07/03/2017

7.664.(7mar2017.8.8') Sudão

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2mar2017
avante
http://www.avante.pt/pt/2257/internacional/144375/
No Sudão do Sul, Somália, Nigéria e Iémen
Fome ameaça 27 milhões

Mais de 20 milhões de pessoas em regiões de países da África e Ásia estão sob a ameaça iminente da fome. Esta situação resulta da «terrível combinação» de guerras e catástrofes naturais.

O secretário-geral das Nações Unidas lançou um apelo urgente para obter recursos financeiros para responder à ameaça de fome que enfrentam mais de 20 milhões de seres humanos, metade dos quais no Iémen (sete milhões) e na Somália (três milhões). Outros países atingidos por «altos níveis de insegurança alimentar» são o Sudão do Sul e a Nigéria.

Para António Guterres, esta situação resulta da terrível combinação de conflitos armados com o agravamento de fenómenos naturais como a seca e a desertificação devido às mudanças climáticas.

A ONU precisa de 5,6 mil milhões de dólares para as operações humanitárias nos quatro países só em 2017 e 4,4 mil milhões desse valor até ao fim de Março «para evitar uma catástrofe». As quatro crises são diferentes, mas têm um denominador comum: todas podiam ser evitadas e foram originadas por conflitos armados.

Segundo o director-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o brasileiro José Graziano da Silva, «cada minuto de atraso no envio de socorro imediato tem consequências fatais».

Os dados são assustadores: «Uns 27 milhões de pessoas em quatro países – Iémen (14 milhões), Sudão do Sul (cinco milhões), Nigéria (cinco milhões) e Somália (três milhões) – sofrem actualmente de grave insegurança alimentar, o que significa que já estão desnutridos e, em muitos casos, não têm outra opção senão vender os activos produtivos de que dispõem para sobreviver».

Nunca antes, nos últimos 20 anos, houve tanta gente à beira de um desastre de tal magnitude, considera José Graziano, para quem é evidente que a catástrofe é causada pelo homem, até porque nos quatro países há conflitos armados.

O Iémen enfrenta a maior crise humanitária mundial, com dois terços da população em situação de insegurança alimentar, em fase de crise ou emergência.

No Noroeste da Nigéria, é provável que haja já fome em enclaves de difícil acesso no estado de Borno, onde mais de um milhão de pessoas fugiram das suas casas, devido às acções terroristas do Boko Haram e à resposta militar do exército governamental. As dificuldades podem já ter atingido também populações dos vizinhos Níger, Chade e Camarões.

Na Somália, o preço da água disparou para quase um dólar o litro, tornando-a inacessível para os pastores que dependem do gado para alimentar-se.

