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Para a História do Socialismo
Documentos
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Tradução do alemão por PG, revisão e edição por CN, 1.11.2013
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Notas da Prisão (I)
(Moabiter Notizen)1
Erich Honecker
Advertências preliminares
Impõe-se-me passar a escrito determinadas coisas de que ainda recordo bem, abordar uma série de questões que me inquietam profundamente e formular reflexões sobre certos acontecimentos. Ainda não sei o que deva fazer com estas notas, e se ainda conseguirei dar aos meus pensamentos uma forma ordenada.
Escrevo estas linhas na prisão de Berlim-Moabit – prisão que conheço bem ainda do tempo do nazismo, tal como muitos outros comunistas, sociais-democratas e outros antifascistas. Logo em 1933 esta prisão desempenhou um papel muito particular na repressão dos adversários políticos do imperialismo alemão.
Caso estas linhas venham um dia a ser publicadas, então elas destinam-se àqueles que querem analisar seriamente o passado, contrariamente aos pretensos «obliteradores da história», cujo único objectivo é difamar o socialismo para atrasar tanto quanto possível o inevitável afundamento do capitalismo.
Não se encontrará nestes escritos nenhuma concessão à sociedade de exploração capitalista, à sua ideologia e «moral». Os 20 milhões de desempregados, que a economia livre de mercado lançou na rua, não o permitem. Será esta uma situação sem saída? O socialismo era uma ordem social justa. Já o tínhamos construído nas suas grandes linhas e queríamos ir mais longe. Perdemo-lo com o desaparecimento
da RDA socialista.
Apesar dos hinos bem pagos ao capitalismo, hoje entoados não só por políticos e jornalistas burgueses de direita, ninguém pode negar seriamente a situação extremamente difícil em que se encontram milhões de operários e empregados, cientistas e artistas, sejam eles defensores ou adversários da «economia de
mercado». Isto não pode continuar assim e não vai continuar. Mas não será o capitalismo a abrir o caminho a um mundo sem desempregados e sem miséria.
Já o expressei por diversas vezes e quero repeti-lo uma vez mais: os acontecimentos que se produziram na RDA após a minha demissão abalaram-me profundamente. A queda da RDA atingiu-me duramente, mas, tal como muitos outros companheiros de luta, não perdi a convicção de que o socialismo é a única alternativa para uma sociedade mais humana e mais justa. Desde a existência do capitalismo que os comunistas pertencem aos perseguidos neste mundo, mas não pertencem aos sem futuro.
O que fizemos para dar vida ao socialismo em solo alemão não foi em vão. Fizemo-lo juntamente com os partidos democratas-cristãos e liberais do leste, diversos responsáveis dos quais rapidamente se precipitaram para as novas bancadas governamentais após 1989. Agimos em condições difíceis durante 40 anos. O que foi realizado produzirá efeitos no futuro. Penso nas relações de proudção socialista que ofereciam trabalhos atodos, segurança social, habitação a preços acessíveis - fosse ou não em alojamentos prefabricados - creches, jardins de infância, clubes de jovens e uma vida cultural e intelectual de alto nível.
O capitalismo, hoje envergonhadamente chamado de «economia de mercado», chegou aos seus limites. A sua decadência e o surgimento de uma nova sociedade são inevitáveis. Conservo a certeza do desaparecimento do capitalismo, apesar de todas as derrotas que sofremos e dos erros e insuficiências que podíamos ter evitado, apesar de todas as mais vis traições.
Com a destruição do socialismo na Europa, o mundo tornou-se completamente caótico e desorientado. Os EUA, autoproclamados polícias do mundo, actuam a seu bel-prazer e impõem, aqui e acolá, a «nova ordem mundial» a golpes de bombas e mísseis. Apesar de surgirem por toda a parte auto-intitulados marxistas, que dizem «renovar» a teoria marxista, embora na realidade a privem do seu núcleo ou até a procurem refutar por completo, os factos permanecem.
