***
2018
50 anos depois...
*
15maio2018...No Museu Júlio Pomar...dirigido pela Sara Matos (d' ALCOBAÇA que vos abRRaça)
exposição que fica até 29seTEMbro2018
https://www.facebook.com/ateliermuseujuliopomar/photos/gm.188712591945865/1787867987945900/?type=3&theater
*
13mAIo2018
Manuel Augusto Araújo escreveu:
a não-revolução!

O impulso revolucionário é desviado para o território do espectáculo. Os mitos dadaístas e anarquistas na política e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.
Maio
68 faz cinquenta anos. A 13 de Maio a França assistiu à maior greve
geral de sempre, que paralisou o país. Uma greve só comparável à greve
de 1936 e à que antecedeu a Comuna de Paris. A maior greve geral que
alguma vez aconteceu na Europa ou em qualquer parte do mundo.
Era o culminar de lutas operárias que se tinham intensificado desde os princípios dos anos 60, com lutas enquadradas, algumas desenquadradas, pelas estruturas sindicais, e das lutas estudantis desse ano.
Estudantes e operários confluíram nesse dia numa batalha contra o poder gaulista, corporizado por um general reaccionário que até aí tinha a maior oposição em Miterrand, um político oportunista.
Maio 68 destrói o jogo de xadrez em que esses dois filibusteiros se enfrentavam. Destrói o jogo mas não destrói o tabuleiro. O jogo irá continuar com outros gambitos e, como os lances imediatos e os seguintes a curto e médio prazo mostraram, são eles que acabam por sair triunfantes.
Triunfo no quadro político e comunicacional que também é verificável nos percursos dos principais intervenientes no Maio 68. Uma das ilustrações da imagem desse triunfo, é ler na M Magazine du Monde (revista do Le Monde de 6 de Janeiro) que Daniel Cohn-Bendit e Romain Goupil estão a fazer um filme para a televisão comemorativo dos 50 anos de Maio 68.
Dois soixante-huitards, dois destacados lideres estudantis, um anarquista o outro trotskista. Cohn-Bendit, que mediaticamente se tornou na cara de Maio 68, a partir da década de 70 aproximou-se dos Verdes alemães, foi eleito em 1994 deputado europeu e co-presidente do grupo parlamentar Verde no Parlamento Europeu, que abandonou em 2014 com um discurso inflamado a favor do federalismo.
Romain Goupil é um cineasta que rapidamente evoluiu para posições da direita. Ambos foram apoiantes de Macron, esse meteorito fabricado pelos media, um reaccionário que se apresentou ao eleitorado acima dos partidos tradicionais afirmando o propósito de reformar a política, uma linguagem recorrente de direita que muito seduz os chamados independentes e também muito tem seduzido algumas esquerdas.
É um percurso de distanciação a quaisquer resquícios revolucionários que já tinha sido trilhado por outros distintos dirigentes estudantis como Alain Glucksman, Bernard Henry-Levy, Guy Lardeau, Christian Jambert, Jean Paul Dulié, que formaram a corrente dos Novos Filósofos que desenvolveram e desenvolvem as teorias mais conservadoras, nos antípodas do que defendiam em Maio 68.
São convictamente atlantistas, violentamente críticos da «abominação do colonialismo do homem branco», defensores do capitalismo em todas as suas formas, atacam o multiculturalismo que consideram ser «o racismo dos anti-racistas».
Raros são os que, como Alain Krivine e Alain Cyroulnik, continuaram fiéis aos ideais trotskistas que perfilharam na juventude. É o que significativamente sobra da poeira de estrelas do Maio 68. Não é um acaso comemorar-se Maio 68 com saudosismos serôdios e manipulações da história, nem é um acaso a involução dos seus líderes se atentarmos nas teorias da Internacional Situacionista (IS), a sua base teórica e ideológica, onde pontificavam Guy Debord1.
No primeiro número da revista da IS (Junho 1958) apregoam ser preciso mudar o mundo. Já a razão era «para não se entediar (…) o tédio é uma realidade vulgar dos jovens enraivecidos e pouco informados e essa rebelião de adolescentes, instalados confortavelmente na vida, não tem perspectivas e está bem distante de ser uma causa. Os situacionistas fazem o julgamento dos tempos livres e sentenciam-nos» considerando que «a política constitui uma alienação comparável à da arte».
A IS move-se num mar encapelado de contradições que acabam por contaminar Maio 68. Afirmam que «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes activos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (...) «com novas formas de acção contra a política e a arte».
Dizem querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau» considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução.
Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lénine recorre para em Que Fazer?2 combater as ilusões originadas por essa convicção sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.
Interessante são as recorrentes referências da IS à arte, colocada em paralelo e no mesmo plano da política. Interessante mas não inesperado. A IS deriva da Internacional Letrista (IL), fundada em 1952 por um grupo de jovens artistas de vanguarda, onde já se encontra Guy Debord, que em 1957 se refunda na IS, onde se associam à IL o Movimento para uma Bauhaus Imaginista, o grupo Cobra e a London Psychogeographical Association.
Nas fundações desse edifício teórico estão, entre outras, as ideias de Isidore Isou: «A evolução social não é o instinto de sobreviver mas a vontade de criar (...) a criação é a mais alta forma de actividade humana e a arte a forma mais alta de criação, e a poesia a mais alta forma de arte».
E, sobretudo, as de Chtcheglov que em Formulário para um Novo Urbanismo declara: «Estamos entediados na cidade, não há mais o Templo do Sol. Entre as pernas das mulheres que passavam, os dadaístas imaginaram uma chave de macaco e os surrealistas uma taça de cristal. Está tudo perdido. Sabemos como ler todas as promessas nos rostos – o último estágio da morfologia. A poesia dos outdoors durou vinte anos. Nós estamos entediados na cidade, nós realmente temos que nos esforçar para ainda descobrir mistérios sob os empedrados, o mais recente estado de humor e poesia».
É o urbanismo utópico de Chtcheglov que projecta uma «capital intelectual do mundo», uma espécie de Las Vegas fouriérista enxertada numa Disneylândia surrealista, onde a razão de viver se descobria vagueando pelos seus bairros e jardins, os «diversos sentimentos catalogáveis que se encontram nos acasos da vida corrente» e em que a principal actividade dos seus habitantes seria «a permanente deriva».
De modo oblíquo, o urbanismo utópico de Chtcheglov, pela mão dos situacionistas, irrompe em Maio 68. «Debaixo dos Empedrados a Praia», «A nossa esperança só pode vir dos desesperados»; Decreto o Estado de Felicidade Permanente»; «Vivam sem tempos mortos», «A vida está alhures» palavras de ordem que poderiam ter sido escritas por Chtcheglov por desejar resgatar a vida com a poesia tinha que estar na rua, como cantará Leo Ferré a celebrar Maio 68.
Essas ideias já tinham sido antecipadas por Walter Mehring um dadaísta que, em Berlim 1919, proclama em ??? O que é Dadayama??? dadayma faz / ferver o sangue / e a alma do povo / na panela onde se fundem / --um pouco de corrida— um pouco / de assembleia nacional-- / um pouco de Frente Vermelha / metade prateada / metade aço / mais a mais-valia /------= a vida quotidiana.
São as minas Dada espalhadas nos campos da política e da arte que irão rebentar na IL, um grupo de jovens artistas e intelectuais que durante meia dúzia de anos se juntaram procurando nos seus divertimentos encontrar um modo de mudar o mundo.
Se na época passaram quase incógnitos, tornaram-se conhecidos quando fecharam a IL para fundar com outros a Internacional Situacionista 3.
Serão os Lost Prophets de John Berger4, «o programa (ou anti-programa) dos situacionistas será provavelmente reconhecido como uma das formulações puramente políticas mais lúcidas destes últimos decénios da história, reflectindo de forma extrema a força do seu desespero e das suas privilegiadas fraquezas».
O tédio é para os situacionistas a patologia social. A alienação e a ideologia, a hierarquia e a burocracia são, para eles, a estrutura do mundo. Consideram que todas as ideologias são uma alienação por isso definem posições, não uma ideologia.
Uma negação que acaba por ser uma afirmação, à semelhança da ideologia burguesa que se recusa com contumácia a assumir enquanto ideologia. Fazem essas denúncias, proclamando provocatoriamente que «não há situacionismo», enquanto se apresentam como revolucionários unicamente interessados nas liberdades.
Liberdades que significam o direito de fazer tudo e mais alguma coisa com as consequências que isso implica, num turbilhão que desconhece fronteiras. São princípios devedores do dadaísmo com as suas extravagâncias, cruezas e barbarismos que tornam impossível a meditação contemplativa.
Esquecem ou não sabem reconhecer os dadaístas que a burguesia entediada com o seu próprio tédio já não se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.
Os antecedentes históricos dos activistas da IS encontram-se na Alemanha que no rescaldo da I Guerra Mundial, na Primavera e no Verão de 1918, está em profunda crise. Os movimentos populares forçam a abdicação do imperador Guilherme, todas as esperanças são possíveis antes de serem defraudadas pelo governo do social-democrata de Friedrich Ebert que recuou em todos os campos políticos, sociais e económicos; de o levantamento espartaquista que lhes queria dar continuidade ser liquidado; de Karl Lieknecht e Rosa Luxemburgo serem assassinados.
No Clube Dada de Berlim, Grozs, Walter Mehring, Johannes Baader, John Heartfield, Raoul Hausmann saúdam entusiasticamente os tumultos, «o mundo dadaísta pode ser instantaneamente realizado». Cantam canções e recitam poemas incompreensíveis, aclamam sobre esse barulho de fundo o espontaneismo das massas que, segundo eles, dissolve as ideologias de esquerda e de direita.
Nesse clube renovam-se as consignas do Cabaret Voltaire de Zurique, fundado por Hugo Ball e Emmy Hennings, em que participam Marcel Janco, Richard Huelsenbeck, Tristan Tzara, Sofia Taueber-Arp e Jean Arp, fundadores de Dada, um movimento artístico anárquico, com objectivos artísticos e políticos cujos ecos, flutuando com os ventos da história, continuam a fazer-se ouvir nos nossos tempos, ainda recentemente foram a adubo do movimento punk.
«A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa» escreveu Karl Marx no 18 de Brumário de Louis Bonaparte6. «A história não se repete, mas por vezes pode rimar», dirá Mark Twain que acreditava que nenhuma ocorrência histórica era solitária, mas uma eterna repetição de algo que já aconteceu noutro contexto, com outra forma, espoletada por outras razões.
Pensa Mark Twain e os situacionistas também o pensam pelo que, mudando o enfoque dos dadaístas mas usando a mesma lente, entendem que podem e devem fazer uma transformação espectacular de todas as coisas e também do seu contrário, usando «a coerência reversível do mundo moderno».
O impulso revolucionário é desviado para o território do espectáculo, a vida social como simbolismo. Os mitos dadaístas e anarquistas na política e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.
As suas teorias, que tinham bastante curso nos meios universitários alemães e franceses, expandem-se ainda mais aceleradamente quando um grupo de estudantes da Universidade de Estrasburgo faz uma edição de milhares de exemplares do panfleto da IS «A Miséria do Meio Estudantil», que terá profunda influência nas correntes de esquerda, sobretudo nas anarquistas e trotskistas, em que os comunistas, rotulados de tradicionais e burocratas, eram tão atacados como sempre o foram pelas direitas.
Maio 68 é a não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas importantes para mudanças na evolução das sociedades, mas que deixam intocadas as suas fundações.
Maio 68 é o momento nuclear desse processo. Uma revolução sem programa político, uma revolução sem revolucionários que faz um sobre investimento no existencial.
Faz isso enquanto abre o caminho para processos ousados que introduzem novas formas de luta na longa luta das mulheres, na nova luta pelos direitos dos homossexuais e, de forma embrionária, nas lutas ecológicas. Abrirá o caminho para novas frentes, a interrupção voluntária da gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc.
Faz isso mas também um desinvestimento em identidades instituídas o que produz uma paisagem aleatória em que se interroga o significado do que é político. As frentes de luta abertas por Maio 68, que se assumem como fracturantes, mesmo quando centrais de uma alteração de atitude social, não são mudança social, nem estão realmente empenhadas em transformações sociais radicais.
Quando proclamavam que iam mudar a sociedade logo se desmentiam com um desinteresse quase enfastiado pelas estruturas económicas e do Estado, embrulhado numa gritaria altissonante que mal lhe arranhava a pele. O cenário conhecido é o de um afinado processo de despolitização e de desmobilização na batalha por uma real mudança social que amortecem e tendem a anular.
Maio 68, recusando participar na construção dos alicerces em que se fundam as revoluções, é a fascinante festa bem expressa nas imaginativas palavras de ordem que excitam a criatividade e ocultam com fina casca colorida e luminescente o enorme vazio que o corroía por dentro.
«Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê», é provavelmente a chave da «Imaginação ao Poder». São palavras de ordem para todos os gostos, abrangem todas as áreas «Debaixo dos empedrados, a praia»; «É proibido Proibir»; «Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo»; «Amem-se uns aos outros»; «A anarquia sou eu»; «A arte está morta, libertemos a nossa vida»; «Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês»; «A cultura é a inversão da vida»; «Dez horas de prazer já»; «A economia está ferida, pois que morra!»; «Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século»; «Não se chateiem, chateiem os outros»; «A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista»; «A liberdade do outro estende a minha ao infinito»; «A arte está morta, não consumamos o seu cadáver»;«O estado é cada um de nós»; «Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor»; «Os sindicatos são uns bordéis»; «Não nos prendamos ao espectáculo da contestação, passemos à contestação do espectáculo»; «Autogestão da vida quotidiana»; «A felicidade é uma ideia nova»; «Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu»; «A Revolução tem deixar de ser, para existir»; «Tudo é Dadá».
São mais versos de um Cadavre Exquis surrealista do que palavras de ordem de um programa político. Como o programa político não existia ficam essas palavras, a sua carga poética, o seu vazio revolucionário em negação de outra frase recuperada de Saint-Just pintada nas paredes da Sorbonne: «Uma Revolução que não vai até ao fim cava o seu túmulo».
Não havendo programa, por esta pequena selecção se vê como há uma ideia subjacente de desenquadramento político. A tónica centra-se no espectacular e na personalização em que «os confrontos duros entre o verdadeiro e o falso, do belo e do feio, do real e da ilusão, do sentido e do não sentido, esbatem-se, os antagonismos tornam-se flutuantes» (Giles Lipovetsky)7.
Nesse caldo de cultura, em que o hedonismo e a indiferença triunfam, narciso caminha para a era do vazio. Era do vazio em que se vive «a tensão lucidamente autodestrutiva da desesperada vitalidade», como dirá um dos seus epígonos, aduzindo «que a actual lógica de uma possível resistência abandona as ideias modernas de racionalidade global da vida social e pessoal para a desintegrar numa unidade de mini-racionalidades ao serviço de uma inabarcável e incontrolável irracionalidade, reinventando-as de modo a que elas deixem de ser partes do todo e passem a ser totalidades em múltiplas partes», o que logicamente encerra a resistência a esta sociedade, em qualquer uma das formas em que se manifeste e como se manifeste, num casulo onde se debate e agoniza condenada à danação do fracasso.
Essa «reinvenção de mini-racionalidades» acaba por ser um exercício de pacificação do estado de sítio «da global inabarcável e incontrolável irracionalidade», ritualizando uma suposta resistência em artifícios de sobrevivência em que o único objectivo é ser absolutamente o que se é, mesmo quando não se é nada se a esse nada se consegue colar um código de barras que passe nas caixas registadoras dos supermercados da política, da economia, das artes.
É um corte epistemológico, o dobrar a esquina da história em que «a 'dissolução' da história, nos vários sentidos que se podem atribuir a essa expressão, é, de resto, provavelmente, a característica que distingue do modo mais claro a história contemporânea da história 'moderna'» (Gianni Vattimo)8.
É o caldo da cultura do simulacro e da simulação, uma imagem feita de muitas imagens. Um poderoso holograma que se assume como nova realidade em que a vida é controlada por uma estetização descontrolada.
«Tudo se estetiza a si mesmo a política se estetiza em espectáculo, o sexo em publicidade e pornografia, e toda a gama de actividades se transforma em algo chamado «cultura», o que é completamente diferente de arte; esta «cultura» invade todos os campos através da publicidade e da semiologização dos médios» (Jean Braudillard)9.
A contaminação é viral. Perdem-se e deixam de haver pontos de referência. Em todos os campos desaparecem os parâmetros para se fazerem juízos de valor. Os juízos políticos, éticos, estéticos forjam-se no excesso até se banalizarem sem redenção.
Os situacionistas e a Internacional Situacionista, que tem em Guy Debord e Raoul Vaneigem10 os principais pensadores que organizam o seu corpo teórico, irá encontrar em Maio 68 a expressão das suas teorias, preconizando o irresolúvel paradoxo de uma «sociedade revolucionária» incorporar as tendências positivas do desenvolvimento capitalista deixando intocada a exploração desenfreada que o sustenta e sem nunca se definirem os crivos que fazem a avaliação das tendências positivas.
Para eles, a situação revolucionária seria resolvida com a organização autogestionária das forças produtivas sem alterar as relações de produção. Uma situação insólita em que se enredam manipulando um cubo de Rubik à procura de soluções, como se o fundamental não fosse destruir o cubo.
Maio 68 é uma situação pós-revolucionária que se dissipou quase tão rapidamente quanto havia surgido, numa sucessão de momentos simbólicos que rapidamente se evaporaram.
Deixou um rasto de sedutoras frases-chave, uma poeira de estrelas por onde hoje se continua a navegar. Sem ser de facto uma Revolução e por até esvaziar o sentido de Revolução, teve uma repercussão imensa nos tempos seguintes, apesar do seu funcionamento bipolar.
Por um lado, desvaloriza e secundariza as lutas operárias e procura socavar o trabalho político dos partidos revolucionários, por outro, atira pedras às caras do poder que acabam por promover uma profunda alteração no modo de estar no mundo.
Uma das faces dessa moeda, a mais visível e persistente, foi a festa que ocupou as ruas, os grafitis, as discussões sem fim, as barricadas, as ocupações selvagens, a poética das palavras de ordem.
Um movimento de resistência ao deserto urbano em que se ocultava a sua outra face: a deserção e a indiferença que sobrevoavam e continuam a sobrevoar o mundo contemporâneo. É «a revolução sem finalidade, sem programa, sem vítimas nem traidores, sem enquadramento político». (Giles Lipovetsky).
A política tornou-se espectáculo. Destruíram-se convenções rígidas substituindo-as por outras convenções onde se firmam o feroz individualismo, a esteticização da vida, a cultura hedonista.
Maio 68 revelou com grande clareza um mundo tornado demasiado ligeiro, demasiado absurdo. Uma das suas palavras de ordem «Cada Vez é Nenhuma Vez» sintetiza-o de forma transparente. Nada se repete, tudo é meramente casual e por isso inenarrável.
Os situacionistas, o núcleo político mais sólido de Maio 68, teorizaram sobre a sociedade do espectáculo na política e na vida, verificando «a generalização da sedução em que o espectáculo é a ocupação da parte principal do tempo vivido no exterior da produção moderna» (Guy Debord).
Seduzir, introduzir o jogo das aparências na realidade, fazer das simulações e dos simulacros o centro da actividade política e social, temas sobre que Braudillard se debruçou extensamente, culminam na aceitação da mistificação e da alienação enquanto normalidades no quadro da vida pós-moderna.
A ideologia dilui-se, os partidos transformam-se em máquinas eleitorais ao serviço dos poderes económico-financeiros dominantes que lhes dão apoio variável em linha com os benefícios que lhes são concedidos, desertando mesmo da ideia da democracia como território da luta de classes pacífica, preconizada pelos primeiros sociais-democratas.
A luta por mudanças sociais fragmenta-se em lutas por alterações de atitudes sociais, o que acaba por paradoxalmente desgastar a ideia de revolução. Tudo acaba por aparentemente desaguar num mundo de uma sociedade de abundância e consumo, a bête-noir que Maio 68 contesta violentamente nas ruas mas ama secretamente nas suas alcovas subterrâneas pelo que, passado o incêndio e feito o rescaldo, muito mudou para nada mudar.
O Príncipe de Salinas continuava vivo e aspira à eternidade, os seus salões continuam muito frequentados por esgrimistas de floretes embotados. Alcançada a paz pantanosa, mesmo que seja invadida por pontuais sobressaltos, o clube dos ricos continua a prosperar, é cada vez mais restrito e enriquece a velocidades inimagináveis, os pobres são cada vez mais e estão cada vez mais pobres, a proletarização estende-se a todas as áreas da actividade produtiva mesmo que esses novos proletários não se reconheçam como proletários.
Um cenário complexo de luta e de lutas sempre ameaçadas pelos labirintos em que os minotauros se multiplicam e estão atentos para as desengatilhar.
Em Maio 68 tornam-se mais visíveis os fios ideológicos porque se tece o pós-modernismo onde a recusa de narração dos factos passa a ser assumida como recusa da realidade em si, a desconstrução como a destruição de uma actividade política, artística, literária, filosófica, historiográfica activas, o ser individual como um ser livre e semelhante aos outros, para se transitar para uma actividade política, artística, literária, filosófica e historiográfica enquanto experiência de negatividades, ausências, obsolescências e o ser individual ficar aprisionado pelo querer ser diferente o que o torna uma figura mais adjectiva que substantiva.
A realidade deixou de ser um sistema operativo onde se actua para a transformar, no limite revolucionar, para se assumir como um território de uma hiper-realidade onde só as errâncias são possíveis sem dia seguinte.
«Maio 68 foi um grande teatro de rua, com a administração em espectral ausência à espera que aquilo passasse», declara Alain Tanner a propósito do seu filme Jonas terá 25 anos no ano 2000, sobre as pessoas que viveram aqueles dias e que a seguir foram rejeitadas pela história por causa do seu insucesso, «o que importa, mais que os acontecimentos foi esse teatro colocar em cena as esperanças e os desejos ocultados, que continuaram a emergir à superfície».
Revisitar Maio 68 e os seus fantasmas, vestindo-os com roupas mais em dia, é muito útil em momentos de crise, como as que actualmente se vivem, para desarmar a ideia de revolução.
Não é um acaso Guy Debord, o maior teórico da Internacional Situacionista, o teórico da sociedade do espectáculo, ter sido, em 2013, objecto de uma grande exposição na Biblioteca Nacional de Paris, que lhe adquiriu os arquivos, classificando-os como tesouro nacional. Hoje em dia não há, da direita à esquerda, político ou pensador que se preze que não cite Debord por tudo e por nada.
O que não quer dizer que o tenham lido, nem quer dizer que não se deva ler a sua obra com tudo o que nela se aprende, mas quer dizer que Guy Debord, como Maio 68 foram recuperados por esta sociedade que tão tão radicalmente pareciam contestar e que, ironicamente, os integrou no seu circo mediático. Um destino que não lhes causará grandes incómodos nem muito desagrado.
A forma como o poder e as forças que o suportam, estando ou não no seu exercício, olharam para Maio 68 foi clara e cinicamente expressa por André Malraux – um intelectual de esquerda que aceitou ser ministro da Cultura de De Gaulle, que no seu consulado provocou imensa indignação na intelectualidade francesa quando, em 1966, proibiu a representação de La Religieuse de Diderot.
Protestos mais violentos houve em Fevereiro de 68, quando demite Henri Langlois, um dos mentores da Nouvelle Vague, da presidência da Cinemateca Francesa, alegando problemas de gestão, quando o verdadeiro motivo era Langlois se ter recusado a censurar cenas do filme de Truffaut, Beijos Proibidos – numa entrevista ao Der Spiegel em Outubro de 1968: «no que respeita aos estudantes divertiu-me o laivo surrealista do movimento. Mas nem por um segundo levei aquilo a sério (…) a imaginação ao poder é, sem dúvida, um gracejo.»
Revisitar Maio 68 é também verificar que mais que uma revolução política, que nunca foi, foi uma revolução cultural que provocou grandes mudanças nas atitudes sociais.
Maio 68 mudou o mundo sem o fazer saltar dos eixos, sem o descentrar das suas rotações e translações que se mantiveram íntegras, apesar dos muitos episódios que pouco as aceleraram e muito as desaceleraram até aos tempos de regressão política, económica e social que hoje se vivem.
Tem um legado que persiste e é importante, que deve ser limpo das ilusões e das boas intenções que plantou, das muitas tergiversações que produziu, dos bochornosos contubérnios em que se envolveu.
Ensinou, como talvez nunca se tenha verificado com tanta clareza em séculos de história, que o capital sabe desarmar e reduzir o impacto das lutas políticas, que as mistifica para tirar proveitos cercando as forças que de facto o ameaçam, que nunca hesita no uso de todas as armas dos seus arsenais, dos das armas aos comunicacionais, não recuando das mais violentas e bárbaras repressões às mais subtis e suaves persuasões, com a despolitização na linha da frente.
Celebre-se Maio 68 com uma palavra de ordem que nunca foi dita nem grafitada, mas foi cantada por Leo Ferré em Il n’y a Plus Rien: A desordem é a ordem sem o poder. Talvez a melhor consigna de Maio 68 e das suas incandescentes cinzas.
Era o culminar de lutas operárias que se tinham intensificado desde os princípios dos anos 60, com lutas enquadradas, algumas desenquadradas, pelas estruturas sindicais, e das lutas estudantis desse ano.
Estudantes e operários confluíram nesse dia numa batalha contra o poder gaulista, corporizado por um general reaccionário que até aí tinha a maior oposição em Miterrand, um político oportunista.
Maio 68 destrói o jogo de xadrez em que esses dois filibusteiros se enfrentavam. Destrói o jogo mas não destrói o tabuleiro. O jogo irá continuar com outros gambitos e, como os lances imediatos e os seguintes a curto e médio prazo mostraram, são eles que acabam por sair triunfantes.
Triunfo no quadro político e comunicacional que também é verificável nos percursos dos principais intervenientes no Maio 68. Uma das ilustrações da imagem desse triunfo, é ler na M Magazine du Monde (revista do Le Monde de 6 de Janeiro) que Daniel Cohn-Bendit e Romain Goupil estão a fazer um filme para a televisão comemorativo dos 50 anos de Maio 68.
Dois soixante-huitards, dois destacados lideres estudantis, um anarquista o outro trotskista. Cohn-Bendit, que mediaticamente se tornou na cara de Maio 68, a partir da década de 70 aproximou-se dos Verdes alemães, foi eleito em 1994 deputado europeu e co-presidente do grupo parlamentar Verde no Parlamento Europeu, que abandonou em 2014 com um discurso inflamado a favor do federalismo.
Romain Goupil é um cineasta que rapidamente evoluiu para posições da direita. Ambos foram apoiantes de Macron, esse meteorito fabricado pelos media, um reaccionário que se apresentou ao eleitorado acima dos partidos tradicionais afirmando o propósito de reformar a política, uma linguagem recorrente de direita que muito seduz os chamados independentes e também muito tem seduzido algumas esquerdas.
É um percurso de distanciação a quaisquer resquícios revolucionários que já tinha sido trilhado por outros distintos dirigentes estudantis como Alain Glucksman, Bernard Henry-Levy, Guy Lardeau, Christian Jambert, Jean Paul Dulié, que formaram a corrente dos Novos Filósofos que desenvolveram e desenvolvem as teorias mais conservadoras, nos antípodas do que defendiam em Maio 68.
São convictamente atlantistas, violentamente críticos da «abominação do colonialismo do homem branco», defensores do capitalismo em todas as suas formas, atacam o multiculturalismo que consideram ser «o racismo dos anti-racistas».
Raros são os que, como Alain Krivine e Alain Cyroulnik, continuaram fiéis aos ideais trotskistas que perfilharam na juventude. É o que significativamente sobra da poeira de estrelas do Maio 68. Não é um acaso comemorar-se Maio 68 com saudosismos serôdios e manipulações da história, nem é um acaso a involução dos seus líderes se atentarmos nas teorias da Internacional Situacionista (IS), a sua base teórica e ideológica, onde pontificavam Guy Debord1.
No primeiro número da revista da IS (Junho 1958) apregoam ser preciso mudar o mundo. Já a razão era «para não se entediar (…) o tédio é uma realidade vulgar dos jovens enraivecidos e pouco informados e essa rebelião de adolescentes, instalados confortavelmente na vida, não tem perspectivas e está bem distante de ser uma causa. Os situacionistas fazem o julgamento dos tempos livres e sentenciam-nos» considerando que «a política constitui uma alienação comparável à da arte».
A IS move-se num mar encapelado de contradições que acabam por contaminar Maio 68. Afirmam que «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes activos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (...) «com novas formas de acção contra a política e a arte».
Dizem querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau» considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução.
Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lénine recorre para em Que Fazer?2 combater as ilusões originadas por essa convicção sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.
Interessante são as recorrentes referências da IS à arte, colocada em paralelo e no mesmo plano da política. Interessante mas não inesperado. A IS deriva da Internacional Letrista (IL), fundada em 1952 por um grupo de jovens artistas de vanguarda, onde já se encontra Guy Debord, que em 1957 se refunda na IS, onde se associam à IL o Movimento para uma Bauhaus Imaginista, o grupo Cobra e a London Psychogeographical Association.
Nas fundações desse edifício teórico estão, entre outras, as ideias de Isidore Isou: «A evolução social não é o instinto de sobreviver mas a vontade de criar (...) a criação é a mais alta forma de actividade humana e a arte a forma mais alta de criação, e a poesia a mais alta forma de arte».
E, sobretudo, as de Chtcheglov que em Formulário para um Novo Urbanismo declara: «Estamos entediados na cidade, não há mais o Templo do Sol. Entre as pernas das mulheres que passavam, os dadaístas imaginaram uma chave de macaco e os surrealistas uma taça de cristal. Está tudo perdido. Sabemos como ler todas as promessas nos rostos – o último estágio da morfologia. A poesia dos outdoors durou vinte anos. Nós estamos entediados na cidade, nós realmente temos que nos esforçar para ainda descobrir mistérios sob os empedrados, o mais recente estado de humor e poesia».
É o urbanismo utópico de Chtcheglov que projecta uma «capital intelectual do mundo», uma espécie de Las Vegas fouriérista enxertada numa Disneylândia surrealista, onde a razão de viver se descobria vagueando pelos seus bairros e jardins, os «diversos sentimentos catalogáveis que se encontram nos acasos da vida corrente» e em que a principal actividade dos seus habitantes seria «a permanente deriva».
De modo oblíquo, o urbanismo utópico de Chtcheglov, pela mão dos situacionistas, irrompe em Maio 68. «Debaixo dos Empedrados a Praia», «A nossa esperança só pode vir dos desesperados»; Decreto o Estado de Felicidade Permanente»; «Vivam sem tempos mortos», «A vida está alhures» palavras de ordem que poderiam ter sido escritas por Chtcheglov por desejar resgatar a vida com a poesia tinha que estar na rua, como cantará Leo Ferré a celebrar Maio 68.
