01/04/2014

7.751.(1abril2014.14.2') Eugénio de Andrade

Nasceu a 19jan1923
e morreu a 13junho2005
***
Foto de Poesia, Pintura & Música.
https://www.facebook.com/poesiapinturamusica/photos/a.680630855305186.1073741844.672663006101971/1401074823260782/?type=3&theater
***
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=319552731460416&set=a.531054650310222.1073741825.100002170750922&type=3&theater
Os Amigos

Os amigos amei 
despido de ternura 
fatigada; 
uns iam, outros vinham, 
a nenhum perguntava 
porque partia, 
porque ficava; 
era pouco o que tinha, 
pouco o que dava, 
mas também só queria 
partilhar 
a sede de alegria — 
por mais amarga. 

in Coração do Dia

***
ver 2.743
***

https://www.facebook.com/559343457434706/photos/a.559507790751606.1073741828.559343457434706/956725934363121/?type=3&theater
É urgente o amor 
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

***

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Em Louvor das Crianças

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus. 

***

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Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.
Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Arte - Felix Más

***

https://www.facebook.com/sonhararealidade2013/photos/a.349115855209208.1073741828.349094905211303/883642135089908/?type=3&theater
Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.

em "As Mãos e Os Frutos", 1948

***

https://www.facebook.com/FabricaEscrita/photos/a.462529847093435.111436.462489187097501/867774673235615/?type=1&theater
É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.
***

https://www.facebook.com/349094905211303/photos/a.349115855209208.1073741828.349094905211303/578905378896920/?type=1&theater
Não, não encontro o retrato. 
Estavas de perfil, a luz de cinza 
caía-te dos braços, 
da casa próxima o fumo 

subia devagar os últimos degraus
do outono, um cachorro
saltava no terreiro, não tardaria
a escurecer.

Estavas de perfil, a mão acompanhando
no regaço a rosa que te dei.
Deixa-a ficar e ser,
a mão, rosa também.

Arte - Christiane Vleugels

***

https://www.facebook.com/282054545145829/photos/a.282056735145610.78181.282054545145829/822795847738360/?type=1&theater
"Toda a manhã
fui ave ou sol ou flor
secretamente
ao pé de ti."
_________________

Toda a manhã
fui a flor
impaciente
por abrir.

Toda a manhã
fui ardor
do sol
no teu telhado.

Toda a manhã
fui ave
inquieta
no teu jardim.

Toda a manhã
fui ave ou sol ou flor
secretamente
ao pé de ti.