As leis da evolução das sociedades humanas são objectivas. A contradição fundamental da sociedade
capitalista reside no carácter social do trabalho e na apropriação privada dos seus resultados. Esta contradição persiste independentemente da capacidade do capitalismo mudar de aparência no decurso do seu desenvolvimento. Só quando esta contradição for superada, quando o lucro deixar de dirigir o mundo, só então se criarão condições de vida verdadeiramente humanas para cada indivíduo.
A tão falada auto-realização do indivíduo não consiste evidentemente na perspectiva de que no futuro apenas dez ou 20 por cento da população possa encontrar trabalho, devido à crescente utilização das tecnologias de ponta e dos seus progressos constantes. Numa nova sociedade tem de haver um lugar para cada um dos seus membros, não obstante todas essas evoluções tecnológicas e outros condicionalismos. Antes de mais isso significa um posto de trabalho para cada um.
O capitalismo é incapaz de o garantir, isso é hoje mais evidente do que nunca. A corrida aos lucros fixa os limites da sociedade capitalista. Existem, portanto, razões sociais profundas e determinantes para que se abra caminho a uma sociedade alternativa, que terá de ser uma sociedade socialista, sejam quais forem as
especificidades da sua estrutura e as modalidades da sua organização concreta.
É por isso que, do ponto de vista histórico, a minha avaliação não é tão pessimista como aquela que, compreensivelmente, é feita pela maioria dos que foram surpreendidos pela «mudança» de 1989. No futuro, a questão social permanecerá no centro do debate social em todos os países capitalistas. Também
aqueles que consagraram as suas forças à realização da «mudança», e ainda hoje acreditam, ou pelo menos afirmam-no, que agiram dessa maneira para melhorar as coisas na RDA melhor, têm de se confrontar com amargas realidades.
Todos queríamos um socialismo ainda melhor. O que alcançámos nunca nos bastou. Mas todos estes pequenos «reformadores» renunciaram ao socialismo, dando ouvidos ao «grande» reformador que, em seis anos, conseguiu desarmar o seu partido, o PCUS, de que era secretário-geral, e conduzir a URSS à sua
aniquilação.
A RDA foi sacrificada no altar da «casa comum europeia», pela qual Gorbatchov lutava com tanto afinco. Foi o acontecimento mais doloroso da minha vida, assim como da de numerosos camaradas. Hoje temos de reconhecer que isto foi facilitado pela nossa atitude em relação Moscovo, caracterizada pela tradição e disciplina, mesmo quando lá já não estavam interessados em defender o socialismo. E finalmente isto só foi possível porque houve elementos do nosso partido que contribuíram objectivamente para a eliminação do socialismo. Entre estes havia alguns traidores conscientes, que hoje se vangloriam de terem aberto o caminho à anexação da RDA, tendo utilizado durante anos os seus contactos com a RFA.
Erich Honecker
As Notas da Prisão, de Erich Honecker, foram escritas na prisão de Moabit em Berlim, em 1992 e 1993, e terminadas no Chile, onde foram passadas à máquina pela sua mulher, Margot Honecker. Honecker rubricou cada uma das páginas, anexou-lhes fotos e vários documentos, que foram inicialmente publicados na Alemanha em 1994 e reeditados em 2010, sob a chancela da Ost, com um prefácio escrito por Margot Honecker em 2009.
A presente tradução foi feita a partir desta última edição. (N. Ed.)
Santiago do Chile, Primavera de 1994
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Desapareceu um amigo
O desaparecimento da RDA inseriu-se na derrocada da comunidade dos Estados socialistas. Esta desenrolou-se num contexto de mudanças radicais na política internacional. Sobre isto não resta dúvida nenhuma, pelo menos desde que o jogo foi revelado em Washington, Bona e Moscovo, mesmo que provavelmente só em parte. Inicialmente a direcção do partido e do Estado soviético introduziu os
conceitos de perestroika, glasnost, como prelúdio destas mudanças, e um «novo pensamento» que ignorava as classes e a luta de classes, assim como a oposição
Este-Oeste, objectivamente existente, que resultava de sistemas sociais diferentes. Mais que isso, o adversário de ontem, que tinha ameaçado decapitar militarmente a União Soviética, tornou-se repentinamente num amigo.
