10/01/2017

4.381.(10jan2017.7.7') Orlando da Costa

Nasceu a 2jul1929 (Lourenço Marques, actual Maputo)
e morreu a 27jan2006 (Lisboa
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pai do António Costa (1.º ministro do governo PS de Portugal, apoiado por td a esquerda)
e do Ricardo Costa (semanário Expresso)
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Wikipédia
Orlando António Fernandes da Costa
escritor comunista
https://pt.wikipedia.org/wiki/Orlando_da_Costa
OBRAS:

  • 1951 - A Estrada e a Voz
  • 1953 - Os Olhos sem Fronteira
  • 1955 - Sete Odes do Canto Comum
  • 1961 - O Signo da Ira
  • 1964 - Podem Chamar-me Eurídice
  • 1971 - Sem Flores nem Coroas
  • 1979 - Canto Civil
  • 1984 - A como estão os cravos hoje?
  • 1994 - Os Netos de Norton
  • 2000 - O Último Olhar de Manú Miranda
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«... Não se pode perder o perfume, nem a frescura, nem a cor vermelha desse cravo que se tornou símbolo de um povo que se fez livre e soube assumir as suas responsabilidades no plenário da democracia. ...»
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2fev2006
Resultado de imagem para Orlando da Costa no Avante
Militante do PCP desde 1954
Morreu o escritor Orlando da Costa
O romancista e poeta Orlando da Costa morreu, sexta-feira, em Lisboa, aos 76 anos de idade. O PCP manifestou o seu pesar pela morte do escritor.
Em comunicado enviada aos órgão de comunicação social, o gabinete de imprensa do PCP refere que Orlando da Costa aderiu ao Partido há mais de 50 anos, tendo sido militante «até ao seu falecimento» e que desenvolvia a sua actividade na área da cultura literária.
O PCP destaca que o romancista foi galardoado em 1961 com o prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, com o Prémio Complementar de Eça de Queiroz de Literatura da Câmara Municipal de Lisboa em 1994 e pelo grupo de teatro Seiva Trupe em 1984 devido à peça «A Como Estão os Cravos Hoje?».
Orlando da Costa iniciou a sua actividade literária pela poesia, tendo passado também pelo teatro, mas foi na prosa que alcançou maior notoriedade.
Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, em 1929, e viveu a infância e adolescência em Goa, donde recolheu inspiração para algumas obras.
Veio para Lisboa em 1947, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras. Publicou o seu primeiro livro, de poesia, em 1951.
Antes e depois do 25 de Abril pertenceu ao Sector Intelectual de Lisboa do PCP.
Foi vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE), instituição que frequentava com muita regularidade e para a qual foi eleito sócio honorário em 1956.

