e morreu a 18 jan1936
***
biografia
http://www.truca.pt/ouro/biografias1/rudyard_kipling.html
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O grande poema que me deram de prenda em 1975...
Se
Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.
Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas
Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos
Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres
sem fazeres dos sonhos teus mestres
Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos
Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo
e tratares esses dois impostores do mesmo modo
Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo
Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.
Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"
Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente
Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender
ou amigos queridos
te conseguirem ofender
Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado
mas nenhuma demasiado
Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam
dando valor
a todos os segundos que passam
Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!
(Tradução de Vitor Vaz da Silva do poema "IF" de Rudyard Kipling)
***
Dito por João Villaret
https://www.youtube.com/watch?v=wbSzumecW5c
***
Via:
http://www.arquivors.com/kipling1.htm
***
Dito por João Villaret
https://www.youtube.com/watch?v=wbSzumecW5c
***
Via:
http://www.arquivors.com/kipling1.htm
Dois poemas de Rudyard Kipling
A FÊMEA DA ESPÉCIE
Se o camponês do Himalaia encontra um urso feroz,
ele grita para o monstro, de modo a baixar-lhe o facho;
mas a ursa fêmea, acossada, mostra as garras, mostra os dentes,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.
Quando Nag, a cobra, astuto, ouve passos descuidosos,
se arrasta às vezes, de lado, evitando algum empacho;
mas a sua companheira não se arreda do caminho,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.
Quando os Jesuítas pregaram para os Hurons e os Choctaws,
rezavam por não ser presas do feminino penacho,
que elas – e não os guerreiros – é que os faziam tremer,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.
O peito tímido do Homem explode sem dizer nada,
pois da Mulher por Deus dada não se dispõe com despacho,
mas a história do marido confirma a do caçador –
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.
O Homem, urso em muitos casos, verme ou selvagem em outros,
propõe negociações e reconhece o contrato;
só muito raro é que torce a lógica da evidência
até a extrema conclusão, num imperdoável ato.
Medo ou tolice é que o impelem, antes de punir os maus,
a dar julgamento justo ao vilão mais irreflexo.
O júbilo aplaca-lhe a ira; dúvida e pena não raro
pasmam-no em muitas questões – para o escândalo do Sexo!
Mas a Mulher por Deus dada cada fibra de seu corpo
numa questão só aplica, de ânimo aceso em fogacho;
e por concluir a questão, prevendo falhas futuras,
a fêmea da espécie tem de ser mais mortal que o macho.
Quem Morte e tortura enfrenta pelos que tem junto ao seio,
não a detêm pena ou dúvida – não se curva a fato ou piada.
Isso é diversão para homens, de que a honra dela não pende;
Ela, a Outra Lei que nós temos, é aquela Lei e mais nada!
Ela não pode dar vida para além do que a engrandece,
como a Mãe do Infante ou como Companheira do seu Par;
e quando, faltando Infante e Homem, clama o seu direito
de femme (ou barão), é o mesmo o equipamento a empregar.
Com convicções é casada, pois faltam laços maiores;
suas rusgas são seus filhos, e ai de quem disso se esquece!
Não terá frios debates, mas pronta, desperta, instante,
a guerrear por esposo e filho, a fêmea da espécie.
Sem provocações e ameaças, a fêmea do urso assim briga;
e com a fala que envenena e rói, a cobra sem dó;
e vivisseção científica do nervo até que ele seque,
e de dor se estorça a vítima – como com o Jesuíta a squaw!
Assim é que o Homem, covarde, quando se ajunta em concílio
com seus bravos companheiros, para ela um lugar não rende
onde, em guerra com a Consciência e a Vida, levanta as mãos
a um Deus de abstrata justiça – que mulher alguma entende.
O Homem sabe! E sabe mais: que a Mulher que Deus lhe deu
deve ordenar sem impor-se, sem obrigá-lo ao agacho;
e Ela sabe, pois o avisa, e Seus instintos não falham,
que a fêmea da Sua espécie é mais mortal do que o macho!