Com esta amizade, pouco tempo depois, desaparecia um amigo – a URSS. Tudo isto não se desenrolou, nem se desenrola, sem sobressaltos, pelo contrário, provocou um profundo estremecimento em todo o mundo. Estas profundas alterações na arena mundial só foram possíveis mediante a cooperação de forças
presentes em Moscovo, Washington e Bona. Isto é cada vez mais evidente. A sua acção destruiu a relação de forças políticas e militares até então existente.
Como foi revelado publicamente várias vezes por I. Kvizinski,
Iúli Kvizinski (1936), diplomata soviético e especialista em assuntos alemães, teve uma
participação decisiva nas negociações do Acordo das quatro potências sobre Berlim no
início dos anos 70. Em Genebra foi chefe de delegação nas negociações sobre
desarmamento em matéria de armas estratégicas na Europa, as quais foram rompidas pela
União Soviética em resposta ao início do estacionamento dos mísseis Cruise e Pershing II
na Europa Ocidental. Foi ainda encarregado de Negócios em Bona de 1978 a 1981 e
embaixador na RFA a partir de 1986.
a questão da substituição de Honecker por um homem da perestroika, como Modrow, longamente discutida em Moscovo, teve aqui apenas um papel secundário. Há muito que os dirigentes políticos norte-americanos desejavam que a situação evoluísse no sentido de hoje. E aproveitaram a oportunidade, servindo o interesse dos círculos políticos reaccionários.
Uma encenação perfeita permitiu-lhes atingir o objectivo colocado pelos dirigentes dos centros imperialistas norte-americano, alemães ocidentais e outros grandes países capitalistas: a mudança de sistema nos países do Leste europeu. A URSS desempenhou aqui um papel central.
Gorbatchov, Iákovlev e Chevardnádze consideraram o relatório político ao XXVII Congresso do PCUS como uma acção decidida de demolição do sistema, apesar de na altura recusarem energicamente reconhecê-lo. Contudo, em 1987-88, isto já não podia ser camuflado aos olhos de observadores atentos da realidade soviética.
Agora, passados anos, está mais claro do que nunca que, com a morte de Konstantine Tchernenko, também se anunciou a morte da URSS. O novo grupo dirigente que tinha alcançado a cúpula do partido e do Estado soviético, em torno de Gorbatchov, Chevardnádze, Iákovlev e Éltsine, tinha já o objectivo traçado de
«mudar o sistema». Hoje assumem-no abertamente.
E para isso estavam dispostos a sacrificar os aliados da União Soviética. O facto de os primeiros passos nesta direcção terem sido dados usando o nome de V.I. Lénine, o fundador do poder soviético, e em alegada fidelidade aos seus princípios, em nada altera esta realidade. Chevardnádze escreveu nas suas
memórias que, logo no Outono de 1984, durante um passeio com Gorbatchov nas margens do Mar Negro, tinham concordado ambos que era necessário mudar «todo o sistema». A chave que abria a porta nesta direcção foi forjada ao longo de 1985.
Operaram-se mudanças na política interna e externa. As novas orientações começaram por se expressar na política externa: uma proposta de directiva elaborada pelo aparelho do CC foi alterada abruptamente pelos novos dirigentes que exigiram uma abordagem «mais global» da política internacional. Na prática,
tratava-se de encarar uma cooperação mais estreita com os EUA. Foi o próprio Gorbatchov quem me apresentou este como um passo decisivo para uma alteração na política externa, que se encontrava até aí «bloqueada».
Esta linha conduziu à célebre declaração de Genebra.
