Nasceu a 7nov1879
e foi assassinado a 21ag1940
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discurso de 1919 https://www.youtube.com/watch?v=EbbIAkXidE0
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documentário https://www.youtube.com/watch?v=bmDPETlbsaI
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Filme
El Asesinato de Trotsky (1972) de Richard Losey
https://www.youtube.com/watch?v=-YeVEK_c8mg
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Tese de historiadores brasileiros http://www.academia.edu/5618170/A_TESE_DA_CONTINUIDADE_E_O_MARXISMO_Analise_da_historiografia_da_Revolucao_Russa_e_das_contribuicoes_de_Leon_Trotsky
*** https://www.facebook.com/teleSUR/photos/a.10150565130246179.376197.186321186178/10152292798806179/?type=1&theater *** via PCP:
Lénine leu as Teses sobre a Questão da Conclusão Imediata de Uma Paz Separada e Anexionista numa reunião dos membros do CC com os funcionários do Partido realizada em 8 (21) de Janeiro de 1918. As Teses foram publicadas em 24 de Fevereiro de 1918 quando a maioria dos membros do CC do partido já apoiava as posições leninistas em relação à conclusão da paz. Para a publicação das Teses, Lénine redigiu um prefácio a que deu o título de Para a História da Questão da Paz Infeliz.
O Governo Soviético, considerando indispensável tirar com urgência a Rússia da guerra, viu-se obrigado a realizar negociações para a conclusão com a Alemanha de uma paz separada. Em 2 (15) de Dezembro de 1917, na cidade de Brest-Litovsk, foi assinado um acordo sobre o armistício que estabelecia a convocação de uma conferência de paz.
A Conferência de Paz começou em Brest-Litovsk no dia 9 (22) de Dezembro de 1917. Nela participaram as delegações da Rússia Soviética e dos países da chamada Quádrupla Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria, Bulgária, Turquia), que apresentaram à delegação soviética reivindicações territoriais dos seus governos. Segundo essas exigências, a Rússia tinha que ceder à Alemanha e à Austria-Hungria um território superior a 150 mil quilómetros quadrados.
Apesar do carácter abertamente de rapina das condições exigidas pelos imperialistas alemães, Lénine insistia na necessidade da conclusão da paz, pois considerava indispensável uma trégua para a consolidação do poder soviético. A posição de Lénine foi objecto de crítica por parte de Trótski e do grupo de "comunistas de esquerda". Estes exigiam o rompimento das negociações, lançaram a palavra de ordem aventureira de "guerra revolucionária" e desenvolveram uma luta feroz contra Lénine e os seus partidários. Trótski, que, na segunda fase das negociações da paz, chefiava a delegação soviética, manifestou uma atitude capitulacionista e declarou que a Rússia Soviética não assinaria a paz mas cessaria as hostilidades e desmobilizaria o exército. Essa declaração provocou o rompimento das negociações, e no dia 18 de Fevereiro os alemães iniciaram uma ofensiva em toda a linha da frente.
Lénine, na reunião extraordinária do CC realizada na noite de 18 de Fevereiro, quando a ofensiva alemã já era um facto, após uma luta dura e prolongada contra Trótski e contra os "comunistas de esquerda" conseguiu obter pela primeira vez uma maioria de votos a favor da conclusão da paz. Na manhã do dia 19 de Fevereiro foi enviada ao governo alemão um radiograma comunicando-lhe a disposição do governo soviético de concluir a paz nas condições que os alemães apresentaram em Brest-Litovsk.
Em 23 de Fevereiro, de manhã, chegou a resposta do comando alemão, exigindo condições ainda mais duras para a conclusão da paz. Na reunião do CC realizada no dia 23 de Fevereiro, durante a discussão do novo ultimato alemão, a dura luta em torno dessa questão continuou. Finalmente o CC manifestou-se por maioria de votos a favor da proposta de Lénine sobre a imediata conclusão da paz nas condições alemãs. O IV Congresso Extraordinário dos Sovietes, que se realizou de 14 a 16 de Março de 1918, ratificou o Tratado de Paz de Brest-Litovsk.
Depois da Revolução de Novembro de 1918 na Alemanha o governo soviético anulou o Tratado de Paz de rapina de Brest.
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O PCP e o «Judas Trotsky»: 1920–1974
João Moreira
Segundo
uma polémica afirmação do historiador britânico Eric Hobsbawm, a
“importância [política] de Trotsky” à data da sua morte “era
insignificante” (Hobsbawm, 1996: 82). A leitura de Hobsbawm é «suspeita»
e perigosa, pois, para além de Hobsbawm ter sido um confesso militante
do Partido Comunista da Grã-Bretanha, Trotsky era à época uma figura
política de renome mundial, embora sem um papel político na URSS. Ainda
assim, no caso da tese do autor de A Era dos Extremos
estar correta, Hobsbawm esquece-se de dizer porquê. Em oposição,
Osvaldo Coggiola, historiador argentino, lembra a influência crescente
do revolucionário ucraniano “entre os opositores anti-estalinistas”
durante a década de 1930 — ainda que a maioria se encontrasse espalhada
pelos campos do Gulag –, o assassinato de Rudolf Klement[1]
aquando do congresso de fundação da Quarta Internacional, a extrema
dificuldade do revolucionário russo em encontrar um país que lhe
concedesse exílio[2], a liquidação de trotskistas a nível mundial — antes ainda da II Guerra Mundial[3]
–, a preocupação demonstrada pelo embaixador francês na Alemanha,
Robert Coulondre, a Hitler da possível vitória de Trotsky na II Guerra
Mundial que se adivinhava [4]
e, finalmente, as 300 mil pessoas presentes no funeral, que duraria
cinco dias, do companheiro de Lenine, na Cidade do México (Coggiola,
1999: 106–109). Coggiola recorda ainda as palavras de Pavel Sudoplatov,
diretor dos serviços secretos soviéticos e responsável máximo, depois de
Estaline, pelo assassinato do autor de A Revolução Traída.
