06/02/2015

9.533.(6fev2015.7.22') José Craveirinha

Nasceu a 28maio1922
e morreu a 6fev2003
***
28maio2020
Viva Vida Breve:

“GRITO NEGRO Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.”
.
“Karingana Ua Karingana (Era uma vez). Lisboa: Edições 70, 1982.
.
.

***
Via
http://foleirices.blogs.sapo.pt/204898.html
BLASFÉMIA

No relicário que te acolhe
é-me angustioiso supor
o labor das areias
na madeira.

E meu pesadelo dos pesadelos
a iconoclasta muchém
no afã da sua lavra
orgiando-se voraz.

Blasfémia suprema
o festim.

O COVAL

Excêntrica
é a minha indignada
mesquinha forma de sofrer.

Lúcido
eu a desencher o mundo
tapando-me no mesmo coval.

MONOGRAMA

A sotavento da face
colar aquoso
se desfia

E
em sua fímbria macia
meu lenço azul-escuro
discreto humedece
o monograma
Jota
Cê.

Colar
que se desfia
no próprio lapso.

GUMES DE NÉVOA

Lágrimas?

Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?

O SACRÁRIO

A ausência do corpo.
Amor absoluto.

Hossanas de sol.
De chuva.
De brisa.
E de andorinhas
resvalando as asas
no ombro de uma nuvem.

Com uma hérbia mantilha
por cima velando
o teu sacrário.

SILEPSES

Ajustadas ao comprido as ripas
esfarelando-se devagarinho
por entre minuciosos
dedilhos de terra.

E
em melancólicas silepses
conspícuas gralhas versejam
extemporâneas férias
da Maria.

Poemas publicados na "Colóquio Letras" n.º 110-111, Julho-Outubro de 1989
***

Grito negro

https://www.youtube.com/watch?v=p6Ug9c2riCU
***
http://lusofonia.com.sapo.pt/craveirinha.htm
Poemas do livro Xigubo: 
Escolhendo o «Manifesto» (poema programático; posição origináriaassunção ideológica e cultural), temos o louvor do corpo negro, realçandoparticularidades morfológicas; louvor da cultura tradicional, étnicaexaltação do predicador (sujeito); marcação topográficageográfica, cultural, do espaçomoçambicano; Negritude; inspiração no modelo dos manifestos políticos ou culturais, por exemplo, dos manifestos surrealistas ou do Modernismo brasileiro. (Laranjeira:1995, p.281)
MANIFESTO
Oh!
Meus belos e curtos cabelos crespos
meus olhos negros como insurrectas
grandes luas de pasmo na noite mais bela
das mais belas noites inesquecíveis das terras do Zambeze.

Como pássaros desconfiados
incorruptos voando com estrelas nas asas meus olhos
enormes de pesadelos e fantasmas estranhos motorizados
e minhas maravilhosas mãos escuras raízes do cosmos
nostálgicas de novos ritos de iniciação
dura da velha rota das canoas das tribos
e belas como carvões de micaias
na noite das quizumbas.
E a minha boca de lábios túmidos
cheios da bela virilidade ímpia de negro
mordendo a nudez lúbrica de um pão
ao som da orgia dos insectos urbanos
apodrecendo na manhã nova
cantando a cega-rega inútil das cigarras obesas.

Oh! E meus belos dentes brancos de marfim espoliado
puros brilhando na minha negra reencarnada face altiva
e no ventre maternal dos campos da nossa indisfrutada colheita de milho
o cálido encantamento selvagem da minha pele tropical.

Ah! E meu
corpo flexível como o relâmpago fatal da flecha de caça
e meus ombros lisos de negro da Guiné
e meus músculos tensos e brunidos ao sol das colheitas e da carga
e na capulana austral de um céu intangível
os búzios de gente soprando os velhos sons cabalísticos de África.

Ah!
o fogo
a lua
o suor amadurecendo os milhos
a grande irmã água dos nossos rios moçambicanos
e a púrpura do nascente no gume azul dos seios das montanhas.

Ah! Mãe África no meu rosto escuro de diamante
de belas e largas narinas másculas
frementes haurindo o odor florestal
e as tatuadas bailarinas macondes
nuas
na bárbara maravilha eurítmica
das sensuais ancas puras e no bater uníssono dos mil pés descalços.

Oh! E meu peito da tonalidade mais bela do breu
e no embondeiro da nossa inaudita esperança gravado
o tótem mais invencível tótem do Mundo
e minha voz estentórea de homem do Tanganhica,
do Congo, Angola, Moçambique e Senegal.