O encontro entre presidente norte-americano Reagan e o secretário-geral Gorbatchov,
a 19 de Novembro de 1985 em Genebra, foi a primeira cimeira em sete anos. A troca de
opiniões, que se desenrolou durante cerca de cinco horas a dois, produziu o seguinte
resultado: pela primeira vez os EUA e a URSS comprometeram-se a não procurar alcançar
superioridade militar sobre o outro. Na declaração conjunta afirma-se que «uma guerra
atómica não pode ser ganha e nunca deverá ser tentada». Vinte anos mais tarde, a WDR
[Rádio e Televisão públicas da Renânia do Norte-Vestefália] recordou: «Na conferência de
imprensa, Gorbatchov deixou inequivocamente claro que não seriam possíveis progressos
no controlo do armamento enquanto os EUA teimassem no projecto de “guerra nas
estrelas” [Iniciativa Estratégica de Defesa – SDI]. Reagan também fez uma ressalva à
declaração conjunta: «A verdadeira confiança tem de se basear em acções, não em
palavras», sublinhando a seguir: «Saio de Genebra na certeza de que esta cimeira à lareira
contribuirá para um mundo melhor em paz». Em 1987 Gorbatchov declarou-se pronto a
iniciar unilateralmente o desarmamento. Dois anos mais tarde caiu o muro de Berlim. Em
1991 dissolveu-se a União Soviética. Dois anos mais tarde o programa SDI foi
oficialmente suspenso. Terminava a guerra-fria.» (www.wdr.de/themen/kultur/stichtag/
2005/11/19.jhtml)
Durante o encontro, Gorbatchov e Reagan acordaram em apelar a um mundo sem armas atómicas. Este
objectivo tinha sem dúvida um grande significado político. Mas para o alcançar não se podia, evidentemente, esquecer que a URSS socialista e os EUA imperialistas tinham nas mãos o equilíbrio estratégico-militar de todo o mundo.
O apelo foi considerado como um grande êxito de Gorbatchov. Mas qual foi o resultado desta declaração de intenções? A humanidade aproximou-se um passo sequer de tal objectivo? Será que os norte-americanos, que se tornaram nos gendarmes do mundo, fizeram alguma coisa nesse sentido?
Quando se lê o que Gorbatchov e Chevarnádze publicaram sobre as «Conversações em Washington», chega-se à conclusão de que toda a evolução a que assistimos tinha sido previamente programada desde a alvorada da perestroika. Os acordos entre a URSS e os seus aliados, ainda em vigor em 1989-90, não tiveram nenhum peso nas suas negociações com os EUA e a RFA. Tratou-se exclusivamente de um acordo entre a direcção soviética e estes dois estados imperialistas.
Ao passar de uma política de coexistência pacífica entre Estados com diferentes regimes sociais para uma política global, em que a oposição entre sistemas sociais diferentes deixou de ter qualquer peso. Por fim, depois da ocupação da RDA, a política externa soviética aceitou que os territórios sob domínio da NATO se alargassem até à fronteira Oder-Neiss, o que correspondeu totalmente aos planos dos norte-americanos. No entanto, até ao Outono de 1989, nas conversações com a RDA, a direcção soviética continuava a considerá-la como o seu aliado estratégico no centro da Europa. Os acontecimentos mostraram que esta posição não visava a manutenção da aliança existente, mas sim elevar o preço de venda da RDA à RFA.
Depois da revelação dos planos dos serviços norte-americanos, soviéticos e alemães não restam dúvidas de que o presidente Bush pôde concretizar o objectivo perseguido por Reagan, de decapitar a União Soviética através de meios políticos, porque tinha na sua mão um trunfo decisivo: a atitude da própria direcção
soviética.
Ao mesmo tempo que transformava radicalmente a sua política externa, a direcção soviética introduzia medidas na URSS, que deviam acelerar o desenvolvimento económico e social. Infelizmente, foi o contrário que se verificou: a situação económica e social não melhorou, mas degradou-se; a autogestão das
empresas, destruindo a planificação centralizada e pondo fim ao centralismo democrático, fez a economia descarrilar.
Os conceitos de perestroika e glasnost tornaram-se sinónimos de deterioração das condições de vida para um número crescente de cidadãos soviéticos. As ideias enunciadas em Perestroika: Novo Pensamento Para o Nosso País e Para o Mundo, de M.S. Gorbatchov, foi publicado na URSS em 1988. (N. Ed.) tiveram, como sabemos hoje, um resultado diferente do que muitos esperavam nessa altura. Conduziram ao enfraquecimento da URSS, ao enfraquecimento da ordem e da disciplina na sociedade e no Estado, o que apenas aproveitou ao capitalismo. Hoje ainda não é possível avaliar a amplitude das consequências do desaparecimento da URSS. Na verdade, abrem-se novas perspectivas de expansão e de maximização dos lucros para os imperialistas. Para a humanidade, pelo contrário, anunciam-se incertezas, guerras, aumento do desemprego, migração de Leste para Oeste e muitas coisas mais.