A PROMETIDA
"Você terá que escolher entre mim e o charuto.”
CASO DE QUEBRA DE PROMESSA MATRIMONIAL, CIRCA 1885
Abram a velha charuteira,
dêem-me um Cuba bem fornido;
complicaram-se as coisas, Maggie
e eu nos temos desentendido.
Por causa do Havana brigamos,
brigamos por um bom charuto,
e eu percebo que ela exagera,
e ela então me chama de bruto.
Abram a velha charuteira;
que por um instante eu sossegue,
vendo através do véu azul
da fumaça o rosto de Maggie.
É bem bonita de se olhar –
Maggie, uma amável jovenzinha;
mas belas faces logo murcham
e até o mais puro amor definha.
Num Larranaga existe paz,
num Henry Clay a calma mora;
mas o melhor charuto logo
se acaba, e a gente o deita fora –
deita fora por outro, tão
perfeito, e escuro, e bem curtido;
coisa que com Maggie não faço,
por medo ao boato e ao alarido.
Maggie, minha esposa aos cinqüenta –
grisalha, e velha, e aquele humor! –
e não poder adquirir outra
nem por ouro, nem por amor!
Tornada na treva de agora
a luz ardente do passado,
e como a guimba de um charuto
o lume do Amor apagado –
a guimba extinta de um charuto
que no bolso se há de meter,
sem que, fumado até o toco,
se tenha outro para acender.
Abram a velha charuteira –
deixem-me ao menos refletir.
Aqui um suave Manila,
ali uma esposa a sorrir.
O que é melhor: a servidão
comprada ao preço de um anel,
ou todo um harém de morenas,
cinqüenta, presas a um cordel?
Hábeis e mudos conselheiros,
confortadores experientes,
e nem uma só das cinqüenta
para esnobar as concorrentes?
Pensamentos de manhã cedo,
consolo em épocas de abrolhos,
paz no silêncio do crepúsculo,
bálsamo antes que eu feche os olhos,
eis o que as cinqüenta hão de dar-me,
sem nada em troca demandar,
com só esta paixão sati (*):
cumprir seu dever e queimar.
Eis o que as cinqüenta hão de dar-me.
E, quando extintas e acabadas,
cinco vezes outras cinqüenta
novas servas me serão dadas.
Encostas da distante Java
e ilhas hispânicas também –
hão de outra vez enviar-me noivas
quando acabar o meu harém.
Não me preocupará vesti-las
nem tê-las bem alimentadas,
nem quando as gaivotas aninham,
nem no outono das chuvaradas.
Vou perfumá-las com baunilha,
temperar com chá suas peles;
Mouro e Mórmon terão inveja
ao ouvirem a história delas.
Pois Maggie escreveu numa carta
que eu escolhesse meu destino
entre o pequeno Amor chorão
e o grandioso deus Nico Tino.
E por menos de doze meses
do Amor não fui mais que um servente,
mas Sacerdote de Cabanas
fui por sete anos certamente.
Meus negros dias de solteiro
são coloridos no fulgor
de troncos que queimei somente
por Gozo, Amigos, Lida e Ardor.
Se me volto para o futuro
que provaremos Maggie e eu,
a única luz que há sobre os pântanos
é o duro Amor e o jugo seu.
Terei uma jornada livre,
ou nesses pântanos me afogo?
Se o fumo de um charuto o embaça,
devo seguir o incerto fogo?
Abram a velha charuteira –
deixem-me pensar outra vez;
velhos amigos, quem é Maggie
para que eu despreze vocês?
Um bom milhão de Maggies extras
aí estão para levar o andor.
Uma mulher é uma mulher,
mas um Charuto é puro Odor.
Acendam-me mais outro Cuba –
que fiel aos meus votos serei.
Se Maggie não vai ter rivais,
nenhuma Maggie esposarei.
(Traduções de Renato Suttana)
***
+2 poemas
via:
http://www.revistas.usp.br/clt/article/viewFile/49369/53447
O CONTO DE URIAS
“Havia em uma cidade dois
homens; um rico e outro pobre.” 3
JACK BARRETT foi a Qüetta4
A rufo de tambor.
