respectivamente 1921 e 2006

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Via

http://veja.abril.com.br/especiais/35_anos/p_086.html
"O casamento não tende a ser eliminado, mas reestruturado. Não será mais virtude a mulher ser escrava da casa. A mulher e o homem compartilhandoigualmente o fardo econômico será a libertação dos dois."
Entrevista: BETTY FRIEDANGuerra das panelas
O trabalho caseiro, s�mbolo da opress�o
que ainda n�o chegou ao Brasil
Ronald de Freitas
Baixa, de nariz pronunciado, cabelos grisalhos e voz quase rouca, Betty Friedan não possui um tipo físico atraente. Empolga-se quando fala - e fala muito. Seus gestos são vigorosos (talvez pretendam ser até dominadores). E, na conversa mais informal, ela dá a impressão e estar fazendo uma conferência para um auditório universal. Depois de cada frase, sempre com palavras escolhidas e argumentos bem encadeados apesar de sua incrível rapidez verbal, seus grandes olhos esverdeados se abrem curiosos procurando nos interlocutores os menores sinais de concordância.
Se a resposta denota desaprovação, Betty lança os braços para trás da cabeça e sorri, num misto de quase desprezo e resignação ante a inevitável incompreensão masculina.
Irrita-se se alguém tenta insinuar que feia "E só isso que sabem dizer a meu respeito?" E parece permanentemente preocupada em demonstrar inteligência, cultura - e segurança. Divorciada, mãe de três filhos (dois homens e uma menina Emily, quinze anos e longos cabelos, que acompanha a mãe em todas as suas viagens), formada em psicologia e aos 49 anos presidente da National Organization of Women, a NOW, a mais poderosa liga feminista dos Estados Unidos, Betty passou alguns dias no Brasil, a convite da Editora Vozes, que está lançando oficialmente no país o seu livro "Mística Feminina". E em todas as entrevistas que concedeu procurou enfatizar "um ponto básico": a crítica impiedosa à chamada sociedade de consumo, que considera como a grande responsável pela "opressão da mulher no mundo".
Num contato de algumas horas com os repórteres de VEJA, Betty Friedan não fumou, mas tomou dois "whisky-sours" em quinze minutos. À primeira vista, com seu andar lento e até hesitante, ela mais parece uma tia velha e rabugenta, aborrecida com sobrinhos eternamente mal-educados. Depois de suas primeiras palavras, contudo, percebe-se que em determinados momentos é simpática e sabe ser uma doutrinadora paciente. E imperturbável: embora se sentisse atrapalhada, não reclamou do infernal barulho provocado por duas crianças que chutavam uma sonora bola de borracha no pátio cimentado da casa em que se hospedou, em São Conrado, Rio de Janeiro.
E, acima de tudo, demonstrou que a mais radical líder feminista não precisa deixar de ser mulher: como a maioria de suas "companheiras oprimidas", Betty gastou mais de uma hora para trocar uma florida túnica esportiva por um surpreendente vestido máxi negro e transparente.
VEJA - E comum ouvir dizer que as líderes feministas são pouco femininas. A senhora concorda com isso?BETTY FRIEDAN - Essa caracterização é um produto dos "mass media", os meios de comunicação de massa. E eles, possivelmente, são influenciados pelas forças que desejam opor o homem à mulher, para que se torne mais fácil a opressão de ambos. É fácil de entender as intenções dessas forças. Para impedir a libertação da mulher, não são necessárias as máscaras contra gases, símbolos de uma espécie nova de violência. Basta transformá-la num objeto de humorismo.
VEJA - Mas que forças são essas?BETTY FRIEDAN - As forças que têm interesse em eternizar a sociedade de consumo no mundo.
VEJA - E por serem contra essa sociedade de consumo que as mulheres americanas têm se rebelado contra o uso de cosméticos, e até de sutiãs?BETTY FRIEDAN - Eu, pessoalmente, nunca fui contra o uso de cosméticos ou de sutiãs.
VEJA - Que pensam seus filhos e seu marido do seu movimento?BETTY FRIEDAN - Tenho dois filhos e uma filha. Estou divorciada do meu marido. Suas opiniões não são as minhas. Mas meus filhos são muito independentes. Eu não posso falar por meus filhos. Eles falam por si mesmos.
VEJA - A senhora não acha que é muito fácil defender suas teorias não tendo casa nem família para cuidar?BETTY FRIEDAN - Acho que o homem e a mulher têm real necessidade um do outro, necessidade de uma intimidade a longo prazo. A única coisa que eu questiono são os obsoletos papéis atribuídos a cada sexo. Com tais papéis é muito difícil hoje em dia conseguir uma intimidade verdadeira dentro do casamento. Mais ou menos metade dos casamentos nos EUA acabam em divórcio, e a outra metade está sempre periclitando e em busca de conselhos e psicólogos. Essa situação do casamento é tão má que basta um comediante na televisão dizer "minha esposa" para que toda a assistência caia no riso. A mulher quer se libertar para tornar-se realmente um ser humano.
VEJA - Há tendência então para se eliminar o casamento?BETTY FRIEDAN - Não. O casamento não tende a ser eliminado mas sim reestruturado. Em linhas que permitam tanto ao homem quanto à mulher compartilhar igualmente dos privilégios, das oportunidades e dificuldades da vida a dois, da família, dos filhos. Haverá uma espécie diferente de lar e mesmo novos tipos de aparelhos domésticos. Porque não se verá tanta virtude no fato de a mulher ficar encerando a casa limpando o pó ou varrendo. Talvez venha a haver nesse novo tempo um sistema geral de aspiração do pó, por exemplo. Os lados positivos continuarão e sempre será feliz e gostoso voltar para casa e descansar e amar, gozar da beleza, dos amigos, dos filhos. Mas não será mais virtude para a mulher ser escrava da casa. Além da dona da casa haverá também o "dono da casa". A casa para os dois e não os dois para a casa.