Segundo Sudoplatov, a ação política de Trotsky “confundiu” e
“debilitou” a “posição” de Estaline ao longo de toda a década de 1930,
em especial “na Europa Ocidental e na Alemanha”, através dos “seus
esforços para cindir” e, mais tarde, “controlar o movimento comunista
mundial” (ibidem: 111).
Mesmo
se Hobsbawm estivesse correto, como explicar a preocupação de Estaline
em decretar, no próprio mês do assassinato, “um novo regulamento militar
[…] destinado a substituir o antigo juramento internacionalista do
Exército Vermelho” escrito pelo fundador deste? O legado
internacionalista de Trotsky (e da própria Revolução Russa) também teria
de ser liquidado. O Exército Vermelho não deveria ser um “instrumento
de expansão da revolução” mas sim “um instrumento de defesa nacional”
(Marie, 2004: 467–468). Como se verá adiante, dois anos depois, a
própria Internacional Comunista (IC) seria dissolvida. Hobsbawm estava
de facto equivocado: à data do seu assassinato, Trotsky encontrar-se-ia
“no olho do furacão que arrasaria o mundo” (Coggiola, 1999: 137).
Gregory Zinoviev.
Ao
que tudo indica, o trotskismo, enquanto movimento político organizado,
surge em Portugal no início da década de 1970. Não obstante, no período
de plena ascensão e vitória do estalinismo (1930–1950) existiriam alguns
militantes próximos das propostas de Trotsky no seio do PCP. Essa tese
é, de algum modo, confirmada por Pedro Rocha [5] que afirma que na passagem da década de 1920 para a década de 1930, “um tal Nunes”, depois de ficar à frente do quinzenário O Proletário[6],
“aproximou-se, então, de alguns filiados falando-lhes de trotskismo,
tentando provocar uma cisão, mas sem êxito”. Nas suas memórias, Rocha
crê que esta havia sido “a primeira tentativa de criar uma fração
trotskista em Portugal”.[7] Ainda segundo aquele militante do PCP, Nunes seria expulso passado algum tempo (Rocha, 1991: 14–15).
Pedro Rocha assegura também que mais tarde, “dada a atualidade do assunto [8], foi preparada uma reunião de militantes em que Pável[9]
falou sobre o trotskismo”. Tal reunião, “organizada sob o disfarce de
um inocente piquenique”, contaria “com mais de duas dezenas de
participantes”. Segundo Rocha, “Pável, que havia estudado a questão e
preparado conscienciosamente o seu trabalho, pronunciou uma palestra
brilhante”, a qual, além de abordar a teoria da revolução permanente,
a “atuação política” de Trotsky e a sua posição deste em Brest-Litovsk,
refletiria sobre a “personalidade” do antigo líder do Exército Vermelho
(ibidem: 38). Ainda assim,
segundo Pacheco Pereira, este seria um “assunto abstrato para a maioria
dos comunistas portugueses”, refletido na “quase ausência de influência
política de Trotsky no comunismo português, como, aliás, os relatórios à
IC irão sempre repetir” (Pereira, 1999: 85).
Somente
alguns anos depois o termo voltou a fazer-se ouvir com alguma
frequência no seio do PCP. Durante a batalha de 1940–1041 entre
«franguistas» e «reorganizadores», o termo trotskismo, “pecado
mortal em plena era estalinista”, foi “a acusação […] mais usada de
ambos os lados”. Se os primeiros denunciavam os segundos por estes
serem, alegadamente, «esquerdistas» e «trotskistas», os segundos
comparavam o homem máximo dos primeiros, Vasco de Carvalho, ao «Judas
Trotsky[10]» (ibidem:
73). Devedora dos acontecimentos na URSS e na Internacional Comunista,
esta forma de combate político serviria de modelo na generalidade dos
combates internos dos partidos de filiação orgânica estalinista.
Logotipo da IV Internacional.
Não se pense, no entanto, que as críticas se resumiam ao alegado trotskismo de alguns militantes. Outros também eram chamados à atenção por publicarem no primeiro número de O Militante “uma
transcrição do traidor vendido ao fascismo Zinoviev, esse miserável
assassino de Kirov, esse comparsa do bandido internacional Trotsky”
(Cunhal, 2007: 256). Também Karl Radek, outro “traidor trotskista” (ibidem:
257) figurava no imenso quadro de infiéis, e do qual apenas escapavam
Lenine, Estaline e alguns outros dirigentes do movimento comunista
internacional. No âmbito dos Processos de Moscovo, o antigo companheiro
de Lenine e Trotsky havia sido “condenado pelos tribunais soviéticos
pela sua ação contra-revolucionária e ligações com potências fascistas”
(SVI, nº 14, 1943) e executado em 1936. O seu nome não deveria, por
isso, voltar a ser referenciado[11].
