05/02/2015

9.524.(5fev2015.7.44') Arábia Saudita


Via blogue castendo
http://ocastendo.blogs.sapo.pt/
O Reino da Arábia Saudita é um dos mais activos patrocinadores dos bandos terroristas ao serviço do imperialismo, e não apenas os de raiz religiosa.
Quando em meados dos anos 80 o Congresso dos EUA proibiu o financiamento da contra-revolução nicaraguense, os sauditas entraram com o dinheiro (NYT, 13.1.87).
Não são tolerados partidos nem sindicatos, nem se faz de conta que existe um Parlamento. Não existe qualquer liberdade de expressão.
Nos meses finais do reinado «reformador» e «amigo das mulheres», duas mulheres foram levadas a um tribunal anti-terrorista por conduzir um automóvel (NYT, 25.12.14) e um cidadão foi condenado a 1000 chicotadas e 10 anos de prisão por criar um blogpara discutir questões religiosas (Human Rights Watch, 10.1.15).
Na verdade, o processo judicial do Estado Saudita é uma cópia perfeita do seguido pelo Estado Islâmico: só em Janeiro de 2015 o Reino da Arábia Saudita decapitou 16 pessoas.
Nesta monarquia absoluta onde o Corão é a constituição, não existe lei codificada, pelo que a livre interpretação da lei islâmica aplica-se mediante cortes de mãos e de pés, apedrejamentos e chicotadas.
Ulema, um grupo de clérigos sunitas radicais, controla todos os aspectos da vida, do sexo à higiene passando pela alimentação e pela leitura, impondo uma estrita segregação sexual que proíbe homens e mulheres de frequentarem os mesmos espaços.
As mulheres sauditas não podem conduzir nem passar pelas portas usadas por homens, estão obrigadas a ter um «guardião» do sexo masculino e não podem estudar, viajar ou casar sem a sua autorização.
Se uma mulher saudita violar a segregação sexual e entrar em contacto com um homem fora do seu círculo familiar, é julgada por adultério e prostituição, crimes castigados com a morte. Na própria semana em que Obama foi render tributo aos reis sauditas,Layla Bassim, uma mulher birmanesa, foi decapitada em público na cidade de Meca.
Na ditadura saudita, não existem quaisquer direitos democráticos ou liberdade de expressão e opositores como Badawi são perseguidos, torturados e executados.
Bandeira Arábia Saudita
Mas o Estado Islâmico e a Arábia Saudita têm em comum algo mais importante do que as decapitações: os EUA.
Uma ligação que recua ao colapso do Império Otomano, quando os britânicos instalaram ao leme da região uma família de latifundiários sunitas, os Saud. Arábia Saudita significa literalmente a Arábia dos Saud, a família que ainda hoje é proprietária do país e cujos cerca de 7000 príncipes ocupam, com autoridade absoluta, todas as posições do Estado.
Mas Muhammad bin Saud, o fundador do primeiro Estado saudita, não impôs apenas o nome e a descendência ao novo país: também cunhou a religião. Para conquistar o território, bin Saud estabeleceu um pacto com os seguidores do Wahhabismo, a corrente ultra-reaccionária do islamismo sunita que hoje dita a lei na Arábia Saudita e também no Estado Islâmico.
Escudo Arábia Saudita