VEJA - Por que o movimento pela igualdade?BETTY FRIEDAN - Poucas mulheres são doutoras, advogadas, poucas podem tomar decisões na política. Nenhuma mulher pode fazer leis ou mudar a sua própria situação. Por isso, o nosso movimento inclui até mesmo as exceções. Agora, inclusive as mulheres excepcionais querem ser iguais. Há um enorme movimento na Igreja Católica nesse sentido. Eu fiz palestras muitas vezes a convite de colégios e universidades católicas e até para uma audiência de quinhentos padres e freiras de uma congregação sobre as implicações da libertação da mulher para a Igreja. Todas as igrejas nos Estados Unidos estão interessadas nessa libertação. E todas as mulheres estão dizendo "não" ao fato de apenas fazerem os jantares ou ficarem nas sacristias. Nós queremos participar dos sermões e ajudar a reformular a moral e a teologia para refletir a presença da mulher pela primeira vez na história.
VEJA - E os homens americanos, como vêem o movimento feminista?BETTY FRIEDAN - Nesses últimos anos, na América, cada vez mais homens, especialmente jovens, vêem a sua libertação ligada à libertação da mulher. A outra face do problema é a libertação do homem da "mística masculina do machismo". Por que os homens devem morrer dez anos antes das mulheres? É preciso modificar esses números. A mulher e o homem compartilhando igualmente do fardo econômico: será a libertação dos dois. A libertação por exemplo, desse tipo de masculinidade obsoleta: para que grandes músculos quando não há mais ursos para matar? Homens mais jovens, com seus cabelos longos, parecem haver compreendido e se engajado no movimento de libertação da mulher. São homens que dizem não à mística masculina obsoleta assim como as mulheres dizem não à mística feminina obsoleta. Os homens dizem: "Não precisamos mais ser brutais, sádicos, dominantes e poderosos e, para provar nossa superioridade, mandar nossos filhos para o Camboja e o Vietnã. Admitimos que podemos ser sensíveis, generosos e ternos e podemos também admitir que às vezes temos medo". Ele não é tão frágil como o "machão" e por isso não está assustado com o movimento de libertação da mulher. Acho que o machismo faz todos os homens pensarem que são inadequados. Eles têm de esconder-se atrás de uma máscara e mostrar-se como não são para suas mulheres. E a mulher também não tem de ficar atrás de uma máscara e de cílios falsos. Achar que ela é uma "coitadinha, uma indefesa criatura". Debaixo dessas máscaras, há ódio, agressividade. Resultado: homem e mulher acabam odiando um ao outro.
VEJA - Se a mulher tiver que trabalhar, por princípio, em nome da emancipação, quem tomará conta da casa?
BETTY FRIEDAN - Os dois, por uma nova divisão de trabalho, e também as crianças. Por que as crianças devem ter tudo feito para elas? Ao contrário, devem aprender a fazer suas próprias coisas. Haverá novos recursos da tecnologia para se conseguir isso. Grandes lavanderias comuns, restaurantes comuns, creches - e desaparecerá a mística do trabalho doméstico. O homem a mulher gozarão do prazer de cozinhar para si de vez em quando, sem ter o encargo de cozinhar todos os dias. Alguns homens até sabem cozinhar muito bem.
VEJA - Com certeza, o homem também aprecia esse tipo de vida, mas tem que trabalhar e não lhe sobra tempo. Como resolver essa situação?BETTY FRIEDAN - Se o homem e a mulher arcassem juntos com os encargos econômicos, sobraria tempo para ambos. O homem poderia compartilhar das alegrias da casa. Se, por outro lado, a mulher é obrigada a cozinhar todos os dias, ela vai detestar cozinhar para o resto da vida. Se pararmos de fazer estas distinções de papéis entre os sexos, ambos compartilharão as coisas alegres e as aborrecidas. Por exemplo, um lava os pratos num dia, o outro no outro. Nos EUA de hoje já está havendo uma redefinição. Os homens já estão participando dos trabalhos caseiros, e isto torna sua vida muito mais imprevista e aventurosa. Do modo pelo qual a vida é vivida atualmente, as coisas se repetem sempre. Sabemos hoje o que vamos fazer amanhã.
VEJA - De que maneira a senhora vê no Brasil esse problema que hoje agita a opinião nos EUA?BETTY FRIEDAN - Embora eu não seja uma perita em assuntos brasileiros, acho que o seu país sofre de uma desvantagem em estágios de desenvolvimento. E dentro do Brasil há vários estágios de desenvolvimento. A grande parte da sua população vive ainda em estado infra-humano. E a discussão desses problemas que estamos debatendo só é válida quando homens e mulheres têm ao menos o necessário, o mínimo para viver. E talvez conseguir condições para que homem e mulher possam viver seja mais importante do que discutir o problema da mulher. A grande maioria dos homens e mulheres do seu país não têm condições de ter voz ativa na sociedade em que vivem. Nesse caso é preciso lutar para que homem e mulher tenham voz na sociedade. Nos EUA é diferente - o homem tem voz ativa na sociedade e a mulher não tem. Não há divórcio no Brasil, é verdade. Mas o problema da libertação da mulher é insignificante perto do problema social existente.
VEJA - A senhora quer dizer que existem poucas chances de um movimento de emancipação feminina se desenvolver no Brasil, pelo menos por enquanto?BETTY FRIEDAN - O Brasil é um país incrivelmente belo. Há nele enormes possibilidades, enormes desafios, tanto espaço! Ele é tão pouco povoado que me lembra o tempo dos pioneiros do oeste americano. E no tempo em que as mulheres americanas compartilhavam com os homens americanos o seu pioneirismo havia igualdade entre eles. Por isso eu espero que as mulheres e homens brasileiros encontrem diretamente essa igualdade sem passar pela fase de tradicionalismo por que estão passando os Estados Unidos. Algumas mulheres que encontrei no Brasil, da classe média, estão tentando sair dos velhos esquemas, especialmente voltando para as escolas e universidades depois de adultas. Há tantas mulheres no Brasil que largam a escola e a profissão aos dezessete e dezoito anos para casar-se e ter filhos. E depois dos trinta, depois que os filhos crescem, vêem que têm mais trinta ou quarenta anos de aborrecimentos e vida inútil diante de si. Mas, como querem continuar a ser seres vivos e a participar da vida de todos, voltam para as escolas e universidades e sentem a discriminação que a sociedade faz contra elas, como nós sentimos nos EUA, e passam a lutar contra essa discriminação.