Com três partes do soldo
Em Shimla5
deixou Lenore6
.
Tombou tão pronto em Qüetta,
Que nem viu de outubro a cor.
Jack Barrett foi a Qüetta,
Sem justa explicação,
Estranha transferência
No mais belo da estação.
Partiu era setembro,
E morreu de supetão.
Jack Barrett foi a Qüetta,
E lá se despediu,
Lutando por dois homens
No “bom posto” que assumiu.
Lenore vestiu-lhe luto,
Mas penúria nunca viu.
Jack Barrett hoje em Qüetta
Inânime se espraia,
Mas quem apostaria
Que em espírito não saia
A perguntar por que
O arrancaram do Himalaia?
E quando o Toque do Clarim
Ecoe sobre o Harnai7
,
E o Livro Negro da Chacota
Enfim revele o guai,
Se a cova que devora a carne
O espírito propele,
De quem mandou Jack Barrett lá
Eu não desejo a pele.
COMPROMETIDO
“Você terá de escolher: ou seus charutos ou eu.” 8
ABRA a velha charuteira, dê-me um Havana encorpado,
Que meu noivado com Maggie está ficando complicado.
A causa da desavença reside no meu charuto.
Acuso-a de intransigência, diz ela que eu sou um bruto.
Abra a velha charuteira, que eu quero ficar entregue
Aos auspícios da fumaça, lembrando a face de Maggie.
Maggie é bonita de ver – promessa de amor certeira – ,
Mas beleza acaba em ruga, e amor não dura a vida inteira.
Tão pacato é um Laranaga, pacífico um Henry Clay9
,
E o melhor dos bons charutos em uma hora já fumei.
Fumei e troquei por outro – novinho, enxuto, perfeito –,
Já trocar Maggie por outra não será tão bem aceito.
Que tal Maggie em seus cinqüenta – grisalha, ranzinza e
velha –,
Sem Maggie sobressalente que restitua a centelha?
Nem que o fogo do passado se torne a luz do presente,
Quando o amor recenda a sarro como cinza remanente,
A ponta de um bom charuto – mas morto no bolso –
pode
Concorrer com fumo novo, que ao pigarro nos acode.
Abra a velha charuteira – que o momento é de escolher:
Aqui um suave Manilla10; lá um sorriso de mulher.
Qual será o melhor partido: servidão selada a anel
Ou um harém de folhas finas ofertadas a granel?
Cinqüenta noivas por caixa – conforto sincero e certo –,
Nenhuma delas bicuda com tanta rival por perto.
Meditação matutina; consolo em tempo de dor;
Paz na calada da noite; e, à porta do sono, torpor.
Eis o dote que as cinqüenta, em sacrifício, me darão
Com devoção de satis12 – incineradas na missão.
Eis o dote que as cinqüenta me darão sem compromisso
E, mortas, outras cinqüenta já estarão a meu serviço.
As ilhas das Caraíbas, e a ilha de Java também,
Cuidarão de manter sempre renovado meu harém –
Harém nutrido sem jóias nem sedas nem pão-de-ló –,
Caiam raios ou gaivotas, faça chuva ou faça sol.
Só o perfume da baunilha e o tempero de um bom chá
Darão charme às minhas noivas de vexar as de um paxá.
E Meggie insiste, por carta, que eu faça a escolha mofina
Entre o merencório Amor e a grande deusa Nicotina.
Faz doze minguados meses – se tanto – que sigo o amor,
Mas das graças de um Partagas13 sou primígeno cultor.
Minha vida de solteiro, há sete anos ou mais,
Brilha ao tabaco que acendo, quer na guerra quer na
paz.
Mas se o futuro com Maggie não der ponta que acender,
Nada mais que o amor ardente dará luz ao que vier.
Será luzeiro seguro? Ou morro com ele na lama?
Cubro de uma baforada ou sigo as chispas desta chama?