Nascido para servir o imperialismo britânico, cedo os EUA compreenderam a utilidade deste cliente reacionário e avesso a todo o progresso social:
  • nos anos 70, os sauditas armaram, a mando da CIA, o Taliban e a Al-Qaeda para derrubar o Estado afegão;
  • na primeira Guerra do Golfo, em 1991, deram estacionamento a meio milhão de tropas americanas;
  • mais tarde, em 2003, as bases sauditas permitiram 286 000 ataques aéreos contra o Iraque.
Peça central para o avanço do imperialismo no Oriente Médio, a Arábia Saudita compra anualmente aos EUA 30 mil milhões de dólares em armas.
Em contrapartida, vende fundamentalismo religioso, petróleo barato e desestabilização política.
Neste negócio perigoso e de corolários tão volúveis como a Jabhat Al-Nusrah, a Ahrar ash-Sham e o próprio Estado Islâmico, quem perde sempre são os povos.
Rei Abdulah_caricatura
Desenho de Fernando Campos (o sítio dos desenhos)
Aproveitando-se da indignação pelos crimes de Paris, dirigentes políticos mundiais desfilaram de braço dado para TV ver, longe da multidão.
Duas semanas depois, grande parte dos mesmos dirigentes foi em peregrinação à Arábia Saudita, prestar homenagem ao falecido rei Abdullah. Não foram poupados elogios.
Obama valorizou «a nossa amizade genuína e calorosa» (International New York Times, 24.1.15). Para Obama, que encurtou a sua visita à Índia para «homenagear» o rei defunto, «não seria esse o momento para falar de direitos humanos». Afinal, segundo o presidente galardoado com o Nobel da paz, Abdullah foi um «reformador», que malgrado «modesto» nos seus esforços contribuiu para a «estabilidade regional».
Blair disse que era «um modernizador», «amado pelo seu povo e cuja falta será profundamente sentida» (declaração do seu gabinete, 23.1.15).
International NYT chama-lhe um «reformador saudita» (24.1.15).
David Cameron louvou a sua «dedicação à paz» e a directora-geral do FMI declarou que «era um grande dirigente, que introduziu muitas reformas internas e, de forma muito discreta, era uma grande defensor das mulheres» (Channel 4 News, 23.1.15).
O Presidente de Israel, Rivlin, disse que «as suas sábias políticas contribuíram muito para a nossa região e a estabilidade do Médio Oriente» (Times of Israel, 23.1.15).
Hollande e Fabius deslocaram-se a Riade para prestar tributo ao rei saudita e à «sua visão duma paz justa e duradoira no Médio Oriente» (Libération, 23.1.15) – visão partilhada pela França e bem patente na Síria.
A Arábia Saudita nunca foi alvo das grandes campanhas mediáticas e políticas contra o fundamentalismo islâmico.
Porque a verdadeira questão é outra. A Arábia Saudita e o seu «capitalismo avançado» (International NYT, 24.1.15) estão do mesmo lado da barricada que Obama, Hollande, Cameron e o sionismo.
A hipocrisia sem limites dos chefes imperialistas revela algo importante: o racismo e a islamofobia que de forma cada vez mais aberta é promovida na comunicação social é – tal como o anti-semitismo dos anos 30 – apenas uma arma das classes dirigentes para dividir os trabalhadores e povos e para os arregimentar às suas políticas de guerra, exploração e rapina.
Os elogios a Abdullah mostram que não há «choque de civilizações» quando se trata de arranjar acordos entre o grande capital e garantir a continuidade dos seus chorudos lucros. Poderão existir choques de interesses.
E se algum dia a classe dirigente saudita decidisse seguir outro rumo, então sim ouviríamos falar dos crimes e pecados da sua ditadura e todo o arsenal imperialista – dos mísseis Cruzeiro às agências de notação, dos drones às pseudo-ONG – cairiam sobre a Península.
E se, 'pior' ainda, o povo saudita se erguer para varrer a sua corrupta e serventuária classe dirigente, serão ensurdecedoras as campanhas imperialistas sobre o «perigo duma nova ditadura».
Foi assim no nosso país, há 40 anos.
AQUI e AQUI
***

***
6abril2018
BIN SALMAN: “DIFUNDIR O WAHABISMO FOI IDEIA DO OCIDENTE CONTRA A URSS”

O príncipe herdeiro saudita, Mohamad bin Salman, revela que a difusão da ideologia extremista wahabi a partir da Arábia Saudita foi um projecto do bloco ocidental para minar a influência no mundo muçulmano da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Bin Salman declarou ao diário norte-americano «The Washington Post», numa entrevista publicada a 22 de Março mas que dificilmente chamou a atenção dos media, que foram os aliados de Riade que solicitaram ao governo saudita que usasse os seus recursos para impedir a penetração soviética.