Quem duvida destas constatações sobre as consequências da perestroika na URSS só tem de consultar as actas da reunião do CC do PCUS com os secretários das repúblicas, regiões e distritos de 18 de Julho de 1989, que se realizou na sede doCC. Vários oradores exortaram os comunistas e a classe operária a defender com firmeza o socialismo. O ex-primeiro-ministro Rijkov fez saber nesta ocasião que o partido e o Estado se encontravam numa situação caótica extrema. O partido e o Estado eram alvo de acusações de tal modo devastadoras, vindas de dentro e de fora, que tinham praticamente perdido toda a confiança aos olhos do povo. O desenrolar dos acontecimentos mostrava que as coisas se tornariam dificilmente controláveis, num contexto em que o partido estava a perder de facto a sua influência. Rijkov explicou que a acção dos comités do partido e das suas organizações de base era com frequência denegrida em público.
O representante do PC da Ucrânia alertou que as críticas destrutivas e os ataques violentos contra o partido eram cada vez mais intensos. Um outro interveniente sublinhou que todo o período desde 1917 era apresentado nos meios de comunicação como o mais terrível da História do país. A pretexto de procurar novas formas e métodos de trabalho, exigia-se muitas vezes que se deitasse borda fora todas as realizações do partido. A gravidade da situação exigia que se restaurasse sem demora a autoridade do partido. Um outro orador considerou que as coisas tinham chegado a um tal ponto que tudo convergia para um agravamento da situação nos diferentes domínios: na economia, na ideologia, nas instituições. As reestruturações aceleradas tinham provocado o afundamento da economia e a torrente de comícios e manifestações transformava-se rapidamente numa vaga de greves. Os acontecimentos dos últimos tempos, como afirmava um orador moscovita, mostravam claramente que muitos comités do partido já não controlavam a situação. Isto manifestava-se no facto de o lema «Todo o Poder aos Sovietes» estar a ser substituído pelo de «Sovietes sem Comunistas».
Tudo isto demonstra que, naquele momento, o esboroamento do poder soviéticojá estava em fase muito avançada. A palavra de ordem de Gorbatchov – «Todo o Poder aos Sovietes» – resultou na irradiação do PCUS da acção governamental.
Os documentos disponíveis mostram que o trabalho disciplinado tinha sido substituído, desde há vários anos, por manifestações e greves, as quais visavam muitas vezes eliminar a influência do centro e substituí-la pela autogestão. As ligações existentes entre as empresas foram rompidas. De repente tornou-se
impossível de encontrar sal, detergente em pó e muitas outras coisas necessárias à vida diária. A máfia tornou-se um poder incontrolável. Surgidos como cogumelos desde 1986. formações "não oficiais" abandonaram a sua camuflagem e tornaram-se percursores do lema "Sovietes sem Comunistas, a exemplo do Pamjat
Pamjat, organização nacionalista e anti-semita surgida em 1985, que explorou o
descontentamento da população com a política de Gorbatchov, apresentando-se como
«frente nacional-patriótica». Como descreve o Die Zeit, de 4 de Maio de 1990, a sua
propaganda assenta numa «mistura de trono, cruz e culto grotesco de Stáline e ataques
fascistas dos partidários»
Em 1987-88, as autoridades soviéticas já não controlavam numerosos domínios da sociedade. O terror e o medo tomaram as ruas. A difamação do partido era facilitada pela perda de confiança provocada por quatro anos de perestroika e glasnost. Os chamados valores ocidentais eram propagados a todo o transe.