VEJA - A liberdade econômica da mulher deve ser igual à dos homens, com as mesmas responsabilidades?BETTY FRIEDAN - A mulher deve ter uma oportunidade igual de ter essa liberdade econômica. Por exemplo: se essa oportunidade for igual, os homens poderão ter outras oportunidades interessantes. Quando nascem os filhos, em vez de só a mulher ter a licença para a maternidade, o homem também deveria ter uns dias de folga. Seria uma espécie de licença-paternidade, para ficar em casa junto com o filho pequeno. Isso porque quando a mulher tem o filho é muito melhor para a criança ser cuidada igualmente pelo pai e pela mãe. Assim, se o casal escolhe compartilhar os encargos econômicos deve escolher também compartilhar o encargo da família, que muitas vezes pode ser agradável para ambos. E esse trabalho pode ser suplementado por creches abertas 24 horas por dia, escolas maternais. Afinal, a criança necessita de socialização. Numa cidade como o Rio ou Nova York, seja nas belas casas de subúrbio americanas, seja nos mais ricos apartamentos ou nos mais pobres barracos cariocas, não é possível para a criança de hoje conseguir os estímulos de que necessita se estiver restrita à sua pequena família nuclear isolada, composta de pai, mãe e filho apenas. A criança precisa de muito mais estímulo para viver e crescer.
VEJA - Que tipo de mulher serviria de catalisador para o desenvolvimento de um movimento feminista no Brasil?BETTY FRIEDAN - A classe média é pequena no Brasil, mas tende acrescer rapidamente. Os EUA são um país antes de tudo de classe média, e por isso o movimento de libertação da mulher é principalmente um movimento de libertação da classe média. Tanto a mulher negra como as mulheres dos milionários possuem o espírito da classe média. Mas, de qualquer maneira, por mais rica que seja a mulher, ela é sempre mais pobre do que o homem. Ela sempre ganha a metade do salário do homem. A grande maioria das mulheres que trabalham nos EUA ganha o que lá é considerado um salário de pobre. Com as mulheres brasileiras, sejam elas camponesas, faveladas ou trabalhadoras da classe média, creio que a sua condição é tão má quanto a dos homens. Enfim, é na classe média que deve nascer a revolta da mulher, pois eu vejo que a energia que está sem uso nas mulheres e é improdutiva para a sociedade começa a ser sentida. Isso não quer dizer que a mulher deve ser protegida dos problemas com que o homem se defronta. E no Brasil o homem se defronta com muitos problemas. Também nos EUA nós temos muitos problemas. Ou nós usamos nossas energias para enfrentá-los e recusamos ser apáticos e passivos, ou jamais superaremos as circunstâncias que nos oprimem, sejamos brasileiros ou americanos. E essas forças não são apenas opressoras da mulher - por exemplo, não é possível libertar a mulher numa sociedade beligerante. Ela deve usar o seu potencial humano para se opor às forças da guerra. Isto é o que eu penso, como uma mulher americana. Eu uso minhas energias para me opor às forças da guerra.
VEJA - E o Brasil, que não está em guerra contra ninguém?BETTY FRIEDAN - Um país como o Brasil não pode se dar ao luxo de desperdiçar o tremendo potencial de energia ainda não usada e contida nas mulheres que passam os dias fazendo tarefas inúteis ou nos salões de beleza. O seu desenvolvimento se ressentirá profundamente disso.
O trabalho caseiro, s�mbolo da opress�o
que ainda n�o chegou ao Brasil
Ronald de Freitas
Baixa, de nariz pronunciado, cabelos grisalhos e voz quase rouca, Betty Friedan não possui um tipo físico atraente. Empolga-se quando fala - e fala muito. Seus gestos são vigorosos (talvez pretendam ser até dominadores). E, na conversa mais informal, ela dá a impressão e estar fazendo uma conferência para um auditório universal. Depois de cada frase, sempre com palavras escolhidas e argumentos bem encadeados apesar de sua incrível rapidez verbal, seus grandes olhos esverdeados se abrem curiosos procurando nos interlocutores os menores sinais de concordância.
Se a resposta denota desaprovação, Betty lança os braços para trás da cabeça e sorri, num misto de quase desprezo e resignação ante a inevitável incompreensão masculina.
Irrita-se se alguém tenta insinuar que feia "E só isso que sabem dizer a meu respeito?" E parece permanentemente preocupada em demonstrar inteligência, cultura - e segurança. Divorciada, mãe de três filhos (dois homens e uma menina Emily, quinze anos e longos cabelos, que acompanha a mãe em todas as suas viagens), formada em psicologia e aos 49 anos presidente da National Organization of Women, a NOW, a mais poderosa liga feminista dos Estados Unidos, Betty passou alguns dias no Brasil, a convite da Editora Vozes, que está lançando oficialmente no país o seu livro "Mística Feminina". E em todas as entrevistas que concedeu procurou enfatizar "um ponto básico": a crítica impiedosa à chamada sociedade de consumo, que considera como a grande responsável pela "opressão da mulher no mundo".
Num contato de algumas horas com os repórteres de VEJA, Betty Friedan não fumou, mas tomou dois "whisky-sours" em quinze minutos. À primeira vista, com seu andar lento e até hesitante, ela mais parece uma tia velha e rabugenta, aborrecida com sobrinhos eternamente mal-educados. Depois de suas primeiras palavras, contudo, percebe-se que em determinados momentos é simpática e sabe ser uma doutrinadora paciente. E imperturbável: embora se sentisse atrapalhada, não reclamou do infernal barulho provocado por duas crianças que chutavam uma sonora bola de borracha no pátio cimentado da casa em que se hospedou, em São Conrado, Rio de Janeiro.