No Sudão do Sul, onde uma guerra civil obrigou a deslocalização de milhões de pessoas, os preços dos alimentos básicos quadriplicaram no último ano.
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14ab2016
http://www.avante.pt/pt/2211/internacional/139956/
Guerras e petróleo
em terras do Sudão
Está a avançar o processo visando pôr termo à guerra civil que devasta o Sudão do Sul há quase dois anos e meio.
O líder dos rebeldes, Riek Machar, anunciou que voltará no próximo dia 18 a Juba, a capital, para formar um governo de união nacional com o presidente Salva Kiir.
O regresso do chefe da rebelião, que tem vivido no exílio entre Nairobi e Adis Abeba, inscreve-se no acordo de paz assinado em Agosto de 2015, ao abrigo do qual Machar foi (re)nomeado, em Fevereiro deste ano, vice-presidente do Sudão do Sul, cargo que ocupava já, ao lado de Kiir, antes do começo da guerra.
O processo prevê a aplicação de um cessar-fogo e a partilha do poder, entre Kiir e Machar, por um período transitório de 30 meses, findo o qual se realizarão eleições. Na semana passada, a missão da ONU no Sudão do Sul (Unmiss) anunciou que tinham já chegado a Juba mais de 800 soldados e polícias da facção rebelde, de um total de 1370 previstos.
A Unmiss, essa, com um orçamento anual de mais de mil milhões de dólares, dispõe de um dispositivo militar e policial de 12 mil e 500 efectivos, além de dois mil e 500 funcionários civis. No país, vivem em campos da ONU cerca de 100 mil refugiados.   
A implementação do acordo de paz, alcançado sob pressão dos Estados Unidos e seus aliados Leste-africanos – Etiópia, Quénia, Uganda –, está a ser acompanhada por uma comissão encabeçada por Festus Mogae, antigo presidente do Botswana.
A guerra, iniciada em Dezembro de 2013, causou pelo menos 50 mil mortos e quase dois milhões e meio de deslocados e refugiados, meio milhão dos quais em países vizinhos. As duas partes foram acusadas por organizações internacionais de terem cometido ao longo do conflito armado as maiores atrocidades, incluindo crimes de guerra e crimes contra a Humanidade.
Um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos do Homem, divulgado em Março, refere-se a crianças utilizadas como soldados pelos beligerantes dos dois lados e fala de massacres, de civis queimados vivos, de violências sexuais em larga escala. «Trata-se de uma das mais horríveis situações deste género em todo o mundo, com a utilização maciça da violação como instrumento de terror e como arma de guerra», resumiu o alto-comissário, o jordano Zeid Ra’ad Al Hussein.
O mais jovem Estado africano, o Sudão do Sul proclamou a independência em 2011, depois de décadas de conflito com o Sudão, do qual acabou por separar-se. Dois anos e meio depois, mergulhou numa sangrenta guerra civil, motivada por divergências políticas entre os seus principais dirigentes, que acabaram por incrementar rivalidades étnicas entre os maioritários dinkas de Salva Kiir e os nuers do seu vice-presidente.
Encravado entre Sudão, Etiópia, Quénia, Uganda, República Democrática do Congo e República Centro-Africana, o Sudão do Sul, com uma população de 12 milhões de habitantes, de maioria cristã, é um país com enormes potencialidades económicas. Atravessado pelo Nilo, possui, além de potencial agrícola, petróleo e recursos minerais (urânio, bauxite, cobre, diamantes, ouro).
O petróleo, explorado por companhias estrangeiras, incluindo norte-americanas e chinesas, é a maior fonte de riqueza não só do governo de Djuba, apadrinhado pelos Estados Unidos, mas também do regime de Cartum, cujo principal parceiro económico é a China. O petróleo explorado no Sudão do Sul é transportado por oleodutos que atravessam o território do Sudão até Mar Vermelho, por cujos portos é exportado, sendo as receitas cobradas por essa passagem essenciais à economia sudanesa. Avaliada em 350 mil barris por dia antes do início da guerra civil, a produção petrolífera no Sudão do Sul caiu quase 40 por cento com o conflito. 

