três anos depois ascende a Oficial Ordinário da mesma Secretaria.
Numa publicação anual da tipografia Rollandiana é que aparecem, entre 1779 e 1783, impressas pela primeira vez, ainda que anónimamente, composições do poeta.
Todavia só em 1801 reunirá ele, em dois pequenos tomos, as suas Obras Poéticas.
A obra de Nicolau Tolentino é fundamentalmente constituída por sonetos, odes, memoriais e sátiras. Estes últimos lhe granjearam a celebridade, a ponto de ele hoje representar, na historia literária portuguesa, quase por antonomásia, o papel de “ o satírico”

In: J. Prado Coelho - Dicionário de Literatura
Editora Figueirinhas - 1978
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Tipologia votiva e lição literária: O caso Tolentino

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4961.pdf
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https://www.youtube.com/watch?v=PurzESuUIGA

O colchão dentro do toucado

Via Citador
Sátira aos Penteados AltosChaves na mão, melena desgrenhada, 
Batendo o pé na casa, a mãe ordena 
Que o furtado colchão, fofo e de pena, 
A filha o ponha ali ou a criada. 

A filha, moça esbelta e aperaltada, 
Lhe diz coa doce voz que o ar serena: 
- «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena; 
Olhe não fique a casa arruinada...» 

- «Tu respondes assim? Tu zombas disto? 
Tu cuidas que, por ter pai embarcado, 
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto, 

Arremete-lhe à cara e ao penteado. 
Eis senão quando (caso nunca visto!) 
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!... 

 in 'Antologia Poética'


Cegueira de AmorFiei-me nas promessas que afectavas 
Nas lágrimas fingidas que vertias, 
Nas ternas expressões que me fazias, 
Nessas mãos que as minhas apertavas. 

Talvez, cruel, que, quando as animavas, 
Que eram doutrem na ideia fingirias, 
E que os olhos banhados mostrarias 
De pranto, que por outrem derramavas. 

Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo 
Os meus tristes amores mal seguros, 
De amar-te nunca, nunca me arrependo. 

Ainda adoro os olhos teus perjuros, 
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo 
Em aras falsas, holocaustos puros. 

in 'Antologia Poética'
A Carnal Tentação DesenfreadaA carnal tentação desenfreada 
Que ao sangue quente alta justiça pede, 
Fez com que eu, embrulhando-me na rede 
Subisse de uma puta a infame escada. 

Ligeiras pulgas saltam de emboscada 
Fartando em mim de sangue humano a sede; 
Arde a vela pregada na parede, 
Já de antigos morrões afogueada. 

Saiu da alcova a desgrenhada fúria 
Respirando venal sensualidade, 
Vil desalinho, sórdida penúria: 

Muito pode a pobreza e a porquidade; 
Abati as bandeiras à luxúria 
Jurei no altar de Vénus castidade. 

 in 'Antologia Poética'
Os AmantesAmor, é falso o que dizes; 
Teu bom rosto é contrafeito; 
Busca novos infelizes 
Que eu inda trago no peito 
Mui frescas as cicatrizes; 

O teu meu é mel azedo, 
Não creio em teu gasalhado, 
Mostras-me em vão rosto ledo; 
Já estou muito escaldado, 
Já d'águas frias hei medo. 

Teus prémios são pranto e dor; 
Choro os mal gastados anos 
Em que servi tal senhor, 
Mas tirei dos teus enganos 
O sair bom pregador. 

Fartei-te assaz a vontade; 
Em vãos suspiros e queixas 
Me levaste a mocidade, 
E nem ao menos me deixas 
Os restos da curta idade? 

És como os cães esfaimados 
Que, comendo os troncos quentes 
Por destro negro esfolados, 
Levam nos ávidos dentes 
Os ossos ensanguentados. 

Bem vejo a aljava dourada 
Os ombros nus adornar-te; 
Amigo, muda de estrada, 
Põe a mira em outra parte 
Que daqui não tiras nada. 

Busca algum fofo morgado 
Que, solto já dos tutores, 
Ao domingo penteado, 
Vá dizendo à toa amores 
Pelas pias encostado; 

Que em sisuda casa honrada, 
De papéis nunca avarento, 
Dá com mão refalseada 
Escritos de casamento, 
Ora à filha, ora à criada. 

Genealógico comprado 
Lhe concede a peso d'ouro, 
Em castelo imaginado, 
Cabeça de fusco mouro 
Sobre escudo golpeado. 

Árvores de geração 
Em pergaminho enrolado 
Provas inegáveis são; 
É um ramo desgraçado 
De antigos reis de Aragão. 