E, acima de tudo, demonstrou que a mais radical líder feminista não precisa deixar de ser mulher: como a maioria de suas "companheiras oprimidas", Betty gastou mais de uma hora para trocar uma florida túnica esportiva por um surpreendente vestido máxi negro e transparente.
VEJA - E comum ouvir dizer que as líderes feministas são pouco femininas. A senhora concorda com isso?BETTY FRIEDAN - Essa caracterização é um produto dos "mass media", os meios de comunicação de massa. E eles, possivelmente, são influenciados pelas forças que desejam opor o homem à mulher, para que se torne mais fácil a opressão de ambos. É fácil de entender as intenções dessas forças. Para impedir a libertação da mulher, não são necessárias as máscaras contra gases, símbolos de uma espécie nova de violência. Basta transformá-la num objeto de humorismo.
VEJA - Mas que forças são essas?BETTY FRIEDAN - As forças que têm interesse em eternizar a sociedade de consumo no mundo.
VEJA - E por serem contra essa sociedade de consumo que as mulheres americanas têm se rebelado contra o uso de cosméticos, e até de sutiãs?BETTY FRIEDAN - Eu, pessoalmente, nunca fui contra o uso de cosméticos ou de sutiãs.
VEJA - Que pensam seus filhos e seu marido do seu movimento?BETTY FRIEDAN - Tenho dois filhos e uma filha. Estou divorciada do meu marido. Suas opiniões não são as minhas. Mas meus filhos são muito independentes. Eu não posso falar por meus filhos. Eles falam por si mesmos.
VEJA - A senhora não acha que é muito fácil defender suas teorias não tendo casa nem família para cuidar?BETTY FRIEDAN - Acho que o homem e a mulher têm real necessidade um do outro, necessidade de uma intimidade a longo prazo. A única coisa que eu questiono são os obsoletos papéis atribuídos a cada sexo. Com tais papéis é muito difícil hoje em dia conseguir uma intimidade verdadeira dentro do casamento. Mais ou menos metade dos casamentos nos EUA acabam em divórcio, e a outra metade está sempre periclitando e em busca de conselhos e psicólogos. Essa situação do casamento é tão má que basta um comediante na televisão dizer "minha esposa" para que toda a assistência caia no riso. A mulher quer se libertar para tornar-se realmente um ser humano.
VEJA - Há tendência então para se eliminar o casamento?BETTY FRIEDAN - Não. O casamento não tende a ser eliminado mas sim reestruturado. Em linhas que permitam tanto ao homem quanto à mulher compartilhar igualmente dos privilégios, das oportunidades e dificuldades da vida a dois, da família, dos filhos. Haverá uma espécie diferente de lar e mesmo novos tipos de aparelhos domésticos. Porque não se verá tanta virtude no fato de a mulher ficar encerando a casa limpando o pó ou varrendo. Talvez venha a haver nesse novo tempo um sistema geral de aspiração do pó, por exemplo. Os lados positivos continuarão e sempre será feliz e gostoso voltar para casa e descansar e amar, gozar da beleza, dos amigos, dos filhos. Mas não será mais virtude para a mulher ser escrava da casa. Além da dona da casa haverá também o "dono da casa". A casa para os dois e não os dois para a casa.
VEJA - Por que o movimento pela igualdade?BETTY FRIEDAN - Poucas mulheres são doutoras, advogadas, poucas podem tomar decisões na política. Nenhuma mulher pode fazer leis ou mudar a sua própria situação. Por isso, o nosso movimento inclui até mesmo as exceções. Agora, inclusive as mulheres excepcionais querem ser iguais. Há um enorme movimento na Igreja Católica nesse sentido. Eu fiz palestras muitas vezes a convite de colégios e universidades católicas e até para uma audiência de quinhentos padres e freiras de uma congregação sobre as implicações da libertação da mulher para a Igreja. Todas as igrejas nos Estados Unidos estão interessadas nessa libertação. E todas as mulheres estão dizendo "não" ao fato de apenas fazerem os jantares ou ficarem nas sacristias. Nós queremos participar dos sermões e ajudar a reformular a moral e a teologia para refletir a presença da mulher pela primeira vez na história.
VEJA - E os homens americanos, como vêem o movimento feminista?BETTY FRIEDAN - Nesses últimos anos, na América, cada vez mais homens, especialmente jovens, vêem a sua libertação ligada à libertação da mulher. A outra face do problema é a libertação do homem da "mística masculina do machismo". Por que os homens devem morrer dez anos antes das mulheres? É preciso modificar esses números. A mulher e o homem compartilhando igualmente do fardo econômico: será a libertação dos dois. A libertação por exemplo, desse tipo de masculinidade obsoleta: para que grandes músculos quando não há mais ursos para matar? Homens mais jovens, com seus cabelos longos, parecem haver compreendido e se engajado no movimento de libertação da mulher. São homens que dizem não à mística masculina obsoleta assim como as mulheres dizem não à mística feminina obsoleta. Os homens dizem: "Não precisamos mais ser brutais, sádicos, dominantes e poderosos e, para provar nossa superioridade, mandar nossos filhos para o Camboja e o Vietnã. Admitimos que podemos ser sensíveis, generosos e ternos e podemos também admitir que às vezes temos medo". Ele não é tão frágil como o "machão" e por isso não está assustado com o movimento de libertação da mulher. Acho que o machismo faz todos os homens pensarem que são inadequados. Eles têm de esconder-se atrás de uma máscara e mostrar-se como não são para suas mulheres. E a mulher também não tem de ficar atrás de uma máscara e de cílios falsos. Achar que ela é uma "coitadinha, uma indefesa criatura". Debaixo dessas máscaras, há ódio, agressividade. Resultado: homem e mulher acabam odiando um ao outro.
