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biografia
http://www.agualusa.pt/cat.php?catid=27
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21jun2017
José Eduardo Agualusa foi distinguido com o prémio literário internacional de Dublin, pela tradução inglesa do romance "Teoria Geral do Esquecimento".
http://observador.pt/2017/06/21/jose-eduardo-agualusa-vence-premio-literario-de-dublin/
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Via Maria Elisa Ribeiro
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1605521632797733&set=a.104671869549391.10003.100000197344912&type=3&theater
Parábola do Homem Sábio
Um dia um homem sábio morreu. No reino dos céus encontrou-se face a face com o Senhor Deus. Este perguntou-lhe:
“Tu, que és sábio e viveste inúmeros anos, diz-me o que aprendeste de realmente importante.”
Respondeu o homem sábio:
“Uma só coisa aprendi de realmente importante: a ignorar os mestres.”
O Senhor Deus olhou-o num demorado silêncio.
Depois voltou-lhe as costas e foi-se embora.
Aquele que tem ouvidos que ouça!
in 'A Educação Sentimental dos Pássaros '
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https://www.facebook.com/FabricaEscrita/photos/a.462529847093435.111436.462489187097501/1321954884484256/?type=3&theater
O amor é uma renúncia. Amar alguém é desistir de amar outros, é desistir por esse amor do amor de outros. Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convicções mais profundas. Não me queixo!
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entrevista
José Eduardo Agualusa:
"Pela primeira vez, sinto que posso dizer que sou escritor"
José Eduardo Agualusa escreveu, finalmente, o livro que, há anos, o assombrava. A Rainha Ginga, um relato de
"como os africanos inventaram o mundo".
Ler mais: http://visao.sapo.pt/jose-eduardo-agualusa-pela-primeira-vez-sinto-que-posso-dizer-que-sou-escritor=f784361#ixzz3NK5mKTXT
Um padre pernambucano com sangue português, Francisco José da Santa Cruz, apresenta-se ao serviço da rainha Ginga, em plena época de disputas colonialistas alimentadas pela cobiça do tráfico de escravos. Na corte da implacável líder (ver caixa), envolvida em guerras e frágeis tréguas com portugueses ou holandeses, o padre observa a turba que a segue: "Não creio que amassem a rainha. Seguiam-na por medo e por desventura, que é como em geral os pequenos seguem os grandes." E descobre que os homens e as suas circunstâncias podem ser matéria fluida.
Dezasseis anos depois do romance histórico Nação Crioula, José Eduardo Agualusa regressa ao género e ao triângulo Portugal-Brasil-Angola, geografia de eleição. Pelo meio da tragédia, há belas mulheres, filhos que resgatam os pais, tipos inesquecíveis, cenas de humor. "Este livro permitiu-me reencontrar o prazer de escrever. Esta história viveu sempre dentro de mim", diz Agualusa, 53 anos, autor multipremiado de onze romances, além de volumes de contos, crónica, teatro. E acrescenta: "Acho que este é o meu livro mais sólido, mais redondo, mais acabado, mais vivo, mais livro, mais romance. Pela primeira vez, sinto que posso dizer que sou escritor."
Porque sabemos tão pouco sobre História africana?
Não sei... Mas no caso do Brasil, mais ligado a África, um país de matriz africana, existe uma maior produção académica sobre a História de África, ainda que haja um fraco conhecimento da cultura africana contemporânea - sobre a música, por exemplo. O Brasil cortou com África quando acabou a escravatura. Em Portugal, existe um maior conhecimento da cultura contemporânea africana, mas, sobre a História, ainda há um longo caminho a percorrer. Existe um saber académico, mas este não passa para fora. E o que se sabe é apenas numa perspetiva, muito redutora. No que diz respeito ao grande público, há uma certa mitologia que ficou. Este livro sobre a rainha Ginga pode surpreender em Portugal porque vai mostrar uma outra perspetiva: a africana.
Mas houve outros livros dedicados à rainha Ginga.
