26/03/2018

4.770.(26mar2018.8.8') Povo Basco

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16 MILHÕES pelo mundo fora
https://pt.wikipedia.org/wiki/Bascos
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1ABRIl1939...termina a guerra civil espanhola...
ligo d' imediato a Pablo Picasso e à "Guernica"
https://www.youtube.com/watch?v=BQWozCtyMjQ

Estudo sobre Guernica de Pablo Picasso

 https://www.youtube.com/watch?v=9ruL_c3EHV8
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26abril1937

Destruição orquestrada pelos nazistas foi um ensaio para os horrores vindos do ar na Segunda Guerra

Detalhe do quadro Guernica, de Pablo Picasso
detalhe do quadro de Picasso
Tradicionalmente, a semana em Guernica começava com uma feira livre. Naquela segunda-feira, 26 de abril de 1937, agricultores dos arredores da pequena cidade basca vendiam os frutos de seu trabalho na praça principal. Às 16h30, um único badalar do sino da igreja anunciou a incursão aérea. Dez minutos depois, vieram as bombas. Guernica ficou arrasada – e o mundo foi apresentado ao poder dos ataques aéreos sistemáticos, que se tornariam comuns poucos anos mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial.
Na época do bombardeio, a Espanha vivia a Guerra Civil. Após um fracassado golpe militar contra o governo do socialista Francisco Largo Caballero, em 1936, as tropas do general Francisco Franco não desistiram de tomar o poder. Divididos, os espanhóis passaram a se enfrentar em diversos pontos do país. Os combatentes leais ao governo de esquerda, chamados de republicanos, contavam com o apoio da União Soviética. Já as forças de Franco, os nacionalistas, tiveram a ajuda da Itália fascista de Benito Mussolini e da Alemanha nazista de Adolf Hitler.

Desde o início, Franco havia tentado conquistar Madrid. Em abril de 1937, a capital ainda não havia caído e o general decidiu optar por um alvo mais fácil: o norte espanhol. As regiões de Astúrias e Santander e as províncias do País Basco estavam em péssima situação militar. Lá, a força aérea dos republicanos era inexistente. Os céus estavam abertos para as bombas nacionalistas.
Guernica, no País Basco, era habitada por apenas 6 mil pessoas. Não possuía defesa, nem qualquer alvo militar, salvo a ponte sobre o rio Mundaca, cuja destruição poderia dificultar uma retirada do exército basco. Apesar da insignificância estratégica da cidade, seu centro foi alvo do até então mais violento ataque aéreo da história. Mas por quê? Nada de mais. Para os nazistas, foi apenas um teste.
Os protagonistas do ataque a Guernica foram aviadores alemães, com a ajuda – muitas vezes desajeitada – de pilotos italianos. Hermann Goering, comandante da Luftwaffe (a força aérea alemã), revelou em 1946, durante julgamento no Tribunal de Nuremberg, que Guernica foi um estupendo laboratório para ensaiar sistemas de bombardeios com projéteis explosivos e incendiários em uma cidade aberta. O resultado da mórbida experiência se tornou o episódio mais lembrado da Guerra Civil.
Símbolo de autonomia
Guernica não foi a primeira vítima da temida Legião Condor, a unidade militar enviada por Hitler à Espanha. Embora com menos intensidade, as cidades de Durango e Éibar já haviam sido bombardeadas. Mas, além de ter sido acertada com mais violência, Guernica tem uma enorme importância simbólica para o povo basco, que vive no norte da Espanha e no sul da França. A destruição mexeu com os brios desse milenar grupo étnico. Na Idade Média, Guernica foi a vila onde se reuniam as Juntas Gerais (espécie de conselho político) de Biscaia, região habitada pelos bascos. Sob uma árvore do século 14, o Carvalho de Guernica, os monarcas espanhóis juravam lealdade aos Foros Bascos, um conjunto de leis que regulamentava os costumes e os direitos desse povo. Isso mantinha vivo o respeito da Espanha pelos bascos.
A árvore durou 400 anos. No século 19, após sua morte, outro carvalho foi plantado no local. Mas, tempos depois, o governo espanhol resolveu deixar de respeitar os Foros Bascos. Na virada do século 20, o povo basco intensificou seu nacionalismo, pregando até a separação da Espanha. Em outubro de 1936, no início da Guerra Civil, o governo republicano fechou um acordo que dava autonomia ao País Basco (que inclui, além de Biscaia, as províncias de Álava e Guipúzcoa). Durante todo esse tempo, Guernica se manteve como uma referência para a região. 

Expedicionários nazistas
A Guerra Civil Espanhola não poderia ter vindo em melhor momento para os alemães. Eles puderam aperfeiçoar táticas e equipamentos que, pouco depois, seriam usados na Segunda Guerra Mundial. Entre os 16 mil homens enviados por Hitler durante todo o conflito, havia unidades do Exército e da Marinha, mas os aviadores eram maioria. A força de intervenção, batizada de Legião Condor, foi decisiva para a vitória dos nacionalistas do general Franco. A Legião Condor foi oficialmente criada em novembro de 1936, mas os primeiros aviões alemães entraram em ação antes disso. Em agosto, uma operação levou até Sevilha 14 mil soldados de Franco que haviam ficado isolados no Marrocos – o feito ficou conhecido como a primeira “ponte aérea” da história militar. Apesar de ter feito diversas missões de apoio a tropas terrestres, a Legião se destacou mesmo por seus bombardeios. Enquanto teóricos militares da época debatiam a eficácia de ataques aéreos, os alemães testavam isso na prática.