VEJA - Se a mulher tiver que trabalhar, por princípio, em nome da emancipação, quem tomará conta da casa?
BETTY FRIEDAN - Os dois, por uma nova divisão de trabalho, e também as crianças. Por que as crianças devem ter tudo feito para elas? Ao contrário, devem aprender a fazer suas próprias coisas. Haverá novos recursos da tecnologia para se conseguir isso. Grandes lavanderias comuns, restaurantes comuns, creches - e desaparecerá a mística do trabalho doméstico. O homem a mulher gozarão do prazer de cozinhar para si de vez em quando, sem ter o encargo de cozinhar todos os dias. Alguns homens até sabem cozinhar muito bem.
VEJA - Com certeza, o homem também aprecia esse tipo de vida, mas tem que trabalhar e não lhe sobra tempo. Como resolver essa situação?BETTY FRIEDAN - Se o homem e a mulher arcassem juntos com os encargos econômicos, sobraria tempo para ambos. O homem poderia compartilhar das alegrias da casa. Se, por outro lado, a mulher é obrigada a cozinhar todos os dias, ela vai detestar cozinhar para o resto da vida. Se pararmos de fazer estas distinções de papéis entre os sexos, ambos compartilharão as coisas alegres e as aborrecidas. Por exemplo, um lava os pratos num dia, o outro no outro. Nos EUA de hoje já está havendo uma redefinição. Os homens já estão participando dos trabalhos caseiros, e isto torna sua vida muito mais imprevista e aventurosa. Do modo pelo qual a vida é vivida atualmente, as coisas se repetem sempre. Sabemos hoje o que vamos fazer amanhã.
VEJA - De que maneira a senhora vê no Brasil esse problema que hoje agita a opinião nos EUA?BETTY FRIEDAN - Embora eu não seja uma perita em assuntos brasileiros, acho que o seu país sofre de uma desvantagem em estágios de desenvolvimento. E dentro do Brasil há vários estágios de desenvolvimento. A grande parte da sua população vive ainda em estado infra-humano. E a discussão desses problemas que estamos debatendo só é válida quando homens e mulheres têm ao menos o necessário, o mínimo para viver. E talvez conseguir condições para que homem e mulher possam viver seja mais importante do que discutir o problema da mulher. A grande maioria dos homens e mulheres do seu país não têm condições de ter voz ativa na sociedade em que vivem. Nesse caso é preciso lutar para que homem e mulher tenham voz na sociedade. Nos EUA é diferente - o homem tem voz ativa na sociedade e a mulher não tem. Não há divórcio no Brasil, é verdade. Mas o problema da libertação da mulher é insignificante perto do problema social existente.
VEJA - A senhora quer dizer que existem poucas chances de um movimento de emancipação feminina se desenvolver no Brasil, pelo menos por enquanto?BETTY FRIEDAN - O Brasil é um país incrivelmente belo. Há nele enormes possibilidades, enormes desafios, tanto espaço! Ele é tão pouco povoado que me lembra o tempo dos pioneiros do oeste americano. E no tempo em que as mulheres americanas compartilhavam com os homens americanos o seu pioneirismo havia igualdade entre eles. Por isso eu espero que as mulheres e homens brasileiros encontrem diretamente essa igualdade sem passar pela fase de tradicionalismo por que estão passando os Estados Unidos. Algumas mulheres que encontrei no Brasil, da classe média, estão tentando sair dos velhos esquemas, especialmente voltando para as escolas e universidades depois de adultas. Há tantas mulheres no Brasil que largam a escola e a profissão aos dezessete e dezoito anos para casar-se e ter filhos. E depois dos trinta, depois que os filhos crescem, vêem que têm mais trinta ou quarenta anos de aborrecimentos e vida inútil diante de si. Mas, como querem continuar a ser seres vivos e a participar da vida de todos, voltam para as escolas e universidades e sentem a discriminação que a sociedade faz contra elas, como nós sentimos nos EUA, e passam a lutar contra essa discriminação.
VEJA - A liberdade econômica da mulher deve ser igual à dos homens, com as mesmas responsabilidades?BETTY FRIEDAN - A mulher deve ter uma oportunidade igual de ter essa liberdade econômica. Por exemplo: se essa oportunidade for igual, os homens poderão ter outras oportunidades interessantes. Quando nascem os filhos, em vez de só a mulher ter a licença para a maternidade, o homem também deveria ter uns dias de folga. Seria uma espécie de licença-paternidade, para ficar em casa junto com o filho pequeno. Isso porque quando a mulher tem o filho é muito melhor para a criança ser cuidada igualmente pelo pai e pela mãe. Assim, se o casal escolhe compartilhar os encargos econômicos deve escolher também compartilhar o encargo da família, que muitas vezes pode ser agradável para ambos. E esse trabalho pode ser suplementado por creches abertas 24 horas por dia, escolas maternais. Afinal, a criança necessita de socialização. Numa cidade como o Rio ou Nova York, seja nas belas casas de subúrbio americanas, seja nos mais ricos apartamentos ou nos mais pobres barracos cariocas, não é possível para a criança de hoje conseguir os estímulos de que necessita se estiver restrita à sua pequena família nuclear isolada, composta de pai, mãe e filho apenas. A criança precisa de muito mais estímulo para viver e crescer.