Houve alguma literatura colonial, ou seja, ficção produzida por portugueses, utilizando o mito da rainha a favor do mito da construção do império. Quando as figuras se agigantam muito, todos os poderes têm a tentação de usá-las a seu favor... Depois da independência de Angola, foi publicado, pelo menos, um livro com a perspetiva oposta, hipernacionalista, transformando a rainha Ginga num ícone do nacionalismo angolano - o que também é absurdo. A rainha Ginga não é angolana. Ela atuou no espaço geográfico onde, hoje, se situa Angola mas que, então, não existia. É como Viriato. Ele não é um herói português, é um herói contra Portugal. A rainha Ginga não lutou por uma ideia de Angola. Pelo contrário: se ela tivesse triunfado, não teria existido Angola como hoje a conhecemos.
Descreve-a como uma "mulher pequena, escorrida de carnes e, no geral, sem muita existência"?
Ela não dava nas vistas pelo seu aspeto físico. O que tinha era personalidade - lendo os cronistas da época, isso é muito claro. A rainha Ginga rompeu todas as tradições e inventou o seu próprio mundo. Era, e é, uma figura perturbadora para toda a gente. Em Angola, fizeram agora um filme sobre ela. É uma produção do regime, se quiser, um tentar apropriar-se da rainha Ginga como uma bandeira do nacionalismo moderno. O que não faz sentido. Não vi o filme, mas disseram-me que a versão apresentada termina com imagens atuais, fazendo a ligação com os dias de hoje. Isso é interessante do ponto de vista sociológico: mostra, mais uma vez, o aproveitamento de uma figura que é tão grande que não pode ser ignorada. Realça-se o que interessa, apaga-se o que não interessa... É pena, porque ela é interessante na sua complexidade.
O que o motivou a escrever sobre ela?
Eu queria escrever A Rainha Ginga há muito tempo. O que me interessou foi mostrar que os africanos não foram uma parte passiva em todo este processo de construção de Angola, de África, do Brasil, mesmo de Portugal. E isto não é o que passa na História que as pessoas aprendem na escola. Porque a História é construída sempre na perspetiva do vencedor.
O narrador do romance é o padre Francisco José da Santa Cruz. Não colocou a hipótese de usar a própria rainha Ginga?
Não era possível. A grande dificuldade em escrever este livro é que se trata de um mundo remoto no tempo, é uma outra civilização. Tinha que ter um narrador que fosse um tradutor de línguas mas também de mundos. É um desafio que muitos escritores enfrentam. Lembro-me que num congresso dedicado à literatura africana, em Durban, muitos diziam, e com razão, que se há coisa que, hoje, distingue a literatura africana da que se faz, por exemplo, na Europa, é que os escritores africanos têm a perceção de que estão a escrever sobretudo para um público de fora - porque temos pouco público dentro, há uma grande taxa de analfabetismo, etc... São também tradutores de mundo. Este narrador é muito verosímil. Ficaria artificial colocar a ação na boca da rainha Ginga. Esse é um dos erros dos livros publicados sobre ela: não passam verdade.
A rainha Ginga emerge de todos os relatos como criatura cruel, inteligente, moderna, excelente estratega...
Todos os testemunhos vão nesse sentido. O curioso é que os inimigos vão reconhecendo o seu valor. Ela combatia ao lado dos seus homens, mas era também uma hábil diplomata. E, depois, tinha todas aquelas coisas que, na época, escandalizavam: por exemplo, um harém de homens vestidos como se fossem mulheres. Há uma troca de cartas interessante quando ela se converte [ao catolicismo] pela segunda vez: Ginga quer ficar com as suas "mulheres" e a igreja católica não aceita, permitindo-lhe que fique apenas com uma. Nos EUA, o equívoco de pensar que ela era gay, por causa de apresentar os seus homens como mulheres, deu origem a que o mito de Ginga virasse ícone gay de um certo movimento negro femininista.
Como chega a Francisco Santa Cruz, nome que é todo um programa?
