08/03/2017

3.520.(8mar2017.8.8') Ana Margarida de Carvalho

Nasceu a 19ab
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página dela no face
https://www.facebook.com/anamargarida.decarvalho
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“Só sabemos dos outros o que compreendemos de nós próprios”


http://escritores.online/escritor/ana-margarida-de-carvalho/

Biografia:

Ana Margarida de Carvalho nasceu em Lisboa, onde se licenciou em Direito e viria a tornar jornalista, assinando reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa de Imprensa.
Passou pela redação da SIC e publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claire e na Visão, onde ocupou o cargo de Grande Repórter e fez crítica cinematográfica no roteiro e no site de cinema oficial da revista, o Final Cut.
Lecionou workshops de Escrita Criativa, foi jurada em vários concursos oficiais e festivais cinematográficos e é autora de reportagens reunidas em coletâneas, de crónicas, de guiões subsidiados pelo ICA e de uma peça de teatro.
O seu primeiro romance Que Importa a Fúria do Mar venceu por unanimidade o Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB em 2013 e foi finalista de muitos dos principais prémios literários referentes à data de publicação.
Em parceria com Sérgio Marques, lançou, em 2015, o livro infantojuvenil A Arca do É.
Em 2016 publica Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, considerado livro do ano pelo Público e nomeado a melhor livro do ano pela SPA.
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Ana, quando é que surgiu a sua “necessidade” de escrever?  
Eu nunca lhe chamaria uma «necessidade». Associo escrever por necessidade à escrita jornalística, por causa da funcionalidade informativa que ela contém. E pelo facto de ter feito, durante 25 anos, do jornalismo a minha profissão. Já antes, durante o curso de Direito, escrevia «por necessidade». Quando comecei a escrever ficção – comecei pelos guiões de cinema -, o que me impelia sempre era a vontade de contar uma história. E também obrigar-me a perceber as coisas que me inquietavam. É um bocado para isso que a escrita me é «necessária»: o que fica cristalizado pela escrita ajuda-me a pensar, a ordenar um raciocínio e a perceber. Para além de que, para mim, a actividade da escrita é muito inspiradora, no sentido de que a frase anterior inspira a seguinte.
Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?
Para mim, a actividade de escrita é, por si, inspiradora, como disse na resposta anterior. Depois encontro inspiração em tudo, desde as árvores despidas da minha rua, em que sobra apenas uma única folha solitária no alto de uma das hastes (porque é que aquela não caiu com o inverno, com as chuvas e as ventanias? Isto, para mim, é todo um projecto de enredo), até factos históricos e verídicos que eu depois gosto de transformar e moldar e cometer os meus próprios e assumidos anacronismos e inverdades (como se diz agora) – porque o que interessa realmente não são as coisas que aconteceram, mas as que podiam ter acontecido.
Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?
Penso que nos três livros (nos dois romances e no livro infantil) está presente a ideia de confinamento, de encarceramento, e privação da liberdade, e de uma extrema incomunicação, equívocos que dificilmente se desfazem e uma quase impossibilidade de entendermos o outro. Porque só sabemos dos outros o que compreendemos de nós próprios.
Que aspetos destacaria relativamente ao seu mais recente livro; “Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato ”?
Eu destacaria o facto de ser um livro que dificilmente se encaixa em qualquer rotulação. Porque não sendo um romance histórico, não deixa de se passar num período do nosso passado histórico – finais do século XIX, no Brasil, após a abolição da escravatura, quando ela, mesmo clandestina, continuava a existir. Também não é um livro de aventuras, apesar de existir um naufrágio e questões de sobrevivência. Também não é um livro sobre o passado, porque está cheio de presente dentro… Eu gosto de pensar nele como uma praia, que é esse híbrido, nem mar nem terra. Por outro lado, destaco o facto de ser o livro sobre o «fora», mas quase integralmente passado do lado de dentro das personagens, do lado de trás dos seus olhos. E de ser um romance onde não existe, aparentemente, qualquer personagem que cause empatia e factor de identificação ou proximidade com o leitor.
Quais os momentos mais marcantes no seu percurso literário?
Ter ganho o prémio APE 2013 com Que Importa a Fúria do Mar, que já vai nas quatro edições. Ter constando nas short lists dos mais relevantes prémios literários. E o Não se pode Morar… ter sido considerado por críticos literários do Expresso e Público, enquanto o livro do ano 2016.
O que é, para si, um bom livro? 
É um livro que me surpreende, que me interroga, que me faz perguntas difíceis, que me inquieta, que me faz perder a respiração e recuperá-la mais adiante, que me agarra pelo pescoço, em suma, como dizia alguém famoso. E não que, delicadamente, me conduza pelo pulso.
E o que faz de um escritor um bom escritor?
É uma capacidade de olhar, para além do óbvio. Capacidade, se quiser, de destreinar o olhar e reparar.
Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.
Manoel de Barros- poesia completa; Machado de Assis- obra completa; Dom Quixote, Cervantes; A Relíquia, Eça de Queirós; Moby Dick, Melville; Almas Mortas, Gogol e Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago.
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http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=1594
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Foto de Município de Esposende.
https://www.facebook.com/173776416035932/photos/pcb.1335603553186540/1335603386519890/?type=3&theater
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19dez2016
Despedida da Visão
Ana Margarida de Carvalho
http://www.abrilabril.pt/nacional/ana-margarida-de-carvalho-afastada-da-visao
Ana Margarida de Carvalho denuncia o seu despedimento da Visão depois de 24 anos de jornalismo. «Sem uma única palavra de explicação», a jornalista e escritora considerou-se «destratada e desconsiderada e humilhada», para além de ser «coagida a assinar um contrato de rescisão, tudo menos amigável».
Ana Margarida de Carvalho assinou reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa da Imprensa. Publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claie e ocupava o cargo de Grande Repórter na Visão. Também passou pela redacção da SIC. Foi vencedora do Grande Prémio de Romance e Novela APE com o seu romance de estreia, «Que Importa a Fúria do Mar», publicado em 2013, pela Teorema. Este ano publicou pela mesma editora o romance «Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato».
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1maio2015
http://capazes.pt/destaque-secundario/anabela-mota-ribeiro-entrevista-ana-margarida-de-carvalho/
Ana Margarida de Carvalho é jornalista, crítica de cinema, escritora. Venceu o último Grande Prémio APE de Romance com o livro Que importa a Fúria do Mar.
O feminismo é a conversa chata das mulheres?
A culpa das conversas chatas não é dos assuntos mas dos emissores e receptores, como toda a gente sabe. E o que há mais para aí é gente chata a «emitir» e a «recepcionar» opiniões (para falar assim à treinador (mister?) de futebol). Olha, uma conversa chata para mim: sobre futebol. Sobre vernizes de unhas e «gelinho». Sobre taxas de juro. Sobre mercados, estatísticas, depósitos a prazo, impostos e transacções comerciais. Sobre o tempo (meteorologia), à porta de casa ou no elevador… «Cabemos todos, somos todos elegantes, isto hoje está de chuva, pois, parece que sim, de maneiras que é claro…»: um simulacro de conversa chata. É como as famílias de Tolstói: as pessoas normais não têm nada de especial e podem ter conversas chatas e banais.
O feminismo ainda faz sentido no Portugal de 2015?
Faz sim. É por isso que é uma conversa incómoda e lá vem a ideia feita de que é conversa chata. Em Portugal, país em que os próprios amantes e maridos assassinam as mulheres quase a um ritmo de uma por dia… Atrás de um crime passional há uma ideia de pertença, de posse, de propriedade, a ideia de que as mulheres são propriedade do homem, a ideia de que se não ficas comigo também não ficas com mais nenhum… Isto é bárbaro. Assim como é bárbaro o tráfico de mulheres, qualquer forma de prostituição, os bares de alterne… Assim como é bárbara e selvagem a ideia de que as mulheres nem do seu próprio corpo são donas.
Donas do seu corpo?
Falo da questão do aborto que, pelos vistos, ainda não está pacificada. As mulheres são muito penalizadas pelas religiões. Pela católica, no nosso caso. Nos estados islâmicos, em pleno século XXI, vivemos no tempo medieval; raparigas raptadas, mulheres regadas com ácido, apedrejadas, obrigadas a esconder o corpo e o rosto, impedidas de ir à escola, de aprender a andar de bicicleta, subalternizadas e escravizadas. Tão secundarizadas em relação ao homem, tão «gado» que até noutro dia veio um velhinho repelente, de barbas e turbante, dizer que o homem se tiver fome tem direito a comer a mulher. Já não me lembro se totalmente ou apenas alguns membros e órgãos… Sopa de olho com um rim e dedinhos dos pés.
Que definição imediata e sucinta tem para feminismo?
Não me considero nada de especial lá por ter nascido com duplo cromossoma x. Aconteceu-me, é tudo. Acho que o feminismo não deve ser encarado etimologicamente. Para mim, significa igualdade (de géneros) e justiça (tratar de maneira diferente aquilo que é diferente, de maneira igual o que é igual).
Entre as pessoas que participaram na construção da sua identidade, alguém, em especial, a despertou para as questões de género? 