Esta evolução tornou-se possível porque, em 1985, a direcção do partido e do Estado caiu nas mãos de um grupo que, fazendo letra morta de todas as resoluções dos congressos do partido, conduziu a União Soviética ao caos. Inicialmente, utilizou-se o argumento de que esta «esquerda» combatia o dogmatismo reinante para retomar o caminho leninismo. Na realidade, o seu rumo afastava-se de Marx e
de Lénine, o que suscitou primeiro a incompreensão e depois a resistência do partido e da sociedade. Então, quadros experientes do partido foram alvo de renovados ataques e difamações avassaladoras. Os membros do CC passaram a ser alimentados em cada sessão com falsas informações. Cada membro do CC recebeu materiais forjados que pareciam provar a «corrupção e devassidão» de certos quadros. Tudo isto serviu para obter a complacência do CC, substituir camadas inteiras de responsáveis do partido e do Estado e abrir caminho à implementação sem resistências das directivas elaboradas pelo «centro reformador» em Moscovo.
Decerto que este tipo de encenação também é familiar a alguns antigos responsáveis do PSUA
Nessa altura, os embaixadores da URSS nos países socialistas receberam a missão de informar os secretários-gerais dos partidos irmãos em encontros a sós. Explicaram que depois da reunião do CC havia a esperança de se alcançar uma verdadeira renovação do partido e do Estado soviéticos. Tudo isto se processou à semelhança da resolução sobre o álcool,
Imediatamente a seguir à sua ascensão ao poder, em Março de 1985, Gorbatchov
iniciou uma campanha contra o alcoolismo, que conduziu à destruição de vinhas,
encerramento de comércios e principalmente ao aumento da destilação clandestina, razão
por que o açúcar na União Soviética se tornou escasso.
que nos foi comunicada como tendo o objectivo de melhorar a situação nas empresas e nas famílias, em particular a vida das mulheres. Gorbatchov referiu-se a esta resolução durante uma reunião da Comissão Política Consultiva do Pacto de Varsóvia. Mais tarde a resolução foi revogada e declarada prejudicial, mas sobre isso nada nos foi comunicado.
A rápida sucessão das palavras de ordem era chocante. Primeiro foi o «Aceleramento do Desenvolvimento Socioeconómico», depois «Todo o Poder aos Sovietes», slogan que esteve relacionado com a nova lei eleitoral. Em vários lugares, como em Moscovo e Leningrado, este lema foi aproveitado por demagogos para se instalarem na direcção dos Sovietes. Depois foi então substituído pelo lema «Todo o Poder ao Presidente».
Por fim, tudo isto conduziu à desagregação da URSS. A bandeira da União Soviética deixou de ondular sobre o Krémlin. Este foi o sinal mais perturbador e revelador de como um povo pode ser intrujado. Pouco tempo antes, os cidadãos dessa grande União tinham-se pronunciado em referendo a favor da manutenção
da URSS. Isto mostra o que pode acontecer quando o destino de um povo cai nas mãos de demagogos e aventureiros. Depois desta reviravolta não hesitaram em declarar que sempre se tinham considerado sociais-democratas, defensores firmes da economia de mercado, e encarado a RFA como um modelo.
Declarações de Gorbatchov à revista alemã Der Spiegel, 3/1993, pp. 126-130. (NT)
Se tudo isto tivesse acontecido mais cedo, talvez muitos cidadãos da RDA se recusassem a ser porta-vozes da perestroika e glasnot.
Depois da saída de Éltsine do Partido, a cumplicidade com Gobatchov manteve-se, mas por fim houve desavenças entre os dois. Éltsine reforçou de tal modo a sua posição que pôde decidir a dissolução da URSS, criando o triunvirato eslavo entre a Rússia, Bielorrússia e Ucrânia.
mudanças em Moscovo, e consequentemente no seio do Pacto de Varsóvia, as quais
favoreciam a concretização dos seus objectivos.
A tendência para um maior entusiasmo nas relações com a principal potência imperialista e para a restauração do capitalismo na União Soviética terminou com o desaparecimento da comunidade de Estados socialistas. Modificou-se o mapa da Europa e do mundo. Surgiu uma nova relação de forças.
