21/08/2014

8.599.(21ag2014.13.55') Leon Trotski

Nasceu a 7nov1879
e foi assassinado a 21ag1940
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discurso de 1919
https://www.youtube.com/watch?v=EbbIAkXidE0
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documentário
https://www.youtube.com/watch?v=bmDPETlbsaI
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Filme

El Asesinato de Trotsky (1972) de Richard Losey

https://www.youtube.com/watch?v=-YeVEK_c8mg
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Tese de historiadores brasileiros
http://www.academia.edu/5618170/A_TESE_DA_CONTINUIDADE_E_O_MARXISMO_Analise_da_historiografia_da_Revolucao_Russa_e_das_contribuicoes_de_Leon_Trotsky
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https://www.facebook.com/teleSUR/photos/a.10150565130246179.376197.186321186178/10152292798806179/?type=1&theater
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via PCP:

1918/01 - Para a História da Questão da Paz Infeliz

Lénine leu as Teses sobre a Questão da Conclusão Imediata de Uma Paz Separada e Anexionista numa reunião dos membros do CC com os funcionários do Partido realizada em 8 (21) de Janeiro de 1918. As Teses foram publicadas em 24 de Fevereiro de 1918 quando a maioria dos membros do CC do partido já apoiava as posições leninistas em relação à conclusão da paz. Para a publicação das Teses, Lénine redigiu um prefácio a que deu o título de Para a História da Questão da Paz Infeliz.
O Governo Soviético, considerando indispensável tirar com urgência a Rússia da guerra, viu-se obrigado a realizar negociações para a conclusão com a Alemanha de uma paz separada. Em 2 (15) de Dezembro de 1917, na cidade de Brest-Litovsk, foi assinado um acordo sobre o armistício que estabelecia a convocação de uma conferência de paz.
A Conferência de Paz começou em Brest-Litovsk no dia 9 (22) de Dezembro de 1917. Nela participaram as delegações da Rússia Soviética e dos países da chamada Quádrupla Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria, Bulgária, Turquia), que apresentaram à delegação soviética reivindicações territoriais dos seus governos. Segundo essas exigências, a Rússia tinha que ceder à Alemanha e à Austria-Hungria um território superior a 150 mil quilómetros quadrados.
Apesar do carácter abertamente de rapina das condições exigidas pelos imperialistas alemães, Lénine insistia na necessidade da conclusão da paz, pois considerava indispensável uma trégua para a consolidação do poder soviético. A posição de Lénine foi objecto de crítica por parte de Trótski e do grupo de "comunistas de esquerda". Estes exigiam o rompimento das negociações, lançaram a palavra de ordem aventureira de "guerra revolucionária" e desenvolveram uma luta feroz contra Lénine e os seus partidários. Trótski, que, na segunda fase das negociações da paz, chefiava a delegação soviética, manifestou uma atitude capitulacionista e declarou que a Rússia Soviética não assinaria a paz mas cessaria as hostilidades e desmobilizaria o exército. Essa declaração provocou o rompimento das negociações, e no dia 18 de Fevereiro os alemães iniciaram uma ofensiva em toda a linha da frente.
Lénine, na reunião extraordinária do CC realizada na noite de 18 de Fevereiro, quando a ofensiva alemã já era um facto, após uma luta dura e prolongada contra Trótski e contra os "comunistas de esquerda" conseguiu obter pela primeira vez uma maioria de votos a favor da conclusão da paz. Na manhã do dia 19 de Fevereiro foi enviada ao governo alemão um radiograma comunicando-lhe a disposição do governo soviético de concluir a paz nas condições que os alemães apresentaram em Brest-Litovsk.
Em 23 de Fevereiro, de manhã, chegou a resposta do comando alemão, exigindo condições ainda mais duras para a conclusão da paz. Na reunião do CC realizada no dia 23 de Fevereiro, durante a discussão do novo ultimato alemão, a dura luta em torno dessa questão continuou. Finalmente o CC manifestou-se por maioria de votos a favor da proposta de Lénine sobre a imediata conclusão da paz nas condições alemãs. O IV Congresso Extraordinário dos Sovietes, que se realizou de 14 a 16 de Março de 1918, ratificou o Tratado de Paz de Brest-Litovsk.
Depois da Revolução de Novembro de 1918 na Alemanha o governo soviético anulou o Tratado de Paz de rapina de Brest.
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O PCP e o «Judas Trotsky»: 1920–1974

