27/03/2015

9.805.(27mar2015.18.2') Tomas Tranströmer

nasceu a 15ab1931
e morreu a 26mar2015
***
Via Público

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/morreu-o-poeta-premio-nobel-tomas-transtromer-1690565
***
Via Citador
Suécia 
Poeta/Tradutor [Nobel 2011] 

http://www.citador.pt/poemas/lisboa-tomas-transtromer
*
Continua a ser lindo ouvir o bater do coração, mas, frequentemente, a sombra parece mais real do que o corpo.
*
Cada pessoa é uma porta meio aberta, que conduz a um espaço para todos.
**
In The Great Enigma: New Collected Poems
Cada imagem abstracta do mundo é tão impossível como tentar ter um esquema de uma tempestade.


**
In The Deleted World
Nós sentimo-nos sempre mais jovens do que realmente somos. Trago dentro de mim próprio os meus rostos anteriores, tal como a árvore contém os seus anéis. A soma deles sou eu. O espelho apenas vê o meu rosto mais recente, enquanto que eu conheço todos os meus rostos anteriores.

*
A meio da vida, a morte chega para tomar as nossas medidas. A visita é esquecida e a vida continua. Mas o fato está a ser costurado às escondidas.
**
IN For the Living and the Dead
Toda a minha experiência na escola foi estranha, com mais trevas do que luz. E assim se tornou a minha imagem da sociedade.
*
Eu estive, contudo, mais interessado em motores a vapor do que em motores eléctricos. Por outras palavras, eu era mais romântico que técnico.

**

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
Subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, peguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei ? 
(Tradução por Luís Costa)
 
*

Funchal

O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, construída por náufragos.

Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim as rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num cubículo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga receita da Atlântida, pequenas explosões de alho.

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansaço. Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, não envelhecemos. Mas já suportámos tantas coisas juntos, lembramo-nos disso, horas em que também de pouco ou nada servíamos ( por exemplo, quando esperávamos na bicha para doar o sangue saudável – ele tinha prescrito uma transfusão). Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se não nos tivéssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado, esquecemos – mas eles não nos esqueceram!

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um mosaico desordenado.

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o mosaico nasce.

Ele espera por nós. Do cimo da parede, ele ilumina o quarto de hotel, um design, violento e doce, talvez um rosto, não nos é possível compreender tudo, mesmo quando tiramos as roupas.

Ao entardecer, saímos. A poderosa pata, azul escura, da meia ilha jaz, expelida sobre o mar. Embrenhamo-nos na multidão, somos empurrados amigavelmente, suaves controlos, todos falam, fervorosos, na língua estranha. “ um homem não é uma ilha.“ Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de nós mesmos. Por meio daquilo que existe em nós e que os outros não conseguem ver. Aquela coisa que só se consegue encontrar a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante que propaga o silêncio.

Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. Um livro que só no escuro se consegue ler. 
(Tradução do sueco para alemão por Hans Grössel) 
Tradução do alemão para português por Luís Costa 
*

Fachadas

I

Ao fim do caminho vejo o poder
Lembra uma cebola
com rostos sobrepostos
que vão caindo uns após outros…

II

Os teatros esvaziam-se. É meia-noite.
Letreiros flamejam nas fachadas.
O mistério das cartas sem resposta
afunda-se por entre a fria cintilação.

Tradução para português por Luís Costa 
*

Novembro

Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias. 
(Tradução do sueco para alemão por Hans Grössel) 
Tradução do alemão para português por Luís Costa 
*

A Neve Cai

Os funerais aproximam-se
cada vez mais densos
como placas da rua
quando nos aproximamos de alguma cidade.

O olhar de mil pessoas
na terra das longas sombras.

Uma ponte constrói-se
lentamente
sempre a direito no espaço.  
Traducão para português por Luís Costa