04/06/2012

5.765.(4junho2012.8.18') Casa Museu Vieira Natividade

Temos que voltar à ordem do dia, permanentemente!!!...
A CDU tem levantado frequentemente esta questão...
+1 vergonha do Estado para com Alcobaça
e para com a família Vieira Natividade!!!
***
Via tinta fresca.net
abril 2006:
Família e notáveis da cidade contestam IPPAR
    Alcobaça reclama acesso ao espólio de Vieira Natividade
     A família de Vieira Natividade

    As associações culturais alcobacenses e a família de Vieira Natividade reuniram-se no dia 5 de Junho, junto à casa onde várias gerações da família viveram, para reclamar do IPPAR o acesso ao espólio doado pela família ao Estado português. A família e os notáveis da cidade acusam o IPPAR de ter a casa trancada desde a entrega da chave, em 1995, e de não cumprir o acordo de doação, nem sequer prestando contas sobre o estado de conservação do valioso espólio, recolhido durante mais de um século.
    O pretexto deste encontro foi o centenário do nascimento de Leocádia Natividade, irmã do Prof. Joaquim Vieira Natividade (1899-1968) e última residente na casa da família, no nº 25 da Praça 25 de Abril, em frente ao Mosteiro. A casa foi durante várias décadas, uma verdadeira "Caverna da Cultura", nas palavras de Sanches Branco, um dos oradores presentes no encontro. Com efeito, a casa funcionou como uma tertúlia alcobacense durante várias décadas tendo passado por lá inúmeras personalidades da vida cultural do País.
    Leocádia foi a última anfitriã dos Natividade, tendo recebido ali muitos dos que, neste dia, apenas puderam ficar à porta da casa que se habituaram a considerar também como sua durante muitos anos.
    Museu de Alcobaça: um sonho com mais de 100 anos
    A tentativa de criação do Museu de Alcobaça remonta a 1889, quando Manuel Vieira Natividade participa à Câmara Municipal de Alcobaça a descoberta de grutas no "Vale Escuro", junto ao Carvalhal de Aljubarrota, com os respectivos achados arqueológicos do Período Neolítico.
    De imediato, a Câmara proporcionou a feitura de vitrines para guardar tão precioso acervo e princípio do Museu Municipal. No ano seguinte, e para tal fim, é solicitado ao Regimento de Cavalaria 9 a devolução da Sala do Capítulo do Mosteiro de Alcobaça, a qual tinha sido cedida aquela instituição militar em 1885, para sala de armas dos oficiais.
    Contudo, tal não veio a acontecer e, em 1915, após a demolição da "Igreja Nova", voltou a pensar-se na edificação da "Escola Feminina, Museu e Biblioteca", no espaço onde hoje se sita a Estação dos Correios. Por outro lado, a ideia de albergar um núcleo museológico, também terá estado na mente de Manuel Vieira Natividade, quando encomendou o projecto da sua nova casa ao arquitecto Raul Lino.
    Em 29 de Janeiro de 1944, Joaquim Vieira Natividade anuncia, em nome da família, a intenção de doar a Alcobaça a colecção arqueológica de Manuel Vieira Natividade, (a mais valiosa do País na posse de particulares, segundo declara) bem como a Biblioteca Alcobaciana, contendo preciosos documentos sobre a História do Mosteiro e dos Coutos de Alcobaça. Tal renúncia é, segundo Joaquim Vieira Natividade, o testemunho do amor e do carinho que votavam à terra em que nasceram.
    O Museu de Alcobaça viria a ser criado legalmente através do decreto-lei 433/85, de 23 de Outubro, e é já no consulado do IPPC/IPPAR que veio a ser outorgado contrato de projecto com o arquitecto Gonçalo Byrne, para instalação do Museu de Alcobaça, na Ala Norte dos Edifícios Abaciais.