João Moreira
 

Segundo uma polémica afirmação do historiador britânico Eric Hobsbawm, a “importância [política] de Trotsky” à data da sua morte “era insignificante” (Hobsbawm, 1996: 82). A leitura de Hobsbawm é «suspeita» e perigosa, pois, para além de Hobsbawm ter sido um confesso militante do Partido Comunista da Grã-Bretanha, Trotsky era à época uma figura política de renome mundial, embora sem um papel político na URSS. Ainda assim, no caso da tese do autor de A Era dos Extremos estar correta, Hobsbawm esquece-se de dizer porquê. Em oposição, Osvaldo Coggiola, historiador argentino, lembra a influência crescente do revolucionário ucraniano “entre os opositores anti-estalinistas” durante a década de 1930 — ainda que a maioria se encontrasse espalhada pelos campos do Gulag –, o assassinato de Rudolf Klement[1] aquando do congresso de fundação da Quarta Internacional, a extrema dificuldade do revolucionário russo em encontrar um país que lhe concedesse exílio[2], a liquidação de trotskistas a nível mundial — antes ainda da II Guerra Mundial[3] –, a preocupação demonstrada pelo embaixador francês na Alemanha, Robert Coulondre, a Hitler da possível vitória de Trotsky na II Guerra Mundial que se adivinhava [4] e, finalmente, as 300 mil pessoas presentes no funeral, que duraria cinco dias, do companheiro de Lenine, na Cidade do México (Coggiola, 1999: 106–109). Coggiola recorda ainda as palavras de Pavel Sudoplatov, diretor dos serviços secretos soviéticos e responsável máximo, depois de Estaline, pelo assassinato do autor de A Revolução Traída. Segundo Sudoplatov, a ação política de Trotsky “confundiu” e “debilitou” a “posição” de Estaline ao longo de toda a década de 1930, em especial “na Europa Ocidental e na Alemanha”, através dos “seus esforços para cindir” e, mais tarde, “controlar o movimento comunista mundial” (ibidem: 111).
Mesmo se Hobsbawm estivesse correto, como explicar a preocupação de Estaline em decretar, no próprio mês do assassinato, “um novo regulamento militar […] destinado a substituir o antigo juramento internacionalista do Exército Vermelho” escrito pelo fundador deste? O legado internacionalista de Trotsky (e da própria Revolução Russa) também teria de ser liquidado. O Exército Vermelho não deveria ser um “instrumento de expansão da revolução” mas sim “um instrumento de defesa nacional” (Marie, 2004: 467–468). Como se verá adiante, dois anos depois, a própria Internacional Comunista (IC) seria dissolvida. Hobsbawm estava de facto equivocado: à data do seu assassinato, Trotsky encontrar-se-ia “no olho do furacão que arrasaria o mundo” (Coggiola, 1999: 137).

Gregory Zinoviev.

Ao que tudo indica, o trotskismo, enquanto movimento político organizado, surge em Portugal no início da década de 1970. Não obstante, no período de plena ascensão e vitória do estalinismo (1930–1950) existiriam alguns militantes próximos das propostas de Trotsky no seio do PCP. Essa tese é, de algum modo, confirmada por Pedro Rocha [5] que afirma que na passagem da década de 1920 para a década de 1930, “um tal Nunes”, depois de ficar à frente do quinzenário O Proletário[6], “aproximou-se, então, de alguns filiados falando-lhes de trotskismo, tentando provocar uma cisão, mas sem êxito”. Nas suas memórias, Rocha crê que esta havia sido “a primeira tentativa de criar uma fração trotskista em Portugal”.[7] Ainda segundo aquele militante do PCP, Nunes seria expulso passado algum tempo (Rocha, 1991: 14–15).
Pedro Rocha assegura também que mais tarde, “dada a atualidade do assunto [8], foi preparada uma reunião de militantes em que Pável[9] falou sobre o trotskismo”. Tal reunião, “organizada sob o disfarce de um inocente piquenique”, contaria “com mais de duas dezenas de participantes”. Segundo Rocha, “Pável, que havia estudado a questão e preparado conscienciosamente o seu trabalho, pronunciou uma palestra brilhante”, a qual, além de abordar a teoria da revolução permanente, a “atuação política” de Trotsky e a sua posição deste em Brest-Litovsk, refletiria sobre a “personalidade” do antigo líder do Exército Vermelho (ibidem: 38). Ainda assim, segundo Pacheco Pereira, este seria um “assunto abstrato para a maioria dos comunistas portugueses”, refletido na “quase ausência de influência política de Trotsky no comunismo português, como, aliás, os relatórios à IC irão sempre repetir” (Pereira, 1999: 85).
Somente alguns anos depois o termo voltou a fazer-se ouvir com alguma frequência no seio do PCP. Durante a batalha de 1940–1041 entre «franguistas» e «reorganizadores», o termo trotskismo, “pecado mortal em plena era estalinista”, foi “a acusação […] mais usada de ambos os lados”. Se os primeiros denunciavam os segundos por estes serem, alegadamente, «esquerdistas» e «trotskistas», os segundos comparavam o homem máximo dos primeiros, Vasco de Carvalho, ao «Judas Trotsky[10]» (ibidem: 73). Devedora dos acontecimentos na URSS e na Internacional Comunista, esta forma de combate político serviria de modelo na generalidade dos combates internos dos partidos de filiação orgânica estalinista.

Logotipo da IV Internacional.