VEJA - Que tipo de mulher serviria de catalisador para o desenvolvimento de um movimento feminista no Brasil?BETTY FRIEDAN - A classe média é pequena no Brasil, mas tende acrescer rapidamente. Os EUA são um país antes de tudo de classe média, e por isso o movimento de libertação da mulher é principalmente um movimento de libertação da classe média. Tanto a mulher negra como as mulheres dos milionários possuem o espírito da classe média. Mas, de qualquer maneira, por mais rica que seja a mulher, ela é sempre mais pobre do que o homem. Ela sempre ganha a metade do salário do homem. A grande maioria das mulheres que trabalham nos EUA ganha o que lá é considerado um salário de pobre. Com as mulheres brasileiras, sejam elas camponesas, faveladas ou trabalhadoras da classe média, creio que a sua condição é tão má quanto a dos homens. Enfim, é na classe média que deve nascer a revolta da mulher, pois eu vejo que a energia que está sem uso nas mulheres e é improdutiva para a sociedade começa a ser sentida. Isso não quer dizer que a mulher deve ser protegida dos problemas com que o homem se defronta. E no Brasil o homem se defronta com muitos problemas. Também nos EUA nós temos muitos problemas. Ou nós usamos nossas energias para enfrentá-los e recusamos ser apáticos e passivos, ou jamais superaremos as circunstâncias que nos oprimem, sejamos brasileiros ou americanos. E essas forças não são apenas opressoras da mulher - por exemplo, não é possível libertar a mulher numa sociedade beligerante. Ela deve usar o seu potencial humano para se opor às forças da guerra. Isto é o que eu penso, como uma mulher americana. Eu uso minhas energias para me opor às forças da guerra.
VEJA - E o Brasil, que não está em guerra contra ninguém?BETTY FRIEDAN - Um país como o Brasil não pode se dar ao luxo de desperdiçar o tremendo potencial de energia ainda não usada e contida nas mulheres que passam os dias fazendo tarefas inúteis ou nos salões de beleza. O seu desenvolvimento se ressentirá profundamente disso.
Via Wikipédia
Betty Naomi Goldstein, mais conhecida como Betty Friedan, (Peoria, 4 de fevereiro de 1921 — Washington, 4 de fevereiro de 2006) foi uma importante ativistafeminista estado-unidense do século XX.
Participou também de movimentos marxistas e judaicos. Em 1963, publicou o livro "The Feminine Mystique" ("A Mística Feminina"), um best-seller que fomentou a segunda onda do feminismo, abordando o papel da mulher na indústria e na função de dona-de-casa e suas implicações tanto para a sobrevivência do capitalismoquanto para a situação de desespero e depressão que grande parte das mulheres submetidas a esse regime sofriam.
Foi também co-fundadora da Organização Nacional das Mulheres, nos Estados Unidos, juntamente com Pauli Murray e Bernard Nathanson, e auxiliou também na criação do NARAL, organização de fomento aos direitos reprodutivos, inclusive o do aborto. É considerada uma das feministas mais influentes do século XX.
Morreu no dia de seu 85º aniversário, em sua casa em Washington. De acordo com Emily Bazelton, porta-voz da família, a causa da morte foi falência cardíaca congestiva.
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Via
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2006000100015
Betty Friedan: morre a feminista que estremeceu a América
Ana Rita Fonteles Duarte
Universidade Federal de Santa Catarina
Betty Naomi Goldstein, ou Betty Friedan, se foi em 4 de fevereiro último, em Washington, no dia em que completou 85 anos. Em nada a partida, registrada em notas discretas em jornais, revistas, sites e TVs, lembrou o tumultuado ingresso dessa ex-dona de casa na vida pública americana, mais precisamente em 1963. Foi quando ela publicou seu polêmico Mística feminina.1
O livro, que se tornou best seller nos Estados Unidos, mesmo tendo sido rejeitado, no começo, pela imprensa, discutia a crise de identidade feminina, analisando minuciosamente a construção da imagem da mulher como dona de casa perfeita, mãe e esposa. Tornou-se um dos principais desencadeadores da chamada segunda onda feminista que varreu o Ocidente.
A idéia do livro surgiu de um encontro de ex-alunos do Smith College, no qual Betty estudou. Lá, ela comprovou que suas antigas colegas estavam tão insatisfeitas em sua vida doméstica quanto ela, que tinha se casado em 1947 com Carl Friedan, de quem se divorciou em 1969.
O "problema mal formulado" ou "mal sem nome" que acometia mulheres, em especial as casadas, nas décadas de 50 e 60, tornou-se perceptível, para Friedan, também a partir de sua própria experiência e da experiência de outras mulheres que ela conheceu em seu trabalho como repórter para uma revista. Nessa época estava criando seus três filhos em Roackland Country, em Nova York.
Entrevistou várias mulheres a respeito de suas dificuldades com os filhos, o casamento, a casa, a comunidade. Segundo ela, os ecos do problema podiam ser ouvidos em dormitórios universitários, enfermarias de maternidades, reuniões de pais e mestres, almoços da Liga das Mulheres Votantes, coquetéis, carros à espera de trens. O problema ultrapassava classes sociais, idades, credos e etnias. As inquietações manifestas por pessoas de várias idades, classes sociais e credos lhe tocaram primeiramente como mulher, para mais tarde se fazerem perceber como problemas psicológicos e sociológicos.
Mas, afinal, que problema sem nome era esse? Como esse problema era descrito pelas mulheres que falavam a Friedan? O sentimento de estar vazia, sentir-se incompleta, ter a impressão de não existir, sentir-se cansada e aborrecida, zangar-se facilmente com as crianças e o marido, chorar sem motivo aparente pontuava as angustiadas falas. O problema acabava, muitas vezes, por desaguar nos consultórios de médicos, psicanalistas ou era temporariamente driblado com a ajuda de tranqüilizantes.
Camuflado por revistas femininas na década de 50, o "mal sem nome" acabou por chegar à imprensa no início da década de 60, em veículos como New York Times, Newsweek, Time, Good Housekeeping e a CBS. Artigos e reportagens abordavam a infelicidade feminina, buscando razões superficiais para explicá-la. A incompetência de profissionais que davam manutenção a aparelhos eletrodomésticos, o excesso de reuniões de pais e mestres e até o questionamento sobre a educação elevada destinada a donas de casa foram apontados como causas do problema.