Referendo no Darfur

No vizinho Darfur, no Oeste do Sudão, decorreu esta semana um referendo sobre o seu estatuto administrativo, não se conhecendo ainda os resultados. Os eleitores deviam decidir se pretendem manter a estrutura actual do Darfur, dividido em cinco estados, ou se preferem a criação de uma só região.
A primeira opção é apoiada pelo regime de Cartum, do presidente Omar el-Béchir, com quem as potências ocidentais não simpatizam. Desde 2009 o Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, tenta capturar e julgar o dirigente sudanês, que enfrenta acusações de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio – alegadamente cometidos pelas tropas governamentais no Darfur.
Segundo estimativas das Nações Unidas, na região, rica em petróleo, urânio e cobre, o conflito que opõe desde 2003 grupos armados ao poder central terá provocado um total de 300 mil mortos e dois milhões e meio de deslocados.
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13nov2014
http://www.avante.pt/pt/2137/internacional/132990/
PCS apela à solidariedade
Repressão no Sudão
O Partido Comunista do Sudão (PCS) apela à solidariedade internacional para pressionar o regime sudanês a pôr fim à repressão no país e libertar todos os presos políticos.
Ali Suliman, Adil Mohmoud, Ibrahim Musa, Adil Ahmed Fadl e Fátima Al-Daw
são alguns dos sudaneses presos no dia 2 de Novembro durante a nova vaga repressiva desencadeada pelas autoridades do país contra os comunistas na província do Nilo Azul.
Num comunicado divulgado um dia depois, apelando à solidariedade nacional e internacional, o Secretariado do Comité Central do Partido Comunista do Sudão informa que a vaga de prisões ocorreu na sequência da ampla distribuição da declaração do partido a propósito do 50.º aniversário da revolução sudanesa de 21 de Outubro de 1964.
O comunicado do PCS refere que a vaga repressiva ocorre em simultâneo com os ataques militares contra as populações de Kordufan do Sul e outras zonas de guerra. «Ao contrário do que pretendem, estas acções repressivas não vão intimidar nem impedir os comunistas de assumirem as suas responsabilidades patrióticas. Os membros do nosso Partido continuarão a luta ao lado do povo, totalmente determinados e contando com o apoio e protecção das massas populares», afirma-se no documento.
O comunicado acusa ainda as autoridades sudanesas de estarem de cabeça perdida e de recorrerem a políticas opressivas na vã tentativa de silenciar a oposição e prolongar a  existência do regime. «É claro que os seus dias estão contados e deve ser derrubado», sublinha.
O apelo do PCS ao povo sudanês, à comunicação social e aos partidos comunistas e operários de todo o mundo, para que se juntem na exigência de pôr fim à repressão no Sudão e de libertação imediata de todos os presos políticos, tornou-se ainda mais premente com a informação de que Suliman Ali, secretário político do PCS no Nilo Azul, corre risco de vida.

Violência crescente

Em comunicado datado de dia 7, o PCS dá conta de que as condições de saúde de Suliman – recentemente submetido a uma operação delicada ao coração – se têm vindo a deteriorar por falta da adequada assistência médica e medicamentosa e devido às condições desumanas em que se encontra na prisão de Damazeen.
Suliman Ali e os restantes comunistas presos no início do mês, são acusados de tentarem derrubar o regime, violar a Constituição, promover a guerra contra o Estado e de distribuir informações falsas.
Recorda-se que a revolução de 21 de Outubro de 1964, entre outros aspectos, pôs fim ao regime militar do ditador Abbud, restabeleceu um governo constitucional, instaurou a liberdade de imprensa e de expressão, acabou com todas as leis que restringiam a liberdade e a instituiu a independência do poder judicial e da universidade.
Actualmente, o poder está nas mãos do presidente Omar Hasan Ahmad al-Bashir, que é também chefe do governo. À frente do país desde o golpe militar de 30 de Junho de 1989, Omar al-Bashir enfrenta há cinco anos um mandato de prisão emitido Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, designadamente no Darfur. Isso não o impediu de se candidatar às eleições de 2010, as primeiras em que puderam participar diversos partidos políticos desde o golpe militar, e ser declarado vencedor com 68 por cento dos votos. A situação no país continua marcada pela violência nas regiões do Sul, incluindo o Sul de Kordofan e o Nilo Azul, deslocamento forçado de milhões de pessoas, centenas de milhares de mortos, escassez de alimentos, pobreza generalizada.
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21jul2011
http://www.avante.pt/pt/1964/europa/115492/
Sudão do Sul

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A comunicação social nacional e internacional fez assinalável eco da proclamação da independência do Sudão do Sul, região onde se produzia 80 por cento do petróleo do Sudão. O nascimento deste país a 9 de Julho foi acompanhado por expressões de apoio entusiástico por parte das principais potências imperialistas. A UE «congratulou calorosamente o povo do Sudão do Sul pela sua independência». Barack Obama, após reconhecer o país, afirmou em tom profético: «O dia de hoje recorda que depois da obscuridade da guerra é possível a luz de uma nova manhã». França, Alemanha e Grã-Bretanha alinharam pelo mesmo registo.
Em Janeiro deste ano realizou-se um referendo no Sul para determinar se os quase nove milhões de habitantes dessa região, 25 por cento da população sudanesa, queriam ou não a independência. Optaram pela independência 98,83 por cento dos votantes. A realização do referendo fazia parte do Acordo de Paz assinado em 2005, após uma guerra civil de mais de 20 anos, que incluía ainda compromissos como a formação imediata de um governo autónomo no Sul, a repartição em partes iguais das receitas do petróleo e a definição da linha de fronteira. A História mais recente do Sudão é comum à maioria dos países africanos explorados pelas potências coloniais. Foi um protectorado britânico-egípcio entre 1898 e1955, período durante o qual foram criadas e exploradas diferenças nacionais e religiosas, fomentados desequilíbrios territoriais e desigualdades que estiveram geraram na população do Sul o «sentimento» ser colónia do Norte. Em 1971, o presidente sudanês, Gaafar Nimeiry, impôs a lei islâmica, após uma tomada do poder sangrenta, prendendo e matando membros do influente Partido Comunista do Sudão.