Não se pense, no entanto, que as críticas se resumiam ao alegado trotskismo de alguns militantes. Outros também eram chamados à atenção por publicarem no primeiro número de O Militante “uma transcrição do traidor vendido ao fascismo Zinoviev, esse miserável assassino de Kirov, esse comparsa do bandido internacional Trotsky” (Cunhal, 2007: 256). Também Karl Radek, outro “traidor trotskista” (ibidem: 257) figurava no imenso quadro de infiéis, e do qual apenas escapavam Lenine, Estaline e alguns outros dirigentes do movimento comunista internacional. No âmbito dos Processos de Moscovo, o antigo companheiro de Lenine e Trotsky havia sido “condenado pelos tribunais soviéticos pela sua ação contra-revolucionária e ligações com potências fascistas” (SVI, nº 14, 1943) e executado em 1936. O seu nome não deveria, por isso, voltar a ser referenciado[11].
No rescaldo da batalha entre as duas fações, em maio de 1942, o Temas de Estudo nº1 do PCP salientava a vitória dos vencedores: “Como se dera com o Judas Trotsky e os seus sequazes, aquilo que já não podiam fazer contra o Partido dentro do seu próprio seio, passou a fazer-se fora dele […]. O traidor Trotsky e os seus sequazes organizaram a 4ª Internacional; o traidor Vasco de Carvalho e os seus sequazes organizaram o segundo Partido Comunista Português.” (PCP apud Pereira, 2001: 84). Seria o próprio Álvaro Cunhal a afirmar que o trotskismo, mais do que uma “corrente provocatória”, seria um “bando de assassinos e espiões ao serviço do fascismo e da reação mundial” (Cunhal, 2007: 257).
Note-se ainda que segundo Cândida Ventura[12], a primeira mulher no Comité Central do PCP depois da «reorganização», não fora tarefa “difícil aceitar as acusações de Estaline contra Trotsky, Bukharine e outros companheiros de Lenine” e o facto de estes serem “agentes do nazismo” (Ventura, 2012: 32).
Ainda antes do final do período correspondente à segunda Guerra Mundial, o Avante! afirmaria que somente um “parlador de café ou trotskista disfarçado” (Avante!, VI Série, nº 49, fevereiro 1944: 4) não compreenderia a substituição da Internacional [13] por um hino estritamente nacional na URSS, à semelhança de qualquer outro Estado-nação capitalista. No mesmo número do órgão oficial do PCP seria também celebrado mais um aniversário do Exército Vermelho mas sem qualquer menção ao nome de Leon Trotsky — seu fundador –, tal como havia feito o canal televisivo inglês BBC aquando da comemoração dos 25 anos daquele arsenal, como lembra George Orwell em Sobre a Liberdade de Imprensa — texto inserido na última edição portuguesa d’A Quinta dos Animais (Orwell, 2008).


APAGUEI A FOTO
Álvaro Cunhal.

Seria após um longo interregno, em 1970, que o PCP, pela mão, mais uma vez, de Álvaro Cunhal, voltaria a utilizar o termo trotskismo com alguma regularidade. Este reapareceria agora brevemente em O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista — obra que teria como objetivo principal ser uma “arma de combate para os setores do PCP que, no contexto da sua militância, buscavam reverter o aumento da influência de grupos e de personalidades que à esquerda questionavam as posições políticas e o papel de vanguarda da oposição ao regime assumido pelo partido” (Bebiano-Cardina in Neves, 2013: 79). Utilizando o método preferido de difamação de Estaline, Cunhal, 40 anos após o assassinato do fundador do Exército Vermelho, criticaria as organizações políticas criadas à esquerda do seu partido que, “numa misturada de velharias anarquistas e trotskistas”, desenvolveriam “um emaranhado de confusões e conceitos tipicamente pequeno-burgueses” tendo em vista a definição do «seu» socialismo. Segundo o antigo secretário-geral do PCP, estes grupos teriam como “mestres” os “trânsfugas e oportunistas de direita ou de «esquerda» que, noutros países, enveredam pelo anti-sovietismo e o anticomunismo”, entre eles, Herbert Marcuse[14], Daniel Cohn-Bendit[15], Jean-Paul Sartre[16], Rossana Rossanda [17], Roger Garaudy [18] e Ernest Fischer [19], alegadamente “heróis ideológicos do radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista” (Cunhal, 2013: 521). Porém, em sentido contrário, em A Situação Política e as Tarefas Imediatas do Partido, Cunhal condenaria a “demasiada politização” aquando de um colóquio sobre Marcuse (ibidem: 333). Todavia, era exatamente esse o caldo político-filosófico em que a parte mais significativa do trotskismo português mergulharia.
Por fim, para além da crítica de Cunhal aos alegados “heróis ideológicos do radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, refira-se também a caracterização que Vital Moreira[20]fazia de um desses ideólogos: mais uma vez Herbert Marcuse. Segundo o antigo militante comunista, no filósofo de Eros e Civilização, “pouco ou nada existe de genuinamente marxista”. Pelo contrário, naquele apenas “aflora a utopia pré-marxista”, não ultrapassando o «hegelianismo-de-esquerda» elementar (Moreira, 1973: 18). Já em maio de 1974, o PCP, agora pela mão de José Manuel Jara, continuaria a classificar o “trotskismo” e o maoismo de “ideias pseudo-socialistas” (Jara, 1974: 27).
Sobre a forma como as organizações de matriz maoista utilizavam a figura de Trotsky e os termos trotskismo e trotskista deter-se-á o próximo texto.