Última despedida

A declaração de um poema de Orlando da Costa, pelo seu neto, Vicente, de sete anos, marcou, no sábado, a última despedida de familiares e amigos do escritor. Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, esteve também na última despedida do escritor.
Na altura, a actriz Fernanda Lapa declamou ainda, na Basílica da Estrela, Lisboa, um poema do militante comunista. Em seguida, o caixão foi coberto com as bandeiras do PCP e da Associação Portuguesa de Escritores e o funeral partiu para o Cemitério do Alto de S.João, onde Orlando da Costa foi cremado.
http://www.avante.pt/pt/1679/nacional/12808/
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http://alvarohfernandes.blogspot.pt/2009/01/orlando-da-costafoi-um-escritor-poeta-e.html
Nascido em Lourenço Marques, 1929, hoje Maputo, no seio de uma família goesa, de brâmanes católicos, Orlando da Costa foi criado em Margão, Índia, de onde partiu muito do perfume e sabor dos seus escritos.
Ficcionista, dramaturgo, poeta, morreu em Lisboa, em 27 de Janeiro de 2006, onde chegou aos 18 anos e se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras.
Na Casa dos Estudantes do Império, nos anos 50, conviveu estreitamente com alguns dos futuros dirigentes da FRELIMO, MPLA e PAIGC.
Era pai de António Costa, actual presidente da câmara de Lisboa, e de Ricardo Costa, jornalista.
Apaziguador no uso da palavra, não alheado da acção cívica, pulsa na sua obra uma consciência social e política lado a lado com um olhar minucioso sobre o coração dos homens nos seus amores e desamores, na alegria, no sonho, no deserto da solidão.
Colega de Maria Barroso, de Augusto Abelaira e de Jacinto Baptista, Orlando da Costa, militante do PCP desde 1954, apoiou a candidatura de Norton de Matos e foi preso três vezes pela Pide (1950-1953).
Da última vez, permaneceu no cárcere em Caxias por cinco meses e uma semana (acusado de militar em defesa da paz). Aí escreverá a sua tese.
Passou pelo ensino particular até ser proibido de ensinar e trabalhou na publicidade.
À data da morte desenvolvia a sua actividade no PCP, na área da Cultura Literária.
Publica A Estrada e a Voz, seu primeiro livro de poesia, em 1951, Os Olhos sem Fronteira em 1953, Sete Odes do Canto Comum em 1955 e Canto Civil em 1979, colectânea que inclui as obras anteriores e O Coração e o Tempo.
Autor de peças de teatro Sem Flores nem Coroas, 1971 (reeditada em 2003 na colecção de teatro da Sociedade Portuguesa de Autores/Publicações Dom Quixote) e A como estão os cravos hoje?, 1984, premiada pela Seiva Trupe, publicou os romances O Signo da Ira, Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, 1961, Podem Chamar-me Eurídice, 1964, Os Netos de Norton, Prémio Complementar «Eça de Queirós» de Literatura 1994, da Câmara Municipal de Lisboa, e em 2000, O Último Olhar de Manú Miranda.
O título, Vocações/Evocações, reúne, numa selecção muito intencional, o conjunto de poemas que constituem o seu modo de celebrar os 30 anos do 25 de Abril.
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«... Não se pode perder o perfume, nem a frescura, nem a cor vermelha desse cravo que se tornou símbolo de um povo que se fez livre e soube assumir as suas responsabilidades no plenário da democracia. ...»
Orlando da Costa
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fev2016
revista sábado
http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/20160218_1313_a_vida_incrivel_do_pai_de_antonio_e_ricardo_costa_ou_babush_e_babulo.html
Foi preso pela PIDE, teve cinco livros proibidos pela censura, inventou anúncios para grandes empresas e adorava noitadas de conversas e copos com os amigos. Orlando da Costa morreu a 26 de Janeiro de 2006, faz agora 11 anos, mas a sua história é tão fascinante que não precisava de uma efeméride, nem de dois filhos influentes para ser contada.
Pouco depois de o actual primeiro-ministro ter nascido, a 17 de Julho de 1961, a sua mãe e o seu padrinho de baptismo, o arquitecto Victor Palla, convocaram os respectivos cônjuges para uma reunião. Eram os quatro sócios numa empresa, mas a agenda deste encontro, em casa do arquitecto, era estritamente pessoal: a mãe e o padrinho tinham chegado à conclusão de que se tinham apaixonado, não sabiam bem o que haviam de fazer a partir dali, mas entendiam que o primeiro passo era partilhar o facto. Foi desta forma que o escritor Orlando da Costa, pai de António Costa, soube que o seu casamento estava em risco. No fim, em conversa apenas com a mulher, mostrou -se magoado: "Esta reunião foi de muito mau gosto." 

Mais de 50 anos depois, a jornalista Maria Antónia Palla, mãe do chefe de Governo, recorda à SÁBADO esta história com algum receio. Não por o filho não apreciar particularmente que ela dê entrevistas, mas por desconhecer a sua reacção: "Ele nunca me perguntou pelo Victor Palla." Embora este episódio não seja referido, o dilema da mulher que sentiu amor por dois homens foi contado na sua biografia, escrita no ano passado pela jornalista Patrícia Reis. Maria Antónia ofereceu um exemplar ao filho, mas ele nunca fez qualquer comentário, ou por falta de tempo para ler ou, o mais provável, por ser tão reservado como era o pai a falar destes assuntos. 

O primeiro-ministro diz à SÁBADO que esse foi uma espécie de tabu do pai: "O meu pai era muito reservado em tudo, até sobre as nossas relações, quanto mais sobre as relações dele com a minha mãe. Foi um assunto que nunca abordou. Não achei que devesse ser eu a abordar."