Foi muito natural. A rainha Ginga teve realmente vários secretários, padres que sabiam ler e escrever, uma exceção na época. Além disso, é um brasileiro, pernambucano, que tem raízes indígenas, africanas, mas também portuguesas - uma soma de sangues inimigos, como ele diz. É um personagem que não foi escolhido por acaso. É também um narrador dividido, que está em crise de fé e de identidade.
E é um herói atípico: acaba por trair ambos os lados...
A figura do traidor é muito interessante do ponto de vista literário. Este personagem não tem convicções firmes sobre as coisas: ele põe em causa a sua filosofia, a sua fé, a sua vida, o seu futuro. E transforma-se, ao longo da história e do tempo. Como ele diz, somos, ao longo da vida, muitas pessoas.
Em A Rainha Ginga regressa ao romance histórico e ao gosto pelo estudo da língua.
Gosto muito de romances históricos. Mas este livro junta tudo. A partir de certa altura, nos meus livros, tentei usar este português global que eu frequento e que faz sentido: o português de todos os territórios, de todas as variantes. Neste romance, vou mais além: uso o português de todas as variantes e de vários tempos. Tudo isto é a nossa língua. É muito divertido ressuscitar uma palavra que estava esquecida. Aqui, tive a ajuda importante de A História Geral das Guerras Angolanas, de António de Oliveira Cadornega [1623-1690, militar e historiador português, radicado em Angola]. Ele foi contemporâneo da rainha Ginga, e já trabalhava as palavras das línguas angolanas, sobretudo do quimbundo, introduzindo-as no português. Imagino que não exista mais nada assim: um texto do século XVII já com português africano. É impressionante.
Aqui, há outras ideias impressionantes: o facto de os escravos terem também escravos seus; o relato do confronto de Musungo (personagem real), um capitão negro no lado português, e um português de Évora (inventado), soldado da Ginga; ou o facto de que "qualquer um podia ser branco, bastava ser rico e falar português...". Cor, nacionalidade, estatuto, tudo era fluído?
Sim. A História é muito mais interessante do que aquela, a preto e branco, com bons e maus, que a gente aprende. Tudo é fluído. É isso que tento mostrar no livro. Há dados históricos assombrosos. Como é que, por exemplo, os índios brasileiros vão combater em Angola, quer do lado dos holandeses quer, depois, do lado português, com a armada do Henrique Dias [brasileiro, filho de escravos libertos, que lutou contra os holandeses aquando das invasões do Brasil]? A História com H grande está cheia de episódios que furam completamente os estereótipos. E há factos que parecem puro realismo mágico, como por exemplo, a história do Almirante Jol [1597-1641, corsário da Companhia das Índias Ocidentais holandesas], que, depois de conquistar Luanda e São Tomé aos portugueses, morre, delirando com a malária.
Em A Rainha Ginga, como equilibrou verdade e ficção?
Este livro está muito colado à realidade histórica. Claro que as fontes podem ter ficcionado... Hoje, sabemos que o Cadornega errou muito, nomeadamente nas datas. Tentei que o livro seguisse a história que nós conhecemos. Isto é um romance, mas o que foi ficcionado está dentro de uma lógica histórica. O meu livro não é um samba do crioulo doido, como muitos romances que são uma confusão de datas, de épocas, de línguas, de tudo... Os historiadores não ficarão muito sobressaltados.
O almirante Jol, com a sua perna de pau, é real?
É real. Eu hesitei em colocar o Jol [no romance] porque as pessoas vão pensar que é um cliché, uma invenção estúpida. Mas é a pura realidade. Pensa-se que ele terá sido o pirata que deu origem a esse mito da perna de pau. Na época, ele era tão importante que os espanhóis chamavam-lhe simplesmente El Pirata.
E Tomé dos Anjos, esfolado e transformado em espantalho de palha?
Essa é uma das minhas histórias preferidas, mas inventei-a de fio a pavio.
Henda, a escrava-cadeira da rainha Ginga, transformou-se mesmo numa mãe de santo?