Um processo contraditório

A divisão do Sudão, país árabe-muçulmano (Norte) e africano-cristão (Sul), resulta de diferenças internas aproveitadas e exacerbadas pelo imperialismo e pelos seus aliados. Parte activa na assinatura do Acordo de Paz em 2005, EUA e UE promoveram a realização do referendo e a independência do Sudão do Sul como opção única, incentivando a quebra da unidade do país.
Israel, acentuando a sua acção desestabilizadora na região, teve neste processo um papel destacado, contribuindo para a criação de um perigoso precedente para outros estados africanos e árabes, com desenvolvimentos imprevisíveis. Avi Dichter, antigo ministro da Segurança Interna de Israel, produziu a propósito as seguintes declarações: «Tivemos que enfraquecer o Sudão e privá-lo da possibilidade de construir um estado forte e unido. Isto é necessário para reforçar e fortalecer a segurança de Israel.»
O Sudão do Sul surge como um dos países mais pobres do mundo: 90 por cento da população vivem com menos de um dólar diário, 85 por cento são analfabetos, 80 por cento não têm água potável, 33 por cento sofrem de fome crónica, menos de um por cento das crianças concluem o ensino primário, uma em cada dez crianças morre antes de cumprir um ano de vida. A guerra destruiu a reduzida infra-estrutura e os quase inexistentes serviços básicos do país.
Os desafios são imensos. Em disputa está uma pequena parte dos 6700 milhões de barris de petróleo que se calcula serem as reservas do Sul. O acordo sobre a repartição das receitas do petróleo entre Norte e Sul não está ratificado. O país tem grandes potencialidades. Tem vários minérios importantes (ouro, prata, zinco e cromo). O Sul tem recursos hídricos importantes (é atravessado pelo rio Nilo), que contrastam com o Norte desértico, tem florestas tropicais e uma variedade de fauna ao nível de países como o Quénia e Tanzânia.
O futuro do Sul e Norte já começou. A confrontação entre os interesses nacionais e o imperialismo também. No Sudão do Sul, como em muitos outros países do Terceiro Mundo, assiste-se a uma corrida às terras férteis. Segundo dados do Banco Mundial, apenas em 2009 – depois da crise dos preços dos produtos alimentares de 2008 –, 56 milhões de hectares de terras férteis foram adquiridas em África (aproximadamente o tamanho da França) por investidores privados e empresas, fundos de pensões e outros fundos especulativos, nomeadamente da UE e dos EUA, que vêem na aquisição de terras um investimento com perspectivas de lucros fabulosos. Segundo um centro de investigação americano (Oakland Institute), nove por cento da área total do Sul do Sudão poderá ter sido entregue através de vários esquemas de investimento.
A soberania sobre os seus recursos e a sua capacidade de produzir alimentos para o seu povo estão ameaçadas. Assim se compreende o regozijo da UE, EUA e aliados.
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6mar2017

