16/08/2014

8.575.(16ag2014.8.8') António Nobre

Nasceu a 16ag1867
e morreu a 18mar1900
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http://www.ptjornal.com/201203186220/geral/hoje-e-dia/18-de-marco-morre-antonio-nobre-o-poeta-romantico.html
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Via: http://tertuliabibliofila.blogspot.pt/2009/05/antonio-nobre-e-so.html

SONETO

Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.

Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente!

Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.

Belos Ares, 1889.


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18mar1900...morre
 https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/03/18-de-marco-de-1900-morre-o-poeta.html?spref=fb&fbclid=IwAR0FsrkQ3NV4zO3qU9SLmjNTyfO51UUfy5nR2ZDR6wQV4mlC0kB5WNTeeKg
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16 de Agosto de 1867:Nasce o poeta português António Nobre, autor de "Só" e "Despedidas".

Poeta português, nascido no dia 16 de agosto de 1867, no Porto, e falecido a 18 de março de 1900, na mesma cidade.


A infância e a adolescência de António Nobre foram passadas entre Leça da Palmeira, onde o pai, antigo emigrado no Brasil, possuía uma quinta, e a Foz do Douro. Tendo estudado em colégios do Porto, frequentou os principais centros da boémia portuense, convivendo com figuras literárias como Raul Brandão e Júlio Brandão e publicando criação poética. Frequentou posteriormente a Faculdade de Direito de Coimbra, onde, com Alberto de Oliveira, fundou a revista Boémia Nova, cuja polémica com a publicação de Insubmissos, de Eugénio de Castro, constituiu um marco na emergência do Simbolismo e do Decadentismo em Portugal. Foi em Coimbra que, habitando a fortificação medieval que ficaria conhecida como "Torre de Anto", se acentuou o culto por uma postura romântica e egocêntrica, e que elaborou grande número das composições que viriam a integrar a sua principal obra publicada em vida. Em Paris, desde 1890, forma-se em Direito na Sorbonne e, conquanto à margem da dinâmica literária francesa que, por essa altura, consagra o Simbolismo, publica, em 1892, obra onde a voz do lusíada exilado reinventa, entre nostálgico e auto-irónico, uma existência que, nutrida nas tradições de um Portugal puro e preservado, o votou à solidão e ao sofrimento. Não chegando a ocupar o lugar de cônsul para que concorrera em 1893, os últimos anos de vida de António Nobre serão marcados por deslocações frequentes entre os lugares da sua infância e juventude e lugares de repouso, como a Suíça e a Madeira. Uma leitura literal de um biografismo assumido com emotividade e a evocação de um "Portugal da minha infância", vislumbrado em paisagens rurais e em textos plasmados sobre formas populares, permitiu que a publicação de  surgisse como um modelo a um tempo de uma estética neorromântica e neogarrettista que, pelo menos desde o início dos anos 90, fora elaborando as suas propostas teóricas. Mas, na verdade, o mais original do volume passa por uma forma antideclamatória que, inserindo-se num dolorismo e confessionalismo lírico, frequentemente de inspiração autobiográfica, busca a impressão de extrema simplicidade, delindo na sua elaboração a cultura literária e o rigor construtivo que lhe subjazem. É neste sentido que António Nobre se insere numa poesia portuguesa pré-modernista, ao colocar em questão uma língua poética fortemente convencional e normativa. Segundo Gastão Cruz, "enquanto Cesário revoluciona fundamentalmente o nível linguístico, através da renovação vocabular, a revolução de Nobre, não deixando de situar-se igualmente num plano semântico, e por vezes com uma liberdade de associações e uma violência que encontram o que encontramos em Cesário [...], abala, pela primeira vez, os alicerces, e toda a construção, do edifício romântico-parnasiano." (CF. CRUZ, Gastão - A Poesia Portuguesa Hoje, 2.ª ed. aum., Lisboa, Relógio d'Água, Lisboa, 1999, pp. 20-21).



No ano de 2000 comemorou-se o centenário da sua morte, através de publicações que relembram a sua vida pessoal e poética, entre outros eventos.
Fontes: Infopédia
wikipedia (imagens)

António Nobre





A Poezia do Outomno




Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre 
Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena! 
Tardes de sonho em que a poezia escorre 
E os bardos, a sonhar, molham a penna! 