➽ “Os alemães deviam estar cientes dessa importância, mas não acho que isso tenha sido determinante na escolha de Guernica como alvo. Provavelmente a teriam atacado de qualquer jeito”, afirma Félix Luengo, diretor do Departamento de História Contemporânea da Universidade do País Basco. O general Franco, no entanto, certamente enxergou em Guernica uma boa oportunidade de humilhar o povo basco, visto como traidor da causa nacionalista. E, no dia do bombardeio, a cidade abrigava pelo menos mil refugiados, vindos de localidades espanholas que já tinham sido atacadas pelo exército de Franco.
Roteiro macabro
O planejamento do bombardeio é atribuído a Wolfram von Richthofen, então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas alemãs (e primo do Barão Vermelho, lendário piloto da Primeira Guerra). Tudo começou com um único Dornier Do-17, de fabricação alemã. Ele veio do sul e soltou cerca de uma dúzia de bombas de 50 quilos no centro da cidade. As pessoas que estavam na feira correram para abrigos, fazendas e bosques. Após completar a missão, o Dornier voltou para a base. No percurso, cruzou com três Savoia-79 italianos que chegaram a Guernica instantes depois. A patrulha sobrevoou a cidade por um minuto. Tempo suficiente para soltar 36 bombas de 50 quilos. Quando se retiraram, os danos causados ainda eram relativamente pequenos. Apenas alguns prédios haviam sido atingidos, como o quartel-general dos republicanos e a igreja de San Juan.
Às 16h45 começou a terceira onda de bombardeios, executada por um Heinkel-111 alemão escoltado por cinco caças Fiat CR-32 italianos. Às 17h e às 18h, outros dois Heinkel despejaram sua carga explosiva sobre Guernica. Caso os ataques tivessem parado por aí, já seria um castigo excessivo para uma cidade que, até então, havia sido poupada da guerra. Mas o pior ainda estava por vir.
Três esquadrões de Junkers Ju-52 alemães, carregados com projéteis explosivos de até 250 quilos e bombas incendiárias, chegaram a Guernica escoltados por caças Fiat e Messerschmitt Bf-109, o orgulho da aviação nazista. Às 18h30, o primeiro esquadrão de Ju-52 iniciou sua ação. Enquanto a carga dos bombardeiros destruía e incendiava os prédios de Guernica, os caças metralhavam civis indefesos que fugiam. Por cerca de três horas, 40 aviões participaram do massacre.
Logo após a destruição de Guernica, George Steer, correspondente do jornal inglês The Times, notou que o único alvo estratégico da cidade, a ponte sobre o rio Mundaca, ainda estava intacto. Steer percebeu que a prioridade dos nazistas não tinha sido causar danos militares. “O objetivo do bombardeio parece ter sido desmoralizar a população civil e destruir o berço da raça basca”, escreveu.
Na época, o número de mortos divulgado passava de 1600. Hoje em dia, é consenso que o número foi bem menor. Um estudo do historiador espanhol Jesús Salas Larrazábal identificou nome e sobrenome de apenas 120 mortos. “O número de vítimas fatais deve ter sido em torno de 200, mas desde o primeiro momento foram difundidos dados exagerados do total de mortos. Isso multiplicou o impacto da notícia”, diz o basco Félix Luengo.
O general Franco certamente não esperava que o ataque despertasse tamanha comoção na opinião pública internacional. Correspondentes estrangeiros que cobriam a guerra na Espanha visitaram o local do bombardeio na mesma noite e no começo da manhã seguinte. Em poucos dias, o mundo começou a ler nos jornais a história do horror em Guernica. A indignação foi tamanha que franquistas e nazistas trataram de negar a operação. Em 29 de abril, a imprensa favorável a Franco chegou ao cúmulo de dizer que a maior parte dos danos a Guernica havia sido causada por incendiários bascos, para indignar a população e aumentar o espírito de resistência.
A Guerra Civil acabou em 1939, com a vitória de Franco. Ele assumiu o poder e, como era de esperar, suprimiu a autonomia dos bascos. Aliás, durante sua ditadura, dizer que Guernica tinha sido bombardeada podia até dar cadeia. Em 1967, um jovem sacerdote da cidade de Navarra foi julgado em Madri pela “calúnia” de ter escrito que Guernica havia sido destruída pela força aérea nacionalista.
Alguns estudiosos espanhóis, como Onésimo Diaz, professor de História da Universidade de Navarra, não discutem a violência do ataque, mas acreditam que não foi isso que colocou Guernica na história. “Se não fosse pelo quadro homônimo de Picasso, Guernica não teria tido mais repercussão que outras cidades bombardeadas”, afirma. Poucos anos depois, o que acontecera naquele 26 de abril se tornaria tragicamente comum. Em setembro de 1939, o mesmo Von Richthofen comandou o bombardeio nazista de Varsóvia, na Polônia, no primeiro mês da Segunda Guerra. Durante o conflito, os dois lados usariam aviões para arrasar cidades inteiras, matando dezenas de milhares de pessoas por vez. O fim da Segunda Guerra, aliás, só chegaria em 1945, quando as japonesas Hiroshima e Nagasaki viraram pó sob bombas atômicas despejadas por aviões americanos.
Após o bombardeio de Guernica, restou ao povo basco o consolo de ver que o carvalho plantado no século 19 não tinha sido atingido – foi salvo por estar longe do centro da cidade. Em 1979, quatro anos após a morte de Franco, a árvore ainda estava viva para acompanhar o tratado que devolveu a autonomia para o País Basco. O velho carvalho morreu após uma estiagem em 2003. Mas cedeu seu lugar à terceira árvore do mesmo tipo – que, impávida, segue a celebrar a autonomia basca.
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/guerras/guernica-80-anos-a-estreia-do-terror-aereo.phtml
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Guernica é bombardeada pelos nazis
https://www.youtube.com/watch?v=BQWozCtyMjQ
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 os bombardeiros da Legião Condor reduziram a cinzas a cidade basca de Guernica. O ataque aéreo, que durou apenas três horas, custou a vida de 1.645 pessoas.
Bildergalerie Guernica (AP)
foi uma segunda-feira. A cidade de Guernica, no norte da Espanha, estava cheia de vida: até então ela permanecera praticamente intocada pela Guerra Civil Espanhola, que grassava desde o ano anterior. Entretidos em seus afazeres, os 5 mil habitantes entravam e saíam de suas casas, feitas de estruturas e galerias em madeira e cobertas de telhas.
No fim da tarde, começaram os bombardeios aéreos isolados. Por volta das 6h30, veio o ataque principal dos aviões alemães, em ondas sucessivas. Segundo um diário de guerra da época, a esta altura a fumaça já era tanta que não se distinguiam mais os alvos – casas, pontes ou arrabaldes – e os pilotos dos 50 bombardeiros da Legião Condor atiravam sua carga mortal indistintamente.
Calcula-se que, ao todo, 22 toneladas de explosivos foram lançados sobre aquela cidade do País Basco, entre pequenas bombas incendiárias e bombas de 250 quilos. A rede de canalização d'água foi rapidamente destruída, e assim o fogo teve todo o tempo para alastrar-se e consumir Guernica. O diário de guerra conclui: "O tipo de construção das casas fez com que a destruição fosse total. Ainda se veem os buracos das bombas na rua. Simplesmente fantástico."
Estratégia de Göring
Trezentas pessoas morreram imediatamente, milhares ficaram feridas, até porque os aviões deram caça aos fugitivos. Três quartos dos prédios foram arrasados em menos de três horas. Com o fracasso da tomada da capital Madri, a cidadezinha entrara na mira dos fascistas liderados por Francisco Franco.
O futuro ditador contava com o apoio da Alemanha e da Itália. A política do nazista Hermann Göring era utilizar a Guerra Civil Espanhola como campo de testes para os pilotos e as máquinas de sua nova Luftwaffe (Força Aérea).
Logo os agressores divulgaram as mais estapafúrdias versões do bombardeio infernal em Guernica. Entre outras, que só pretendiam explodir uma ponte, para cortar o caminho das tropas inimigas. Mais tarde, Franco fez até mesmo espalhar o boato de que a própria cidade basca haveria se bombardeado.
Guernica transformou-se em símbolo. O ataque da Legião Condor foi o primeiro bombardeio aéreo maciço contra a população indefesa de toda uma cidade na história europeia. A partir daí, o terror contra civis tornou-se um princípio, passando a integrar a moderna maquinaria de guerra.
Bildergalerie Guernica (picture-alliance/dpa)