Abra a velha charuteira – vale a pena perguntar:
Quem é Maggie que me ordena amigas velhas dispensar?
Há milhares de outras Meggies igualmente em pé de caça
Mas mulher é só mulher, e um bom charuto é fumaça!
Outro Havana, por favor – que estou, bem sei, comprometido.
Se Maggie não quer rivais, serei tampouco seu marido.
NOTAS
1. Eliot, T.S., “Rudyard Kipling” em On Poetry and Poets, Faber
and Faber, Londres,1984.
2. Kipling teria escrito este poema em homenagem ao amigo
Leander Starr Jameson (1853-1917), em quem identificava as
qualidades exaltadas. Em 1895, Jameson, sem a permissão explí-
cita de Cecil Rhodes – então primeiro-ministro da colônia britânica
do Cabo, na África do Sul –, liderou 500 homens em um ataque
contra os bôers, holandeses que colonizavam o Transvaal.
Derrotado, foi julgado na Inglaterra e passou alguns meses na
prisão. O que não o impediu de tornar-se herói popular em Londres
nem o progresso de sua carreira política na colônia. Em 1902,
com a morte de Rhodes, de quem sempre foi amigo, Jameson
assumiu a liderança do Partido Progressista na África do Sul. Em
1909, recebeu o título de sir. Jameson, Rhodes e Kipling compartilhavam
o ideal de uma África unida sob bandeira britânica. Gra-
ças a uma tradução de Guilherme de Almeida, If (Se...) também
se tornou muito popular no Brasil. Segue, na íntegra, a versão
famosa: Se és capaz de manter a tua calma quando/ Todo mundo
ao teu redor já a perdeu e te culpa;/ De crer em ti, quando estão
todos duvidando,/ E para esses, no entanto, achares uma desculpa;/
Se és capaz de esperar sem te desesperares;/ Ou, enganado,
não mentir ao mentiroso,/ Ou, sendo odiado, sempre ao ódio
te esquivares,/ E não parecer bom demais nem pretensioso; Se és
capaz de pensar, sem que a isso só te atires;/ De sonhar, sem fazer
dos sonhos teus senhores;/ Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo,
conseguires /Tratar da mesma forma esses dois impostores;/41
Cadernos de Literatura em Tradução, n. 5, p.27-42
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas/Em armadilhas as
verdades que disseste,/ E as coisas por que deste a vida,
estraçalhadas,/ E refazê-las com o bem pouco que te reste;/ Se és
capaz de arriscar numa única parada/ Tudo quanto ganhaste em
toda a tua vida,/ E perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,/
Resignado, tornar ao ponto de partida;/ De forçar coração, nervos,
músculos, tudo,/ A dar o que for que neles ainda existe;/ E a
persistir assim quando exausto, contudo,/ Resta a vontade em ti
que ainda ordena:“Persiste”!/ Se és capaz de, entre a plebe, não
te corromperes,/ E, entre reis, não perder a naturalidade;/ E de
amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,/ Se a todos podes
ser de alguma utilidade;/Se és capaz de dar, segundo por segundo,/
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,/ Tua é a terra, com
tudo o que existe no mundo,/ E – o que é mais – serás um Homem,
meu filho!
3. Citação bíblica (Reis II 12:1). Com essas palavras o anjo
Natan inicia a párabola com que censura Davi pela morte de
Urias. A história, paradigma do poema, é conhecida. O rei Davi
engravida Betsabá, mulher do soldado Urias, enquanto este está
fora, lutando por Israel. Davi tenta várias vezes convencer o soldado
a largar a batalha e ir dormir com a mulher, a fim de transferir-lhe
a paternidade. Como Urias se recusa a abandonar os
companheiros de luta, o rei ordena que o destaquem para um
posto em que ele não possa escapar com vida. A ordem é cumprida
e Urias morre. Davi, então, inclui Betsabá entre suas esposas.