Essas ideias já tinham sido antecipadas por Walter Mehring um dadaísta que, em Berlim 1919, proclama em ??? O que é Dadayama??? dadayma faz / ferver o sangue / e a alma do povo / na panela onde se fundem / --um pouco de corrida— um pouco / de assembleia nacional-- / um pouco de Frente Vermelha / metade prateada / metade aço / mais a mais-valia /------= a vida quotidiana.
São as minas Dada espalhadas nos campos da política e da arte que irão rebentar na IL, um grupo de jovens artistas e intelectuais que durante meia dúzia de anos se juntaram procurando nos seus divertimentos encontrar um modo de mudar o mundo.
Se na época passaram quase incógnitos, tornaram-se conhecidos quando fecharam a IL para fundar com outros a Internacional Situacionista 3.
Serão os Lost Prophets de John Berger4, «o programa (ou anti-programa) dos situacionistas será provavelmente reconhecido como uma das formulações puramente políticas mais lúcidas destes últimos decénios da história, reflectindo de forma extrema a força do seu desespero e das suas privilegiadas fraquezas».
O tédio é para os situacionistas a patologia social. A alienação e a ideologia, a hierarquia e a burocracia são, para eles, a estrutura do mundo. Consideram que todas as ideologias são uma alienação por isso definem posições, não uma ideologia.
Uma negação que acaba por ser uma afirmação, à semelhança da ideologia burguesa que se recusa com contumácia a assumir enquanto ideologia. Fazem essas denúncias, proclamando provocatoriamente que «não há situacionismo», enquanto se apresentam como revolucionários unicamente interessados nas liberdades.
Liberdades que significam o direito de fazer tudo e mais alguma coisa com as consequências que isso implica, num turbilhão que desconhece fronteiras. São princípios devedores do dadaísmo com as suas extravagâncias, cruezas e barbarismos que tornam impossível a meditação contemplativa.
«À meditação que se tornou, no processo de degeneração da burguesia, uma escola de comportamento associal, contrapõe-se a distracção como uma forma especial de comportamento social. De facto as manifestações dadaístas asseguravam uma extrema distracção na medida em que faziam da obra de arte o centro de um escândalo. Ela tinha de satisfazer sobretudo uma exigência muito concreta: causar indignação pública» (Walter Benjamin)5.«Esquecem ou não sabem reconhecer os dadaístas que a burguesia entediada com o seu próprio tédio já não se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.»
Esquecem ou não sabem reconhecer os dadaístas que a burguesia entediada com o seu próprio tédio já não se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.
Os antecedentes históricos dos activistas da IS encontram-se na Alemanha que no rescaldo da I Guerra Mundial, na Primavera e no Verão de 1918, está em profunda crise. Os movimentos populares forçam a abdicação do imperador Guilherme, todas as esperanças são possíveis antes de serem defraudadas pelo governo do social-democrata de Friedrich Ebert que recuou em todos os campos políticos, sociais e económicos; de o levantamento espartaquista que lhes queria dar continuidade ser liquidado; de Karl Lieknecht e Rosa Luxemburgo serem assassinados.
No Clube Dada de Berlim, Grozs, Walter Mehring, Johannes Baader, John Heartfield, Raoul Hausmann saúdam entusiasticamente os tumultos, «o mundo dadaísta pode ser instantaneamente realizado». Cantam canções e recitam poemas incompreensíveis, aclamam sobre esse barulho de fundo o espontaneismo das massas que, segundo eles, dissolve as ideologias de esquerda e de direita.
Nesse clube renovam-se as consignas do Cabaret Voltaire de Zurique, fundado por Hugo Ball e Emmy Hennings, em que participam Marcel Janco, Richard Huelsenbeck, Tristan Tzara, Sofia Taueber-Arp e Jean Arp, fundadores de Dada, um movimento artístico anárquico, com objectivos artísticos e políticos cujos ecos, flutuando com os ventos da história, continuam a fazer-se ouvir nos nossos tempos, ainda recentemente foram a adubo do movimento punk.
«A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa» escreveu Karl Marx no 18 de Brumário de Louis Bonaparte6. «A história não se repete, mas por vezes pode rimar», dirá Mark Twain que acreditava que nenhuma ocorrência histórica era solitária, mas uma eterna repetição de algo que já aconteceu noutro contexto, com outra forma, espoletada por outras razões.
Pensa Mark Twain e os situacionistas também o pensam pelo que, mudando o enfoque dos dadaístas mas usando a mesma lente, entendem que podem e devem fazer uma transformação espectacular de todas as coisas e também do seu contrário, usando «a coerência reversível do mundo moderno».
O impulso revolucionário é desviado para o território do espectáculo, a vida social como simbolismo. Os mitos dadaístas e anarquistas na política e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.
As suas teorias, que tinham bastante curso nos meios universitários alemães e franceses, expandem-se ainda mais aceleradamente quando um grupo de estudantes da Universidade de Estrasburgo faz uma edição de milhares de exemplares do panfleto da IS «A Miséria do Meio Estudantil», que terá profunda influência nas correntes de esquerda, sobretudo nas anarquistas e trotskistas, em que os comunistas, rotulados de tradicionais e burocratas, eram tão atacados como sempre o foram pelas direitas.
Maio 68 é a não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas importantes para mudanças na evolução das sociedades, mas que deixam intocadas as suas fundações.
Maio 68 é o momento nuclear desse processo. Uma revolução sem programa político, uma revolução sem revolucionários que faz um sobre investimento no existencial.
Faz isso enquanto abre o caminho para processos ousados que introduzem novas formas de luta na longa luta das mulheres, na nova luta pelos direitos dos homossexuais e, de forma embrionária, nas lutas ecológicas. Abrirá o caminho para novas frentes, a interrupção voluntária da gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc.
Faz isso mas também um desinvestimento em identidades instituídas o que produz uma paisagem aleatória em que se interroga o significado do que é político. As frentes de luta abertas por Maio 68, que se assumem como fracturantes, mesmo quando centrais de uma alteração de atitude social, não são mudança social, nem estão realmente empenhadas em transformações sociais radicais.
Quando proclamavam que iam mudar a sociedade logo se desmentiam com um desinteresse quase enfastiado pelas estruturas económicas e do Estado, embrulhado numa gritaria altissonante que mal lhe arranhava a pele. O cenário conhecido é o de um afinado processo de despolitização e de desmobilização na batalha por uma real mudança social que amortecem e tendem a anular.
Maio 68, recusando participar na construção dos alicerces em que se fundam as revoluções, é a fascinante festa bem expressa nas imaginativas palavras de ordem que excitam a criatividade e ocultam com fina casca colorida e luminescente o enorme vazio que o corroía por dentro.
«Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê», é provavelmente a chave da «Imaginação ao Poder». São palavras de ordem para todos os gostos, abrangem todas as áreas «Debaixo dos empedrados, a praia»; «É proibido Proibir»; «Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo»; «Amem-se uns aos outros»; «A anarquia sou eu»; «A arte está morta, libertemos a nossa vida»; «Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês»; «A cultura é a inversão da vida»; «Dez horas de prazer já»; «A economia está ferida, pois que morra!»; «Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século»; «Não se chateiem, chateiem os outros»; «A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista»; «A liberdade do outro estende a minha ao infinito»; «A arte está morta, não consumamos o seu cadáver»;«O estado é cada um de nós»; «Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor»; «Os sindicatos são uns bordéis»; «Não nos prendamos ao espectáculo da contestação, passemos à contestação do espectáculo»; «Autogestão da vida quotidiana»; «A felicidade é uma ideia nova»; «Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu»; «A Revolução tem deixar de ser, para existir»; «Tudo é Dadá».
São mais versos de um Cadavre Exquis surrealista do que palavras de ordem de um programa político. Como o programa político não existia ficam essas palavras, a sua carga poética, o seu vazio revolucionário em negação de outra frase recuperada de Saint-Just pintada nas paredes da Sorbonne: «Uma Revolução que não vai até ao fim cava o seu túmulo».
Não havendo programa, por esta pequena selecção se vê como há uma ideia subjacente de desenquadramento político. A tónica centra-se no espectacular e na personalização em que «os confrontos duros entre o verdadeiro e o falso, do belo e do feio, do real e da ilusão, do sentido e do não sentido, esbatem-se, os antagonismos tornam-se flutuantes» (Giles Lipovetsky)7.
Nesse caldo de cultura, em que o hedonismo e a indiferença triunfam, narciso caminha para a era do vazio. Era do vazio em que se vive «a tensão lucidamente autodestrutiva da desesperada vitalidade», como dirá um dos seus epígonos, aduzindo «que a actual lógica de uma possível resistência abandona as ideias modernas de racionalidade global da vida social e pessoal para a desintegrar numa unidade de mini-racionalidades ao serviço de uma inabarcável e incontrolável irracionalidade, reinventando-as de modo a que elas deixem de ser partes do todo e passem a ser totalidades em múltiplas partes», o que logicamente encerra a resistência a esta sociedade, em qualquer uma das formas em que se manifeste e como se manifeste, num casulo onde se debate e agoniza condenada à danação do fracasso.
Essa «reinvenção de mini-racionalidades» acaba por ser um exercício de pacificação do estado de sítio «da global inabarcável e incontrolável irracionalidade», ritualizando uma suposta resistência em artifícios de sobrevivência em que o único objectivo é ser absolutamente o que se é, mesmo quando não se é nada se a esse nada se consegue colar um código de barras que passe nas caixas registadoras dos supermercados da política, da economia, das artes.
É um corte epistemológico, o dobrar a esquina da história em que «a 'dissolução' da história, nos vários sentidos que se podem atribuir a essa expressão, é, de resto, provavelmente, a característica que distingue do modo mais claro a história contemporânea da história 'moderna'» (Gianni Vattimo)8.
É o caldo da cultura do simulacro e da simulação, uma imagem feita de muitas imagens. Um poderoso holograma que se assume como nova realidade em que a vida é controlada por uma estetização descontrolada.
«Tudo se estetiza a si mesmo a política se estetiza em espectáculo, o sexo em publicidade e pornografia, e toda a gama de actividades se transforma em algo chamado «cultura», o que é completamente diferente de arte; esta «cultura» invade todos os campos através da publicidade e da semiologização dos médios» (Jean Braudillard)9.
A contaminação é viral. Perdem-se e deixam de haver pontos de referência. Em todos os campos desaparecem os parâmetros para se fazerem juízos de valor. Os juízos políticos, éticos, estéticos forjam-se no excesso até se banalizarem sem redenção.
Os situacionistas e a Internacional Situacionista, que tem em Guy Debord e Raoul Vaneigem10 os principais pensadores que organizam o seu corpo teórico, irá encontrar em Maio 68 a expressão das suas teorias, preconizando o irresolúvel paradoxo de uma «sociedade revolucionária» incorporar as tendências positivas do desenvolvimento capitalista deixando intocada a exploração desenfreada que o sustenta e sem nunca se definirem os crivos que fazem a avaliação das tendências positivas.
Para eles, a situação revolucionária seria resolvida com a organização autogestionária das forças produtivas sem alterar as relações de produção. Uma situação insólita em que se enredam manipulando um cubo de Rubik à procura de soluções, como se o fundamental não fosse destruir o cubo.
Maio 68 é a revolução sem revolução nem revolucionários. Um tumulto de contradições que tem vida curta. A IS nasce em 1967 extingue-se em 1972, marcada por inúmeras deserções e expulsões. Anselm Jappe, o último teórico e estudioso do Situacionismo, na continuidade de Debord, persiste em defender o legado desse movimento que, na sua opinião, instalou uma conspiração permanente contra o mundo mesmo admitindo que essa conspiração está estandardizada, foi absorvida pelo capitalismo.«Maio 68 é a revolução sem revolução nem revolucionários. Um tumulto de contradições que tem vida curta.»
Maio 68 é uma situação pós-revolucionária que se dissipou quase tão rapidamente quanto havia surgido, numa sucessão de momentos simbólicos que rapidamente se evaporaram.
Deixou um rasto de sedutoras frases-chave, uma poeira de estrelas por onde hoje se continua a navegar. Sem ser de facto uma Revolução e por até esvaziar o sentido de Revolução, teve uma repercussão imensa nos tempos seguintes, apesar do seu funcionamento bipolar.
Por um lado, desvaloriza e secundariza as lutas operárias e procura socavar o trabalho político dos partidos revolucionários, por outro, atira pedras às caras do poder que acabam por promover uma profunda alteração no modo de estar no mundo.
Uma das faces dessa moeda, a mais visível e persistente, foi a festa que ocupou as ruas, os grafitis, as discussões sem fim, as barricadas, as ocupações selvagens, a poética das palavras de ordem.
Um movimento de resistência ao deserto urbano em que se ocultava a sua outra face: a deserção e a indiferença que sobrevoavam e continuam a sobrevoar o mundo contemporâneo. É «a revolução sem finalidade, sem programa, sem vítimas nem traidores, sem enquadramento político». (Giles Lipovetsky).
A política tornou-se espectáculo. Destruíram-se convenções rígidas substituindo-as por outras convenções onde se firmam o feroz individualismo, a esteticização da vida, a cultura hedonista.
Maio 68 revelou com grande clareza um mundo tornado demasiado ligeiro, demasiado absurdo. Uma das suas palavras de ordem «Cada Vez é Nenhuma Vez» sintetiza-o de forma transparente. Nada se repete, tudo é meramente casual e por isso inenarrável.
Os situacionistas, o núcleo político mais sólido de Maio 68, teorizaram sobre a sociedade do espectáculo na política e na vida, verificando «a generalização da sedução em que o espectáculo é a ocupação da parte principal do tempo vivido no exterior da produção moderna» (Guy Debord).
Seduzir, introduzir o jogo das aparências na realidade, fazer das simulações e dos simulacros o centro da actividade política e social, temas sobre que Braudillard se debruçou extensamente, culminam na aceitação da mistificação e da alienação enquanto normalidades no quadro da vida pós-moderna.
A ideologia dilui-se, os partidos transformam-se em máquinas eleitorais ao serviço dos poderes económico-financeiros dominantes que lhes dão apoio variável em linha com os benefícios que lhes são concedidos, desertando mesmo da ideia da democracia como território da luta de classes pacífica, preconizada pelos primeiros sociais-democratas.
A luta por mudanças sociais fragmenta-se em lutas por alterações de atitudes sociais, o que acaba por paradoxalmente desgastar a ideia de revolução. Tudo acaba por aparentemente desaguar num mundo de uma sociedade de abundância e consumo, a bête-noir que Maio 68 contesta violentamente nas ruas mas ama secretamente nas suas alcovas subterrâneas pelo que, passado o incêndio e feito o rescaldo, muito mudou para nada mudar.
O Príncipe de Salinas continuava vivo e aspira à eternidade, os seus salões continuam muito frequentados por esgrimistas de floretes embotados. Alcançada a paz pantanosa, mesmo que seja invadida por pontuais sobressaltos, o clube dos ricos continua a prosperar, é cada vez mais restrito e enriquece a velocidades inimagináveis, os pobres são cada vez mais e estão cada vez mais pobres, a proletarização estende-se a todas as áreas da actividade produtiva mesmo que esses novos proletários não se reconheçam como proletários.
Um cenário complexo de luta e de lutas sempre ameaçadas pelos labirintos em que os minotauros se multiplicam e estão atentos para as desengatilhar.
Em Maio 68 tornam-se mais visíveis os fios ideológicos porque se tece o pós-modernismo onde a recusa de narração dos factos passa a ser assumida como recusa da realidade em si, a desconstrução como a destruição de uma actividade política, artística, literária, filosófica, historiográfica activas, o ser individual como um ser livre e semelhante aos outros, para se transitar para uma actividade política, artística, literária, filosófica e historiográfica enquanto experiência de negatividades, ausências, obsolescências e o ser individual ficar aprisionado pelo querer ser diferente o que o torna uma figura mais adjectiva que substantiva.
A realidade deixou de ser um sistema operativo onde se actua para a transformar, no limite revolucionar, para se assumir como um território de uma hiper-realidade onde só as errâncias são possíveis sem dia seguinte.
«Maio 68 foi um grande teatro de rua, com a administração em espectral ausência à espera que aquilo passasse», declara Alain Tanner a propósito do seu filme Jonas terá 25 anos no ano 2000, sobre as pessoas que viveram aqueles dias e que a seguir foram rejeitadas pela história por causa do seu insucesso, «o que importa, mais que os acontecimentos foi esse teatro colocar em cena as esperanças e os desejos ocultados, que continuaram a emergir à superfície».
Revisitar Maio 68 e os seus fantasmas, vestindo-os com roupas mais em dia, é muito útil em momentos de crise, como as que actualmente se vivem, para desarmar a ideia de revolução.
Não é um acaso Guy Debord, o maior teórico da Internacional Situacionista, o teórico da sociedade do espectáculo, ter sido, em 2013, objecto de uma grande exposição na Biblioteca Nacional de Paris, que lhe adquiriu os arquivos, classificando-os como tesouro nacional. Hoje em dia não há, da direita à esquerda, político ou pensador que se preze que não cite Debord por tudo e por nada.
O que não quer dizer que o tenham lido, nem quer dizer que não se deva ler a sua obra com tudo o que nela se aprende, mas quer dizer que Guy Debord, como Maio 68 foram recuperados por esta sociedade que tão tão radicalmente pareciam contestar e que, ironicamente, os integrou no seu circo mediático. Um destino que não lhes causará grandes incómodos nem muito desagrado.
A forma como o poder e as forças que o suportam, estando ou não no seu exercício, olharam para Maio 68 foi clara e cinicamente expressa por André Malraux – um intelectual de esquerda que aceitou ser ministro da Cultura de De Gaulle, que no seu consulado provocou imensa indignação na intelectualidade francesa quando, em 1966, proibiu a representação de La Religieuse de Diderot.
Protestos mais violentos houve em Fevereiro de 68, quando demite Henri Langlois, um dos mentores da Nouvelle Vague, da presidência da Cinemateca Francesa, alegando problemas de gestão, quando o verdadeiro motivo era Langlois se ter recusado a censurar cenas do filme de Truffaut, Beijos Proibidos – numa entrevista ao Der Spiegel em Outubro de 1968: «no que respeita aos estudantes divertiu-me o laivo surrealista do movimento. Mas nem por um segundo levei aquilo a sério (…) a imaginação ao poder é, sem dúvida, um gracejo.»
Revisitar Maio 68 é também verificar que mais que uma revolução política, que nunca foi, foi uma revolução cultural que provocou grandes mudanças nas atitudes sociais.
Maio 68 mudou o mundo sem o fazer saltar dos eixos, sem o descentrar das suas rotações e translações que se mantiveram íntegras, apesar dos muitos episódios que pouco as aceleraram e muito as desaceleraram até aos tempos de regressão política, económica e social que hoje se vivem.
Tem um legado que persiste e é importante, que deve ser limpo das ilusões e das boas intenções que plantou, das muitas tergiversações que produziu, dos bochornosos contubérnios em que se envolveu.
Ensinou, como talvez nunca se tenha verificado com tanta clareza em séculos de história, que o capital sabe desarmar e reduzir o impacto das lutas políticas, que as mistifica para tirar proveitos cercando as forças que de facto o ameaçam, que nunca hesita no uso de todas as armas dos seus arsenais, dos das armas aos comunicacionais, não recuando das mais violentas e bárbaras repressões às mais subtis e suaves persuasões, com a despolitização na linha da frente.
Celebre-se Maio 68 com uma palavra de ordem que nunca foi dita nem grafitada, mas foi cantada por Leo Ferré em Il n’y a Plus Rien: A desordem é a ordem sem o poder. Talvez a melhor consigna de Maio 68 e das suas incandescentes cinzas.
- 1. Debord, Guy – A Sociedade do Espectáculo, Antígona -Editores Refractários,2002; Commentaires sur la Societé du Spetacle, Gallimard, 1992
- 2. Lénine – Que fazer?, Edições Avante!, 2017
- 3. Internacional Situacionista – Antologia, Antígona-Editores Refractários,1997; Formulaire pour un Urbanisme Nouveau, Ivan Chtcheglov (pseudónimo Gilles Ivan) in International Situacioniste n.º1, Junho 1958
- 4. Berger, John - Lost Prophets, in Leaving the 20th Century, editado por Christopher Ray, New Society 6, Março 1975
- 5. Benjamin, Walter – A Obra de Arte na Época da sua Possibilidade de Reprodução Técnica (3.ª versão) in A Modernidade/Assírio&Alvim, 2006)
- 6. Marx, Karl – O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, Edições Avante! 2018
- 7. Lipovetsky, Gilles – A Era do Vazio, Edições 70, 1983
- 8. Vattimo, Gianni – O Fim da Modernidade, Editorial Presença, 1987
- 9. Braudillard, Jean – Simulacros e Simulação, Relógio d’Água, 1991
- 10. Vaneigem, Raoul – Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano, Antígona-Editores Refractários,2003
https://www.abrilabril.pt/internacional/maio-68-nao-revolucao
**
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Maio de 68
A Universidade de Nanterre fora criada em 1965 para acolher os estudantes que, por várias razões, não haviam entrado nas escolas superiores tradicionais Em 23 de Março de 1968, descontentes com a disciplina rígida, os currículos escolares e a estrutura académica conservadora, os estudantes de Paris organizaram protestos e boicotaram as aulas. A polícia, usando bastões e gás lacrimogéneo, atacou os estudantes que ocupavam a Sorbonne e realizou prisões em massa. Em 3 de Maio de 1968 a Sorbone foi ocupada pelos alunos como resposta ao encerramento da Universidade de Nanterre pelas autoridades francesas, no dia anterior. Daqui resultou uma onda de contestação e ocupações das universidades por toda a França. Atacados brutalmente pela polícia, os estudantes desceram às ruas denunciando não só a brutalidade e a repressão policial, mas também a guerra do Vietname e as políticas imperialistas dos governos francês e americano. A polícia do presidente De Gaulle usou de grande violência para restabelecer a ordem. O protesto estudantil contra o autoritarismo e o anacronismo das Academias rapidamente se transformou, com a adesão dos operários, numa contestação política ao regime gaulista. Estudantes e trabalhadores aderiram às manifestações e estiveram unidos nas greves entretanto desencadeadas ou nas barricadas com que enfrentaram as chamadas forças da ordem.
Em 6 de Maio, ocorreu um confronto entre 13 mil jovens e a polícia.
Esta atacou lançando bombas de gás lacrimogéneo e os jovens responderam à
pedrada. Em 10 de Maio, os estudantes ergueram barricadas nas ruas
centrais de Paris que davam acesso ao Quartier Latin, centro
universitário da cidade. A maior batalha entre a polícia e os
manifestantes deu-se nesta área e ficou a ser conhecida pela “Noite das
barricadas”. Em 13 de Maio deu-se a primeira manifestação conjunta de
estudantes e trabalhadores. Mais de um milhão de pessoas aderiu a uma
greve geral e marchou pelas ruas de Paris em protesto contra as acções
policiais dos dias anteriores. Em 17 de Maio, mais 200 000 trabalhadores
entraram em greve. Nos dias que se seguiram, o número de trabalhadores
que aderiu à primeira greve geral na História da França foi aumentando.
11 milhões de trabalhadores envolveram-se numa greve que durou mais de 2
semanas.
Em 24 de Maio, o presidente De Gaulle anunciou que o governo levaria a
cabo as reformas pedidas pelos estudantes e garantiu um aumento salarial
significativo para os trabalhadores grevistas. Enquanto isso, em
Grenelle, delegados governamentais negociavam com os sindicatos uma
série de melhorias sociais para pôr fim à greve geral dos trabalhadores e
assim poder afastá-los dos estudantes. Em 29 de Maio, o general De
Gaulle viajou até às bases francesas na Alemanha para obter apoio do
general Massu para uma intervenção militar em Paris. A situação foi
controlada nos finais de Maio, com uma violenta repressão de que
resultou mais de milhão e meio de feridos. Em 30 de Maio, uma
manifestação de cerca de 1 milhão de conservadores, a chamada “maioria
silenciosa”, marchou em Paris contra a greve geral e as reivindicações
dos estudantes. De Gaulle propôs uma solução eleitoral e graças a ela
obteve uma significativa vitória nas eleições de 27 de Junho. Os
gaullistas acabaram por aumentar a sua maioria. A partir de então, o
movimento estudantil enfraqueceu. Mas o governo de De Gaulle, abalado
por este movimento, acabou por cair. Em 27 de Abril de 1969 o general De
Gaulle renunciou à presidência da República, depois de tê-la ocupado
durante dez anos. Os acontecimentos de Paris fizeram parte de um
movimento mais alargado de contestação que ocorreu em vários países
europeus (Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca, Espanha,
Reino Unido, Polónia) e americanos (México, Argentina e Chile).
Governos fascistas foram derrubados em Portugal e em Espanha, juntamente
com a ditadura militar na Grécia. Em Inglaterra, uma greve de mineiros
derrubou o Governo. Nos Estados Unidos, o presidente Nixon foi obrigado a
renunciar e , aí, cresceu um grande movimento de oposição à guerra no
Vietname, encabeçada pelos movimentos Hippie. **
2008
in Militante
Sérgio Ribeiro
As lições de Maio de 68 em França
por Sérgio Ribeiro
Todos os anos têm um mês de Maio. 1968 teve, claro, um Maio. Parece que
sobretudo em França. Para se ser mais preciso, parece que sobretudo em
Paris. O Mai 68! Um Maio que ficou na história. Para muitos aspectos da
vida, da vida de muitos de nós. A quem o Maio de 1968 apanhou jovens,
ou ainda jovens.
Para esses de nós, em 1968 jovens ou ainda jovens, a vida era cinzenta, bisonha, sem perspectivas. Menos para os que lutavam, para os que lutam sempre. Em Portugal, o fascismo, a guerra colonial, a emigração, faziam mais triste a vida. Para os que não lutavam, para os que não tinham a esperança que nasce na luta. Para os que só esperavam… talvez Agosto, talvez a queda salazarenta de uma cadeira em S. João do Estoril. Para esses, Maio de 68 foi um estampido, um clarão. Mudou muitas coisas. Na sua maneira de viver.
Quarenta anos passaram e há uma aura e nostalgia desse Maio de 68. Não só em França, em Paris, no Quartier Latin, na Sorbonne.
Mas, para os jovens de hoje, como contar o que foi esse Maio que tão mal, como toda a história, se conta? Que se conta ter sido o «Maio dos estudantes». Que foi. Mas que não foi só. Que foi também «Maio dos proletários» (1).
A situação anterior
Em França, De Gaulle era o símbolo do poder político. De direita. Com o pendor nacionalista que o fizera participar na Resistência, nela forjando a sua imagem, afirmando-se na primeira fase da CEE – como no episódio da «cadeira vazia» e na imposição do «interesse vital» – para a impedir de prosseguir caminhos que considerava contrários aos interesses da França, com um controlo da política interna que o levava a dizer, na mensagem de fim do ano de 1967: «no meio de tantos países abanados por tantos safanões (saccades), o nosso país continuará a dar o exemplo da eficácia na condução dos seus assuntos (affaires)».
No entanto, a situação não era como De Gaulle queria fazer crer, bem ao modo «chauvinista» de «grandeur» tipicamente francês. Havia luta social. Apenas a título de (outro) exemplo, como ponto culminante da luta quotidiana nos locais de trabalho o número de dias de greve passara de menos de um milhão em 1965 para 2,5 milhões em 1966 e mais de 4,2 milhões em 1967.
As centrais sindicais, a CGT, também a CFDT e, muito menos, a FO – frutos da estratégia de dividir os trabalhadores através da cisão sindical, que o pós-guerra tão bem ilustrou (como o 25 de Abril) –, e o PCF desenvolviam grande actividade. Também no plano institucional a influência do PCF era grande, e tivera, nas últimas eleições, mais de 22% dos votos.
«Les saccades» teriam de aparecer. Havia um mal-estar latente e crescente.
O «Maio dos estudantes»
A 3 de Maio, em Nanterre, uma agitação provocada pelo «movimento 22 de Março» levou ao encerramento da faculdade; a 4 de Maio, a Sorbonne foi ocupada pela polícia, com desmesurada e violenta repressão, que provocou os primeiros confrontos.
Por erro e/ou cálculo, a reacção do governo agravou uma situação tensa e abriu a escalada da violência. A 6 de Maio, 20 mil estudantes protestaram contra a condenação de colegas. A polícia carregou brutalmente e fez muitos feridos. Os «pavés», que se tornaram «símbolos» do Maio dos estudantes, começaram a saltar dos pavimentos. Os protestos continuaram a 7 de Maio, e a 8 realizou-se um comício da UNEF (Union Nationale des Étudiantes Français), em que participou a CGT, que decorreu com massiva presença de estudantes e sem incidentes. A 9 de Maio, novos desfiles e à luta dos universitários juntaram-se os estudantes do ensino secundário, organizando várias manifestações em que núcleos da Juventude Comunista tiveram papel activo.
A 10 de Maio, a manifestação convocada pela UNEF foi impressionante, e decorreu sem incidentes assinaláveis. Mas à noite, perante aparatoso aparelho policial, 4 a 5 mil estudantes (apenas uma parte dos participantes na manifestação) levantaram barricadas. A reacção policial foi brutal, com muitos feridos e prisões.
Parecia haver intenção de levar os estudantes à exasperação, forçando o confronto violento (2). Terá sido «hábil» esconder o radicalismo e a provocação para concentrar a motivação da luta na agressão contra as liberdades académicas, na violência contra as manifestações, o que permitiu a movimentos e seus protagonistas tomarem a cabeça da contestação. Assim apareceram os esquerdistas com a direcção da luta na Universidade. E pode perguntar-se se o poder não teria estimulado o emprego de métodos que lhe traziam vantagens.
Ao mesmo tempo que havia quem empurrasse o movimento para formas violentas de luta, procurava-se dar-lhe uma orientação política. Antes das barricadas já o PSU sustentava que «para aqueles que têm por missão forjar o destino do país… o regime já pertence ao passado» e um dos seus dirigentes acusava o PCF de tudo ter feito para isolar os estudantes na sua revolta e só apresentar «reivindicações quantitativas necessárias mas insuficientes».
A manifestação de 13 de Maio
No comício de 8 de Maio, a UNEF pedira às centrais sindicais que se solidarizassem com os estudantes e promovessem uma manifestação «para defesa dos direitos de expressão sindical e política e contra a repressão policial». Seguiram-se vários encontros, e no dia 10 foi decidido entre as centrais sindicais e estruturas representativas dos estudantes convocar manifestações para 14 de Maio, em toda a França.