Quadro "Guernica", de Pablo Picasso


O pintor espanhol Pablo Picasso captou esse horror em seu quadro antibélico Guernica, realizado logo após o massacre. Conta-se que um oficial da SS lhe perguntou, apontando para a pintura "Foi o senhor que fez isso?". Picasso respondeu: "Não, o senhor".
Potencial destrutivo do século 20
O crítico de arte Robert Rosenblum analisa a obra: "Ela equivale a uma imagem do fim do mundo, sobretudo do mundo moderno, como o conhecemos. Um clarão ofuscante de chamas, em seguida a sensação do caos definitivo. Mulheres e crianças gritando, um touro, um cavalo, uma visão de choque e trauma que representa todo o nosso pavor à beira do abismo. Assim é o quadro Guernica: da forma mais impressionante e poderosa, ele anuncia a mensagem da guerra, do potencial destrutivo do século 20".
Sessenta anos mais tarde, o então presidente da Alemanha, Roman Herzog, pediu perdão aos habitantes da cidade: "Quero assumir a responsabilidade pelo passado e reconhecer expressamente o envolvimento culposo dos pilotos alemães. Eu pranteio com vocês os mortos e feridos. Aos que ainda carregam consigo as feridas do passado, estendo minha mão num pedido de reconciliação".
Dois anos mais tarde, o governo democrata-cristão de Helmut Kohl doaria 3 milhões de marcos à cidade que os soldados alemães tinham reduzido a cinzas. O dinheiro foi empregado na construção de um novo centro de esportes.
http://www.dw.com/pt-br/1937-guernica-%C3%A9-bombardeada/a-800994
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A história de luta do povo basco

Entre os movimentos pela criação de um país independente e a radicalização do terrorismo, bascos sobrevivem como uma das etnias mais antigas da Europa

Carlos Minuano | 01/12/2010 11h39
Cansado da balada na noite anterior, o equatoriano Diego Armando Estacio preferiu esperar no carro pela namorada enquanto ela recepcionava os parentes do casal que desembarcariam a qualquer momento no Aeroporto de Madrid-Barajas, na capital espanhola. Estavam ansiosos para comemorar o Ano-Novo. Era 30 de dezembro de 2006. Por uma dessas estranhas (e mórbidas) coincidências, outro imigrante, Carlos Alonso Palate, também dormia num automóvel estacionado bem próximo ao de Estacio, na zona D do terminal T4. Às 9h01, 200 kg de explosivos colocados num furgão destruíram o local. Nenhum dos dois acordou e mais de 20 pessoas ficaram feridas. O estrago foi tamanho que os bombeiros demoraram quatro dias para conseguir resgatar o corpo dos equatorianos.

O ataque, promovido pelo ETA, grupo separatista que luta pela independência do País Basco, pôs fim a uma trégua anunciada meses antes e às negociações de paz em curso com o governo espanhol. Dias depois, quase 200 mil pessoas saíram às ruas de Madri e Bilbao (capital da província basca de Viscaia) para protestar contra a violência e, mais uma vez, clamar pela paz. O trágico episódio, por não ter sido o primeiro, deixa também a suspeita de que não será o último. Assim, não surpreende a desconfiança de espanhóis e bascos diante do mais recente cessar-fogo anunciado pelo ETA, em setembro, o 11º proposto desde 1981. O grupo já matou mais de 800 pessoas desde a sua criação, em 1959.