[1] Principal organizador do congresso de fundação da Quarta Internacional. Depois de morto, o seu corpo seria lançado ao rio Sena (Coggiola, 1999)
[2] Em 1933, o governo francês conceder-lhe-ia exílio perspetivando uma crise política na URSS que poderia fazer voltar Trotsky ao leme da URSS (Coggiola, 1999).
[3] O assassínio de trotskistas (e anarquistas) durante a Guerra Civil de Espanha seria um caso paradigmático dessa mesma perseguição. Segundo Coggiola, a GPU chegaria a ter uma secção denominada «secção Trotsky» (Coggiola, 2008).
[4] O embaixador francês diria “receio […] que no final da guerra só haja um vencedor: o senhor Trotsky” (Coulondre apud Marie, 2004: 466).
[5] Dirigente do PCP (Rocha, 1991: 39).
[6] Órgão do PCP.
[7] A estalinização do PCP ainda não estava consumada. Esta tese é suportada pelas afirmações de Pedro Rocha que refere a leitura de autores Alexandra Kollontai, feminista, dirigente da Oposição Operária no seio do PCUS e Comissária do Povo para o Bem-estar Social, e Federica Montseny, anarco-feminista.
[8] Em 1928 é editada e publicada uma conferência de cariz altamente conservador de Cunhal Leal com o título de Internacionalismo: Trotsky e Staline.
[9] Pseudónimo de Francisco Paula de Oliveira. Importante dirigente do PCP que acabaria por se renegado por este. Tornar-se-ia um escritor e crítico de arte de renome no México.
[10] A religiosidade estalinista também se faria sentir no PCP.
[11] O nome deste bolchevique e membro da Oposição de Esquerda figurava “numa lista de subscrição” no boletim do Socorro Vermelho Internacional (SVI) — “Teoricamente uma organização não comunista de solidariedade com os presos, mas na verdade uma secção do PCP” (Pereira, 2001: 79).
[12] Delegada do PCP na Checoslováquia aquando da Primavera de Praga. Mais tarde romperia com este.
[13] Música oficial das I, II e III Internacionais e que serviria de hino da URSS até 1944.
[14] Proeminente filósofo e sociólogo associado à Escola de Frankfurt.
[15] Estudante alemão e líder do Movimento 22 de Março em França.
[16] Filósofo e escritor existencialista francês que no final da sua vida se distanciaria do estalinismo.
[17] Militante do Partido Comunista Italiano (PCI). Expulsa deste no final da década de 1960 por fundar o Il Manifesto — jornal comunista mas crítico do PCI e da URSS.
[18] Militante do PCF. Viria a romper com este em 1968.
[19] Militante do Partido Comunista da Áustria. Por se opor à invasão da Checoslováquia em 1968, acabaria por ser expulso.
[20] Antigo militante do PCP.
https://medium.com/praxismag/pcp-e-trostky-b513f71881a8
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O maoísmo português e o “anarco-trotskismo”

João Moreira
 

Consequente do conflito sino-soviético, o fenómeno maoista português teve as suas raízes no seio do quadro dirigente do Partido Comunista Português (PCP) após Francisco Martins Rodrigues desencadear um processo de rutura política no início da década de 1960 e que culminaria na sua expulsão do partido no final de 1963. Distanciando-se das orientações alegadamente recuadas do PCP e alinhando-se progressivamente com a nomenklatura chinesa, Martins Rodrigues apontaria “a necessidade de uma revisão total da linha […] do partido que propunha a unidade com a burguesia liberal e o abandono da «aliança operário-camponesa»”. Segundo o autor de História de Uma Vida, a ação armada faria finalmente parte da nova etapa da luta dos trabalhadores contra o salazarismo — iniciada com o golpe de Beja em 1962 (Cardina, 2011: 37–39).
Fundada a Frente de Ação Popular (FAP) em 1964, o novo agrupamento político de Martins Rodrigues adotaria a orientação da Revolução Democrática e Popular que conteria como “tarefas” essenciais “Liberdade, Paz, Pão, Terra e Independência” (AP, nº 1, Junho 1964), ao contrário da orientação pela Revolução Democrática e Nacional, adotada pelo PCP no seu VI Congresso em 1965. A FAP seria o primeiro de inúmeros coletivos maoistas a atuar em Portugal nas décadas de 1960 e 1970.
Relativamente à utilização do termo trotskismo por parte destas organizações a situação é um pouco diferente da do PCP. Se, por um lado, estas acabariam, em grande medida, por recuperar o ímpeto difamatório e caluniador do estalinismo durante as três décadas posteriores à Revolução de Outubro — e que os partidos comunistas tradicionais haviam, de algum modo, esquecido –, por outro, à personalidade de Trotsky e às correntes trotskistas já não lhes eram associadas as alegadas colaborações com forças anticomunistas e reacionárias (nomeadamente os diferentes fascismos), mas sim a alegada nefasta orientação liberal-democrática que aqueles poderiam dar ao movimento operário. Em todo o caso, o maoísmo foi/é um estalinismo. Apesar dos diferentes matizes maoístas (uns ideologicamente mais próximos do estalinismo, outros mais próximos, por exemplo, do conselhismo), a rejeição de Trotsky e do seu pensamento teórico, político e estético era/é geralmente programática, feita na base do juízo de intenção e um fator de «coerência» política.
A ideia genérica que o maoísmo português teria sobre o fundador do Exército Vermelho é, de algum modo, encontrada no nº 13 do órgão O Comunista[1] em julho 1972. Neste caracteriza-se Trotsky enquanto militante bolchevique de “uma notável instabilidade política” que, estando “frequentemente em contradição com Lenine […] personificou todas as hesitações do movimento revolucionário russo do princípio do século”. O Comunista denunciaria também o facto de Trotsky reconhecer alegadamente o proletariado como “a única classe revolucionária”, não devendo, então, “fazer alianças com outras classes menos progressistas”, como o campesinato, aquando da “tomada do poder” e do “início da construção do socialismo”. Tal orientação iria contra a de Lenine, para quem “a aliança do proletariado com o campesinato era fundamental” no início do novo capítulo da História da Humanidade. Nesse sentido, Lenine e o Partido Bolchevique haviam lutado com êxito “contra esta tendência «esquerdista» e idealista” que deixaria o proletariado “isolado perante a burguesia”. Quanto à teoria da revolução permanente/mundial, “tese tão extremista e «revolucionária»”, não seria “senão um fator de objetivo de desmobilização das massas trabalhadoras que conquistaram o poder”, nomeadamente as da União Soviética (C, nº 13, 1972: 1–6).
De acordo com O Comunista, depois da morte de Lenine, Trotsky, “desprezando o papel do coletivo, […] introduzia mais uma vez nos debates revolucionários a sua ideologia individualista e pequeno-burguesa”. Não verificando a aceitação das suas teses, o próprio “recusou a disciplina partidária e a obediência à maioria e organizou a sua própria fração dissidente”. Expulso do partido e da União Soviética, o autor de Literatura e Revolução “continuou até ao fim da sua vida uma atividade de constante sabotagem da República Soviética […] a coberto, evidentemente de duvidosos apoios de revistas e pseudorrevolucionários dos países capitalistas” (ibidem: 1–6).