É a escrava que faz parte da mais famosa história sobre a Ginga: no primeiro encontro com o governador português [João Correia de Sousa], a rainha senta-se sobre essa escrava. Não se sabe quem é nem o que lhe aconteceu. Ninguém se preocupa com o assento da rainha... Gostei da história que criei para ela, fiquei feliz com esse remate.
João Maurício de Nassau, no século XVII, diz: "A verdade é que os portugueses sempre foram mais africanos do que europeus". Porquê?
Ele realmente diz isso, não exatamente assim. Há uma expressão semelhante que retirei de um testemunho holandês. Essa era a ideia dos holandeses relativamente aos portugueses. E, na época, era verdade. Quem eram os portugueses? Eram os levantinos. Portugal tinha tido, durante oito séculos, a presença árabe. Os portugueses eram aquele povo mulato que estava ali no extremo da Europa, mas que não fazia parte.
A dada altura, o cigano Lobo responde a Francisco José: "A minha pátria é onde estão os meus pés." Isto é também o escritor a falar?
Não (risos). Eu poderia dizer que a minha pátria é onde estão os meus filhos, os meus afetos. Mas sim, já o disse, a nossa identidade constrói-se caminhando.
Ginga - Rainha-reiPorque sabemos tão pouco sobre História africana?
Não sei... Mas no caso do Brasil, mais ligado a África, um país de matriz africana, existe uma maior produção académica sobre a História de África, ainda que haja um fraco conhecimento da cultura africana contemporânea - sobre a música, por exemplo. O Brasil cortou com África quando acabou a escravatura. Em Portugal, existe um maior conhecimento da cultura contemporânea africana, mas, sobre a História, ainda há um longo caminho a percorrer. Existe um saber académico, mas este não passa para fora. E o que se sabe é apenas numa perspetiva, muito redutora. No que diz respeito ao grande público, há uma certa mitologia que ficou. Este livro sobre a rainha Ginga pode surpreender em Portugal porque vai mostrar uma outra perspetiva: a africana.
Mas houve outros livros dedicados à rainha Ginga.
Houve alguma literatura colonial, ou seja, ficção produzida por portugueses, utilizando o mito da rainha a favor do mito da construção do império. Quando as figuras se agigantam muito, todos os poderes têm a tentação de usá-las a seu favor... Depois da independência de Angola, foi publicado, pelo menos, um livro com a perspetiva oposta, hipernacionalista, transformando a rainha Ginga num ícone do nacionalismo angolano - o que também é absurdo. A rainha Ginga não é angolana. Ela atuou no espaço geográfico onde, hoje, se situa Angola mas que, então, não existia. É como Viriato. Ele não é um herói português, é um herói contra Portugal. A rainha Ginga não lutou por uma ideia de Angola. Pelo contrário: se ela tivesse triunfado, não teria existido Angola como hoje a conhecemos.
Descreve-a como uma "mulher pequena, escorrida de carnes e, no geral, sem muita existência"?
Ela não dava nas vistas pelo seu aspeto físico. O que tinha era personalidade - lendo os cronistas da época, isso é muito claro. A rainha Ginga rompeu todas as tradições e inventou o seu próprio mundo. Era, e é, uma figura perturbadora para toda a gente. Em Angola, fizeram agora um filme sobre ela. É uma produção do regime, se quiser, um tentar apropriar-se da rainha Ginga como uma bandeira do nacionalismo moderno. O que não faz sentido. Não vi o filme, mas disseram-me que a versão apresentada termina com imagens atuais, fazendo a ligação com os dias de hoje. Isso é interessante do ponto de vista sociológico: mostra, mais uma vez, o aproveitamento de uma figura que é tão grande que não pode ser ignorada. Realça-se o que interessa, apaga-se o que não interessa... É pena, porque ela é interessante na sua complexidade.
O que o motivou a escrever sobre ela?
Eu queria escrever A Rainha Ginga há muito tempo. O que me interessou foi mostrar que os africanos não foram uma parte passiva em todo este processo de construção de Angola, de África, do Brasil, mesmo de Portugal. E isto não é o que passa na História que as pessoas aprendem na escola. Porque a História é construída sempre na perspetiva do vencedor.