O terrorismo, entretanto, está longe de resumir a história dos bascos, uma das etnias mais antigas da Europa. Eles ocupam áreas na Espanha e na França pelo menos há 4 mil anos, resistindo a invasões e perseguições e lutando até hoje pela preservação de sua identidade e suas tradições.
Clique na imagem para ampliar (Design: Glenda Capdeville/ Ilustrações: Murilo Maciel)

As raízes

Não faltam mistérios acerca das origens da civilização basca. Acredita-se que ela ocupou parte das montanhas dos Pirineus antes de qualquer outra etnia. Em um território a leste da atual Comunidade Autônoma do País Basco, onde está hoje a província de Navarra, habitavam os vascones. Os bascos possivelmente descendem deles, mas historiadores alegam que não se pode afirmar isso com certeza.

Diferentes teorias arriscam uma resposta a esse enigma. Há quem defenda que os ancestrais bascos chegaram à região com as migrações indo-europeias, por volta de 2000 a.C. Outra versão aponta laços ainda anteriores - remete à migração cro-magnon, que desbancou os neandertais que viviam por lá.

A hipótese mais aceita considera que os bascos derivam de um povo que alcançou a península Ibérica no segundo milênio a.C., antes dos celtas. Mas o fato é que nunca houve uma nação basca no sentido moderno da palavra, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. "Na Antiguidade, eles viviam em aldeias separadas, sem unidade, até serem conquistados pelos romanos." Com o fim do domínio de Roma, ganharam mais autonomia. Desvinculados de outras etnias e culturas, desde então eles buscam um país, de fato, para chamar de seu - sem ter de responder aos governos da Espanha e da França.

Povo da montanha

Os bascos assistiram a suas terras serem invadidas por romanos, visigodos, francos, normandos e mouros. Gradativamente, foram expulsos das terras baixas aos pés dos Pirineus, até que, no século 15, a França e a Espanha dominaram a região. Cerca de 200 anos mais tarde, as fronteiras foram definidas segundo o desenho mais próximo do atual, o que consagrou a divisão do grupo étnico. Do lado espanhol, a Euskadi, ou Comunidade Autônoma do País Basco (nome oficial), é formada pelas províncias de Biscaia, Guipúzcoa e Álava (veja o mapa acima). A Comunidade Foral de Navarra também é autônoma, mas faz parte da área tradicional reivindicada pelos movimentos separatistas. Na França, está o resto da Euskal Herria - na língua basca, "o povo que fala o euskara", com três regiões, Lapurdi, Benafarroa (ou Baixa Navarra) e Zuberoa, reunidas no Departamento dos Pirineus Atlânticos. No total, eles ocupam 20,6 mil km2 (menos que o menor dos estados brasileiros, o Sergipe) e somam cerca de 3 milhões de pessoas.

Uma língua em risco de extinção

O idioma basco não tem relação com nenhum outro ramo linguístico hoje no mundo. O euskera, ou euskara, é a única língua de origem pré-indo-europeia falada na Europa ocidental e é, seguramente, a mais antiga do continente. Dominada por cerca de 1 milhão de pessoas, cerca de um terço da população, trata-se de um idioma que peleja para sobreviver. Não se sabe ao certo sua origem. "Com segurança, pode-se apenas afirmar que é uma língua isolada", afirma Fabio Aristimunho. Segundo o especialista em estudos bascos pela Universidade do País Basco, ela é anterior às primeiras invasões celtas à península Ibérica, no primeiro milênio a.C., e sobreviveu à implantação do latim durante o Império Romano, às línguas germânicas, à dominação árabe na península e, mais recentemente, à inescapável sobreposição do castelhano e do francês. "O seu léxico peculiar e sua estrutura gramatical, de difícil aprendizado para os não-nativos, com cerca de 24 casos de declinação, sempre fizeram do basco uma língua suscetível a mitos e precnceitos de diversas ordens", diz o pesquisador, que também é descendente basco.

Poesia, pelota e bacalhau

Agricultores, pastores e pescadores. A história basca está profundamente relacionada à terra e aos meios de subsistência. A economia e a família se organizavam em torno das fazendas, também chamadas de caserios. O núcleo familiar sempre foi reforçado pelas leis de herança, que concentravam as propriedades em torno do filho mais velho. Os vínculos com a tradição rural e montanhesa se refletem da poesia ao esporte.

Os bascos são fãs de campeonatos de levantamento de pedras, corte de troncos e corrida de touros. Entre as modalidades que inventaram está o jai alai, um tipo de pelota basca (lembra o squash, mas é jogado com a mão ou usando raquetes. A do jai alai parece um gancho).

A cozinha basca é uma das mais bem avaliadas do mundo. Com destaque para peixes e frutos do mar. Aliás, os bascos estão entre os grandes mestres baleeiros (foram eles que introduziram as técnicas de caça no Brasil Colônia), participaram das expedições ao Novo Mundo e reivindicam a autoria da milenar técnica de salgar bacalhau. Alegam que, bem antes da industrialização desse mercado, já vendiam o peixe usando o sal, que evitava que a carne estragasse logo.

