10/12/2015

3.702.(10dez2015.16.16') Maria Eugénia Cunhal

Nasceu 17jan1927
e morre a 10dez2015
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Uma explicação linda de comunismo da irmã de Álvaro Cunhal.

https://www.youtube.com/watch?v=8c6WGofWT8w
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"A ideologia não é bom que venha pela cabeça. É bom que venha pelo coração, pelo afecto, e depois a cabeça arruma como é que esse afecto se concretiza. Acho eu que é assim, e que deve ser assim, para ser uma coisa verdadeiramente humana."
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Morreu a Geny, a Eugénia Cunhal, uma amiga linda, uma grande mulher.
"Olha-me bem nos olhos
E diz-me que acreditas
Que até a morte vir
Eu hei-de amar as coisas que tu amas
E nelas sempre te encontrar a ti."
O funeral é sábado, da Voz do Operário para o Alto S. João.
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Via Avante
Image 13824
http://www.avante.pt/pt/2072/temas/126547/
Maria Eugénia Cunhal, quem a conhece, quem alguma vez falou com ela e leu os seus livros, sente que ela e os seus livros, a sua militância e os seus livros, o ser humano que ela é, estão naqueles poemas e contos e crónicas. Estão lá até ao âmago do seu ser.
Porque neles sentimos não só o seu entendimento do mundo e das pessoas, mas até o seu olhar e o seu respirar: aquele escrever compassado, aquele escrever falando-nos tão humanamente, falando e parando e escrevendo «Desceram a escada, a luz apagou-se.
- Anda, agasalha-te.
Abriram a porta da rua. O vento bateu-lhe na cara. Deu a mão à mãe. Chegou-se mais a ela sem compreender.»
Que voz, que por ser tão repassada, diria de compaixão, de solidariedade, é apenas murmurada, mas tão profundamente. Porque esta escrita vem do sangue que alimenta o pulsar do coração, por isso é comovida, por isso é bela.
Desde que escreve, desde que respira, Maria Eugénia Cunhal fez a sua opção.
Editado em 1962, «Silêncio de Vidro», o seu primeiro livro, é repassado de estar com os outros, de reparar e ir com os outros no obscuro das suas vidas pobres e oprimidas. Nele os poemas são habitados por gente humilde e ela escreve: «Um pescador morreu. / No canto ignorado duma barraca pobre.»
E mais adiante noutro poema «– A renda do quarto não está paga, / Três dias de trabalho por semana – / … O Águas chutou, Mateus defendeu, a bola avançou… / – O teu filho Manuel? / Lá está de cama.»
E ainda um outro poema que termina assim: «Pois quando vieres /Não és só tu que vens. /É todo um mundo novo que despontará lá fora. /Quando vieres.» Por isso, este livro é também habitado pela esperança.
E é vinte anos depois, em 1983, que «História de Um Condenado à Morte» é editado pela Barca Nova. Livro de poemas, escrito de uma forma quase epopeica, de uma grande originalidade, livro que pela sua beleza e pela sua afirmação de humanidade, devia de ser lido nas escolas, pois, na sua solidariedade, é um manifesto em que o ser humano como um ser pleno se identifica afectivamente com todos os outros seres animais ou vegetais, portanto um livro de redenção, de dignidade, de poderosa poesia escrito com contenção e disciplina. Um livro em que cada instante é um agora sucessivo: «Em cada já /Se nasce /Para ser //E só em cada já /Se pode estar ///Foi /Ou será /Quem é //Como no mar /Onde a onda é um onde /Contínua sucessão de jás /Num só quebrar.» Um livro onde o ser humano por amor à vida, por amor à humanidade nasce a cada momento que passa, renasce, reaprende, se reaprende e nesse reaprender se liberta. E edifica a sua consciência. Um livro onde se lê «Pois /Livre é ao nascer /Livre se expande //Se o homem /Quiser //E o homem /Vai querer».
Mais tarde, no ano 2000, editado pela «Escritor» «As Mãos e o Gesto», também a mesma fidelidade e uma maior contenção. Aqui a poesia de Maria Eugénia interroga, conscientiza, solidariza-se. Escreve «Lá fora /No frio da noite sei que a lua nasceu /Sei que no cais há barcos que esperam /E gente, como nós, a aguardar a hora impossível da partida».
No seu intimismo contido é o ser humano face à sua própria solidão, à sua circunstância: os sonhos que nos embalaram e que o tempo foi embaciando, o que ficou pelo caminho, o que queríamos que fosse e não foi, o amor que se queria tão dadivosamente e tão desperto: porque é que tudo não foi mais, só mais alguma coisa?
No entanto, o outro, o reparar no outro, o ser solidário continua na voz e na respiração desta poesia.
É que a poesia em Maria Eugénia Cunhal nunca é, nunca será só palavras ou só o prazer da escrita ou só o brilho do poema… A sua poesia é, e, é, visceralmente, porque também ela própria é solidariedade, afecto. Portanto a sua poesia é como o diz este seu poema «Pensa que a poesia não nasce/ por acaso/ Atrás de cada frase há por vezes muito sangue/sofrimento/ Ou alegria ou amor ou desespero/ Ou qualquer outro sentimento humano/ dos mais fortes.»
Também o seu livro de contos, «Relva Verde Para Cláudio», editado pela «Escritor» em 2003, é claro e verdadeiro, humaníssimo, na sua escrita poética, intimista, e ao mesmo tempo tão solidária, tão junto dos outros: dos humilhados, dos injustiçados, dos sós que vivem nas sombras frias que são as suas próprias vidas…
Que estes contos pela sua contenção de escrita, pela sua respiração compassada, pelos seus silêncios de frase para frase são dos mais belos e comovedores que tenho lido. Por eles perpassa a solidão, a velhice que se ampara uma à outra, a ternura que comunica nas pequenas coisas que o amor com o tempo descobre, a ternura para com as crianças ainda não maculadas e por isso ao contrário dos adultos ainda capazes de serem próximas umas das outras. Os gestos, os pequenos e banais gestos que nestes contos nos surgem nimbados de poesia e humanidade: o barbeiro, a empregada de costura, o funcionário já gasto no seu viver tão monótono e burguês.
Toda uma galeria de personagens nos são dadas como se ouvíssemos uma música baixinho e onde espreitam cintilações.
Assim também na «Escrita de Esferográfica», editado pela «Voz do Operário» em 2008, onde na crónica que se intitula «Memória», Maria Eugénia escreve «O cheiro dos pinheiros, da maresia, das urzes, da praia, da minha infância onde aprendi que entre nós e a natureza não existe barreiras».
Neste livro, a escrita, é precisa e contida, os textos são exemplarmente desenhados, o seu princípio, meio e fim completamente conseguidos. E tão humanos.
E é sempre um rumor brando de vento que perpassa, é sempre um olhar, uma atenção a todas as pessoas: as solidões que passam por nós. O cinzento igual e monótono de todos os dias, sem sorrisos, sem viço. E de repente é como se à beira do passeio, entre as pedras despontasse uma flor, um sorriso. E a tristeza da vida é rompida por um raio de sol.
São estas preciosidades que fazem a escrita de Maria Eugénia especial, diferente – este reparar nas pequenas grandes coisas do dia-a-dia que nos tocam e comovem ao lê-la e dá beleza aos seus textos.
A voz de Maria Eugénia Cunhal – as suas palavras escritas, tão contidamente, desenhando os seres humildes, os sofredores, os solitários de uma solidão sofrida em silêncio. «– Não se esqueça. Daqui a uns cinco ou seis dias pode vir buscá-la.
Ficou à porta a vê-la juntar-se ao grupo.
- Buscar o quê? – perguntaram.
- Ora! – disse, encolhendo os ombros.
Já dentro do carro acenou-lhe um último adeus que morreu na poeira da estrada.»