No rescaldo da batalha entre as duas fações, em maio de 1942, o Temas de Estudo nº1
do PCP salientava a vitória dos vencedores: “Como se dera com o Judas
Trotsky e os seus sequazes, aquilo que já não podiam fazer contra o
Partido dentro do seu próprio seio, passou a fazer-se fora dele […]. O
traidor Trotsky e os seus sequazes organizaram a 4ª Internacional; o
traidor Vasco de Carvalho e os seus sequazes organizaram o segundo
Partido Comunista Português.” (PCP apud Pereira,
2001: 84). Seria o próprio Álvaro Cunhal a afirmar que o trotskismo,
mais do que uma “corrente provocatória”, seria um “bando de assassinos e
espiões ao serviço do fascismo e da reação mundial” (Cunhal, 2007:
257).
Note-se ainda que segundo Cândida Ventura[12],
a primeira mulher no Comité Central do PCP depois da «reorganização»,
não fora tarefa “difícil aceitar as acusações de Estaline contra
Trotsky, Bukharine e outros companheiros de Lenine” e o facto de estes serem “agentes do nazismo” (Ventura, 2012: 32).
Ainda antes do final do período correspondente à segunda Guerra Mundial, o Avante! afirmaria que somente um “parlador de café ou trotskista disfarçado” (Avante!, VI Série, nº 49, fevereiro 1944: 4) não compreenderia a substituição da Internacional [13]
por um hino estritamente nacional na URSS, à semelhança de qualquer
outro Estado-nação capitalista. No mesmo número do órgão oficial do PCP
seria também celebrado mais um aniversário do Exército Vermelho mas sem
qualquer menção ao nome de Leon Trotsky — seu fundador –, tal como havia
feito o canal televisivo inglês BBC aquando da comemoração dos 25 anos
daquele arsenal, como lembra George Orwell em Sobre a Liberdade de Imprensa — texto inserido na última edição portuguesa d’A Quinta dos Animais (Orwell, 2008).
APAGUEI A FOTOÁlvaro Cunhal.
Seria após um longo interregno, em 1970, que o PCP, pela mão, mais uma vez, de Álvaro Cunhal, voltaria a utilizar o termo trotskismo com alguma regularidade. Este reapareceria agora brevemente em O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista — obra
que teria como objetivo principal ser uma “arma de combate para os
setores do PCP que, no contexto da sua militância, buscavam reverter o
aumento da influência de grupos e de personalidades que à esquerda
questionavam as posições políticas e o papel de vanguarda da oposição ao
regime assumido pelo partido” (Bebiano-Cardina in Neves, 2013: 79).
Utilizando o método preferido de difamação de Estaline, Cunhal, 40 anos
após o assassinato do fundador do Exército Vermelho, criticaria as
organizações políticas criadas à esquerda do seu partido que, “numa
misturada de velharias anarquistas e trotskistas”, desenvolveriam “um
emaranhado de confusões e conceitos tipicamente pequeno-burgueses” tendo
em vista a definição do «seu» socialismo. Segundo o antigo
secretário-geral do PCP, estes grupos teriam como “mestres” os
“trânsfugas e oportunistas de direita ou de «esquerda» que, noutros
países, enveredam pelo anti-sovietismo e o anticomunismo”, entre eles,
Herbert Marcuse[14], Daniel Cohn-Bendit[15], Jean-Paul Sartre[16], Rossana Rossanda [17], Roger Garaudy [18] e Ernest Fischer [19],
alegadamente “heróis ideológicos do radicalismo pequeno-burguês de
fachada socialista” (Cunhal, 2013: 521). Porém, em sentido contrário, em
A Situação Política e as Tarefas Imediatas do Partido, Cunhal condenaria a “demasiada politização” aquando de um colóquio sobre Marcuse (ibidem:
333). Todavia, era exatamente esse o caldo político-filosófico em que a
parte mais significativa do trotskismo português mergulharia.
Por
fim, para além da crítica de Cunhal aos alegados “heróis ideológicos do
radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, refira-se também a
caracterização que Vital Moreira[20]fazia de um desses ideólogos: mais uma vez Herbert Marcuse. Segundo o antigo militante comunista, no filósofo de Eros e Civilização,
“pouco ou nada existe de genuinamente marxista”. Pelo contrário,
naquele apenas “aflora a utopia pré-marxista”, não ultrapassando o
«hegelianismo-de-esquerda» elementar (Moreira, 1973: 18). Já em maio de
1974, o PCP, agora pela mão de José Manuel Jara, continuaria a
classificar o “trotskismo” e o maoismo de “ideias pseudo-socialistas”
(Jara, 1974: 27).
Sobre a forma como as organizações de matriz maoista utilizavam a figura de Trotsky e os termos trotskismo e trotskista deter-se-á o próximo texto.
[1]
Principal organizador do congresso de fundação da Quarta Internacional.
Depois de morto, o seu corpo seria lançado ao rio Sena (Coggiola, 1999)
[2]
Em 1933, o governo francês conceder-lhe-ia exílio perspetivando uma
crise política na URSS que poderia fazer voltar Trotsky ao leme da URSS
(Coggiola, 1999).
