17/07/2014

8.445.(17jul2014.13.44') Cesário Verde

Nasceu a 25fev1855
e morreu a 19jul1886
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Via JERO
“A Dor humana busca amplos horizontes,/ e tem marés de fel, como um sinistro mar!"
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O livro de Cesário Verde
http://ensina.rtp.pt/artigo/o-livro-de-cesario-verde/
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E enfim hás-de morrer na forca dos meus braços.
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Ave-Marias

Nas nossas ruas,ao anoitecer,
 Há tal soturnidade, há tal melancolia, 
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia 
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

 O céu parece baixo e de neblina,
 O gás extravasado enjoa-me, perturba-me; 
E os edifícios, com as chaminés, e a turba 
Toldam-se duma cor monótona e londrina. 

Batem os carros de aluguer, ao fundo
Levando à via-férrea os que se vão. 
Felizes! Ocorrem-me em revista, exposições, países: 
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!

 Semelham-se a gaiolas, com viveiros, 
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas, 
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros. 

Voltam os calafates, aos magotes, 
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos, 
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos, 
Ou erro pelos cais a que se atracam botes. 

E evoco, então, as crónicas navais: 
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado 
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! 
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

 E o fim da tarde inspira-me; e incomoda! 
De um couraçado inglês vogam os escaleres; 
E em terra num tinido de louças e talheres
 Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda
.
 Num trem de praça arengam dois dentistas; 
Um trôpego arlequim braceja numas andas; 
Os querubins do lar flutuam nas varandas; 
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! 

Vazam-se os arsenais e as oficinas; 
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
 E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, 
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

 Vêm sacudindo as ancas opulentas! 
Seus troncos varonis recordam-me pilastras; 
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
 Os filhos que depois naufragam nas tormentas. 

Descalças! Nas descargas de carvão, 
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas; 
E apinham-se num bairro aonde miam gatas, 
E o peixe podre gera os focos de infecção! 

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25 de Fevereiro de 1855: Nasce, em Lisboa, o poeta Cesário Verde, inconformista, crítico, autor de "O Sentimento de Um Ocidental".

Cesário Verde nasceu em Lisboa no dia 25 de Fevereiro de 1855 e faleceu na mesma cidade a 19 de Julho de 1886.
A poesia de Cesário Verde, prefiguradora de uma modernidade estética inteiramente reconhecida após a sua morte, dificilmente cabe nas classificações da história literária. Se a representação pictórica dos ambientes e a descrição plástica da realidade o aproximam do Realismo e do Parnasianismo, se o interesse pelos fracos e humildes ecoa influências românticas e baudelairianas, não é menos verdade que a imaginação do poeta o conduz, muitas vezes, a uma recriação impressionista ou fantasista da realidade devedora da estética simbolista. Filho de um comerciante com loja de ferragens em Lisboa e uma exploração agrícola em Linda-a-Pastora, passa a infância entre os ambientes citadino e rural, binómio que será marcante na sua obra. Em 1873, matricula-se no Curso Superior de Letras, que não chegará a concluir, mas onde trava conhecimento com figuras da vida literária, como Silva Pinto, que se tornará seu grande amigo. Durante a juventude, viaja pelos grandes centros cosmopolitas europeus (Paris e Londres) e deixa vários poemas dispersos por jornais como o Diário de Notícias, Diário da Tarde, Tribuna, A Ilustração, acolhidos com críticas quase sempre desfavoráveis. Em 1874, aparece anunciada a edição breve de um livro de Cesário Verde, que não acontecerá. A partir de 1879, desiludido com a incompreensão do mundo intelectual, Cesário dedica-se cada vez mais a assistir o pai na loja de ferragens e na exploração da quinta. Em 1882, morre-lhe um irmão de tuberculose, tal como a irmã, que havia morrido dez anos antes. Aos 31 anos, ele próprio morre vítima da mesma doença. Em 1887, Silva Pinto publica a primeira edição de O Livro de Cesário Verde.
Cesário Verde. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014.
wikipedia(imagens)

Ironias do Desgosto

Onde é que te nasceu" - dizia-me ela às vezes -
"O horror calado e triste às coisas sepulcrais?
"Por que é que não possuis a verve dos franceses
"E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais?

"Por que é que tens no olhar, moroso e persistente,
"As sombras dum jazigo e as fundas abstrações,
"E abrigas tanto fel no peito, que não sente
"O abalo feminil das minhas expansões?

"Há quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
"Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
"Que estão edificando um negro cadafalso
"E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém!

"Eu vim - não sabes tu? - para gozar em maio,
"No campo, a quietação banhada de prazer!
"Não vês, ó descorado, as vestes com que saio,
"E os júbilos, que abril acaba de trazer?

"Não vês como a campina é toda embalsamada
"E como nos alegra em cada nova flor?
"Então por que é que tens na fronte consternada"
"Um não-sei-quê tocante e enternecedor?"

Eu só lhe respondia: — "Escuta-me. Conforme
"Tu vibras os cristais da boca musical,
"Vai-nos minando o tempo, o tempo - o cancro enorme
"Que te há-de corromper o corpo de vestal.

"E eu calmamente sei, na dor que me amortalha,
"Que a tua cabecinha ornada à Rabagas,
"A pouco e pouco há-de ir tornando-se grisalha
"E em breve ao quente sol e ao gás alvejará!

"E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
"Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,
"Eu morro de pesar, talvez, porque prefiro
"O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!"