    Em 1991, por escritura pública de 4 de Outubro, é doado ao Estado, através do IPPC, a casa da família Vieira Natividade, "...um museu , no qual serão depositadas e expostas as colecções e objectos a doar por membros da família Vieira Natividade, o qual será designado por Casa-Museu de Vieira Natividade e funcionará em anexo ao Museu de Alcobaça..."(sic).
    Isabel Almeida: "IPPAR conhecia as condições da casa quando a recebeu em doação"
     Família Natividade não pode entrar
    na casa que doou ao Estado


    Isabel Almeida, so-brinha da homenageada, referiu ao Tinta Fresca que vários sentimentos a invadiam naquele momento: "Uma enorme gratidão à ADEPA pela amizade sempre demonstrada; depois, um sentimento de muita saudade pela minha tia, pelos meus tios, pelos meus avós e por todos os que vi já desaparecer; por fim, um sentimento muito grande de tristeza por não podermos partilhar com todos aqueles que desejem estudar ou conhecer este património que nós coligimos e que é único".
    A representante da família Natividade prossegue lamentando "ver degradar uma casa que nos é muito querida e que nos seja impedido o acesso a este património. Fazem-no com um alheamento absoluto aos sentimentos de quem doou e de quem anseia conhecer e viver toda esta riqueza aqui guardada e que, assim, não o pode fazer. Por isso, são vários os meus sentimentos neste momento: sentimentos de emoção, de saudade e algum sentimento de revolta por os desejos da minha família não poderem ser cumpridos e pelo desprezo pelo património que aqui está".
    Confrontada com os ecos que terá obtido da tutela, Isabel Almeida salienta que "da parte do IPPAR, os ecos são as portas fechadas. O património está guardado não se sabe em que condições e há promessas vagas de que, em breve, haverá qualquer coisa, mas não conhecemos intenções, nem prazos, nem programas. Esta situação continua num impasse que dura há 11 anos o que é lamentável".
    "Estamos acompanhados por todos os movimentos vivos de Alcobaça (ADEPA, REBATE, etc.) que se estão a coligar agora na chamada Liga dos Amigos de Alcobaça, que já existiu, e estou pronta, em nome da minha família, para os apoiarmos em tudo o que pudermos", sublinha a sobrinha de Leocádia Garcez Natividade.
    Questionada sobre a avaliação feita pelo IPPAR de que a casa não reúne as condições mínimas para se poder constituir como museu, Isabel Almeida contrapõe que o IPPAR conhecia as condições da casa quando a recebeu em doação: "O que não está correcto é que a casa se esteja a degradar desta forma e que a família não saiba em que condições é que se encontra o espólio. São documentos muito antigos e peças de enorme valor, que precisam de ser zeladas, como o foram sempre e por isso se mantiveram em tão boas condições até ao momento em que a casa foi encerrada".
    Sobre Leocádia Natividade, Isabel Almeida recorda que "era uma senhora extremamente culta, uma pessoa activa e enérgica, uma pessoa carinhosa, devotada à família e às causas de Alcobaça: "Foi a última das filhas de Manuel Vieira Natividade e, como tal, a pessoa que mais directamente contactava com todo o espólio. Foi o garante do espírito da família, não a única, mas o espírito existe ainda nesta geração, e já é a 7ª, pois existe ainda uma grande união entre toda a família".
    Isabel Almeida confirma a riqueza do espólio dos Vieira Natividade, desde o arqueológico ao numismático, passando pelo artístico e documental. "Estão aqui obras únicas, algumas delas salvas da fogueira e que pertenciam à biblioteca do Mosteiro. Depois das lutas liberais, as bibliotecas foram saqueadas e o meu bisavô conseguiu que as pessoas da região lhes trouxessem livros antigos, muitas vezes nem sabendo o que eles representavam, prometendo que os guardaria e que os encaminharia".