Guerra e exílio


Por diferentes razões e em momentos distintos, levas de bascos abandonaram sua terra natal. O auge dessa diáspora, porém, ocorreu após a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O conflito, um dos mais sangrentos do século 20, foi desencadeado por uma rebelião liderada pelo general fascista Francisco Franco contra o governo republicano de centro-esquerda. Os bascos ficaram do lado republicano (exceto a província de Navarra) e, após a derrota imposta pelos nacionalistas, passaram a ser perseguidos. Intelectuais e líderes políticos foram presos e torturados. Era proibido falar euskera e a cultura local foi censurada. Cerca de 100 mil pessoas rumaram para o exílio. "A ditadura franquista produziu um retrocesso no movimento nacionalista basco", diz José Luís de la Granja Sainz, professor de história contemporânea da Universidade do País Basco. França, Argentina, Chile e Estados Unidos receberam grande parte desse contingente. O Brasil não ficou de fora. Já teve até um presidente descendente de bascos, o general Emíl o Garrastazu Médici, durante o regime militar.

Independência ou bombas

A campanha armada do ETA tem recebido seguidos golpes nos últimos anos, com a prisão de vários de seus líderes. Analistas atribuem a mais nova declaração de cessar-fogo a essa crescente debilidade militar. Serviços de informação apontam a tentativa de criar células em Portugal devido ao cerco espanhol e francês. O ETA, cuja sigla significa Euskadi Ta Azkatasuna, ou Pátria Basca e Liberdade, foi criado em 1959, na esteira de outros movimentos estudantis que despontaram no mundo. Eles se organizaram como uma dissidência do Partido Nacionalista Basco (PNV, na sigla em espanhol). Inspirados na Revolução Cubana, os etarras (como são chamados os integrantes do grupo) lutaram inicialmente contra a ditadura do general Franco. A redemocratização, porém, não encerrou a violência. Agora, o Herri Batasuna, braço político do ETA, quer negociar os termos da trégua para poder disputar eleições. Criado em 1978, o partido foi decretado ilegal em 2003.

Liberdade ainda que tardia

O grau de autonomia dos bascos variou muito ao longo dos séculos. O movimento separatista moderno foi consolidado com a fundação do Partido Nacionalista Basco, em 1895. Os fueros (a instância jurídica local) haviam sido abolidos pelo governo espanhol como uma punição pelo apoio às tentativas do carlismo (movimento que pretendia alçar ao trono outro ramo da família real dos Bourbons) de tomar o poder. A região só readquiriu autonomia após a ditadura franquista. A constituição de 1978 reconheceu direitos específicos aos bascos, entre outras etnias. Hoje, a sociedade basca está dividida em três principais grupos: os aliados do ETA, que exigem a independência a qualquer custo, os moderados, que governaram a região por décadas, mas não conseguiram avançar a outro status legal, e aqueles que preferem a autonomia atual, mantendo laços com a Espanha. Esse grupo governa a Comunidade Autônoma do País Basco no momento.

A independência total é apoiada por entre 5 e 15% dos eleitores. Já o nacionalismo moderado do PNV atrai mais de um terço deles. Na Espanha, é garantida à comunidade considerável autonomia cultural, política e econômica. A polícia também é de responsabilidade local. Na França, porém, o sistema é centralizado e não prevê diferenças entre os estados. "O anseio por independência é legítimo", afirma Eric Ech, fundador da Comunidade Basca do Brasil. "Apesar de muitos estarem conformados com a situação atual, os bascos têm o direito de recuperar sua independência roubada."

O CARVALHO DE GUERNICA

A etimologia da palavra basco é outro mistério. Para certos linguistas, o termo latino vasco deriva de boscus, ou buscus (bosque, floresta). Vários elementos simbólicos da cultura local relacionados à natureza reforçam essa ideia. Canções e poesias medievais, por exemplo, prestam reverência à Guernikako arbola, uma árvore do século 14 na cidade de Guernica, Espanha. Sob o carvalho, líderes bascos se reuniam para tomar grandes decisões e a coroa espanhola jurava respeitar os fueros, conjunto de leis da etnia. A mesma árvore atravessou os anos, até o século 19, quando definhou e foi substituída.

Em 1937, Guernica foi alvo de um bombardeio patrocinado pela Alemanha nazista, aliada do general Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola. O ataque, eternizado na tela de Pablo Picasso, destruiu a vila, mas o carvalho ficou intacto. Em 2003, secou e outro foi plantado em seu lugar. Ainda é o maior símbolo da cultura e da resistência bascas.