Francisco Martins Rodrigues.

Os Núcleos «O Comunista» recordariam também os “planos [de Trotsky] de militarização dos sindicatos”. No final do artigo, concluindo, afirmava-se que Trotsky e aqueles que os seguiam “representam uma contradição antagónica em relação à ideologia do proletariado, não só pelos pontos teóricos defendidos, como pela prática histórica atualmente exercida”. Ainda assim, os Núcleos reconheceriam em Trotsky o “papel importante na Guerra Civil contra os reacionários” (ibidem: 1–6). A este artigo o Combate Operário[2] replicaria com outro intitulado Os Herdeiros de Estaline, composto por extensas citações de Trotsky.
Recuando à década de 1960 são encontradas algumas referências ao alegado trotskismo no seio de outros partidos e grupos maoistas. Em março de 1969, no nº 2 do Estrela Vermelha[3] dá-se conta de uma tal “oportunista Rita” que “no estilo do bom intelectual burguês e trotskista” declarava, no seio do CMLP «Basta de burocracia e autoritarismo!», afirmando igualmente que «a imprensa deve ser feita pela base» e “insurgindo-se contra a disciplina partidária e o centralismo democrático”. Na mesma linha de pensamento, um “comparsa” de Rita, David, também reclamaria a “discussão na base”. Ao “ultra-democratismo” desejado, o Estrela Vermelha, respondia com citações de Mao, o qual afirmava que tal orientação tinha a sua «origem no liberalismo e [no] relaxamento pequeno-burguês». Tais orientações seriam «absolutamente incompatíveis com as tarefas de combate do proletariado» (EV, nº2, 1969: 14–15).
Ainda no mesmo número, o Estrela Vermelha denunciaria “literatura anarquista e trotskista” propagada pelos Cadernos de Circunstância[4] que, alegadamente, teriam “uma conceção «marxista» muito liberal do mundo, uma visão muito eclética, nada «dogmática», e que”, desse modo, influenciaria sobremaneira “alguns jovens idealistas.” Assim, com tais “subprodutos literários”, a classe dominante penetraria na “parte mais destacada da juventude estudantil, incutindo-lhe uma série de preconceitos quanto à revolução e à ditadura do proletariado” (ibidem: 18).
O Estrela Vermelha faria ainda uma última referência a Trotsky, equiparando-o a Cunhal. O órgão afirmaria que “esses «marxistas-leninistas» que negam os pontos fundamentais do marxismo-leninismo (tal como Cunhal, que também se diz «marxista-leninista»), fazem lembrar Trotsky, que, primeiro foi «marxista» lá a seu modo (embora em divergência com Lenine, que era o «monopolista» do marxismo), e depois foi «leninista» a seu modo (embora em divergência com Estaline, «monopolista» do leninismo) (ibidem: 21).
Em fevereiro de 1972, no nº 7 do Unidade Popular[5], viria uma crítica aos “falsos marxistas-leninistas” de O Comunista que haviam sido “expulsos do CMLP por defenderem conceções trotskistas e por pretenderem colocar o CMLP ao serviço dos anticomunistas da LUAR[6] (UP, nº 2, 1972: 2). O mesmo número do Unidade Popular daria ainda a conhecer história de um militante que tinha por intenção “editar um órgão teórico” consequente da criação de “um Comité Comunista”. Ao militante havia sido respondido “que o leninismo […] ensina a necessidade de linha única, a necessidade de unificação absoluta do movimento, e a proibição da existência de frações no seio dum partido comunista” e “que a criação dum outro órgão, além de um desperdício de forças, era uma conceção trotskista” que se traduziria no “abandono da linha única” e na “autorização de frações no seio do partido comunista”. Desconhecendo a partir daí o paradeiro daquele militante, o Partido Comunista Português (marxista-leninista) reconhece no jornal O Bolchevista “a tal publicação teórica”, depois do supradito militante não ver aceite “as suas propostas trotskistas e liquidacionistas” de “a cada Comité Comunista um órgão teórico”. O Unidade Popular associaria então os militantes do grupo O Bolchevista a “todos esses oportunistas, trotskistas renegados” representantes “da burguesia radical, anti-marxistas e anti-leninistas”, depois tal publicação começar uma série de provações ao PCP (m-l) que iam desde a sua apresentação enquanto CMLP até à falsa associação da UEC (m-l) com o grupo/jornal (ibidem: 1–2).
O artigo já citado publicado no nº 13 de julho de 1972 d’O Comunista debruça-se também sobre o trotskismo partidário. Segundo O Comunista, “as inclinações passageiras do versátil e volúvel militante que era Trotsky” afluiriam na “proliferação de uma multidão de grupos todos ditos trotskistas, todos reivindicando a obediência ao «profeta», todos seguindo táticas absolutamente divergentes” e “todos unânimes na defesa da «revolução permanente» e na impossibilidade da construção do socialismo num só país” (C, nº 13, 1972: 3). Tal apreciação não deixaria de se revelar, em grande medida, razoável.


