05/07/2011

4.715.(5Jul2011.7h36') Paul Èluard


Salvador Dali fez este Retrato de Paul Eluard 
Nasceu a 14dez1895
e morreu a 18nov1952
***
Bar da Fundação Gulbenkian
Mulher belíssima
Troca de olhares
Ternurámos
Mais tarde 
Ela oferece-me um poema
Há palavras de Paul Eluard...
Tenho que ir aos meus papéis...
Entretanto em francês:
"Il y a des mots qui font vivre
Et ce sont des mots innocents
Le mot chaleur le mot confiance
Amour justice et le mot liberté
Le mot enfant et le mot gentillesse
Et certains noms de fleurs et
certains noms de fruits
Le mot courage et le mot découvrir
Et le mot frère et le mot camarade
Et certains noms de pays de villages
Et certains noms de femmes et d'amis."

Extrait d'un poème à Gabriel Péri



















































***
15ouTUbro2019...mergulho neste dia em 2011
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.
 in "Algumas das Palavras"
*
 https://www.facebook.com/notes/239291352782172/
(via José S)
***
https://www.facebook.com/435679649828709/photos/a.437956256267715.102025.435679649828709/915815415148461/?type=1&theater
Summer 1937 - Picnic at Mougins: (l to r) Nusch and Paul Éluard, Roland Penrose, Man Ray, Ady Fidelin
***

A Liberdade guiando o povo, Eugène Delacroix, 1830

http://www.abrilabril.pt/cultura/liberdade

Liberdade

Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome
Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome
Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome
Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome
Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome
Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome
Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome
No bafejar das auroras
no oceano dos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome
Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome
Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome
Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome
No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome
No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome
No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome
No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome
Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome
Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome
Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome
Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome
Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome
Pelo poder duma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te
liberdade.
traduzido por Jorge de Sena
***

“Atena”

Povo grego povo rei povo desesperado
Nada tens a perder senão a liberdade
Teu amor pelo livre pelo justo
E o infinito respeito que sentes por ti próprio

Povo rei tu não estás na mesma da morte
És como o teu amor és inocente
Teus corpo e coração têm fome de eterno
Que te eram dadas honestamente as armas
Para salvar a honra restabelecer a lei
Povo desesperado confia só nas armas
Deu-tas a caridade faze delas a esperança

Contrapõe essa esperança à negra luz
À morte sem perdão que em ti não tem raiz
Povo desesperado mas um povo de heróis
Povo de esfomeados mas gulosos da Pátria

Pequeno e Grande à escala do teu tempo
Povo grego p`ra sempre senhor dos teus desejos
A carne e o ideal da carne conjugados
Os naturais desejos a liberdade o pão

A liberdade igual ao mar em baixo ao sol
O pão igual aos deuses o pão que junta os homens
O bem real e luminoso e mais forte que tudo
Mais fortes que o sofrer que nossos inimigos

Povo rei que julgaste que o pão te era devido
***
Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos actos antigos
Com tão pouca esperança que'a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida


E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo.

 in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
respiguei de:
http://amatematicaandaporai.blogspot.com/2009/07/paul-eluard-o-meus-irmaos-contrarios.html
***
RESPIGUEI
http://canaldepoesia.blogspot.pt/2013/12/paul-eluard-o-beijo.html

 / o beijo

Ainda toda quente da roupa tirada
Fechas os olhos e moves-te
Como se move um canto que nasce
vagamente mas em toda a parte

Perfumada e saborosa
Ultrapassas sem te perder
As fronteiras do teu corpo

Passaste por cima do tempo
Eis-te uma nova mulher
Revelada até ao infinito.

poemas de amor e de liberdade
trad. egito gonçalves
campo das letras
2000
***
via: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet128.htm

Paul Éluard, por Picasso (1941)
***
RESPIGUEI: http://franceportugal1.blogspot.pt/

Liberdade

Nos meus cadernos de estudante
Na escrivaninha e nas árvores
Na areia nevada
Escrevo o teu nome

Nas páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto
Nos ninhos entre as giestas
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome

Nos meus trapos de caloiro
No açude de sol bafiento
No lago de lua esperta
Escrevo o teu nome

Nos campos no horizonte
Nas asas dos passarinhos
No moinho tenebroso
Escrevo o teu nome

