02/10/2014

8.827.(2out2014.7.27') Miguel Bombarda

Nasceu a 6mar1851
e morreu a 3out1910
***
Em todas as terras há uma Rua Miguel Bombarda...
Quem foi?
***
Museu Miguel Bombarda
http://aparteoutsider.org/?page_id=74
O Museu é o único do género na Península Ibérica.
Fundado em 2004, inclui surpreendentes e únicos edifícios e locais de diferentes épocas: o Pavilhão de Segurança (1896), construído para doentes vindos da Penitenciária, da autoria do Arq. José Maria Nepomuceno, é um edifício único e vanguardista em termos internacionais, que antecipa em 30 anos o design e a arquitectura moderna das décadas de 1920 e 1930, (arredondamentos de arestas racionalistas generalizados em bancos, portas e janelas, para evitar contusões, proporcionar maior resistência e facilitar a limpeza) e um dos seis edifícios circulares panópticos (sistema inventado por Jeremy Bentham) no mundo e o único com pátio a descoberto (para os doentes permanecerem ao ar livre durante o dia, melhorando o seu estado de saúde e evitando a transmissão de doenças); o Balneário D. Maria II (1853), para banhos terapêuticos aplicados em psiquiatria, considerado o melhor da Europa; o Edifício principal, ex-casa religiosa (séc. XVIII); gabinete onde o Prof. Miguel Bombarda foi assassinado na véspera da Revolução Republicana em que ele foi o principal dirigente e organizador; Salão Nobre com notáveis painéis de azulejaria barroca, etc
E, sobretudo, os visitantes podem apreciar parte das notáveis coleções:  Arte de Doente incluindo Arte Outsider (6000 obras), de todas as décadas do século XX, a mais antiga e maior do país, de centenas de autores, incluindo Jaime Fernandes, Joaquim Demétrio, Valentim de Barros e José Gomes, e representando diverso tipo de abordagens, como a arte-terapia, ou de meios, como o azulejo (o Prof. Miguel Bombarda criou no Hospital um dos primeiros museus de arte de doentes da Europa, c.1894); de Fotografia (6000 exemplares, incluindo as numerosas e raras 1200 fotografias de doentes para estudo da sua fisionomia, de finais do séc. XIX até ao princípio da década de 1930), material clínico, mobiliário hospitalar e um raríssimo e completo arquivo clínico, administrativo e forense, desde 1848.
***
Via

http://www.vidaslusofonas.pt/BOMBARDA.htm
***
Via
http://dererummundi.blogspot.pt/2007/08/miguel-bombarda-mdico-filsofo-e-poltico.html

quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

MIGUEL BOMBARDA: MÉDICO, FILÓSOFO E POLÍTICO

O nome de Miguel Bombarda é conhecido de muita gente por ter ficado associado a um hospital (o mesmo aconteceu com outro médico contemporâneo de Bombarda, Júlio de Matos) e a várias ruas (uma ligada às artes no Porto). Mas não serão muitos os que conhecerão a vida e a obra do homem, no qusdro da sociedade portuguesa do século XIX e início do século XX.

Miguel Augusto Bombarda, nascido em 1851 no Rio de Janeiro (mas os pais eram portugueses e Miguel veio cedo para Portugal) e morto, em circunstâncias trágicas (já lá irei) nas vésperas da implantação da República foi um dos personagens mais singulares da medicina, da filosofia e da política portuguesa.

Frequentou o Curso de Medicina da Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, tendo em 1877 defendido a tese“Do delírio das perseguições” (outro título dele semelhante a este foi "O Delírio do Ciúme", republicado pela Ulmeiro, em 2001). Do título da tese vê-se logo que a sua área foi a Psiquiatria. Ficou professor na escola onde estudou, tendo nela exercido uma influência fecunda. Trabalhou no Hospital de S. José e foi Director do Hospital de Rilhafoles. Introduziu várias inovações na teoria e na prática psiquiátricas. Defendeu a medicina social, isto é, o livre acesso dos cidadãos aos benefícios da ciência médica. E chegou a ganhar nome internacional, nomeadamente quando presidiu à organização, em 1906, de um Congresso Internacional de Medicina em Lisboa, que constituiu uma das maiores reuniões mundiais de médicos da época.