Desta maneira, foram, segundo o príncipe saudita, as condições da Guerra Fria as que levaram o seu país a financiar e apoiar essa ideologia investindo na construção de mesquitas e escolas em todo o mundo orientadas para a difusão do ideário wahabi, caracterizado pela sua intolerância e queda para a violência.

Curiosamente, bin Salman tenta com as suas declarações absolver as autoridades sauditas, inclusive de haver custeado o projecto, insistindo que os fundos provieram na sua maioria de “fundações privadas” radicadas na Arábia Saudita, pelo que não se trataria de um plano governamental.

Além disso, o príncipe herdeiro afirma que o governo do seu país "perdeu a noção" dessa disseminação de ideias extremistas, e diz que agora "temos que recuperar tudo".

Apesar destes desmentidos, os investimentos de Riade em fundações "de caridade" responsáveis pela divulgação da mensagem wahabi foram estimadas pelo Departamento de Estado dos EUA em mais de 6000 milhões de libras esterlinas (cerca de 8500 milhões de dólares) nas últimas quatro décadas, de acordo com uma publicação de Junho de 2017 do «Metro».

Desse dinheiro, alguns especialistas consideram que até 20% foi desviado para o grupo terrorista Al Qaeda, entre outros grupos da mesma tendência.

O diário britânico diz que a ideologia wahabi dá aos seus praticantes uma vantagem no uso da violência, pois eles podem justificá-la teologicamente, e destaca as referências directas das regras do grupo terrorista ISIL (Daesh, em árabe) aos critérios de Mohammad ibn Abd al-Wahhab, fundador epónimo do wahabismo.

Fonte: Hispantv

Foto de CAFÉ CENTRAL.
https://www.facebook.com/960198530674380/photos/a.960209104006656.1073741828.960198530674380/2041661502528072/?type=3&theater
*
Mohahhad Bin Salman
príncipe saudita
liberaliza: autorizou abertura de salas de cinema pela 1.ªx em 35 anos!!!
***
***
2001
Nova Iorque
O ataque ao Pentágono, às Torres gémeas e as implosões
muitas dúvidas...
*
13maio2016
membros do governo da Arábia Saudita...
http://24.sapo.pt/article/sapo24-blogs-sapo-pt_2016_05_13_670519816_membros-do-governo-saudita-estiveram-envolvidos-no-11-de-setembro
***
Via avante
4ag2016
Índia
O governo da Índia vai evacuar todos os trabalhadores indianos em dificuldades e bloqueados na Arábia Saudita. Milhares de imigrantes indianos perderam o emprego naquele país árabe e não têm meios de subsistência ou para viajar de regresso a casa. Mais de 10 mil pessoas nessas condições enfrentam uma crise alimentar e estão já a ser apoiados pelas autoridades indianas.

Muitos trabalhadores indianos do sector da construção civil foram despedidos na Arábia Saudita devido à crise provocada pela queda dos preços do petróleo. Há uma situação semelhante no Koweit. Mais de três milhões de indianos trabalham na Arábia Saudita.
jan2016
http://www.avante.pt/pt/2198/internacional/138692/
Agressão saudita ao Iémen
Crimes sucessivos