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


 in «Silêncio de Vidro»
***
http://cateespero.blogs.sapo.pt/tag/maria+eug%C3%A9nia+cunhal
SPARTACUS

Em cada hora
Em cada dia
Século após século
os homens arremessam o teu nome ao vento
e dele saem dardos, punhais, espadas
e dele saem pombas e flores ensanguentadas
De cada letra um filho
De cada som um eco

Teu nome-profecia
Teu nome vinho-novo
que ao terceiro dia há-de ressuscitar
nas veias do meu povo

Teu nome
que mil vezes tem sido agrilhoado
Teu nome sangue-mel
nos lábios do carrasco uma esponja de fel

Teu nome-escravo
Teu nome-espectro
fantasma de terror na noite de algozes
temido como as vozes que clamam no deserto

Teu nome-salmo
escrito em cada corpo morto
em cada cruz erguida

Teu nome-espiga
que se transforma 
em pão
Teu
 nome-pedra
da construção do mundo
que será o fruto do teu gesto

Teu nome
em cada gesto do esvoaçar das asas
da gaivota presa

Teu nome
vela-acesa na catedral da esperança
do altar-homem

Teu nome
em cada grito
em cada mão

Teu nome-sinfonia
que há-de explodir com a alegria
de um átomo liberto

Spartacus!
Teu nome-irmão.


In “As Mãos e o Gesto”

Editorial Escritor
**
QUANDO VIERES


Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.
*
BASTASTE TU

Bastou aquele gesto
Da tua mão tocar tão docemente a minha
Pra nascerem raízes
Que me prendem à terra e me alimentam
Nas horas mais vazias

Bastou aquele olhar
- O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu –
Para iluminar as noites em que a lua se esconde
E a escuridão envolve um mundo sem sentido.