Entretanto, tudo se terá acelerado e a CGT propôs uma greve geral de 24 horas e manifestações para 13 de Maio, a CFDT deu o seu acordo, e as organizações estudantis juntaram-se, ou expressamente ou porque se consideravam em greve ilimitada.
O PCF afirmara, em várias ocasiões – como em comício a 10 de Maio e aderindo à greve e às manifestações –, o seu apoio a um movimento cada vez mais largo, cujas implicações políticas eram perceptíveis mas de que não se podia ainda medir a extensão.
A 13 de Maio, centenas de milhar de manifestantes desfilaram da Republique ao Quartier Latin. De manhã, dezenas de milhar de trabalhadores concentraram-se nos subúrbios, convergindo para Paris com uma sigla comum «Dix ans ça suffit!»(3).
O entusiasmo e a combatividade dos manifestantes, a satisfação por serem tão numerosos, a alegria da unidade, deram uma dimensão excepcional à manifestação, e um sentido novo. Não foi apenas um desfile que mobilizara centenas de milhar de manifestantes, foi também o culminar de uma série de desfiles que tinham sido organizados ao longo dos últimos anos, pela paz na Argélia, contra organizações fascistas, pelo aumento dos salários, na defesa dos direitos sociais. Durante horas, o fluir de operários e estudantes, ombro-a-ombro, foi, em si próprio, a expressão mais saliente do movimento que tomava corpo. Foi o signo sinal de um movimento social, que opunha ao gaullismo uma força só comparável a 1936. Talvez o possível salto qualitativo na luta pela democracia e pelo socialismo.
O «Maio dos proletários»
Aos estudantes, a classe operária trouxe o apoio da sua força. Pela greve, traduziu a vontade de quebrar a ofensiva contra as liberdades; pelas manifestações, colocou-se na primeira linha do protesto. E levantava claramente a questão do poder: poder autoritário ou democracia avançada.
Num documento de 22 de Maio, o PCF reafirmou posições e fez balanço: «A Universidade está doente de gaullismo. A Universidade francesa está esgotada nas suas estruturas, nos seus conteúdos, nos seus métodos. Universidade de classe, não admite mais de 10% dos filhos de operários e constitui uma imagem invertida da sociedade. O quadro conservador em que ela se fecha, mutilando a ciência, a cultura, a técnica, tornou-se insuportável para estudantes e professores. Para esconder a realidade e difundir mais facilmente ideologias reaccionárias, a grande burguesia esforçou-se por isolar a Universidade da vida política e social (…)».
Maio de 68 foi uma oportunidade de quebrar o círculo em que estava encerrada a Universidade. Em França. Mas não só. Se o grande capital «era incapaz de responder às necessidade dos homens e interesses da nação» não o era apenas em França, nem só em 1968. A partir de Maio de 68, ter-se-á tornado mais claro (4).
Como em 11 de Maio afirmara o PCF «os interesses essenciais dos estudantes e do conjunto dos trabalhadores manuais e intelectuais convergem na realização de uma tal Universidade que tornará possível o advento de uma democracia nova abrindo o caminho para o socialismo» (5).
A «moda da revolução»
Em Maio/Junho de 68 a «aurora da revolução» pairava sobre a França, a «esperança absoluta» incendiava corações como incendiava automóveis, o discurso empolgado derrubava um regime que já diziam por terra. Porque – afirmavam – os operários estavam amorfos, os comunistas incapazes e os sindicados «integrados», o Odeon era o lugar de todas as mutações sociais. Ali, onde nascia a nova vanguarda, a única capaz de escapar à esclerose, a única cujas ideias e métodos mereciam respeito.
Se Engels escrevera que «o mito parisiense faz debitar até à exaustão a palavra revolução», teria de se arrepender. Em Maio, o mito era rei. Ao que parecia, a questão deixara de ser «se a revolução pderia ir até ao fim e se a maioria a desejava, mas quando e sob que forma se realizaria» (6)(7). Durante duas ou três semanas, a revolução esteve na moda.
Mas a «nova revolução» tinha, claro, estranhos «compagnons de route». O chantre do «modelo americano» Servan-Schreiber saudava-a como «o despertar da França», Lecanuet e Duhamel, que votavam favoravelmente todos os planos e orçamentos, denunciavam com vigor as taras da universidade e interrogavam-se sobre «que grandes desígnios oferece a nossa sociedade à sua juventude?». Giscard d’Estaing insistia, em todas as oportunidades, no «mai(...)s». Tudo e todos com quem o capitalismo conta para a sua defesa, rivalizavam na «compreensão» das agitações. Por outras paragens, as cumplicidades eram idênticas.
«Revolução» e anticomunismo
Para os operários em greve, o acolhimento era menos caloroso – ou mais quente… Onde explodisse uma cólera há muito contida, não agitação mas protesto, as balas da polícia logo se soltavam, sem «compreensões» ou hesitações; as glosas sobre «revolução traída», «PCF esclerosado ou incapaz», «estudantes abandonados pela CGT»: eram tantas que o tema se tornou monótono. Pompidou acusava os comunistas de terem preparado um golpe de força e Rocard ripostava ter o PCF negligenciado a tomada de um poder pretensamente de rastos, vazio. Os ataques convergiam sobre o PCF, e todos tinham por finalidade enfraquecê-lo, dividi-lo, destruí-lo se possível, acabar, enfim, com um partido que a classe operária francesa há meio século vinha construindo.
Para dividir o movimento operário e levá-lo à derrota, para levantar obstáculos à marcha para o socialismo por vias novas e francesas, para retardar a chegada de uma democracia avançada, a grande burguesia empregou-se a fundo. Um traço novo destes ataques (também de defesa), foi a critica de «esquerda», a tentativa de criar um partido rival do PCF, que o viesse acusar, não de ser revolucionário mas de ser morno, reformista, moderado, frouxo. Enquanto, por dentro, o procuravam descaracterizar, que esquecesse a sua base teórica, abandonasse as suas formas de organização, aceitasse que a história não é a luta de classes.
O anticomunismo não teria, até então, ido tão longe. Em Maio de 68 passou à acção política e teve numa parte da juventude, sobretudo na universidade, uma base, senão durável pelo menos como campo de manobra. (8)
Reconhecê-lo e denunciá-lo não é subestimar o contributo, a coragem, a determinação dos estudantes, a mudança real que trouxe à luta a entrada em cena de uma grande parte da juventude universitária, de parcela importante de intelectuais.
Se o Maio dos proletários só poderia ter por ambição contribuir para a aliança dos operários e dos intelectuais, toda a luta (da outra classe) era para a impedir.
Resultados políticos no curto prazo
Menos de dois meses mais tarde, e depois da greve ter mobilizado quase 10 milhões de assalariados, o gaullismo ganhou as eleições gerais. O partido governamental não só manteve a sua influência como ganhou 5 p.p. A consequência eleitoral do maior movimento popular que a França conhecera desde a Libertação, constituía uma derrota para a esquerda. O PCF desceu mais de 2 p.p., perdendo cerca de 600 mil votos.
Fracasso sério, que deu à maioria de direita os meios e o respaldo para aperfeiçoar o seu aparelho de dominação. Deste fracasso foi acusado, claro, o proletariado e as suas organizações, a CGT e o PCF. Não teriam «nem reconhecido nem compreendido» um movimento que «não estava no programa». Não teriam percebido o valor novo, transformador, revolucionário, das ideias, das formas de luta postas em acção pelos animadores do movimento dos estudantes. O poder estava vago, e não queriam sabido, ou não teriam querido, tomá-lo. Em resumo, as lições choveram de todos os lados. Decretou-se a derrota do comunismo e o espírito revolucionário passou a morar ora em Roccard ora em gaullistas «de esquerda». E podia ler-se que «a classe operária não seja já revolucionária, isso parece quase evidente». Porque se queria que fosse evidente. A nova utopia tinha, a esses olhos, uma vantagem inestimável: os seus protagonistas combatiam o PCF. A partir daí, era «compreendida».
No entanto, quem seguiu de perto Maio de 68 viu a classe operária no centro da luta. Onde continua.
Maio de 68 em Portugal, mero apontamento de ilustração
Em Portugal, o Maio de 68 também chegou. Embora, durante o fascismo, nada cá chegasse facilmente. Mas Maio de 68 chegou. Para o bem e para o mal.
Seguiu-se com interesse a evolução dos acontecimentos num País em que, para mais, tantos portugueses viviam. Com efeitos semelhantes, «à portuguesa». Com a esperança em caminhos mais abertos para o socialismo, com as utopias a criarem, em «outros», ilusões (e aproveitamentos) para outros «novos» caminhos.
Em Agosto de 1968, além da cadeira que se partiu e fez o ditador ir ao chão (mas não o fascismo), anoto uma visita a Paris para «ir ver» como tinha sido e como era. Em Maio de 1969, na Prelo, onde colaborava com assiduidade, resolvi publicar um livro com uma colectânea de textos do período de Maio a Maio 1968/69 (9) , procurando entrar numa «roda» em que não faltavam as «leituras de esquerda» (10), cheias de entusiasmo pelas «novas ideias», e de ataque ao consumismo… e ao comunismo.
Os textos do livro tratavam temas como gestão, autogestão, cogestão, participação, relevando a importância determinante das relações de produção. Neste apontamento, apenas acrescento que uma recensão do livro, para o Diário de Lisboa, que transcrevia parte do prefácio, foi todo cortado pela censura.
Maio?... «oui, mai(s)»!
Não se conclua que se menospreza, ou apenas se avalia Maio de 68 pela negativa. Para os que então eram jovens ou ainda jovens eram, juntamente com outros reflexos Maio de 68 motivou mudanças nas nossas vidas porque os costumes sofreram abanões de que a «moral oficial» nunca mais recuperaria. Lembrar como se viviam os quotidianos, como se relacionavam mulher e homem, é também reconhecer a importância do(s) Maio(s) de 68.
Por isso… Durante anos, uma pequena nota na primeira página do L’Humanité, assinada por André Wursmer com o título genérico de Oui… mais (11) , fazia-me sonhar (lutando) um Portugal em que o Avante! legal pudesse trazer trechos idênticos. Parecia que tudo se tornaria fácil. Lembrando essas notas, termino – com a satisfação do que se lê no «nosso» Avante!, e com a certeza de que nada é fácil – com um Mai 68? Oui… mais! (12)
Notas
(1) Para este artigo, vou servir-me, com frequência, do bem documento livro de Laurent Salini, Mai des prolétaires, editions sociales, notre temps, Novembro de 1968, de que fiz uma re-leitura, e de que aproveito alguns trechos em tradução livre, adaptada e com diferente «montagem» (SR).
(2) Segundo Salini, «se o poder tem a principal responsabilidade neste afrontamento, outros desejavam-no (...) Nem o “movimento do 22 de Março”, representado por Daniel Cohen-Bendit, nem os outros grupos já existentes ou formados “à balda” estavam, à partida, voltados para a massa estudantil. Nenhum era capaz de a mobilizar e de a conduzir. Mais: o desfasamento era grande, por exemplo, entre a táctica de “provocação” empregue pelo “movimento do 22 de Março”, e o estado geral dos estudantes.» (pág. 15 de Mai des prolétaires).
(3) «Dez anos….basta!!»
(4) Hoje, também o é, embora de outra maneira. Com Bolonha, com a desvalorização das licenciaturas, e a empresarialização dos mestrados e doutoramentos.
(5) Após citar André Glucksmann (que se salientou pelas suas posições mais que discutíveis durante Maio de 1968, e depois) – «É em relação a uma via revolucionária que os erros da esquerda e da direita aparecem como formas de doutrinalismo, de culto da paráfrase, de ausência de estratégia» –, Salini acrescenta que «(…) longe de transformar as “regras estratégicas em preceitos morais”, lutamos contra os esquerdistas não porque eles tenham sido “a vanguarda do movimento de Maio”, não porque eles preparam a revolução, mas porque se voltam contra o Partido Comunista e a estratégia que ele propõe, travam a marcha do nosso povo para o socialismo, ajudam a contra-revolução, abrem a via às forças reaccionárias (…)». (pág. 154 de Mai des prolétaires).
(6) Hervé Bourges: La Révolution étudiante (Préface).
(7) Parafraseando Salini: Os sovietes estavam de volta; Cuba reencontrava 1848; a Comuna ressuscitava; as salas de redacção dos jornais, das rádios, das televisões povoavam-se de «Guevaras». As barricadas tornavam-se epopeicas e autarcas até aí calmos e acomodados, bruscamente revoltavam-se contra o capitalismo, empenhando-se em estimular as agitações, se possível violentas; Revisto e corrigido por «iluminados» (ou incendiados ou incendiários), o marxismo tornava-se interessante. O anarquismo adornava-se com as cores da primavera que tão bem «vão» com o negro. Em outras mãos que não as dos proletários, a bandeira vermelha parecia aceitável.
(8) «Mesmo que se esforcem por reduzir a revolução social à violência e aos distúrbios, e a luta de classes à agitação, mesmo que tantos escritos procurem de novo impor a ideia de que o proletariado já cedeu a sua missão de gerar uma sociedade nova; mesmo que, pela primeira vez com esta amplitude, esquerdistas e anarquistas associados tentem fazer prevalecer os seus pontos de vista e fazer esquecer aos trabalhadores a sua história e as suas tarefas actuais; mesmo que a grande burguesia se lance sobre essas alavancas para dividir as forças que lhe disputam a direcção do país; mesmo que democratas não tenham ainda tomado consciência que a autoridade do partido comunista é a condição essencial (mas não a única) de toda a política de progresso real, as lições de Maio são vitais para o movimento operário e democrático.» (pág. 12 de Mai des prolétaires).
(9) De Maio a Maio, Prelo Editora, Junho de 1969, textos de Francette Lazard, Launay, Brière, Kahn, Bommensath
(10) Lembro um livro de Maria Antónia Palla, e interessantes discussões, na Prelo com António Reis, que nos «invadiu» com as «armas» de Marcuse…
(11) Sim… mas
(12) Maio de 68? Sim…mas!
Para esses de nós, em 1968 jovens ou ainda jovens, a vida era cinzenta, bisonha, sem perspectivas. Menos para os que lutavam, para os que lutam sempre. Em Portugal, o fascismo, a guerra colonial, a emigração, faziam mais triste a vida. Para os que não lutavam, para os que não tinham a esperança que nasce na luta. Para os que só esperavam… talvez Agosto, talvez a queda salazarenta de uma cadeira em S. João do Estoril. Para esses, Maio de 68 foi um estampido, um clarão. Mudou muitas coisas. Na sua maneira de viver.
Quarenta anos passaram e há uma aura e nostalgia desse Maio de 68. Não só em França, em Paris, no Quartier Latin, na Sorbonne.
Mas, para os jovens de hoje, como contar o que foi esse Maio que tão mal, como toda a história, se conta? Que se conta ter sido o «Maio dos estudantes». Que foi. Mas que não foi só. Que foi também «Maio dos proletários» (1).
A situação anterior
Em França, De Gaulle era o símbolo do poder político. De direita. Com o pendor nacionalista que o fizera participar na Resistência, nela forjando a sua imagem, afirmando-se na primeira fase da CEE – como no episódio da «cadeira vazia» e na imposição do «interesse vital» – para a impedir de prosseguir caminhos que considerava contrários aos interesses da França, com um controlo da política interna que o levava a dizer, na mensagem de fim do ano de 1967: «no meio de tantos países abanados por tantos safanões (saccades), o nosso país continuará a dar o exemplo da eficácia na condução dos seus assuntos (affaires)».
No entanto, a situação não era como De Gaulle queria fazer crer, bem ao modo «chauvinista» de «grandeur» tipicamente francês. Havia luta social. Apenas a título de (outro) exemplo, como ponto culminante da luta quotidiana nos locais de trabalho o número de dias de greve passara de menos de um milhão em 1965 para 2,5 milhões em 1966 e mais de 4,2 milhões em 1967.
As centrais sindicais, a CGT, também a CFDT e, muito menos, a FO – frutos da estratégia de dividir os trabalhadores através da cisão sindical, que o pós-guerra tão bem ilustrou (como o 25 de Abril) –, e o PCF desenvolviam grande actividade. Também no plano institucional a influência do PCF era grande, e tivera, nas últimas eleições, mais de 22% dos votos.
«Les saccades» teriam de aparecer. Havia um mal-estar latente e crescente.
O «Maio dos estudantes»
A 3 de Maio, em Nanterre, uma agitação provocada pelo «movimento 22 de Março» levou ao encerramento da faculdade; a 4 de Maio, a Sorbonne foi ocupada pela polícia, com desmesurada e violenta repressão, que provocou os primeiros confrontos.
Por erro e/ou cálculo, a reacção do governo agravou uma situação tensa e abriu a escalada da violência. A 6 de Maio, 20 mil estudantes protestaram contra a condenação de colegas. A polícia carregou brutalmente e fez muitos feridos. Os «pavés», que se tornaram «símbolos» do Maio dos estudantes, começaram a saltar dos pavimentos. Os protestos continuaram a 7 de Maio, e a 8 realizou-se um comício da UNEF (Union Nationale des Étudiantes Français), em que participou a CGT, que decorreu com massiva presença de estudantes e sem incidentes. A 9 de Maio, novos desfiles e à luta dos universitários juntaram-se os estudantes do ensino secundário, organizando várias manifestações em que núcleos da Juventude Comunista tiveram papel activo.
A 10 de Maio, a manifestação convocada pela UNEF foi impressionante, e decorreu sem incidentes assinaláveis. Mas à noite, perante aparatoso aparelho policial, 4 a 5 mil estudantes (apenas uma parte dos participantes na manifestação) levantaram barricadas. A reacção policial foi brutal, com muitos feridos e prisões.
Parecia haver intenção de levar os estudantes à exasperação, forçando o confronto violento (2). Terá sido «hábil» esconder o radicalismo e a provocação para concentrar a motivação da luta na agressão contra as liberdades académicas, na violência contra as manifestações, o que permitiu a movimentos e seus protagonistas tomarem a cabeça da contestação. Assim apareceram os esquerdistas com a direcção da luta na Universidade. E pode perguntar-se se o poder não teria estimulado o emprego de métodos que lhe traziam vantagens.
Ao mesmo tempo que havia quem empurrasse o movimento para formas violentas de luta, procurava-se dar-lhe uma orientação política. Antes das barricadas já o PSU sustentava que «para aqueles que têm por missão forjar o destino do país… o regime já pertence ao passado» e um dos seus dirigentes acusava o PCF de tudo ter feito para isolar os estudantes na sua revolta e só apresentar «reivindicações quantitativas necessárias mas insuficientes».
A manifestação de 13 de Maio
No comício de 8 de Maio, a UNEF pedira às centrais sindicais que se solidarizassem com os estudantes e promovessem uma manifestação «para defesa dos direitos de expressão sindical e política e contra a repressão policial». Seguiram-se vários encontros, e no dia 10 foi decidido entre as centrais sindicais e estruturas representativas dos estudantes convocar manifestações para 14 de Maio, em toda a França.
Entretanto, tudo se terá acelerado e a CGT propôs uma greve geral de 24 horas e manifestações para 13 de Maio, a CFDT deu o seu acordo, e as organizações estudantis juntaram-se, ou expressamente ou porque se consideravam em greve ilimitada.
O PCF afirmara, em várias ocasiões – como em comício a 10 de Maio e aderindo à greve e às manifestações –, o seu apoio a um movimento cada vez mais largo, cujas implicações políticas eram perceptíveis mas de que não se podia ainda medir a extensão.
A 13 de Maio, centenas de milhar de manifestantes desfilaram da Republique ao Quartier Latin. De manhã, dezenas de milhar de trabalhadores concentraram-se nos subúrbios, convergindo para Paris com uma sigla comum «Dix ans ça suffit!»(3).
O entusiasmo e a combatividade dos manifestantes, a satisfação por serem tão numerosos, a alegria da unidade, deram uma dimensão excepcional à manifestação, e um sentido novo. Não foi apenas um desfile que mobilizara centenas de milhar de manifestantes, foi também o culminar de uma série de desfiles que tinham sido organizados ao longo dos últimos anos, pela paz na Argélia, contra organizações fascistas, pelo aumento dos salários, na defesa dos direitos sociais. Durante horas, o fluir de operários e estudantes, ombro-a-ombro, foi, em si próprio, a expressão mais saliente do movimento que tomava corpo. Foi o signo sinal de um movimento social, que opunha ao gaullismo uma força só comparável a 1936. Talvez o possível salto qualitativo na luta pela democracia e pelo socialismo.
O «Maio dos proletários»
Aos estudantes, a classe operária trouxe o apoio da sua força. Pela greve, traduziu a vontade de quebrar a ofensiva contra as liberdades; pelas manifestações, colocou-se na primeira linha do protesto. E levantava claramente a questão do poder: poder autoritário ou democracia avançada.
Num documento de 22 de Maio, o PCF reafirmou posições e fez balanço: «A Universidade está doente de gaullismo. A Universidade francesa está esgotada nas suas estruturas, nos seus conteúdos, nos seus métodos. Universidade de classe, não admite mais de 10% dos filhos de operários e constitui uma imagem invertida da sociedade. O quadro conservador em que ela se fecha, mutilando a ciência, a cultura, a técnica, tornou-se insuportável para estudantes e professores. Para esconder a realidade e difundir mais facilmente ideologias reaccionárias, a grande burguesia esforçou-se por isolar a Universidade da vida política e social (…)».
Maio de 68 foi uma oportunidade de quebrar o círculo em que estava encerrada a Universidade. Em França. Mas não só. Se o grande capital «era incapaz de responder às necessidade dos homens e interesses da nação» não o era apenas em França, nem só em 1968. A partir de Maio de 68, ter-se-á tornado mais claro (4).
Como em 11 de Maio afirmara o PCF «os interesses essenciais dos estudantes e do conjunto dos trabalhadores manuais e intelectuais convergem na realização de uma tal Universidade que tornará possível o advento de uma democracia nova abrindo o caminho para o socialismo» (5).
A «moda da revolução»
Em Maio/Junho de 68 a «aurora da revolução» pairava sobre a França, a «esperança absoluta» incendiava corações como incendiava automóveis, o discurso empolgado derrubava um regime que já diziam por terra. Porque – afirmavam – os operários estavam amorfos, os comunistas incapazes e os sindicados «integrados», o Odeon era o lugar de todas as mutações sociais. Ali, onde nascia a nova vanguarda, a única capaz de escapar à esclerose, a única cujas ideias e métodos mereciam respeito.
Se Engels escrevera que «o mito parisiense faz debitar até à exaustão a palavra revolução», teria de se arrepender. Em Maio, o mito era rei. Ao que parecia, a questão deixara de ser «se a revolução pderia ir até ao fim e se a maioria a desejava, mas quando e sob que forma se realizaria» (6)(7). Durante duas ou três semanas, a revolução esteve na moda.
Mas a «nova revolução» tinha, claro, estranhos «compagnons de route». O chantre do «modelo americano» Servan-Schreiber saudava-a como «o despertar da França», Lecanuet e Duhamel, que votavam favoravelmente todos os planos e orçamentos, denunciavam com vigor as taras da universidade e interrogavam-se sobre «que grandes desígnios oferece a nossa sociedade à sua juventude?». Giscard d’Estaing insistia, em todas as oportunidades, no «mai(...)s». Tudo e todos com quem o capitalismo conta para a sua defesa, rivalizavam na «compreensão» das agitações. Por outras paragens, as cumplicidades eram idênticas.
«Revolução» e anticomunismo
Para os operários em greve, o acolhimento era menos caloroso – ou mais quente… Onde explodisse uma cólera há muito contida, não agitação mas protesto, as balas da polícia logo se soltavam, sem «compreensões» ou hesitações; as glosas sobre «revolução traída», «PCF esclerosado ou incapaz», «estudantes abandonados pela CGT»: eram tantas que o tema se tornou monótono. Pompidou acusava os comunistas de terem preparado um golpe de força e Rocard ripostava ter o PCF negligenciado a tomada de um poder pretensamente de rastos, vazio. Os ataques convergiam sobre o PCF, e todos tinham por finalidade enfraquecê-lo, dividi-lo, destruí-lo se possível, acabar, enfim, com um partido que a classe operária francesa há meio século vinha construindo.
Para dividir o movimento operário e levá-lo à derrota, para levantar obstáculos à marcha para o socialismo por vias novas e francesas, para retardar a chegada de uma democracia avançada, a grande burguesia empregou-se a fundo. Um traço novo destes ataques (também de defesa), foi a critica de «esquerda», a tentativa de criar um partido rival do PCF, que o viesse acusar, não de ser revolucionário mas de ser morno, reformista, moderado, frouxo. Enquanto, por dentro, o procuravam descaracterizar, que esquecesse a sua base teórica, abandonasse as suas formas de organização, aceitasse que a história não é a luta de classes.
O anticomunismo não teria, até então, ido tão longe. Em Maio de 68 passou à acção política e teve numa parte da juventude, sobretudo na universidade, uma base, senão durável pelo menos como campo de manobra. (8)
Reconhecê-lo e denunciá-lo não é subestimar o contributo, a coragem, a determinação dos estudantes, a mudança real que trouxe à luta a entrada em cena de uma grande parte da juventude universitária, de parcela importante de intelectuais.
Se o Maio dos proletários só poderia ter por ambição contribuir para a aliança dos operários e dos intelectuais, toda a luta (da outra classe) era para a impedir.
Resultados políticos no curto prazo
Menos de dois meses mais tarde, e depois da greve ter mobilizado quase 10 milhões de assalariados, o gaullismo ganhou as eleições gerais. O partido governamental não só manteve a sua influência como ganhou 5 p.p. A consequência eleitoral do maior movimento popular que a França conhecera desde a Libertação, constituía uma derrota para a esquerda. O PCF desceu mais de 2 p.p., perdendo cerca de 600 mil votos.
Fracasso sério, que deu à maioria de direita os meios e o respaldo para aperfeiçoar o seu aparelho de dominação. Deste fracasso foi acusado, claro, o proletariado e as suas organizações, a CGT e o PCF. Não teriam «nem reconhecido nem compreendido» um movimento que «não estava no programa». Não teriam percebido o valor novo, transformador, revolucionário, das ideias, das formas de luta postas em acção pelos animadores do movimento dos estudantes. O poder estava vago, e não queriam sabido, ou não teriam querido, tomá-lo. Em resumo, as lições choveram de todos os lados. Decretou-se a derrota do comunismo e o espírito revolucionário passou a morar ora em Roccard ora em gaullistas «de esquerda». E podia ler-se que «a classe operária não seja já revolucionária, isso parece quase evidente». Porque se queria que fosse evidente. A nova utopia tinha, a esses olhos, uma vantagem inestimável: os seus protagonistas combatiam o PCF. A partir daí, era «compreendida».
No entanto, quem seguiu de perto Maio de 68 viu a classe operária no centro da luta. Onde continua.
Maio de 68 em Portugal, mero apontamento de ilustração
Em Portugal, o Maio de 68 também chegou. Embora, durante o fascismo, nada cá chegasse facilmente. Mas Maio de 68 chegou. Para o bem e para o mal.
Seguiu-se com interesse a evolução dos acontecimentos num País em que, para mais, tantos portugueses viviam. Com efeitos semelhantes, «à portuguesa». Com a esperança em caminhos mais abertos para o socialismo, com as utopias a criarem, em «outros», ilusões (e aproveitamentos) para outros «novos» caminhos.
Em Agosto de 1968, além da cadeira que se partiu e fez o ditador ir ao chão (mas não o fascismo), anoto uma visita a Paris para «ir ver» como tinha sido e como era. Em Maio de 1969, na Prelo, onde colaborava com assiduidade, resolvi publicar um livro com uma colectânea de textos do período de Maio a Maio 1968/69 (9) , procurando entrar numa «roda» em que não faltavam as «leituras de esquerda» (10), cheias de entusiasmo pelas «novas ideias», e de ataque ao consumismo… e ao comunismo.
Os textos do livro tratavam temas como gestão, autogestão, cogestão, participação, relevando a importância determinante das relações de produção. Neste apontamento, apenas acrescento que uma recensão do livro, para o Diário de Lisboa, que transcrevia parte do prefácio, foi todo cortado pela censura.
Maio?... «oui, mai(s)»!
Não se conclua que se menospreza, ou apenas se avalia Maio de 68 pela negativa. Para os que então eram jovens ou ainda jovens eram, juntamente com outros reflexos Maio de 68 motivou mudanças nas nossas vidas porque os costumes sofreram abanões de que a «moral oficial» nunca mais recuperaria. Lembrar como se viviam os quotidianos, como se relacionavam mulher e homem, é também reconhecer a importância do(s) Maio(s) de 68.
Por isso… Durante anos, uma pequena nota na primeira página do L’Humanité, assinada por André Wursmer com o título genérico de Oui… mais (11) , fazia-me sonhar (lutando) um Portugal em que o Avante! legal pudesse trazer trechos idênticos. Parecia que tudo se tornaria fácil. Lembrando essas notas, termino – com a satisfação do que se lê no «nosso» Avante!, e com a certeza de que nada é fácil – com um Mai 68? Oui… mais! (12)
Notas
(1) Para este artigo, vou servir-me, com frequência, do bem documento livro de Laurent Salini, Mai des prolétaires, editions sociales, notre temps, Novembro de 1968, de que fiz uma re-leitura, e de que aproveito alguns trechos em tradução livre, adaptada e com diferente «montagem» (SR).
(2) Segundo Salini, «se o poder tem a principal responsabilidade neste afrontamento, outros desejavam-no (...) Nem o “movimento do 22 de Março”, representado por Daniel Cohen-Bendit, nem os outros grupos já existentes ou formados “à balda” estavam, à partida, voltados para a massa estudantil. Nenhum era capaz de a mobilizar e de a conduzir. Mais: o desfasamento era grande, por exemplo, entre a táctica de “provocação” empregue pelo “movimento do 22 de Março”, e o estado geral dos estudantes.» (pág. 15 de Mai des prolétaires).
(3) «Dez anos….basta!!»
(4) Hoje, também o é, embora de outra maneira. Com Bolonha, com a desvalorização das licenciaturas, e a empresarialização dos mestrados e doutoramentos.
(5) Após citar André Glucksmann (que se salientou pelas suas posições mais que discutíveis durante Maio de 1968, e depois) – «É em relação a uma via revolucionária que os erros da esquerda e da direita aparecem como formas de doutrinalismo, de culto da paráfrase, de ausência de estratégia» –, Salini acrescenta que «(…) longe de transformar as “regras estratégicas em preceitos morais”, lutamos contra os esquerdistas não porque eles tenham sido “a vanguarda do movimento de Maio”, não porque eles preparam a revolução, mas porque se voltam contra o Partido Comunista e a estratégia que ele propõe, travam a marcha do nosso povo para o socialismo, ajudam a contra-revolução, abrem a via às forças reaccionárias (…)». (pág. 154 de Mai des prolétaires).