As Nações Unidas condenam o bombardeamento de um hospital da Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Norte do Iémen. O ataque ocorre quando a Arábia Saudita está a ser acusada de usar bombas de fragmentação na campanha militar no país.
Image 19703
Em comunicado divulgado segunda-feira, 11, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lamentou a morte de quatro pessoas e o ferimento de outras dez no ataque ocorrido na cidade de Saada, lembrou que os hospitais e o pessoal médico gozam de protecção explícita no acervo legal internacional, e insistiu na necessidade de pôr fim a uma guerra que tem devastado o território iemenita. Cerca de 80 por cento da população do país está numa situação de dependência de ajuda humanitária, e a agressão saudita já terá provocado cerca de seis mil vítimas mortais, metade das quais civis, de acordo com dados apurados pela organização.
O máximo titular das Nações Unidas não atribui o bombardeamento à coligação liderada pela Arábia Saudita, mas o facto é que, o ano passado, incidentes semelhantes envolvendo instalações de saúde da MSF (em Dezembro em Taez e em Outubro também em Saada), foram da responsabilidade das petro-monarquias que desde Março de 2015 intervêm ilegalmente no Iémen.
Domingo, 10, a MSF também não era capaz de detalhar se o míssil que atingiu o centro médico tinha sido lançado pela aviação de Riade, mas sublinhou que a unidade clínica se encontra numa zona controlada pelos grupos que combatem a campanha militar encabeçada pela Arábia Saudita.

Armas proibidas

O bombardeamento de um dos oito hospitais que a organização humanitária francesa gere no Iémen sucede quando a Arábia Saudita é suspeita do uso de bombas de fragmentação no território. No domingo, 10, um alto comando saudita veio a público negar a acusação. Antes, o secretário-geral das Nações Unidas lembrou que, a confirmar-se o uso de bombas de fragmentação, «pode constituir um crime de guerra». Ban Ki-moon manifestou-se também muito preocupado pelos relatos que indicam uma vaga massiva de bombardeamentos indiscriminados na capital iemenita, Sanaa.
O responsável da ONU colocou uma nuance ao ressalvar que seria crime o uso da daqueles projécteis proibidos «em zonas povoadas». A verdade é que um tratado internacional datado de 2008 veta o uso daquelas munições em absoluto.
Sem nuances, a Human Rights Watch responsabiliza a Arábia Saudita pelos bombardeamentos em Sanaa a 6 de Janeiro último, e garante possuir provas do uso de bombas de fragmentação. Num relatório recente, o Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos denunciou a coligação árabe pelos mesmos motivos e assegurou que preserva despojos das referidas bombas.

Imperialismo apoia escalada

Face às denúncias do uso de armamento proibido no Iémen e às execuções de prisioneiros condenados na Arábia Saudita (já vai em 51 desde o início do ano, e de uma só vez foram executados 47 acusados de «terrorismo»), o governo canadiano está a ser pressionado a derrogar um contrato de venda de armas a Riade, no valor de cerca de 13 mil milhões de dólares. O executivo de Otawa responde que se esse fosse o critério deixariam de negociar com muitos parceiros, «alguns bem próximos».
A referência aos EUA foi clara. A administração norte-americana, por seu lado, também não se livra de responsabilidades nos crimes sucessivos cometidos no Iémen. Não apenas porque confirmou, no final de 2014, um negócio milionário de munições com a Arábia Saudita, mas ainda porque no relatório da HRW se detalha que pedaços de bombas de fragmentação fabricadas nos EUA foram encontrados após os bombardeamentos de 6 de Janeiro em Sanaa.
Chegou a ser dado como um facto que nos ataques contra a capital iemenita a embaixada do Irão tinha sido atingida. Tal não foi cabalmente confirmado. No entanto, as relações entre os dois países com interesses contraditórios no Iémen permanecem conflituosas, depois de a Arábia Saudita ter executado um clérigo xiita.
As duas potências regionais encontram-se de laços diplomáticos cortados. Uma série de países árabes de maioria sunita também reviu as relações com o Irão, país que sublinha que tal conduta só agrava a tensão no Médio Oriente.