O narrador do romance é o padre Francisco José da Santa Cruz. Não colocou a hipótese de usar a própria rainha Ginga?
Não era possível. A grande dificuldade em escrever este livro é que se trata de um mundo remoto no tempo, é uma outra civilização. Tinha que ter um narrador que fosse um tradutor de línguas mas também de mundos. É um desafio que muitos escritores enfrentam. Lembro-me que num congresso dedicado à literatura africana, em Durban, muitos diziam, e com razão, que se há coisa que, hoje, distingue a literatura africana da que se faz, por exemplo, na Europa, é que os escritores africanos têm a perceção de que estão a escrever sobretudo para um público de fora - porque temos pouco público dentro, há uma grande taxa de analfabetismo, etc... São também tradutores de mundo. Este narrador é muito verosímil. Ficaria artificial colocar a ação na boca da rainha Ginga. Esse é um dos erros dos livros publicados sobre ela: não passam verdade.
A rainha Ginga emerge de todos os relatos como criatura cruel, inteligente, moderna, excelente estratega...
Todos os testemunhos vão nesse sentido. O curioso é que os inimigos vão reconhecendo o seu valor. Ela combatia ao lado dos seus homens, mas era também uma hábil diplomata. E, depois, tinha todas aquelas coisas que, na época, escandalizavam: por exemplo, um harém de homens vestidos como se fossem mulheres. Há uma troca de cartas interessante quando ela se converte [ao catolicismo] pela segunda vez: Ginga quer ficar com as suas "mulheres" e a igreja católica não aceita, permitindo-lhe que fique apenas com uma. Nos EUA, o equívoco de pensar que ela era gay, por causa de apresentar os seus homens como mulheres, deu origem a que o mito de Ginga virasse ícone gay de um certo movimento negro femininista.
Como chega a Francisco Santa Cruz, nome que é todo um programa?
Foi muito natural. A rainha Ginga teve realmente vários secretários, padres que sabiam ler e escrever, uma exceção na época. Além disso, é um brasileiro, pernambucano, que tem raízes indígenas, africanas, mas também portuguesas - uma soma de sangues inimigos, como ele diz. É um personagem que não foi escolhido por acaso. É também um narrador dividido, que está em crise de fé e de identidade.
E é um herói atípico: acaba por trair ambos os lados...
A figura do traidor é muito interessante do ponto de vista literário. Este personagem não tem convicções firmes sobre as coisas: ele põe em causa a sua filosofia, a sua fé, a sua vida, o seu futuro. E transforma-se, ao longo da história e do tempo. Como ele diz, somos, ao longo da vida, muitas pessoas.
Em A Rainha Ginga regressa ao romance histórico e ao gosto pelo estudo da língua.
Gosto muito de romances históricos. Mas este livro junta tudo. A partir de certa altura, nos meus livros, tentei usar este português global que eu frequento e que faz sentido: o português de todos os territórios, de todas as variantes. Neste romance, vou mais além: uso o português de todas as variantes e de vários tempos. Tudo isto é a nossa língua. É muito divertido ressuscitar uma palavra que estava esquecida. Aqui, tive a ajuda importante de A História Geral das Guerras Angolanas, de António de Oliveira Cadornega [1623-1690, militar e historiador português, radicado em Angola]. Ele foi contemporâneo da rainha Ginga, e já trabalhava as palavras das línguas angolanas, sobretudo do quimbundo, introduzindo-as no português. Imagino que não exista mais nada assim: um texto do século XVII já com português africano. É impressionante.
Aqui, há outras ideias impressionantes: o facto de os escravos terem também escravos seus; o relato do confronto de Musungo (personagem real), um capitão negro no lado português, e um português de Évora (inventado), soldado da Ginga; ou o facto de que "qualquer um podia ser branco, bastava ser rico e falar português...". Cor, nacionalidade, estatuto, tudo era fluído?