(6) Hervé Bourges: La Révolution étudiante (Préface).
(7) Parafraseando Salini: Os sovietes estavam de volta; Cuba reencontrava 1848; a Comuna ressuscitava; as salas de redacção dos jornais, das rádios, das televisões povoavam-se de «Guevaras». As barricadas tornavam-se epopeicas e autarcas até aí calmos e acomodados, bruscamente revoltavam-se contra o capitalismo, empenhando-se em estimular as agitações, se possível violentas; Revisto e corrigido por «iluminados» (ou incendiados ou incendiários), o marxismo tornava-se interessante. O anarquismo adornava-se com as cores da primavera que tão bem «vão» com o negro. Em outras mãos que não as dos proletários, a bandeira vermelha parecia aceitável.
(8) «Mesmo que se esforcem por reduzir a revolução social à violência e aos distúrbios, e a luta de classes à agitação, mesmo que tantos escritos procurem de novo impor a ideia de que o proletariado já cedeu a sua missão de gerar uma sociedade nova; mesmo que, pela primeira vez com esta amplitude, esquerdistas e anarquistas associados tentem fazer prevalecer os seus pontos de vista e fazer esquecer aos trabalhadores a sua história e as suas tarefas actuais; mesmo que a grande burguesia se lance sobre essas alavancas para dividir as forças que lhe disputam a direcção do país; mesmo que democratas não tenham ainda tomado consciência que a autoridade do partido comunista é a condição essencial (mas não a única) de toda a política de progresso real, as lições de Maio são vitais para o movimento operário e democrático.» (pág. 12 de Mai des prolétaires).
(9) De Maio a Maio, Prelo Editora, Junho de 1969, textos de Francette Lazard, Launay, Brière, Kahn, Bommensath
(10) Lembro um livro de Maria Antónia Palla, e interessantes discussões, na Prelo com António Reis, que nos «invadiu» com as «armas» de Marcuse…
(11) Sim… mas
(12) Maio de 68? Sim…mas!
Sérgio Ribeiro http://www.omilitante.pcp.pt/pt/294/Efemeride/231/As-li%C3%A7%C3%B5es-de-Maio-de-68-em-Fran%C3%A7a.htm
**
José Batista de Matos ajudou a construir 23 estações de metro em Paris e chefiou centenas de homens, mas em maio de 68 associou-se aos protestos e tornou-se num dos instigadores da greve numa estação da capital francesa.
O Português da aldeia de Alcanadas, na Batalha, chegou ao ‘bidonville’ de Champigny em abril de 1963 para «fugir à ditadura», deixando para trás as «idas de bicicleta à Marinha Grande para ir buscar o Avante» e as escutas clandestinas, em casa, da rádio Voz da Liberdade e da Rádio Moscovo.
Com 84 anos, José Batista de Matos conta entusiasmado «a visão apocalíptica» que teve quando, no início de maio de 68, durante a pausa de trabalho das obras do metro de Charles de Gaulle-Étoile, viu «o largo ao lado do Arco do Triunfo cheio de jovens sentados», foi falar com eles e sentiu «o germinar da vontade» de participar no movimento.
Depois, foi à Universidade da Sorbonne e integrou uma Comissão de estudantes-trabalhadores, a partir da qual organizou a greve junto dos seus colegas operários, mesmo sendo ele Chefe de obras de uma equipa. «Fizemos reuniões na Sorbonne e tentei com outros amigos – alguns Franceses, um ou dois Portugueses – parar o ‘chantier’ na Étoile, em que havia 60, 70 e tal pessoas. E conseguimos parar aquilo. O trabalho parou completamente», recordou, descrevendo o momento como «uma vitória muito grande».
José Batista de Matos começou a participar nas manifestações e ia às reuniões na Sorbonne do ‘Comité ouvriers-étudiants’ porque aquele mês foi para ele «o sonho de um mundo melhor» e «ao fim de 28 dias» conseguiu um aumento de 35 francos por semana», tudo «recordações fabulosas, não só a parte material mas a consciencialização das pessoas».
«Nós combinávamos os sítios das manifestações e qual o sentido dessa manifestação em République, Nation, Porte d’Italie, Étoile… Quando sabíamos que havia uma fábrica em greve lá íamos para incitar as pessoas a não irem abaixo», continuou, enquanto a mulher, Ascenção de Matos, recorda a «angústia» de o ver sair «de Vespa direto a Paris» quando na televisão «parecia que era a guerra».
Como «não havia gasolina nenhuma para ninguém, nem para os ricos», Batista de Matos conhecia um Português numa gasolineira «que tinha à parte um ou dois bidões de gasolina» e encheu-lhe o depósito da moto «uma vez ou duas».
O Português participou nas manifestações de rua porque «tudo se pode vencer com o número de pessoas», viu muita gente «a mandar até botas e ‘pavés’ à polícia» mas diz que nunca mandou nenhuma pedra às autoridades nem andou «a descalçar Paris», ainda que tenha tido de «fugir à frente da polícia» com o filho de sete anos.
«Todas as manifestações que havia, eu ia a todas. Não falhava uma sequer porque eu pensava que a minha presença podia ser benéfica para os outros, não para mim», sublinhou, apontando que nessa altura «ganhava bem» mas ia por uma «questão de respeito pelos outros e por solidariedade».
Ainda que houvesse «uma solidariedade bestial» entre os estudantes e os trabalhadores, chegou a haver uma reunião em que os operários, incluindo Batista de Matos, forçaram a entrada na Sorbonne e também no teatro Odéon. «Foi a primeira vez, na minha vida de homem, que no Odéon os senhores professores, doutores, se tratavam todos por tu. Não havia você, não havia senhor doutor. Aquilo transformou-me», contou o autor de «Uma vida de militância cívica e cultural», acrescentando que na sua boca tinha sempre a palavra «liberdade».
Batista de Matos recorda, ainda, ter participado na ocupação da Casa de Portugal na Cidade Universitária de Paris, onde comeu «à vontade que estava tudo cheio porque eram só filhos de ricos portugueses» e como havia «malta da LUAR e alguns antigos presos políticos ninguém se atreveu a chamar a polícia».
O Português continua a ser o rosto da emigração lusa no Museu Nacional da História da Imigração em Paris, onde há um desenho a ilustrar o momento em que ele e dois companheiros penduraram uma bandeira vermelha numa grua em protesto contra a manifestação de apoio ao General de Gaulle, que iria pôr fim ao ímpeto do maio de 68.
«Há três anos, um senhor telefonou-me para minha casa porque foi ao Museu e viu essa fotografia. No dia 27 de maio, ele ia na manifestação dos ‘gaullistas’ e houve um ‘gaullista’ que ergueu a pistola para lá para cima para mandar para a gente», contou.
Do outro lado da linha, o senhor disse-lhe: «Ainda bem que você está aí porque houve um ‘gaullista’ que o queria matar a você e aos outros dois».
Batista de Matos recorda o maio de 68 como «o catalisador» e «a essência» da sua vida, acredita que «é preciso maio de 68 em permanência para combater as desigualdades porque 2% da população do mundo tem tanto como 98% do mundo» e diz que na sua vida associativa sempre se bateu para «ressuscitar um pouco o maio de 68».
«Eu hoje sinto o maio de 68 como a emancipação de uma camada de homens e mulheres que se bateram para a liberdade deles e dos outros e essa liberdade expressei-a pessoalmente quando em 1982 inaugurámos, com um Militar de Abril, um Monumento ao 25 de Abril em Fontenay-sous-Bois», concluiu o fundador da Associação Portuguesa de Fontenay-sous-Bois (93) que foi, também, Conselheiro das Comunidades Portuguesas durante oito anos.
https://lusojornal.com/2018/05/03/maio-68-o-portugues-que-liderou-a-greve-numa-estacao-de-metro-em-paris/
***
Revolução Francesa
avante
20abril2011
http://www.avante.pt/pt/1951/emfoco/114119/
Antecedentes do processo histórico
Na já referida Introdução à terceira edição alemã de A Guerra Civil em França, texto no qual Karl Marx analisa a Comuna de Paris, Friedrich Engels nota que o «desenvolvimento económico e político da França colocava Paris num contexto que «nenhuma revolução poderia ali rebentar que não tomasse um carácter proletário». O proletariado, «que pagava com o seu sangue a vitória, surgia, depois, com reivindicações próprias».
Ainda que «imprecisas e confusas» dado o grau de amadurecimento do operariado parisiense, estas reivindicações apontavam sempre para «a eliminação do antagonismo de classes», e, mesmo não estando claro como é que isso sucederia, a própria reivindicação apavorava a burguesia, que antevia «um perigo para a ordem social estabelecida» no sentido em que «os operários que a colocavam estavam ainda armados».
Assim, «para os burgueses que se encontravam ao leme do Estado – prossegue Engels –, o desarmamento dos operários era imperativo», razão pela qual «depois de cada revolução conquistada pela luta dos operários, nova luta, que termina com a derrota dos operários».
Tal foi o caso da revolução de 1830, a partir da qual, como expressou o banqueiro Lafitte, passou a reinar o capital financeiro. A mesma superação do proletariado pela burguesia e esmagamento brutal da classe operária ocorreu em 1832 e 1839, em Paris, e em 1834, em Lyon, casos de revoltas que não se tornaram revoluções, por um lado, fruto da incipiente organização dos coveiros do capitalismo, e, por outro, da penetração das ideias blanquistas e prodhunistas, à época dominantes entre os círculos associativos da classe.
Tal foi ainda o que aconteceu na revolução de 1848, quando a classe operária parisiense, então «muito mais autónoma do que suspeitavam os burgueses» e constituindo-se já como «uma força no Estado», é empurrada para a insurreição.
«Seguiu-se – continua Engels – um banho de sangue dos prisioneiros desarmados (...). Era a primeira vez que a burguesia mostrava até que louca crueldade de vingança é levada, logo que o proletariado ousa surgir face a ela como classe à parte, com interesses e reivindicações próprias».
«E, ainda assim, 1848 foi uma brincadeira de crianças perante a sua raiva de 1871», conclui Engels.
Contexto da Comuna
Os processos revolucionários que dobram a segunda metade do século XIX em França e que permitem compreender os acontecimentos precedentes são analisados por Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte e em A Luta de Classes em França. Partindo do curso real dos acontecimentos, Marx constata que a revolução proletária tem de empreender a tarefa de quebrar a «máquina burocrática e militar» que é o poder do Estado, centralizado e aperfeiçoado pelas sucessivas revoluções, mas constituindo, como se lê no Manifesto do Partido Comunista, «apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa».
Com efeito, em 1852, Marx e Engels consideram que a restauração do Império com Luís Bonaparte foi o corolário de um processo que, inevitavelmente, teria de resultar na «única forma de governo possível numa altura em que (...) a classe operária ainda não tinha alcançado essa capacidade [de governar]». Os fundadores do marxismo também não podiam ir mais além na questão de saber por o quê substituir o instrumento transitório de dominação de classe que constitui o Estado após a sua aniquilação pela revolução proletária. A questão só pôde ser desvendada quando a Comuna de Paris a colocou na ordem do dia.
No poder, Luís Bonaparte extremou o favorecimento das fracções da burguesia constituídas pelo capital financeiro e pelos latifundiários. Intensificou a exploração da classe operária e das massas laboriosas, incluindo o campesinato. Empreendeu aventuras militares, a última das quais, contra a Prússia, inaugurou, segundo Marx, «o dobrar de finados do Segundo Império».
A 2 Setembro de 1870, o próprio Bonaparte é feito prisioneiro junto com um numeroso exército. Dois dias depois, é novamente proclamada a República, cujo executivo de salvação nacional reúne toda a grande burguesia francesa. Nas forças armadas, dominavam os generais que preferiram render-se a distribuir armas ao povo. Só na Paris cercada pelos prussianos a classe operária decidiu assumir a defesa da pátria, armando 200 novos batalhões da Guarda Nacional.
Os generais reaccionários ainda procuraram desbaratar o proletariado levando a cabo missões suicidas contra os germânicos, mas o operariado parisiense não depunha as armas.
______________
Fontes:
Obras Escolhidas de K. Marx e F. Engels em Três Tomos, Editorial «Avante!»
Obras Escolhidas de V. I. Lénine em Seis Tomos, Editorial «Avante!»
ABC do Marxismo-Leninismo – A Comuna de Paris, Editorial «Avante!»
A Comuna de Paris na Actualidade, Aurélio Santos, in O Militante
10 de Maio de 1871: Tratado de Frankfurt, a França cede a Alsácia e parte da Lorena à Alemanha
O
governo provisório da França aceita pagar uma indemnização de 5 biliões
de francos-ouro, permite a presença de um exército de ocupação até ao
pagamento desta soma e sobretudo, cede a Alsácia e uma parte da Lorena
nos termos do Tratado de Frankfurt, firmado em 10 de Maio de 1871.
Este
tratado foi assinado na decorrência da vitória da Alemanha sobre a
França na guerra de 1870. A vitória reforçou o chanceler Otto Von
Bismark e permitiu-lhe unificar os Estados alemães em torno da Prússia.
Nos
primórdios da Alsácia, católicos e protestantes assinaram o Tratado de
Westfália. A guerra dos Trinta Anos chegava assim ao fim. A França obtém
uma parte da Alsácia, Suécia e Alemanha adquirem igualmente parte do
seu território, enquanto Países Baixos e Suíça conquistam as suas
independências. Quanto à Lorena, o velho rei da Polónia e sogro de Luís
XV, Stanislas Leszczynski, morre num incêndio em Lunéville, aos 87
anos. De acordo com os tratados assinados com o rei da França, em 23 de
Fevereiro de 1766, as suas possessões da Lorena e de Bar tornam-se
francesas. Leszczynski havia adquirido os ducados de Lorena e de Bar
como renda vitalícia.
No dia 13 de Julho de 1870, após
o seu encontro com o embaixador da França, Benedetti, a propósito da
sucessão do trono da Espanha, o rei da Prússia Guilherme I relata o
encontro ao ministro-presidente Otto Von Bismarck.
O rei envia-lhe
um telegrama informando que não mais irá respaldar a candidatura do seu
primo, o príncipe Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen ao trono de
Espanha. A partir da recepção da mensagem, Bismarck que avalia que o rei
agira por fraqueza, distorce o despacho real dando-lhe um tom
belicista. Escreveu que o rei “recusou ver o embaixador da França” e que
lhe fez ver que “nada mais há para comunicar-lhe”. A França, insultada pelo despacho, declararia guerra à Prússia em 19 de Julho.
Napoleão
III declara precipitadamente guerra à Prússia. Bismark dela tem
necessidade para reforçar a unidade prussiana para formar o II Reich de
toda a Alemanha. Bismark havia alterado o propósito da mensagem
exactamente para provocar Napoleão III. Este, longe de possuir a
clarividência do seu tio, reagiu bruscamente quando o seu exército não
estava pronto para a guerra. A aliança germano-prussiana mobiliza 800
mil homens contra 250 mil franceses. A Guerra Franco-prussiana seria
expedita. Em mês e meio, os exércitos prussianos capturaram Napoleão III
em Sedan e marcharam sobre Paris.
O
exército dos príncipes da Prússia e da Saxónia cercam Sedan. Uma parte
do exército francês que tentara reforçar as suas tropas em Bazaine e
Metz é obrigada a retrair-se.
Cortado em dois e inferior em número, o exército francês nada pode
fazer contra o prussiano. Napoleão III presente na cidade capitula e é
feito prisioneiro. Em Paris, a Assembleia Nacional proclamaria então o
fim do império e o nascimento da III República três anos mais tarde. O
imperador exilou-se em Inglaterra onde morreria.
Em
19 de Setembro de 1870 a capital Paris é cercada pelas tropas
prussianas. A cidade é bombardeada todos os dias. Os homens válidos, sob
o comando de Gambetta, são alistados para afrouxar o cerco que iria
durar cinco meses, debaixo de frio e fome, malgrado as diversas
tentativas de fuga dos parisienses. A França capitula em 28 de Janeiro
de 1871.
Ainda durante a guerra, os representantes dos Estados alemães reuniram-se
na Galeria dos Espelhos de Versalhes e proclamam o império alemão o II
Reich. O rei da Prússia, Guilherme, torna-se o novo imperador sob o nome
de Guilherme I. O império germânico compunha-se
então da Prússia, da Bavária, de Wurtemberg e da Saxónia. A unidade
política da Alemanha é conquistada. O armistício seria assinado 10 dias
mais tarde no mesmo local.
Entre
a capitulação de Paris em 28 de Janeiro e a assinatura do Tratado de
Frankfurt em 10 de Maio, assume a cidade um governo insurrecional,
principalmente de operários, conhecida como a Comuna de Paris. A Comuna
domina Paris de Março a Maio.
Nascida
inicialmente de um sentimento patriótico fruto da guerra franco-alemã
de 1870, assume rapidamente aspectos de um movimento revolucionário.
Aspirava a uma república baseada na igualdade social. Todavia, por falta
de consenso, de tempo, de meios, mas também porque deveria
confrontar-se com o governo instalado em Versalhes, viu-se finalmente
derrotada.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
Bismarck (figura central, de branco) proclama o Império Alemão no Palácio de Versalhes, óleo de Anton von Werner

***
14 de Julho de 1789: Revolução Francesa. Tomada da Bastilha. Os habitantes de Paris revoltam-se e assaltam a prisão, libertando os presos políticos. Começa a queda do Antigo Regime
Os
parisienses exasperados pelas restrições e o imobilismo do rei Luis XVI
revoltam-se. À procura de armas, invadem o Hôtel des Invalides e
depois dirigem-se à prisão da Bastilha. O governador De Launay que
possui as chaves da fortaleza é forçado a entregá-las aos insurgentes.
Todavia, certos revolucionários conseguem atravessar as muralhas e De
Launay ordena que se abra fogo. Mais de 80 parisienses são mortos. No
final da tarde, o governador capitula e uma hora mais tarde é fuzilado. A
tomada da Bastilha em 14 de Julho de 1789 assinala o ponto de partida
da Revolução Francesa, uma década de distúrbios políticos e terror, em
que o rei Luis XVI foi destronado e dezenas de milhares de pessoas
inclusive a sua mulher Maria Antonieta foram executadas na guilhotina. O
símbolo do arbítrio real cai. O Antigo Regime vai chegando ao fim.
A
Bastilha foi originalmente construída em 1370 como uma fortificação
para proteger as muralhas de Paris contra um ataque dos ingleses.
Transformou-se mais tarde numa fortaleza independente e o seu nome
“bastide” foi mudado para Bastille. A Bastilha foi utilizada
primeiramente como prisão estatal no século XVII e as suas celas foram
reservadas para os delinquentes das classes abastadas, para os
agitadores políticos e para os espiões. A maioria dos prisioneiros
estava ali sem que houvesse um julgamento sob ordens directas do rei.
Medindo 35 metros de altura e rodeada por um fosso de quase 3 metros de
largura, a Bastilha mostrava-se como uma imponente estrutura no panorama
urbano de Paris.
Por
ocasião do Verão de 1789, a França movia-se rapidamente em direcção à
revolução. Ocorreu severa escassez de alimentos naquele ano e o
ressentimento popular contra o governo do rei Luis XVI transformara-se
em verdadeira fúria. Em Junho, o Terceiro Estado que representava a
plebe e o baixo clero, declara-se em Assembleia Nacional e clama pela
redacção de uma constituição. Inicialmente parecendo ceder, Luis XVI
legaliza a Assembleia Nacional porém cerca Paris de tropas e demite
Jacques Necker, um ministro de Estado popular que defendia abertamente
as reformas. Em resposta, multidões começam a manifestar-se nas ruas de
Paris comandadas por líderes revolucionários.
Bernard-Jordan
de Launay, o governador militar da Bastilha, temia que a sua fortaleza
pudesse ser alvo dos revolucionários, tendo solicitado urgentes
reforços. Uma companhia de soldados mercenários suíços chegou em sete de
Julho a fim de reforçar a sua guarnição de 82 soldados. O Marquês de
Sade, um dos poucos prisioneiros da Bastilha à época, foi transferido
para um asilo de loucos após a tentativa de incitar uma pequena multidão
que se encontrava em frente à sua janela ao gritar: "Estão a massacrar
os prisioneiros; vocês precisam vir e libertá-los." Em 12 de Julho, as
autoridades reais transferiram 250 barris de pólvora para a Bastilha do
Arsenal de Paris, que era muito vulnerável ao ataque. Launay trouxe os
seus homens para dentro da Bastilha, erguendo as duas pontes levadiças.
Em
13 de Julho, revolucionários empunhando mosquetes começaram a atirar
aos soldados que montavam guarda às torres da Bastilha e procuraram
abrigar-se no pátio da fortaleza quando os homens de Launay passaram a
responder. Naquela noite, multidões irromperam no Arsenal de Paris e
outro depósito de armas e tomaram milhares de mosquetes. Ao amanhecer de
14 de Julho, uma grande multidão armada de mosquetes, espadas e
diversas armas improvisadas começou a reunir-se em torno da Bastilha.
Launay
recebeu uma delegação de líderes revolucionários, porém recusou-se a
entregar a fortaleza e as suas munições como lhe era exigido. Mais tarde
recebeu uma segunda delegação e prometeu não abrir fogo contra a
multidão. Para convencer os revolucionários, mostrou-lhes que os canhões
não estavam carregados. Ao invés de acalmar a agitada multidão, a
notícia de que os canhões não estavam activos encorajou um grupo de
homens a escalar o muro externo, chegar ao pátio interno e baixar a
ponte levadiça. Trezentos revolucionários invadiram a fortificação. Os
soldados de Launay assumiram uma posição defensiva. Quando a multidão
começou a tentar baixar a segunda ponte levadiça, Launay ordenou que os
seus homens abrissem fogo. Cerca de 100 manifestantes morreram ou
ficaram feridos.
Num
primeiro momento, o contingente de Launay mostrou-se capaz de conter e
afastar a multidão, contudo mais e mais parisienses convergiam para a
Bastilha. Cerca de 3 horas da tarde, chega uma companhia de desertores
do exército francês. Os soldados, ocultados pela cortina de fumo de uma
fogueira alimentada pelos manifestantes, posicionaram cinco canhões e
assestaram como alvo a Bastilha. Diante da circunstância, Launay ergueu
uma bandeira branca de rendição numa haste da fortaleza. Launay e os
seus homens foram feitos prisioneiros, a pólvora e os canhões foram
tomados e os sete prisioneiros da Bastilha, libertados. Ao chegarem ao
Hotel de Ville, onde a prisão de Launay deveria ser ditada por um
conselho revolucionário, o governador da Bastilha foi afastado dos seus
acompanhantes por gente do povo e morto.
A
Tomada da Bastilha simboliza o fim do Antigo Regime e proporcionou à
causa dos revolucionários franceses um irresistível momento. Apoiados
pela esmagadora maioria do exército francês, os revolucionários
assumiram o controlo de Paris e a partir daí dos arredores, forçando o
rei Luís XVI a aceitar um governo constitucional. Em 1792, a monarquia
foi abolida e Luís XVI e sua mulher Maria Antonieta foram levados à
guilhotina por traição em 1793.
Por
ordem do novo governo revolucionário, a Bastilha foi derrubada. Em 6 de
Fevereiro de 1790, a última pedra da odiada prisão-fortaleza foi
apresentada à Assembleia Nacional. Actualmente, - o dia 14 de Julho –
dia da Queda da Bastilha – é celebrado como o maior feriado de França.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)

Prisão do governador da Bastilha - Jean-Baptiste Lallemand
"É assim que vingamos os traidores" Gravura de 1789 que mostra os soldados que transportam as cabeças dos responsáveis pela Bastilha, entre eles o Marquês de Launay
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2018/07/14-de-julho-de-1789-revolucao-francesa.html
"É assim que vingamos os traidores" Gravura de 1789 que mostra os soldados que transportam as cabeças dos responsáveis pela Bastilha, entre eles o Marquês de Launay
*
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/07/14-de-julho-de-1789-revolucao-francesa.html?spref=fb&fbclid=IwAR0zqbtSeP8V3ivDii_0ybKyugGQFazimIgTdUZDy0IZj5bmx8CYu8O13as
***
18 de Brumário - Napoleão
ano VIII (09 de Novembro de 1799): Ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder
No
dia 9 de Novembro de 1799, Napoleão Bonaparte tomava o poder absoluto
em França, no episódio que ficaria conhecido como "o golpe do 18
Brumário". Até então, passados 10 anos do início da Revolução Francesa, o
país estava a ser governado pelo Directório. Ao derrubá-lo,
aproveitando-se do seu prestígio nos campos de batalha, o jovem general
consolidava o seu poder e abria caminho para coroar-se imperador, cinco
anos mais tarde.
De
volta da campanha do Egipto, Napoleão decidiu "salvar a República”,
ameaçada pelos monárquicos e pelos jacobinos (revolucionários radicais).
Num primeiro momento, os deputados do Conselho dos Quinhentos e do
Conselho de Anciãos recusaram-se a modificar a Constituição a favor do
general, mas, fortemente pressionados, acabaram por ceder e nomearam um
governo provisório com três cônsules com iguais poderes cada: Napoleão,
Sieyès e Roger Ducos. Não demorou até que Napoleão assumiu as funções de
Primeiro Cônsul e acumulou todos os poderes. Era o dia 18 Brumário (de
"bruma" ou "névoa" em francês) pelo calendário da Revolução Francesa –
correspondente a 9 de Novembro de 1799 pelo calendário gregoriano.
Napoleão
valera-se de sua acção no Egipto para estimular a imaginação dos
franceses com as imagens de pirâmides, camelos, dunas e a Pedra de
Roseta. No campo de batalha, teria feito o célebre discurso: “Soldados
de França, do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam”.
Dois anos antes, com a sua vitória sobre os exércitos ítalo-austríacos,
já havia adquirido o estatuto de herói nacional francês. O general
recebeu uma recepção apoteótica quando regressou a Paris e, em seguida,
começou a planear o golpe de Estado.
Ao
contrário de outros episódios da Revolução Francesa, o 18 Brumário foi
resultado de planeamento. Napoleão certificou-se de que os generais não
dispostos a acompanhá-lo, convenientemente, estivessem fora da cidade.
Lucien Bonaparte, irmão de Napoleão, fora eleito presidente do Conselho
dos Quinhentos poucos dias antes da data estipulada para o golpe. O
plano foi também calculadamente financiado pelos banqueiros e altos
membros da burguesia, que viram os seus interesses contrariados com a
Revolução. Parecia que Bonaparte não teria de enfrentar grandes
obstáculos.
Na
véspera do 18 Brumário, o Conselho dos Anciãos recebeu a informação –
falsa - de que estava em curso uma revolta dos jacobinos, marcando-se
uma reunião de emergência para as primeiras horas do dia. Um contingente
militar que incluiu Napoleão e outros 20 generais cercou o Palácio das
Tulherias, sede do governo. Durante a sessão, alguns deputados que
ficaram “convencidos” de que a conspiração realmente estava em andamento
denunciaram-na ao presidente. O Conselho então decidiu que no dia
seguinte se reuniria com os Quinhentos para enfrentar o problema. Foi
entregue a Napoleão o controle total da praça militar de Paris.
O
plano caminhava sem contratempos. Enquanto isso, dois dos cinco membros
do Directório - Moulin e Gohier - desconfiaram. Esgotadas as tentativas
de persuadi-los, Ducos e Sieyès (outros dois membros do Directório
metidos na conspiração) mantiveram-nos fechados no Palácio de
Luxemburgo.
O
castelo de Saint-Cloud, a 10 quilómetros de Paris, onde se reuniriam
separadamente os dois Conselhos, amanheceu cercado por soldados. Houve
resistência dos jacobinos. O Conselho dos Anciãos estava relutante, e o
dos Quinhentos manifestou-se, de repente, ardorosamente republicano.
Vendo a situação em perigo, Napoleão resolveu enfrentá-la pessoalmente.
Napoleão
não era bom orador e o seu discurso não conseguiu convencer os anciãos
relutantes. Dirigiu-se aos Quinhentos, onde encontrou uma séria
oposição. Napoleão acusou os seus opositores de tentativa de
assassinato. Lucien Bonaparte confirmou a tentativa de assassinar o
irmão. As tropas, “irritadas”, invadiram o castelo. Pressionados e
intimidados, os deputados votaram.
Napoleão,
Sieyès e Ducos foram nomeados respectivamente Primeiro, Segundo e
Terceiro cônsules, inaugurando o período conhecido como "Consulado". Em
31 de Dezembro, Napoleão substituiu Sieyès e Ducos pelos maleáveis
cônsules Cambaceres e Lebrun. Nessa oportunidade, teria declarado: “A
Revolução acabou!”. Em 1804, coroou-se imperador dos franceses.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (Imagens)
O General Bonaparte no Conselho dos Quinhentos- François Bouchot
A Sala dos Quinhentos em Saint-Cloud - Jacques Sablet
**
O Golpe do 18 Brumário foi um golpe de estado ocorrido na França, e que representou o fim da Revolução Francesa, a ascensão de Napoleão Bonaparte ao
poder e a consolidação dos interesses burgueses no país. No calendário
revolucionário francês, este dia ocorreu em 18 de brumário do ano IV (9
de novembro de 1799 no calendário gregoriano).
Passados
10 anos do início da Revolução Francesa, o país vinha sendo governado
por um colegiado de líderes chamado de Diretório. Napoleão havia
retornado de sua desastrosa campanha no Egito, e a França sofria com
revoltas internas, além de uma ameaça real de invasão da Segunda
Coalizão (forças reunidas pelos monarcas europeus liderados pelos
Habsburgo e pela Rússia para acabar com a França Revolucionária).
Num
primeiro momento, os deputados do Conselho dos Quinhentos e do Conselho
de Anciãos se recusam a modificar a Constituição, mas, em face da forte
pressão a que foram submetidos, acabam cedendo e nomeando um governo
provisório que recebeu o nome de Consulado, onde três membros exerciam o
poder de modo igualitário: Emmanuel Joseph Sieyès, Napoleão Bonaparte e
Roger Ducos. Pouco depois, o Consulado seria reformado e deixaria de
ser provisório, recebendo outros dois membros, Jean Jacques Régis de
Cambacérès e Charles-François Lebrun, além de Napoleão, que permaneceu
como cônsul.