Segundo O Comunista, o trotskismo, que surge no período estudado essencialmente enquanto «concorrente» do maoísmo no movimento estudantil, reaparecera devido “ao desenvolvimento do capitalismo […] ressuscitando as velhas discussões e polémicas com a orientação leninista para a revolução”. Ao trotskismo, “produto direto da nova burguesia dos serviços, do teoricismo e da tecnocracia”, eram também identificadas uma série de posturas políticas: por vezes “tecnicista”, “militarista” e “ultra burocrático”, o trotskismo transformar-se-ia outras vezes em “federalista”, promovendo “a liberdade de discussão e de organização”. Às tendências trotskistas eram igualmente reconhecidos o “profundo desprezo pelas massas”, a “pretensão constantemente dirigista” e “uma retórica fértil”, ainda que simultaneamente “vazia”. Não sendo mais do que o “reflexo de uma pequena burguesia descontente”, a sua atividade no movimento operário significaria a “infiltração da ideologia capitalista” no seio deste (ibidem: 1–3).
Ainda para os Núcleos «O Comunista», a “única razão de existência” dos trotskistas seria denunciarem publicamente “os erros de Estaline”. No entanto, de acordo com a organização maoista, “o direito a discutir os erros do movimento comunista internacional” apenas cabia aos “militantes revolucionários marxistas-leninistas, e não aos sabotadores trotskistas” (ibidem: 3).
Apesar da reduzida influência dos trotskistas assumidos no movimento estudantil, também o Viva a Revolução[7], em março de 1973, dar-lhe ia um lugar naquela edição. Adotando também os ecos da retórica estalinista pré-1953, este equiparia o trotskismo emergente com o PCP, afirmando que “se bem que o lugar de honra dos serviços distintos prestados à burguesia continua de posse dos revisionistas do P«C»P e das suas tenebrosas filiais no M.E.[8] (a chamada UE«C»[9]), outros grupos lhe disputam neste momento o lugar”, nomeadamente “a camarilha trotskista que, do ponto de vista político e ideológico, faz da hostilidade do marxismo leninismo revolucionário a sua razão principal de existência desde as primeiras horas do seu aparecimento e nas suas diversas seitas” (VR, nº 5, 1973: 15).
No entanto, as principais críticas ao trotskismo nasciam das alegadas “características ideológicas”, entre elas, “a negação da necessidade operário-camponesa para o triunfo da Revolução, o escamoteamento do papel da vanguarda do Partido do Proletariado e da aplicação rígida do centralismo democrático” e “a pregação de um internacionalismo oco que desvia o proletariado da sua tarefa de emancipação em relação à burguesia do país”. Segundo o Viva a Revolução, todas estas orientações tinham “por fim retirar ao proletariado os seus aliados, a sua organização de classe e a sua estratégia revolucionária”. Este grupo maoista criticaria também o trotskismo por este, alegadamente, se afastar dos problemas dos estudantes. Para o primeiro “a discussão política dos problemas da Escola” deveria ser “para os estudantes um escalão necessário da discussão política dos problemas da Sociedade”. Segundo aqueles, “a negação do sindicalismo estudantil” objetivaria “o campo para a negação burguesa do carácter de massas da luta estudantil revolucionária”. A orientação trotskista para o movimento estudantil revelar-se-ia, então, “reacionária” (ibidem: 15–16).
Ainda de acordo com o grupo, uma parte do programa do trotskismo constituía-se pela “cisão do movimento revolucionário da classe operária”. Nesse sentido, “as teses idealistas e reacionárias dos trotskistas sobre «as castas burocráticas» nos países revisionistas são o melhor apoio destes para disfarçar a verdadeira luta de classes que se trava nestes países: a luta entre o proletariado despojado de poder e a nova burguesia de Estado que neles iniciou o processo de restauração do capitalismo”. Mais adiante, afirmar-se-ia ainda que, querendo “desintegrar e dividir as forças motrizes do processo revolucionário”, os trotskistas “negam a enorme importância das lutas de libertação nacional e pretendem separá-las do conjunto da Revolução Mundial Proletária”103 (ibidem: 15–16).