Mas a sua actividade esteve longe de se limitar à docência e à clínica. Bombarda foi um pensador, pode-se dizer mesmo um filósofo muito atento às correntes da sua época (marcada pela visão termodinâmica de Helmholtz, Clausius e outros, pela teoria da evolução de Darwin e pela filosofia positivista de Comte). Proselitou uma cosmovisão materialista. Sustentou o determinismo científico ao ponto de o estender à realidade social. Nessa perspectiva, o crime seria uma doença semelhança à infecção causada por uma bactéria.

E, como se isso não bastasse, empenhou-se na actividade política. Defendeu a República por oposição à monarquia. Mas, ao contrário do seu colega Júlio de Matos. Que foi desde muito cedo um republicano ultra-liberal, Bombarda aderiu tardiamente ao ideal republicano. Foi socialista e anti-clerical. A sua obra “A Ciência e o Jesuitismo”, de 1900, é um bom documento sobre o nosso “fin de siècle”. Bombarda opõe a sua visão científica do mundo à visão religiosa dos jesuítas, em particular a do “padre sábio” Manuel Fernandes Santana, com quem estava em polémica. Hoje em dia essa polémica, apesar de desactualizada, não deixa de ser interessante. No recente livro “Miguel Bombarda. Médico e Político” (Caleidoscópio, 2007), Paulo Araújo cita as seguintes frases radicais de Bombarda:

“Penso que não pode ser jesuíta quem o queira; há cérebros predispostos para esse mal, como os há feitos para o crime vulgar, como os há talhados para a loucura ordinária” (…) “O misticismo jesuítico [é] uma forma paranóica que, embora incurável, deveria ser isolada nos manicómios, pelo mal que faz à humanidade”. 

Bombarda pertenceu, portanto, a um grupo de portugueses inconformados com a situação de atraso do país, que se revia nas Conferências do Casino de Antero de Quental e outros e que queria urgentemente renovar o país, culpando a Igreja pelo atraso. Para ele não havia apenas que curar o doente individual mas também o doente colectivo que era a nação.

O facto é que Portugal passou no século XIX, em escassas décadas, desde o seu início quando era o quinto país mais rico do mundo (a crer nos dados publicados pelo economista David Landes em “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, Gradiva, 2001) para o fundo da tabela dos países europeus no final do século XIX. Esse declínio é talvez a maior marca dessa época. Para ele contribuiu decerto a insuficiente educação: não conseguimos acompanhar o processo de escolarização explosivo que então se deu na Europa. A baixa escolaridade impediu-nos de ter cientistas e pensadores em número e valor suficientes. Mesmo na Medicina, se tivemos Miguel Bombarda e Júlio de Matos (para só referir a Psiquiatria), faltou-nos alguém com a projecção do espanhol Ramon y Cajal, descobridor dos neurónios e um dos primeiros prémios Nobel da Medicina. Segundo Landes, que apresenta Portugal como um exemplo de um país rico que ficou pobre, o número de analfabetos em 1900 em Portugal era uma autêntica vergonha quando comparado com o padrão europeu. Como poderia ser desenvolvido um país que não sabia ler? Bombarda defendeu: "Eduquemos (...) os cérebros. Não os deixemos cair nas trevas e na barbárie. Eduquemo-los na independência, na liberdade, na consciência da dignidade do ser humano."

Mas tinha prometido contar a história da morte de Bombarda, ocorrida dois dias antes da revolução do 5 de Outubro. O médico foi morto a tiro por um doente mental, um tenente que ficou depois internado numa instituição psiquiátrica. A revista “Ilustração Portuguesa” legendava uma ilustração do clínico prostrado num leito hospitalar com a legenda:

“O Sr. Dr. Miguel Bombarda, no Hospital de S. José, antes da operação para a extracção das quatro balas com que o feriu o seu antigo cliente o tenente Aparício Rebello e que causaram a morte do ilustre democrata”.

Para a história ficaram as últimas palavras de Miguel Bombarda, que mostram, mesmo próximo da morte, não só informação como compaixão:

- “Não lhe façam mal. Ele é um doente!”
***
Via
http://www.fmsoares.pt/aeb/crono/id?id=00615
Segunda-feira, 3 de Outubro de 1910Assassinato de Miguel Bombarda
***
Ler:
http://www.saude-mental.net/pdf/vol9_rev6_leituras2.pdf