Os pais de António Costa tinham-se conhecido 10 anos antes, no início da década de 50, ainda Maria Antónia andava no Liceu Francês. Quando o seu grupo de amigas via passar o estudante de Ciências Histórico-Filosóficas Orlando da Costa, atreviam-se: "Ele percebia que lhe achávamos graça. Chamávamos-lhe o Rajá." Tinha as feições indianas que estão estampadas no rosto dos filhos e vestia-se de forma tão elegante que parecia um dandy. "Era um homem encantador", recorda aquela que viria a ser a sua primeira mulher. Ele não se esqueceu dos piropos e, quando a viu no primeiro ano da Faculdade, apesar de já ser finalista, meteu-se com ela. Discutiram horas por causa do filme Milagre em Milão, de Vittorio de Sica. Trocaram o primeiro beijo junto a uma arcada à saída da faculdade, na Rua da Academia das Ciências. E começaram a namorar.

Orlando da Costa morreu a 26 de Janeiro de 2006, faz agora 10 anos, mas a sua história é tão fascinante que não precisava de uma efeméride, nem de dois filhos influentes para ser contada. Ele próprio teve noção disso no fim da vida: organizou todos os seus papéis e fotografias e foi à Torre do Tombo consultar as suas fichas da PIDE (como a SÁBADO fez agora), para entregar todo o espólio ao Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, onde está organizado em 17 caixas.

Nasceu em Moçambique em 1929. A família do pai, da elite de Goa, tinha sido tão rica que apenas um dos seus membros aceitou casar-se – os outros não queriam dividir as propriedades. Quando a mãe sofreu de tuberculose, veio de Goa com o marido para a Suíça, onde ficaram a viver durante um ano. "Tinham imenso dinheiro, mas estavam a gastar os últimos trocos", conta à SÁBADO Ricardo Costa, director do Expresso e filho mais novo do escritor, assegurando que nem ele nem o irmão primeiro-ministro herdaram qualquer resto desta fortuna.





Orlando tinha chegado a Lisboa em 1947 com um violino e uns poemas na mala, escritos depois de ter vencido um concurso de poesia no liceu. Envolveu-se no quotidiano da Casa de Estudantes do Império, onde conheceu alguns dos futuros líderes independentistas africanos, e não demorou até ter os primeiros choques com a PIDE. Esteve preso três dias em Novembro de 1950, por ter participado numa manifestação no monumento aos mortos da Grande Guerra. E em 1952, foi com outros 11 activistas a Albarraque recolher assinaturas para um abaixo-assinado a pedir ao Presidente da República que ninguém fosse perseguido por lutar pela paz. O objectivo parecia ingénuo, mas havia uma evidente intenção de contestar a ditadura. Só que, numa das casas, abordaram um sargento reformado demasiado fiel a Salazar para ficar calado. E este tratou de avisar a PIDE, que enviou sete agentes para prender os jovens junto à estação de comboios.




Sempre em busca de um espelho
Nas duas sequências de fotos de frente e de perfil à entrada da cadeia, Orlando da Costa surge com ar cuidado, na primeira de blazer com lenço e camisa branca, na segunda de fato e gravata. Continuou a ser um vaidoso pela vida fora. O seu amigo António Andrade conta à SÁBADO que, sempre que entravam num restaurante, o escritor fazia questão de ir ao espelho da casa de banho para arranjar a poupa e endireitar a gravata. "Sou comunista mas gosto de me vestir bem", admitia. Os fatos e as camisas eram feitos por encomenda, coisa mais típica de burguês.

Um dos seus editores, Manuel Alberto Valente, fixou, além de "uns olhos faiscantes que deixavam transparecer o brilho interior", essa espécie de porte aristocrático: "Sempre bem arranjado, de bigode retorcido, a fazer lembrar as figuras dos paxás indianos." A mãe de António Costa diz que o actual primeiro-ministro herdou do pai esta pequena vaidade: "Gostar de se vestir bem. Gostar de sapatos. Gostar de ter uma boa vida."

O próprio António, em vez de vaidade, prefere falar do "brio" do pai. Recorda-o sobretudo como "um homem de enorme tolerância e de grande sentido de humor". E recusa apontar características que tenha herdado do progenitor: "Ninguém é bom juiz em causa própria."