Sim. A História é muito mais interessante do que aquela, a preto e branco, com bons e maus, que a gente aprende. Tudo é fluído. É isso que tento mostrar no livro. Há dados históricos assombrosos. Como é que, por exemplo, os índios brasileiros vão combater em Angola, quer do lado dos holandeses quer, depois, do lado português, com a armada do Henrique Dias [brasileiro, filho de escravos libertos, que lutou contra os holandeses aquando das invasões do Brasil]? A História com H grande está cheia de episódios que furam completamente os estereótipos. E há factos que parecem puro realismo mágico, como por exemplo, a história do Almirante Jol [1597-1641, corsário da Companhia das Índias Ocidentais holandesas], que, depois de conquistar Luanda e São Tomé aos portugueses, morre, delirando com a malária.
Em A Rainha Ginga, como equilibrou verdade e ficção?
Este livro está muito colado à realidade histórica. Claro que as fontes podem ter ficcionado... Hoje, sabemos que o Cadornega errou muito, nomeadamente nas datas. Tentei que o livro seguisse a história que nós conhecemos. Isto é um romance, mas o que foi ficcionado está dentro de uma lógica histórica. O meu livro não é um samba do crioulo doido, como muitos romances que são uma confusão de datas, de épocas, de línguas, de tudo... Os historiadores não ficarão muito sobressaltados.
O almirante Jol, com a sua perna de pau, é real?
É real. Eu hesitei em colocar o Jol [no romance] porque as pessoas vão pensar que é um cliché, uma invenção estúpida. Mas é a pura realidade. Pensa-se que ele terá sido o pirata que deu origem a esse mito da perna de pau. Na época, ele era tão importante que os espanhóis chamavam-lhe simplesmente El Pirata.
E Tomé dos Anjos, esfolado e transformado em espantalho de palha?
Essa é uma das minhas histórias preferidas, mas inventei-a de fio a pavio.
Henda, a escrava-cadeira da rainha Ginga, transformou-se mesmo numa mãe de santo?
É a escrava que faz parte da mais famosa história sobre a Ginga: no primeiro encontro com o governador português [João Correia de Sousa], a rainha senta-se sobre essa escrava. Não se sabe quem é nem o que lhe aconteceu. Ninguém se preocupa com o assento da rainha... Gostei da história que criei para ela, fiquei feliz com esse remate.
João Maurício de Nassau, no século XVII, diz: "A verdade é que os portugueses sempre foram mais africanos do que europeus". Porquê?
Ele realmente diz isso, não exatamente assim. Há uma expressão semelhante que retirei de um testemunho holandês. Essa era a ideia dos holandeses relativamente aos portugueses. E, na época, era verdade. Quem eram os portugueses? Eram os levantinos. Portugal tinha tido, durante oito séculos, a presença árabe. Os portugueses eram aquele povo mulato que estava ali no extremo da Europa, mas que não fazia parte.
A dada altura, o cigano Lobo responde a Francisco José: "A minha pátria é onde estão os meus pés." Isto é também o escritor a falar?
Não (risos). Eu poderia dizer que a minha pátria é onde estão os meus filhos, os meus afetos. Mas sim, já o disse, a nossa identidade constrói-se caminhando.
A rainha Ginga (c.1583-1663) governou os reinos de Ndongo e de Matamba, no Sudoeste africano, fazendo e quebrando alianças com os colonizadores portugueses ao longo de várias décadas. Posteriormente, aliar-se-ia com os colonizadores holandeses da Companhia das Índias Ocidentais, que ocuparam Luanda entre 1641 e 1648. O seu título real em língua quimbundo - Ngola - inspirou os portugueses na denominação de toda a região - Angola. Mas, por via das suas duas conversões ao cristianismo, estratégia política para cimentar tratados de paz com os colonizadores, foi também conhecida como Dona Ana de Sousa, ou Ngola Ana Nzinga Mbande. A sua ascensão política começou como emissária do irmão, num encontro com o então governador português. Mas numa intrincada luta de poder, a que se juntou uma vingança pelo assassinato de um filho seu, acabaria por envenenar o irmão e assumir a liderança - na corte faustosa e no campo de batalha. Figura ímpar e libertária, que se autointitulava Rei, entre outras audácias, morreria aos oitenta anos.