    Isabel Almeida entende que a definição de "Caverna da Cultura" tem a ver, sobretudo, com o grupo de alcobacenses e figuras ilustres da Cultura que passaram pela casa dos Natividade: "Por aqui passaram alguns dos maiores vultos da Cultura do final do século XIX e início do século XX. Havia uma plêiade de escritores que se reuniam aqui, como Afonso Lopes Vieira, Virgínia Vitorino, Ana de Castro e pintores como Alberto Soeiro, para discutir tudo o que era modernidade e tudo o que eram descobertas interessantes no mundo das letras e das artes".
    Sobre a hipótese de a família estar arrependida de ter doado a casa ao IPPAR e não à Câmara Municipal, Isabel Almeida lembra que foi vontade da sua tia Leocádia doar esta casa ao IPPAR: "Nessa altura, o então IPPC era uma entidade chefiada por uma pessoa da nossa amizade e um organismo estatal que nos merecia a maior consideração. Acordámos então em doá-la porque estaria em boas mãos, considerando que o IPPAR teria os maiores especialistas. Entretanto, a situação alterou-se e hoje tenho esperança que o novo Governo traga pelo menos uma nova esperança de que os institutos nacionais de defesa do património se tornem mais atentos e mais operativos".
    António Almeida e Sousa: "IPPAR terá de fazer a casa-museu ou devolver o património"
    António Almeida e Sousa, irmão de Isabel Almeida, salientou ao Tinta Fresca que "até 1995, sabíamos como estava o espólio e os alcobacenses também sabiam. Estava a cargo da minha tia Leocádia e das minhas tias, sobrinhas dela, e sabíamos que estava em perfeitas condições, estando até a ser alvo de estudo, acompanhados por alguns elementos do IPPAR".
    "A partir de 1995, com o falecimento da minha tia, e seguindo as condições de doação, a chave foi entregue ao IPPAR. Ao contrário do que está estabelecido nas condições de doação, em que a família devia acompanhar e ser esclarecida sobre o andamento dos trabalhos de estudo do espólio numismático, fotográfico, bibliográfico, de tecidos, de quadros, etc., o IPPAR nunca nos deu nenhuma satisfação do que se estava a passar. Não sabemos como está o espólio, nem sequer se está aqui, porque não nos deixam ver. As condições exteriores da casa mostram que, se as interiores estiverem assim, o espólio está a ser muito mal tratado", adverte.
    Sobre as respostas do IPPAR às questões levantadas pela família Natividade, António Almeida considera que a resposta tem sido zero: "Zero são manobras dilatória, frases que nada dizem, sentidos dúbios nas respostas às nossas perguntas e quando não se vê nada de concreto. Nós não vemos o espólio, não o usufruímos, não o partilhamos nem o damos a conhecer, como sempre foi intenção dos nossos avós e de nós próprios".
    Sobre a falta de condições da casa para se constituir como museu, António Almeida e Sousa recorda que "vieram cá arquitectos, nomeadamente a pedido do IPPAR, viram a casa e disseram que era possível, com algumas alterações, transformá-la numa casa-museu como sempre foi a condição de doação. Contudo, é perfeitamente admissível que o espólio seja tão extenso que não possa estar todo em exposição ao mesmo tempo. Por isso, é natural que o espólio tenha de ser mostrado por partes".
    O nosso interlocutor salienta que "a família nunca esteve contra a criação no Mosteiro de Alcobaça de uma sala condigna para exposição de parte do espólio. No entanto, a condição de doação foi que esta casa abrisse como casa-museu. E é isso que o IPPAR tem de cumprir. Senão há sempre a hipótese de reversão. Quem não cumpre tem de ter a sanção respectiva".