Em cada sopro da manhã
No mar e nos navios
Na insensata montanha
Escrevo o teu nome

Na espuma das nuvens
E nos suores da borrasca
Na chuva densa e insípida
Escrevo o teu nome

Nas formas cintilantes
Nas cores dos sinos
Na verdade física
Escrevo o teu nome

Nos caminhos conscientes
Nas estradas estendidas
Nas praças que trasbordam
Escrevo o teu nome

Na lâmpada que se acende
E naquela que se apaga
Nas minhas razões reunidas
Escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
Do espelho e do meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo o teu nome

No meu cão glutão e terno
De orelhas levantadas
Na sua pata desastrada
Escrevo o teu nome

No limiar da minha porta
Nos objectos familiares
No rolo de fogo sagrado
Escrevo o teu nome

Em toda carne acordada
Na testa dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome

Na janela de surpresas
E nos lábios comoventes
Mais longe que o silêncio
Escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
Nos meus faróis extintos
Nos muros do meu tédio
Escrevo o teu nome

Na vacuidade sem desejo
Na desnuda solidão
Nas escadas da morte
Escrevo o teu nome

Na saúde reencontrada
No risco extraviado
Na fé sem recordação
Escrevo o teu nome

E pelo poder duma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Para te nomear.

in Poésies et vérités, 1942

Tradução: Fernando Oliveira


O trabalho do pintor, para Picasso

I

Envolve este limão de branco de ovo informe
veste esse branco de ovo dum azul celeste suave e firme
mesmo se a linha direita e negra vem de ti
a alvorada está por detrás do teu quadro

um sem-número de muros se desmoronam
detrás do teu quadro e tu com o olho fixo
como um cego como um louco
tu levantas uma longa espada para o vazio

uma mão porquê não uma segunda mão
porque não a boca nua como uma pluma
porque não um sorriso e porque não as lágrimas
no rebordo da tela onde brincam as pontas de paris

eis o dia dos outros que deixa às sombras o seu acaso
e com um único movimento das pálpebras renuncia

II

Tu levantavas uma longa espada
Como uma bandeira ao vento contrário
levantavas o teu olhar contra a sombra e o vento
Das trevas confusas

Tu não quiseste dividir
Nada se espera do nada
A pedra não cairá sobre ti
Nem o elogio complacente

Duro detractor avança renunciando
Nasce o prazer no seio da tua recusa
A arte poderia ser um trejeito
Que tu reduzes para não ser que uma porta

Aberta por onde a vida entra

III

E a imagem convencional da uva
Presente no tapete a imagem
Convencional da espada

Levantada para o vazio ponto de exclamação
Ponto de espanto e de pasmo
Quem me poderá desaprovar

Quem te poderá acusar da pose
Imemorável do homem preso na sombra
Os outros são da sombra mas carregam
Um fardo tão pesado como o teu
Tu és um dos ramos da estrela da sombra
Que ocasiona a luminosidade

Aqueles que falam da sombra não nos fazem rir
Nos subterrâneos da morte
Aqueles que crêem no desastre e que seduzem a sua morte

De mil e uma verdades sem qualquer espinho
Nós transportamos sacos de carvão
Para o incêndio que nos confunde

IV

Tudo começa nas imagens
Dizem os loucos irmãos de nada
Eu incorporo pelas imagens
Todas as auroras ao imenso dia

Tenho a melhor consciência
que nossos desejos são gentis

doces e violentos como os falsos
na erva tenra e corada

Hoje nós queremos comer
Juntos ou então brincar e rir
Hoje queria ir
À União Soviética ou então descansar

Com meu coração para a esposa
com o poder de bem-fazer
E a esperança forte como uma coroa
De mãos atadas sobre um beijo

V

Picasso meu amigo demente
Fora de fronteiras meu lúcido amigo
nada existe na nossa terra
Que seja mais puro que teu nome

Gosto de o dizer amo enunciar
Que todos os teus gestos são assinados
Pois a partir daí os homens
ficam legitimados à sua grandeza

E a sua grandeza é diferente
Uma grandeza toda igual
Ela cabe num chão de pedra
Mordendo-se os desejos

VI

É sempre uma história de algas
De terrenos cabeludos
Uma história de amigos sinceros
Com febres de frutos maduros