4. Qüetta, hoje, é uma cidade do estado do Baluchistão,
no Paquistão. Recentemente, tornou-se notícia como palco de violentos
protestos da população islâmica contra os ataques americanos
ao Afeganistão (outubro de 2001). O nome “Qüetta” tem
origem palavra kweita, do pashtu, e significa “forte”. De fato, cercada
de altas montanhas, a cidade constitui uma fortificação natural.
Em 1876, foi ocupada pelo exército inglês e, em 1887,
anexada oficialmente à Índia sob jurisdisção britânica. Entre 1879
e 1881, desempenhou papel importante na guerra que os ingle-PINHEIRO, Gil. Três poemas de Kipling.
42
ses travaram contra os afegãos porque concentrava pontos estratégicos
de acesso ao território inimigo. Na verdade, a sorte do
infeliz Jack Barrett, que protagoniza o poema, parece estar ligada
aos conflitos que se seguiram a essa ocupação.
5. Encravada no Himalaia, a cidade de Shimla (ou Simla)
foi estação de férias e capital oficial de verão do governo britânico
na Índia (1865-1939). Kipling passou várias temporadas lá na
década de 80 do século 19. À época em que o poema foi escrito,
a cidade era famosa pelo clima de intriga e romance. Admirada
pela beleza e pela esplêndida visão que propicia dos picos nevados
é, atualmente, importante centro turístico da Índia.
6. Kipling, no original, não dá nome à mulher de Barrett.
“Lenore”, portanto, é uma invenção, ou se se preferir, uma traição
do tradutor por recurso de rima.
7.Região repleta de vales e montanhas em que está localizada
a cidade de Qüetta.
8. Em algumas edições, a epígrafe do poema é remetida
aos autos de um caso judicial de quebra de compromisso de 1885.
9, 10, 11 e 13. Laranaga, Henry Clay e Partagas são marcas
tradicionais de charutos originalmente fabricados em Cuba.
Manilla é o charuto proveniente das Filipinas.
12. Satis: viúvas queimadas vivas na pira mortuária de seus
maridos (prática tradicional na Índia, hoje proibida por lei).
***
+2 poemas
via:
http://www.revistas.usp.br/clt/article/viewFile/49369/53447
O CONTO DE URIAS
“Havia em uma cidade dois
homens; um rico e outro pobre.” 3
JACK BARRETT foi a Qüetta4
A rufo de tambor.
Com três partes do soldo
Em Shimla5
deixou Lenore6
.
Tombou tão pronto em Qüetta,
Que nem viu de outubro a cor.
Jack Barrett foi a Qüetta,
Sem justa explicação,
Estranha transferência
No mais belo da estação.
Partiu era setembro,
E morreu de supetão.
Jack Barrett foi a Qüetta,
E lá se despediu,
Lutando por dois homens
No “bom posto” que assumiu.
Lenore vestiu-lhe luto,
Mas penúria nunca viu.
Jack Barrett hoje em Qüetta
Inânime se espraia,
Mas quem apostaria
Que em espírito não saia
A perguntar por que
O arrancaram do Himalaia?
E quando o Toque do Clarim
Ecoe sobre o Harnai7
,
E o Livro Negro da Chacota
Enfim revele o guai,
Se a cova que devora a carne
O espírito propele,
De quem mandou Jack Barrett lá
Eu não desejo a pele.
COMPROMETIDO
“Você terá de escolher: ou seus charutos ou eu.” 8
ABRA a velha charuteira, dê-me um Havana encorpado,
Que meu noivado com Maggie está ficando complicado.
A causa da desavença reside no meu charuto.
Acuso-a de intransigência, diz ela que eu sou um bruto.
Abra a velha charuteira, que eu quero ficar entregue
Aos auspícios da fumaça, lembrando a face de Maggie.
Maggie é bonita de ver – promessa de amor certeira – ,
Mas beleza acaba em ruga, e amor não dura a vida inteira.
Tão pacato é um Laranaga, pacífico um Henry Clay9
,
E o melhor dos bons charutos em uma hora já fumei.
Fumei e troquei por outro – novinho, enxuto, perfeito –,
Já trocar Maggie por outra não será tão bem aceito.