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'




Ficheiro:Cesario Verde.JPG
Cesário Verde
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Via Citador
Cesário Verde

Eu e ElaCobertos de folhagem, na verdura, 
O teu braço ao redor do meu pescoço, 
O teu fato sem ter um só destroço, 
O meu braço apertando-te a cintura; 

Num mimoso jardim, ó pomba mansa, 
Sobre um banco de mármore assentados. 
Na sombra dos arbustos, que abraçados, 
Beijarão meigamente a tua trança. 

Nós havemos de estar ambos unidos, 
Sem gozos sensuais, sem más idéias, 
Esquecendo para sempre as nossas ceias, 
E a loucura dos vinhos atrevidos. 

Nós teremos então sobre os joelhos 
Um livro que nos diga muitas cousas 
Dos mistérios que estão para além das lousas, 
Onde havemos de entrar antes de velhos. 

Outras vezes buscando distração, 
Leremos bons romances galhofeiros, 
Gozaremos assim dias inteiro, 
Formando unicamente um coração. 

Beatos ou apagãos, via à paxá, 
Nós leremos, aceita este meu voto, 
O Flos-Sanctorum místico e devoto 
E o laxo Cavaleiro de Faublas... 

 in 'O Livro de Cesário Verde'
ContrariedadesEu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 

in 'O Livro de Cesário Verde'
Num Bairro ModernoDez horas da manhã; os transparentes 
Matizam uma casa apalaçada; 
Pelos jardins estancam-se as nascentes, 
E fere a vista, com brancuras quentes, 
A larga rua macadamizada. 

Rez-de-chaussée repousam sossegados, 
Abriram-se, nalguns, as persianas, 
E dum ou doutro, em quartos estucados, 
Ou entre a rama do papéis pintados, 
Reluzem, num almoço, as porcelanas. 

Como é saudável ter o seu conchego, 
E a sua vida fácil! Eu descia, 
Sem muita pressa, para o meu emprego, 
Aonde agora quase sempre chego 
Com as tonturas duma apoplexia. 

E rota, pequenina, azafamada, 
Notei de costas uma rapariga, 
Que no xadrez marmóreo duma escada, 
Como um retalho da horta aglomerada 
Pousara, ajoelhando, a sua giga. 

E eu, apesar do sol, examinei-a. 
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos; 
E abre-se-lhe o algodão azul da meia, 
Se ela se curva, esguelhada, feia, 
E pendurando os seus bracinhos brancos. 

Do patamar responde-lhe um criado: 
"Se te convém, despacha; não converses. 
Eu não dou mais." È muito descansado, 
Atira um cobre lívido, oxidado, 
Que vem bater nas faces duns alperces. 

Subitamente - que visão de artista! - 
Se eu transformasse os simples vegetais, 
À luz do Sol, o intenso colorista, 
Num ser humano que se mova e exista 
Cheio de belas proporções carnais?! 

Bóiam aromas, fumos de cozinha; 
Com o cabaz às costas, e vergando, 
Sobem padeiros, claros de farinha; 
E às portas, uma ou outra campainha 
Toca, frenética, de vez em quando. 

E eu recompunha, por anatomia, 
Um novo corpo orgânico, ao bocados. 
Achava os tons e as formas. Descobria 
Uma cabeça numa melancia, 
E nuns repolhos seios injetados. 

As azeitonas, que nos dão o azeite, 
Negras e unidas, entre verdes folhos, 
São tranças dum cabelo que se ajeite; 
E os nabos - ossos nus, da cor do leite, 
E os cachos de uvas - os rosários de olhos. 

Há colos, ombros, bocas, um semblante 
Nas posições de certos frutos. E entre 
As hortaliças, túmido, fragrante, 
Como alguém que tudo aquilo jante, 
Surge um melão, que lembrou um ventre. 

E, como um feto, enfim, que se dilate, 
Vi nos legumes carnes tentadoras, 
Sangue na ginja vívida, escarlate, 
Bons corações pulsando no tomate 
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. 

O Sol dourava o céu. E a regateira, 
Como vendera a sua fresca alface 
E dera o ramo de hortelã que cheira, 
Voltando-se, gritou-me, prazenteira: 
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!..." 

Eu acerquei-me dela, sem desprezo; 
E, pelas duas asas a quebrar, 
Nós levantamos todo aquele peso 
Que ao chão de pedra resistia preso, 
Com um enorme esforço muscular. 

"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!" 
E recebi, naquela despedida, 
As forças, a alegria, a plenitude, 
Que brotam dum excesso de virtude 
Ou duma digestão desconhecida. 

E enquanto sigo para o lado oposto, 
E ao longe rodam umas carruagens, 
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto, 
Descolorida nas maçãs do rosto, 
E sem quadris na saia de ramagens. 

Um pequerrucho rega a trepadeira 
Duma janela azul; e, com o ralo 
Do regador, parece que joeira 
Ou que borrifa estrelas; e a poeira 
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo. 

Chegam do gigo emanações sadias, 
Ouço um canário - que infantil chilrada! 
Lidam ménages entre as gelosias, 
E o sol estende, pelas frontarias, 
Seus raios de laranja destilada. 

E pitoresca e audaz, na sua chita, 
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, 
Duma desgraça alegre que me incita, 
Ela apregoa, magra, enfezadita, 
As suas couves repolhudas, largas. 

E, como as grossas pernas dum gigante, 
Sem tronco, mas atléticas, inteiras, 
Carregam sobre a pobre caminhante, 
Sobre a verdura rústica, abundante, 
Duas frugais abóboras carneiras. 

 in 'O Livro de Cesário Verde'