"Ó Toninha, ó cara linda…"
A segunda detenção de Orlando da Costa prolongou-se, segundo o juiz, devido ao risco de prejudicar a instrução ou de cometer novas infracções: "A sua conduta, quer no momento da detenção – desobedecendo e resistindo à autoridade – quer durante os interrogatórios leva a tal conclusão." Maria Antónia e Orlando escreviam-se praticamente todos os dias. Ela ia duas vezes por semana à prisão entregar-lhe roupa, livros (para poder acabar a sua tese na cela) e comida (o filho Ricardo conta que o pai adorou toda a vida leite condensado, por ser uma das iguarias favoritas que recebia na cadeia). Quando chegava a Caxias, a jovem ouvia esta cantilena das presas: "Ó Toninha, ó cara linda, não ponhas a cara à Lua, porque a Lua nunca viu, cara linda como a tua." Acha que era um código para avisarem o namorado de que ela estava ali, mas apenas lhe conseguia ver um braço a acenar. E em todo o período da detenção, só foi autorizada a vê-lo no Natal.

Cá fora, tentava pressionar. Escreveu uma carta ao ministro do Interior, onde se identificava já como noiva de Orlando, a expor as dificuldades de carácter económico, físico e em matéria de estudos, que aquela detenção estava a representar para ambos. Também mobilizou 94 estudantes para subscreverem um abaixo-assinado. O próprio Orlando da Costa escreveu ao director da PIDE a queixar -se da injustiça da sua situação, mas obteve uma resposta seca: "Se acha que tem fundamento quanto diz, recorra ao tribunal competente."




Num dos interrogatórios, confirmou que era membro do MUD (Movimento de Unidade Democrática) juvenil, considerado pela PIDE "uma excrescência da associação secreta e subversiva que usa a designação de PCP". Mas recusou responder a outras perguntas, mesmo depois de esbofeteado por um dos agentes.

Só o libertaram ao fim de 157 dias de cárcere. Com medo de novas detenções, Maria Antónia decidiu que deviam casar-se, para poder ao menos visitá-lo na prisão. "Eu disse-lhe que realmente aquela vida assim não podia ser. Era muito penoso gostar-se muito de uma pessoa e não poder estar com ela. Acho que estava muito mais apaixonada por ele do que ele por mim", compara a mãe do actual primeiro-ministro.

Os pais de ambos reagiram mal: os dele porque foi o primeiro casamento misto naquela família cristã, os dela por ainda estar a estudar. Mas ela não ligou. Foram à conservatória, a festa foi um lanche com os pais e depois instalaram-se numa casa na Estrada de Benfica, mobilada com móveis feitos por um marceneiro que Orlando tinha conhecido na prisão.

Clandestinidade? "Ia ser logo identificado"
O escritor só aderiu formalmente ao PCP em 1954. Adoptou o pseudónimo "Soares", segundo o depoimento feito à PIDE por outro militante. O seu controleiro era José Henriques Arandes, ou "Raul". Entre os outros escritores comunistas do grupo encontravam-se Alves Redol, o "Vítor", e José Cardoso Pires, o "Nunes".

O Partido desafiou Orlando da Costa a passar à clandestinidade e ele transmitiu essa proposta à mulher, mas Maria Antónia recusou: "Ele não aguentaria 24 horas sequer, era impossível, ia ser logo identificado, não era parecido com mais ninguém. Eu respondi-lhe: ‘Nem penses, não me casei contigo para essas vidas, não pertenço ao PCP, quero ter uma vida normal. Tu fazes o que quiseres, mas comigo não contas.’ Ir atrás só por ser mulher dele, agora que estava livre dos meus pais? Lá desistiu da ideia."




Mas continuou a afrontar o regime. Apoiou todos os candidatos da oposição ao Estado Novo e rubricou o seu nome nos principais abaixo-assinados contra Salazar. Em 1957, a PIDE pediu ao correio-mor para verificar toda a correspondência enviada ao pai e à mãe de António Costa, também ela já considerada desafecta ao regime.

O pai de António e Ricardo Costa não conseguiu estabelecer-se como professor, porque a PIDE emitiu parecer negativo: "Não dá garantias de cooperar nos fins superiores do Estado." Procurou então trabalho na publicidade – ele chamou-lhe uma vez "poesia por encomenda" – tornando-se um dos primeiros copywriters do País. Porém, antes de ser admitido, teve de passar num pequeno teste: imaginar uma campanha para as sopas Knorr. Transitou depois para a agência Marca, dos irmãos Anahory, onde rapidamente ascendeu a director-geral. Foi dele o slogan da TAP "Através do mundo em boa companhia", como refere Pedro Gentil -Homem, na sua tese de doutoramento em Design.