Friedan não se conformou com essas explicações e resolveu colocar o dedo na ferida ao apontar a "mística feminina" como causa maior de todos esses problemas que precisariam ser encarados de maneira séria pela sociedade:
[...] O problema não pode ser compreendido nos termos geralmente aceitos pelos cientistas ao estudarem a mulher, pelos médicos ao tratarem dela, pelos conselheiros que as orientam e os escritores que escrevem a seu respeito. A mulher que sofre deste mal, e em cujo íntimo fervilha a insatisfação, passou a vida inteira procurando realizar seu papel feminino. Não seguiu uma carreira (embora as que o façam talvez tenham outros problemas); sua maior ambição era casar e ter filhos. Para as mais velhas, produtos da classe média, nenhum outro sonho seria possível. As de quarenta ou cinqüenta anos, que quando jovens haviam feito outros planos e a eles renunciado, atiraram-se alegremente na vida de donas-de-casa. Para as mais moças, que deixaram o ginásio ou a faculdade para casar, ou passar algum tempo num emprego sem interesse, este era o único caminho. Eram todas muito "femininas" na acepção comum da palavra, e ainda assim sofriam do mal.2
Ela analisou, em seu livro, como as mulheres americanas estavam se casando cada vez mais jovens e como iam cada vez menos à universidade, com obsessão durante toda a vida pela condição de objeto belo, preocupando-se em adaptar seu corpo e seu rosto às modas. A cozinha configurava-se como habitat 'natural' da mulher, daí decorrendo todo o esforço de decoradores e da indústria de eletrodomésticos para convertê-la em um lugar agradável. O lar, como referência maior, era o lugar de onde as mulheres saíam apenas para comprar, levar as crianças à escola ou acompanhar seus maridos a reuniões sociais.
As mulheres viam esses problemas, quase sempre, como falhas no seu matrimônio. Que espécie de mulher se era, se não sentia uma mística realização encerando o chão da cozinha?, provocava Friedan. Não ajustar-se ao papel de feminilidade, ao papel de mãe e esposa, era o tal "problema sem nome", afinal.
O livro caiu como uma bomba nos Estados Unidos e provocou, em muitas leitoras, o desejo de dispor de uma associação. Em outubro de 1966, fundou-se, em Washington, uma Conferência Nacional, onde se constituiu a Organização Nacional de Mulheres, conhecida como NOW – National Organization for Women. À frente da organização estava Betty Friedan, a essas alturas feminista assumida.
Entre os princípios da NOW estava a denúncia das idéias sexistas de nossa sociedade, seus costumes e preconceitos, e do consumismo que convertia as mulheres em objetos. Como objetivo as feministas dessa organização colocavam a obtenção da igualdade para as mulheres na sociedade cujas estruturas elas não questionavam. As mulheres, segundo a NOW, predicavam a necessidade de auto-realização e de busca de identidade individual. Suas componentes pertenciam à classe média e ignoravam, em larga medida, os problemas das classes inferiores. Mulheres destas classes, incluindo as negras, pouco tiveram participação na organização.
Mas essas críticas não comprometem a importância da NOW para a organização das mulheres nos Estados Unidos. Uma manifestação emblemática organizada pelo movimento em 26 de agosto de 1970, em várias cidades americanas, mostrou àquela sociedade a dimensão do que estava sendo gestado. Milhares de mulheres foram às ruas em Nova York, Washington, Boston, Detroit e várias outras cidades do país. Não estavam unidas como estudantes, operárias, esposas de grevistas ou de empregados, nem como mães de soldados, mas simplesmente como mulheres. E essa era a grande novidade.
A passeata foi o ápice de uma série de reuniões, conferências, atos de protestos, mensagens ao Congresso e outras formas de ação tendentes a conscientizar as mulheres e despertar a atenção do público e dos legisladores sobre importantes questões vinculadas à posição da mulher naquele momento. Quatro pontos básicos eram pleiteados por elas: oportunidades iguais de acesso ao trabalho e à instrução, paridade de salários para tarefas iguais, legalização do aborto, abertura de creches em regime de tempo integral em todo o país.
Assim como em outros momentos protagonizados pelas feministas, a passeata foi alvo de uma onda de sarcasmo. A imprensa fez de tudo para desqualificá-la pela ironia e pelo ridículo, mostrando-a como uma colossal manifestação de histeria coletiva. Betty Friedan e outras líderes do movimento foram descritas como frustradas, neuróticas, homossexuais, megeras ressentidas, espumando de ódio contra o sexo masculino.
Em 1969, Betty ajudou a fundar a Associação Nacional para a revogação das Leis do Aborto, hoje conhecida como Naral América Pró-Escolha (NARAL Pro-Choice America). Em 1971, com Gloria Steinem e Bella Abzug, fundou a Organização Política de Mulheres. Por esse tempo, Mística feminina era usado como verdadeira Bíblia pelo movimento de mulheres americanas. A polêmica trazida por esse livro tinha espraiado reflexos pela Europa e também chegou ao Brasil, primeiro através da imprensa, e depois com a publicação do próprio livro, em 1971, no país, pela ousadia de Rose Marie Muraro, que à época estava à frente da Editora Vozes, no Rio de Janeiro. Na orelha da primeira edição brasileira, a apresentação dizia que aquele havia sido o primeiro livro a denunciar a manipulação da mulher pela sociedade de consumo.
Em abril do mesmo ano, Betty foi trazida ao Brasil pela editora para o lançamento da obra. Como a própria Rose Marie Muraro escreveria, anos depois, em sua autobiografia Memórias de uma mulher impossível,3 não era fácil ser feminista no Brasil daquela época. Ela própria, feminista assumida e atuante, era constantemente malhada e ridicularizada pela imprensa. Foi chamada de lésbica e feia pelo colunista Ibrahim Sued, sofreu com a turma do Pasquim, mas acabou se saindo bem em uma entrevista realizada ainda naquele ano pelo jornal nanico.
Sem cobrar cachê, viajando apenas com as despesas pagas, como conta Muraro, Betty veio para um lançamento duplo no país: no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, e na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo.
Logo que chegou ao Rio, foi levada por Rose para ser entrevistada por Millôr Fernandes e seus asseclas, sabidamente antifeministas, no Pasquim. Provocada durante toda a entrevista, ela se irritou e "deu uma cacetada no gravador que foi parar longe", nas palavras da própria Rose.