[3]
O assassínio de trotskistas (e anarquistas) durante a Guerra Civil de
Espanha seria um caso paradigmático dessa mesma perseguição. Segundo
Coggiola, a GPU chegaria a ter uma secção denominada «secção Trotsky»
(Coggiola, 2008).
[4]
O embaixador francês diria “receio […] que no final da guerra só haja
um vencedor: o senhor Trotsky” (Coulondre apud Marie, 2004: 466).
[5] Dirigente do PCP (Rocha, 1991: 39).
[6] Órgão do PCP.
[7]
A estalinização do PCP ainda não estava consumada. Esta tese é
suportada pelas afirmações de Pedro Rocha que refere a leitura de
autores Alexandra Kollontai, feminista, dirigente da Oposição Operária no seio do PCUS e Comissária do Povo para o Bem-estar Social, e Federica Montseny, anarco-feminista.
[8] Em 1928 é editada e publicada uma conferência de cariz altamente conservador de Cunhal Leal com o título de Internacionalismo: Trotsky e Staline.
[9]
Pseudónimo de Francisco Paula de Oliveira. Importante dirigente do PCP
que acabaria por se renegado por este. Tornar-se-ia um escritor e
crítico de arte de renome no México.
[10] A religiosidade estalinista também se faria sentir no PCP.
[11]
O nome deste bolchevique e membro da Oposição de Esquerda figurava
“numa lista de subscrição” no boletim do Socorro Vermelho Internacional
(SVI) — “Teoricamente uma organização não comunista de solidariedade com
os presos, mas na verdade uma secção do PCP” (Pereira, 2001: 79).
[12] Delegada do PCP na Checoslováquia aquando da Primavera de Praga. Mais tarde romperia com este.
[13] Música oficial das I, II e III Internacionais e que serviria de hino da URSS até 1944.
[14] Proeminente filósofo e sociólogo associado à Escola de Frankfurt.
[15] Estudante alemão e líder do Movimento 22 de Março em França.
[16] Filósofo e escritor existencialista francês que no final da sua vida se distanciaria do estalinismo.
[17] Militante do Partido Comunista Italiano (PCI). Expulsa deste no final da década de 1960 por fundar o Il Manifesto — jornal comunista mas crítico do PCI e da URSS.
[18] Militante do PCF. Viria a romper com este em 1968.
[19] Militante do Partido Comunista da Áustria. Por se opor à invasão da Checoslováquia em 1968, acabaria por ser expulso.
Consequente
do conflito sino-soviético, o fenómeno maoista português teve as suas
raízes no seio do quadro dirigente do Partido Comunista Português (PCP)
após Francisco Martins Rodrigues desencadear um processo de rutura
política no início da década de 1960 e que culminaria na sua expulsão do
partido no final de 1963. Distanciando-se das orientações alegadamente
recuadas do PCP e alinhando-se progressivamente com a nomenklatura chinesa,
Martins Rodrigues apontaria “a necessidade de uma revisão total da
linha […] do partido que propunha a unidade com a burguesia liberal e o
abandono da «aliança operário-camponesa»”. Segundo o autor de História de Uma Vida,
a ação armada faria finalmente parte da nova etapa da luta dos
trabalhadores contra o salazarismo — iniciada com o golpe de Beja em
1962 (Cardina, 2011: 37–39).
Fundada
a Frente de Ação Popular (FAP) em 1964, o novo agrupamento político de
Martins Rodrigues adotaria a orientação da Revolução Democrática e
Popular que conteria como “tarefas” essenciais “Liberdade, Paz, Pão,
Terra e Independência” (AP, nº
1, Junho 1964), ao contrário da orientação pela Revolução Democrática e
Nacional, adotada pelo PCP no seu VI Congresso em 1965. A FAP seria o
primeiro de inúmeros coletivos maoistas a atuar em Portugal nas décadas
de 1960 e 1970.
Relativamente à utilização do termo trotskismo por
parte destas organizações a situação é um pouco diferente da do PCP.
Se, por um lado, estas acabariam, em grande medida, por recuperar o
ímpeto difamatório e caluniador do estalinismo durante as três décadas
posteriores à Revolução de Outubro — e que os partidos comunistas
tradicionais haviam, de algum modo, esquecido –,
por outro, à personalidade de Trotsky e às correntes trotskistas já não
lhes eram associadas as alegadas colaborações com forças anticomunistas
e reacionárias (nomeadamente os diferentes fascismos), mas sim a
alegada nefasta orientação liberal-democrática que aqueles poderiam dar
ao movimento operário. Em todo o caso, o maoísmo foi/é um estalinismo.
Apesar dos diferentes matizes maoístas (uns ideologicamente mais
próximos do estalinismo, outros mais próximos, por exemplo, do
conselhismo), a rejeição de Trotsky e do seu pensamento teórico,
político e estético era/é geralmente programática, feita na base do
juízo de intenção e um fator de «coerência» política.
A
ideia genérica que o maoísmo português teria sobre o fundador do
Exército Vermelho é, de algum modo, encontrada no nº 13 do órgão O Comunista[1]
em julho 1972. Neste caracteriza-se Trotsky enquanto militante
bolchevique de “uma notável instabilidade política” que, estando
“frequentemente em contradição com Lenine […] personificou todas as
hesitações do movimento revolucionário russo do princípio do século”. O Comunista denunciaria
também o facto de Trotsky reconhecer alegadamente o proletariado como
“a única classe revolucionária”, não devendo, então, “fazer alianças com
outras classes menos progressistas”, como o campesinato, aquando da
“tomada do poder” e do “início da construção do socialismo”. Tal
orientação iria contra a de Lenine, para quem “a aliança do proletariado
com o campesinato era fundamental” no início do novo capítulo da
História da Humanidade. Nesse sentido, Lenine e o Partido Bolchevique
haviam lutado com êxito “contra esta tendência «esquerdista» e
idealista” que deixaria o proletariado “isolado perante a burguesia”.