O retalhar do Sudão - conflitos e crises humanitárias

O papel dos EUA tem sido dividir o Sudão em partes para melhor explorar as riquezas, inviabilizar um estado forte e dominar estrategicamente a região.
http://www.abrilabril.pt/o-retalhar-do-sudao-conflitos-e-crises-humanitarias
A ONU, na sexta-feira, e o Papa Francisco, no sábado passado, alertaram a comunidade internacional para o previsível agravamento a curto prazo da crise humanitária no Sudão do Sul. O Papa prepara mesmo uma sua deslocação ao território do país, com capital em Djuba.
A visita do Francisco àquele país fez-se a convite de várias igrejas cristãs locais que estão a prepará-la neste momento e em conjunto. A população é maioritariamente cristã (católicos, anglicanos e presbiterianos), com uma minoria muçulmana. Grande parte da história do Sudão (Norte e Sul) tem sido marcada por conflitos étnicos, mas não residem nas duas grandes religiões as causas desses conflitos.
Além de dois conflitos internos em andamento (um na região sul e outro na região de Darfur) e duas guerras civis, entre 1955 e 1972, e entre 1983 e 2005, há inúmeros casos de limpeza étnica e escravidão nos dois países. O papel dos EUA tem sido dividir o Sudão em partes para melhor explorar as riquezas, inviabilizar um estado forte e dominar estrategicamente a região.
Depois de um referendo, em 9 de Julho de 2011, a República do Sudão do Sul, com capital em Juba, declarou a sua independência.
No Sudão do Sul, cerca de um milhão de habitantes, dos 12 milhões existentes à data do referendo, fugiram em Julho do ano passado durante a guerra entre as forças do presidente Salva Kiir e as do ex-vice-presidente Riek Machar, continuando ainda hoje a sangria iniciada em 2013, com uma emigração interna de mais de um milhão de pessoas e a emigração de um milhão de habitantes para seis países vizinhos. Ambas carecem de meios de apoio e a aproximação da época das chuvas dificultará a ajuda alimentar, médica e de abrigo, que, já por si é escassa.
Nas zonas mais afectadas, cerca de 100 mil pessoas estão em risco de morrer de fome, alertaram já várias agências especializadas da ONU, que se mostram preocupadas com a «deterioração das condições económicas, a falta de acesso a água potável, saneamento e higiene, serviços de saúde e educação», em especial para os mais jovens.
A jornalista Margarida Serra conversou 1 com Charlie Yaexley, do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, que lhe afirmou:
«Neste momento são precisos quase 600 milhões de euros para que todas as agências humanitárias possam ajudar as populações. É esse o valor do apelo feito esta semana por diversas organizações, entre elas o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados».
As negociações entre os dois grupos em conflito, realizadas em 2015, não tiveram resultados. Em Agosto do ano passado foi alcançado novo acordo de paz que incluía um cessar-fogo e a constituição de um governo de transição até à realização de eleições, que, entretanto, espera implementação.
No ano passado, um incidente abalou a estabilidade regional e mostrou que o conflito do Sul do Sudão estava derramando-se cada vez mais sobre a fronteira da Etiópia, e não apenas em termos humanitários, mas também militantes.
A maioria dos refugiados sul-sudaneses na Etiópia são Nuer, estão concentrados na Gambella, e isso desestabilizou o equilíbrio étnico existente, já tenso nesta parte da Etiópia. Sob tal pressão, não é de admirar que tudo o que foi necessário foi um pequeno acidente que vitimou uma jovem nuer na Gambella para colocar a região na borda da guerra civil. Os rebeldes sul-sudaneses invadiram Gambella, mataram mais de 200 pessoas e sequestraram cerca de 100 crianças, levando os militares etíopes a realizarem uma operação transfronteiriça na tentativa de as libertar.
O momento dos ataques parece ter coincidido com o regresso do vice-presidente sul-sudanês Riek Machar à capital, Juba, para implementar o processo de paz acordado em Agosto. Machar, um Nuer, estava em Gambella nesse momento e a regressar ao seu país de origem, depois das conversações em Addis Abeba, e os motins de refugiados poderiam ter sido cronometrados para sabotar o seu regresso in extremis.