Finda a troca de farpas, entrevistada e entrevistadores acabaram se entendendo. O número 94 do jornal, em que foi publicada sua entrevista, trazia a seguinte frase de capa: "Desculpe Dona Betty, mas nós vamos dar cobertura às furadoras da greve de sexo". Na edição, o jornalista Paulo Francis, o mesmo que havia iniciado a entrevista perguntando a ela se tinha vindo ao Brasil para dar fim à "submissão secular da mulher brasileira", declararia que eles haviam gostado dela, que "foi muito estimulante o papo com Betty Friedan".4
A peregrinação por outros jornais do Rio e de São Paulo continuou. Muraro diz que até no cabeleireiro o Jornal do Brasil veio lhe entrevistar:
[...] Demos uma entrevista coletiva no Rio de Janeiro, outra em São Paulo, e fomos a todas as televisões, durante três dias... Os jornais nos davam páginas centrais.
No Rio, a entrevista foi no Copacabana Palace, e em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade. O lançamento estava cheio. Um espaço lindo que o Jair Canizela, gerente da Vozes em São Paulo, arranjou. A mídia toda estava ativada. A Veja fez uma matéria enorme comigo e com a Heloneida, deu páginas amarelas para a Betty. E o livro não vendeu essas coisas porque ainda era muito assustador.5
Uma movimentada agenda complementaria sua estada no Brasil. Conheceu as mulheres que marcharam em 64, pela família, Deus e a propriedade, visitou favelas, onde conheceria avós de 32 anos e mulheres que sustentavam suas famílias sozinhas, fazendo com que ela logo as relacionasse com as moradoras de comunidades negras americanas. Conheceu torturados, almoçou com grandes empresários da área da comunicação como Roberto Civita (Grupo Abril) e Adolpho Bloch (Bloch Editores). Deste último, tornou-se amiga ao descobrir que as famílias eram do mesmo lugar da Ucrânia.
Rose Muraro relata ainda que Friedan teria se queixado da própria Rose por ter feito pouco caso dela durante a entrevista ao Pasquim. Rose se justificou dizendo ter apenas lhe alertado de que eram os jornalistas que estavam ridicularizando o feminismo. A brasileira, por sua vez, reclamou de Friedan por ter falado tão mal dos militares, o que acabaria repercutindo depois da volta da escritora aos Estados Unidos, já que Rose seria vigiada por eles durante seis meses. Do impasse, Muraro iria se inspirar na imensa coragem de fazer o que tinha de ser feito, a partir da luta daquela americana corajosa. Keep doing (vá fazendo) passou a ser sua palavra de ordem.
Insatisfeita com o que chamou de fatos distorcidos pela imprensa na época, a jornalista e psicanalista Carmen da Silva manifestou nas páginas de sua seção A Arte de Ser Mulher, na revista Claudia, seu protesto pelo preconceito da imprensa brasileira contra Betty Friedan:
Durante essa visita verifiquei, por mim mesma, que nem sempre se pode dar crédito ao noticiário. Friedan dizia uma coisa e os meios de comunicação "reproduziam" outra completamente diferente. Cansei-me de ouvi-la expressar com mediana clareza idéias que logo apareciam truncadas e deformadas; vi como lhe foram atribuídos, sem cerimônia e contraditados com a maior suficiência, conceitos que ela jamais emitiu. Isso, sem falar nas perguntas primaríssimas que foram dirigidas a uma mulher com formação universitária, nos grosseiros ataques a uma hóspeda cortês e nas suposições gratuitas sobre sua vida íntima.6
No mesmo artigo, Carmen da Silva resolve resenhar o livro de Friedan como forma de reparar a "falsificação" dos pontos de vista da autora norte-americana feita por seus "detratores".
O texto de três páginas frisa o esforço intelectual e de pesquisa de Betty Friedan empreendido na coleta e análise de informações para a composição de seu livro. As entrevistas feitas com centenas de mulheres, médicos, cientistas, educadores, redatores de temas femininos, centros de saúde mental e de orientação familiar, além da leitura das publicações escritas nos últimos 20 anos a respeito da mulher, estão devidamente documentadas por Carmen da Silva, que reforça as posições da norte-americana:
Como porta-voz do Movimento de Libertação Feminina, opina Betty Friedan – e eu endosso sem reservas – que não é possível modificar o atual panorama de violência no mundo sem o concurso da mulher, que além de constituir metade do gênero humano, forma ou deforma a outra metade. Não se trata de opor-se ao homem, mas sim de que ambos, homens e mulheres, tomem consciência de sua alienação, de sua manipulação pela sociedade de consumo que os impedem de crescerem e se realizarem juntos como seres humanos ativos, felizes, úteis. Trata-se de aliar energias na tarefa de criar um mundo melhor. Trata-se de possibilitar entre eles um vínculo realmente maduro e harmonioso, em que nenhum domina o outro ou usurpa algo do outro.
A militância feminista de Betty Friedan a marcou para a vida inteira e influenciou os estudos sobre gênero e mulheres nas universidades americanas. Outros escritos importantes vieram, mas nenhum alcançou a mesma repercussão de Mística feminina, alçado à condição de clássico. Os outros livros de Friedan incluem It Changed My Life: Writings on the Women's Movement (Mudou minha vida: escritos sobre o movimento de mulheres), de 1976, The Second Stage (O segundo estágio), 1981, e The Fountain of Age (A fonte da idade), 1993.
Este último livro animou as discussões sobre o envelhecimento, tema de palestras proferidas por ela até pouco tempo atrás em seu país. Se de uns anos para cá, Betty Friedan se afastou da temática feminista, sendo acusada inclusive de traidora da causa por feministas radicais, as marcas de seu livro mais importante permanecem entre nós e nos fazem questionar se a "mística feminina", objeto de preocupação daquela dona de casa inquieta e questionadora, realmente acabou ou apenas transformou-se, tomando formas menos aparentes na sociedade atual.