De antigos mortos de jovens flores
Nas grinaldas incorruptíveis
A vida oferece o seu coração
A morte dá o seu segredo

Uma história de amigos sinceros
Através dos tempos familiares
A criação quotidiana
No saudação indiferente

VII

Que cortina, não há cortina
Mas algumas degraus a subir

Alguns degraus a construir
Sem cansaço e sem problemas
O trabalho advém prazer
Nunca duvidamos sabemos bem
Que o sofrimento é uma carga nós queremos
Textos novos telas virgens depois de amar

De olhos como espaldas
A vista como o horizonte
Mãos na soleira do conhecimento
Como biscoitos no vinho

E apenas um objectivo ser o melhor em tudo
Dia dividido caricia sem marcação
Caro camarada a ti o primeiro lugar
Último do mundo num mundo primeiro

Tradução: Fernando Oliveira

Este poema provém do tema intitulado “Poesia sem interrupção” de Paul Eluard – 1945


Salvador Dali

É esticando a corda das cidades que desbotam
Que o soltar dos sexos nas províncias
Faz crescer os sentimentos decrépitos do pai
Na busca duma nova vegetação
Onde as noites em combustão
Proíbam ao local de mostrar o intuito do nariz

É lendo as sementes imperceptíveis dos desejos
Que a agulha cessa com delicadeza
Entre o último minuto da aranha e do narcótico

Na cerâmica do íris e do ponto de suspensão
Onde a agulha se amarra em torno da falsa coragem
Do dedo pudico e da paragem nas estações

É pavimentando as ruas com ninhos de pássaros
Que o piano confuso dos gigantes
Esquece em beneficio da fome
A grandeza da mudança dos cantos desmedidos
De dois seres que se afastam

É aceitando a serventia das ferramentas ferrugentas
Constatando apaticamente a boa fé do metal
Que as mãos se abrem às delicias dos perfumes
E outros pequenos diabos das festividades
No fundo dos bolsos riscados de vermelho

É agarrando-se a uma cortina de moscas
Que a enxuta pecadora se defende dos marinheiros
Besta e redonda como a maçã não se interessa pelo mar

A madeira que falta na floresta que nem ali está
O encontro que não aconteceu e para beber
A verdura nos copos e uma boca que não fora feita
Que para chorar uma arma único termo de comparação
Com a mesa com os copos com as lágrimas
E a sombra forja o esqueleto do cristal de rocha

É para não deixar vazios entre nós estes olhos nossos olhos
Que ela estende os seus braços nus
A garota sem jóias a garota nua de pele
Seria preciso para aqui e para além rochas e vagas
Mulheres para nos distrair e nos enroupar
Ou cerejas de esmeralda no leite do orvalho

Tantas madrugadas breves nas mãos
Tantos gestos maníacos para dissipar a insónia
Sob a trepidante noite da roupa
Face à escada em que cada degrau é o prato duma balança

Em frente dos pássaros treinados contra as correntes
A estrela pesada do bem-estar rasga as veias

Tradução: Fernando Oliveira
Este poema provém do tema intitulado : A vida imediata " - 1932 -


Man Ray

A agitação dum vestido que tomba
Depois um corpo simples sem nuvens
Venha assim confiar-me os seus charmes
Você que teve a sua parte de felicidade
E que muitas vezes chora o sinistro fado daquele que a fez feliz

Você que não tem vontade de pensar
Que nunca soube edificar um homem
Sem amar um outro

Nos espaços de marés dum corpo que se desnuda
À mama que se afigura ser crepúsculo
O olho passeia sobre as dunas distraídas
Onde as fontes guardam as unhas de mãos nuas

Vestígios da vanguarda nua face pálida sob as celhas do horizonte
Uma breve lágrima noiva do passado
Saber que o clarão foi fértil
Infantis andorinhas julgam que a terra é o céu

O quarto negro onde todos os calhaus do frio estão afiados
Não me digas que não tens medo
O teu olhar está ao nível do meu ombro
És bela demais para exaltar a castidade

No quarto negro onde mesmo o trigo
Nasce da gulodice

Ficas imutável
Estás só.