Quanto à teoria da revolução permanente/mundial,
“tese tão extremista e «revolucionária»”, não seria “senão um fator de
objetivo de desmobilização das massas trabalhadoras que conquistaram o
poder”, nomeadamente as da União Soviética (C, nº 13, 1972: 1–6).
De acordo com O Comunista,
depois da morte de Lenine, Trotsky, “desprezando o papel do coletivo,
[…] introduzia mais uma vez nos debates revolucionários a sua ideologia
individualista e pequeno-burguesa”. Não verificando a aceitação das suas
teses, o próprio “recusou a disciplina partidária e a obediência à
maioria e organizou a sua própria fração dissidente”. Expulso do partido
e da União Soviética, o autor de Literatura e Revolução “continuou
até ao fim da sua vida uma atividade de constante sabotagem da
República Soviética […] a coberto, evidentemente de duvidosos apoios de
revistas e pseudorrevolucionários dos países capitalistas” (ibidem: 1–6).
Francisco Martins Rodrigues.
Os
Núcleos «O Comunista» recordariam também os “planos [de Trotsky] de
militarização dos sindicatos”. No final do artigo, concluindo,
afirmava-se que Trotsky e aqueles que os seguiam “representam uma
contradição antagónica em relação à ideologia do proletariado, não só
pelos pontos teóricos defendidos, como pela prática histórica atualmente
exercida”. Ainda assim, os Núcleos reconheceriam em Trotsky o “papel
importante na Guerra Civil contra os reacionários” (ibidem: 1–6). A este artigo o Combate Operário[2] replicaria com outro intitulado Os Herdeiros de Estaline, composto por extensas citações de Trotsky.
Recuando à década de 1960 são encontradas algumas referências ao alegado trotskismo no seio de outros partidos e grupos maoistas. Em março de 1969, no nº 2 do Estrela Vermelha[3]
dá-se conta de uma tal “oportunista Rita” que “no estilo do bom
intelectual burguês e trotskista” declarava, no seio do CMLP «Basta de
burocracia e autoritarismo!», afirmando igualmente que «a imprensa deve
ser feita pela base» e “insurgindo-se contra a disciplina partidária e o
centralismo democrático”. Na mesma linha de pensamento, um “comparsa”
de Rita, David, também reclamaria a “discussão na base”. Ao
“ultra-democratismo” desejado, o Estrela Vermelha,
respondia com citações de Mao, o qual afirmava que tal orientação tinha
a sua «origem no liberalismo e [no] relaxamento pequeno-burguês». Tais
orientações seriam «absolutamente incompatíveis com as tarefas de
combate do proletariado» (EV, nº2, 1969: 14–15).
Ainda no mesmo número, o Estrela Vermelha denunciaria “literatura anarquista e trotskista” propagada pelos Cadernos de Circunstância[4]
que, alegadamente, teriam “uma conceção «marxista» muito liberal do
mundo, uma visão muito eclética, nada «dogmática», e que”, desse modo,
influenciaria sobremaneira “alguns jovens idealistas.” Assim, com tais
“subprodutos literários”, a classe dominante penetraria na “parte mais
destacada da juventude estudantil, incutindo-lhe uma série de
preconceitos quanto à revolução e à ditadura do proletariado” (ibidem: 18).
O Estrela Vermelha faria
ainda uma última referência a Trotsky, equiparando-o a Cunhal. O órgão
afirmaria que “esses «marxistas-leninistas» que negam os pontos
fundamentais do marxismo-leninismo (tal como Cunhal, que também se diz
«marxista-leninista»), fazem lembrar Trotsky, que, primeiro foi
«marxista» lá a seu modo (embora em divergência com Lenine, que era o
«monopolista» do marxismo), e depois foi «leninista» a seu modo (embora
em divergência com Estaline, «monopolista» do leninismo) (ibidem: 21).
Em fevereiro de 1972, no nº 7 do Unidade Popular[5], viria uma crítica aos “falsos marxistas-leninistas” de O Comunista que
haviam sido “expulsos do CMLP por defenderem conceções trotskistas e
por pretenderem colocar o CMLP ao serviço dos anticomunistas da LUAR[6] (UP, nº 2, 1972: 2). O mesmo número do Unidade Popular daria
ainda a conhecer história de um militante que tinha por intenção
“editar um órgão teórico” consequente da criação de “um Comité
Comunista”. Ao militante havia sido respondido “que o leninismo […]
ensina a necessidade de linha única, a necessidade de unificação
absoluta do movimento, e a proibição da existência de frações no seio
dum partido comunista” e “que a criação dum outro órgão, além de um
desperdício de forças, era uma conceção trotskista” que se traduziria no
“abandono da linha única” e na “autorização de frações no seio do
partido comunista”. Desconhecendo a partir daí o paradeiro daquele
militante, o Partido Comunista Português (marxista-leninista) reconhece
no jornal O Bolchevista “a tal
publicação teórica”, depois do supradito militante não ver aceite “as
suas propostas trotskistas e liquidacionistas” de “a cada Comité
Comunista um órgão teórico”. O Unidade Popular associaria então os militantes do grupo O Bolchevista a
“todos esses oportunistas, trotskistas renegados” representantes “da
burguesia radical, anti-marxistas e anti-leninistas”, depois tal
publicação começar uma série de provações ao PCP (m-l) que iam desde a
sua apresentação enquanto CMLP até à falsa associação da UEC (m-l) com o
grupo/jornal (ibidem: 1–2).