Não. Essas questões nunca foram levantadas na minha família. Eu e os meus primos fomos educados de forma idêntica, todos partilhávamos as mesmas tarefas e andávamos com as mesmas botas. Despertei para as questões de género muito tardiamente. Demorei imenso tempo a perceber que elas ainda faziam sentido no quotidiano, na política, no trabalho, em pequenas coisas da vida. E fiquei parva (no sentido de estupefacta), quando me apercebi de que poderia estar a ser discriminada ou posta de lado (às vezes pelas próprias mulheres) pelo facto de ser mulher… De facto, aquilo que a Simone de Beauvoir dizia – «não se nasce mulher, vamo-nos tornando mulheres» – parece, aos meus olhos de hoje, fazer sentido. Ou seja, digo eu: vão-nos fazendo mulheres. E isso é tramado.
Qual é o preconceito em relação às mulheres que a enfurece mais? 
Há dois. Aquele de usar a expressão eufemística «meninas» para se referirem às prostitutas. E assim, dizer que os clientes vão às meninas parece menos penalizador para eles ou menos grosseiro. Ou grotesco.

E aquele comentário medonho que revela o espanto pelo facto de uma mulher ser bonita e inteligente ao mesmo tempo. Que é um absurdo estúpido e idiota como se a genética estivesse ocupada com uma redistribuição de qualidades equitativa (tira um bocadinho na beleza e acrescenta uns pozinhos nos neurónios). Tão infantil, ao mesmo tempo. Como se isso se passasse ao estilo Disney, uma fada madrinha a atribuir dons com a sua varinha mágica. Não me lembro de alguém comentar “ah que estranho, um homem bonito que também é inteligente…”