Tradução: Fernando Oliveira

Este poema provém do tema intitulado “ A rosa pública “ – 1933 –


George Braque

Um pássaro esvoaça,
Afastando as nuvens tal um véu inútil,
Nunca teve medo da luz,
Recluso do seu voo
Nunca teve sombra.

Conchas de colheitas despedaçadas pelo sol.
No bosque todas as folhas dizem que sim,
Elas só sabem dizer que sim,
A toda a questão toda resposta
E o orvalho gira no fundo desse sim.

Um homem de olhos suaves descreve o céu do amor.
Junta as maravilhas
Como num bosque as folhas,
Como os pássaros nas suas asas
E os homens no sono.

Tradução: Fernando Oliveira

Este poema provém do tema intitulado “ Capital da Dor “ 1924


Max Ernst

Num canto o incesto hábil
Anda à volta da virgindade primaveril
Num canto o céu absorto
Com picos do tumulto deixa bolas brancas

Num canto o mais claro de todos os olhos
Esperam-se os peixes da angústia
Num canto o veículo de verdura do verão
Para sempre inerte e glorioso

No vislumbre da juventude
Das lâmpadas que ficaram acesas
A primeira mostra os seios que matam os insectos vermelhos

Tradução: Fernando Oliveira

Este poema provém do tema ‘ Repetições ‘
- 1921 -


Nós fizemos a noite

Nós fizemos a noite
Acordado eu tomo a tua mão
nutrindo-te com todas as minhas forças
gravo na rocha a estrela da tua energia
com linhas profundas
onde a bondade do teu corpo germinará
Repito a tua voz escondida
a tua voz anunciada
Ainda gracejo da orgulhosa
que tu tratas como uma pedinte
dos malucos que respeitas
dos simples em quem te deleitas

E na minha cabeça que pouco a pouco se une à tua e à noite
fico maravilhado de tal mistério
tão parecido contigo e com tudo que amo
o que é continuamente invulgar

Tradução: Fernando Oliveira
- 1936-
Este poema foi extraído do tema intitulado “ Olhos férteis”


Aquele de sempre, toda

Se vos disser: “que tudo abandonei”
é porque ela não pertence ao meu corpo não é verdade
mas nunca me gabei
e o nevoeiro profundo onde me movo
nunca soube se passei

o leque da sua boca, o clarão dos seus olhos
Sou o único afectado
o único que fala
neste espelho tão vão onde o ar me atravessa
um ar que tem um rosto amoroso, teu rosto
para ti que não tens nome e que os outros ignoram
o mar fala-te de mim, de mim o céu te fala
os astros te adivinham, as nuvens imaginam-te
e o sangue da generosidade
leva-te para as delicias
Eu canto a grande alegria de te cantar
a grande alegria de te ter, ou de te não ter
a pureza de te esperar, a inocência de te conhecer
tu que apagas o esquecimento, a esperança e a ignorância
que apagas o vazio e me fazes nascer
eu canto para cantar, amo-te para cantar
o mistério, onde o amor me cria e se liberta

tu és pura, tu és mais pura que eu mesmo

Tradução: Fernando Oliveira

Este poema pertence ao tema intitulado: Capital da dor- entre Outubro de 1924 e Agosto 1926 –


A amorosa

Ela está de pé sobre as minhas pálpebras
e os seus cabelos se entrelaçam nos meus
Ela tem a forma das minhas mãos
e a cor dos meus olhos
Ela desaparece na minha sombra

Ela tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir
Seus sonhos plenos de luz
fazem evaporar os sóis
Que me fazem rir, chorar e rir
Falar sem nada ter para dizer

Tradução: Fernando Oliveira

Este poema pertence ao tema intitulado “Capital da dor”
- entre 1914 et 1921 –

O fim do mundo

a André Breton

Os olhos cercados como as ruínas dos castelos
Um manto de valados entre ela e seu último olhar
Num delicioso dia de primavera
Quando as flores camuflam a terra
Aquele abandono de tudo
E os desejos dos outros à sua vontade
Sem que ela pense
A sua vã vida respira senão a vida
O seu peito não tem sombra e a face desconhece
Que o cabelo ondulado o embala obstinadamente.

