31/03/2009

estive com o escritor Américo Areias

O meu camarada Américo Areias é utente da Misericórdia de Alcobaça, uma bela Instituição com excelentes profissionais...
Entre o que conversámos, surpreendeu-me com belas histórias que vai escrevendo...Vejam esta como exemplo...
O VELHO MOINHO

As obras de recuperação do velho moinho prosseguem a bom ritmo. Apesar do seu estado de degradação em que se encontrava, já é visível, mesmo sem a recuperação da azenha.

A primeira fase de recuperação foi a conduta de água, que é feita de pedra mole, fácil de trabalhar, o que permite canalizar a água até às as azenhas. Essa água é recolhida algumas centenas de metros atrás e serve também para regar os campos de cultivo da quinta que se dedicava, na sua maioria, ao cultivo de cereais, que se encontrava abandonada e da qual o moinho faz parte.

O responsável pelas obras e principal entusiasta é um jovem engenheiro, recentemente licenciado, tendo como aliado o Presidente da Autarquia, um professor de História já reformado. Durante os trabalhos, foi descoberto um pequeno cano na parede do moinho que ninguém sabia para que era, dada a sua localização. Aparentemente, era para levar a água para a azenha, mas não se sabia a sua origem, havendo quem levantasse a hipótese de ser para reaproveitar a água da chuva. Mas era uma hipótese que levantava muitas dúvidas, dado que quando chovia era sinal que havia abundância de água.

Por baixo da azenha existia um tanque feito em pedra, de alguma dimensão, que também levantava dúvidas, dado que a mesma água, a seguir, voltava para o rio. Havia quem sustentasse a ideia de pertencer ao mesmo sistema, do qual faz parte o cano que está na parede.

Todos os esforços feitos para recolher informações de como funcionava o moinho foram infrutíferas, pois não havia memória viva que pudesse ajudar. Só o Presidente da Autarquia tinha recolhido um pequeno depoimento dum familiar do moleiro acerca das azenhas e das respectivas mós, que eram uma para o trigo e outra para o milho.

O edifício era todo feito em pedra trabalhada, o que lhe dava um ar monumental, o que motivou que as linhas e o estilo de construção fossem mantidos.

O tanque que existia por baixo da azenha foi feito a partir da rocha que estava no local. No decorrer das obras, o jovem engenheiro que estava dentro do tanque e intrigado com o cano, que se pensa estar associado, perguntava a si mesmo “ O que é que aqui está escondido que nós não conseguimos ver?” e, enquanto pensava, brincava com uma pequena pedra na mão, distraidamente e, num acto de desespero, atirou a pedra com força contra a parede acima do tanque. Foi quando caiu uma pequena parte do reboco, que era feito duma massa muito pobre, deixando a descoberto um pequeno desenho que parecia ter seguimento.

Logo a seguir, aproximou-se, tenta decifrar o que via. Não conseguia! Então, começa a raspar o reboco e descobre o que lhe parece ser parte de uma azenha, o que o estimula a continuar e o que vê deixa-o entusiasmado e intrigado, ao mesmo tempo, pois começa a ganhar forma o que vê gravado na pedra. É já visível uma azenha, mas continua, ainda sem forma, outro desenho, associado à mesma e que se prolonga para além desta, dando a entender uma obra de engenharia mais vasta.
A partir da azenha, sai um braço, que liga a um outro mecanismo, ainda sem forma. O jovem engenheiro está cada vez mais intrigado e entusiasmado, continua a raspar, começando o desenho a ganhar forma. O jovem engenheiro começa a abrir os olhos de espanto e, finalmente, parece que vai descobrir o que lá está desenhado, sabe-se lá, há quantos anos…

O que acaba de descobrir é uma bomba de água! Esta é accionada por um braço, a partir da azenha, bombeando a água a partir do tanque, levando-a ao cano que está na parede, que, por sua vez, a reencaminha para a conduta de água, o que permite uma reutilização e aproveitamento da água.

Ao compreender o mecanismo que acaba de descobrir, não consegue disfarçar o entusiasmo e começa a gritar, loucamente:

- Decifrei! Decifrei!

O professor de História, ao ouvir os gritos, correu, intrigado, para ver o que se passava e pergunta:

- O que se passa, o que se passa?

- Veja, professor, o que está aqui na parede!

O professor espreitou, procurou, atentamente, decifrar o que estava diante de si e comentou:

- Não pode ser! Como é possível naquela altura haver alguém a inventar uma máquina como esta?

E continuava estupefacto a admirar aquele desenho e pergunta ao engenheiro:

- É possível por isto a trabalhar?

- Tem que ser! Tem que ser!

Dito isto, parou, abre os olhos de espanto e arranca a correr para junto da outra azenha e grita novamente:

- Descobri! Descobri!

O professor olha para ele, espantado, e ele não parava de pular e gritar.

- O que é que descobriu, homem? Diga-me!

- Olhe para a azenha! Não vê nada? Não vê que temos aqui o mecanismo que nos vai dar energia para iluminar o moinho?

O professor abriu os olhos de espanto e pergunta:

- Acha que é possível? A partir da azenha conseguimos produzir energia eléctrica?

- Claro que somos! É com o mesmo sistema das eólicas, só que, em vez do vento, é accionado com a água, como se fosse um moinho!

As obras seguem a bom ritmo, entrando já na fase final. Já foi feito o primeiro ensaio no moinho e funcionou plenamente, assim como o mecanismo hidráulico para desligar a mó quando não é precisa, o que permite que a azenha continue a trabalhar para bombear a água para a outra azenha para ensaiar a produção de energia.

A recuperação do moinho é o motivo de orgulho da Vila, faltando agora concretizar a outra parte que é adaptar uma velha azenha, que accionava o moinho para a produção de energia eléctrica, o que está prestes a acontecer.

Feito o ensaio geral de todos os mecanismos, o moinho, a bomba de água e a produção de energia eléctrica, tudo funcionou na perfeição.

No dia da inauguração oficial, o que causou admiração geral em todos os convidados foi a bomba de água e, especialmente, o mecanismo da produção de energia eléctrica, tendo este recebido o “Prémio de Inovação e Aproveitamento das Energias Renováveis”.


Américo Areias, 12 de Março de 2009