Dando ao mochila o lazão, 
De Fílis a escada emboca, 
Sempre em ar de protecção, 
Alvo palito na boca, 
Lisa varinha na mão; 

Zomba de falsos brasões 
Que não são no berço achados 
E diz à moça as razões 
De ter no teliz bordados 
Dois cães e quinze leões; 

As histórias lhe declara 
Daquelas guerras felizes 
E mostra, com mão avara, 
Os ossos de dez narizes 
Que seu quinto avô cortara. 

Aturde a moça boçal 
Com cem quintas, cem comendas; 
E armando um mapa geral 
Das suas imensas rendas, 
Vai-se sem lhe dar real. 

Mas se a teus farpões dourados 
Não achas digno consumo 
E os julgas mal empregados 
Nestas cabeças de fumo, 
Nestes peitos altanados, 

Busca algum novel basbaque, 
Que por pobre não saía, 
Mas já mete o bairro a saque 
Depois que engenhosa tia 
Lhe armou duma saia um fraque; 

Que, gravezinho, namora 
Com brando e risonho aspeito, 
Ponta de lenço de fora, 
Molho de flores no peito, 
Prenda de certa senhora. 

Que um trapo a seu jeito ordena, 
Temendo o pó das calçadas; 
E antes de entrar na novena, 
Com cuspo, pelas escadas, 
Vai dando aos sapatos crena. 

De gelo as pedras cobertas, 
Como às vezes me fizeste, 
Alta noite e a horas certas, 
Quando o áspero nordeste 
Deixou as ruas desertas; 

Ouça duros assobios, 
Precursores de alto insulto, 
Retalhem-no ventos frios, 
Ladrem ao postado vulto 
Cem nocturnos cães vadios; 

De paisanos salteado, 
Ronda sem fé e sem lei, 
De espadas velhas cercado, 
E ao som da parte d'el-rei 
Por força desembuçado, 

Membrudo cabo vermelho 
O apalpe ante os mais senhores; 
Acha uma escova, um espelho, 
Dezoito escritos de amores 
E um pescocinho velho. 

Firam teus acesos raios 
Também na gentalha vil, 
De crestados peitos baios, 
Que começando em barril, 
Vão por aumento a lacaios; 

Busca algum que da cocheira, 
Quando o patrão não sai fora, 
Com os olhos na trapeira, 
Limpando a sege, namora 
Desgrenhada cozinheira; 

Que de noite à sua porta, 
Com famosos tangedouros 
Que o Talaveiras conforta, 
Lhe manda ternos amores 
Sobre as asas da Comporta; 

A quem a suja donzela, 
Por almoço do costume, 
Manda em sórdida tigela 
O primitivo chorume 
Da desflorada panela. 

E se te não satisfazes 
Com tanta conquista brava 
Que nesta canalha fazes, 
E ainda a funesta aljava 
Pejada de setas trazes, 

Não tens velhas presumidas 
Que em fim de mês fingem dores 
Só às moças concedidas? 
E têm de compradas cores 
As chochas faces tingidas; 

Cuja boca pestilenta 
Ante um espelho ensaiada, 
Torcendo-se destramente, 
Aprende a abrir a risada 
Por onde inda resta um dente; 

Que há sessenta anos donzelas 
(caso raras vezes visto) 
Têm títulos de capelas 
Com um hábito de Cristo 
Para quem casar com elas? 

Busca alguma de bom caco 
Que, pela fenda da saia 
Marinhando o braço fraco, 
Fisga o lenço de cambraia 
Afastando o de tabaco; 

Que em festival sociedade 
Até o rapé reprova, 
Chamando-lhe porquidade, 
E vai fartar-se na alcova 
De simonte e de cidade. 

Amor, faze estas em postas, 
Vai-lhe das lágrimas rindo 
Já que de lágrimas gostas, 
E não andes perseguindo 
A quem te virou as costas. 

Porém se da plebe escura 
Em pouco o triunfo prezas 
E queres fina ternura, 
Extremos, delicadeza, 
Os freiráticos procura; 

Gentes de mais alta esteira, 
Ternos, finos corações, 
Que em fechada papeleira 
Vão guardando em batalhões 
As cartas da sua freira; 

Em chegando a condutora 
Que os sacrilégios ateia, 
Um destes de gosto chora, 
Lambe com respeito a obreia 
Por ter cuspo da senhora; 

Posto na insípida grade, 
Em almíscar perfumado, 
Todo amor, todo saudade, 
Comendo em doce babado 
Os sobejos de algum frade; 

Ao sublime estilo guinda 
Sua discrição notória, 
A que logo a freira linda, 
Revolvendo na memória 
Os dois livros de Florinda, 

Responde: «Os conceitos sigam 
Os holocaustos do altar; 
Pois são, e as chamas o digam, 
Pedir, quem pode mandar, 
Preceitos que mais obrigam». 