Que tal Maggie em seus cinqüenta – grisalha, ranzinza e
velha –,
Sem Maggie sobressalente que restitua a centelha?
Nem que o fogo do passado se torne a luz do presente,
Quando o amor recenda a sarro como cinza remanente,
A ponta de um bom charuto – mas morto no bolso –
pode
Concorrer com fumo novo, que ao pigarro nos acode.
Abra a velha charuteira – que o momento é de escolher:
Aqui um suave Manilla10; lá um sorriso de mulher.
Qual será o melhor partido: servidão selada a anel
Ou um harém de folhas finas ofertadas a granel?
Cinqüenta noivas por caixa – conforto sincero e certo –,
Nenhuma delas bicuda com tanta rival por perto.
Meditação matutina; consolo em tempo de dor;
Paz na calada da noite; e, à porta do sono, torpor.
Eis o dote que as cinqüenta, em sacrifício, me darão
Com devoção de satis12 – incineradas na missão.
Eis o dote que as cinqüenta me darão sem compromisso
E, mortas, outras cinqüenta já estarão a meu serviço.
As ilhas das Caraíbas, e a ilha de Java também,
Cuidarão de manter sempre renovado meu harém –
Harém nutrido sem jóias nem sedas nem pão-de-ló –,
Caiam raios ou gaivotas, faça chuva ou faça sol.
Só o perfume da baunilha e o tempero de um bom chá
Darão charme às minhas noivas de vexar as de um paxá.
E Meggie insiste, por carta, que eu faça a escolha mofina
Entre o merencório Amor e a grande deusa Nicotina.
Faz doze minguados meses – se tanto – que sigo o amor,
Mas das graças de um Partagas13 sou primígeno cultor.
Minha vida de solteiro, há sete anos ou mais,
Brilha ao tabaco que acendo, quer na guerra quer na
paz.
Mas se o futuro com Maggie não der ponta que acender,
Nada mais que o amor ardente dará luz ao que vier.
Será luzeiro seguro? Ou morro com ele na lama?
Cubro de uma baforada ou sigo as chispas desta chama?
Abra a velha charuteira – vale a pena perguntar:
Quem é Maggie que me ordena amigas velhas dispensar?
Há milhares de outras Meggies igualmente em pé de caça
Mas mulher é só mulher, e um bom charuto é fumaça!
Outro Havana, por favor – que estou, bem sei, comprometido.
Se Maggie não quer rivais, serei tampouco seu marido.
NOTAS
1. Eliot, T.S., “Rudyard Kipling” em On Poetry and Poets, Faber
and Faber, Londres,1984.
2. Kipling teria escrito este poema em homenagem ao amigo
Leander Starr Jameson (1853-1917), em quem identificava as
qualidades exaltadas. Em 1895, Jameson, sem a permissão explí-
cita de Cecil Rhodes – então primeiro-ministro da colônia britânica
do Cabo, na África do Sul –, liderou 500 homens em um ataque
contra os bôers, holandeses que colonizavam o Transvaal.