Também trabalhou entre outras com a Ford, a Volkswagen, a Miele, a Nestlé, as Páginas Amarelas e a Mabor. Escrevia os guiões para os anúncios filmados por exemplo por José Fonseca e Costa. "Era um comunista a trabalhar com os capitalistas", nota o filho Ricardo Costa.

"Chegava num Mini verde, estacionava frente à agência por volta das 10 da manhã e ficava até tarde. Quando precisava de conceber anúncios, fechava a porta do gabinete, como se estivesse a escrever um livro, criava vários slogans e depois ia comentar com o resto da equipa", recorda António Andrade, que entrou na agência como paquete e foi amigo do escritor até ao fim.

Entretanto, o casamento com Maria Antónia sofreu o mais terrível dos golpes: a morte da primeira filha, Isabel, quando tinha 3 anos, num acidente a caminho da escola. Nunca se recompuseram. Ainda avançaram para o segundo filho (António Costa), mas Maria Antónia sentia-se culpada: "Foi uma tragédia na nossa vida. São duas dores que se somam. A gravidez do António foi um tempo doloroso, tinha a sensação de estar a trair a minha filha, como se fosse uma maneira de renunciar a ela."

Enquanto o marido se refugiou no trabalho, Maria Antónia procurou a compreensão de um amigo do casal: "Quem me apoiou nessa fase muito difícil foi o Victor [Palla]. Ajudou -me a transformar a casa, ia comigo comprar coisas e almoçávamos ou jantávamos juntos." O arquitecto Victor Palla, que frequentemente usava papillon, bigode e óculos, era amigo do casal há 10 anos, e companheiro de Orlando da Costa na tertúlia que às quartas-feiras se reunia no café Chiado, onde participavam também Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Vasco Granja e Manuel Villaverde Cabral. "Porque gosto deste convívio? Pela mesma razão que gosto dos outros meus convívios: porque dá a possibilidade da compreensão e às vezes da amizade. E não há a censura!", respondeu Orlando da Costa a um repórter do Diário de Lisboa.




A partir de Junho de 1962, a PIDE ordenou a todos os postos de fronteira que informassem "urgentemente" sempre que Orlando da Costa e Maria Antónia saíssem do País: "Não [lhes] deve ser feita qualquer observação, a fim de não suspeitarem que estão a ser controlados."

Mas nesta altura já o casamento estava perto do fim. Depois daquele encontro a quatro onde ambos revelaram aos respectivos cônjuges o sentimento que os unia, Maria Antónia não sentiu qualquer esforço do marido para se reaproximarem. "Eram dois amores diferentes. Eu gostava imenso do Orlando. Tinha uma relação quase umbilical, profunda, era amiga dele. E não o traí. Apenas comunicámos um sentimento. Durante um ano houve muitas hesitações da minha parte. Eu estava muito apaixonada pelo Victor Palla, mas tinha uma pena enorme do Orlando, não podia causar-lhe mais sofrimento. Ele mostrou -se meu amigo, mas não estava apaixonado por mim."

Houve alguns conflitos depois da separação, segundo Maria Antónia: "Ele castigou-me um bocado, não dando quase nada de pensão, uma espécie de retaliaçãozinha. ‘Foste tu que quiseste separar-te’, dizia ele. E eu: ‘Este dinheiro não chega para nada.’"

No ranking dos livros proibidos
No ano em que nasceu António Costa, o pai publicou o primeiro romance, O Signo da Ira. Todos os exemplares foram apreendidos pela PIDE, tal como tinha acontecido com os três livros de poesia anteriores: A Estrada e a Voz, Os Olhos Sem Fronteira e Sete Odes do Canto Comum. O mesmo viria a suceder a Podem Chamar-me Eurídice. Orlando da Costa é o sétimo autor português com mais livros proibidos pela censura (cinco no total), segundo uma investigação de José Brandão citada pelo Expresso em 2012 – e que surpreendeu o próprio Ricardo Costa.

Em 1962, um ano após a edição e a apreensão, O Signo da Ira foi galardoado com o prémio Ricardo Malheiros, da Academia de Ciências, o que permitiu que o livro voltasse às livrarias, desta vez sem oposição do regime. O autor recebeu ainda 5 contos (€1.815 em valores actuais).