A guerra civil do Sul do Sudão do Sul tem servido para desencadear uma invasão de refugiados na Etiópia, que é um estado muito diversificado do ponto de vista étnico e demograficamente frágil. Em certo sentido, a desestabilização pós-independência do Sul do Sudão pode também ser vista com o objectivo de colocar uma pressão de longo prazo sobre a Etiópia através do plantio de centenas de milhares de «bombas de tempo» de conflitos de identidade, o que parece estar a acontecer com os nueres.
«Os EUA e a UE apoiaram os rebeldes e acusaram o governo de Cartum de genocídio.»
E tudo isto porque a Etiópia está a ter um papel fundamental na rede global One Belt One Road, da China, particularmente através do caminho-de-ferro Djibuti-Etiópia, construído pelos chineses, e do Corredor LAPSSET, com o financiamento pela China do porto, em Adis Abeba. Em conjunto, estas duas vias de acesso permitirão à Etiópia libertar todo o seu potencial económico e ela poderá tornar-se um dos aliados multipolares mais próximos da China.
O país tem enormes potencialidades económicas. Atravessado pelo Nilo, possui, além de potencial agrícola, petróleo e recursos minerais (urânio, bauxite, cobre, diamantes, ouro).
O petróleo, explorado por companhias estrangeiras, incluindo norte-americanas e chinesas, é a maior fonte de riqueza não só do governo de Djuba, apadrinhado pelos Estados Unidos, mas também do regime de Cartum (Sudão, do norte), cujo principal parceiro económico é a China. O petróleo explorado no Sudão do Sul é transportado por oleodutos que atravessam o território do Sudão até ao Mar Vermelho, por cujos portos é exportado, sendo as receitas cobradas por essa passagem essenciais à economia sudanesa, como compensação da perda dos poços.
No seu vizinho do Norte, o Sudão, com Cartum como capital, a situação não é tão grave mas houve em 2014, num regime autocrático, e novas perseguições aos comunistas – em cuja exigência internacional de libertação o PCP participou – e crimes que levaram a que o Tribunal Penal Internacional estivesse a tentar levar o dirigente Omar el-Béchir a ser julgado por crimes de guerra, genocídio e crimes contra a Humanidade.
A moderna República do Sudão foi formada em 1956 e herdou as suas fronteiras do Sudão Anglo-Egípcio, fundado em 1899. A República Democrática do Sudão foi estabelecida entre 1969 e 1985. Em 25 de Maio de 1969, vários jovens oficiais, o Movimento dos Oficiais Livres, tomaram o poder no Sudão e deram início à chamada era Nimeiry na história do Sudão.
Esta intervenção foi apoiada pelo Partido Comunista Sudanês, pelas diferentes organizações nacionalistas árabes e grupos religiosos, uma vez que os políticos que assumiram o poder em 1956 tinham paralisado o processo de tomada de decisões e não tinham iniciado o imperioso caminho para a resolução dos problemas económicos e regionais do país, para além de terem deixado o Sudão sem uma constituição permanente.
Iniciou-se então uma fase de criação de um regime democrático, virado para atingir um «socialismo sudanês», em que os comunistas participaram no governo e se iniciou um programa de nacionalizações dos sectores básicos da economia.
Mas no ano de 1970, as relações de Nimeiry com os comunistas agravaram-se e estes foram afastados do governo, tendo-se, no Verão de 1971, iniciado uma série de golpes e contragolpes, seguidos da repressão aos comunistas, procurando a sua eliminação física.
A partir de 1972, a União Socialista Sudanesa tornou-se o único partido político legal, e Jaafar Nimeiry o presidente que iniciou o processo de islamização do país que culminou com a declaração do país como república islâmica e a introdução da sharia como base do sistema legal sudanês.
A situação de segurança no Sul, entretanto, havia-se deteriorado de tal maneira que no final de 1983 se iniciou uma nova guerra civil. No início de 1985, o descontentamento contra o governo originou uma greve geral em Cartum. Os manifestantes protestavam contra o aumento dos custos dos alimentos, da gasolina, e dos transportes. A greve geral paralisou o país. Nimeiry, que estava em visita aos Estados Unidos, foi incapaz de impedir as manifestações e um golpe militar afastou-o. O general Omar el-Béshir tem sido o presidente da república desde então.