Isto ficou muito claro com o deflagrar da Guerra do Golfo. A guerra civil assola a Jugoslávia. De um momento para outro surgiu o perigo de uma nova guerra mundial, provocado pela política de ingerência do Ocidente. As manifestações contra a guerra demonstraram que os povos compreenderam o carácter do conflito no Golfo. Saíram para a rua gritando «Não à guerra pelo petróleo!».
Não há dúvida de que o mundo entrou num desequilíbrio, com gravesconsequências para a humanidade. A dominação dos EUA, agora claramente assumida, a brutal entrada em acção da sua máquina de guerra para atingirobjectivos políticos, não teria sido possível sem a alteração do mapa político europeu.
A dissolução do Pacto de Varsóvia aliviou militarmente os EUA na Europa, o que lhes permitiu meterem-se na aventura do Golfo.
Por isso, os acontecimentos de 1989/90 vieram reforçar-me a convicção de que a ideia do socialismo não está de modo algum morta. Muitos qualificam este pensamento como distante da realidade. Mas com isso apenas revelam a sua incompreensão dos processos históricos ou o seu enraizamento anti-socialista e antimarxista.
Imediatamente a seguir à sua ascensão ao poder, em Março de 1985, Gorbatchov
iniciou uma campanha contra o alcoolismo, que conduziu à destruição de vinhas,
encerramento de comércios e principalmente ao aumento da destilação clandestina, razão
por que o açúcar na União Soviética se tornou escasso.
que nos foi comunicada como tendo o objectivo de melhorar a situação nas empresas e nas famílias, em particular a vida das mulheres. Gorbatchov referiu-se a esta resolução durante uma reunião da Comissão Política Consultiva do Pacto de Varsóvia. Mais tarde a resolução foi revogada e declarada prejudicial, mas sobre isso nada nos foi comunicado.
A rápida sucessão das palavras de ordem era chocante. Primeiro foi o «Aceleramento do Desenvolvimento Socioeconómico», depois «Todo o Poder aos Sovietes», slogan que esteve relacionado com a nova lei eleitoral. Em vários lugares, como em Moscovo e Leningrado, este lema foi aproveitado por demagogos para se instalarem na direcção dos Sovietes. Depois foi então substituído pelo lema «Todo o Poder ao Presidente».
Por fim, tudo isto conduziu à desagregação da URSS. A bandeira da União Soviética deixou de ondular sobre o Krémlin. Este foi o sinal mais perturbador e revelador de como um povo pode ser intrujado. Pouco tempo antes, os cidadãos dessa grande União tinham-se pronunciado em referendo a favor da manutenção
da URSS. Isto mostra o que pode acontecer quando o destino de um povo cai nas mãos de demagogos e aventureiros. Depois desta reviravolta não hesitaram em declarar que sempre se tinham considerado sociais-democratas, defensores firmes da economia de mercado, e encarado a RFA como um modelo.
Declarações de Gorbatchov à revista alemã Der Spiegel, 3/1993, pp. 126-130. (NT)
Se tudo isto tivesse acontecido mais cedo, talvez muitos cidadãos da RDA se recusassem a ser porta-vozes da perestroika e glasnot.
Depois da saída de Éltsine do Partido, a cumplicidade com Gobatchov manteve-se, mas por fim houve desavenças entre os dois. Éltsine reforçou de tal modo a sua posição que pôde decidir a dissolução da URSS, criando o triunvirato eslavo entre a Rússia, Bielorrússia e Ucrânia.
O Pacto de Varsóvia desintegrou-se no decurso destes acontecimentos, mas não sem antes ter adoptado uma nova doutrina de defesa que, como se veio a saber mais tarde, previa a entrega da RDA em caso de agressão da NATO.
Para a NATO, este sinal foi a confirmação de que estavam em curso importantesmudanças em Moscovo, e consequentemente no seio do Pacto de Varsóvia, as quais
favoreciam a concretização dos seus objectivos.
A tendência para um maior entusiasmo nas relações com a principal potência imperialista e para a restauração do capitalismo na União Soviética terminou com o desaparecimento da comunidade de Estados socialistas. Modificou-se o mapa da Europa e do mundo. Surgiu uma nova relação de forças.