*
23ab2015
http://www.avante.pt/pt/2160/internacional/135213/
Arábia Saudita prossegue agressão
Iémen sob fogo

Os bombardeamentos contra o Iémen constituem «um perigoso desenvolvimento» na região, considera o PCP, que reclama o fim da intervenção saudita e uma solução pacífica respeitadora da soberania do país.
Image 17953
O Partido «condena a agressão protagonizada pela Arábia Saudita com o apoio dos regimes ditatoriais do Golfo Pérsico e dos EUA», e sublinha que «esta constitui uma violação do direito internacional e uma inaceitável interferência nos assuntos internos do Iémen». A agressão confirma, por outro lado, «uma tendência intervencionista da Arábia Saudita em países da região, de que é exemplo a intervenção militar no Bahrein, em 2011».

No texto divulgado dia 15 pelo seu gabinete de imprensa, o PCP nota também que a ofensiva «visa, essencialmente, esmagar a afirmação soberana iemenita e assegurar o controlo da posição geoestratégica do Iémen nas rotas de transporte de matérias-primas energéticas», representando «um perigoso desenvolvimento numa região marcada por uma grande tensão, por vários conflitos e pelas consequências da política de ingerência, divisão e guerra dos EUA, das potências da NATO e seus aliados no Médio Oriente».

O Governo português, defende ainda o PCP, deveria adoptar «uma posição de firme condenação da agressão militar ao Iémen, de exigência do fim dos bombardeamentos e de defesa de um processo de diálogo político que assegure a independência, soberania e integridade territorial».

«A situação de extrema tensão no Médio Oriente, cujas consequências são imprevisíveis, só pode ser ultrapassada com o fim da política de ingerência e guerra do imperialismo, nomeadamente do imperialismo norte-americano, com o fim da ocupação do Iraque e da guerra de agressão à Síria e com o reconhecimento dos direitos nacionais do povo palestiniano, de acordo com as resoluções das Nações Unidas», concluiu o PCP.

Segundo informações oficiais difundidas domingo, 19, desde 26 de Março a coligação liderada pela Arábia Saudita já efectuou 2000 bombardeamentos para impedir o controlo do país pelas milícias que se levantaram contra o presidente Abdo Hadi, tomaram a capital do Iémen (em Setembro do ano passado), e avançaram, posteriormente, para a conquista do Sul do território.

O alegado líder dos revoltosos, Abdelmalek al Huthi, veio entretanto dizer que as suas forças nunca se renderão e estão mesmo prontas a responder à Arábia Saudita, isto depois de o responsável militar saudita ter afirmado que os ataques aéreos destruíram 80 por cento dos depósitos de armas e material bélico dos insurrectos.

A situação humanitária no país degrada-se rapidamente e o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, apelou, sexta-feira, 17, ao estabelecimento imediato de um cessar-fogo, garantindo que a Arábia Saudita «entende a necessidade do processo de paz».

Na terça-feira, 14, todos os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU, exceptuando a Rússia, que se absteve, aprovaram a proibição da venda de armas aos «rebeldes xiitas». A Federação Russa defende, há semanas, a suspensão dos bombardeamentos no quadro de uma trégua humanitária, a abertura de canais de negociação e a imposição de um embargo a todas as partes envolvidas no conflito.
*
opinião de António Santos
5fev2015
http://www.avante.pt/pt/2149/internacional/134189/
As mil e uma noites
de hipocrisia e terror
LUSA
Image 17533