Ao longe, os rios de agoas prateadas 
Por entre os verdes cannaviaes, esguios, 
São como estradas liquidas, e as estradas 
Ao luar, parecem verdadeiros rios! 

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos, 
O chale pedem a quem vae passando... 
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos, 
As lavandiscas noivam piando, piando! 

O orvalho cae do céu, como um unguento. 
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos... 
E a larangeira, aos repellões do vento, 
Deixa cair por terra a flor dos noivos. 

E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega 
O val sem fruto, a terra arida e nua! 
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega 
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua! 

Tardes de outomno! ó tardes de novena! 
Outubro! Mez de Maio, na lareira! 
Tardes... 
    Lá vem a Lua, gratiae plena
Do convento dos céus, a eterna freira! 

António Nobre, in 'Só'
 https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2018/08/16-de-agosto-de-1867nasce-o-poeta.html
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Via Citador
À Luz da Lua!Iamos sós pela floresta amiga, 
Onde em perfumes o luar se evola, 
Olhando os céus, modesta rapariga! 
Como as crianças ao sair da escola. 

Em teus olhos dormentes de fadiga, 
Meio cerrados como o olhar da rola, 
Eu ia lendo essa ballada antiga 
D'uns noivos mortos ao cingir da estola... 

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha, 
Cobria com os seus os teus cabellos 
E dava-te um aspeto de velhinha! 

Que linda eras, o luar que o diga! 
E eu compondo estes versos, tu a lel-os, 
E ambos scismando na floresta amiga... 

 in 'Só'
Vaidade, Tudo Vaidade!Vaidade, meu amor, tudo vaidade! 
Ouve: quando eu, um dia, for alguem, 
Tuas amigas ter-te-ão amizade, 
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm. 

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade, 
Tudo vaidade! E, se pensares bem, 
Verás, perdoa-me esta crueldade, 
Que é uma vaidade o amor de tua mãe... 

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna 
E eu vi-me só no mar com minha escuna, 
E ninguem me valeu na tempestade! 

Hoje, já voltam com seu ar composto, 
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto... 
E isto em mim não será uma vaidade? 

 in 'Só'
O Somno de JoãoO João dorme... (Ó Maria, 
Dize áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar...) 

Tem só um palmo de altura 
E nem meio de largura: 
Para o amigo orangotango 
O João seria... um morango! 
Podia engulil-o um leão 
Quando nasce! As pombas são 
Um poucochinho maiores... 
Mas os astros são menores! 

O João dorme... Que regalo! 
Deixal-o dormir, deixal-o! 
Callae-vos, agoas do moinho! 
Ó mar! falla mais baixinho... 
E tu, Mãe! e tu, Maria! 
Pede áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar... 

O João dorme... Innocente! 
Dorme, dorme eternamente, 
Teu calmo somno profundo! 
Não acordes para o mundo, 
Póde affogar-te a maré: 
Tu mal sabes o que isto é... 

Ó Mae! canta-lhe a canção, 
Os versos do teu irmão: 
«Na Vida que a Dor povoa, 
Ha só uma coisa boa, 
Que é dormir, dormir, dormir... 
Tudo vae sem se sentir.» 

Deixa-o dormir, até ser 
Um velhinho... até morrer! 

E tu vel-o-ás crescendo 
A teu lado (estou-o vendo 
João! Que rapaz tão lindo!) 
Mas sempre, sempre dormindo... 

Depois, um dia virá 
Que (dormindo) passará 
Do berço, onde agora dorme, 
Para outro, grande, enorme: 
E as pombas que eram maiores 
Que João... ficarão menores! 

Mas para isso, ó Maria! 
Dize áquella cotovia 
Que falle mais devagar: 
Não vá o João, acordar... 

E os annos irão passando. 

Depois, já velhinho, quando 
(Serás velhinha tambem) 
Perder a cor que, hoje, tem, 
Perder as cores vermelhas 
E for cheiinho de engelhas: 
Morrerá sem o sentir, 
Isto é deixa de dormir... 
Acorda e regressa ao seio 
De Deus, que é d'onde elle veio... 

Mas para isso, ó Maria! 
Pede áquella cotovia 
Que falle mais davagar: 

Não vá o João, acordar... 

António Nobre, in 'Só'