O governo de Béshir enfrentou, no Sul, o Movimento para a Libertação do Povo do Sudão (MLPS), comandada pelo coronel John Garang. Em Maio de 1998, o direito à autodeterminação dos povos do sul sudanês foi reconhecido, mas não surtiu efeito. O problema essencial não foi a independência, que as organizações do sul não reivindicavam formalmente, mas a decisão de aplicar a Lei da Sharia ao conjunto da população.
«Na Guerra do Golfo, em 1990, a decisão de apoiar o Iraque contra o Kuwait colocou o país na lista negra dos EUA e de alguns governos árabes a abater (...)»
Na Guerra do Golfo, em 1990, a decisão de apoiar o Iraque contra o Kuwait colocou o país na lista negra dos EUA e de alguns governos árabes a abater, como revelou o general norte-americano na reserva, Wesley Clark, em entrevista em 20072.
Por outro lado, em 2005 o governo sudanês e os rebeldes assinaram um acordo de paz, pondo fim ao conflito travado desde 1983. O general Salva Kiir tornou-se primeiro vice-presidente da República e foi criado um governo de unidade nacional.
Em 1996, o general al-Béchir foi confirmado na chefia do Estado por eleição (reeleito em 2000). Desde 2003, na região do Sudão conhecida por Darfur, onde se desenrola um conflito que opôs movimentos de insurreição e milícias locais, apoiadas pelo Exército, provocando uma catástrofe humanitária.
Os EUA e a UE apoiaram os rebeldes e acusaram o governo de Cartum de genocídio. É de registar que o Darfur tem o terceiro maior depósito de cobre e o quarto maior depósito de urânio de todo o mundo, para além de importantes recursos em petróleo…
Há vários anos, os EUA têm em curso sanções contra o Sudão que agravam as condições de vida da população e estrangulam a economia, o que constitui um obstáculo crítico para o avanço do Sudão no caminho do progresso.
Omar el-Béchir ripostou, em 2014, afirmando a necessidade de se iniciar uma transformação do país depois de ter sofrido as dificuldades económicas e políticas resultantes da separação do Sudão do Sul, e convocou um Diálogo Nacional, iniciado em 2014, para trabalhar os conceitos de cidadania e identidade e examinar as preocupações fundamentais da população como a paz, a necessidade de desenvolver a economia, a liberdade de expressão e de imprensa.
Em 10 de Outubro do ano passado, o Sudão celebrou a conclusão do histórico Diálogo Nacional destinado a dar à luz um novo Sudão e uma nova constituição. Os chefes de Estado do Egipto, Uganda, Tchade e Mauritânia juntaram-se ao presidente do Sudão, apoiando o acordo, juntamente com representantes da Rússia, China, Etiópia e Organização de Cooperação Islâmica.
O investigador de política e economia africana Lawrence Freeman foi da opinião «ser muito relevante ter sido nesse Diálogo consagrado um programa de investimento de infraestruturas de energia eléctrica, ferrovias, gestão da água, estradas e, finalmente, o cultivar a enorme quantidade de terra fértil do Sudão que nunca foi totalmente explorada. Segundo este investigador, uma tal abordagem de desenvolvimento, apoiada em infraestruturas, não só aumentará a produtividade da economia em benefício de todos os cidadãos, como proporcionará um emprego produtivo significativo que dará aos jovens a esperança para o futuro»3.
O Porto Sudão, uma cidade e principal porto marítimo do Sudão, na margem do Mar Vermelho, está situado a 675 quilômetros da capital do país, Cartum. Os principais produtos agrícolas são o algodão, sisal e sorgo, produzidos no vale do Nilo, que chegam ao porto por meio do caminho-de-ferro. O porto conta com um terminal petrolífero e tem o maior terminal de contentores do país.
A atual participação do Sudão na Rota da Seda Marítima da China4 oferece uma vantagem para o crescimento económico. O presidente Xi Jinping anunciou a intenção da China em eliminar a pobreza na África, incluindo o Sudão, e tem considerado que para erradicar as causas das guerras não há outra via além do desenvolvimento.