Derrotado, foi julgado na Inglaterra e passou alguns meses na
prisão. O que não o impediu de tornar-se herói popular em Londres
nem o progresso de sua carreira política na colônia. Em 1902,
com a morte de Rhodes, de quem sempre foi amigo, Jameson
assumiu a liderança do Partido Progressista na África do Sul. Em
1909, recebeu o título de sir. Jameson, Rhodes e Kipling compartilhavam
o ideal de uma África unida sob bandeira britânica. Gra-
ças a uma tradução de Guilherme de Almeida, If (Se...) também
se tornou muito popular no Brasil. Segue, na íntegra, a versão
famosa: Se és capaz de manter a tua calma quando/ Todo mundo
ao teu redor já a perdeu e te culpa;/ De crer em ti, quando estão
todos duvidando,/ E para esses, no entanto, achares uma desculpa;/
Se és capaz de esperar sem te desesperares;/ Ou, enganado,
não mentir ao mentiroso,/ Ou, sendo odiado, sempre ao ódio
te esquivares,/ E não parecer bom demais nem pretensioso; Se és
capaz de pensar, sem que a isso só te atires;/ De sonhar, sem fazer
dos sonhos teus senhores;/ Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo,
conseguires /Tratar da mesma forma esses dois impostores;/41
Cadernos de Literatura em Tradução, n. 5, p.27-42
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas/Em armadilhas as
verdades que disseste,/ E as coisas por que deste a vida,
estraçalhadas,/ E refazê-las com o bem pouco que te reste;/ Se és
capaz de arriscar numa única parada/ Tudo quanto ganhaste em
toda a tua vida,/ E perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,/
Resignado, tornar ao ponto de partida;/ De forçar coração, nervos,
músculos, tudo,/ A dar o que for que neles ainda existe;/ E a
persistir assim quando exausto, contudo,/ Resta a vontade em ti
que ainda ordena:“Persiste”!/ Se és capaz de, entre a plebe, não
te corromperes,/ E, entre reis, não perder a naturalidade;/ E de
amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,/ Se a todos podes
ser de alguma utilidade;/Se és capaz de dar, segundo por segundo,/
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,/ Tua é a terra, com
tudo o que existe no mundo,/ E – o que é mais – serás um Homem,
meu filho!
3. Citação bíblica (Reis II 12:1). Com essas palavras o anjo
Natan inicia a párabola com que censura Davi pela morte de
Urias. A história, paradigma do poema, é conhecida. O rei Davi
engravida Betsabá, mulher do soldado Urias, enquanto este está
fora, lutando por Israel. Davi tenta várias vezes convencer o soldado
a largar a batalha e ir dormir com a mulher, a fim de transferir-lhe
a paternidade. Como Urias se recusa a abandonar os
companheiros de luta, o rei ordena que o destaquem para um
posto em que ele não possa escapar com vida. A ordem é cumprida
e Urias morre. Davi, então, inclui Betsabá entre suas esposas.
4. Qüetta, hoje, é uma cidade do estado do Baluchistão,
no Paquistão. Recentemente, tornou-se notícia como palco de violentos
protestos da população islâmica contra os ataques americanos
ao Afeganistão (outubro de 2001). O nome “Qüetta” tem
origem palavra kweita, do pashtu, e significa “forte”. De fato, cercada
de altas montanhas, a cidade constitui uma fortificação natural.
Em 1876, foi ocupada pelo exército inglês e, em 1887,
anexada oficialmente à Índia sob jurisdisção britânica. Entre 1879
e 1881, desempenhou papel importante na guerra que os ingle-PINHEIRO, Gil. Três poemas de Kipling.
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ses travaram contra os afegãos porque concentrava pontos estratégicos
de acesso ao território inimigo. Na verdade, a sorte do
infeliz Jack Barrett, que protagoniza o poema, parece estar ligada
aos conflitos que se seguiram a essa ocupação.
5. Encravada no Himalaia, a cidade de Shimla (ou Simla)
foi estação de férias e capital oficial de verão do governo britânico
na Índia (1865-1939). Kipling passou várias temporadas lá na
década de 80 do século 19. À época em que o poema foi escrito,
a cidade era famosa pelo clima de intriga e romance. Admirada
pela beleza e pela esplêndida visão que propicia dos picos nevados
é, atualmente, importante centro turístico da Índia.
6. Kipling, no original, não dá nome à mulher de Barrett.
“Lenore”, portanto, é uma invenção, ou se se preferir, uma traição
do tradutor por recurso de rima.
7.Região repleta de vales e montanhas em que está localizada
a cidade de Qüetta.
8. Em algumas edições, a epígrafe do poema é remetida
aos autos de um caso judicial de quebra de compromisso de 1885.
9, 10, 11 e 13. Laranaga, Henry Clay e Partagas são marcas
tradicionais de charutos originalmente fabricados em Cuba.
Manilla é o charuto proveniente das Filipinas.
12. Satis: viúvas queimadas vivas na pira mortuária de seus
maridos (prática tradicional na Índia, hoje proibida por lei).