07/10/2014

8.852.(7out2014.7.7') Manuel Gusmão

Nasceu a 11dez1945
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8JUN2018
Via opinião de Manuel Augusto Araújo:
Ler, mas ler com urgência o último livro de Manuel Gusmão, A Foz em Delta, um belo livro de poemas onde o autor celebra a luta de classes e as lutas do nosso tempo.
 O poeta e ensaísta Manuel Gusmão
  Este é o primeiro dia de uma semana de muitas festanças no meio dos muitos perigos que continuam a ameaçar o mundo. São os santos populares, no topo o Santo António em Lisboa e o São João no Porto. Mais recatado mas igualmente celebrado, o São Pedro, sobretudo pela margem sul do Tejo.
Festas para todos os gostos e o paladar da sardinha assada de pesca contigentada a fazer subir o preço para os patamares dos petiscos mais luxuosos que animam este nosso Portugal, «jardim à beira mar plantado», «três sílabas de plástico que era mais barato», das marchas populares e emblema ao peito do quatro-quatro-um e o melhor do mundo a pontapear a bola e meter golos para orgulho nacional a empurrar para as portas do fundo do palco global as ameaças à paz e à independência dos povos que os Trump's continuam a cavar e, por cá, de certo modo desfocar os ziguezagues que adiam descongelar as vidas que foram congeladas pela troika de má memória que continua, pela boca de outros personagens, a dar conselhos e distribuir a pataco propostas de reformas estruturais que todos sabemos onde vão desaguar.
Agora são mais sussurrantes mas não menos insidiosas as vozes dos comissários da União Europeia e outros prestimosos arautos sempre de mãos largas para o capital e para a banca, e fechadas em garra para quem trabalha e vende a sua força de trabalho.
Notas breves de um estado geral que os media, nas mãos dos plutocratas ao serviço do pensamento dominante, mascaram das mais variegadas maneiras. Por cá, a mais escandalosa são as horas e horas atafulhadas de programas obscenamente repetitivos nos argumentários do futebolês, em que se fica a saber o que já se sabe: que vão todos trabalhar muito, jogo a jogo, pontapé a pontapé, respeitando sempre os adversários que se esmurram de suspeições, a que se anexam os ociosos programas de debate supostamente político fabricado por brilhantes cabeças que, salvo raríssimas e cada vez mais escassas excepções, só lumem para um lado. E ainda os debates sobre economia da bolsa ou da vida, em que a vida é quase um adereço, com que pretendem afincadamente e sem detença controlar quem resiste, cercando-os com verdades, meias-verdades e mentiras para que se tudo fique aplainado pelo conformismo da realidade, cada vez mais um simulacro.
A fechar este desaforado intróito, numa semana em que se celebra a ressurreição de um jornalista russo refugiado em Kiev, que saltou de uma fotografia em que jazia ensanguentado crivado de balas assassinas para uma conferência de imprensa que travou a indignação que já ecoava altissonante nos fóruns internacionais indignados com tal bárbaro sucesso, a tempo de as conter e travar os nossos pressurosos deputados, que já deviam estar a escrevinhar rascunhos de uma moção condenando mais essa violação do direito internacional, em linha com outras de equivalente quilate que obtiveram expressivas votações de maiorias espúrias na Assembleia da República. 
Lembrar Karl Krauss, em tempos ainda sem televisão e em que a rádio era incipiente, e em que as doenças mais danosas eram outras: «A Imprensa devastará o que a sífilis deixou. As causas dos amolecimentos cerebrais do futuro já não poderão ser determinadas com segurança».
Que fazer contra o «amolecimento cerebral»? Ler, mas ler com urgência o último livro de poemas de Manuel Gusmão, A Foz em Delta, que esteve em destaque na Feira do Livro com uma excelente apresentação de Fernando J. B. Martinho e uma superlativa leitura de poemas por Joana Manuel e Fernanda Lapa.
Capa da recente obra de Manuel Gusmão Créditos
Ler este livro, que é um esplendoroso livro de poemas e que também é um livro de denúncia: «a cultura mediática de massa desenvolve-se através da mercadorização dos artefactos culturais; da sua transformação em bens a serem consumidos sob a forma de espectáculo; da criação de um ambiente de trabalho que condiciona pessoalmente a invenção e da imposição de um hardware que restringe severamente as opções de software», em que a poesia é Trouver la langue–  será a tarefa infindável. Tarefa que muitos dos mais fortes se darão ou retomarão de outros e de que se apresentarão várias versões.
De William Blake a Jean-Arthur Rimbaud, de Holderlin a Mallarmé, de Rilke a Paul Celan encontramos «cartografias ou marcos de resistência que nos permitem mapear a rede das opressões, a fisionomia por onde a barbárie se acende, tentar perceber a diferença dos tempos, (XIV-Poesia e Resistência).
Manuel Gusmão reivindica uma linhagem de poetas em que a apropriação da língua devolve à poesia a vibração que se faz contra a poesia que trafica sentimentos, satisfeita consigo própria, e os frémitos que provoca a atravessar e atravancar salões com petilantes versos que saltam de copo em copo para apaziguar a luta de classes que não pára nem desiste de acontecer e decorre para lá das vidraças das torres, vidro em que batem e batem incapazes de as ultrapassar. 
A Foz em Delta, um livro de poemas que se lê num fôlego e que nos retira o fôlego no «confronto entre a lucidez da beleza e/a luz irónica do desacato».
Poemas assumidamente comunistas de um poeta comunista que é um dos maiores poetas portugueses, em que o intenso lirismo que desde sempre o acompanha resgata a poesia das tautologias em que se enreda para enfaticamente se multiplicar contra o vazio em que estamos imersos com a improvável intenção de o travestir e assim nos proteger.

É esse paradigma que Manuel Gusmão rompe neste belo livro de poemas em que celebra a luta de classes e as lutas do nosso tempo, logo no primeiro poema e em «A Voz do Operário», «Um Pai, Uma Biblioteca, Uma Despedida», «Hijos e Nietas».
Como escreve Diogo Vaz Pinto numa resenha crítica de A Foz em Delta: «Se há algo de profundamente inquietante neste livro de Manuel Gusmão é a forma como suspende esse estado de graça de que goza a poesia. A sua condição enquanto discurso que paira acima do seu tempo e que, de algum modo, tem muito a ganhar em alhear-se das circunstâncias. Mas sempre que se envolve vertiginosamente no seu tempo, e não o faz por conveniência, é aí que a poesia aponta uma direcção, uma via para a insubordinação. Sem esse ânimo, sem a pulsão do desacato, da desobediência, o risco é a poesia poder ser lida – ou sobretudo ser lida – por aqueles que são coniventes com o modelo de opressão que cada época congemina».
Esta sugestão – enquanto não me sento a ver os jogos de futebol do Mundial da Rússia, com o som fechado para me proteger do vazio empolamento dos comentários, estarei a ouvir Bach, Chet Baker, Mozart, Schubert, Miles Davis, Mahler, Billie Holliday, sei lá mais o quê, serão muitas as horas de música que os transes futebolísticos me irão proporcionar – de tão substantiva que é, poderia abrir e fechar esta nota.
Podia acabar aqui mas acrescento mais duas sugestões, ambas na margem sul do Tejo. Em Setúbal, até ao fim do mês, a Festa da Ilustração/É Preciso Fazer um Desenho começou a marcar o calendário nacional das artes visuais.
A Festa da Ilustração, uma ideia original de José Teófilo Duarte e João Paulo Cotrim, que se tem afirmado ao longo dos anos na base de um sólido critério atento ao trabalho dos ilustradores portugueses que estão activos e espalham o seu talento pelo mundo e à recuperação retrospectiva de artistas que dedicaram parte substancial do seu trabalho a esse género artístico, de que resulta uma notável pluralidade de linguagens gráficas.
São sempre duas exposições nucleares, este ano João Fazenda e Tóssan, uma espécie de locomotiva a que se atrelam várias carruagens onde embarcam outros artistas em exposições individuais igualmente importantes, Alberto Lopes, José Paulo Simões, Silva Duarte e colectivas de Ilustradores Contemporâneos, alunos da Escolas Superiores de Artes, alunos de artes das Escolas Básicas e Secundárias do Concelho de Setúbal.
O que origina que a ilustração, nas suas mais diversas e até inesperadas vertentes, se estenda como uma teia brilhante pelos espaços expositivos de Setúbal. Um evento único e ímpar em Portugal de visita obrigatória para quem se interessa por artes visuais. 
A outra em Palmela, em Vale de Barris, Pássaros, sobre as dramáticas situações vividas por migrantes e refugiados. Um trabalho de O Bando, dirigido por Miguel Jesus e João Neca em colaboração com o Teatro dos Barris (Palmela), do Centro di Produzione Teatrale Elsinor (Itália), do Pilot Theatre (Reino Unido) do FISP Festival Internacional de Saxofones de Palmela, juntando em cena actores e músicos profissionais e amadores. Em cena de 14 de Junho a 1 de Julho, de quinta-feira a domingo às 21h.
Aproveite os últimos dias da Feira do Livro. A oferta é variadíssima. Encontra livros acabados de ser publicados e outros que continuam a cintilar nos escaparates das livrarias, aqui expostos nos stands dos seus editores. Uma viagem e uma visita que nunca é uma perda de tempo.
Entre todos os que pode adquirir, não deixe de comprar A Foz em Delta, no stand das Edições Avante!, um dos mais belos e inesperados livros de poemas entre os publicados nos últimos anos em Portugal que são muitos e bons.
https://www.abrilabril.pt/cultura/que-fazer-contra-o-amolecimento-cerebral
***
Via Sofia Serrazina:
 'a velocidade da luz'
'Há uma rotação do teu corpo –
Andas pela casa: és um leve rumor sob o silêncio
um rumor que alumia a sombra silenciosa; 
na sala, o homem quase surdo quase cego
ouve-te, julga reconhecer-te: vens aí.
Estás aqui. O intervalo de tempo já começou:
há uma rotação no teu corpo
que me exclui do mundo e
entretanto é feita para mim; atinge-me
à velocidade da luz.
E eu o homem quase surdo quase cego
sou tomado pelo vento do fogo que me consome
até ser apenas a última brasa: pequenas ravinas de luz
o incêndio restante sob a exausta crosta da terra
Estavas, estiveste ali.
O tempo recomeça.
Apareces e desapareces.
Como a luz do farol disparando no céu sobre as casas
ou como o anúncio luminoso do prédio em frente
que varre intermitente a obscuridade do quarto no filme.
Quando voltará?
É como se soubesses
que voltará, sim, e que não, não poderá voltar.
Quando, e se voltar, serei eu talvez
quem já lá não está. Quando
é quando?
Quanto tempo ainda poderá o mundo voltar
à possibilidade dessa forma?'
***
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A PERFEIÇÃO DAS COISAS

O vento – finalmente no fogo do dia – o vento do mundo
neste lugar aberto
escreve a inclinação dos jovens álamos na última colina
contra o céu para sempre novo e antigo.
As mãos do vento escrevem em verso ramos e folhas, pontos
e traços
a sombra da luz; encurvam para a esquerda e em cima
as hastes longas e breves: as vogais aéreas
da paisagem terrestre que teríamos esquecido.
É subitamente que o vês claramente visto
repetindo a origem do tempo:
é uma caligrafia de acaso.
Mas é caligrafia minuciosa nítida;
Inquieta e exacta;
ofuscante como a incriada perfeição das coisas.

Numa outra folha ou margem ou luz ou lugar do mundo
és tu agora. Levantas o vestido leve; os teus dedos
enrodilham-no, subindo-o numa onda irrepetível e
contudo, repetida vezes sem conto.
As tuas mãos enquanto quase quase danças – embora
apenas andes sobre o imoral chão da casa –
sobem o pano
de algodão, apanham a baínha, colhem as asas do escasso
mar
que te cobria e
levam-nas até à linha irrevogável das ancas
como se fossem prender o vestido à levíssima ondulação
do mundo andante.

É como se uma onda no corpo abrisse lenta e fulminante
a incalculável praia ao esplendor em que cada coisa se diz
como se cantasse o nome do seu nome.

A curvatura daquelas hastes e a onda vertical que o teu gesto
inventa
escrevem então a infindável passagem entre os separados mundos
e a isso só podemos chamar alegria.

***

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 Pequeno tratado das figuras

O teu corpo é um rio em que as margens 
te fossem as ternas ancas que deitada de lado
fluem e flutuam com as bandas coloridas 
de flores brancas e rosa, amarelas e vermelhas
que te pintam, a ondulação que te vem
ao corpo dulcíssimo, muito jovem e
antiquíssimo


e uma fita que sobrou trouxeram-na
e ataram-na ao teu pénis

ou com os lábios a trouxeram
até ao púbis e prenderam-na com os dentes
a um pequeno caule esbranquiçado
que os pelos púbicos
querem esconder/ prender.

***
Via Susana Duarte:

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https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10208690100397431&set=a.2784518179639.2143835.1458792324&type=3&theater
(...) Assim cruzam as suas revoluções os astros://Esta é a gravitação enlouquecida dos átomos no sangue//o turbilhão nos lugares de um corpo inventado//na mesma língua, noutra voz: a música de uma árvore// que é o sol nascente na tua boca iluminada.(...)
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Pequeno tratado das figuras
Neste vale que o Omo atravessa
entre a Etiópia, O Kénia e o Sudão
antes de desaguar no lago Takuana,vive 
esta tribo de pintores que a si mesmos se pintam
prolongando e inventando uma paisagem viva
e acesa, depositada aos pés dos deuses
que apenas tinham ordenado uma natureza
morta.

Pela grande região de que este vale faz parte
deixou o homo habilis vestígios
de que o menor não é esta herança
milhares de anos depois, ainda viva e estranha
dos corpos pintores e pintados, povoando o delta
do rio que na fotografia aérea lembra
uma pintura antiga e ágil sem figuras
em que as cores esmaecem e escorrem umas
sobre as outras ou ressoam como um ocre
subitamente avermelhado.
[...]
***
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Manuel Gusmão viveu em Alcobaça durante muitos anos
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"...morreremos repetidamente sobre esta praia, nas margens da luz.
A rosa declina a sua autobiografia, obliquamente caindo
sobre quilómetros e quilómetros de florestas insistentes,
sobre a sombria arquitectura desta terra longamente apaixonada,
sobre a rosa que sobe até à aérea metalurgia das nuvens."
in Dois sóis, A Rosa / a arquitectura do mundo, Lisboa: Editorial Caminho, 1990
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"Nós também somos feitos pelos livros que nos marcaram, pelos filmes que vimos e pelas músicas que gostamos"
in AS PALAVRAS FAZEM O MUNDO
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Intervenção de Manuel Gusmão lida por Joana Manuel, na Conferência Nacional «Serviço Público e Bem Comum», a 11 de Outubro de 2014, promovida pelo Apelo «Em Defesa de um Portugal Soberano e Desenvolvido», no ISCTE, em Lisboa.


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Via Fenprof

http://www.fenprof.pt/?aba=27&mid=115&cat=226&doc=8959

Manuel Gusmão vence Prémio Literário António Gedeão

Manuel Gusmão, Professor Catedrático aposentado, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é o vencedor do Prémio Literário António Gedeão, instituído pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF), e patrocinado pela SECRE, que tinha como objetivo, nesta edição, galardoar uma obra de poesia em português e de autor português, publicada integralmente e em 1ª edição no ano 2013.
A decisão, unânime, foi tomada pelo Júri do Prémio (Paulo Sucena, Lídia Jorge e José Manuel Mendes), “considerada a intensidade da linguagem num trabalho poético que recolhe e dialoga com a tradição estética conformadora de todo o seu percurso”, como referiu Paulo Sucena à nossa reportagem.
O Presidente do Júri, que esteve recentemente reunido em Lisboa, destacou ainda que “apreciadas as obras a concurso, distinguimos três: “Navegação de acaso” (Nuno Júdice), “A Papoila e o Monge” (José Tolentino de Mendonça) e “Pequeno Tratado das Figuras” (Manuel Gusmão).
Recorde-se que foram admitidas a concurso apenas obras de professores.Esta é a terceira edição do Prémio Literário António Gedeão, sendo atribuído ao vencedor um prémio pecuniário no valor de 7.500 euros. A cerimónia de entrega do prémio pelas entidades promotoras terá lugar em data oportunamente a anunciar. / JPO
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Via página dele no facebook

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=942932489054154&set=a.232614196752657.76180.100000122361234&type=1&theater
[ cair. para dentro ]
"um risco na página 
um gesto furtivo
um movimento
de queda 
na sombra
da sombra 
de um corpo, um boca 
: alguém chama - palavras contra
o sentido, contra a direcção 
do vento"
 _Pequeno tratado das figuras_, p. 13

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in avante 2.out2014
DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE CULTURA

Quando falamos de cultura de que falamos exactamente? Podemos estar a falar de coisas muito diversas. Podemos estar a falar de largo tipo de artefactos produzidos por actividades artesanais. Mas podemos estar a falar não de produtos mas das instalações ou das instituições em que são produzidos ou em que se organiza o seu uso, a sua recepção, ou o seu consumo.
Ou podemos estar a comparar imagens e representações plásticas produzidas pela mão, nua ou «armada» por pincéis, por máquinas fotográficas ou de filmar.
Nesta diversidade de operações, atitudes e gestos mais ou menos rituais, convencionalizados, ou sujeitos a regras mais ou menos constrigentes, nós podemos encontrar traços daquilo a que chamamos cultura, que se constitui como uma relação activa dos membros de uma comunidade, uns com os outros, com a vida e o universo, relação essa que é o desenvolvimento prático das capacidades que configuram o humano: – a capacidade de saber e de aprender (homo sapiens); – a capacidade de fazer (homo faber); e a capacidade de jogar (homo ludens).
E assim podemos dizer que a cultura é o sistema (ou o conjunto) aberto das actividades; meios e instrumentos; discursos e linguagens; artefactos e outros «objectos produzidos», através dos quais os grupos e os indivíduos humanos procuram dar sentido à sua vida colectiva e ao seu rosto individual, ao mundo em que habitam e ao universo que é a sua residência cósmica.
Desta forma, observaremos que esta definição de cultura se aproxima da definição que Marx nos dá de processo de trabalho útil em geral, no cap. V, do livro I, do Capital. Por exemplo: «os momentos simples do processo de trabalho são a actividade conforme ao objectivo, ou o próprio trabalho, o seu objecto e o seu meio.» (206)
Esta proximidade torna mais rica, do que qualquer outra noção de cultura, aquela que Marx nos permite construir.
No processo de trabalho, a actividade do homem através do «meio (ou instrumento de trabalho) opera, pois, uma modificação do objecto de trabalho que de antemão visa um fim. O processo extingue-se no produto. O seu produto é um valor de uso, uma matéria da Natureza apropriada às necessidades humanas por modificação de forma. (209)
Se no caso dos artefactos culturais a prévia visibilidade do ojectivo é menos imediatamente legível, a ideia de que o trabalho consiste numa modificação do objecto (ou matéria-prima) sobre o qual se exerce a actividade é não só uma indicação preciosa sobre o carácter tendencialmente transformador do trabalho humano, mas também sobre esse mesmo carácter como função tendencial da cultura.
A poderosa unidade da cultura
A poderosa unidade da cultura torna-se compreensível pela série de critérios que ela própria nos fornece sobre a sua organização interna. Podemos organizar a complexidade do mundo da cultura, a) do ponto de vista das suas articulações institucionais e sociais; e b) do ponto de vista das suas articulações disciplinares.
Assim: podemos ver as formas e os conteúdos culturais marcados pela dominância de certos aparelhos possuidores de valores próprios e de regras próprias na produção, difusão, recepção e avaliação da cultura. Este será o campo da cultura erudita. A cultura popular tem como protagonistas criadores que são em muitos casos alguém que intermedeia o presente de uma cultura e as tradições frequentemente ostracizadas que nela sobrevivem. De origem camponesa, a cultura popular foi profundamente ferida pelas transformações que se deram na estrutura social do que chamamos «povo». Hoje, a cultura popular tem uma base já marcadamente urbana e a ameaça sofrida pelas culturas camponesas sofre-a agora como concorrência do «popular» comercializado na produção para o mercado das grandes «Majors» da cultura mass-mediática.
Do ponto de vista disciplinar podemos ver que as culturas se distribuem por áreas ou campos onde há um centro disciplinar ou metodológico fundamental.
Podemos arrumá-las em dois patamares. Num primeiro nível de grande generalidade e usando grandes diferenciações quanto à esfera humana, teríamos a distinção entre a cultura científica, a cultura artística, a cultura filosófica, a cultura política. Crescentemente reivindica-se a atenção a uma cultura tecnológica e a uma cultura ecológica.
Mais perto da conversa quotidiana e dos negócios do Estado temos um uso de cultura que por vezes parece esgotar o campo cultural, bem ora se esteja a referir apenas um dos campos da cultura artística. Isso acontece sobretudo no quadro das referências à cultura artística e o exemplo mais significativo é a existência, intermitente, é certo, de um Ministério ou de uma secretaria de Estado «da Cultura», que só tem como seus assuntos as culturas artísticas mais consolidadas, na opinião pública, e certas áreas do património artístico.

 in Avante!, 2/10/2014)
***
VIA
http://www.wook.pt/authors/detail/id/9093
Manuel Gusmão

Manuel Gusmão nasceu em Évora, em Dezembro de 1945, e é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi deputado na Assembleia Constituinte e na 1.ª legislatura da Assembleia da República, eleito pelo PCP. Tem reconhecida obra no domínio do ensaio, designadamente sobre Fernando Pessoa, Carlos de Oliveira, Nuno Bragança, Maria Velho da Costa, Luiza Neto Jorge e Gastão Cruz. Estreou-se como poeta apenas aos 45 anos, em 1990, com "Dois Sóis, A Rosa a Arquitectura do Mundo". Seis anos depois, publicou "Mapas, o Assombro a Sombra". Mas foi com "Teatros do Tempo" que o eco da sua obra (toda publicada na Caminho) se alargou. Além do bom acolhimento crítico, o livro esgotou e foi reeditado em poucos meses.
In Instituto-Camoes.pt
***
VIA CITADOR
Manuel Gusmão
Canção porque (não) Morres

Este é o último livro, prometia 
como alguém que tivesse esquecido 
que assim sempre tinha sido - aquele 
era o último e depois que alguém viesse 
fechar a porta contra o som do mar. 
- Pagava por jogar no escuro 
e por aqueles ardis já gastos 
com que pensava e não pensava 
enganar a morte branca e vermelha. 
- Ah e não esqueças: - deitar fora a chave 

Canção como não morres 
se é a morte que em ti sobe até à fonte 
do sangue, até à flor do sal queimando 
os dedos; até à boca que por te cantar 
se acende negra; até à copa 
das árvores que distribuem o sol 
sobre o corpo morto do amor 
amante e desamado? 

Ou antes: de que morres, por que morres 
tu, canção já sem voz, já 
sem o canto, 
            - já sem outro assunto 
de momento, me despeço de todos vós- 
quem falou agora? - Que importa quem falou? 
- Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo 
é tudo o que importa, para quem veio 
mandado a que chamasses quem 
tivesse chamado. 

Canção, o teu sopro é quente 
e têm sede os teus ventos, esses animais 
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico 
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno 
beijara até à flor do sangue. 
depois, as palavras em que te perderas serão 
cinzas sobre o mar e espuma suja 
entre as rochas. Que atraso ou afecto 
te prende ainda a esta margem 
Por quem esperas tu 
canção ainda 
agora 
que já por todo o céu 
a terra nos esqueceu 

Morresses, agora, canção 
enquanto corres ainda pelo sangue 
de quem escuta - e 
morrerias no fulgor último 
que ao fundo, no horizonte 
da linguagem, 
da própria linguagem 
se afasta já, e abandonando vai 
os seus bairros periféricos, despedindo-se 
da tristeza dos migrantes derradeiros; 
queimando página a 
página 
os últimos barcos. 

 in 'Migrações do Fogo'
***
"Uma Pedra na Infância
Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância

Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro
Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa
falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas o riso sem porquê
Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:
Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite do poço.
Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.
Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio
as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.
Para que se cale de vez essa respiração que se ri
na cara da morte, nos olhos do enviado de deus
recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre
a infância e ouve a era a folhagem que cobrem
o céu em ruínas.
Também então havia uma pedra no canto do quarto
Alio onde a noite começava, era uma pedra e depois
crescia, petrificava-se no seu coração de pedra
dividia-se e eram várias crescendo; ocupando
todo o espaço do sono, do sonho do mundo.
Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos
que de pedra ficavam e o grito era uma pedra
que na garganta subia contra a outra pedra.
O próprio ar golpeado era e dividia a voz
pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.
Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma
outra infância de que possas recordar-te.
Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:
nada acontece. Não há
nenhuma voz na voz dos condenados."

Revolução OrbitalRevolução orbital: vai-se a rosa transformando 
na coisa múltipla, amante e amada, na acção 
que assim a faz e nos acidentes mínimos – paisagens, 
estações dos dias e das noites, dos anos da história. 
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz 
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra 
no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões, 
do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos 
que se respondem: como um coração que deflagra 
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces 
e o chão sobre que danças. 

 in 'Dois sóis, a Rosa – a Arquitectura do Mundo'