O artigo já citado publicado no nº 13 de julho de 1972 d’O Comunista debruça-se também sobre o trotskismo partidário. Segundo O Comunista,
“as inclinações passageiras do versátil e volúvel militante que era
Trotsky” afluiriam na “proliferação de uma multidão de grupos todos
ditos trotskistas, todos reivindicando a obediência ao «profeta», todos
seguindo táticas absolutamente divergentes” e “todos unânimes na defesa
da «revolução permanente» e na impossibilidade da construção do
socialismo num só país” (C, nº 13, 1972: 3). Tal apreciação não deixaria de se revelar, em grande medida, razoável.
Segundo O Comunista,
o trotskismo, que surge no período estudado essencialmente enquanto
«concorrente» do maoísmo no movimento estudantil, reaparecera devido “ao
desenvolvimento do capitalismo […] ressuscitando as velhas discussões e
polémicas com a orientação leninista para a revolução”. Ao trotskismo,
“produto direto da nova burguesia dos serviços, do teoricismo e da
tecnocracia”, eram também identificadas uma série de posturas políticas:
por vezes “tecnicista”, “militarista” e “ultra burocrático”, o
trotskismo transformar-se-ia outras vezes em “federalista”, promovendo
“a liberdade de discussão e de organização”. Às tendências trotskistas
eram igualmente reconhecidos o “profundo desprezo pelas massas”, a
“pretensão constantemente dirigista” e “uma retórica fértil”, ainda que
simultaneamente “vazia”. Não sendo mais do que o “reflexo de uma pequena
burguesia descontente”, a sua atividade no movimento operário
significaria a “infiltração da ideologia capitalista” no seio deste (ibidem: 1–3).
Ainda
para os Núcleos «O Comunista», a “única razão de existência” dos
trotskistas seria denunciarem publicamente “os erros de Estaline”. No
entanto, de acordo com a organização maoista, “o direito a discutir os
erros do movimento comunista internacional” apenas cabia aos “militantes
revolucionários marxistas-leninistas, e não aos sabotadores
trotskistas” (ibidem: 3).
Apesar da reduzida influência dos trotskistas assumidos no movimento estudantil, também o Viva a Revolução[7],
em março de 1973, dar-lhe ia um lugar naquela edição. Adotando também
os ecos da retórica estalinista pré-1953, este equiparia o trotskismo
emergente com o PCP, afirmando que “se bem que o lugar de honra dos
serviços distintos prestados à burguesia continua de posse dos
revisionistas do P«C»P e das suas tenebrosas filiais no M.E.[8] (a chamada UE«C»[9]),
outros grupos lhe disputam neste momento o lugar”, nomeadamente “a
camarilha trotskista que, do ponto de vista político e ideológico, faz
da hostilidade do marxismo leninismo revolucionário a sua razão
principal de existência desde as primeiras horas do seu aparecimento e
nas suas diversas seitas” (VR, nº 5, 1973: 15).
No
entanto, as principais críticas ao trotskismo nasciam das alegadas
“características ideológicas”, entre elas, “a negação da necessidade
operário-camponesa para o triunfo da Revolução, o escamoteamento do
papel da vanguarda do Partido do Proletariado e da aplicação rígida do
centralismo democrático” e “a pregação de um internacionalismo oco que
desvia o proletariado da sua tarefa de emancipação em relação à
burguesia do país”. Segundo o Viva a Revolução,
todas estas orientações tinham “por fim retirar ao proletariado os seus
aliados, a sua organização de classe e a sua estratégia
revolucionária”. Este grupo maoista criticaria também o trotskismo por
este, alegadamente, se afastar dos problemas dos estudantes. Para o
primeiro “a discussão política dos problemas da Escola” deveria ser
“para os estudantes um escalão necessário da discussão política dos
problemas da Sociedade”. Segundo aqueles, “a negação do sindicalismo
estudantil” objetivaria “o campo para a negação burguesa do carácter de
massas da luta estudantil revolucionária”. A orientação trotskista para o
movimento estudantil revelar-se-ia, então, “reacionária” (ibidem: 15–16).
Ainda
de acordo com o grupo, uma parte do programa do trotskismo
constituía-se pela “cisão do movimento revolucionário da classe
operária”. Nesse sentido, “as teses idealistas e reacionárias dos
trotskistas sobre «as castas burocráticas» nos países revisionistas são o
melhor apoio destes para disfarçar a verdadeira luta de classes que se
trava nestes países: a luta entre o proletariado despojado de poder e a
nova burguesia de Estado que neles iniciou o processo de restauração do
capitalismo”. Mais adiante, afirmar-se-ia ainda que, querendo
“desintegrar e dividir as forças motrizes do processo revolucionário”,
os trotskistas “negam a enorme importância das lutas de libertação
nacional e pretendem separá-las do conjunto da Revolução Mundial
Proletária”103 (ibidem: 15–16).