    Pedro Tavares: "Este sentimento avaro de aferrolhar é contra-natura, contra o espírito de Vieira Natividade"
    Pedro Tavares 

    Para Pedro Tavares, habitual frequentador da casa dos Vieira Natividade, "esta foi uma sessão de homenagem, pela positiva, para recordar Leocádia Natividade. O espírito de partilha dos Natividade era grande e um tesouro só é um tesouro se for partilhado e divulgado. Este espólio maravilhoso, arqueológico, bibliográfico, documental, numismático e artístico, contém loiças, algumas delas pintadas à mão por eles próprios, quadros, tapeçarias de Irene Sá e a maior colecção de chitas de Alcobaça que haverá no mundo. É o amor e o espírito de da partilha com Alcobaça que esta casa encerra e é por isso que nos custa tanto ver as portas desta casa fechadas".
    O engenheiro sublinha que "compreendemos os problemas do IPPAR e, pessoalmente, não censuro a posição da família de ter entregue a casa ao IPPAR. Os institutos patrimoniais são, ao nível da organização do Estado, as entidades que estão mais vocacionadas para a preservação, conservação e divulgação do património e é natural e justo que a família tenha recorrido ao IPPAR para entregar esse valor de excepção".
    Para Pedro Tavares, é compreensível que o IPPAR demore alguns anos, sobretudo na correlação entre a casa-museu e o Mosteiro, que é de difícil gestão, sobretudo neste ano histórico em que todo o mosteiro ficou reunido sob a mesma tutela.
    "No entanto, neste compasso de espera, sendo a memória do espólio de Vieira Natividade tão querida e tão cara para Alcobaça e estando ainda tão viva nos nossos espíritos, o que considero aviltante é que estas portas nos sejam fechadas. Enquanto em vida da Leocadinha podíamos vir para aqui, ver, partilhar e olhar para este espólio com todo o respeito e admiração, desde que a Leocadinha desceu estas escadas, não mais Alcobaça as voltou a subir. E esse sentimento avaro de aferrolhar é que é incompreensível", confessa.
    Para este membro da ADEPA, "o espólio arqueológico e as tapeçarias não podem ser devidamente observadas aqui. Hoje há outros requisitos de segurança e de exposição que talvez não sejam compatíveis com esta casa. É lógico que se estudem outras soluções e, com os espaços do mosteiro, é perfeitamente compreensível, admissível e talvez desejável que parte deste espólio seja melhor exposto ali".
    Pedro Tavares reconhece que "a família será a primeira interessada numa boa exposição do espólio e, por certo, não colocará qualquer problema. Se há alguma agrura é porque, passados estes anos todos, nem a própria família pode entrar na casa! Isto é contra-natura, contra o espírito de Vieira Natividade e contra a função última dos próprios institutos patrimoniais. Esta dinâmica criada com base no centenário do nascimento de Leocádia Natividade não irá parar enquanto não houver nada de mais palpável e concreto. Com urbanidade e lisura, como era o espírito de Vieira Natividade.
    Mário Lopes
    17-04-2006
    ***
    via tinta fresca.net (texto de há 6 anos...)
    Alcobaça
      ADEPA discute situação da Casa-Museu Vieira Natividade
       Nesta casa nasceu Joaquim Vieira Natividade

      Discutir o futuro da Casa-Museu Vieira Nativi-dade e reivindicar da entidade que tutela aquele espaço o direito dos alcobacenses usufruírem dele. Esta foi a ideia-chave que atravessou a Assem-bleia Geral da Associação de Defesa do Património de Alcobaça, uma sessão extraordinária aberta ao público e que teve na discussão da situação da Casa Museu o ponto único da ordem de Trabalhos.

       A Casa-Museu Vieira Natividade foi criada por decreto lei publicado em 1992 após a doação do imóvel onde viveram Manuel e Joaquim Vieira Natividade. Dez anos depois, continua fechada e vedada à fruição pelos alcobacenses, contrariando o desejo expresso pelos seus herdeiros.
      Porém, a importância do assunto não atraiu os alcobacenses, que não encheram o auditório da biblioteca municipal. A ausência da directora do Mosteiro, Isabel Costeira, também se fez notar, em contraste com a presença do presidente da Câmara, Gonçalves Sapinho, que deixou uma palavra de solidariedade aos promotores desta causa.