Entretanto um chantre velho, 
A quem a rodeira engoda 
E que em fechando o Evangelho, 
Vai meter dentro da roda 
O seu cachaço vermelho, 

Freirático por fadário, 
Tão guloso como amante, 
Condessinhas pelo armário, 
E sobre a deserta estante 
Manjar branco e o breviário, 

Que em podre filosofia, 
Sectário da antiga lei, 
Os Universais sabia 
E armado do a parte rei, 
Tudo a eito distinguia, 

Arranca oleoso escarro, 
Diz à rodeira um conceito, 
Daqueles que já têm sarro, 
Mete os óculos no peito, 
Trono de amor e catarro. 

Pois já que estes peitos vão 
Franca entrada oferecer-te, 
Amor, carrega-lhe a mão; 
Aprendam a conhecer-te, Mas 
paguem caro a lição; 

Mete num cárcere a dama, 
Do bom chantre os calcanhares 
Vão curtir gota na cama 
E o secular cruze os mares 
Que foi descobrir o Gama. 

E se queres empregar 
As tuas setas de prova, 
Quando alva lua raiar, 
Vai sobre a Ribeira Nova 
As asas equilibrar. 

Brancos vestidos tomados, 
Descobrindo as saias altas, 
Entre as nuvens os toucados, 
E com esbeltos paraltas 
Os braços entrelaçados; 

Verás ser aceito logo 
Teu riso enganoso e brando; 
Não esperam por teu rogo, 
E em tu do alto assoprando 
Verás chamejar o fogo; 

Que alvos dedos delicados 
A furto se vão beijando 
Enquanto os pais descuidados, 
A loja nova admirando, 
Pararam embasbacados. 

Verás sisudo estrangeiro 
Contando grossos tostões 
Ao refinado brejeiro, 
Correio de corações 
Que se compram por dinheiro; 

Verás moça rebuçada, 
Na cabeça lenço sujo, 
Roupinha desatacada, 
Recebendo do marujo 
Um copo de limonada. 

E enquanto escuto os gemidos 
Que arrancas de tantos seios, 
Deixa que em montes erguidos 
Veja os naufrágios alheios 
Enxugando os meus vestidos. 

Se até nos teus estimados 
Ervadas setas se embebem, 
Se do teu riso enganados 
Com bocas sedentas bebem 
Veneno em vasos dourados, 

Vão pé ante pé guiados 
Por peitada cozinheira, 
Mas, vendo os pais levantados, 
Dentro de enrolada esteira 
Ficam num canto encostados. 

Quando alta noite sussurra 
Rijo, sibilante vento 
Que as grossas portas empurra, 
E acorda o velho avarento 
Com os cuidados na burra, 

Deixando a cama ligeiro, 
Corre portas e janelas, 
Registando o quarto inteiro 
Em roupão e em chinelas, 
Com pistola e candeeiro; 

Que tremor de coração, 
Que semblantes enfiados 
Os amantes não terão 
Que, cos colos levantados, 
Ouvindo o rumor estão? 

Da janela debruçada 
Desenvolve degraus falsos 
Pálida dama assustada, 
Os mimosos pés descalços, 
A madeixa ao vento dada. 

Pois se estes teus escolhidos, 
Por cabedais, por figura, 
Das Nises favorecidos, 
Maldizem sua ventura 
E saem arrependidos; 

Como hei-de eu crer-te, que apenas 
Vi de longe tranças de ouro? 
Debalde outro engano ordenas 
A quem de teu vão tesouro 
Nunca teve mais que penas; 

Do teu rol meu nome risca; 
Em peito inda não cortado 
Cevados anzóis arrisca, 
Mas com peixe já sangrado 
Não gastes a tua isca. 

De meu pranto rociadas 
Penduro as fatais cadeias, 
Ao som de meus ais forjadas; 
Arranco das rotas veias 
Cruas setas despontadas. 

Sangue inocente esparziram; 
Mais à ideia me não tragas 
Uns olhos que enxutos viram 
Estas desgraçadas chagas 
Que em teu serviço se abriram. 

Dei-te os cuidados e os dias, 
De tudo já foste dono, 
Restam só melancolias. 
Que glória te dá um trono 
Posto sobre cinzas frias? 

Teus golpes, de mim, que esperam? 
Dá folga aos escravos mancos 
Que em teu carro entorpeceram; 
Deixa em paz cabelos brancos 
Que entre os teus ferros nasceram. 

 in 'Antologia Poética'