Os estado-unidenses têm uma forma curiosa de lidar com a morte. No velório, em vez do pranto e das assoadelas, escuta-se o álbum favorito do falecido e conta-se anedotas sobre a sua vida. E o cemitério, que dificilmente um português escolheria para um agradável piquenique, é para o americano apenas um relvado: sem cruzes tétricas nem largos lutos, nem nada de lúgubre até onde a vista alcança. E no entanto nem os mais pronunciados matizes da cultura, nem os sempre complexos rendilhados da língua, explicam o singular critério de Barack Obama para a morte de outros chefes de Estado.
Lembro-me por exemplo dos termos de Obama, em 2013, aquando da morte do presidente Hugo Chávez: «A Venezuela entra num novo período da sua História; os EUA continuarão a patrocinar medidas que promovam a democracia e o respeito pelos direitos humanos». Já a 27 de Janeiro, o falecimento do Rei Abdullah da Arábia Saudita mereceu todo um outro tipo de considerandos. A delegação fúnebre dos EUA incluiu figuras de topo como o secretário de Estado John Kerry, o director da CIA John Brennan, o comandante do Comando Central Lloyd Austin e o chefe dos republicanos John McCain. Para Obama, que encurtou a sua visita à Índia para «homenagear» o rei defunto, «não seria esse o momento para falar de direitos humanos». Afinal, segundo o presidente galardoado com o Nobel da paz, Abdullah foi um «reformador», que malgrado «modesto» nos seus esforços contribuiu para a «estabilidade regional». 
Direitos humanos 
Na verdade, o processo judicial do Estado Saudita é uma cópia perfeita do seguido pelo Estado Islâmico: só em Janeiro de 2015 o Reino da Arábia Saudita decapitou 16 pessoas. Nesta monarquia absoluta onde o Corão é a constituição, não existe lei codificada, pelo que a livre interpretação da lei islâmica aplica-se mediante cortes de mãos e de pés, apedrejamentos e chicotadas. A Ulema, um grupo de clérigos sunitas radicais, controla todos os aspectos da vida, do sexo à higiene passando pela alimentação e pela leitura, impondo uma estrita segregação sexual que proíbe homens e mulheres de frequentarem os mesmos espaços. As mulheres sauditas não podem conduzir nem passar pelas portas usadas por homens, estão obrigadas a ter um «guardião» do sexo masculino e não podem estudar, viajar ou casar sem a sua autorização. Se uma mulher saudita violar a segregação sexual e entrar em contacto com um homem fora do seu círculo familiar, é julgada por adultério e prostituição, crimes castigados com a morte. Na própria semana em que Obama foi render tributo aos reis sauditas, Layla Bassim, uma mulher birmanesa, foi decapitada em público na cidade de Meca. Na ditadura saudita, não existem quaisquer direitos democráticos ou liberdade de expressão e opositores como Badawi são perseguidos, torturados e executados. 
Um Estado-cliente 
Mas o Estado Islâmico e a Arábia Saudita têm em comum algo mais importante do que as decapitações: os EUA. Uma ligação que recua ao colapso do Império Otomano, quando os britânicos instalaram ao leme da região uma família de latifundiários sunitas, os Saud. Arábia Saudita significa literalmente a Arábia dos Saud, a família que ainda hoje é proprietária do país e cujos cerca de 7000 príncipes ocupam, com autoridade absoluta, todas as posições do Estado. Mas Muhammad bin Saud, o fundador do primeiro Estado saudita, não impôs apenas o nome e a descendência ao novo país: também cunhou a religião. Para conquistar o território, bin Saud estabeleceu um pacto com os seguidores do Wahhabismo, a corrente ultra-reaccionária do islamismo sunita que hoje dita a lei na Arábia Saudita e também no Estado Islâmico.
Nascido para servir o imperialismo britânico, cedo os EUA compreenderam a utilidade deste cliente reacionário e avesso a todo o progresso social: nos anos 70, os sauditas armaram, a mando da CIA, o Taliban e a Al-Qaeda para derrubar o Estado afegão; na primeira Guerra do Golfo, em 1991, deram estacionamento a meio milhão de tropas americanas; mais tarde, em 2003, as bases sauditas permitiram 286 000 ataques aéreos contra o Iraque. Peça central para o avanço do imperialismo no Oriente Médio, a Arábia Saudita compra anualmente aos EUA 30 mil milhões de dólares em armas. Em contrapartida, vende fundamentalismo religioso, petróleo barato e desestabilização política. Neste negócio perigoso e de corolários tão volúveis como a Jabhat Al-Nusrah, a Ahrar ash-Sham e o próprio Estado Islâmico, quem perde sempre são os povos.