MITO
Há um mito segundo o qual o euskera teria sido preservado puro e livre de influências estrangeiras, isolado nos Pirineus ao longo dos séculos. Essa teoria é desmentida pela própria presença, no léxico do basco moderno, de palavras como: dantza (dança), katu (gato), marinel (marinheiro), txapel (chapéu, boina), deskantsu (descansar) e tipula (cebola), entre outras, com raízes latinas, germânicas ou celtas, menos evidentes.
http://origin.guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/historia-luta-povo-basco-682346.shtml
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http://www.colegioacademia.com.br/admin/professores/arquivos_upl/28_o-estranho-idioma-dos-bascos.pdf
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26mar2018
Otegi: O líder da esquerda independentista basca diz que a mensagem que passa o Estado espanhol ao prender deputados catalães eleitos é de que não é possível alcançar repúblicas independentes sem ser pela via armada uma vez que a via pacífica e eleitoral está fechada.
 El líder de EH Bildu, Arnaldo Otegi
"Vías que nosotros vamos a mantener permanentemente porque nos parecen las más eficaces", ha afirmado Otegi en una rueda de prensa de "urgencia". En esta comparecencia ha rechazado las órdenes de prisión dictadas contra el candidato a la Presidencia del Govern, Jordi Turull, la expresidenta del Parlament Carme Forcadell y los exconsellers Raül Romeva, Josep Rull y Dolors Bassa, a los que ha transmitido "el abrazo más fraternal", que ha hecho extensivo a Marta Rovira al haber emprendido "el camino del exilio".
Ha asegurado que el "régimen del 78 está volviendo adonde nació, a las cloacas, a las zonas más oscuras del Estado" y ha advertido de que no se puede "mantener ningún tipo de acuerdo o aprobar los presupuestos de un Gobierno que da protección y amparo al 155". "Aunque nominalmente lo puedan suspender en un momento determinado, es un arma en manos de un Estado que quiere disciplinar a la gente y nos quiere amenazar", ha destacado.
El dirigente de EH Bildu ha aseverado que el artículo 155 de la Constitución "ha venido para quedarse" y que es necesario dar en Euskadi "una respuesta como pueblo, no como partido o sindicato, sino como país". "Debemos sentarnos en una mesa, hacer un diagnóstico y dar una respuesta", ha insistido Otegi, que sin mencionar expresamente al PNV le ha advertido de que no se pueden llegar a acuerdos con "los que aplican el 155 y llevan a presidentes al exilio, y a vicepresidentes y diputados a la cárcel".
El líder abertzale ha acusado al Estado español de haber cometido "un nuevo ataque contra los derechos humanos" y que con ello demuestra que "es mentira lo que decían de que en democracia todos los proyectos son posibles". "Están diseñando una estrategia que está poniendo en duda la existencia, si alguna vez la hubo, de un real y verdadero Estado de Derecho en el Estado español", ha enfatizado.
http://www.ondacero.es/noticias/espana/otegi-mensaje-que-republica-posible-vias-pacificas_201803235ab5591f0cf240aa7113bcd5.html
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11SEtem2015






Desvendada a origem dos Bascos


Bem, ainda não sabemos de onde vieram, mas graças à genética há uma luz sobre a etnogênese do povo basco.
Os bascos — etnia no noroeste dos Pirineus — mantém sua identidade distinta de todos os povos indo-europeus da Europa, principalmente por meio de seu idioma isolado, o euskara.
O geneticista Mattias Jakobsson, da Universidade de Uppsala, Suécia, analisou os genomas de oito esqueletos encontrados em uma caverna chamada El Portalón, no País Basco espanhol, e concluiu que os bascos possuem uma origem mais recente.
O povo basco teria se formado entre 3.500 e 5.500 anos atrás com a adição de caçadores-coletores à populações agricultoras. Essa população adquiriu uma organização social própria e costumes singulares em relação a seus vizinhos — notavelmente sua língua. Com essa identidade formada, esse povo conseguiu manter sua distinção étnica, mesmo que sem constituir um estado independente, salvo o efêmero Reino de Navarra, dominado por senhores não bascos.
Desde sua origem, o povo basco manteve sua etnicidade, apesar das invasões celtibera, romana, visigoda, moura, castelhana e francesa. O fantástico disso é que o País Basco situa-se em uma das áreas mais transitadas da Europa, no noroeste dos Pirineus.
A língua basca, ou euskara, falada por um terço dessa etnia, foi um dos principais elementos para a resistência desse povo. Trata-se de uma língua aglutinante sem relações nenhuma com seus vizinhos indo-europeus. No começo do século XX começaram a produzir obras literárias escritas e ensiná-las em escolas informais organizadas nas igrejas e fazendas. Durante a Guerra Civil Espanhola e ditadura de Franco (1936–1975), o povo e a língua foram reprimidos sem piedade, notoriamente no bombardeio de Guernica em 1937. Com a redemocratização espanhola, ganharam autonomia e direito de usar livremente sua língua.
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13jul2006
in avante
Entrevista com Arnaldo Otegui,
porta-voz do partido Batasuna
Sem diálogo não pode haver
paz no País Basco
«O que dá coesão ao movimento independentista de esquerda não é a luta armada da ETA, mas antes um projecto nacional e progressista para o País Basco». As palavras são de Arnaldo Otegui, porta-voz do partido Batasuna, em entrevista concedida ao Avante!a 15 de Junho, em Donostia (San Sebastian, em castelhano), duas semanas antes do presidente do governo espanhol, Rodríguez Zapatero, ter feito saber que vai dialogar com a ETA.

Recorda-se que Otegui apresentou aos estados espanhol e francês, a 14 de Novembro de 2004, uma proposta de paz, chamada «Agora o povo, agora a paz».
A proposta preconiza a criação de duas mesas de negociação: uma, onde participarão todos os partidos, sem excepção, e uma segunda, onde a ETA e o governo espanhol negociarão a resolução do conflito armado. O ponto determinante do processo de paz dá ao povo basco, pela primeira vez na sua História, o poder de se pronunciar, por via de referendo, sobre o seu próprio futuro e autodeterminação. O Batasuna diz estar disposto a aceitar um resultado que não lhe seja favorável.
Posteriormente, o líder do Partido Nacionalista Basco, que detém o governo autonómico basco, apresentou o chamado Plano Ibarretxe, que prevê igualmente a realização desse referendo.

Em Portugal, sempre que se fala de País Basco, a comunicação social dominante pretende incutir a ideia de que todo o independentista é um terrorista e pertence à ETA. Como vê e o que é, para o Batasuna, a ETA? 

Antes de mais, deve-se ter em conta que a ETA é uma organização nascida no País Basco durante a época da ditadura franquista. Através da luta armada contra a ditadura, a ETA criou no nosso país um espaço sociológico e político, dotado com o projecto estratégico de criar um Estado basco, independente e socialista. Podemos, por isso, dizer que a data de nascimento do movimento independentista é a data de nascimento da ETA.
No entanto, embora assim seja, há algo que deve ser sublinhado com clareza: é que existe uma diferença fundamental entre a ETA, que pratica a luta armada, e nós, que, evidentemente não o fazemos.
Por outro lado, embora exista esta coincidência de objectivo, nós somos uma organização política que aglutina uma boa parte da população que pode ou não estar de acordo com a luta armada da ETA. O que dá coesão ao movimento independentista de esquerda deste país não é a luta armada da ETA, mas antes um projecto nacional e progressista para o País Basco.