Em
suma “as características ideológicas” do trotskismo acabariam por
levá-lo à “prática grupuscular de alheamento das massas e do seu nível
de consciência política”, ao “desprezo pela intervenção a nível
sindical”, ao lançamento da “confusão” nos “setores de vanguarda” e,
finalmente, à transformação daqueles “num punhado de sabotadores ao
serviço da classe dominante”. Assim, tendo em conta que “hoje como no
passado, o trotskismo faz a Revolução em palavras e sabota o movimento
revolucionário na prática”, haveria que tomar precauções face “às
possibilidades de confusão que possam lançar no movimento e às suas
tentativas permanentes de sabotagem das lutas”. O Viva a Revolução terminaria
com um objetivo significativamente expresso em maiúsculas: “FORA COM OS
TRAIDORES TROTSKISTAS E COM TODOS OS OPORTUNITAS!” (ibidem: 14–16).
Também o Servir o Povo[10]se referiria ao suposto trotskismo de
outras organizações, detetando-o, aliás, nas mais insuspeitas. Neste
caso, o alvo seria o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado
(MRPP) — alegado aderente da corrente “oportunista”, ou, por outras
palavras, do “trotskismo”. Tal acusação teria por base as suas “teorias
trotskistas”, nomeadamente “a de um partido de frações” e “a da
revolução socialista sem etapas”. Continuando a associação do MRPP ao
trotskismo e às suas alegadas “formas radicais de luta”, a União dos
Estudantes Comunistas (marxista-leninista) afirmaria que “não querendo
educar revolucionariamente as massas, os trotskistas pretendem
transformar as organizações de massas em organizações de minorias para
aí poderem levar a cabo a sua luta política”. Prosseguindo “com a sua
teoria do «poder duplo», [os trotskistas] pretendem transformar as
organizações de tipo inferior (cooperativas, sindicatos, etc.) em
instrumentos de «poder operário» ou do «poder estudantil» que
estabelecerão o «controle operário das fábricas» (L. Trotsky), ou o
«controle dos estudantes sobre o ensino»”. Desprezando as massas, o MRPP
atuaria cada vez mais sob “conceções anarco-trotskistas”, com a
intenção de conduzir o movimento estudantil “a «ousadas» aventuras”.
Nesse sentido, o partido de Arnaldo Matos, “abraçando conceções
declaradamente trotskistas”, tinha como objetivo “isolar os estudantes
mais combativos convencendo-os que a luta verdadeiramente revolucionária
é aquela que nas suas escolas desenvolvem «sabotando» o ensino da
burguesia e «impondo» o ensino do povo” (SP, nº 10, 1972: 4).
O
desconhecimento político combinado com alguma cegueira ideológica
também levaria aquele órgão a equiparar o trotskismo à orientação do PCP
adotada a partir do VI Congresso, que tivera lugar em 1965, afirmando
que a teoria do «duplo poder» “em pouco ou nada se distingue da conceção
revisionista da «transição pacífica para o socialismo»”. (ibidem: 4–5).
De
espiões ao serviço dos diversos fascismos a anarquistas, passando por
radicais pequeno-burgueses, as organizações portuguesas de matriz
estalinista-maoista utilizariam o mesmo vocabulário que o seu patre russo
para classificar os trotskistas portugueses ou, simplesmente, para se
denegrir entre si. Não obstante, verifica-se uma certa evolução:
no período final do Estado Novo, o termo trotskismo deixaria de ser
associado, por exemplo, à colaboração com os fascismos, passando a
adquirir muitas vezes um sentido democrático, liberal-libertário e (até)
versátil, mesmo que esses adjetivos fossem olhados pejorativamente. O
mesmo se passaria para com as organizações trotskistas propriamente
ditas. Sobre estas versará o próximo artigo da série Trotsky e o Trotskismo em Portugal.
[2] Órgão da Liga Comunista francesa. Este estaria sob a direção de Fernando Baptista, Cândido de Azevedo e Ferreira Fernandes.
[3] Órgão teórico do Comité Marxista-Leninista Português. O seu principal dirigente seria Francisco Martins Rodrigues.
[4]
Segundo Pacheco Pereira, “a revista mais influente no plano
político-intelectual publicada na emigração”. Se bem que não pretendesse
ser uma publicação excessivamente ideológica ou propagandística, no
período posterior ao Maio de 68 seria influenciada por organizações como
a Internacional Situacionista, o Movimento 22 de Março e grupos
próximos do luxemburguismo e trotskismo. (Pereira, 2013: 222–225).
12 de Novembro de 1927: Leon Trotsky é expulso do Partido Comunista da URSS
A
dissidência no interior do Partido Comunista é revelada quando Leon
Trotsky publica, em 1924, um prefácio aos seus textos de 1917 ("As
Lições de Outubro"), criticando a falta de estratégia revolucionária de
Estaline e da direcção do Komintern no levantamento alemão de 1923, e
compara-as com a indecisão demonstrada por Kamenev e Zinoviev nas
vésperas da Revolução de Outubro. Estas discordâncias abertas afastam
politicamente Trotsky de Estaline, culminando na sua expulsão do
partido em 12 de Novembro de 1927, o exílio em Almaty, Cazaquistão, em
31 de Janeiro de 1928 e, finalmente, a saída definitiva da União
Soviética em 1929. Ainda em Julho desse ano, começa a publicar um
boletim mensal de oposição, que seria introduzido no território
soviético durante todo o seu exílio.