Isto ficou muito claro com o deflagrar da Guerra do Golfo. A guerra civil assola a Jugoslávia. De um momento para outro surgiu o perigo de uma nova guerra mundial, provocado pela política de ingerência do Ocidente. As manifestações contra a guerra demonstraram que os povos compreenderam o carácter do conflito no Golfo. Saíram para a rua gritando «Não à guerra pelo petróleo!».
Não há dúvida de que o mundo entrou num desequilíbrio, com gravesconsequências para a humanidade. A dominação dos EUA, agora claramente assumida, a brutal entrada em acção da sua máquina de guerra para atingirobjectivos políticos, não teria sido possível sem a alteração do mapa político europeu.
A dissolução do Pacto de Varsóvia aliviou militarmente os EUA na Europa, o que lhes permitiu meterem-se na aventura do Golfo.
Com a sua vitória pretendem consagrar a sua posição dominante no mundo, o que levanta novos perigos para os povos, seja no Médio Oriente, em África ou nos Balcãs. Os discursos de vitória, proferidos depois dos bárbaros bombardeamentos contra a população civil do Iraque, dos massacres de mulheres e crianças,
regurgitam de frases conhecidas sobre «a grandeza dos EUA» e a sua capacidade de «tomar em mãos os destinos do mundo». Não há dúvidas quanto a estas intenções: os EUA pretendem dominar o mundo através de meios militares, o que representa um enorme perigo para a humanidade. Este é o resultado objectivo da «nova política externa» do «novo pensamento».
O pensamento global conduziu a URSS, a grande potência socialista, para uma catástrofe global. O carácter trágico destes acontecimentos tornou-se totalmente claro imediatamente após a destruição da potência soviética. Os acontecimentos desenrolaram-se num tal ritmo que não houve sequer tempo para revogar os
tratados de amizade, cooperação e assistência mútua, firmados entre a União Soviética e a RDA. Estes ainda estavam em vigor no momento da assinatura do «Tratado 2+4».
Este Tratado foi assinado pelos dois Estados alemães, RFA e RDA, e as quatro
potências ocupantes, França, EUA, Grã-Bretanha e URSS, em 12 de Setembro de 1990 em
Moscovo. Abriu o caminho à reunificação alemã, o que representou na prática a anexação
da RDA pela RFA, com o consentimento da URSS. (NT)
Helmut Köhl declarou que «a unificação teve lugar num curto momento luminoso da história, e não teria tido lugar nem antes, nem depois».
Este momento não foi produto do acaso, mas provocado de modo muito consciente.
Os acontecimentos que hoje se desenrolam têm de ser caracterizados tal como são. Do que se trata é da luta de classes, da luta de classes ao nível mundial. Este é o ponto de partida para se poder analisar as causas da derrota da comunidade de Estados socialistas, sob pena de se formularem teorias, como a do fracasso do «modelo socialista», que apenas servem objectivos particulares.
Os que negam este ponto de vista, revelam que não estão dispostos ou que não têm condições para julgar os acontecimentos em termos de classe. É certo que as manifestações de 1989 foram uma expressão de descontentamento. Mas, com toda a seriedade que o assunto merece, repito o que disse em 1991. É errado acreditar que a «mudança» de 1989 foi iniciada pela rua. Todos os que ainda têm essa convicção deveriam abandoná-la.
A «mudança» de 1989 resultou das alterações radicais na política mundial, desencadeadas pela viragem política radical da direcção soviética sob a batuta de Gorbatchov. Isto é hoje ainda mais evidente do que à época.
Os gritos de «Gorbi! Gorbi!» dissiparam-se, mas milhões de pessoas, em particular os habitantes da União Soviética, continuarão a sofrer por muitos anos.
Na sociedade de concorrência selvagem, que agora nos cabe em sorte, não há, como a realidade demonstra, lugar para uma situação social estável. As leis rapaces do capitalismo, como as que existem na RFA, não representam uma alternativa para um mundo socialmente justo.