04/07/2014

8.388.(4jul2014.10.10'10") Augusto Abelaira

Nasceu a 18mar1926
e morreu a 4jul2003
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A página no facebook
https://www.facebook.com/pages/Augusto-Abelaira/347097598855
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a censura fascista na obra de Augusto Abelaira:
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http://ephemerajpp.com/2010/11/01/censura-despachos-da-direccao-dos-servicos-da-censura-relativos-a-livros-de-augusto-abelaira/

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Via: http://cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/augusto-jose-de-freitas-abelaira.html#.U7Z0sdJdVVI
Caricatura - Vasco
(caricatura feita pelo VASCO)
Um romance é não somente o que lá pôs o escritor mas é também aquilo que lá puseram os leitores”, “esse leitor imaginário é um leitor muito especial: é um leitor que sente a falta de um certo livro ainda por escrever. E o escritor procura corresponder a esse desejo, oferecendo-lhe o desejado livro”.
Se tiver tempo, se a Sophie couber na economia do meu livro, ainda voltarei a citá-la, custa-me deixar em suspenso o que depois aconteceu. Mas precisamente o respeito por uma boa administração romanesca obriga-me a descrever imediatamente a tal aventura insólita já antes prometida, não devo desperdiçar totalmente os meus poucos recursos” 
"hoje, com o cartão de plástico, seria mais fácil, os progressos da nossa civilização, ó Jacinto”.
 “o meu objectivo, começo a adivinhá-lo, adivinha-se afinal simples: fazer de mim através da escrita um ser uno, não este caótico, contraditório indivíduo que sempre fui. Afinal escrever, mesmo descontinuamente, é fixar no papel uma continuidade e essa continuidade sou eu”.
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sobre o livro BOLOR:
Via: http://trapichedosoutros.blogspot.pt/2010/01/ignoro-porque-de-augusto-abelaira.html

QUARTA-FEIRA, 6 DE JANEIRO DE 2010


IGNORO PORQUÊ, de Augusto Abelaira






Ignoro porquê (o Concerto para a mão esquerda?), interrompo o esforço de ir escurecendo ( em verdade azulando) este caderno. Quando recomeço, volvidos alguns minutos, ponho um sinal na página cento e quinze - lembrar-me-ei assim, ao chegar lá, da minha inquietação, a curiosidade há-de obrigar os meus dedos a voltarem aqui, os meus olhos poderão ler as seguintes palavras (então por completo esquecidas, agora ainda por escrever):Pouco depois de nos levantarmos e enquanto me barbeava, a Maria dos Remédios disse, através da porta:


- Costumas pensar muitas vezes na Catarina?


Demorei a resposta. Porque diabo lhe teria passado hoje aquela ideia pela cabeça - hoje e não há seis anos? Logo pela manhã, em vez de uma dessas frases iguais a muitas outras ( de paredes sólidas e sem janelas), teria eu deixado escapar algumas palavras transparentes, reveladoras de que a Catarina estava, continua a estar, no mais íntimo dos fundos, no mais íntimo de mim?


Com a máquina de barbear em punho, com o meu rosto bem na minha frente, lancei-me à procura do momento preciso em que acordei, dos minutos simultaneamente longos e apressados que precedem a decisão final de sair da cama, a conversa sobre o Aníbal Soares, a obrigação inadiável de o ir ver ao hospital, o...


Para além da porta fechada, os passos da Maria dos Remédios afastavam-se - aparentemente desinteressara-se de ouvir a resposta, pelo menos desinteressara-se de uma resposta precipitada, preferia conceder-me alguns momentos de reflexão.


Não muitos; os passos regressavam:


- Acháva-la bonita?


Ao mesmo tempo fico espantado comigo próprio: vivo contigo; Maria dos Remédios, há tantos anos, e nunca suspeitei desse teu vício ( a aritmética dos sentimentos).


- Ela era muito bonita - digo. Acabada a barba, abrira a porta e, em vez do meu, tinha agora em frente o rosto da Maria dos Remédios. Acrescento, receoso de uma ruga que lhe descia da testa, um pouco acima do nariz: - Não posso dar outra resposta, percebes?