      Foi para tentar sair desta situação de impasse que um grupo de alcobacenses se encontrou com Luís Calado, presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico e Isabel Costeira, a directora do Mosteiro de Alcobaça, na sede do IPPAR, uma vez que esta é a entidade que tutela a Casa-Museu. No encontro participaram nomes como os do escultor José Aurélio, o pró-reitor da Universidade de Coimbra, João Lisboa, Rui Serafim e Isabel Ramalho de Almeida e Ana Coelho, em representação da família Vieira Natividade.
      Este grupo de cidadãos propôs a criação de um núcleo museológico dedicado a Manuel e Joaquim Vieira Natividade na Ala Sul do Mosteiro, que albergaria as peças mais importantes do espólio. Outra proposta, prende-se com a musealização da Casa-Museu, recorrendo ao contributo de especialistas que José Aurélio garantiu já terem sido contactados. Comunicados estes desenvolvimentos pela voz de João Lisboa, coube aos sócios da ADEPA delinear a estratégia a seguir nos futuros contactos com o IPPAR.
      Este foi o ponto que mais discussão gerou durante a reunião, emergindo posições distintas. Por um lado, António Sanches Branco defendeu que os elementos que iniciaram os contactos com a Casa-Museu fossem mandatados pela direcção da ADEPA para prosseguir este trabalho. Por outro, estes, pela voz de Carlos Mendonça, apresentaram uma moção em que não prescindiam de convidar um grupo alargado de personalidades para encetar os contactos com o IPPAR.
      Jorge Pereira de Sampaio defendeu a ideia de que a Câmara Municipal deveria assumir um maior envolvimento no processo e houve ainda quem questionasse a oportunidade destes contactos numa fase de mudança de Governo. A posição defendida pela direcção acabou por sair vencedora, colhendo a maioria dos votos dos sócios da ADEPA presentes.
      "Uma caverna da Ciência" que inspirava respeito Foi com estas palavras que António Sanches Branco caracterizou a casa onde residiram Manuel e Joaquim Vieira Natividade. Ao longo dos finais do século XIX e boa parte do século XX foi lugar de encontro de saberes, uma escola de valores.
      Isabel Ramalho de Almeida lembra que "o culto à beleza" faziam parte do quotidiano daquela casa que acolheu vultos da intelectualidade portuguesa do século XX, tais como Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, Silva Tavares, Virgínia Vitorino, Aurélio Quintanilha ou Leite de Vasconcelos entre outros. A vaga de refugiados que chegou a Portugal no período da II Guerra Mundial encontrou naquela residência um porto de abrigo.
      Converter a Casa-Museu num centro de estudos dedicado à arqueologia e etnografia da região, recreando aquele que foi o espírito que ali se viveu, foi uma das ideias lançada por Isabel Ramalho de Almeida, que reclamou o direito a ver o espólio e inteirar-se sobre o seu estado de conservação.
      Do vasto legado da Casa Museu destacam-se as colecções de arqueologia, etnografia, pintura e artes plásticas, fotografia, têxteis e cerâmica. De referir que o valiosíssimo arquivo bibliográfico inclui obras pertencentes à Biblioteca do Mosteiro, que foram parar às mãos da família no período das guerras liberais.
      José Augusto Pereira
      José Augusto Pereira
      10-04-2006

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      ADEPA discute situação da Casa-Museu Vieira Natividade
       Nesta casa nasceu Joaquim Vieira Natividade

      Discutir o futuro da Casa-Museu Vieira Nativi-dade e reivindicar da entidade que tutela aquele espaço o direito dos alcobacenses usufruírem dele. Esta foi a ideia-chave que atravessou a Assem-bleia Geral da Associação de Defesa do Património de Alcobaça, uma sessão extraordinária aberta ao público e que teve na discussão da situação da Casa Museu o ponto único da ordem de Trabalhos.