Ah! Outra vez eu chefe zulo
eu azagaia banto
eu lançador de malefícios contra as insaciáveis
pragas de gafanhotos invasores.
Eu tambor
Eu suruma
Eu negro suaíli
Eu Tchaca
Eu Mahazul e Dingana
Eu Zichacha na confidência dos ossinhos mágicos do tintlholo
Eu insubordinada árvore de Munhuana
Eu tocador de presságios nas teclas das timbilas chopes
Eu caçador de leopardos traiçoeiros
E xiguilo no batuque.
E nas fronteiras de água do Rovuma ao Incomáti
Eu-cidadão dos espíritos das luas
carregadas de anátemas de Moçambique
 Em «Hino à minha terra», encontramos um bom exemplo da exacerbação da referencialidade toponímica (cerca de 60 topónimos), demarcando a territorialidade da terra moçambicana: simbolização do país (do pré-país); louvor da cultura étnica, do homem natural; Moçambicanidade: «áfrico País». Note-se o surgirpor duas vezes, da palavra «País» maiusculada, na época em que Moçambique era colónia, subvertendo o estatuto administrativologopolítico, do território, criando, assimum espaço imaginário novo. (Laranjeira:1995, p.281)

HINO À MINHA TERRA 
sangue dos nomes
é o sangue dos homens.
Suga-o tu também se és capaz
tu que não nos amas.

Amanhece
sobre
 as cidades do futuro.
E uma saudade cresce no nome das coisase digo Metengobalame e Macomia
e é Metengobalame a cálida palavra

que
 os negros inventaram
não outra coisa Macomia.
 
grito Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!
torno a gritar Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!
outros nomes da minha terraafluem doces e altivos na memória filiale na exacta pronúncia desnudo-lhes a beleza.
Chulamáti! Manhoca! Chinhambanine!
Morrumbala, Namaponda e Namarroi
e o vento a agitar sensualmente as folhas dos canhoeiros

eu
 grito Angoche, Marrupa, Michafutene e Zóbuè
e apanho as sementes do cutlho e a raíz da txumbula
e mergulho as mãos na terra fresca de Zitundo.

Oh
, as belas terras do meu áfrico Paíse os belos animais astutoságeis e fortes dos matos do meu Paíse os belos rios e os belos lagos e os belos peixese as belas aves dos céus do meu paístodos os nomes que eu amo belos na língua rongamacua, suaíli, changana,
xitsua e bitonga
dos negros de Camunguine, Zavala, Meponda, Chissibuca
Zongoene, Ribáuè e Mossuril.
– Quissimajulo! Quissimajulo! – gritamos
nossas bocas autenticadas no hausto da terra.
– Aruángua! – Responde a voz dos ventos na cúpula das micaias.
 
E no luar de cabelos de marfim nas noites de Murrupula
e nas verdes campinas das terras de Sofala a nostalgia sinto
das cidades inconstruídas de Quissico
dos chindjiguiritanas no chilro tropical de Mapulanguene
das árvores de Namacurra, Muxilipo, Massinga
das inexistentes ruas largas de Pindagonga
e das casas de Chinhanguanine, Mugazine e Bala-Bala

nunca
 vistas nem jamais sonhadas ainda.
Oh
! O côncavo seio azul-marinho da baía de Pemba
e as correntes dos rios Nhacuaze, Incomáti, Matola, Púnguè
e o potente espasmo das águas do Limpopo.
Ah! E um cacho das vinhas de espuma do Zambeze coalha ao sole os bagos amadurecem fartos um por um

amuletos
 bantos no esplendor da mais bela vindima
E o balir pungente do chango e da impala
meigo olhar negro do xipene
trote nervoso do egocero assustado
fuga desvairada do inhacoso bravo no Funhalouro
espírito de Mahazul nos poentes da Munhuana
voar das sécuas na Gorongoza
rugir do leão na Zambézia
salto do leopardo em Manjacaze
a xidana-kata nas redes dos pescadores da Inhacamaresia no remanso idílico de Bilene Maciaveneno da mamba no capim das terras do régulo Santaca
música da timbila e do xipendana
ácido sabor da nhantsuma docesumo da mampsincha maduraamarelo quente da mavúngua
gosto da cuácua na bocafeitiço misterioso de Nengué-ua-Suna.
 
Meus nomes puros dos temposde livres troncos de chanfuta umbila e mucarala
livres
 estradas de água
livres
 pomos tumefactos de sémen
livres
 xingombelas de mulheres e criançase xigubos de homens completamente livres
Grito Nhanzilo, Eráti, Macequece
e o eco das micaias responde: Amaramba, Murrupula,
nos nomes virgens eu renovo o seu mosto em Muanacamba
sem medo um negro queima as cinzas e as penas de corvos de agoiro

não
 corvos sim manguavavas
no esconjuro milenário do nosso invencível Xicuembo! 
E o som da xipalapala exprime
os caninos amarelos das quizumbas aindamordendo agudas glandes intumescidas de África

antes
 da circuncisão ébria dos tambores incandescentesda nossa maior Lua Nova.

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https://www.facebook.com/pages/Jos%C3%A9-Craveirinha/112240288789153#
Autobiografia:





«Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato
A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros.
Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.
E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.
Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha eNoémia de Sousa.
Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.
Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.»
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Poesia
http://www.escritas.org/pt/poemas/jose-craveirinha
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José João Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003) é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa.
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