Logo,
porém, o futuro imperador começa a acumular poder em detrimento dos
outros dois componentes, e acaba por se tornar o Primeiro Cônsul,
passando a governar sozinho no dia 18 brumário (de "bruma" ou "névoa" em
francês). Napoleão utilizou muito de seu prestígio nos campos de
batalha para derrubar seus opositores e consolidar seu poder, abrindo
assim caminho para coroar-se imperador cinco anos mais tarde. Mesmo com a
grande instabilidade política e econômica que havia naquele momento,
Napoleão se valeu do forte apoio recebido da burguesia que defendia um
governo forte para pacificar o país e gerar um ambiente de ordem. Alguns
políticos astutos do Diretório deram o apoio necessário a Napoleão (ao
contrário de outros, que se opuseram à sua tomada do poder) e propuseram
o uso da força militar para que ele assumisse o governo,
pois perceberam que ele era o homem certo para consolidar o novo regime.
Assim foi feito, e numa ação eficaz, apesar de tumultuada, Napoleão
fechou a Assembléia do Diretório. Era o início do primeiro dos três
períodos de Napoleão como governante da França, seguindo-se o Império e
mais tarde, o Governo dos Cem Dias.
https://www.infoescola.com/historia/golpe-do-18-brumario/
*via wikipédia
O golpe de Estado de 18 de brumário do ano VIII (brumário, palavra derivada de "bruma" ou "névoa", em francês - pelo calendário da Revolução Francesa, correspondente a 9 de novembro de 1799 pelo calendário gregoriano)[1] iniciou a era do governo napoleônico na França.
Os admiradores de Napoleão criaram um jornal em Paris que divulgava a imagem de um general patriota, invencível e adorado pelos seus soldados. Nacionalismo,
glórias militares, ideais de igualdade fascinavam os franceses.
Napoleão valeu-se de sua ação no Egito e de sua vitória sobre os
exércitos ítalo-austríacos para formular sua imagem de herói nacional
francês. O general recebeu uma recepção apoteótica quando retornou a
Paris e, em seguida, começou a planejar o golpe de Estado.[1] Napoleão,
ainda que jovem, destacou-se como um dos mais respeitáveis generais do
exército francês durante a Revolução. Sua habilidade na guerra devia-se
principalmente à verdadeira reforma que empreendeu com suas tropas,
concedendo vantagens, motivação, profissionalização e, sobretudo, a
infusão de um espírito nacional nos soldados. O exército de Napoleão foi
o primeiro exército popular da história ligado à ideia de nação, ao
contrário dos exércitos tradicionais, associados à aristocracia.[2]
Em plena crise generalizada, os promotores do golpe derrubaram o Diretório e criaram o Consulado,
estabelecendo um novo regime na França, protagonizado pelo jovem
general Napoleão Bonaparte, que assumiu o cargo de primeiro-cônsul. O
golpe foi acolhido com entusiasmo pela burguesia, que aspirava à paz, à
ordem interna e à normalização das actividades. Os conspiradores do
golpe não temiam o general Bonaparte, escolhido para liderar o
movimento, pois acreditavam que acabariam por reduzir a sua importância.
A burguesia e os políticos astutos do Diretório perceberam
que o general Bonaparte era o homem certo para consolidar o novo
regime. Propuseram-lhe que utilizasse a força do exército para assumir o
governo. Assim foi feito. Numa ação eficaz, apesar de tumultuada,
Napoleão fechou a Assembleia do Diretório. Foi o golpe que ocorreu no
dia 18 do mês de brumário do
ano VIII, que marcaria o início de um período em que a burguesia
consolidaria seu poder económico. Napoleão pôde, assim, reprimir tanto
os revolucionários que estavam à esquerda quanto os monarquistas que
estavam à direita política.[2]
Após o Golpe do 18 de Brumário começa o regime do Consulado, quando a burguesia,
ansiosa por dar um fim à instabilidade política, que já durava dez anos
(de 1789 a 1799), concentra o poder na mão de três cônsules: Napoleão Bonaparte, Roger Ducos, e Emmanuel Joseph Sieyès.
**21 de Janeiro de 1793: Revolução Francesa. Execução de Luís XVI na guilhotina.
Às
10h20, de 21 de Janeiro de 1793, na Praça da Revolução (actual Place de
La Concorde), Luís XVI, 39 anos, ex-rei da França, é guilhotinado um
dia após ser condenado por conspiração com potências estrangeiras e
sentenciado à morte pela Convenção Nacional Francesa.
Preso nas Tulherias com a sua família desde o mês de Agosto de 1792, a Convenção acusa-o de ser um traidor da Nação. As suas derradeiras palavras: “Franceses, eu morro inocente; perdoo os meus inimigos; desejo que minha morte seja...” No entanto, o final da sua frase seria coberto pelo rufar do tambor anunciando a sua execução. Em 16 de Outubro do mesmo ano seria vez da sua mulher Maria Antonieta ser executada na guilhotina em praça pública.
Luís XVI havia assumido o trono francês em 1774 e desde o começo mostrou-se incapaz de tratar dos graves problemas financeiros que herdara de seu avô, o rei Luís XV. Em 1789, numa desesperada tentativa de resolver a aguda crise por que passava o país, Luís XVI convoca os Estados-Gerais, uma assembleia nacional que representava os três “Estados” do povo francês – a nobreza, o clero e a população comum e que não se haviam reunido desde o longínquo ano de 1614.
Ao longo da década de 1780, vários ministros tentaram ampliar a cobrança de impostos para assim tentar ultrapassar o quadro critico do país. No entanto, o conservadorismo das autoridades reais e a conivência de grande parte da nobreza e do clero impediam a realização dessas mudanças.
O primeiro estado, o clero, contava com cerca de 120 mil religiosos divididos em alto clero (bispos e abades, muitos deles proprietários de terras) e o baixo clero (padres, monges e abades de pouca condição). O segundo estado, a nobreza, dividia-se entre a nobreza provincial (proprietária de terras) e a nobreza de toga (burgueses que compravam títulos de nobreza da Coroa). O terceiro estado era composto pela esmagadora maioria da população. No topo, a burguesia que se dividia em três categorias: a alta burguesia (banqueiros e grandes empresários). Em seguida, vinha a média burguesia (empresários, professores, profissionais liberais e advogados). Por fim, a pequena burguesia (artesãos, pequenos comerciantes, artistas). Na base do terceiro estado encontrava-se toda a classe trabalhadora francesa.
Preso nas Tulherias com a sua família desde o mês de Agosto de 1792, a Convenção acusa-o de ser um traidor da Nação. As suas derradeiras palavras: “Franceses, eu morro inocente; perdoo os meus inimigos; desejo que minha morte seja...” No entanto, o final da sua frase seria coberto pelo rufar do tambor anunciando a sua execução. Em 16 de Outubro do mesmo ano seria vez da sua mulher Maria Antonieta ser executada na guilhotina em praça pública.
Luís XVI havia assumido o trono francês em 1774 e desde o começo mostrou-se incapaz de tratar dos graves problemas financeiros que herdara de seu avô, o rei Luís XV. Em 1789, numa desesperada tentativa de resolver a aguda crise por que passava o país, Luís XVI convoca os Estados-Gerais, uma assembleia nacional que representava os três “Estados” do povo francês – a nobreza, o clero e a população comum e que não se haviam reunido desde o longínquo ano de 1614.
Ao longo da década de 1780, vários ministros tentaram ampliar a cobrança de impostos para assim tentar ultrapassar o quadro critico do país. No entanto, o conservadorismo das autoridades reais e a conivência de grande parte da nobreza e do clero impediam a realização dessas mudanças.
O primeiro estado, o clero, contava com cerca de 120 mil religiosos divididos em alto clero (bispos e abades, muitos deles proprietários de terras) e o baixo clero (padres, monges e abades de pouca condição). O segundo estado, a nobreza, dividia-se entre a nobreza provincial (proprietária de terras) e a nobreza de toga (burgueses que compravam títulos de nobreza da Coroa). O terceiro estado era composto pela esmagadora maioria da população. No topo, a burguesia que se dividia em três categorias: a alta burguesia (banqueiros e grandes empresários). Em seguida, vinha a média burguesia (empresários, professores, profissionais liberais e advogados). Por fim, a pequena burguesia (artesãos, pequenos comerciantes, artistas). Na base do terceiro estado encontrava-se toda a classe trabalhadora francesa.
À parte de formar um estado misto com agudos conflitos entre si, somente os integrantes do terceiro estado arcavam com as taxas e impostos que sustentavam a monarquia francesa.
No hemiciclo da Assembleia Geral, o primeiro estado, sentado à direita, contava com 291 cadeiras; o segundo, no centro, com 270; o terceiro, posicionado à esquerda, contava com 578 cadeiras. Como o voto era dado por Estado, a coligação entre nobreza e clero impedia a aprovação de leis mais avançadas.
O Terceiro
Estado pretendia a adopção de voto por cabeça o que garantiria um amplo
leque de reformas. Temendo as consequências o rei ameaçou dissolver os
Estados gerais. Revoltados, os membros do Terceiro Estado reuniram-se
nos espaços do Jogo da Péla, de onde exigiram a convocação de uma
Assembleia Nacional. Sem saída, o monarca decidiu acatar o
estabelecimento de uma Assembleia Nacional que aprovaria uma nova
Constituição.
Diante
da insuportável situação económica vivida, a população começa a
mobilizar-se. No dia 14 de Julho de 1789, uma grande multidão invadiu a
Bastilha e libertaram todos aqueles que eram considerados inimigos da
realeza. Era o começo da Revolução Francesa.
Em
Outubro de 1789, a multidão marchou sobre Versalhes obrigando o casal
real a mudar-se para as Tulherias. Em Junho de 1791, forçaram os reis a
fugir para a Áustria. Durante a viagem, Luís e Maria foram detidos em
Varennes e reconduzidos a Paris. Ali, Luís XVI teve de aceitar a
Constituição de 1791, que o reduziu a mera figura decorativa.
Em
Agosto de 1792, os reis foram presos pelos ‘sans-cullottes’ e levados à
Conciergerie. Em Setembro, a monarquia é abolida pela Convenção, que
substituíra a Assembleia Nacional.
Em
Janeiro seguinte, Luís foi considerado culpado e condenado à morte por
estreita maioria. Em 21 de Janeiro de 1793, caminhou imperturbável para a
guilhotina.
Fontes: DW
wikipedia(imagens)
A execução de Luís XVI
Luís XVI preso na Tour du Temple - Jean-François Garneray
A execução de Luís XVI
**
Marx
avante
15maio2008
http://www.avante.pt/pt/1798/emfoco/24609/
Karl Marx nasceu há 190 anos
Genial teórico e dirigente revolucionário
Teórico
notável, Karl Marx, sempre com a próxima colaboração do seu amigo e
colaborador Friedrich Engels, foi também um eminente dirigente
proletário. Nestas páginas, lembramos alguns momentos fundamentais da
vida e da obra destes dois geniais pensadores revolucionários, cujo
contributo para a luta revolucionária do proletariado é único.
Karl
Marx nasceu a 5 de Maio de 1818, em Trier, na província renana da
Prússia, filho do advogado Heinrich Marx e de Henriette Pressburg. Dois
anos e meio depois, na mesma província, mas em Barmen, nascia aquele que
se tornaria seu fiel amigo e próximo colaborador, Friedrich Engels,
filho do industrial têxtil Friedrich Engels e de Elisabeth van Haar.
Entre 1930 e 1935 Marx estuda no liceu em Trier. Em Outubro do ano seguinte, vai para a Universidade de Berlim, onde se inscrevera na Faculdade de Direito. Mas é a filosofia que o atrai e, em 1841, recebe o título de doutor em Filosofia, pela Faculdade de Iena. A sua tese de doutoramento é intitulada Diferença da Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro.
Nos escritos e no percurso do jovem Marx, é já possível antever a sua fidelidade à causa revolucionária, que marcaria os anos seguintes da sua vida. Em 1935, em Reflexões de um jovem perante a escolha de uma profissão, escreve: «Se tivermos escolhido a posição na vida na qual mais podemos fazer pela humanidade, não haverá dificuldades que nos possam vergar, porque são sacrifícios para o bem de todos; não desfrutamos de pequenas alegrias limitadas e egoístas, pelo contrário, a nossa felicidade pertence a milhões de homens.»
Primeiros passos revolucionários
1842 é um ano decisivo para Karl Marx. No início desse ano, faz a sua primeira intervenção como publicista, com o artigo Observações sobre o mais recente decreto prussiano sobre a censura. Em Maio, colabora já com a Gazeta Renana, onde defende os interesses da «massa pobre, política e socialmente sem posses». Esta colaboração dá frutos e, em Outubro, torna-se chefe de redacção do jornal. Nos seus artigos, esboça-se já a passagem do idealismo para o materialismo, da democracia revolucionária para o comunismo.
Em Novembro, conhece o homem que se tornaria o seu mais próximo amigo e colaborador. A caminho de Inglaterra, Engels visita a redacção da Gazeta Renana.
Entre Maio e Outubro de 1843, Karl Marx vive em Kreuznach, onde escreve Para a Crítica da Filosofia de Hegel. Entretanto, em Junho, casa com Jenny von Westphalen. No final de Outubro, o casal chega a Paris, onde Marx frequenta reuniões de operários e entra em contacto com a Liga dos Justos.
No ano seguinte, em Fevereiro, sai o número duplo da revista Anais Franco-Alemães. Os artigos de Marx Para a Questão Judaica e Para a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução, traduzem a passagem definitiva para o materialismo e o comunismo.
Entre Abril e Agosto, trabalha nos Manuscritos Económico-Filosóficos. Nesta obra afirma, por exemplo, que «o operário tornou-se uma mercadoria e é uma sorte para ele quando consegue encontrar quem a compre» e que «quanto mais objectos o operário produz, tanto menos pode possuir e tanto mais cai sob a dominação do seu produto, do capital». A 28 de Agosto encontra-se novamente com Engels, desta vez em Paris. É neste segundo encontro que se inicia verdadeiramente a sua grande amizade e colaboração. Começam a escrever a sua primeira obra conjunta, A Sagrada Família, ou a Crítica da Crítica Crítica. Contra Bruno Bauer e Consortes.
Dirigentes proletários
O ano de 1845 começa com a expulsão de Marx de França. É já em Bruxelas que redige as famosas Teses sobre Feuerbach, que Engels considerará o «primeiro documento onde está consignado o germe genial da nova visão do mundo». É nesta obra que Karl Marx afirma que «os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversas formas; trata-se de o transformar».
Entre Julho e Agosto, Marx e Engels viajam para Inglaterra, onde estabelecem contactos com os dirigentes do cartismo e com os dirigentes londrinos da Liga dos Justos. No final do ano, começam a escrever A Ideologia Alemã. É aqui que formulam a tese de que o Estado «nada mais é do que a forma de organização que os burgueses se dão, tanto externa como internamente, para garantia mútua da sua propriedade e dos seus interesses».
No início de 1846, Karl Marx e Friedrich Engels fundam o Comité de Correspondência Comunista de Bruxelas, preparando o terreno para a criação de uma organização proletária internacional. É nesse período que aceitam o convite do comité londrino da Liga dos Justos para aderirem à organização e colaborarem na sua reorganização e elaboração de um programa.
No ano seguinte, Marx escreve a obra Miséria da Filosofia, considerada por Lénine uma das «primeiras obras do marxismo maduro». É nesta obra que afirma que «nas mesmas relações nas quais se produz a riqueza se produz também a miséria».
Nesse mesmo ano, Engels participa, em Londres, no Congresso da Liga dos Justos. Marx não está presente por razões económicas. A liga foi reestruturada e passou a designar-se Liga dos Comunistas. A divisa adoptada é de Marx e Engels: «Proletários de todos os países, uni-vos!»
No final de 1847, dá-se o segundo Congresso da Liga dos Comunistas em Londres. Marx e Engels tomam parte activa nos trabalhos. O Congresso encarrega-os da elaboração do Programa e aprova os Estatutos.
Em Dezembro, Marx dá conferências na Associação dos Operários Alemães de Bruxelas sobre economia política. Daqui nasceria mais tarde a obra Trabalho Assalariado e Capital.
.
Tempos de revolução
1848 inicia-se com a publicação, em Londres, do Manifesto do Partido Comunista, primeiro documento programático do marxismo (ver páginas seguintes ). Em Março, Marx e Jenny são presos em Bruxelas e libertados 48 horas depois. Marx e a família deixam a Bélgica e rumam a França onde, coincidindo com a publicação do Manifesto, eclodira a revolução democrática burguesa. A luta nas barricadas conduziu à proclamação da República.
No início de Abril, Marx e Engels vão para a Alemanha, onde se desencadeara também a revolução, para participarem directamente nos acontecimentos. No último dia de Maio, é publicado o primeiro número da Nova Gazeta Renana. Marx é o director e Engels um dos redactores. Anos mais tarde, Lénine referir-se-ia a este jornal, como «o melhor, insuperável órgão do proletariado revolucionário». Engels caracterizaria desta forma o trabalho no jornal nesses tempos de revolução: «Vê-se o efeito de cada palavra diante dos olhos, vê-se como os artigos caem como se fossem granadas e como a carga explosiva rebenta».
A 16 de Maio de 1849, as autoridades prussianas expulsam Marx. Engels é perseguido por ter participado no levantamento de Erberfeld.
Após uma breve passagem por Paris, de onde também seria expulso, Marx muda-se para Londres em Agosto. A família junta-se a ele em Setembro e Engels chega dois meses depois.
O longo exílio
Em Março de 1850, Marx e Engels redigem a Mensagem da Direcção Central da Liga dos Comunistas. Neste documento, tiram-se as lições da luta do proletariado na revolução passada e traça-se o programa da sua acção futura. A Nova Gazeta Renana inicia a publicação de uma série de artigos de Marx sob o título «De 1848 a 1849». Mais tarde, estes textos serão compilados e publicados por Engels com o título As Lutas de Classes de 1848 a 1850. Na Primavera deste ano, Marx entrega-se aos seus trabalhos de Economia Política. Engels vai para Manchester como empregado da casa Ermem e Engels, o que lhe permite prestar uma ajuda regular a Marx e à família.
Em 1851, Marx e Engels começam a colaborar com diversos jornais ingleses e norte-americanos: Notes to the People e The People's Paper e, nos Estados Unidos da América, o New York Daily Tribune. Entre Dezembro e Março do ano seguinte, Marx redige O 18 Brumário de Louis Bonaparte.
No final desse ano, entrega-se ao folheto Revelações sobre o Processo dos Comunistas em Colónia.
Entre 1861 e 1863, Marx trabalha no manuscrito que comporta todas as partes do futuro O Capital, incluindo a da crítica histórica «Teoria sobre a Mais-Valia». Entre Agosto desse ano e Dezembro de 1865, redige uma nova versão, insistindo nos problemas que constituirão os volumes II e III.
A Internacional
A 28 de Setembro de 1864, é fundada, numa reunião pública em Saint-Martin's Hall, em Londres, a Associação Internacional dos Trabalhadores, que passaria à história como a I Internacional. Marx é eleito para o Comité Provisório, futuro Conselho Geral. Um mês depois, redige a Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores e os Estatutos provisórios. Na Mensagem, define os objectivos da classe operária: «conquistar o poder político.» Nos Estatutos, surge a famosa consigna: «A emancipação das classes operárias tem de ser conquistada pelas próprias classes operárias.»
Nos dias 20 e 27 e Junho de 1865, Marx profere conferências nas reuniões do Conselho Geral, que serão publicadas mais tarde com o título Salário, Preço e Lucro. Nestes textos, afirma, por exemplo, que os sindicatos «fracassam geralmente por se limitarem a uma guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente, em vez de simultaneamente o tentarem mudar, em vez de usarem as suas forças organizadas como uma alavanca para a emancipação final da classe operária, isto é, para a abolição última do sistema de salários».
Em Agosto de 1866, Marx redige as Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório. As Diferentes Questões, destinadas aos participantes no Congresso da I Internacional, que se realizaria no mês seguinte.
... e O Capital
No dia 14 de Setembro de 1867, surge O Capital, obra económica fundamental de Marx. Entre Outubro desse ano e Junho do ano seguinte, Engels escreve várias recensões da obra, para melhor a difundir. Num destes textos, Engels realça que «desde que há no mundo capitalistas e operários não apareceu nenhum livro que fosse de tanta importância para os operários como este que temos diante de nós. A relação entre capital e trabalho, o gonzo sobre que gira todo o nosso sistema de sociedade de hoje, está aqui pela primeira vez desenvolvida».
O Congresso da I Internacional, reunido em Bruxelas entre 6 e 13 de Setembro de 1868, aprova uma resolução onde se aconselha os operários de todos os países a estudarem O Capital de Marx. No ano seguinte, é fundado em Eisenach o Partido Social-Democrata da Alemanha, o primeiro partido de inspiração marxista.
A 20 de Setembro de 1870, Engels é eleito por unanimidade para o Conselho Geral da I Internacional. Desempenhará as funções de secretário-correspondente para a Bélgica, Itália, Espanha, Portugal e Dinamarca. Engels dirá mais tarde que «descrever a actividade de Marx na Internacional significaria escrever a história dessa mesma associação».
A Comuna e os últimos anos
Durante a Comuna de Paris, em 1871, Marx e Engels organizam importantes manifestações de trabalhadores a favor da Comuna. Em contacto permanente com a Comuna, Marx e Engels prestam ajuda aos seus membros e organizam uma vasta campanha de apoio.
Após o esmagamento da Comuna, Marx escreve A Guerra Civil em França, apelo do Conselho Geral da Internacional, no qual mostra o alcance histórico e universal da Comuna de Paris enquanto primeira tentativa de instauração da ditadura do proletariado. Na ocasião, escreve que a «classe operária não pode apossar-se simplesmente da maquinaria de Estado já pronta e fazê-la funcionar para os seus próprios objectivos». O «verdadeiro segredo» da Comuna de Paris era, para Marx, o seguinte: «ela era essencialmente um governo da classe operária, o produto da luta de classe produtora contra a apropriadora, a forma política, finalmente descoberta, com a qual se realiza a emancipação económica do trabalho».
Nos anos seguintes, Marx, com Engels, prossegue a sua actividade revolucionária. Em 1875, envia para a Alemanha as suas notas críticas ao projecto de programa do futuro partido operário alemão unificado (e que seria publicado por Engels em 1891 sob o título Crítica ao Progrma de Gotha). Nestas notas, Marx destaca que «entre a sociedade capitalista e a comunista fica o período da transformação revolucionária de uma na outra. Ao qual corresponde também um período político de transição cujo Estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado».
Em 1879, Marx e Engels colaboram com o jornal clandestino do Partido Social-Democrata Alemão e no ano seguinte Marx trabalha nos livros II e III de O Capital. Em Maio, numa nota biográfica de Engels, considera o companheiro «um dos mais eminentes representantes do socialismo contemporâneo».
Em 1882, Marx e Engels escrevem um prefácio à edição russa do Manifesto, no qual afirmam já que a Rússia «forma a vanguarda da acção revolucionária na Europa».
Nos últimos anos da sua vida, Marx dedicou-se ao aprofundamento dos seus estudos de Economia Política, enveredando também, por outras áreas, como análise matemática, agroquímica e geologia, ou química orgânica e mineral.
A 14 de Março de 1883, Karl Marx morre em Londres.
***Entre 1930 e 1935 Marx estuda no liceu em Trier. Em Outubro do ano seguinte, vai para a Universidade de Berlim, onde se inscrevera na Faculdade de Direito. Mas é a filosofia que o atrai e, em 1841, recebe o título de doutor em Filosofia, pela Faculdade de Iena. A sua tese de doutoramento é intitulada Diferença da Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro.
Nos escritos e no percurso do jovem Marx, é já possível antever a sua fidelidade à causa revolucionária, que marcaria os anos seguintes da sua vida. Em 1935, em Reflexões de um jovem perante a escolha de uma profissão, escreve: «Se tivermos escolhido a posição na vida na qual mais podemos fazer pela humanidade, não haverá dificuldades que nos possam vergar, porque são sacrifícios para o bem de todos; não desfrutamos de pequenas alegrias limitadas e egoístas, pelo contrário, a nossa felicidade pertence a milhões de homens.»
Primeiros passos revolucionários
1842 é um ano decisivo para Karl Marx. No início desse ano, faz a sua primeira intervenção como publicista, com o artigo Observações sobre o mais recente decreto prussiano sobre a censura. Em Maio, colabora já com a Gazeta Renana, onde defende os interesses da «massa pobre, política e socialmente sem posses». Esta colaboração dá frutos e, em Outubro, torna-se chefe de redacção do jornal. Nos seus artigos, esboça-se já a passagem do idealismo para o materialismo, da democracia revolucionária para o comunismo.
Em Novembro, conhece o homem que se tornaria o seu mais próximo amigo e colaborador. A caminho de Inglaterra, Engels visita a redacção da Gazeta Renana.
Entre Maio e Outubro de 1843, Karl Marx vive em Kreuznach, onde escreve Para a Crítica da Filosofia de Hegel. Entretanto, em Junho, casa com Jenny von Westphalen. No final de Outubro, o casal chega a Paris, onde Marx frequenta reuniões de operários e entra em contacto com a Liga dos Justos.
No ano seguinte, em Fevereiro, sai o número duplo da revista Anais Franco-Alemães. Os artigos de Marx Para a Questão Judaica e Para a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução, traduzem a passagem definitiva para o materialismo e o comunismo.
Entre Abril e Agosto, trabalha nos Manuscritos Económico-Filosóficos. Nesta obra afirma, por exemplo, que «o operário tornou-se uma mercadoria e é uma sorte para ele quando consegue encontrar quem a compre» e que «quanto mais objectos o operário produz, tanto menos pode possuir e tanto mais cai sob a dominação do seu produto, do capital». A 28 de Agosto encontra-se novamente com Engels, desta vez em Paris. É neste segundo encontro que se inicia verdadeiramente a sua grande amizade e colaboração. Começam a escrever a sua primeira obra conjunta, A Sagrada Família, ou a Crítica da Crítica Crítica. Contra Bruno Bauer e Consortes.
Dirigentes proletários
O ano de 1845 começa com a expulsão de Marx de França. É já em Bruxelas que redige as famosas Teses sobre Feuerbach, que Engels considerará o «primeiro documento onde está consignado o germe genial da nova visão do mundo». É nesta obra que Karl Marx afirma que «os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversas formas; trata-se de o transformar».
Entre Julho e Agosto, Marx e Engels viajam para Inglaterra, onde estabelecem contactos com os dirigentes do cartismo e com os dirigentes londrinos da Liga dos Justos. No final do ano, começam a escrever A Ideologia Alemã. É aqui que formulam a tese de que o Estado «nada mais é do que a forma de organização que os burgueses se dão, tanto externa como internamente, para garantia mútua da sua propriedade e dos seus interesses».
No início de 1846, Karl Marx e Friedrich Engels fundam o Comité de Correspondência Comunista de Bruxelas, preparando o terreno para a criação de uma organização proletária internacional. É nesse período que aceitam o convite do comité londrino da Liga dos Justos para aderirem à organização e colaborarem na sua reorganização e elaboração de um programa.
No ano seguinte, Marx escreve a obra Miséria da Filosofia, considerada por Lénine uma das «primeiras obras do marxismo maduro». É nesta obra que afirma que «nas mesmas relações nas quais se produz a riqueza se produz também a miséria».
Nesse mesmo ano, Engels participa, em Londres, no Congresso da Liga dos Justos. Marx não está presente por razões económicas. A liga foi reestruturada e passou a designar-se Liga dos Comunistas. A divisa adoptada é de Marx e Engels: «Proletários de todos os países, uni-vos!»
No final de 1847, dá-se o segundo Congresso da Liga dos Comunistas em Londres. Marx e Engels tomam parte activa nos trabalhos. O Congresso encarrega-os da elaboração do Programa e aprova os Estatutos.
Em Dezembro, Marx dá conferências na Associação dos Operários Alemães de Bruxelas sobre economia política. Daqui nasceria mais tarde a obra Trabalho Assalariado e Capital.
.
Tempos de revolução
1848 inicia-se com a publicação, em Londres, do Manifesto do Partido Comunista, primeiro documento programático do marxismo (ver páginas seguintes ). Em Março, Marx e Jenny são presos em Bruxelas e libertados 48 horas depois. Marx e a família deixam a Bélgica e rumam a França onde, coincidindo com a publicação do Manifesto, eclodira a revolução democrática burguesa. A luta nas barricadas conduziu à proclamação da República.
No início de Abril, Marx e Engels vão para a Alemanha, onde se desencadeara também a revolução, para participarem directamente nos acontecimentos. No último dia de Maio, é publicado o primeiro número da Nova Gazeta Renana. Marx é o director e Engels um dos redactores. Anos mais tarde, Lénine referir-se-ia a este jornal, como «o melhor, insuperável órgão do proletariado revolucionário». Engels caracterizaria desta forma o trabalho no jornal nesses tempos de revolução: «Vê-se o efeito de cada palavra diante dos olhos, vê-se como os artigos caem como se fossem granadas e como a carga explosiva rebenta».
A 16 de Maio de 1849, as autoridades prussianas expulsam Marx. Engels é perseguido por ter participado no levantamento de Erberfeld.
Após uma breve passagem por Paris, de onde também seria expulso, Marx muda-se para Londres em Agosto. A família junta-se a ele em Setembro e Engels chega dois meses depois.
O longo exílio
Em Março de 1850, Marx e Engels redigem a Mensagem da Direcção Central da Liga dos Comunistas. Neste documento, tiram-se as lições da luta do proletariado na revolução passada e traça-se o programa da sua acção futura. A Nova Gazeta Renana inicia a publicação de uma série de artigos de Marx sob o título «De 1848 a 1849». Mais tarde, estes textos serão compilados e publicados por Engels com o título As Lutas de Classes de 1848 a 1850. Na Primavera deste ano, Marx entrega-se aos seus trabalhos de Economia Política. Engels vai para Manchester como empregado da casa Ermem e Engels, o que lhe permite prestar uma ajuda regular a Marx e à família.
Em 1851, Marx e Engels começam a colaborar com diversos jornais ingleses e norte-americanos: Notes to the People e The People's Paper e, nos Estados Unidos da América, o New York Daily Tribune. Entre Dezembro e Março do ano seguinte, Marx redige O 18 Brumário de Louis Bonaparte.
No final desse ano, entrega-se ao folheto Revelações sobre o Processo dos Comunistas em Colónia.
Entre 1861 e 1863, Marx trabalha no manuscrito que comporta todas as partes do futuro O Capital, incluindo a da crítica histórica «Teoria sobre a Mais-Valia». Entre Agosto desse ano e Dezembro de 1865, redige uma nova versão, insistindo nos problemas que constituirão os volumes II e III.
A Internacional
A 28 de Setembro de 1864, é fundada, numa reunião pública em Saint-Martin's Hall, em Londres, a Associação Internacional dos Trabalhadores, que passaria à história como a I Internacional. Marx é eleito para o Comité Provisório, futuro Conselho Geral. Um mês depois, redige a Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores e os Estatutos provisórios. Na Mensagem, define os objectivos da classe operária: «conquistar o poder político.» Nos Estatutos, surge a famosa consigna: «A emancipação das classes operárias tem de ser conquistada pelas próprias classes operárias.»