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Este romance histórico narra a incrível e verdadeira história de dona Ana de Souza (1583-1663). Senhora de um reino poderoso nos vastos sertões da costa ocidental da África, dizimado e reconstruído vezes seguidas, ela exerceu seu poder com inteligência e originalidade. Astuta nas negociações políticas, a Rainha Ginga estabeleceu alianças diplomáticas com os holandeses, ao mesmo tempo em que comandava os seus exércitos contra outros reis africanos, e tropas luso-brasileiras. Ardilosa, vaidosa, adotou uma coleção de esposas (na realidade homens, vestidos como mulheres) e se casou várias vezes com chefes militares que desejava como aliados políticos. O renomado escritor José Eduardo Agualusa recupera a trajetória desta poderosa rainha, compondo uma história de amor, sexo e poder.
https://www.travessa.com.br/a-rainha-ginga/artigo/cce82aa9-38f5-4f70-bbea-25038864b735
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***http://terradencanto.blogspot.pt/
"Viagem: todo o movimento de aproximação de uma pessoa a outra. Movimentos de fuga não são viagens."
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'As grandes indústrias vêm tentando convencer-nos de que é possível tirar o veneno ao prazer e ficar apenas com o prazer: café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina - amor platónico. Quanta estupidez. Quem bebe café procura a exaltação da cafeína. Quem pede uma cerveja numa tarde de sol quer refrescar o corpo, sim, mas também quer soltar o espírito. Se é para pecar quero o pecado inteiro. '
in 'A Educação Sentimental dos Pássaros '
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em 2015 vi 1 filme brasileiro
baseado no livro O VENDEDOR DE PASSADOS
em Óbidos.Festival Literário
Agualusa esteve presente antes da projecção
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http://planetamarcia.blogs.sapo.pt/470442.html
Li este livro no Domingo. Sim, um dia foi suficiente. Não é muito grande e estive sempre a ler até terminar. Gostei muito. Gostei da forma como, mais uma vez, José Eduardo Agualusa me levou pela sua bela conjugação de palavras, por frases tão lindas que me dão vontade de voltar atrás e reler.
“O Vendedor de Passados” é um livro inesperado. Pelo menos eu achei muitas vezes surpreendente. Escondem-se sempre tantas coisas por detrás do fio da história, há sempre mais qualquer coisa em cada observação, em cada descrição.
Depois de ler a sinopse esperava algo diferente e objetivo, mas não, deparei-me com um livro em que o narrador é uma osga que noutra vida assumiu a forma humana. Este pequeno animal é um observador nato e um sonhador; coleciona recordações e conquistou-me com o seu amor aos livros.
É através da osga, ou melhor, de Eulálio que conhecemos Félix Barata e a sua atividade de vender passados. Na verdade Félix é alfarrabista, ou melhor, filho de um alfarrabista, e com a sua vasta coleção de livros e informação, constrói vidas, persegue pistas e rastos.
Eulálio está sempre num local estratégico para visualizar os visitantes/clientes e fazer a sua análise dos mesmos. Há quem queira um passado ilustre, reconstruir uma árvore genealógica mais de acordo com uma nova condição política ou social. Acontecem divertidas curiosidades, desde um filho que decide procurar a sua “nova mãe” desaparecida, de tal forma se envolve na família que Félix lhe atribui.
Eulálio dá-nos também conta dos amores de Félix, dos seus gostos e paixões. Tudo sabemos através deste pequeno observador que, pelo meio, nos vai dando também um pouco de si.
O melhor é mesmo a escrita belíssima e envolvente que mais uma vez me maravilhou. Achei que há uma espécie de cor e musicalidade muito próprias na escrita de Agualusa, transmite uma sensação positiva que me faz sentir muito bem.