Palavras que palavras preto ou Cévennes
Bambu respira ou coaxa
Falar é servir-se dos seus pés para caminhar
Das suas mãos para roçar os panos como um moribundo
Os olhos abertos não tem fechadura
Sem dificuldade temos na boca e nas orelhas
Uma marca de sangue não é um sol pesado
Nem a palidez uma noite sem sono que acaba.

A liberdade é tão incompreensível como a visita do médico
De que médico uma vela no deserto
No fundo do dia o ténue foco duma vela
A eternidade começou e acabará na cama
Mas para quem falas tu pois tu não sabes
Porque tu não queres saber
Pois não mais sabes
Por respeito
O que falar quer dizer.

Este poema provém do tema intitulado “ A vida imediata “

Tradução: Fernando Oliveira, do original – La fin du monde – 
***
VIA CITADOR:
"Muito antes é poeta aquele que inspira do que aquele que é inspirado."
"A esperança não faz pó."
A Morte o Amor a VidaJulguei que podia quebrar a profundeza a 
                                                               [imensidade 
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco 
Estendi-me na minha prisão de portas virgens 
Como um morto razoável que soube morrer 
Um morto cercado apenas pelo seu nada 
Estendi-me sobre as vagas absurdas 
Do veneno absorvido por amor da cinza 
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue 

Queria desunir a vida 
Queria partilhar a morte com a morte 
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida 
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro 
                                                             [nem o orvalho 
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro 
Havia eliminado o gelo das mãos postas 
Havia eliminado a invernal ossatura 
Do voto de viver que se anula 

Tu vieste o fogo então reanimou-se 
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de 
                                                                      [estrelas 
E a terra cobriu-se 
Da tua carne clara e eu senti-me leve 
Vieste a solidão fora vencida 
Eu tinha um guia na terra 
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido 
Avançava ganhava espaço e tempo 
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente 
                                                                     [para a luz 
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava 
                                                               [as suas velas 
O sono transbordava de sonhos e a noite 
Prometia à aurora olhares confiantes 
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro 
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos 
O repouso deslumbrado substituía a fadiga 
E eu adorava o amor como nos meus primeiros 
                                                                         [tempos 

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam 
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme 
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas 
Nada é simples nem singular 
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite 

A floresta dá segurança às árvores 
E as paredes das casas têm uma pele comum 
E as estradas cruzam-se sempre 
Os homens nasceram para se entenderem 
Para se compreenderem para se amarem 
Têm filhos que se tornarão pais dos homens 
Têm filhos sem eira nem beira 
Que hão-de reinventar o fogo 
Que hão-de reinventar os homens 
E a natureza e a sua pátria 
A de todos os homens 
A de todos os tempos. 

 in "Algumas das Palavras" 
Tradução de António Ramos Rosa






















































































"A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito

É uma dança de roda e de doçura.

Berço nocturno e auréola do tempo,

Se já não sei tudo o que vivi

É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,

Hastes de brisas, sorrisos de perfume,

Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,

Barcos de céu e barcos do mar,

Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras

Abandonado sobre a palha dos astros,

Como o dia depende da inocência

O mundo inteiro depende dos teus olhos

E todo o meu sangue corre no teu olhar."
**
O Amor é o Homem InacabadoTodas as árvores com todos os ramos com todas 
                                                             [as folhas 
A erva na base dos rochedos e as casas 
                                                          [amontoadas 
Ao longe o mar que os teus olhos banham 
Estas imagens de um dia e outro dia 
Os vícios as virtudes tão imperfeitos 
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso 
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas 
                                                             [obstinadas 
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos 
                                                          [lábios virgens 
Os vícios as virtudes tão imperfeitos 
A semelhança dos olhares consentidos com os 
                                                   [olhares conquistados 
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores 
A imitação das palavras das atitudes das ideias 
Os vícios as virtudes tão imperfeitos 

O amor é o homem inacabado. 

 in "Algumas das Palavras" 
Tradução de António Ramos Rosa

Tema(s): Amor 
































GritarAqui a acção simplifica-se 
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira 
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes 
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos 
Ponho-me a gritar 
Todos falavam demasiado baixo falavam e 
                                                             [escreviam 
Demasiado baixo 

Fiz retroceder os limites do grito 

A acção simplifica-se 

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida 
Que lhe destinava um lugar perante mim 

Com um grito 

Tantas coisas desapareceram 
Que nunca mais voltará a desaparecer 
Nada do que merece viver 