Nos dias 20 e 27 e Junho de 1865, Marx profere conferências nas reuniões do Conselho Geral, que serão publicadas mais tarde com o título Salário, Preço e Lucro. Nestes textos, afirma, por exemplo, que os sindicatos «fracassam geralmente por se limitarem a uma guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente, em vez de simultaneamente o tentarem mudar, em vez de usarem as suas forças organizadas como uma alavanca para a emancipação final da classe operária, isto é, para a abolição última do sistema de salários».
Em Agosto de 1866, Marx redige as Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório. As Diferentes Questões, destinadas aos participantes no Congresso da I Internacional, que se realizaria no mês seguinte.
... e O Capital
No dia 14 de Setembro de 1867, surge O Capital, obra económica fundamental de Marx. Entre Outubro desse ano e Junho do ano seguinte, Engels escreve várias recensões da obra, para melhor a difundir. Num destes textos, Engels realça que «desde que há no mundo capitalistas e operários não apareceu nenhum livro que fosse de tanta importância para os operários como este que temos diante de nós. A relação entre capital e trabalho, o gonzo sobre que gira todo o nosso sistema de sociedade de hoje, está aqui pela primeira vez desenvolvida».
O Congresso da I Internacional, reunido em Bruxelas entre 6 e 13 de Setembro de 1868, aprova uma resolução onde se aconselha os operários de todos os países a estudarem O Capital de Marx. No ano seguinte, é fundado em Eisenach o Partido Social-Democrata da Alemanha, o primeiro partido de inspiração marxista.
A 20 de Setembro de 1870, Engels é eleito por unanimidade para o Conselho Geral da I Internacional. Desempenhará as funções de secretário-correspondente para a Bélgica, Itália, Espanha, Portugal e Dinamarca. Engels dirá mais tarde que «descrever a actividade de Marx na Internacional significaria escrever a história dessa mesma associação».
A Comuna e os últimos anos
Durante a Comuna de Paris, em 1871, Marx e Engels organizam importantes manifestações de trabalhadores a favor da Comuna. Em contacto permanente com a Comuna, Marx e Engels prestam ajuda aos seus membros e organizam uma vasta campanha de apoio.
Após o esmagamento da Comuna, Marx escreve A Guerra Civil em França, apelo do Conselho Geral da Internacional, no qual mostra o alcance histórico e universal da Comuna de Paris enquanto primeira tentativa de instauração da ditadura do proletariado. Na ocasião, escreve que a «classe operária não pode apossar-se simplesmente da maquinaria de Estado já pronta e fazê-la funcionar para os seus próprios objectivos». O «verdadeiro segredo» da Comuna de Paris era, para Marx, o seguinte: «ela era essencialmente um governo da classe operária, o produto da luta de classe produtora contra a apropriadora, a forma política, finalmente descoberta, com a qual se realiza a emancipação económica do trabalho».
Nos anos seguintes, Marx, com Engels, prossegue a sua actividade revolucionária. Em 1875, envia para a Alemanha as suas notas críticas ao projecto de programa do futuro partido operário alemão unificado (e que seria publicado por Engels em 1891 sob o título Crítica ao Progrma de Gotha). Nestas notas, Marx destaca que «entre a sociedade capitalista e a comunista fica o período da transformação revolucionária de uma na outra. Ao qual corresponde também um período político de transição cujo Estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado».
Em 1879, Marx e Engels colaboram com o jornal clandestino do Partido Social-Democrata Alemão e no ano seguinte Marx trabalha nos livros II e III de O Capital. Em Maio, numa nota biográfica de Engels, considera o companheiro «um dos mais eminentes representantes do socialismo contemporâneo».
Em 1882, Marx e Engels escrevem um prefácio à edição russa do Manifesto, no qual afirmam já que a Rússia «forma a vanguarda da acção revolucionária na Europa».
Nos últimos anos da sua vida, Marx dedicou-se ao aprofundamento dos seus estudos de Economia Política, enveredando também, por outras áreas, como análise matemática, agroquímica e geologia, ou química orgânica e mineral.
A 14 de Março de 1883, Karl Marx morre em Londres.
Marselhesa
24abRIl1792..."A Marselhesa", composta por Rouget de Lisle, é cantada pela primeira vez.
https://www.youtube.com/watch?v=VAUjc_kMWVk&fbclid=IwAR0aTSxDp7Vv6SJ-MjQYWdYhCzHel3P69HCmZiAiwL-VqdWza6jmSYcDA1M
*
24 de Abril de 1792: Rouget de Lisle compõe a 'A Marselhesa'
*
14 de Fevereiro de 1879: A França adopta 'A Marselhesa' como hino nacional
A
Camara de Deputados adoptou “A Marselhesa” como hino nacional francês
no dia 14 de Fevereiro de 1879. Composto para o exército do Reno,
fronteira com a Alemanha, em 1792 pelo oficial Rouget de Lisle, a
melodia já se havia tornado o “canto nacional” em 1795 (26 Messidor ano
III), mas o texto jamais havia sido oficializado.
Em
24 de Abril de 1792, em Estrasburgo, no salão nobre do presidente da
Câmara, o barão de Dietrich, a efervescência estava no auge. Cinco horas
antes, a França havia declarado guerra à Áustria. O chefe da casa
dirigiu-se ao jovem Claude Joseph Rouget de Lisle, oficial de sua
província e violoncelista nas horas vagas: "Senhor de Lisle,
componha-nos uma bela canção patriótica para este povo feito soldado que
surge de todas as partes atendendo ao apelo da pátria em perigo e a
nação ficará profundamente agradecida".
O capitão da guarnição, de volta a sua casa, decide trabalhar febrilmente. No dia seguinte à noite, o barão organiza um jantar durante o qual ele mesmo interpreta a canção, acompanhado por uma dama ao cravo e por Rouget de Lisle na viola. Baptizado logo como Canto de Guerra para o Exército do Reno, o novo canto colhe um sucesso fulgurante. Viajantes divulgam as palavras e a melodia por todo o país.
Em Marselha, onde os voluntários do exército revolucionário se preparavam para seguir para Paris a fim de combater a invasão, são distribuídos folhetos com o texto do canto patriótico. Os federados marselheses entoam a melodia ao longo de toda a viagem e em coro quando entram na capital em 30 de Julho de 1792. Os parisienses com toda a naturalidade baptizam-na como “A Marselhesa”.
O canto é também entoado pelos federados de Marselha que participam na insurreição das Tulherias em 10 de Agosto de 1792. Antes o general François Mireur, do exército da campanha do Egipto, que tinha ido a Marselha com o objectivo de reunir voluntários de Montpellier e de Marselha, achou a canção excelente e a mesma foi divulgada às tropas sob o título “Canto de Guerra dos Exércitos de Fronteira”
Durante as revoluções de 1848 que irrompem no conjunto do continente europeu, a Marselhesa recebe uma consagração internacional como cântico revolucionário só comparável mais tarde com o hino dos socialistas, "A Internacional".
A 14 de Julho de 1795, por decreto de 26 Messidor ano III de iniciativa do deputado Debry, a Assembleia Nacional declara “A Marselhesa” hino nacional francês. Foi proibida durante o Primeiro Império por Napoleão Bonaparte e pelo rei Luis XVIII, aquando da Segunda Restauração. Reassumindo a condição de hino após a Revolução de 1830, "A Marselhesa" foi novamente banida por Napoleão III. Ela seria definitivamente proclamada “hino nacional” em 1879.
Claude Joseph Rouget de Lisle (10/05/1760 – 26/06/1836) deu os seus primeiros passos como adulto na condição de oficial do corpo de engenharia do exército revolucionário. A sua obra artística não se resumiu à Marselhesa. Preso durante o Terror, compôs após a sua libertação o “Hino Ditirâmbico sobre a Conjuração de Robespierre, bem como o “Canto das Vinganças” e “Canto dos Combates”.
O capitão da guarnição, de volta a sua casa, decide trabalhar febrilmente. No dia seguinte à noite, o barão organiza um jantar durante o qual ele mesmo interpreta a canção, acompanhado por uma dama ao cravo e por Rouget de Lisle na viola. Baptizado logo como Canto de Guerra para o Exército do Reno, o novo canto colhe um sucesso fulgurante. Viajantes divulgam as palavras e a melodia por todo o país.
Em Marselha, onde os voluntários do exército revolucionário se preparavam para seguir para Paris a fim de combater a invasão, são distribuídos folhetos com o texto do canto patriótico. Os federados marselheses entoam a melodia ao longo de toda a viagem e em coro quando entram na capital em 30 de Julho de 1792. Os parisienses com toda a naturalidade baptizam-na como “A Marselhesa”.
O canto é também entoado pelos federados de Marselha que participam na insurreição das Tulherias em 10 de Agosto de 1792. Antes o general François Mireur, do exército da campanha do Egipto, que tinha ido a Marselha com o objectivo de reunir voluntários de Montpellier e de Marselha, achou a canção excelente e a mesma foi divulgada às tropas sob o título “Canto de Guerra dos Exércitos de Fronteira”
Durante as revoluções de 1848 que irrompem no conjunto do continente europeu, a Marselhesa recebe uma consagração internacional como cântico revolucionário só comparável mais tarde com o hino dos socialistas, "A Internacional".
A 14 de Julho de 1795, por decreto de 26 Messidor ano III de iniciativa do deputado Debry, a Assembleia Nacional declara “A Marselhesa” hino nacional francês. Foi proibida durante o Primeiro Império por Napoleão Bonaparte e pelo rei Luis XVIII, aquando da Segunda Restauração. Reassumindo a condição de hino após a Revolução de 1830, "A Marselhesa" foi novamente banida por Napoleão III. Ela seria definitivamente proclamada “hino nacional” em 1879.
Claude Joseph Rouget de Lisle (10/05/1760 – 26/06/1836) deu os seus primeiros passos como adulto na condição de oficial do corpo de engenharia do exército revolucionário. A sua obra artística não se resumiu à Marselhesa. Preso durante o Terror, compôs após a sua libertação o “Hino Ditirâmbico sobre a Conjuração de Robespierre, bem como o “Canto das Vinganças” e “Canto dos Combates”.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
Rouget de Lisle canta a Marselhesa pela primeira vez - Isidore Pils
Partitura do século XIX
https://www.youtube.com/watch?v=fVA2oTDq_fkhttps://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/02/14-de-fevereiro-de-1879-franca-adopta.html?fbclid=IwAR1tgC4VAoJtSQKoHPmF-N9gl6ViZN6_3WydvOgM31pJ1BhEdnb4zpIuZL8
***
1852, Marx, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte
https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/index.htm
O
trabalho de Marx O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, escrito na base
de uma análise concreta dos acontecimentos revolucionários em França em
1848-1851, é uma das obras mais importantes do marxismo. Neste trabalho
foram desenvolvidas todas as teses fundamentais do materialismo
histórico: a teoria da luta de classes e da revolução proletária, a
doutrina do Estado e da ditadura do proletariado. Tem uma importância
extraordinariamente grande a conclusão de Marx sobre a questão da
atitude do proletariado em relação ao Estado burguês."Todas as
revoluções aperfeiçoavam esta máquina - indica Marx -, em vez de a
destruir." (Ver o presente volume, p. 125.)
No trabalho O 18 de Brumário de Louis Bonaparte foi desenvolvida a questão do campesinato como aliado da classe operária na revolução iminente, explicado o papel dos partidos políticos na vida social e formulada uma caracterização profunda da essência do bonapartismo.
No trabalho O 18 de Brumário de Louis Bonaparte foi desenvolvida a questão do campesinato como aliado da classe operária na revolução iminente, explicado o papel dos partidos políticos na vida social e formulada uma caracterização profunda da essência do bonapartismo.
*
"Imediatamente depois do acontecimento que surpreendeu todo o mundo político como um raio caído de um céu sereno, condenado por uns com gritos de indignação moral e aceite por outros como tábua de salvação contra a revolução e como castigo pelos seus extravios, mas contemplado por todos com assombro e por ninguém entendido, imediatamente depois deste acontecimento Marx surgiu com uma exposição breve, epigramática, em que se explicava na sua conexão interna toda a marcha da história francesa desde as jornadas de Fevereiro, se reduzia o milagre de 2 de Dezembro a um resultado natural e necessário desta conexão, e não era necessário tratar o herói do golpe de Estado a não ser com o desprezo que plenamente tinha merecido. E o quadro foi traçado com tanta mestria que cada nova revelação tornada pública desde então nada mais fez do que fornecer novas provas de quão fielmente ele reflecte a realidade. Esta iminente compreensão da história viva do dia-a-dia, esta penetração clara nos acontecimentos, no próprio momento em que se produzem é, de facto, exemplar. [...]"*
* Friederich Engels,"Prefácio à 3ª Edição Alemã" de 1885.
***29 de Julho de 1836: É inaugurado o Arco do Triunfo em Paris
O Arco do Triunfo, também chamado Arco da
Etoile foi mandado construir por Napoleão Bonaparte e é inspirado no
Arco de Tito. Foi projectado por Jean
Chalgrin e a sua construção teve
início em 1806, após a vitória napoleónica
em Austerlitz, o Arc de Triomphe representa, na verdade, o
enaltecimento das glórias e conquistas do Primeiro Império
Francês, sob a
liderança de Napoleão
Bonaparte. A obra, no
entanto, foi somente finalizada em 29 de Julho de 1836, dada a interrupção
propiciada pela derrocada do império (1815). Com 50 metros de altura, o monumental arco
tornou-se, desde então, ponto de partida ou passagem das principais paradas
militares, manifestações e, claro, visitas turísticas.
É o maior de todos os arcos de
triunfo, repetindo numa escala muito maior o modelo do Arco de Tito em Roma. O
nome Etoile advém do facto de se situar no cruzamento de várias avenidas
em forma de estrela, dominando pela sua monumentalidade todo o eixo constituído
pelos Campos Elísios.
Tem gravados os nomes de 128
batalhas e 558 generais. Na sua base situa-se o Túmulo do Soldado Desconhecido,
construído em 1920.
É considerado a obra-prima da arquitectura
neoclássica, quer pela fidelidade
às formas antigas quer pela concepção urbanística de grandiosidade que lhe está
subjacente. O arco é composto por quatro grandes pilares que proporcionam a
passagem através de duas entradas frontais maiores e duas laterais menores que
servem como passadiços. Os pilares apresentam cada um ao centro um grupo
escultórico.
Na parte externa dele pode
ver-se em alto-relevo figuras que retratam as batalhas, conquistas militares e
outras cenas históricas da França. A mais famosa delas é a “Partida dos
Voluntários de 1792”, mais conhecida como A Marselhesa, representa a
pátria mãe com as asas abertas e estendidas chamando os voluntários para lutar
pela França.
Fontes: Arco
do Triunfo. In Infopédia [Em
linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia
(Imagens)
Projecto do Arco do Triunfo -
Chalgrin
A partida dos Voluntários de
1792 ,
também conhecida como La Marseillaise
também conhecida como La Marseillaise
***
14julho
1789...Início da Revolução Francesa...Tomada da Bastilha
https://uniralcobaca.blogspot.com/2017/11/80249novembro201777-revolucao.html
1795... foi adoptada para hino francês
https://www.youtube.com/watch?v=SIxOl1EraXA
***
28 de Julho de 1794: Maximilien de Robespierre é executado na guilhotina
Maximilien
François Marie Isidore de Robespierre (6 de Maio de 1758 — 28 de Julho
de 1794), advogado e político francês, foi uma das personalidades mais
importantes da Revolução Francesa.
Em
Abril de 1789 Robespierre tornou-se deputado pelo Terceiro estado da
região de Artois. Revelou-se um grande orador. Em Abril de 1790,
tornou-se membro do Clube dos Jacobinos, a ala mais radical dos
revolucionários. A partir daí, adquiriu notoriedade e passou a estar
intimamente associado aos acontecimentos da Revolução Francesa.
Em
1791 Robespierre foi um dos principais líderes da insurreição popular
do Campo de Marte. Depois da deposição da família real, em 1792,
Robespierre aderiu à Comuna de Paris e tornou-se um dos chefes do
governo revolucionário. Combateu então a facção dos girondinos, menos
radicais.
Robespierre
foi um dos contestatários que pediu a condenação de Luís XVI,
guilhotinado a 21 de Janeiro de 1793. Entretanto foi instaurado o regime
do "Grande Terror" - o auge da ditadura de Robespierre.
Em
1794, Robespierre mandou executar Danton, o revolucionário que propunha
um rumo mais moderado para a revolução. Danton gozava de grande
popularidade e ousara falar na reconciliação nacional.
No dia
27 de Julho, numa sessão da Convenção Robespierre foi afastado do
poder, ficou ferido e teve que fugir. Foi detido, na companhia do seu
irmão e de alguns seguidores. Ainda foram libertados por militares que
lhe eram fiéis, mas, quando a Convenção mandou outros soldados para os
confrontar, as forças fiéis a Robespierre desertaram. Alguns dos
fugitivos suicidaram-se para evitar serem detidos. Robespierre terá
tentado dar um tiro na cabeça, mas apenas conseguiu destroçar a
mandíbula inferior. Foi colocado na mesma cela onde tinha permanecido
Maria Antonieta.
Maximilien
de Robespierre foi guilhotinado em Paris no dia 28 de Julho de 1794,
sem ter sido julgado, juntamente com o seu irmão Augustin de Robespierre
(também membro da Junta de Salvação Pública) e dezassete dos seus
colaboradores durante o golpe de 9 do Termidor, dentre eles, s dois dos
seus grandes amigos, companheiros desde o início de sua jornada,
Saint-Just e Couthon.
wikipedia (Imagens)
Maximilien Robespierre - Pierre Roch Vigneron

Prisão de Robespierre
Execução de Robespierre e dos seus partidários - Autor desconhecido
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2018/07/28-de-julho-de-1794-maximilien-de.html*
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/07/28-de-julho-de-1794-maximilien-de.html?spref=fb&fbclid=IwAR2pAaSXWBvdxPLsrk8PuWRt9dPOXLHY9x1aoq9mHFt7Jy1bX0lGmO5fLvk
***
9noVEMbro1799
Revolução Francesa e o Golpe do 18 de Brumário - Napoleão
https://www.youtube.com/watch?v=9OJpmNPcW3Y
***
21 de Setembro de 1792: Revolução Francesa - A Convenção Nacional francesa vota a abolição da monarquia
Na
França revolucionária, a Assembleia Legislativa vota em 21 de Setembro
de 1792 a abolição da monarquia e estabelece a Primeira República. A
decisão ocorre um ano após o rei Luis XVI ter relutantemente aprovado
uma nova constituição que retirou muito do seu poder.
Luis XVI ascendeu ao trono francês em 1774 e desde o início teve de lidar com graves problemas financeiros herdados dos predecessores. Em 1789, a escassez rigorosa de alimentos e a aguda crise financeira levaram à eclosão da Revolução Francesa. Após o término das deliberações da Assembleia Constituinte em 1791, a burguesia passou a uma posição conservadora, por entender que as principais mudanças já haviam sido implementadas. A situação do povo mais pobre, porém, pouco tinha mudado. Os camponeses continuavam sem terra e nas cidades a situação tornava-se cada vez mais difícil.
Em Agosto de 1792, uma intensa mobilização popular destronou o rei, e depois de elaborar a Carta Magna francesa, a Assembleia Nacional Constituinte dissolveu-se. A Assembleia Legislativa substituiu a Constituinte. Havia a ameaça de intervenção externa, crise económica e inflação. Em Abril de 1792 é declarada a guerra à Áustria e à Prússia e exércitos inimigos chegam a ameaçar Paris. A ala radical proclama a “pátria em perigo” e distribui armas à população. A Comuna de Paris assume o poder e exige da Assembleia o afastamento do rei. Em 10 de Agosto de 1792, os parisienses atacam o palácio real, detêm o soberano e exigem que o Legislativo suspenda as suas funções. Esvaziada do seu poder, a Assembleia convoca a eleição de uma Convenção Nacional. A revolução entra numa fase radical. As primeiras medidas tomadas pela Convenção foram a Proclamação da República e a promulgação da nova Constituição. A Convenção contava com o predomínio dos representantes da burguesia.
Entre os revolucionários de 1789, houve divisão. A grande burguesia não queria aprofundar a revolução, temendo o radicalismo popular. Aliada aos sectores da nobreza liberal e do baixo clero, formou o Clube dos Girondinos. O nome "girondino" deve-se ao facto de Brissot, principal líder dessa facção, representar o departamento da Gironda. Eles ocupavam os bancos inferiores no salão das sessões. Os jacobinos - assim chamados porque se reuniam no convento de Saint Jacques – queriam aprofundar a revolução, aumentando os direitos do povo. Eram liderados pela pequena burguesia e apoiados pelos sans-culottes, as massas populares de Paris. Ocupavam os assentos superiores no salão das sessões, recebendo o nome de ‘montanha’ (montagnards).
Os seus principais líderes foram Robespierre, Danton e Marat. A sua facção mais radical era representada pelosenragées, liderados por Jacques Hébert, que queriam o povo no poder. Havia ainda um grupo de deputados sem opiniões muito firmes, que votavam na proposta que tinha mais probabilidade de vencer. Eram chamados deplanície ou pântano. Havia ainda os cordeliers (camadas mais baixas) e os feuillants (a burguesia financeira).
Dirigida inicialmente pelos girondinos, a convenção realizava uma política contraditória: era revolucionária na política externa — ao combater os países absolutistas — mas conservadora na interna — ao procurar acomodar-se com a nobreza, tentar salvar a vida do rei e combater os revolucionários mais radicais. Nesse primeiro período, foram descobertos documentos secretos de Luís XVI, no Palácio das Tulherias, que provaram o seu comprometimento com o rei da Áustria. O facto acelerou as pressões para que o rei fosse julgado como traidor. Na Convenção, a Gironda dividiu-se: alguns optaram por um indulto, outros pela pena de morte. Os jacobinos, reforçados pelas manifestações populares, exigiam a execução do rei, indicando o fim da supremacia girondina na Revolução. O rei e a rainha Maria Antonieta foram presos em Agosto de 1792 e em Setembro a monarquia foi abolida. Em Janeiro de 1793, Luis XVI foi julgado e condenado à morte por escassa maioria. Nove meses depois foi a vez de Maria Antonieta ser guilhotinada.
Luis XVI ascendeu ao trono francês em 1774 e desde o início teve de lidar com graves problemas financeiros herdados dos predecessores. Em 1789, a escassez rigorosa de alimentos e a aguda crise financeira levaram à eclosão da Revolução Francesa. Após o término das deliberações da Assembleia Constituinte em 1791, a burguesia passou a uma posição conservadora, por entender que as principais mudanças já haviam sido implementadas. A situação do povo mais pobre, porém, pouco tinha mudado. Os camponeses continuavam sem terra e nas cidades a situação tornava-se cada vez mais difícil.
Em Agosto de 1792, uma intensa mobilização popular destronou o rei, e depois de elaborar a Carta Magna francesa, a Assembleia Nacional Constituinte dissolveu-se. A Assembleia Legislativa substituiu a Constituinte. Havia a ameaça de intervenção externa, crise económica e inflação. Em Abril de 1792 é declarada a guerra à Áustria e à Prússia e exércitos inimigos chegam a ameaçar Paris. A ala radical proclama a “pátria em perigo” e distribui armas à população. A Comuna de Paris assume o poder e exige da Assembleia o afastamento do rei. Em 10 de Agosto de 1792, os parisienses atacam o palácio real, detêm o soberano e exigem que o Legislativo suspenda as suas funções. Esvaziada do seu poder, a Assembleia convoca a eleição de uma Convenção Nacional. A revolução entra numa fase radical. As primeiras medidas tomadas pela Convenção foram a Proclamação da República e a promulgação da nova Constituição. A Convenção contava com o predomínio dos representantes da burguesia.
Entre os revolucionários de 1789, houve divisão. A grande burguesia não queria aprofundar a revolução, temendo o radicalismo popular. Aliada aos sectores da nobreza liberal e do baixo clero, formou o Clube dos Girondinos. O nome "girondino" deve-se ao facto de Brissot, principal líder dessa facção, representar o departamento da Gironda. Eles ocupavam os bancos inferiores no salão das sessões. Os jacobinos - assim chamados porque se reuniam no convento de Saint Jacques – queriam aprofundar a revolução, aumentando os direitos do povo. Eram liderados pela pequena burguesia e apoiados pelos sans-culottes, as massas populares de Paris. Ocupavam os assentos superiores no salão das sessões, recebendo o nome de ‘montanha’ (montagnards).
Os seus principais líderes foram Robespierre, Danton e Marat. A sua facção mais radical era representada pelosenragées, liderados por Jacques Hébert, que queriam o povo no poder. Havia ainda um grupo de deputados sem opiniões muito firmes, que votavam na proposta que tinha mais probabilidade de vencer. Eram chamados deplanície ou pântano. Havia ainda os cordeliers (camadas mais baixas) e os feuillants (a burguesia financeira).
Dirigida inicialmente pelos girondinos, a convenção realizava uma política contraditória: era revolucionária na política externa — ao combater os países absolutistas — mas conservadora na interna — ao procurar acomodar-se com a nobreza, tentar salvar a vida do rei e combater os revolucionários mais radicais. Nesse primeiro período, foram descobertos documentos secretos de Luís XVI, no Palácio das Tulherias, que provaram o seu comprometimento com o rei da Áustria. O facto acelerou as pressões para que o rei fosse julgado como traidor. Na Convenção, a Gironda dividiu-se: alguns optaram por um indulto, outros pela pena de morte. Os jacobinos, reforçados pelas manifestações populares, exigiam a execução do rei, indicando o fim da supremacia girondina na Revolução. O rei e a rainha Maria Antonieta foram presos em Agosto de 1792 e em Setembro a monarquia foi abolida. Em Janeiro de 1793, Luis XVI foi julgado e condenado à morte por escassa maioria. Nove meses depois foi a vez de Maria Antonieta ser guilhotinada.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
Luís XVII, sendo julgado pela Convenção, na Sala do Manege, durante o processo de Luís XVI
A grande guilhotina desce sobre a cabeça de Luís XVI, que é exibida ao povo, como se costumava fazer com todos os executados.
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2018/09/21-de-setembro-de-1792-revolucao.html***
Via
http://mafarricovermelho.blogspot.pt/2013/05/liberdade-igualdade-fraternidade-grande.html
LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE - A Grande Revolução Francesa de 1789 e suas repercussões
![]() |
| Execução de Luìs XVI |
LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE
(A Grande Revolução Francesa de 1789 e suas repercussões)
A Grande Revolução Francesa teve repercussões profundas em toda a Europa. E isto porque, e apenas porque, estava madura a necessidade de uma transformação revolucionária das condições sociais não apenas em França, mas também no resto da Europa. Um século antes a Inglaterra tinha realizado a sua revolução burguesa. Conhecera já, na sua área de domínio, a vitória da revolução americana, na preparação da qual pensadores franceses desempenharam um papel importante. Por outro lado, a preparação da Revolução Francesa de 1789 não era, de modo nenhum, um assunto que apenas dissesse respeito à França; a par das «Luzes» francesas houve as alemãs; a par da agitação camponesa em França teve lugar, na Rússia, a guerra camponesa chefiada por Pugatchov (1726-1775); a par da vitória da fase manufactureira do capitalismo em França, a Inglaterra desenvolveu a sua revolução industrial1 a Holanda, a Bélgica e a Irlanda foram abaladas por movimentos revolucionários; em Itália iniciou-se o Risorgimento - isto é, o movimento para a reunificação da Itália; a Polónia lutava pela sua independência, e a estrutura do império austríaco multinacional dos Habsburgos foi abalada por aspirações nacionais de povos submetidos.
Tratou-se, portanto, de um ascenso revolucionário comum a toda a Europa que teve em França o seu ponto culminante numa revolução democrático-burguesa vitoriosa, pois que em França se apresentavam mais favoráveis as condições para o seu triunfo.
O que é válido para a preparação da Revolução Francesa é-o também para os seus efeitos. A Revolução Francesa imprimiu o seu cunho, no sentido mais verdadeiro do termo, a toda a época histórica em que a ordem social capitalista se estabeleceu e consolidou nos países mais importantes. Todo o século XIX decorreu sob o signo da Revolução Francesa. Este século não fez mais do que estabelecer, concretizar parcialmente e levar a cabo, por esse mundo fora, o que os grandes revolucionários burgueses franceses tinham criado.
CAUSAS E ECLOSÃO DA REVOLUÇÃO
A Revolução Francesa teve um carácter democrático-burguês, isto é, processou-se sob a direcção da burguesia, que se apoiou, para o efeito, nas amplas massas do povo trabalhador. A revolução dirigiu-se contra a ordem feudal vigente, e substituiu-a pela ordem capitalista. A luta teve causas económicas. No âmbito da ordem feudal vigente haviam-se formado e desenvolvido, tanto na indústria como na agricultura, formas de produção capitalista. De início, estas receberam da monarquia feudal absoluta um estímulo considerável. É que o rei queria para si, por meio de impostos, uma parte considerável dos frutos desta produção lucrativa. A burguesia, suporte desta forma económica capitalista em progresso, ficou a dever ao poder da monarquia absoluta o mercado nacional e, graças às guerras feudais de conquista (conquista de grandes colónias na Índia e na América), também um mercado externo.
Nestas condições, a burguesia fortaleceu-se economicamente. Desenvolveu a indústria e o comércio. Mas acabou por descobrir que, no âmbito da ordem feudal, se erguiam barreiras a esse desenvolvimento.
QUE PROVAS HÁ DE QUE O FEUDALISMO SE TORNARA OBSTÁCULO AO PROGRESSO?
A França tinha então cerca de 25 milhões de habitantes, dos quais 23 milhões pertenciam à população camponesa. As massas camponesas eram o burro de carga da sociedade. Tinham de pagar grandes tributos ao seu barão, à Igreja, ao Estado. «As pessoas comem erva como as ovelhas e morrem como moscas», lê-se num relatório oficial ao rei. Na província havia uma média de 17% de camponeses sem terra. O protesto dos camponeses contra este regime de fome dos condes e barões assumiu muitas formas. Os camponeses passaram a deixar os campos incultos. Se, apesar de toda a labuta, estavam condenados à fome, o que tinham a fazer era cruzar os braços. Já em 1750 a quarta parte da terra arável deixou de ser cultivada. Além disso, registavam-se com frequência, por todo o país, pequenas e grandes agitações, e até sublevações de camponeses. Uma das mais importantes desenvolveu-se de 1780 a 1783 na região das Cevennes. Para os camponeses, a luta contra o feudalismo tornou-se a luta pela sobrevivência física.