Em suma “as características ideológicas” do trotskismo acabariam por levá-lo à “prática grupuscular de alheamento das massas e do seu nível de consciência política”, ao “desprezo pela intervenção a nível sindical”, ao lançamento da “confusão” nos “setores de vanguarda” e, finalmente, à transformação daqueles “num punhado de sabotadores ao serviço da classe dominante”. Assim, tendo em conta que “hoje como no passado, o trotskismo faz a Revolução em palavras e sabota o movimento revolucionário na prática”, haveria que tomar precauções face “às possibilidades de confusão que possam lançar no movimento e às suas tentativas permanentes de sabotagem das lutas”. O Viva a Revolução terminaria com um objetivo significativamente expresso em maiúsculas: “FORA COM OS TRAIDORES TROTSKISTAS E COM TODOS OS OPORTUNITAS!” (ibidem: 14–16).
Também o Servir o Povo[10]se referiria ao suposto trotskismo de outras organizações, detetando-o, aliás, nas mais insuspeitas. Neste caso, o alvo seria o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP) — alegado aderente da corrente “oportunista”, ou, por outras palavras, do “trotskismo”. Tal acusação teria por base as suas “teorias trotskistas”, nomeadamente “a de um partido de frações” e “a da revolução socialista sem etapas”. Continuando a associação do MRPP ao trotskismo e às suas alegadas “formas radicais de luta”, a União dos Estudantes Comunistas (marxista-leninista) afirmaria que “não querendo educar revolucionariamente as massas, os trotskistas pretendem transformar as organizações de massas em organizações de minorias para aí poderem levar a cabo a sua luta política”. Prosseguindo “com a sua teoria do «poder duplo», [os trotskistas] pretendem transformar as organizações de tipo inferior (cooperativas, sindicatos, etc.) em instrumentos de «poder operário» ou do «poder estudantil» que estabelecerão o «controle operário das fábricas» (L. Trotsky), ou o «controle dos estudantes sobre o ensino»”. Desprezando as massas, o MRPP atuaria cada vez mais sob “conceções anarco-trotskistas”, com a intenção de conduzir o movimento estudantil “a «ousadas» aventuras”. Nesse sentido, o partido de Arnaldo Matos, “abraçando conceções declaradamente trotskistas”, tinha como objetivo “isolar os estudantes mais combativos convencendo-os que a luta verdadeiramente revolucionária é aquela que nas suas escolas desenvolvem «sabotando» o ensino da burguesia e «impondo» o ensino do povo” (SP, nº 10, 1972: 4).
O desconhecimento político combinado com alguma cegueira ideológica também levaria aquele órgão a equiparar o trotskismo à orientação do PCP adotada a partir do VI Congresso, que tivera lugar em 1965, afirmando que a teoria do «duplo poder» “em pouco ou nada se distingue da conceção revisionista da «transição pacífica para o socialismo»”. (ibidem: 4–5).
De espiões ao serviço dos diversos fascismos a anarquistas, passando por radicais pequeno-burgueses, as organizações portuguesas de matriz estalinista-maoista utilizariam o mesmo vocabulário que o seu patre russo para classificar os trotskistas portugueses ou, simplesmente, para se denegrir entre si. Não obstante, verifica-se uma certa evolução: no período final do Estado Novo, o termo trotskismo deixaria de ser associado, por exemplo, à colaboração com os fascismos, passando a adquirir muitas vezes um sentido democrático, liberal-libertário e (até) versátil, mesmo que esses adjetivos fossem olhados pejorativamente. O mesmo se passaria para com as organizações trotskistas propriamente ditas. Sobre estas versará o próximo artigo da série Trotsky e o Trotskismo em Portugal.



[1] Órgão associado aos Núcleos «O Comunista».
[2] Órgão da Liga Comunista francesa. Este estaria sob a direção de Fernando Baptista, Cândido de Azevedo e Ferreira Fernandes.
[3] Órgão teórico do Comité Marxista-Leninista Português. O seu principal dirigente seria Francisco Martins Rodrigues.
[4] Segundo Pacheco Pereira, “a revista mais influente no plano político-intelectual publicada na emigração”. Se bem que não pretendesse ser uma publicação excessivamente ideológica ou propagandística, no período posterior ao Maio de 68 seria influenciada por organizações como a Internacional Situacionista, o Movimento 22 de Março e grupos próximos do luxemburguismo e trotskismo. (Pereira, 2013: 222–225).
[5] Órgão central do PCP (m-l).
[6] Liga de Unidade e Ação Revolucionária.
[7] Órgão do Comité Revolucionário de Estudantes Comunistas
[8] Movimento Estudantil.
[9] União dos Estudantes Comunistas.
[10] Órgão da União dos Estudantes Comunistas (marxista-leninista).
Bibliografia
CARDINA, Miguel (2011), Margem de Certa Maneira. O maoismo em Portugal. 1964–1974, Lisboa, Tinta-da-China.
PEREIRA, José Pacheco (2013), As Armas de Papel, Lisboa, Círculo de Leitores.
https://medium.com/praxismag/o-mao%C3%ADsmo-portugu%C3%AAs-e-o-anarco-trotskismo-jo%C3%A3o-moreira-f66a47338df9
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12 de Novembro de 1927: Leon Trotsky é expulso do Partido Comunista da URSS