Que avaliação faz o Batasuna do papel do Partido Nacionalista Basco (PNV) e que credibilidade lhe merece esse partido? 

Para nós, o PNV representa os interesses de uma certa burguesia basca que sempre apostou em manter o mercado espanhol unido, em termos económicos, e que portanto nunca liderou um processo independentista para o nosso país. Essa é a leitura fazemos e que sempre fizemos sobre o PNV, que apenas pretende acomodar os seus interesses económicos a um espaço autonómico dentro do Estado espanhol.
Mas, ao mesmo tempo, encaramos com naturalidade que numa estratégia de libertação nacional como a nossa pode haver acordos – sempre tácticos e nunca estratégicos – entre o PNV e a esquerda independentista a fim de conseguirmos conquistar o direito de autodeterminação. A partir desse momento, os dois projectos são praticamente antagónicos. O deles, da burguesia basca que procura acomodar-se dentro do Estado espanhol, frente a uma esquerda independentista que pretende construir um Estado Basco livre e independente, construído a partir dos valores da esquerda.

Fala-se de paz, mas os tribunais e as forças de segurança continuam a fazer cumprir escrupulosamente a vossa ilegalização. Como vê o Batasuna a ambiguidade de, por um lado, se falar em diálogo e paz mas, por outro, continuar a repressão por parte dos tribunais e das forças de segurança? 

Devemos ter em conta que durante a chamada «reforma ou transição democrática» os poderes fácticos que sustentaram a ditadura franquista não foram depurados. Por isso, os tribunais, as forças armadas e a polícia não foram depurados. Consequentemente, em todos esses poderes existem sectores profundamente ligados ao que é a direita mais reaccionária. Mas existe um segundo motivo que é o facto de o governo espanhol procurar fazer acreditar que o processo de paz se deve a uma debilitação extrema da esquerda independentista, que teria chegado ao processo por se encontrar permanentemente acossada, o que não lhe daria outra alternativa. Com esta ideia, o governo espanhol pretende, por um lado, fazer crer que a esquerda independentista está enfraquecida e, por outro, que a natureza e o objectivo do processo tem carácter técnico e não político, procurando forçar-nos a homologar a legalidade vigente.

A esquerda independentista dá grande importância ao mundo laboral e social, onde está representada pela central sindical, LAB. Que força tem o Batasuna entre as classes trabalhadoras e operárias bascas e quais são as prioridades na acção da LAB, em defesa dos direitos dos trabalhadores bascos? 

Sempre foi claro para nós que um projecto independentista para o nosso país é, fundamentalmente, do interesse das classes trabalhadoras e populares. Esse projecto político independentista comporta, do nosso ponto de vista, um modelo social alternativo. Não pretendemos conseguir um Estado independente para reproduzirmos todas e cada uma das opressões que podem fazer estados independentes, mas consideramos que devemos aproveitar a oportunidade para construirmos um Estado partindo de outro tipo de parâmetros políticos e sociais.
Temos uma central sindical, a LAB, que reivindica, nitidamente, um sindicalismo nacional e de classe. Deverá representar actualmente cerca de 15 a 20 por cento dos trabalhadores bascos, em termos de representação sindical.
Devo salientar que a LAB, com a outra central sindical basca, a ELA – que tem origem no Partido Nacionalista Basco mas tem vindo pouco a pouco a deslizar para posições, no mínimo, progressistas social-democratas –, representa a maioria sindical neste país. Podemos afirmar com segurança que a maioria sindical basca aposta actualmente na soberania deste país.

Costuma ouvir-se, em Portugal, que o País Basco é espanhol porque apenas 15 por cento da população está com a esquerda independentista. O que pensa deste argumento? 

É um argumento absolutamente falso. Podemos dizer que a maioria política, social, sindical e inclusivamente institucional do nosso país está a fazer uma aposta pelos direitos de autodeterminação e de soberania do nosso povo. Mas devemos ter em conta que são 15 por cento os que votam na esquerda independentista, nas condições actuais. Votam, inclusivamente, em situação de ilegalidade. Mas nunca foi feito um referendo sobre a autodeterminação neste país. Sabemos é que, hoje em dia, segundo as sondagens, há entre 30 e 45 por cento de cidadãos que se manifestam como independentistas. Portanto, o problema sobre se o País Basco é ou não Espanha, não depende da percentagem de votos da esquerda independentista. Para nós, é um problema de aritmética democrática. A pergunta que devolvemos é, se estão tão seguros de que nós, os bascos, nos sentimos tão plenamente espanhóis, que problema há em poder admitir um cenário democrático onde os bascos possam decidir se querem ser independentes ou não?

Poderá haver paz sem que ambas as partes reconheçam ter feito vítimas? Poderá consolidar-se um processo de paz sem se reconhecer que, do lado da esquerda independentista, também existem muitas vítimas? 

O problema das vítimas é profundamente delicado em qualquer processo de superação de um conflito. A este respeito há duas coisas que sempre manifestámos: uma, é que há vítimas em todas as partes. Evidentemente, o problema das vítimas deve ser analisado de forma integral. A segunda, é que a defesa dos direitos das vítimas deve ocorrer numa fase muito avançada do processo. Caso contrário, tenta-se pôr o problema das vítimas logo de início, mais com a intenção de perturbar o processo do que de dar-lhe solução.

Estarão, por sua vez, os países mais pobres da União Europeia com a sua soberania ameaçada pelos países mais ricos? 