Nas cidades, as peias corporativas tolhiam o comércio e a indústria. Os aprendizes tinham de suportar sete anos de aprendizado. Nada ganhavam em troca, e tinham mesmo de pagar o aprendizado. O direito de acesso ao aprendizado custava verbas consideráveis e muito mais ainda a carta de mestria. O mestre não podia ter mais do que um ou dois aprendizes. Os artigos tinham de ser produzidos segundo modelos rigorosamente determinados. Todas estas regras corporativas impediam o desenvolvimento do comércio e da indústria.
Dez mil artífices não encontravam trabalho nas corporações. Vagueavam pelo país e faziam, acossados pela polícia, «trabalhos proibidos». Finalmente foram construídos asilos e guetos para estes operários nos subúrbios das grandes cidades. Os dois mais importantes eram os subúrbios parisienses de St. Antoine e Temple. Ali habitavam, quando rebentou a revolução, 70 000 destes operários sem direitos. Houve insurreições destas camadas, como, por exemplo, a de 1786 em Lyon, ou a de Abril de 1789 em St. Antoine. Nesta última luta 200 destes operários morreram e 300 ficaram feridos.
«O subúrbio St. Antoine tornou-se o verdadeiro foco da revolução, do seu seio saíram os assaltantes da Bastilha, e foi ele a trincheira contra a qual se quebraram os golpes da contra-revolução», escreveu Franz Mehring [Gesammelte Schriften (Obras Completas), t. 5, p. 77, Berlim, 1964].
Estes proletários nada tinham a perder. Viviam num subúrbio muito populoso, às portas de Paris, eram dos mais enérgicos e dos mais temerários. As batalhas decisivas tiveram muitas vezes de ser travadas de emergência. A burguesia revolucionária não podia ficar à espera de que hostes camponesas, prontas para a luta, acorressem dos campos a Paris. Os combatentes da revolução encontravam-se, numa grande massa, na periferia da própria cidade. Aos operários dos subúrbios coube o papel de se tornarem - com a pequena burguesia - a espinha dorsal da revolução.
ABC do Marxismo-Leninismo
***
***
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/05/16-de-maio-de-1770-casamento-em.html?spref=fb&fbclid=IwAR085oMIcl3ZWkVJTuLKYFpAQZLF5HatHyRj2ukIdbjynjBrwiJj3vaMpqY
***
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/05/06-de-maio-de-1758-nasce-maximilien-de.html?spref=fb&fbclid=IwAR19au8sQRNjyVAYtrTSlhRiLP23NoqtM1TVmYiDPeR-_PLUMcLm-89y9n0
***
Joana d' Arc
30mAIo1431...morre (na fogueira) Joana d' Arc
https://www.youtube.com/watch?v=Oqmpr11OC_0
**
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/05/30-de-maio-de-1431-condenada-por.html?spref=fb&fbclid=IwAR0zIrwAQnuFn8cKHSqFMHEfClZmS59sxCt9ExNcTczaY1tXbsjfwyh7weg
**
29ab1429...Joana d' Arc entra na cidade de Orleães, França, reivindicando vitória sobre as forças inglesas.
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/04/29-de-abril-de-1429-joana-darc-entra-na.html?spref=fb&fbclid=IwAR0tION1R2AjpvuC_Rtl-DNyi-dYE7osgWR6-InKhiqJs7i1LTbWwB-s3vw
*
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1920332218038214&id=107358489335605
**
6jan1413...Joana d' Arc...
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/01/06-de-janeiro-de-1412-nasce-joana-darc_6.html?fbclid=IwAR2OhH8K6_jNe4h939cHpEAcf9rvag9OkxwIAQ0X1PP7IonK916AnORD0UA
***
A burguesia apercebia-se das peias feudais que lhe tolhiam a bolsa: a miséria dos camponeses e a debilidade corporativa das artes e ofícios impediam o desenvolvimento de um mercado interno, travavam o desenvolvimento da riqueza nacional, que cada vez mais se confundia com a riqueza da burguesia. Ao mesmo tempo, o sistema corporativo impedia os capitalistas de disporem livremente da força de trabalho dos trabalhadores.
Enquanto a burguesia era, deste modo, impedida pela velha ordem social de desenvolver mais rapidamente a produção capitalista e, simultaneamente, a sua riqueza, aumentavam continuamente o luxo desmedido do rei e da alta nobreza e, com ele, as exigências financeiras que faziam à burguesia.
A nobreza, na França pré-revolucionária, contava cerca de 140 000 pessoas. Apenas a camada superior da nobreza levava uma vida faustosa. Eram numerosas as famílias nobres que estavam arruinadas. A sua única saída era o ingresso no funcionalismo público. O número de funcionários tinha, portanto, de ser continuamente elevado, aplicando-se rigorosamente o princípio de que, na medida do possível, todos os lugares do funcionalismo público e da hierarquia militar deveriam ser ocupados por nobres.
O clero englobava cerca de 130 000 pessoas. Destas, 60 000 eram padres e vigários, 23 000 eram monges e 37 000 eram freiras. A camada superior do clero era, portanto, pouco numerosa. Mas a verdade é que explorava continuamente o povo. A Igreja possuía um quinto das terras de cultura, no valor de 4000 milhões de libras. O rendimento destes campos ascendia a cerca de 100 milhões de libras por ano. Do dízimo a Igreja arrecadava anualmente 123 milhões de libras. Cada um dos 131 bispos tinha um rendimento anual de 100 000 libras.
O esbanjamento da corte e da alta nobreza conduziu o Estado à beira da bancarrota. (Quando a Revolução rebentou havia - contra 400 milhões de libras de receitas anuais do Estado - dívidas públicas no montante de 5000 milhões de libras!) Só a corte empregava 15 000 pessoas. Nas cavalariças havia 1857 cavalos, para os quais eram necessários 1400 tratadores. Na província havia uma reserva de mais 1200 cavalos. Para os seus passeios, o rei possuía 217 equipagens. Só os cães de caça do rei levavam anualmente 54 000 libras, e as velas das tias de sua majestade 216 000 libras por ano. Um décimo das receitas do Estado era despendido anualmente com o pessoal da corte.
Para pagar este luxo feudal a burguesia era cada vez mais sugada pela corte, pela nobreza e pelo alto clero. Assim, enquanto na realidade a nobreza e a monarquia dependiam financeiramente da burguesia, esta não gozava de quaisquer direitos políticos. O descontentamento da burguesia crescia a olhos vistos. Isto só não se aplicava à reduzida camada superior da burguesia, a qual, como financiava o rei e a alta nobreza, estava interessada na conservação do sistema e não visava senão certas reformas, sendo frequentemente agraciada com títulos de nobreza.
A disposição revolucionária que crescia por todo o pais, entre os camponeses e os artesãos e na burguesia - em todo o povo, portanto -, foi também alimentada pela acção esclarecedora de grandes pensadores franceses das «Luzes» como Voltaire (1684-1778), Montesquieu (1689-1755), Rousseau (1712-1778), Diderot (1713-1784), D'Alembert (1717-1782), Holbach (1723-1789), Helvetius (1715-1771) e outros. Todos eles submeteram as relações feudais vigentes, o despotismo absoluto, os privilégios da nobreza, a arbitrariedade da justiça, a uma crítica demolidora. Criaram uma nova visão burguesa do mundo e, desta forma, prepararam os espíritos para a Revolução. As suas ideias condensaram-se na palavra de ordem arrebatadora: «Liberdade - Igualdade - Fraternidade!».
Todas as contradições se agudizaram rapidamente no país em consequência das crises da indústria, do comércio, das finanças e da agricultura dos anos 1787-1789, que foram acompanhadas de más colheitas. Depois de as camadas privilegiadas, nobres e eclesiásticas, se terem recusado, apesar dos perigos da situação, a renunciar à mais pequena parcela dos seus privilégios feudais e a ajudar a minorar os perigos da bancarrota do Estado, a monarquia lembrou-se de uma ordenação de séculos anteriores: outrora, da nobreza (primeiro estado), do clero (segundo estado) e da burguesia (terceiro estado) haviam sido constituídos os Estados Gerais, que eram convocados para deliberarem sobre grandes problemas do Estado. Estes Estados Gerais já não eram convocados desde 1614! Em 1788, o rei decretou a sua convocação. À nobreza couberam 300 representantes, ao clero outros 300 e ao terceiro estado, devido às suas proporções (e porque era ele quem tinha de desembolsar) couberam 600 representantes. A questão sobre o modo de votação, por estados ou nominal, ficou em aberto. Quando os Estados Gerais se reuniram, em 5 de Maio de 1789, a burguesia fez aprovar a votação por representantes, e não por estados. Isto foi possível porque nos outros dois estados, mas principalmente no clero, eram evidentes os sintomas de desagregação.
A maior parte dos 60 000 padres vivia na miséria, mas eram eles que tinham de executar todos os trabalhos eclesiásticos. Por nascimento e condição social estavam ligados ao «terceiro estado». Quando os Estados Gerais discutiram o processo de votação, os representantes do clero dividiram-se. Estes eram constituídos por 48 arcebispos e bispos, 35 abades e deões e 208 párocos. Estes últimos, na sua grande maioria, juntaram-se ao terceiro estado, que assim passou a ser o grupo dominante. (Mais tarde, quando a Revolução já tinha rebentado, o exército, por razões idênticas, tornou-se inoperante.)
Assim ruíram suportes decisivos da velha ordem social.
A disputa nos Estados Gerais teve lugar sob a pressão de centenas de insurreições camponesas, e isto apressou a passagem dos representantes da burguesia à acção revolucionária.
Na sessão dos Estados Gerais o rei exigiu da burguesia fundos para o saneamento do Tesouro do Estado. A burguesia apresentou então as suas reivindicações: transformação dos Estados Gerais numa Assembleia Nacional burguesa. Um dos seus oradores, o abade Sieyes, fundamentou esta reivindicação referindo que este estado corresponde a 96 % da Nação.
«O que é o terceiro estado? É toda a Nação acorrentada e oprimida. O que foi ele até hoje na ordem estatal? Nada! O que é que ele deseja? Ser alguma coisa.»
A reivindicação da burguesia de transformar os Estados Gerais na Assembleia Nacional foi aprovada em 17 de Junho de 1789 (contra a vontade do rei e dos outros dois estados). Este foi o primeiro acto revolucionário da burguesia. Três dias mais tarde, reuniram-se na Sala do Jogo da Péla os deputados à Assembleia Nacional, dado que o rei tinha mandado encerrar as salas onde se reunia a Assembleia Nacional, e juraram não se separar até que a Assembleia Nacional se transformasse em Assembleia Constituinte («Juramento da Sala do Jogo da Péla»). Em 9 de Julho, os representantes burgueses e o baixo clero, aos quais tinha aderido parte da nobreza liberal - Mirabeau, Lafayette e outros -, formaram a Assembleia Nacional Constituinte. Foi este o segundo acto revolucionário da burguesia.
O rei mandou então cercar Paris por 20 000 soldados. Estes acontecimentos provocaram uma agitação gigantesca. Com gritos de «às armas» o povo concentrou-se em massa nas ruas e praças. Por fim, no dia 14 de Julho de 1789, dirigido pelos proletários de St. Antoine e Temple, tomou a Bastilha, a prisão política da monarquia, ao cabo de várias horas de luta heróica.
Foi o sinal que desencadeou a Revolução. Paris tomou a iniciativa e o resto do país seguiu-lhe o exemplo, expulsando as autoridades feudais locais e destruindo os castelos dos nobres.
O CURSO DA REVOLUÇÃO
Na Revolução Francesa houve três etapas, distintas e caracterizadas pelo poder de diferentes camadas da burguesia e que corresponderam a diferentes objectivos.
COM O 14 DE JULHO DE 1789 TEVE INÍCIO A PRIMEIRA ETAPA DA REVOLUÇÃO
Esta etapa caracterizou-se pelo domínio político da grande burguesia e de nobres liberais aburguesados como Mirabeau ou Lafayette. Dominava a fracção da burguesia que, devido às suas ligações económicas com o Estado feudal e com o rei (que financiava), ainda defendia a monarquia. Era por um compromisso com a nobreza. Todas as medidas tomadas por estas forças limitaram-se portanto, no que tinham de antifeudal, ao reconhecimento na lei da situação já alcançada pela actividade das massas. Na sessão nocturna da Assembleia Constituinte de 4 para 5 de Agosto, por exemplo, a célebre «noite dos milagres», não se fez mais do que consagrar na lei aquilo que as massas já tinham conquistado. Não foi, portanto, no Parlamento que a nobreza perdeu uma parte dos seus privilégios, foi, sim, na acção das massas em Paris e no campo; foi nesta acção que caíram também certas peias corporativas e algumas barreiras alfandegárias internas. Todas as outras medidas dos novos senhores, da grande burguesia, serviram apenas para travar a intervenção das massas populares na criação das novas relações. A Constituição, aprovada em Setembro de 1791 e ratificada pelo rei, correspondia totalmente aos objectivos da grande burguesia: a monarquia permanecia. É certo que a França passava a ser uma monarquia constitucional. Foi introduzido o direito de voto - mas só podia votar quem tivesse determinadas posses. As mulheres não tinham direito de voto. De 25 milhões de franceses apenas 4 milhões podiam votar. A Guarda Nacional, isto é, as forças armadas do povo, podia ser recrutada apenas nestas camadas possidentes. Nestas condições, os famosos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamados em 1789, não passavam, na realidade, de privilégios burgueses especiais. Marat (1742-1793), um dos mais destacados dirigentes da Revolução, a quem as massas trabalhadoras chamavam o amigo do povo, caracterizou esta legislação da burguesia do seguinte modo:
«Haveis alicerçado a propriedade na lei, haveis colocado a propriedade sob protecção da Constituição, mas as disposições legais têm tão pouco valor para um homem que não possui uma propriedade para administrar e que não têm interesses a defender! O que é que a propriedade em si significa para os pobres?
«[...] Até aqui, a nova ordem das coisas que hoje vigora favorece inteiramente os ricos e os intriguistas. [...] A vossa famosa Declaração dos Direitos do Homem não passou de um logro ridículo [...] pois se a analisarmos mais atentamente ela visa dar aos ricos todas as vantagens e todas as honras do novo regime.» (Marat,
Discursos da Revolução, t. 2, pp. 62-67.)
Mas os insucessos e as traições na guerra que as monarquias feudais da Europa moveram à França a partir da Primavera de 1792 vieram mostrar, mais claramente do que qualquer outro acontecimento, que a defesa da Revolução pressupunha que esta fosse consequentemente levada a cabo. O rei francês apoiou esta guerra mais ou menos secretamente. O povo de Paris dirigiu-se então, no dia 10 de Agosto, às Tulherias, residência do rei, para o prenderem.
Com o 10 de Agosto de 1792 terminou o domínio político da grande burguesia monárquica e abriu-se uma nova etapa.
A SEGUNDA ETAPA DA REVOLUÇÃO
Esta levou ao poder os Girondinos (assim chamados porque alguns dos seus dirigentes eram oriundos do departamento da Gironde), que representavam a grande e a média burguesia mercantil e industrial. A França tornou-se uma república que instituiu mais algumas liberdades burguesas, mas que de modo nenhum satisfez todas as reivindicações das massas populares. Mas, a par disto, também a comuna revolucionária de Paris - isto é, o conselho da cidade constituído pelos representantes revolucionários de todos os bairros parisienses, que surgira nos dias do derrube da monarquia - alcançou uma grande influência, e esta influência crescia continuamente.
A Gironde, uma vez no poder, concentrou a sua atenção no «perigo» da esquerda, que ameaçava levar a Revolução mais longe do que convinha aos seus interesses burgueses. Assim fazendo, porém, os Girondinos perderam a capacidade de organizar consequentemente a defesa nacional, que não podia prescindir do apoio entusiástico das massas populares.
Mas a verdade é que o derrube da monarquia deu um novo impulso ao exército popular revolucionário. Este conseguiu, em Setembro de 1792, na batalha de Valmy, mudar a feição da guerra contra os exércitos feudais de intervenção. Os Girondinos, porém, faziam esta guerra sobretudo para se enriquecerem, para desviarem as massas da luta política interna e para as enfraquecerem na frente de batalha. Os Girondinos não foram, portanto, capazes de resolver os problemas da Revolução. Pelo contrário, o seu domínio punha até em perigo a continuação da Revolução. O facto de a revolta contra-revolucionária na Vendeia (na Bretanha) não ter sido imediatamente liquidada, o facto, mais importante ainda, de o celebrado general girondino Dumouriez (1739-1823) se ter passado para o inimigo, a breve trecho evidenciaram a necessidade de por fim também ao domínio dos Girondinos para que a Revolução triunfasse.
Os Jacobinos (assim chamados porque o seu clube político se reunia no Convento de S. Jacob) defendiam uma política de guerra revolucionária e lutavam sob o lema «Paz para as cabanas, guerra aos palácios». Foi sob a sua direcção que 30000 operários dos subúrbios de Paris, de 31 de Maio a 2 de Junho de 1793, avançaram armados contra a Convenção (Assembleia Nacional reformada), obrigando-a a ordenar a prisão de 29 destacados deputados girondinos. O poder passou para os Jacobinos. Entrou-se, assim, na terceira etapa da Revolução.
A ETAPA SUPERIOR DA REVOLUÇÃO
Esta caracterizou-se pela ditadura dos Jacobinos. O carácter democrático da revolução em ascenso está comprovado pelo facto de todas as etapas terem tido o seu início numa insurreição popular. Por detrás dos Jacobinos estavam sobretudo a pequena burguesia e os camponeses, uma e outros interessados em liquidar completamente o feudalismo.
Também nesta etapa do desenvolvimento da Revolução se verificou, à medida que o tempo corria, o aparecimento de uma oposição de esquerda, cujo principal suporte estava nos plebeus que nada possuíam, no que viria a ser o proletariado. Foi seu cérebro dirigente Gracchus Babeuf (1760-1797). Sobre estas camadas do povo já não se exercia só a velha forma feudal da exploração, sobre elas pesava já a sua moderna forma capitalista. Por isso, as suas reivindicações iam muito além do que a revolução burguesa mais consequente podia realizar. Por isso, os seus representantes acabaram na guilhotina. Os Jacobinos lutavam precisamente, como Karl Marx observou, «apenas pela concretização dos interesses da burguesia, embora por meios diferentes dos da burguesia. O Terror francês foi, todo ele, apenas a maneira como os plebeus eliminaram os inimigos da burguesia, o absolutismo, o feudalismo e o filistinismo». (Marx/Engels, Werke, t. 6, p. 107.)
Foi esta a tarefa histórica que a ditadura jacobina levou a cabo. Todos os direitos feudais foram suprimidos sem indemnização. A Constituição aprovada em 1973 foi a mais democrática de toda a Revolução. Ao fazerem dos camponeses proprietários rurais livres, os Jacobinos despertaram na retaguarda e na frente de batalha um entusiasmo que assentava no interesse real do povo. E deste modo conseguiram, apoiados num grande esforço das massas populares, derrotar o inimigo estrangeiro. Com a vitória de Fleurus, em 26 de Junho de 1794, ficaram definitivamente asseguradas em França as conquistas da revolução burguesa. Os Jacobinos tinham cumprido a sua missão histórica. O terror jacobino tinha agora de dar lugar a uma política de solução construtiva dos problemas internos do pais. E foi aqui que se revelou que, em última análise, era burguês o carácter da ditadura dos Jacobinos.
Para superar as dificuldades internas e externas da República, os Jacobinos enveredaram por uma política que cada vez mais provocava desilusão e descontentamento entre as massas trabalhadoras.
No campo, os pobres foram obrigados a trabalhar para os camponeses abastados. Aqueles que se recusavam a trabalhar por ganharem uma miséria iam parar ao Tribunal Revolucionário como «suspeitos».
Os Jacobinos trataram com a mesma dureza os operários em greve, mantendo em vigor a Lei de le Chapelier, lei anti-operária de 14 de Junho de 1791, que proibia as associações de operários e as greves. Deste modo, a sua aliança com as camadas laboriosas da cidade e do campo, que era a base da sua força, foi-se desfazendo aos poucos.
Fizeram-se porta-vozes das camadas descontentes os Enragés [enraivecidos] e, mais tarde, os Hebertistas [deputados que apoiavam Hebert (1759-1794)], grupo radical formado nas próprias hostes jacobinas. A liquidação impiedosa destes dois grupos pela Convenção fez aumentar o descontentamento entre as massas populares pobres.
A luta das facções nas hostes dos Jacobinos manifestou-se também no facto de o jacobino Danton (1759-1794) e os seus seguidores, que se tinham tornado porta-vozes dos «novos ricos» e dos especuladores, exigirem o aumento dos preços. Para eliminar esta oposição, Robespierre (1758-1794), o dirigente dos Jacobinos, mandou executar Danton e os que o seguiam. Em resposta, as forças descontentes com o grupo jacobino dirigente que gravitava em volta de Robespierre uniram-se para derrubar este último.
Com o derrube da ditadura jacobina, em 27 de Julho de 1794, terminou o período ascendente da Revolução. Começou o período da restauração e consolidação do domínio da grande burguesia, que não tinha qualquer interesse no prosseguimento da Revolução.
O que se seguiu na França ao 27 de Julho de 1794 - data da queda dos Jacobinos - foram apenas formas diferentes do domínio sem restrições da grande burguesia, disposta a colher os frutos da Revolução que as massas populares haviam feito e a privar deles, sem contemplações, essas mesmas massas populares. A Revolução tinha acabado, sem dúvida, com a exploração feudal, mas não com toda a exploração. Os grandes objectivos da Revolução, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, iam-se esfumando, transformando-se cada vez mais em ideais «inatingíveis».
Embora no plano interno a grande burguesia não tivesse, como é evidente, prosseguido uma política revolucionária, a verdade é que, perante as forças feudais europeias, ela continuava a encarnar o progresso social. O facto de a Revolução ter perdido o seu movimento ascendente e ter entrado na sua fase descendente não afectou a relação da França com o resto da Europa. Enquanto a França travava uma guerra defensiva revolucionária contra a coligação militar dos países vizinhos dirigidos por forças feudais, o lema «Paz para as cabanas, guerra aos palácios» continuava a ter um significado profundo. Este lema apelava para os povos oprimidos dos Estados que faziam guerra à França como possíveis aliados desta, permitia-lhes a libertação.
Contudo, uma vez asseguradas as conquistas burguesas da Revolução, tanto contra o inimigo interno como contra o externo, a guerra da classe exploradora burguesa tornou-se cada vez mais uma guerra de conquista. Por fim, sob o comando do Imperador Napoleão (1769-1821), a conquista passou a constituir a essência das guerras francesas, pelo que os povos subjugados acabaram por se sublevar para defenderem, ou para restabelecerem, a sua independência nacional em guerras justas de libertação. Mas apesar de ser um conquistador - e é isto que tornava a situação tão extraordinariamente complicada -, Napoleão continuava a ser, em certa medida, um instrumento do progresso histórico, limitado pelo interesse contraditório da burguesia, que aspirava, por um lado, a uma Europa moderna - isto é, antifeudal, capitalista - e, por outro lado, a criar no continente europeu condições de exploração colonial.
ALGUMAS REPERCUSSÕES DA REVOLUÇÃO FRANCESA
A Revolução Francesa teve um efeito transformador sobre a situação na Europa que durou muito mais tempo do que ela própria. A sua influência variou consoante as diversas etapas e as diversas guerras, e dependeu também, naturalmente, da capacidade dos diferentes povos para assimilarem as doutrinas revolucionárias.
A notícia do início da Revolução foi um rastilho que percorreu todos os países da Europa. A burguesia, tendo à frente os intelectuais das «Luzes» - que eram a sua camada intelectual dirigente -, saudou a Revolução com um entusiasmo trasbordante. Na vizinha Alemanha, Hegel (1770-1831), Holderlin (1770-1843) e Schelling (1775-1854) louvaram o «magnífico nascer do Sol»; o poeta Klopstock (1724-1802) escreveu «tivesse eu cem vozes, eu celebraria a liberdade da Gália»; Goethe (1749-1832) pôs na boca do Juiz, em Hermann e Dorothea, estas palavras sobre a Revolução Francesa:
«Pois quem há-de negar que o coração bem alto lhe pulou no peito, [...]
Ao ouvir falar no Direito dos Homens, que a todos é comum, Na liberdade exaltante e na Igualdade tão digna de louvor.»
Em Inglaterra, o líder da oposição, Fox (1749-1806), caracterizou a Revolução como «de longe o maior, de longe o melhor acontecimento que o mundo jamais conheceu».
O poeta italiano Vittorio Alfieri (1749-1803) saudou a tomada da Bastilha num poema entusiástico. Na Rússia, Radichtchev (1749-1802) publicou em 1790 o seu livro A Viagem de Petersburgo para Moscovo, o que lhe custou o desterro para a Sibéria, por causa do «contágio da epidemia francesa». Todos estes homens viram na Revolução Francesa um acontecimento histórico de importância mundial que não podia deixar de ter uma poderosa influência no desenvovimento dos seus países, ainda que diferente de uns para os outros.
Só uma parte da burguesia entusiasmada, porém, soube passar da adesão intelectual à acção política. Na Alemanha, o entusiasmo inicial da intelectualidade burguesa foi-se gradualmente transformando, em especial durante o domínio jacobino, num repúdio que chegou mesmo a uma hostilidade frontal. O atraso económico e a fragmentação política não tinham ainda permitido na Alemanha o aparecimento de uma burguesia que pudesse colocar-se na vanguarda das massas populares descontentes e levar a uma mudança nas relações sociais vigentes. A burguesia alemã estava interessada em reformas, mas esperava que elas viessem dos poderes constituídos, dos apelos que fazia à inteligência desses poderes. Esta burguesia era ainda fraca de mais para uma revolução. Aos vários levantamentos populares que se verificaram na região do Reno, perto da fronteira francesa, em 1789, na Saxónia, em 1790, e na Silésia, em 1793-1794, faltou, por conseguinte, a imprescindível direcção burguesa. Estes levantamentos não ultrapassaram as fronteiras regionais de origem, e foram facilmente reprimidos. Mas as coisas já se passaram de modo diferente na região entre Landau e Bingen, em 1792-1793: aqui os revolucionários burgueses, entre os quais se distinguiu Georg Forster (1754-1794), ousaram passar da teoria a prática revolucionária, e instituíram a república de Mainz. Mas a verdade é que as condições desta acção eram radicalmente diferentes: ela processou-se sob a protecção das tropas revolucionárias da França vitoriosa.
Em Inglaterra verificou-se uma mudança semelhante à da Alemanha, mas em condições completamente diferentes. A burguesia inglesa, que já há muito tempo fizera a sua revolução, limitou-se, influenciada por este acontecimento tão importante na história mundial, a desenvolver um movimento político que visava uma reforma parlamentar na base das relações burguesas já conquistadas e rejeitava o radicalismo francês. Além disso, para a burguesia inglesa a República francesa, com os seus êxitos militares, constituía um concorrente capitalista perigoso que era necessário combater implacavelmente. O jacobinismo inglês, que o havia, apoiava-se, por isso, em larga medida em círculos da população que, não indo ainda além do âmbito de um programa democrático-burguês, sofriam já na carne a exploração capitalista.
O eco entusiástico que a Revolução Francesa encontrou na Irlanda, na Polónia, na Bélgica, na Hungria e na Itália estava intimamente ligado ao esforço que estes países desenvolviam para alcançar a independência nacional. Em alguns destes países, o caracter patriótico da luta trouxe a esta mesmo círculos da aristocracia que se serviam de consignas francesas e que nem sempre defendiam as ideias que estavam na base delas. Foi o caso, por exemplo, das ordens privilegiadas da Bélgica, da Hungria ou da Boémia, que protestavam contra a dominação austríaca. Mas mesmo sem atendermos ao facto de que existia, a par deste movimento austríaco, uma corrente burguesa, mais ou menos bem vincada, que lutava por objectivos claramente progressistas na perspectiva social, temos de reconhecer que a própria oposição aristocrática ao jugo austríaco foi um contributo positivo para o progresso histórico, na medida em que também reivindicava a soberania nacional necessária ao desenvolvimento da burguesia.
Nos países em que as ideias francesas foram seguidas de perto pelas baionetas francesas a influência daquelas assumiu um carácter contraditório. Por um lado, as forças progressistas tinham motivos para saudar este apoio poderoso na luta contra a reacção interna; por outro lado, as tropas invasoras encarnavam também, e cada vez mais, as tendências de conquista da burguesia que, a partir de 1794, dominava absolutamente a França. Este duplo carácter fez-se notar logo em 1794-1795, na conquista da Bélgica e da Holanda. Na Itália, Napoleão Bonaparte começou por apoiar as aspirações republicanas. Acabou com o domínio dos Habsburgos, no Norte, dos Bourbons espanhóis, no Sul, do Estado eclesiástico, em Roma, e de várias dinastias feudais. À destruição da fragmentação estatal ligaram-se transformações sociais que já não tinham, de facto, qualquer carácter democrático, mas que mesmo assim favoreciam inequivocamente o desenvolvimento da burguesia. O preço que a Itália pagou por este desenvolvimento foi ter de suportar o jugo estrangeiro de Napoleão, que degradou o pais, tornando-o um mercado para os produtos franceses, e dele retirou o dinheiro e os homens para as suas sucessivas guerras. A Suíça, que em 1798 tinha derrubado por si própria os seus senhores feudais, teve um destino semelhante.
O caso da Alemanha foi diferente, na medida em que não conheceu, enquanto esteve ocupada pela França, nenhuma fase republicana, excepção feita à região da margem esquerda do Reno que se uniu à França e usufruiu plenamente de todas as vantagens da revolução burguesa. As aspirações republicanas que se manifestaram, por exemplo, no final dos anos 90 no Sul da Alemanha, e que depositavam na França as suas esperanças, foram por esta atraiçoadas sem quaisquer escrúpulos, porque a política burguesa da França em relação a Alemanha visava conseguir uma aliança com "os médios principes alemães contra a Prússia e a Áustria, aliança que veio a concretizar-se, em 1806, na Liga Renana. O resultado desta política acabou por ser benéfico: o mapa político da Alemanha ficou limpo de um sem-número de minúsculos Estados feudais e começaram a ser legisladas algumas reformas modestas - conquistas que mais se desvaneciam à medida que se prolongavam os sacrifícios em vidas e bens para as guerras napoleónicas, pelo que a luta contra o domínio estrangeiro acabou por se tornar uma questão nacional de vida ou de morte.