O pequeno António Costa vivia durante a semana com a mãe e aos fins-de-semana ia para casa do pai, com quem jogava à bola ao domingo de manhã em Belém. Quando tinha 7 anos, nasceu o seu irmão Ricardo, filho do segundo casamento do pai, em 1964, com a bióloga marinha Inácia Paiva. Se António era tratado por Babush (rapaz), no dialecto concani, falado em Goa, Ricardo passou a ser Babuló (criança).

Aos 10 anos, Babush deixou de querer dormir em casa do pai. Ia lá para as refeições, mas voltava para dormir na casa da mãe, onde tinha o seu espaço, com televisão no quarto, para fazer as críticas de tv publicadas no Século Ilustrado. Dava notas aos programas, mas, apesar de ser filho de um escritor e de uma jornalista, os seus textos – citados agora no livro António Costa, Os Meios e os Fins do Líder Socialista, de Miguel Marujo e Octávio Lousada Oliveira – foram publicados sem revisão, com erros de português, como "despesso-me", "chatisse" ou "epnótizou".

A mãe diz que ele passou a escrever bem depois do 25 de Abril, para redigir os comunicados e panfletos nas lutas políticas em que se envolveu. Orlando da Costa nunca comentou o assunto com o filho António, explica o próprio chefe de Governo. "O meu pai não era do género de pai que fosse muito elogioso, enfim, pelo menos no que me diz respeito. Era um homem muito exigente. Tínhamos um 14, tinha pena de não termos um 15. Tinha um apurado sentido crítico. Relativamente a essas actividades infantis, nunca apreciou que tivesse qualquer tipo de actividade extra-escolar."




A relação com o irmão nessa fase inicial era marcada pela diferença de sete anos. Não havia assim tantos interesses comuns. Mas António tinha talvez alguns ciúmes do irmão: quando Maria Antónia Palla comentou a hipótese de entregar alguns brinquedos ou roupa que já não usava a Ricardo, o filho rejeitou: "Não!"

Após o 25 de Abril, em Dezembro de 1977, Orlando da Costa pôde finalmente regressar à Índia e levou Babush e Babuló numa viagem a Nova Deli, Bombaim e Goa. Ricardo Costa tinha 9 anos, lembra-se de ter aprendido a jogar críquete com os primos e pouco mais. Já o primeiro-ministro recorda à SÁBADO a importância dessa viagem para o pai: "Foi a primeira vez que fui a Goa. Tudo era uma enorme surpresa, mas uma das coisas que mais me sensibilizou foi ver a forma como o meu pai reencontrava os seus próprios passos de infância e nos queria transmitir exemplos vivos da sua própria memória."

Um trio a discutir política
A política cedo começou a ser uma paixão comum a ligar os dois irmãos e o pai, quando estavam juntos ao fim-de -semana ou nas férias. "Sempre discutimos muito política e falámos os três muito alto, o que às vezes era um horror para as outras pessoas", admite Ricardo.

Se António aderiu logo à Juventude Socialista, o irmão só se envolveu na política quando tinha 17 anos, para participar na campanha de Mário Soares em 1985. O pai, apoiante de Salgado Zenha nessas presidenciais, perguntou-lhe porquê. "Eu expliquei e ele achou que eu expliquei bem. Tendo sido marxista, era heterodoxo no resto. Não tentava converter ninguém e dava-se com todo o tipo de pessoas. Tanto me levava à festa do Avante!, como ao balcão do Gambrinus para comer croquetes, que ele dizia que eram os melhores de mundo", conta o jornalista.

A muralha chinesa entre os irmãos
As carreiras dos dois irmãos na política e no jornalismo levaram-nos ao topo: um dirige um dos órgãos de comunicação mais influentes e é o principal comentador político da SIC; o outro, como chefe do Governo, tem o cargo mais decisivo do poder político. São, desde Novembro, os dois irmãos mais poderosos do País. Quanto mais poder foram tendo nos últimos anos, mais inevitáveis se tornaram os choques.

O primeiro grave terá sido a divulgação pela SIC das escutas a António Costa no processo Casa Pia. "Eu não o avisei antes de a peça ir para o ar. E nunca falámos sobre isso, mesmo depois", afirma o jornalista. O irmão passou a ter a partir daí uma postura mais fechada e desconfiada em relação à comunicação social.