Bastou esse teu jeito de sorrir,
Um sorriso em que vejo despontar a confiança
Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,
Nos passos que ressoam noutros passos

Bastaste tu.
In “Silêncio de Vidro”
Editorial Escritor
***
http://voarforadaasa.blogspot.pt/2013/10/quando-vieres-maria-eugenia-cunhal.html

Quando vieres 
Encontrarás tudo como quando partiste.
mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
 não encontrarás aquela menina de saias curtas
cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és  tu que vens
É todo um mundo novo que despontará  fora
Quando vieres.

in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962
 ( Álvaro Cunhal, 14 anos mais velho que a irmã, estivera na prisão durante 11 anos e fugira 2 anos antes. E tinha saído do paísVeio em 1974.)
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Via PCP
http://www.pcp.pt/faleceu-maria-eugenia-cunhal

NOTA DO SECRETARIADO DO COMITÉ CENTRAL DO PCP

Faleceu Maria Eugénia Cunhal

O Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português informa, com profunda mágoa e tristeza, do falecimento, aos 88 anos, de Maria Eugénia Cunhal, militante comunista, com uma vida dedicada à luta contra o fascismo, pela liberdade, contra a exploração capitalista, pela democracia, pela paz, o socialismo e o comunismo.
Nascida a 17 de Janeiro de 1927 em Lisboa, foi professora de inglês, tradutora, jornalista e escritora, filha de Mercedes e Avelino Cunhal, e irmã de Álvaro Cunhal, desde sempre conviveu com a luta antifascista e com os ideais da liberdade e da democracia, cedo conheceu a realidade da repressão fascista, com apenas dez anos visita o seu irmão Álvaro Cunhal na prisão.
Maria Eugénia Cunhal foi presa pela PIDE com 18 anos, e foi várias vezes detida para interrogatórios, quando o seu irmão Álvaro Cunhal se encontrava na clandestinidade.
Quando questionada sobre quando abraçou o ideal comunista, respondeu “É difícil dizer. Porque, no fundo, acho que sempre fui comunista, desde que tenho cabeça para pensar. Mas muito cedo, a minha opção foi tomada muito cedo, sem dúvida nenhuma.”
Maria Eugénia Cunhal é autora das obras O Silêncio do Vidro (1962), a História de Um Condenado à Morte (1983), As Mãos e o Gesto (2000), Relva Verde Para Cláudio (2003) e Escrita de Esferográfica (2008).
Publicou entre 1947 e 1951, na revista Vértice, vários poemas com o pseudónimo de «Maria André».
Fez a primeira tradução portuguesa dos contos de Tchekov, Os Tzibukine (1963).
Actualmente estava organizada no Sector Intelectual-Artes e Letras da Organização Regional de Lisboa do PCP.
Modesta, discreta, dedicada, fraterna, Maria Eugénia Cunhal deixa-nos o seu exemplo de verticalidade e firmeza de carácter, o amor aos outros, o interesse pelo ser humano, contra a exploração, contra a desigualdade.
O Secretariado do Comité Central endereça aos seus filhos, netos e restante família, as suas sentidas condolências.
O corpo estará em câmara ardente na Sociedade de Instrução e Beneficência «A Voz do Operário» em Lisboa, a partir das 11 horas de sexta-feira, dia 11 de Dezembro.
O Funeral sairá às 11.00 horas de sábado, dia 12 de Dezembro, para o cemitério do Alto de São João e a cremação será as 12.00 horas.
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Via Público

Morreu Maria Eugénia Cunhal

Irmã de Álvaro Cunhal, militante do PCP, jornalista e escritora tinha 88 anos.

http://www.publico.pt/politica/noticia/morreu-maria-eugenia-cunhal-1717017
Eugénia Cunhal, de 88 anos, era militante do PCP, jornalista e escritora. A morte foi revelada nesta quinta-feira pelo secretariado do Comité Central do partido.
O corpo de Maria Eugénia Cunhal estará em câmara ardente na sociedade Voz do Operário, em Lisboa, a partir das 11h de sexta-feira. A cerimónia fúnebre, que culmina no cemitério do Alto de São João, começará pelas 11h de sábado, até à cremação, prevista pelas 12h.
Os dirigentes comunistas expressam "profunda mágoa e tristeza" pelo falecimento de Eugénia Cunhal, pessoa com "uma vida dedicada à luta contra o fascismo, pela liberdade, contra a exploração capitalista, pela democracia, pela paz, o socialismo e o comunismo", dirigindo "aos seus filhos, neta e restante família, as suas sentidas condolências".
Maria Eugénia Cunhal, 14 anos mais nova que o histórico secretário-geral comunista, falecido em 2005, pertencia ao sector Intelectual (Artes e Letras) da Organização Regional de Lisboa do PCP, foi detida pela polícia política do Estado Novo aos 18 anos, sendo ainda presa para interrogatórios noutras ocasiões, enquanto Álvaro Cunhal se encontrava na clandestinidade.

Professora, tradutora, jornalista e escritora foram as suas ocupações profissionais, tendo publicado as obras O Silêncio do Vidro (1962), História de Um Condenado à Morte (1983), As Mãos e o Gesto (2000), Relva Verde Para Cláudio (2003) e Escrita de Esferográfica (2008), além da primeira tradução para Português dos contos de Tchekov, Os Tzibukine (1963).