A dissidência no interior do Partido Comunista é revelada quando Leon Trotsky publica, em 1924, um prefácio aos seus textos de 1917 ("As Lições de Outubro"), criticando a falta de estratégia revolucionária de Estaline e da direcção do Komintern no levantamento alemão de 1923, e compara-as com a indecisão demonstrada por Kamenev e Zinoviev nas vésperas da Revolução de Outubro.
Estas discordâncias abertas afastam politicamente Trotsky de Estaline, culminando na sua expulsão do partido em 12 de Novembro de 1927, o exílio em Almaty, Cazaquistão, em 31 de Janeiro de 1928 e, finalmente, a saída definitiva da União Soviética em 1929. Ainda em Julho desse ano, começa a publicar um boletim mensal de oposição, que seria introduzido no território soviético durante todo o seu exílio.
Desde 1920, Lenine receava crescentemente a burocratização do partido e do Estado, criticava Trotsky pela falta de "opinião firme sobre o marxismo" e condenava-o na tentativa de querer conciliar as diferentes classes sociais esquerdistas. A sua morte, em 1924, gera um vazio de poder que acirra a disputa interna entre o sector da máquina partidária e o sector em defesa de uma maior sovietização do regime.
O primeiro, simbolizado por Estaline acabaria por predominar, assumindo a direcção quase total do partido. Nesse momento, Trotsky não quis ou não pôde opor-se activamente a Estaline, mantendo-se discreto no 12º Congresso do partido em 1923, onde acabaria por perder o poder para um triunvirato constituído por Estaline, Lev Kamenev e Grigori Zinoviev. Trotsky e os seus apoiantes organizam-se na Oposição de Esquerda, facção que nos anos seguintes lutaria no interior do partido contra Estaline.
Havia, no entanto, uma assimetria fundamental nesta luta de facções: a Oposição de Esquerda, por mais bem implantada que estivesse no interior da militância do partido, não tinha qualquer poder no interior das instâncias decisórias de um partido como o bolchevique. Trotsky, pela sua entrada tardia no partido – ele fora antes um menchevique -  e por não ter assumido responsabilidade por nomeações burocráticas como Estaline, não reunia condições de alavancar as suas posições pelo exercício da influência pessoal. Mas, ainda, desde o seu 10º Congresso, em 1920, o Partido Bolchevique havia adoptado um novo regimento administrativo que proibia a existência de facções permanentemente organizadas no partido, o que tornava possível, ante qualquer contestação à liderança do partido, ser caracterizada como "divisionista".
O prestígio pessoal de Trotsky era inteiramente desproporcional aos recursos políticos concretos que ele poderia mobilizar no interior de um partido a cuja vida interna era estranho. Daí, em grande parte, a inacção de Trotsky diante da ascensão de Estaline. Na ausência de Lenine, que até então havia sempre abonado as suas políticas em momentos decisivos, Trotsky escolheu não desafiar a direcção bolchevique, sabendo que as suas possibilidades de vitória eram reduzidas.
Durante a preparação pelo Komintern de um levantamento revolucionário na Alemanha no final de 1923 - com Lenine ainda vivo, mas, incapacitado - Trotsky solicitou ao partido permissão para atender a um convite do líder comunista alemão Heinrich Brandler para dirigir in loco o levantamento programado na condição de combatente revolucionário internacional.
A permissão foi negada, pois Estaline temia que Trotsky fosse feito prisioneiro ou morto e o embaraço que isto provocaria ao governo soviético. Temia ainda mais a possibilidade de que ele retornasse da Alemanha vitorioso, caso em que o seu poder e influência seriam irresistíveis. O levantamento alemão, mal preparado e executado, foi um fracasso, fortalecendo a tendência estalinista de abandonar a revolução socialista internacional pelo "socialismo num só país".
No decorrer das disputas que se seguiriam, Trotsky buscou consolação, assim como aumento de influência, concentrando-se no trabalho teórico e intelectual. Ele já havia, durante a Revolução de 1905, formulado a Teoria da Revolução Permanente, segundo a qual a revolução liberal-burguesa, nas condições de um país capitalista atrasado como a Rússia, não se deteria na constituição de uma república democrática, mas avançaria para a revolução socialista, num processo sem solução de continuidade, contrariamente ao entendimento evolucionista do marxismo predominante à época de que a revolução socialista seria um produto do esgotamento prévio das possibilidades de desenvolvimento capitalista nacional.
Após a Revolução de 1917, passou a defender também que a revolução socialista era um processo mundial e que a Revolução Russa precisaria continuar a desenvolver-se na arena mundial, no âmbito de uma perspectiva internacional que contrastava claramente com a política estalinista do "socialismo num só país". Defendeu a rápida industrialização da economia e o abandono da NEP (Nova Política Económica) de Lenine, quando Estaline e o teórico Bukharin, naquele momento, defendiam a industrialização gradual e a manutenção daquela política.
Ironicamente, afastado Trotsky, Estaline vira-se contra Bukharin e acaba por se apropriar de alguns dos preceitos da política económica enunciados por Trotsky, implementando-as, porém, de uma forma criticada por grande maioria como exageradamente violenta e autoritária. Tal "viragem à esquerda" de Estaline, no entanto, fez muito para privar a Oposição de Esquerda de grande parte dos seus partidários na URSS, que acabam por aderir a Estaline, que consideravam estar a realizar na prática o programa da oposição, nomeadamente o economista Ievgueni Preobrajensky e o antigo chefe de governo da Ucrânia soviética e amigo pessoal de Trotsky desde a época da sua estadia nos Balcãs, o socialista romeno de etnia búlgara Christian Rakovsky. Eles,  juntamente com a imensa maioria dos antigos trotskistas, morreram nas Grandes Purgas dos anos 1930.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
Trotsky em 1920
Trotsky com os Guardas Vermelhos
 https://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2018/11/12-de-novembro-de-1927-leon-trotsky-e.html?fbclid=IwAR1TzfQfV6U6GyfYZ4T5mOCNSuKgaVIaxXMZSyLNH9r4yteIiPRSsRaQ1UY
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