O que é espantoso - e característico da poderosa influência exercida pela Revolução Francesa - é o facto de as guerras de libertação desencadeadas contra a dominação francesa, nas várias partes da Europa, na última fase da era napoleónica, terem tido de fazer apelo, necessariamente, aos frutos essenciais da Revolução para triunfarem. A Espanha, até então impermeável a todas as influências revolucionárias por força do grande poder do seu clero, realizou com a guerra de libertação iniciada em 1808 e durante ela a sua primeira revolução burguesa, coroada em 1812 com a promulgação de uma Constituição. Quando a Áustria se levantou contra Napoleão em 1809 e conseguiu vencê-lo pela primeira vez numa batalha, o seu triunfo ficou a dever-se às reformas militares, cujo modelo foram as guerras da Revolução Francesa. Os preparativos da insurreição prussiana, a que estão ligados homens como Stein (1757-1831) e Scharnhorst (1775-1831), fizeram-se paralelamente a uma legislação reformadora que Engels caracterizou como sendo o início da revolução burguesa na Prússia. Todavia, o ano de 1813, que trouxe a libertação final do domínio estrangeiro, não levou por diante este desenvolvimento, antes o interrompeu. Os governos aliados não combatiam em Napoleão apenas o conquistador, combatiam nele sobretudo o herdeiro da Revolução Francesa. E depois da queda final do Corso todos eles quebraram as promessas feitas aos seus povos, restaurando no Congresso de Viena a Europa pré-revolucionária.
Mas a sua tentativa estava votada ao fracasso, pois a Revolução Francesa tinha dado à roda da história uma direcção nova que era irreversível, tinha transformado a Europa tão radicalmente que esta não podia continuar a ser o que fora anteriormente. Logo no início dos anos 20 do século XIX a Itália, a Espanha e Portugal foram sacudidos por movimentos revolucionários. Entre os povos dominados pela Turquia na península balcânica ganharam novo ímpeto os esforços visando a independência nacional, em 1825 rebentou na Rússia a revolução dos Decabristas, em 1830 a França escorraçou os Bourbons que lhe tinham sido impostos, a Polónia ergueu-se contra os opressores estrangeiros em poderosas insurreições, a Bélgica libertou-se da união forçada com a Holanda ordenada por Viena, a América do Sul viveu uma era de guerras de libertação nacional. E logo em 1848 a onda revolucionária inundou de novo quase toda a Europa. Em todos estes levantamentos e revoluções foi poderosa a influência das ideias da Revolução Francesa, que apenas perderam a sua vitalidade na medida em que a burguesia, edificando o seu domínio nos diferentes países, começou a negar, pelo medo que tinha da classe operária em ascenso revolucionário, o seu próprio passado revolucionário. Por isso, só a classe operária, no nosso século, soube apreciar plenamente a grandeza histórica da Revolução Francesa, reconhecendo embora, ao mesmo tempo, os limites próprios desta Revolução. Os grandes lemas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que então só puderam ajudar a nascer a nova sociedade de classes, a sociedade burguesa, foram assimilados pelo movimento operário na sua visão do mundo.
***
25 de Janeiro de 1785: O Cardeal Rohan presenteia Maria Antonieta com um colar de diamantes (O caso do colar de diamantes)
No dia 25 de Janeiro de 1785, o príncipe-cardeal de Rohan recebe um deslumbrante colar de diamantes que ele destina à rainha Maria Antonieta. O escândalo iria desabar no colo da rainha da França e arruinar a sua reputação de mulher honesta. Alguns meses mais tarde eclodiria a Revolução.
O colar havia sido produzido cerca de 1773 pelos joalheiros parisienses Böhmer e Bassenge com 647 joias e um peso total de 2300 quilates.
Os joalheiros estavam certos de vendê-lo à condessa Du Barry, favorita do rei Luis XV, mas a morte do velho rei em 1774 não permitiu concretizar a venda.
Surge a ideia de vendê-lo à nova rainha, Maria Antonieta. Chegaram a apresentar a maravilha aos soberanos em 1778 e em 1781. O jovem rei Luís XVI não se deixa envolver e recua diante da enormidade do preço, 1,6 milhão de libras. A rainha também se mostra ponderada. Iria lembrar que era o preço de dois navios, dos quais a França tinha muito mais necessidade.
A jovem austríaca tinha chegado a Versalhes com 14 anos e foi definida como personagem frívola, cercada de jovens aristocratas despreocupados. O príncipe Louis de Rohan era um deles. Filho de ilustre e riquíssima família, parte para Viena como embaixador em 1772. É expulso dois anos mais tarde pela imperatriz que se escandaliza com a sua libertinagem. No entanto, é nomeado capelão na França, depois cardeal e por fim bispo de Estrasburgo.
O cardeal de Rohan tem suas ambições políticas e atribui à antipatia da rainha o fracasso dos seus projectos. Foi então que conheceu uma jovem mulher pouco recatada que descendia de um bastardo filho do rei Henrique II e utilizava o título fantasioso de condessa De La Motte-Valois. Ela mantinha vínculos com um libertino italiano, Giuseppe Balsamo, quem se apresentava como conde de Cagliostro.
A condessa Jeanne De La Motte-Valois fazia alarde de uma pretensa intimidade com Maria Antonieta a ponto de convencer o cardeal de poder ganhar as suas boas graças.
Em 11 de Março de 1784, uma entrevista discreta é organizada no Bosque de Vénus, perto do Petit Trianon, onde a rainha passava boa parte do seu tempo. A rainha aparece e entrega ao cardeal uma rosa e um bilhete fazendo um sinal para que se calasse. Na realidade, era uma modista parisiense, Nicole d'Oliva, quem desempenhava o papel de sósia da rainha. O cardeal julga ser a rainha e empresta-lhe 150 mil libras. Mais tarde, a sósia da rainha pede-lhe novos empréstimos e que sirva de intermediário entre ela e os joalheiros Boehmer e Bassenge na compra de um colar de diamantes no valor de 1,5 milhão de libras, que ela desejava ter mas, em segredo, para não alarmar o rei. Os joalheiros também são contactados com um pedido para que entreguem o colar a Jeanne para que esta o transmita à rainha. Rohan aceita servir de intermediário na transacção, chegando o colar às mãos da condessa de La Motte, que o vende em Londres com o auxílio do seu marido. Quando a factura dos joalheiros chega ao palácio real, tudo se vai., descobrir. O rei Luís XVI manda prender o cardeal Rohan, Cagliostro, a condessa e seus cúmplices: ao todo quinze pessoas.
Em 15 de Agosto de 1785, dia da Assunção, houve uma grande festa em Versalhes. O grande capelão da França celebraria um ofício solene na capela do palácio. Já havia vestido o seu hábito pontifical quando foi intimado a apresentar-se no gabinete real.
Luis XVI recebe-o em presença da rainha e do ministro da Casa Real, o barão de Breteuil. Mostram-lhe o compromisso firmado em favor dos joalheiros Böhmer e Bassenge. O cardeal, desconcertado, é obrigado a firmar a confissão cujos termos foram ditados pelo rei. “Que se prenda o cardeal!”, Exclama Breteuil, seu inimigo jurado. No mesmo dia, Rohan é encarcerado na Bastilha. No dia seguinte é a vez de Jeanne de la Motte.
O rei confia ao Parlamento o processo do cardeal. A instrução arrasta-se enquanto o alto-clero se insurge contra a afronta a um dos seus, vítima de burlões e apenas culpado de ingenuidade.
Em 22 de Maio de 1786, o processo tem início diante de 64 magistrados da Grande-Câmara. Dez dias depois o procurador-geral, Joly de Fleury, pronuncia uma acusação sombria. Uma parte da corte insurge-se enquanto milhares de manifestantes do lado de fora proclamam ruidosamente o seu apoio ao cardeal. O rei despoja o cardeal de todos os seus cargos e exila-o na Abadia da Chaise-Dieu.
A condessa De la Motte é condenada a ser açoitada em público, marcada com ferro em brasa e presa com prisão perpétua na Salpêtrière de onde foge pouco depois. Cagliostro é banido do reino.
A opinião pública acolhe o veredicto enquanto os pintores oficiais tentam reverter o julgamento popular, apresentando Maria Antonieta não mais como a rainha da elegância e sim como uma mãe afectuosa, cercada de crianças. Esta operação de comunicação não funcionou.
O caso do colar marcaria um novo apodo à rainha : “Madame Déficit”, a alimentar o ressentimento popular contra ela.
Tratado como mártir, o cardeal de Rohan seria eleito depois da Revolução para os Estados Gerais em 1789 pelo clero de Tonnerre, antes de emigrar para a Alemanha, onde morreria em 1803.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/01/25-de-janeiro-de-1785-o-cardeal-rohan_25.html?fbclid=IwAR3EbV866WQCuqsEwtbl37yybZEOhxGUbBe965AuZssgLw5STjXgkQRLxo0
No dia 25 de Janeiro de 1785, o príncipe-cardeal de Rohan recebe um deslumbrante colar de diamantes que ele destina à rainha Maria Antonieta. O escândalo iria desabar no colo da rainha da França e arruinar a sua reputação de mulher honesta. Alguns meses mais tarde eclodiria a Revolução.
O colar havia sido produzido cerca de 1773 pelos joalheiros parisienses Böhmer e Bassenge com 647 joias e um peso total de 2300 quilates.
Os joalheiros estavam certos de vendê-lo à condessa Du Barry, favorita do rei Luis XV, mas a morte do velho rei em 1774 não permitiu concretizar a venda.
Surge a ideia de vendê-lo à nova rainha, Maria Antonieta. Chegaram a apresentar a maravilha aos soberanos em 1778 e em 1781. O jovem rei Luís XVI não se deixa envolver e recua diante da enormidade do preço, 1,6 milhão de libras. A rainha também se mostra ponderada. Iria lembrar que era o preço de dois navios, dos quais a França tinha muito mais necessidade.
A jovem austríaca tinha chegado a Versalhes com 14 anos e foi definida como personagem frívola, cercada de jovens aristocratas despreocupados. O príncipe Louis de Rohan era um deles. Filho de ilustre e riquíssima família, parte para Viena como embaixador em 1772. É expulso dois anos mais tarde pela imperatriz que se escandaliza com a sua libertinagem. No entanto, é nomeado capelão na França, depois cardeal e por fim bispo de Estrasburgo.
O cardeal de Rohan tem suas ambições políticas e atribui à antipatia da rainha o fracasso dos seus projectos. Foi então que conheceu uma jovem mulher pouco recatada que descendia de um bastardo filho do rei Henrique II e utilizava o título fantasioso de condessa De La Motte-Valois. Ela mantinha vínculos com um libertino italiano, Giuseppe Balsamo, quem se apresentava como conde de Cagliostro.
A condessa Jeanne De La Motte-Valois fazia alarde de uma pretensa intimidade com Maria Antonieta a ponto de convencer o cardeal de poder ganhar as suas boas graças.
Em 11 de Março de 1784, uma entrevista discreta é organizada no Bosque de Vénus, perto do Petit Trianon, onde a rainha passava boa parte do seu tempo. A rainha aparece e entrega ao cardeal uma rosa e um bilhete fazendo um sinal para que se calasse. Na realidade, era uma modista parisiense, Nicole d'Oliva, quem desempenhava o papel de sósia da rainha. O cardeal julga ser a rainha e empresta-lhe 150 mil libras. Mais tarde, a sósia da rainha pede-lhe novos empréstimos e que sirva de intermediário entre ela e os joalheiros Boehmer e Bassenge na compra de um colar de diamantes no valor de 1,5 milhão de libras, que ela desejava ter mas, em segredo, para não alarmar o rei. Os joalheiros também são contactados com um pedido para que entreguem o colar a Jeanne para que esta o transmita à rainha. Rohan aceita servir de intermediário na transacção, chegando o colar às mãos da condessa de La Motte, que o vende em Londres com o auxílio do seu marido. Quando a factura dos joalheiros chega ao palácio real, tudo se vai., descobrir. O rei Luís XVI manda prender o cardeal Rohan, Cagliostro, a condessa e seus cúmplices: ao todo quinze pessoas.
Em 15 de Agosto de 1785, dia da Assunção, houve uma grande festa em Versalhes. O grande capelão da França celebraria um ofício solene na capela do palácio. Já havia vestido o seu hábito pontifical quando foi intimado a apresentar-se no gabinete real.
Luis XVI recebe-o em presença da rainha e do ministro da Casa Real, o barão de Breteuil. Mostram-lhe o compromisso firmado em favor dos joalheiros Böhmer e Bassenge. O cardeal, desconcertado, é obrigado a firmar a confissão cujos termos foram ditados pelo rei. “Que se prenda o cardeal!”, Exclama Breteuil, seu inimigo jurado. No mesmo dia, Rohan é encarcerado na Bastilha. No dia seguinte é a vez de Jeanne de la Motte.
O rei confia ao Parlamento o processo do cardeal. A instrução arrasta-se enquanto o alto-clero se insurge contra a afronta a um dos seus, vítima de burlões e apenas culpado de ingenuidade.
Em 22 de Maio de 1786, o processo tem início diante de 64 magistrados da Grande-Câmara. Dez dias depois o procurador-geral, Joly de Fleury, pronuncia uma acusação sombria. Uma parte da corte insurge-se enquanto milhares de manifestantes do lado de fora proclamam ruidosamente o seu apoio ao cardeal. O rei despoja o cardeal de todos os seus cargos e exila-o na Abadia da Chaise-Dieu.
A condessa De la Motte é condenada a ser açoitada em público, marcada com ferro em brasa e presa com prisão perpétua na Salpêtrière de onde foge pouco depois. Cagliostro é banido do reino.
A opinião pública acolhe o veredicto enquanto os pintores oficiais tentam reverter o julgamento popular, apresentando Maria Antonieta não mais como a rainha da elegância e sim como uma mãe afectuosa, cercada de crianças. Esta operação de comunicação não funcionou.
O caso do colar marcaria um novo apodo à rainha : “Madame Déficit”, a alimentar o ressentimento popular contra ela.
Tratado como mártir, o cardeal de Rohan seria eleito depois da Revolução para os Estados Gerais em 1789 pelo clero de Tonnerre, antes de emigrar para a Alemanha, onde morreria em 1803.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/01/25-de-janeiro-de-1785-o-cardeal-rohan_25.html?fbclid=IwAR3EbV866WQCuqsEwtbl37yybZEOhxGUbBe965AuZssgLw5STjXgkQRLxo0
***
16 de Maio de 1770: Casamento em Versalhes de Maria Antonieta e Luís XVI
Um
dos dezasseis filhos de Maria Teresa, rainha da Hungria e da Boémia e
de Francisco I, imperador da Áustria, foi Maria Antónia Josefa Joana ,
nascida a 2 de Novembro de 1755 e que depois de casada optou por usar o
nome de Antonieta.
A
arquiduquesa Antónia cresceu no ambiente muito moralista da corte da
mãe. Maria Teresa era uma mulher com princípios fortes, amada pelo seu
povo. O casamento da arquiduquesa Antónia com Luís XVI (então delfim)
foi preparado pela mãe, para cimentar a aliança entre a Áustria e a
França. A 13 de Junho de 1769 o noivado foi oficialmente anunciado. Os
detalhes para o matrimónio foram meticulosamente preparados. A 19 de
Abril de 1770 foi celebrado o casamento por procuração. A partir desse
momento Antónia foi oficialmente chamada de "Marie Antoinette, Dauphine de France".
Em
21 de Abril de 1770, com a idade de 14 anos, Maria Antonieta deixa a
sua terra natal e viaja para o palácio de Versalhes. A primeira
impressão que teve ao conhecer Luís foi a de um rapaz tímido, gordo e
algo estúpido.
O
casamento dos futuros reis de França, foi celebrado em Versalhes a 16
de Maio, numa cerimónia solene, e todo o povo foi convidado a festejar a
alegria da família real. Após o jantar, iniciou-se a cerimónia do coucher a
qual, pela etiqueta, deveria ser presenciada por toda a corte. O casal
foi para a cama e o leito nupcial foi abençoado pelo arcebispo. No final
da cerimónia os noivos foram deixados a sós, mas o casamento não foi
consumado.
Luís
negligenciava os seus deveres reais a favor da caça e do tempo passado
na sua oficina de serralharia. Sofria ainda de uma doença que o impediu
de gerar filhos nos primeiros sete anos de casamento. O povo, não
sabendo desta situação, culpava Maria Antonieta pela falta de herdeiros.
A
corte de Versalhes era ainda mais rígida do que a de Maria Teresa, e
Maria Antonieta não escondia o seu aborrecimento durante as cerimónias
que decorriam.
À
medida que o tempo passava, ela tornava-se cada vez mais rebelde.
Insistia em sair sozinha ou com pouca companhia, em vez de viajar
rodeada de criados e de cortesãos. Escolhia os seus próprios amigos e
mesmo as roupas que usava, recusando-se a usar espartilhos e cintas.
Em
1774 o velho rei morreu e o seu marido tornou-se Luís XVI. Três anos
mais tarde, uma pequena cirurgia voltava a dar-lhe esperança de ser pai.
O primeiro filho do casal foi Maria Teresa Carlota, que nasceu em 1775.
Com a maternidade, Antonieta assentou e tornou-se uma mãe e esposa
devotada.
Apesar
disso, foi sempre uma rainha impopular. Muitos franceses odiavam a
rainha por esta ser austríaca e pelas suas maneiras frívolas. Havia
rumores de que teria inúmeros amantes. Alcunhada de "Madame Déficit",
sobre ela recaiam as culpas de ser a culpada da crise que o país
atravessava.
E
foi sobre ela que caiu a fúria da milícia parisiense aquando da
Revolução. A 5 de Outubro de 1789, uma marcha de mulheres (e alguns
homens disfarçados) irrompeu por Versalhes a exigir o sangue de Maria
Antonieta, que se manteve sempre calma. Salvou-a da morte a intervenção
de Lafayette, um herói da revolução americana que se opôs à acção da
multidão.
O
casal real e os seus filhos foram aprisionados no palácio das
Tulherias, onde se mantiveram vários anos. Em 1791, alguns nobres
conseguiram arranjar um plano de fuga para a família real, mas o casal
teria de viajar separado das crianças, o que Maria Antonieta recusou.
Isto veio a selar o seu destino, porque foram reconhecidos na vila de
Varennes e capturados.
De
novo em cativeiro, perante a apatia de Luís XVI, coube a Maria
Antonieta negociar com os revolucionários e secretamente com a Áustria,
para interceder em França, mas quando teve início a guerra entre os dois
países, o casal real foi julgado por traição.
Em
1792 a monarquia foi abolida e a família real foi levada para a prisão,
apesar de serem relativamente bem tratados e lhes ter sido permitido
viver juntos.
A 21 de Janeiro de 1793, após julgamento, Luís XVI foi decapitado.
Os
pequenos príncipes acompanharam os pais para a prisão, mas estavam
frequentemente doentes, e Maria Antonieta velava por eles. Mas os
carcereiros decidiram separar o pequeno Carlos Luís da mãe e
colocaram-no numa cela no piso inferior, onde ela podia ouvi-lo a
chorar, e onde veio a morrer em 1795, de tuberculose.
Semanas mais tarde, separaram-na também de Maria Carlota. Nunca mais os tornaria a ver.
Uma
noite, Maria Antonieta foi acordada e levada para a prisão de
Conciergerie, onde se encontravam todos os nobres que aguardavam a
morte.
Em Outubro, a rainha, agora alcunhada de "viúva Capeto", foi julgada e condenada, por traição, a ser guilhotinada.
No
dia 16 de Outubro de 1793, fizeram-na desfilar pelas ruas de Paris num
carro aberto, sujeita a todos os piropos da população, embora mantivesse
sempre a dignidade. No cadafalso, tropeçou nos pés do executor e
pediu-lhe desculpa.
Depois de ter sido executada, o carrasco pegou sua cabeça ensanguentada e apresentou-a ao povo de Paris.
Fontes: Mulher Portuguesa
Wikipedia (Imagens)
Maria Antonieta aos 7 anos de idade, óleo de Martin van Meytens
A arquiduquesa aos 14 anos de idade, no retrato oficial enviado a Versalhes. Pastel de Joseph Ducreux
***
06 de Maio de 1758: Nasce Maximilien de Robespierre, advogado e político francês
Maximilien
François Marie Isidore de Robespierre (6 de Maio de 1758 — 28 de Julho
de 1794), advogado e político francês, foi uma das personalidades mais
importantes da Revolução Francesa.
Em
Abril de 1789 Robespierre tornou-se deputado pelo Terceiro estado da
região de Artois. Revelou-se um grande orador. Em Abril de 1790,
tornou-se membro do Clube dos Jacobinos, a ala mais radical dos
revolucionários. A partir daí, adquiriu notoriedade e passou a estar
intimamente associado aos acontecimentos da Revolução Francesa.
Em
1791 Robespierre foi um dos principais líderes da insurreição popular
do Campo de Marte. Depois da deposição da família real, em 1792,
Robespierre aderiu à Comuna de Paris e tornou-se um dos chefes do
governo revolucionário. Combateu então a facção dos girondinos, menos
radicais.
Robespierre
foi um dos contestatários que pediu a condenação de Luís XVI,
guilhotinado a 21 de Janeiro de 1793. Entretanto foi instaurado o regime
do "Grande Terror" - o auge da ditadura de Robespierre.
Em
1794, Robespierre mandou executar Danton, o revolucionário que propunha
um rumo mais moderado para a revolução. Danton gozava de grande
popularidade e ousara falar na reconciliação nacional.
No dia
27 de Julho, numa sessão da Convenção Robespierre foi afastado do
poder, ficou ferido e teve que fugir. Foi detido, na companhia do seu
irmão e de alguns seguidores. Ainda foram libertados por militares que
lhe eram fiéis, mas, quando a Convenção mandou outros soldados para os
confrontar, as forças fiéis a Robespierre desertaram. Alguns dos
fugitivos suicidaram-se para evitar serem detidos. Robespierre terá
tentado dar um tiro na cabeça, mas apenas conseguiu destroçar a
mandíbula inferior. Foi colocado na mesma cela onde tinha permanecido
Maria Antonieta.
Maximilien
de Robespierre foi guilhotinado em Paris no dia 28 de Julho de 1794,
sem ter sido julgado, juntamente com o seu irmão Augustin de Robespierre
(também membro da Junta de Salvação Pública) e dezassete dos seus
colaboradores durante o golpe de 9 do Termidor, dentre eles, s dois dos
seus grandes amigos, companheiros desde o início de sua jornada,
Saint-Just e Couthon.
Fontes: Infopédia
wikipedia (Imagens)
wikipedia (Imagens)
Maximilien Robespierre - Pierre Roch Vigneron
Prisão de Robespierre
Execução de Robespierre e dos seus partidários - Autor desconhecido
***
Joana d' Arc
30mAIo1431...morre (na fogueira) Joana d' Arc
https://www.youtube.com/watch?v=Oqmpr11OC_0
**
30 de Maio de 1431: Condenada por heresia, Joana D'Arc morre na fogueira
Joana
D'Arc foi queimada numa fogueira em praça pública a 30 de Maio de 1431
na cidade francesa de Rouen. A jovem filha de camponeses liderou a luta
contra a ocupação inglesa em 1429, na Guerra dos Cem Anos.
Napoleão
Bonaparte certa vez disse: "Um francês pode fazer milagres ao ver a
independência do país ameaçada". Ainda hoje, Joana D'Arc é um símbolo
nacional para os franceses. Vários livros com a sua biografia e diversos
filmes foram lançados sobre a ingénua, porém corajosa filha de
lavradores do interior da França.
Joana
D'Arc nasceu em Domrèmy-la-Pucelle na noite de Epifania de 1412. Já em
vida, se havia tornado uma lenda, as pessoas queriam vê-la e tocá-la. Em
1429, entrou para a história da França ao escrever uma carta ao chefe
da ocupação inglesa:
"Rei
da Inglaterra, auto intitulado regente do Império Francês, entregue à
virgem enviada por Deus, imperador do céu, a chave de todas as cidades
que Sua Alteza tomou dos franceses. Se não o fizer, Sua Alteza já o
sabe, eu sou general. Em todo lugar na França que encontrar da sua
gente, vou expulsá-la."
Teria
sido ousadia ou ingenuidade a oferta feita por Joana, então com 16
anos, ao seu rei, Carlos VII, de expulsar os invasores ingleses de
Orleães e assim ajudá-lo a garantir-se no trono da França? Ao
apresentar-se como enviada divina, ajudou a projectar o seu nome na
história.
Oficialmente,
ninguém contestava a necessidade de expulsar os britânicos. Mesmo
assim, o rei e os seus consultores preferiram mandar averiguar quem era
aquela jovem. Doutores, religiosos, guerreiros, ninguém encontrou
ressalvas à pura Joana, apenas o bem, a inocência, a humildade, a
honestidade e a submissão.
Joana
apareceu para salvar os franceses justamente no momento em que eles
acreditavam que apenas um milagre poderia ajudá-los. E a Joana vestida
de guerreiro, um enviado de Deus, incorporou esta esperança. O povo via
nela a concretização de um antiga profecia, segundo a qual a França
seria salva por uma virgem. Uma propaganda ideal para a corte. Era a
oportunidade para motivar as suas tropas, que a esta altura estavam com a
imagem um tanto desgastada.
Joana, a salvadora. Com o passar dos séculos, ela foi apelidada de bruxa, prostituta, santa, feminista, nacionalista, heroína.
Orleães
estava sitiada pelos ingleses há seis meses. Um contingente de cinco
mil homens pretendia forçar os 30 mil habitantes a entregar-se. Apesar
de não ser um integrante activo nos planos dos militares franceses, o
espírito de luta de Joana – e talvez apenas a sua presença – trouxe a
vitória aos franceses.
No
dia 8 de Maio de 1429, ela foi festejada pelos moradores de Orleães
como enviada divina. E seguiram-se ainda muitas vitórias até à coroação
de Carlos VII em Reims. Os ingleses, derrotados, iniciaram uma
conspiração contra Joana, que acusavam de bruxaria. Ela foi presa em
1430, julgada em Rouen por heresia por um tribunal eclesiástico
presidido por Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, foi condenada e
queimada viva na praça Vieux-Marché de Rouen, em 30 de Maio de 1431.
Carlos VII, que nada fez para salvá-la, esperou até à reconquista de
Rouen, em 1450, para proceder à revisão do seu processo, que culminaria
na sua absolvição (1456).Em 9 de Maio de 1920, cerca de 500 anos depois
de sua morte, Joana D'Arc foi canonizada pelo Papa Bento XV - era a
Santa Joana D'Arc. Em 1922 foi declarada padroeira de França.
wikipedia (imagens)
Joana d'Arc é queimada viva - Jules-Eugène Lenepveu
Gravura de 1505
Pintura romântica de Joana D'Arc na Batalha de Orleães -
O interrogatório de Joana d'Arc - Paul Delaroche
**
29ab1429...Joana d' Arc entra na cidade de Orleães, França, reivindicando vitória sobre as forças inglesas.
"Joana
D'Arc nasceu em Domrèmy-la-Pucelle na noite de Epifania de 1412. Já em
vida, se havia tornado uma lenda, as pessoas queriam vê-la e tocá-la. Em
1429, entrou para a história da França ao escrever uma carta ao chefe
da ocupação inglesa:
"Rei
da Inglaterra, auto intitulado regente do Império Francês, entregue à
virgem enviada por Deus, imperador do céu, a chave de todas as cidades
que Sua Alteza tomou dos franceses. Se não o fizer, Sua Alteza já o
sabe, eu sou general. Em todo lugar na França que encontrar da sua
gente, vou expulsá-la."
Teria
sido ousadia ou ingenuidade a oferta feita por Joana, então com 16
anos, ao seu rei, Carlos VII, de expulsar os invasores ingleses de
Orleães e assim ajudá-lo a garantir-se no trono da França? Ao
apresentar-se como enviada divina, ajudou a projectar o seu nome na
história.
Oficialmente,
ninguém contestava a necessidade de expulsar os britânicos. Mesmo
assim, o rei e os seus consultores preferiram mandar averiguar quem era
aquela jovem. Doutores, religiosos, guerreiros, ninguém encontrou
ressalvas à pura Joana, apenas o bem, a inocência, a humildade, a
honestidade e a submissão.
Joana
apareceu para salvar os franceses justamente no momento em que eles
acreditavam que apenas um milagre poderia ajudá-los. E a Joana vestida
de guerreiro, um enviado de Deus, incorporou esta esperança. O povo via
nela a concretização de um antiga profecia, segundo a qual a França
seria salva por uma virgem. Uma propaganda ideal para a corte. Era a
oportunidade para motivar as suas tropas, que a esta altura estavam com a
imagem um tanto desgastada.
Joana, a salvadora. Com o passar dos séculos, ela foi apelidada de bruxa, prostituta, santa, feminista, nacionalista, heroína.
Orleães
estava sitiada pelos ingleses há seis meses. Um contingente de cinco
mil homens pretendia forçar os 30 mil habitantes a entregar-se. Munida de uma bandeira branca, Joana chega a Orleães em 29 de Abril de 1429. Comandando um exército de 4000 homens ela consegue a vitória sobre os invasores no dia início do mes de Maio. O episódio é conhecido como a Libertação de Orleães (e em França como a Siège d'Orléans). Os franceses já haviam tentado defender Orleães mas não obtiveram sucesso. Apesar
de não ser um integrante activo nos planos dos militares franceses, o
espírito de luta de Joana – e talvez apenas a sua presença – trouxe a
vitória aos franceses.
No
dia 8 de Maio de 1429, ela foi festejada pelos moradores de Orleães
como enviada divina. E seguiram-se ainda muitas vitórias até à coroação
de Carlos VII em Reims. Os ingleses, derrotados, iniciaram uma
conspiração contra Joana, que acusavam de bruxaria. Ela foi presa em
1430, julgada em Rouen por heresia por um tribunal eclesiástico
presidido por Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, foi condenada e
queimada viva na praça Vieux-Marché de Rouen, em 30 de Maio de 1431.
Carlos VII, que nada fez para salvá-la, esperou até à reconquista de
Rouen, em 1450, para proceder à revisão do seu processo, que culminaria
na sua absolvição (1456).Em 9 de Maio de 1920, cerca de 500 anos depois
de sua morte, Joana D'Arc foi canonizada pelo Papa Bento XV - era a
Santa Joana D'Arc. Em 1922 foi declarada padroeira de França."
wikipedia (imagens)
Gravura de 1505
O interrogatório de Joana d'Arc - Paul Delaroche
Joana d'Arc é queimada viva - Jules-Eugène Lenepveu
*
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1920332218038214&id=107358489335605
**
6jan1413...Joana d' Arc...
https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/01/06-de-janeiro-de-1412-nasce-joana-darc_6.html?fbclid=IwAR2OhH8K6_jNe4h939cHpEAcf9rvag9OkxwIAQ0X1PP7IonK916AnORD0UA
***