***
avante 17.Junho.2005 após a sua morte:
Morreu Eugénio de Andrade,
ficamos com o Poeta
Morreu Eugénio de Andrade, figura maior da poesia portuguesa no século XX, o «poeta solar», da palavra luminosa, que teve a sua estreia fulgurante para o grande público com o celebérrimo livro As Mãos e os Frutos no já longínquo ano de 1948, tinha o Poeta apenas 25 anos. Fizera há pouco 82 anos, faleceu de doença prolongada, mas há muito que a sua obra magnífica o lançara para a imortalidade, fazendo também dele o poeta mais traduzido do século XX, logo a seguir a Fernando Pessoa. De caminho, ganhara o Prémio Camões, o maior galardão em língua portuguesa que lhe foi atribuído em 2001, aos 78 anos.
José Fontinhas de seu nome civil, Eugénio de Andrade nasceu a 19 de Janeiro de 1923 na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão, Beira Baixa, mudando-se em 1932 para Lisboa com a mãe, figura crucial na sua vida e na sua poética. É em Lisboa que passa toda a adolescência, descobre a sua vocação poética e convive com alguns escritores e poetas. Em 1940 publica Narciso, o seu primeiro volume de poemas ainda assinado com o nome de baptismo, a que se seguem Pureza (1942) e Adolescente (1945), onde fixa para sempre o seu pseudónimo «Eugénio de Andrade». Destes três livros, depois de expurgados pelo autor, foram publicadas diversas composições numa antologia intitulada Primeiros Poemas, cuja primeira edição data de 1977.
Entre 1943 e 1946 Eugénio de Andrade encontra-se em Coimbra, onde estabelece relações de amizade com alguns dos maiores vultos da literatura e do pensamento portugueses da época, como Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Eduardo Lourenço. Em 1947 torna-se funcionário público, exercendo durante os 35 anos que se seguiram as funções de inspector administrativo do Ministério da Saúde.
Poeta consagrado, o autor não se limitou, contudo, à poesia, escrevendo diversos ensaios e prefácios, colaborando em numerosas publicações, traduzindo Garcia Lorca, organizando as Cartas Portuguesasatribuídas a Mariana Alcoforado, seleccionando poesia de diversos autores estrangeiros, prefaciando antologias temáticas, etc. etc.
Privou com os grandes nomes da literatura portuguesa, tanto da sua geração como das seguintes, tendo sido amigo íntimo de poetas de estéticas muito diversas, como Sophia de Mello Breyner, Mário Cesariny ou Luís Miguel Nava, tal como de críticos consagrados, como Oscar Lopes, António José Saraiva, João Gaspar Simões ou Arnaldo Saraiva.
Em 1948 publica As Mãos e os Frutos, a obra que ele próprio considera a sua verdadeira estreia literária, tinha então apenas 25 anos. Até hoje, este primeiro volume já mereceu cerca de 20 edições e continua a deslumbrar sucessivas gerações de leitores.
Entretanto, por essa altura já vivera e trabalhara intensamente. Passara alguns anos em Coimbra, onde conheceu Carlos de Oliveira, Miguel Torga e Eduardo Lourenço, já traduzira Garcia Lorca, viajara por Espanha e França, encontrara-se com Sophia de Mello Breyner e começara a trabalhar como inspector dos Serviços Médico-Sociais.
Em 1950, por razões de serviço na sua actividade de funcionário público do Ministério da Saúde, muda-se para o Porto, cidade que adoptará e que também por ela será adoptado, aí vivendo até ao fim dos seus dias, primeiro na Rua Duque de Palmela, 111, depois na «casa da Foz», que se tornará a sua residência até ao final. Esta casa tem uma história. Em finais de 1993, alguns amigos portuenses do Poeta criaram a Fundação Eugénio de Andrade, que abriu ao público em Janeiro de 1995. Situada na Foz do Douro, numa casa recuperada na esquina da Rua do Passeio Alegre com a Calçada de Serrúbia, a Fundação passou a servir também de residência do poeta, que a habitará até ao fim dos seus dias. Entretanto a Fundação, que fora instituída para estudar e divulgar a sua obra, passou a promover encontros regulares de poetas e a editar osCadernos de Serrúbia, revista de estudos sobre poesia.

Cinco referências

duma obra maior


Na vasta e diversificada obra que Eugénio de Andrade nos deixa, há cinco volumes que merecem uma referência especial.
Cronologicamente, em 1948 sai o já citado As Mãos e os Frutos, que o próprio autor considera o seu «livro de estreia». É o primeiro marco de uma obra rutilante.
Segue-se Ostinato Rigore, em 1964, talvez o livro de poemas que se seguiu com impacto semelhante ao As Mãos e os Frutos e onde o Poeta dedilha «acordes» mais nocturnos na sua poesia eminentemente «solar».
Em 1971 surge Obscuro Domínio, onde surge o famoso «poema Ariadne» e é, por muitos, considerado um dos melhores livros do autor.
Aos 72 anos, prodigiosamente, surge com O Sal da Língua, um livro igualmente maior na sua obra tão grande, sobretudo em qualidade.
Finalmente, em 2000 edita Poesia, onde Eugénio de Andrade reuniu tudo o que quis conservar da sua obra poética, à excepção do livro Os Sulcos da Sede(2001), que já integrará a próxima edição, a sair em breve.
***
Pequena elegia chamada domingo

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.
Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas

***

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Quase Nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz. 

***
Via Graça Silva:
Sei agora como nasceu a alegria, como nasce o vento entre barcos de papel, como nasce a água ou o amor quando a juventude não é uma lágrima. É primeiro só um rumor de espuma à roda do corpo que desperta, sílaba espessa, beijo acumulado, amanhecer de pássaros no sangue. É subitamente um grito, um grito apertado nos dentes, galope de cavalos num horizonte onde o mar é diurno e sem palavras. Falei de tudo quanto amei. De coisas que te dou para que tu as ames comigo: a juventude, o vento e as areias.
***

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Deixo ao Miguel as coisas da manhã –
a luz (se não estiver já corrompida)
a caminho do sul,
o chão limpo das dunas desertas,
um verso onde os seixos são
de porcelana,
o ardor quase animal
de uma romã aberta.

 do livro "O Peso da Sombra" (1982)

Arte - Emanuele Dascanio

***


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Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

 in “O Outro Nome da Terra”
Aishwarya Rai - Imagem


***

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***

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Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria. 