Em 2007, na campanha para as autárquicas, Ricardo Costa anunciou que não ia comentar o tema, faltando mesmo a um Expresso da Meia -Noite sobre a campanha. E em 2012, quando teve acesso a um relatório feito pelo ex-espião Jorge Silva Carvalho sobre si, Ricardo Costa enviou-o ao irmão por também ele ser aí referido. António Costa saiu em defesa do jornalista, exigindo publicamente explicações sobre o assunto.

Na primeira das três vezes em que ponderou avançar para a liderança do PS, logo após a saída de Sócrates em 2011, António telefonou ao irmão, numa terça-feira, pouco depois das 8h da manhã, a dizer que estava a ser muito pressionado para se candidatar. "Ainda não sabia se ia, mas queria saber se isso tinha implicações na minha vida. Eu disse-lhe que não fazia sentido ele estar preocupado com isso", recorda o jornalista. Diz que o irmão não lhe pediu conselhos. "Nem eu daria. Erguemos entre nós uma muralha chinesa, que não está escrita: não falamos de política. Talvez só uma ou outra vez de coisas antigas."

Três anos mais tarde, quando desafiou António José Seguro, António Costa não avisou o irmão: "Candidatou-se de manhã e não me disse. Ele avança, eu estou na redacção e sou surpreendido." Nesse mesmo dia, Ricardo Costa pôs o lugar à disposição, mas Pinto Balsemão, Pedro Norton e Luís Marques disseram-lhe que isso não fazia sentido. O Conselho de Redacção, idem.




À noite, António ligou-lhe para saber se estava bem e ele respondeu que ia continuar à frente do Expresso. No dia seguinte, Ricardo Costa escreveu de impulso e publicou a "carta aberta a um irmão político", com referências ao pai de ambos e às discussões políticas lá em casa, como quando António se virava para o pai e invocava "os seus amigos sectários", numa referência aos comunistas: "Tu nunca foste jornalista e eu nunca fui político. Andámos e andamos em barricadas diferentes. E é assim que tem que ser. Temos a vantagem de saber que nunca teremos de fazer um frente -a -frente, mas temos a desvantagem de saber que o Expresso te vai cair em cima de quando em vez e que tu vais tentar cair em cima do Expresso."

António não resistiu a cair em cima do Expresso um ano mais tarde, enviando um sms a destratar o subdirector João Vieira Pereira, por não ter gostado de uma crónica intitulada "Perigosos desvios do PS à direita", sobre as propostas económicas da equipa socialista. Acusou-o indirectamente de "recorrer ao insulto reles e cobarde", perguntou "Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem nem conhece?" e concluiu: "Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão de que lhe admito julgamentos de carácter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito. António Costa."

O director do Expresso soube do sms do irmão no domingo de manhã. Mais uma vez não falou com António Costa. "Era o mesmo que eu ligar-lhe quando [José] Sócrates se armasse em parvo com o Expresso."

João Vieira Pereira respondeu na semana seguinte, numa crónica com o título "É a liberdade, António Costa". Denunciou o conteúdo do sms e declarou: "Nunca fui atacado ou me senti tão condicionado por alguém com responsabilidades políticas." Ricardo Costa publicou no Twitter que essa resposta tinha sido decidida em equipa. António Costa diz que não volta a falar com João Vieira Pereira, por ter denunciado uma conversa privada. E garante que não se arrepende de ter enviado a mensagem.

Piada na prenda de Natal
O director do Expresso sabe que a qualquer momento pode voltar a haver problemas. "It comes with the brother. O Expresso é um jornal grande, tem uma direcção forte, editores fortes e uma redacção crítica. A cadeia de decisão é muito partilhada. Mas não sei se a situação é sustentável a médio prazo. Pode haver um momento em que considere impossível continuar em funções. Hoje é possível. Amanhã, logo vejo." No ambiente informal da redacção, Ricardo Costa usa o sentido de humor e não poupa o próprio irmão, a quem já se referiu como "o Costa mau".