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão 
Canta debaixo das portas frias 
Sob armaduras opostas 
Ardem no meu coração as estações 
As estações dos homens os seus astros 
Trémulos de tão semelhantes serem 

E o meu grito nu sobe um degrau 
Da escadaria imensa da alegria 

E esse fogo nu que me pesa 
Torna a minha força suave e dura 

Eis aqui a amadurecer um fruto 
Ardendo de frio orvalhado de suor 
Eis aqui o lugar generoso 
Onde só dormem os que sonham 
O tempo está bom gritemos com mais força 
Para que os sonhadores durmam melhor 
Envoltos em palavras 
Que põem o bom tempo nos meus olhos 

Estou seguro de que a todo o momento 
Filha e avó dos meus amores 
Da minha esperança 
A felicidade jorra do meu grito 

Para a mais alta busca 
Um grito de que o meu seja o eco. 

 in "Algumas das Palavras" 
Tradução de António Ramos Rosa

Tema(s): Acção 



















































































***
Je t’aime

Je t’aime pour toutes les femmes
Que je n’ai pas connues
Je t’aime pour tout le temps
Où je n’ai pas vécu
Pour l’odeur du grand large
Et l’odeur du pain chaud
Pour la neige qui fond
Pour les premières fleurs
Pour les animaux purs
Que l’homme n’effraie pas
Je t’aime pour aimer
Je t’aime pour toutes les femmes
Que je n’aime pas

Qui me reflète sinon toi-même
Je me vois si peu
Sans toi je ne vois rien
Qu’une étendue déserte
Entre autrefois et aujourd’hui
Il y a eu toutes ces morts
Que j’ai franchies
Sur de la paille
Je n’ai pas pu percer
Le mur de mon miroir
Il m’a fallu apprendre
Mot par mot la vie
Comme on oublie

Je t’aime pour ta sagesse
Qui n’est pas la mienne
Pour la santé je t’aime
Contre tout ce qui n’est qu’illusion
Pour ce cœur immortel
Que je ne détiens pas
Que tu crois être le doute
Et tu n’es que raison
Tu es le grand soleil
Qui me monte à la tête
Quand je suis sûr de moi
Quand je suis sûr de moi

Tu es le grand soleil
Qui me monte à la tête
Quand je suis sûr de moi
Quand je suis sûr de moi

***

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Liberté

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable de neige
J’écris ton nom
Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom
Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom
Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom
Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom
Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom
Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom
Sur chaque bouffées d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom
Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom
Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom
Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom
Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes raisons réunies
J’écris ton nom
Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom
Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom
Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom
Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom
Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attendries
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom
Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom
Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom
Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom
Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté

Poésies et vérités, 1942
***
Joaquim Pessoa escreveu sobre Paul Eluard
A ROSA

Estou aqui estou aqui não pretendi fugir nunca
o meu peito é sólido
o meu nome é sólido
o meu céu é sólido
o meu ar é sólido
as minhas dúvidas são sólidas.

Acabei de jantar no Restaurante Chinês
e olhei para as minhas mãos
estão inquietas como ontem
tremem como ontem
e ontem tudo foi
inquieto e trémulo como as minhas mãos.

Não há nenhuma flor que resista à beleza
da poesia de Paul Éluard não é meu filho?
repetia aquela mãe que eu nunca tive
e eu afirmava afirmava sempre
que nada neste mundo tem a força de uma rosa.

Oh a minha mãe era bela
todas as mães são belas
e eu só posso chamar-lhes meu amor.

Quando a minha mãe morreu a cidade
não tinha sombras
em Abril tinha recomeçado tudo
até as próprias sombras
e eu vesti-me de branco para dar
o último beijo a minha mãe no dia
em que me senti pela primeira vez um homem
porque ao ficar de novo órfão
disse: É preciso ler Paul Éluard e não
lhe dei simplesmente
a minha rosa.

*
in OS DIAS DA SERPENTE, 2ª Ed.
Moraes Editores, 1981.

***

Via facebook de José Sottomayor
Julguei que podia quebrar a profundeza a
                                                               [imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue

Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro
                                                             [nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula

Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de
                                                                      [estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
                                                                     [para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
                                                               [as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
                                                                         [tempos

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite

A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.

 in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa