15/10/2014

8.891.(15out2014.12.17') Mário Castrim

Nasceu a 31jul1920
e morre a 15out2002
***
Via avante31out2012
http://www.avante.pt/pt/2031/argumentos/122461/
Memória
Mário Castrim – Dez anos
Passaram depressa, quase não dei por eles – Por estes dez anos. Não admira: na verdade, bem se pode dizer que durante estes anos, dia após dia, o Mário continuou comigo. Graças à televisão que era entre nós uma quotidiana preocupação comum? Sim, em certa medida, mas não muito.
Na verdade, o Mário foi para mim muito mais do que um camarada de trabalho, e bem se entenderá porquê se lembrarmos que o Mário Castrim foi muito mais que um crítico de televisão quotidianamente visitado por um toque de genialidade.
Lembro-o, é claro, sempre que a televisão me indigna, ou me desgosta, ou me inquieta, mas lembro-o em muitas mais ocasiões ao longo dos dias. Porque o Mário Castrim era um homem raro, possuído por uma generosidade sem limites, fraterno como nunca encontrei outro, sábio de uma sabedoria que se alimentava de inteligência, de cultura e de ternura. E cidadão exemplaríssimo: sabe-se, para além de qualquer dúvida, que renunciou à grande obra literária que bem poderia ter-nos deixado porque a sacrificou em favor da tarefa cívica de denunciar, dia após dia, o crime político e cultural que era uma televisão ao serviço do fascismo. Bem nos lembramos de que as suas crónicas eram implacáveis, fulminantes, mobilizadoras, E, naturalmente, encorajantes.
O francês Louis Aragon escreveu um dia que «il est contagieux l’éxemple du courage». Durante anos e anos, muitas vezes me lembrei deste verso ao ler crónicas do Mário Castrim.
Passaram depressa estes dez anos. Mas não passou o Mário Castrim. Continua em quantos tiveram a sorte de com ele privarem, de aprender com ele acerca das grandes mas também das pequenas coisas. De o lerem, sendo certo que nunca mais puderam ler textos como os que o Mário escrevia. Na planificação do Avante! para este ano de 2012 desde sempre esteve inscrito o dever de este jornal assinalar o décimo aniversário da morte do Mário, nosso companheiro e nosso mestre. Porque ele não deixou de estar connosco, dia após dia. E aqui vai continuar.
Biografia breve
 
 
Mário Castrim, professor, escritor, jornalista e crítico televisivo, nasceu em Ílhavo, a 31 de Julho de 1920, e faleceu em Lisboa a 15 de Outubro de 2002.
Trabalhou no jornal Diário de Lisboa, até ao encerramento do título, após o que passou a colaborar com o semanário Tal & Qual. Colaborava ainda regularmente com o Avante!, tendo enriquecido o jornal com os seus poemas praticamente até ao fim da vida.
Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, foi o primeiro crítico de televisão em Portugal.
Destacada figura da vida cívica e cultural do País, e militante comunista com muitas décadas de corajosa e coerente intervenção, Mário Castrim deu um valioso contributo, enquanto crítico de televisão, escritor e intelectual, para a formação democrática e humanista de muitas gerações. Por isso mesmo permanece como «referência histórica do género e exemplo a considerar por sucessivas gerações de críticos, mas também ficará na nossa memória como homem culto e lúcido, cidadão comprometido com o seu tempo e fiel às suas convicções», como na altura do seu desaparecimento sublinhou o Sindicato dos Jornalistas.
Escreveu ainda livros infantis e juvenis: «Histórias com Juízo», «Estas são as Letras», «As Mil e Uma Noites», «A Moeda do Sol», a série «As aventuras da girafa Gira Gira», «O Cavalo do Lenço Amarelo é Perigoso», «A Caminho de Fátima», «O Caso da Rua Jau» e «Váril, o Herói»; peças de teatro: «Com os Fantasmas não se Brinca» e «Contar e Cardar». É também autor das obras «Televisão e Censura», «Histórias da Televisão Portuguesa» e de dois livros de poesia: «Nome de Flor» e «Viagens».
Está representado em diversas antologias, nomeadamente, «Um Homem na Cidade», de 1968, que reuniu crónicas de dez jornalistas do Diário de Lisboa.

Ser comunista, hoje

Esperança:
é a maneira
como o futuro fala
ao nosso ouvido.
Depois
há que saber
organizá-lo.

Então
Os comunistas entram em acção.
  
 Versos muito pessoais

III

És livre?
Isto é:
quem amas?

IV

Realizo-me no acto de pagar
as quotas do Partido.
Não tem nada de heróico.
Nada mais natural
como beijar o filho
na hora de deitar.

V

Leio
o AVANTE!
devagar
e com toda a atenção
como se o escrevesse.

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Lágrimas, não. Lágrimas, não. A sério -
Enfim, não digo que. É natural.
Mas pronto. Adeus, prazer em conhecer-vos -
Filhos, sejamos práticos, sadios.

Nada de flores. Rigorosamente.
Nem as velas, está bem? Se as acenderem
Sou homem para me levantar e vir
soprá-las, e cantar os «parabéns».

Não falem baixo: é tarde para segredos.
Conversem, mas de modo que eu também
oiça, e melhor a grande noite passe.

Peço pouco na hora desprendida:
Fique eu em vós apenas como se
Tudo não fosse mais que um sonho bom. 

               (Último poema de Mário Castrim, escrito uma semana antes  do seu falecimento e após cerca de dez semanas de internamento.)
***
Via José Eduardo Oliveira

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10202032852857475&set=a.1029365188983.3914.1670949754&type=1&theater
Efeméride // 15.Out.2002 - Morre o escritor e jornalista português Mário Castrim, 82 anos, autor do Canal da Crítica no Diário de Lisboa e, depois, no semanário Tal e Qual.
*
Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, que nasceu em Ílhavo, a 31 de Julho de 1920, tendo falecido em Lisboa, a 15 de Outubro de 2002, foi jornalista, escritor, professor e crítico de televisão.
*
 É de salientar a sua faceta humorística que fez as delícias de muitos leitores com as sua críticas televisivas, publicadas no Diário de Lisboa, corrosivas, sarcásticas mas de um humor bem saudável mas muito cáustico.
*
 No retrato velho hoje cinzento
estava toda a família reunida.
– Este aqui és tu.

Este tu era eu – três anos, caracóis, calções
colete, botas.
Este sou eu.
É preciso guardar as provas. Os documentos.
Se um dia me fecharem as cancelas e
não me deixarem passar, aponto logo:
– Este sou eu.
– Passe – dirá o guarda que deve haver
na eternidade – e boa viagem, sim?
– Claro – dirá o menino
que entretanto busca em mim
as sete diferenças
como costuma fazer no desenho
do suplemento do jornal
*** (Poema inédito de Mário Castrim).

***
Via página no face
https://www.facebook.com/pages/M%C3%A1rio-Castrim/167547153291591?fref=ts# fiquei a saber que a viúva dele é a grande escritora ALICE VIEIRA!!!
e as obras dele:

  • Nasceu para Lutar
  • Histórias Com Juízo
  • Estas São as Letras
  • As Mil Noites
  • A Moeda do Sol
  • O Cavalo do Lenço Amarelo é Perigoso
  • A Caminho de Fátima
  • O Caso da Rua Jau
  • Váril, o herói
  • A Girafa Gira-Gira (9 vols.)
  • O Lugar do Televisor (3 vols., com as crónicas que publicou na revista Audácia)
***
Via
http://bibliotecariodebabel.com/geral/poemas-ineditos-de-mario-castrim/


Poemas inéditos de Mário Castrim

No dia em que passam dez anos sobre a morte de Mário Castrim, Alice Vieira partilhou, no seu mural do Facebook, três poemas inéditos do jornalista e crítico televisivo do Diário de Lisboa. Transcrevo aqui os dois primeiros:
No retrato velho hoje cinzento
estava toda a família reunida.
– Este aqui és tu.
Este tu era eu – três anos, caracóis, calções
colete, botas.
Este sou eu.
É preciso guardar as provas. Os documentos.
Se um dia me fecharem as cancelas e
não me deixarem passar, aponto logo:
– Este sou eu.
– Passe – dirá o guarda que deve haver
na eternidade – e boa viagem, sim?
– Claro – dirá o menino
que entretanto busca em mim
as sete diferenças
como costuma fazer no desenho
do suplemento do jornal
***
Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamenhte ocidental o mais
ocidental possível.
Mais do que ele, só os nossos olhos.
Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.
A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.

Obrigado, Alice.