Não são propriamente os melhores amigos um do outro. Raramente se encontram a dois, resolvem os assuntos urgentes por telefone, não têm grandes interesses comuns além da política, até no futebol são rivais (António torce pelo Benfica, Ricardo pelo Sporting), mas encontram-se regularmente nas festas de família, em aniversários ou no Natal. Na véspera da posse como primeiro-ministro, António ligou ao irmão a perguntar se ele queria assistir, para dar o nome dele e permitir o seu acesso à sala reservada aos familiares no Palácio da Ajuda. Depois à noite houve um jantar de família e o director do Expresso foi lá ter.

No último Natal, passaram a noite de 24 com duas dezenas de familiares em casa da mãe do primeiro-ministro. E no dia 25 jantaram em casa de Ricardo Costa. O chefe de Governo ofereceu ao irmão a trilogia As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes. Ricardo retribuiu com uma prenda em forma de piada – três blocos de apontamentos pautados da loja A Vida Portuguesa, de Catarina Portas: um para tomar notas sobre o Bloco, outro sobre o PCP e outro sobre o PAN (os parceiros da coligação que suporta o Governo).

Dez anos antes, em 2005, o último Natal de Orlando da Costa foi passado com os dois filhos, os netos e a segunda mulher em casa de Maria Antónia Palla. Tinha-lhe sido diagnosticado um tumor no esófago. O médico deu-lhe seis meses de vida e não andou longe. Foi o filho Ricardo que o acompanhou a essa consulta no Hospital dos Capuchos. O escritor quis saber se a causa do tumor era o tabaco, e ficou embaraçado quando soube que era o álcool. Foi Ricardo que o confortou: "A tua vida não teria feito sentido nenhum se não tivesses bebido muito num certo período." Tentou desdramatizar, dizendo-lhe que era praticamente impossível ter vivido a vida que viveu, como escritor e publicitário, sem a parte boémia, sem todas as noites que passou a conversar e a beber nas várias tertúlias em que participava, ou, em casa, quando recebia amigos como David Mourão Ferreira ou José Cardoso Pires e as conversas se arrastavam até ao nascer-do-sol.





Tinha um prazer tremendo em conversar com as pessoas. Quando o amigo António de Andrade o levava à casa na Lapa depois de jantar, ficavam sempre duas horas a conversar dentro do carro: "Ele ficava a contar histórias, às vezes até era chato que eu queria-me vir embora para casa, mas não tinha coragem de dizer nada. Ia levá-lo às 11 da noite, à 1h ou 2h da manhã ainda lá estava à porta porque ele adorava conversar."

Era também em conversas destas que manifestava ao amigo, de forma afectuosa, o orgulho que sentia pelos filhos. Outras vezes relatava pequenos episódios. Sobre uma ou outra discordância política com António, encolhia os ombros: "Ele é chuchas [socialista], o que hei-de fazer?" E sobre o dia em que o filho Ricardo lhe apareceu de carro novo, soltou este comentário, misto de surpresa e choque: "Vê lá tu, apareceu-me de Mercedes."

Votar ou não votar no irmão
Um dia depois de uma conversa de hora e meia num café de Belém sobre o pai e a relação com o irmão, Ricardo Costa enviou à SÁBADO um email sobre questões pendentes. Por exemplo, aceitou ceder sete fotos antigas, mas António apenas aparece numa: "Não posso dar mais do meu irmão, porque penso que isso caberia a ele e dependeria da vontade dele, que não sei qual é." E aproveitou para clarificar uma das suas respostas da véspera, o que é interessante por mostrar que voltou a pensar no assunto e quis evitar qualquer interpretação errada. A pergunta era se, como eleitor, admitia votar contra o irmão.

"Em relação ao meu voto, não sei se a minha ideia ficou clara. Podes usar o que eu disse, embora ache que tenha sido atabalhoado e confuso, ou as linhas seguintes, mais organizadas e claras: ‘Qualquer pessoa que me leia ou ouça na televisão sabe o que penso. Tenho uma formação de esquerda mas sou, na essência, profundamente liberal, quer nos costumes quer na economia. Isso faz com que não tenha um voto fixo nem ideológico. Posso votar no meu irmão ou não. Mas fico sempre contente com o sucesso dele. É meu irmão e duvido que esse sentimento algum dia mude, concorde ou não com o que ele pensa ou faz em cada momento.’"

Na véspera, a resposta à pergunta sobre se seria capaz de votar contra o irmão não foi assim tão diferente, mas logo ao início, de rajada, saiu-lhe isto: "Se não fosse capaz, isso significava que não tinha aprendido nada com o meu pai."