- Sim, poderias dizer: a Catarina era feia.


- Saberias que eu teria mentido.


-E também que tinhas adivinhado o meu desejo de ouvir - adoçou levemente a voz, imitando a voz que me faltara: Tu és mais bonita...


-Desejavas, de facto? - Não. Perguntaste «Costumas pensar muitas vezes na Catarina?» E também: «Acháva-la muito bonita?» Vou responder-te agora de outra maneira: «Receia, sim, a concorrência das mulheres que não conheço - as que conhecerei daqui a quatro ou cinco meses. Daqui a quatro ou cinco meses terás envelhecido quatro ou cinco meses, essas mulheres não terão envelhecido um único segundo. Daqui a quatro ou cinco meses terão rigorosamente a idade que tiverem, a idade com que as conhecerei daqui a quatro ou cinco meses, eu que não as terei conhecido quatro ou cinco meses antes».


(Bolor)
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http://www.filologia.org.br/soletras/16/verdade%20e%20fragmento%20o%20di%C3%A1rio%20como%20pseudo-genero.pdf
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Via JERO:
Foto: Efeméride // Recordando Augusto Abelaira
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10201407551785339&set=a.1029365188983.3914.1670949754&type=1&theater
 Augusto José de Freitas Abelaira foi um professor, romancista, dramaturgo, tradutor e jornalista português
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A sua obra foi influenciada pela estética neo-realista que une os romances histórico-materialistas e os romances psicológicos.

Abelaira participou activamente na luta contra o regime de Salazar, integrando-se em movimentos estudantis de oposição, part
icipando activamente na distribuição de panfletos. Após a década de 1930 passou a utilizar a ironia como sua principal arma, criando personagens com aversão à política de esquerda e à hipocrisia, empenhados em causas como o Movimento de Unidade Democrática e a contestação ao Plano Marshall
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Estreou-se como autor de romances no fim da década de 1950 com o romance A cidade das flores (1959), um retrato das perplexidades da juventude do seu tempo em relação ao totalitarismo de Salazar, deslocando a trama para a Itália a fim de não ser preso pela PIDE.
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Foi colaborador da revista Almanaque (1959-61), publicação com redação coordenada por José Cardoso Pires e grafismo de Sebastião Rodrigues, onde colaboraram, entre outros, Luís de Sttau Monteiro, Alexandre O'Neill e João Abel Manta.4 e colaborou igualmente no Jornal do Caso República (1975) de Raul Rêgo. Foi detido em 1965 por ter atribuído, como presidente do júri, o Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores ao angolano José Luandino Vieira (também preso no Tarrafal), pelo seu livro de contos, Luuanda.
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Trabalhou como tradutor e como jornalista no Diário Popular, no Jornal de Letras e no Século. Entre 1977 e 1978, foi director de programas da RTP e das revistas Seara Nova e Vida Mundial5 .
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Obras
A Cidade das Flores (romance), 1959;
Os Desertores (romance), 1960;

A Palavra é de Oiro (teatro), 1961;
O Nariz de Cleópatra (teatro), 1962;
As Boas Intenções (romance), 1963;
Enseada Amena (romance), 1966;
Bolor (romance), 1968;
Ode (quase) Marítima, (monólogo), com desenhos de Maria Keil, 1968;
Quatro Paredes Nuas (contos), 1972;
Sem Tecto Entre Ruínas (romance), 19796 ;
«Olfacto», in Poética dos Cinco Sentidos: La Dame à la Licorne, 1979;
Anfitrião, Outra Vez (teatro), 1980;
O Triunfo da Morte (romance), 19817 ;
O Bosque Harmonioso (romance), 1982;
O Único Animal que... (romance), 1985;
Deste Modo ou Daquele (romance), 1990;
Outrora, Agora (romance), 1996;
Nem Só Mas Também (romance) [póstumo], 2004;
«O arquimortes», in Ficções n.º 8, 2003-2004.