       A Casa-Museu Vieira Natividade foi criada por decreto lei publicado em 1992 após a doação do imóvel onde viveram Manuel e Joaquim Vieira Natividade. Dez anos depois, continua fechada e vedada à fruição pelos alcobacenses, contrariando o desejo expresso pelos seus herdeiros.
      Porém, a importância do assunto não atraiu os alcobacenses, que não encheram o auditório da biblioteca municipal. A ausência da directora do Mosteiro, Isabel Costeira, também se fez notar, em contraste com a presença do presidente da Câmara, Gonçalves Sapinho, que deixou uma palavra de solidariedade aos promotores desta causa.
      Foi para tentar sair desta situação de impasse que um grupo de alcobacenses se encontrou com Luís Calado, presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico e Isabel Costeira, a directora do Mosteiro de Alcobaça, na sede do IPPAR, uma vez que esta é a entidade que tutela a Casa-Museu. No encontro participaram nomes como os do escultor José Aurélio, o pró-reitor da Universidade de Coimbra, João Lisboa, Rui Serafim e Isabel Ramalho de Almeida e Ana Coelho, em representação da família Vieira Natividade.
      Este grupo de cidadãos propôs a criação de um núcleo museológico dedicado a Manuel e Joaquim Vieira Natividade na Ala Sul do Mosteiro, que albergaria as peças mais importantes do espólio. Outra proposta, prende-se com a musealização da Casa-Museu, recorrendo ao contributo de especialistas que José Aurélio garantiu já terem sido contactados. Comunicados estes desenvolvimentos pela voz de João Lisboa, coube aos sócios da ADEPA delinear a estratégia a seguir nos futuros contactos com o IPPAR.
      Este foi o ponto que mais discussão gerou durante a reunião, emergindo posições distintas. Por um lado, António Sanches Branco defendeu que os elementos que iniciaram os contactos com a Casa-Museu fossem mandatados pela direcção da ADEPA para prosseguir este trabalho. Por outro, estes, pela voz de Carlos Mendonça, apresentaram uma moção em que não prescindiam de convidar um grupo alargado de personalidades para encetar os contactos com o IPPAR.
      Jorge Pereira de Sampaio defendeu a ideia de que a Câmara Municipal deveria assumir um maior envolvimento no processo e houve ainda quem questionasse a oportunidade destes contactos numa fase de mudança de Governo. A posição defendida pela direcção acabou por sair vencedora, colhendo a maioria dos votos dos sócios da ADEPA presentes.
      "Uma caverna da Ciência" que inspirava respeito Foi com estas palavras que António Sanches Branco caracterizou a casa onde residiram Manuel e Joaquim Vieira Natividade. Ao longo dos finais do século XIX e boa parte do século XX foi lugar de encontro de saberes, uma escola de valores.
      Isabel Ramalho de Almeida lembra que "o culto à beleza" faziam parte do quotidiano daquela casa que acolheu vultos da intelectualidade portuguesa do século XX, tais como Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, Silva Tavares, Virgínia Vitorino, Aurélio Quintanilha ou Leite de Vasconcelos entre outros. A vaga de refugiados que chegou a Portugal no período da II Guerra Mundial encontrou naquela residência um porto de abrigo.
      Converter a Casa-Museu num centro de estudos dedicado à arqueologia e etnografia da região, recreando aquele que foi o espírito que ali se viveu, foi uma das ideias lançada por Isabel Ramalho de Almeida, que reclamou o direito a ver o espólio e inteirar-se sobre o seu estado de conservação.
      Do vasto legado da Casa Museu destacam-se as colecções de arqueologia, etnografia, pintura e artes plásticas, fotografia, têxteis e cerâmica. De referir que o valiosíssimo arquivo bibliográfico inclui obras pertencentes à Biblioteca do Mosteiro, que foram parar às mãos da família no período das guerras liberais.
      José Augusto Pereira
      José Augusto Pereira
      10-04-2006