Fez-me sonhar com livros. Fez-me pensar em cartas e em como agora se perdeu o hábito de as escrever e enviar, como já não há o cuidado em escrever que em tempos se tinha. Pequenas coisas aqui e ali que guardo como uma espécie de coleção de pedacinhos de felicidade. E foi isso mesmo que este livro me transmitiu, felicidade. Porque a felicidade está nas pequenas coisas, naquelas que nos obrigam a sorrir assim que pensamos nelas. Assim foi.
Sinopse
“"Félix Ventura. Assegure aos seus filhos um passado melhor". É a partir deste cartão-de-visita que se desenrolam os capítulos de "O Vendedor de Passados", novo romance de José Eduardo Agualusa. A mentira e a verdade, o(s) homem(s) e o(s) seu(s) duplo(s), a memória e a memória da memória, a ficção e a realidade. Angola ("é importante ironizar com a sociedade angolana, que é uma sociedade que se construiu e se continua a construir assente em muitas ficções" - o autor ao Público, 19/06/04). Tudo poderia acontecer. Tudo poderia ter acontecido. (Susana Moreira Marques, Público, Mil Folhas: "A determinada altura a osga recorda a mãe num momento da sua vida passada: 'Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros' (p. 122). José Eduardo Agualusa provavelmente escolhe a vida.") Isto é: os livros?”
D.Quixote, 2008
**VIA CITADOR
Opinião do leitor: Paulo Neves da Silva
sobre O VENDEDOR DE PASSADOS
Um romance centrado na história de um homem, Félix Ventura, e de uma osga que vive na casa deste mas que já foi homem noutra encarnação. Félix Ventura constrói passados para pessoas que estejam interessadas em arranjar um passado interessante (o próprio e o dos seus antepassados), ou porque lhes convém, dado o seu destaque público, terem um passado a condizer e do qual se possam orgulhar, ou porque tiveram um passado tão pobre que o querem mudar para outro com o qual se sintam melhor. Uma ideia original que representa uma sátira à sociedade angolana, mas que se ajusta perfeitamente a outras sociedades, onde muitas pessoas, se pudessem, renegariam o seu passado em troca de outro.
O romance está assente em muitos pequenos capítulos, intercalando a acção natural do romance com sonhos de Félix Ventura e da osga, em que esta recorda o seu passado como ser humano e onde também estabelece diálogos com Félix Ventura e outros personagens.
Félix é um homem só, fisicamente repulsivo para as mulheres e mergulhado nos seus livros e no seu trabalho, tendo apenas a osga como companhia. Um dia aparece-lhe um cliente fora do habitual. Além de querer que Félix lhe arranje um novo passado, quer também mudar de identidade e adquirir documentos que comprovem essa nova identidade, serviço que Fénix executa com alguma renitência. José Buchmann passa a ser a identidade desse seu novo cliente, que, não satisfeito ainda com o que Félix lhe inventou, quer saber mais detalhes sobre a sua vida passada, tornando-se tão obcecado com isso, que vai aos sítios onde Félix diz que estiveram o seu pai e a sua mãe para procurar provas desse seu novo passado, e começa a comprovar alguns dos factos que tinham sido inventados. A ficção começa a misturar-se com a realidade, e José Buchmann passa a ser mesmo José Buchmann, e não quem era anteriormente.
Mas outros personagens, Ângela Lúcia, primeira mulher que se interessa realmente por Félix Ventura, e Edmundo Barata dos Reis, antigo colega de Félix Ventura, participam, juntamente com José Buchmann, num enredo com um desenlace completamente imprevisível e que elevam ainda mais a já boa qualidade deste romance, que se pressente logo nos primeiros capítulos, com várias reflexões sobre a memória e o passado, a forma como este muitas vezes nos conduz nas nossas acções futuras, e a influência que o funcionamento da nossa memória tem sobre nós e sobre os outros (não controlamos aquilo que de facto memorizamos), na forma como observamos e interpretamos as acções próprias e alheias.