Desde
1920, Lenine receava crescentemente a burocratização do partido e do
Estado, criticava Trotsky pela falta de "opinião firme sobre o marxismo"
e condenava-o na tentativa de querer conciliar as diferentes classes
sociais esquerdistas. A sua morte, em 1924, gera um vazio de poder que
acirra a disputa interna entre o sector da máquina partidária e o sector
em defesa de uma maior sovietização do regime.
O
primeiro, simbolizado por Estaline acabaria por predominar, assumindo a
direcção quase total do partido. Nesse momento, Trotsky não quis ou não
pôde opor-se activamente a Estaline, mantendo-se discreto no 12º
Congresso do partido em 1923, onde acabaria por perder o poder para um
triunvirato constituído por Estaline, Lev Kamenev e Grigori Zinoviev.
Trotsky e os seus apoiantes organizam-se na Oposição de Esquerda, facção
que nos anos seguintes lutaria no interior do partido contra Estaline.
Havia,
no entanto, uma assimetria fundamental nesta luta de facções: a
Oposição de Esquerda, por mais bem implantada que estivesse no interior
da militância do partido, não tinha qualquer poder no interior das
instâncias decisórias de um partido como o bolchevique. Trotsky, pela
sua entrada tardia no partido – ele fora antes um menchevique - e por
não ter assumido responsabilidade por nomeações burocráticas como
Estaline, não reunia condições de alavancar as suas posições pelo
exercício da influência pessoal. Mas, ainda, desde o seu 10º Congresso,
em 1920, o Partido Bolchevique havia adoptado um novo regimento
administrativo que proibia a existência de facções permanentemente
organizadas no partido, o que tornava possível, ante qualquer
contestação à liderança do partido, ser caracterizada como
"divisionista".
O
prestígio pessoal de Trotsky era inteiramente desproporcional aos
recursos políticos concretos que ele poderia mobilizar no interior de um
partido a cuja vida interna era estranho. Daí, em grande parte, a
inacção de Trotsky diante da ascensão de Estaline. Na ausência de
Lenine, que até então havia sempre abonado as suas políticas em momentos
decisivos, Trotsky escolheu não desafiar a direcção bolchevique,
sabendo que as suas possibilidades de vitória eram reduzidas. Durante
a preparação pelo Komintern de um levantamento revolucionário na
Alemanha no final de 1923 - com Lenine ainda vivo, mas, incapacitado -
Trotsky solicitou ao partido permissão para atender a um convite do
líder comunista alemão Heinrich Brandler para dirigir in loco o
levantamento programado na condição de combatente revolucionário
internacional. A permissão foi negada, pois Estaline temia que
Trotsky fosse feito prisioneiro ou morto e o embaraço que isto
provocaria ao governo soviético. Temia ainda mais a possibilidade de que
ele retornasse da Alemanha vitorioso, caso em que o seu poder e
influência seriam irresistíveis. O levantamento alemão, mal preparado e
executado, foi um fracasso, fortalecendo a tendência estalinista de
abandonar a revolução socialista internacional pelo "socialismo num só
país".
No
decorrer das disputas que se seguiriam, Trotsky buscou consolação,
assim como aumento de influência, concentrando-se no trabalho teórico e
intelectual. Ele já havia, durante a Revolução de 1905, formulado a
Teoria da Revolução Permanente, segundo a qual a revolução
liberal-burguesa, nas condições de um país capitalista atrasado como a
Rússia, não se deteria na constituição de uma república democrática, mas
avançaria para a revolução socialista, num processo sem solução de
continuidade, contrariamente ao entendimento evolucionista do marxismo
predominante à época de que a revolução socialista seria um produto do
esgotamento prévio das possibilidades de desenvolvimento capitalista
nacional.
Após
a Revolução de 1917, passou a defender também que a revolução
socialista era um processo mundial e que a Revolução Russa precisaria
continuar a desenvolver-se na arena mundial, no âmbito de uma
perspectiva internacional que contrastava claramente com a política
estalinista do "socialismo num só país". Defendeu a rápida
industrialização da economia e o abandono da NEP (Nova Política
Económica) de Lenine, quando Estaline e o teórico Bukharin, naquele
momento, defendiam a industrialização gradual e a manutenção daquela
política.
Ironicamente,
afastado Trotsky, Estaline vira-se contra Bukharin e acaba por se
apropriar de alguns dos preceitos da política económica enunciados por
Trotsky, implementando-as, porém, de uma forma criticada por grande
maioria como exageradamente violenta e autoritária. Tal "viragem à
esquerda" de Estaline, no entanto, fez muito para privar a Oposição de
Esquerda de grande parte dos seus partidários na URSS, que acabam por
aderir a Estaline, que consideravam estar a realizar na prática o
programa da oposição, nomeadamente o economista Ievgueni Preobrajensky e
o antigo chefe de governo da Ucrânia soviética e amigo pessoal de
Trotsky desde a época da sua estadia nos Balcãs, o socialista romeno de
etnia búlgara Christian Rakovsky. Eles, juntamente com a imensa maioria dos antigos trotskistas, morreram nas Grandes Purgas dos anos 1930.