***

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Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.

Ergue-te, e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.

Ao menos tu sê ave,
primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.

 Coração do Dia
***

É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

(imagem: seducedby.tumblr.com)

***
Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume, 
talvez um segredo
chegue ainda a tempo

__e desperte o lume.

"Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei"

Arte - António Oliveira Tavares
***

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=611504428904517&set=a.107207769334188.12956.100001348957610&type=1&theater

O Silêncio

Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

in "Obscuro Domínio"

*
imagem - Catrin Welz-Stein

***
Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Arte - Donald Boyd
 
***

Procura a maravilha. 

Onde um beijo sabe 
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.
***
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim...

Arte - Jose Miguel Roman Frances

***

Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.
***

O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

in "O Outro Nome da Terra"
Nastya Zhidkova - Fotografia

***

Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Fábrica de Escrita
(imagem: © Terra Kate)
***
***



Na música que é tua,
meus lábios torrenciais
caem pesados, duros.
E nunca mais.

Despenham-se a prumo:
vidros ou punhais.
Arrastam-te ao fundo.
E nunca mais.

Eugénio de Andrade
 — com Laura Schneider


Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)

______
imagem
For the Love,for the Death and the Poetry
***************************************************

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.
Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
somente um bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinha.
Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.


(em As Mãos e os Frutos)
*************************

https://www.facebook.com/349094905211303/photos/a.349115855209208.1073741828.349094905211303/542280189226106/?type=1&theater
*****************************
Via Célia D:
"Passamos pelas coisas sem as ver, 
gastos, como animais envelhecidos: 
se alguém chama por nós não respondemos, 
se alguém nos pede amor não estremecemos, 
como frutos de sombra sem sabor, 
vamos caindo ao chão, apodrecidos."
*******************************

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=671395362896181&set=a.559507790751606.1073741828.559343457434706&type=1&theater
Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto, 
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.

 in “Mar de Setembro”
© Mario Testino - Imagem

**

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=813423745337375&set=a.462529847093435.111436.462489187097501&type=1&theater
Nos teus dedos nasceram horizontes 
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.

in As mãos e os frutos

(imagem: words to say por quadratiges, Flickr)

**********
Via Lídia F
AS PALAVRAS
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
*****

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=720782781296409&set=a.118085784899448.6376.100000940828401&type=1&theater
Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca

***
o primeiro disco publicado por Fausto depois da Revolução dos Cravos:
Pr'ó Que Der e Vier.

http://www.youtube.com/watch?v=QmFCUH9B398
,,,,,,,,,,,,,,,,
letra de Eugénio de Andrade e música de António Pedro Braga e Fausto Bordalo Dias.
......
já agora Eugénio Andrade escreveu:
Acordar, ser na manhã de Abril

a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade,
As mãos e os frutos (1948)
****************

***
Noite Transfigurada

Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
– chegaste,
nem eu sei de que horizontes.
Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
– ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.
Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos,
nítida no ângulo das esquinas
– ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.

Eugénio de Andrade, do livro " As mãos e os frutos" 1948

***

https://www.facebook.com/349094905211303/photos/a.349115855209208.1073741828.349094905211303/533050426815749/?type=1&theater
Urgentemente

É urgente o amor 
É urgente um barco no mar 

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer. 

**********

Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.

Ergue-te, e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.

Ao menos tu sê ave,
primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.

(Coração do Dia)
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É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes
do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.
***
Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume, 
talvez um segredo
chegue ainda a tempo

__e desperte o lume.
***
https://www.facebook.com/349094905211303/photos/a.349115855209208.1073741828.349094905211303/525024397618352/?type=1&theater
"Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei"

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O Silêncio

Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

in "Obscuro Domínio"
***
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Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
****

PROCURA A MARAVILHA

Procura a maravilha. 

Onde um beijo sabe 
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

***

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim...
***


Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe
*****
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O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade in "O Outro Nome da Terra"
Nastya Zhidkova - Fotografia
***
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Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

***
Na música que é tua,
meus lábios torrenciais
caem pesados, duros.
E nunca mais.

Despenham-se a prumo:
vidros ou punhais.
Arrastam-te ao fundo.
E nunca mais.

***

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)
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imagem
For the Love,for the Death and the Poetry

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