Creio que isso é evidente. Actualmente registou-se uma evolução no debate sobre soberania, feito pela esquerda na Europa e em todo o planeta. Perante o imperialismo e o fenómeno de globalização neoliberal, reivindicar a soberania dos povos é um acto de esquerda e de soberania popular, porque só partindo deste ponto de vista é possível estruturar, organizar e desenvolver as economias nacionais a favor dos povos. No entanto, estando nós numa fase em que os países pobres dependem fundamentalmente das decisões, tanto das multinacionais como dos estados poderosos, reivindicar a soberania dos países é reivindicar a possibilidade de construir a economia, partindo de bases alternativas. Assim, reivindicar a soberania dos povos é para nós uma reivindicação nitidamente de esquerda porque, sem soberania, o melhor que podemos aspirar é a gerir o que as multinacionais e o imperialismo pretendem, seja no País Basco, seja em Portugal.

Que referências históricas e políticas tem o Batasuna no mundo e como é o seu projecto? 

Sempre fomos solidários com todos os povos que lutam pela sua libertação nacional mas sentimo-nos especialmente solidários com todos os que lutam pela sua libertação nacional e pelo socialismo.
Entendemos que todos os povos têm direito à sua autodeterminação, embora tenhamos em conta que, actualmente, o imperialismo está a exercitar determinados níveis desse direito com vista ao enfraquecimento de determinadas estruturas políticas. De qualquer forma, apoiamos esse direito para todos os povos do mundo, mas particularmente aqueles que, além de lutarem pela sua soberania e autodeterminação, estão juntos connosco na luta por uma economia socialista, um mundo e um modelo político e social alternativo.

Como vê o Batasuna o chamado eurocomunismo? 

Sempre fomos muito críticos em relação ao eurocomunismo. Parece-nos ter sido fruto de uma conjuntura histórica que foi, para nós, uma renúncia a transformar a sociedade, havendo ou não razões para o fazer.
Os fenómenos que estão a ocorrer hoje na América latina fazem-nos constatar que, a quem apostou na morte da luta de classes e acreditou que o fim da história estava próximo, o tempo voltou a demonstrar que a luta de classes continua a existir, bem como existem oprimidos e a sua luta de libertação nacional e social. Não procuramos identificar-nos tanto com um modelo concreto, mas entendemos que cada país e cada povo tem a necessidade de construir o seu próprio caminho, rumo ao socialismo.
Nós temos o nosso e apoiamos qualquer esforço feito, no mesmo sentido, por qualquer outro povo do planeta.

O Arnaldo Otegui está sempre ameaçado de prisão, como todos os dirigentes da esquerda independentista. Desde que a ETA decretou o cessar-fogo há três meses, já teve de pagar duas fianças milionárias para ficar em liberdade. É uma situação que ao longo de décadas tem levado milhares de famílias à falência, apesar da forte solidariedade popular dada aos presos bascos. Como está a vossa situação?

Estamos numa situação verdadeiramente escandalosa. Estamos no meio de um processo que visa a superação do conflito, no meio de um cessar-fogo permanente por parte da ETA, mantemos abertos os nossos canais de comunicação com o partido socialista mas, no entanto, todos os dias temos de apresentar-nos na esquadra da polícia, não podemos sair do Estado espanhol porque nos foi retirado o passaporte e vivemos quotidianamente no «fio da navalha», uma vez que qualquer acto público ou até conferência de imprensa que façamos pode ser judicialmente perseguido. É uma situação que deve acabar definitivamente, uma vez que é impossível acabar com qualquer conflito no mundo, perante estas condições.

Um encontro histórico

No passado dia 6, ocorreu a primeira reunião entre o PSE, representante basco do PSOE no governo espanhol, e o Batasuna, partido da esquerda independentista.
Recorda-se que o Batasuna está ilegalizado desde 2002, em resultado do pacto entre o PP e o PSOE que deu origem a uma lei dos partidos que o excluiu de todas instituições representativas para as quais estava eleito: parlamento espanhol, parlamento autónomo e dezenas de autarquias onde tinha eleitos, incluindo várias presidências, e a União Europeia, onde tinha um deputado.
Na semana passada, três meses após a ETA ter anunciado um «cessar-fogo permanente», o presidente do governo espanhol, Rodríguez Zapatero, anunciou estar disposto a iniciar o diálogo com a organização armada independentista, o que suscitou veementes protestos dos herdeiros do fascismo franquista, o PP e o PSN, na região autónoma de Navarra.
A necessidade do diálogo para a resolução do conflito só tem sido oficialmente rejeitada pela direita. Na esquerda, várias são as forças que se afirmam pelo diálogo mas, simultaneamente, recusam alterar a lei dos partidos e até exigem que seja o Batasuna a acatá-la. Em causa está o facto de a esquerda independentista sempre ter recusado condenar as acções da ETA. Esse foi o único argumento apresentado até hoje para a sua ilegalização e nunca foram provadas as alegadas ligações do Batasuna à organização armada.
Arnaldo Otegui considerou «histórica e de extrema importância», a reunião com o PSE, embora tenha criticado a «excessiva transcendência que alguns lhe deram». O encontro terá sido um primeiro de uma série de contactos multipartidários agendados para este mês.

Repressão silenciosa

São cerca de setecentos – o maior número jamais existente sequer durante a ditadura fascista de Franco -, os presos políticos bascos em cadeias espanholas e francesas. Todas as semanas são denunciadas violações sistemáticas de direitos civis, políticos e de cidadania, mas raramente a comunicação social as divulga. Tribunais especiais e polícias com práticas não esquecidas dos tempos do fascismo – a proibição de actos públicos, a tortura, a censura à imprensa com o encerramento de jornais ou a ilegalização de partidos e o fecho das suas sedes, a expulsão dos seus representantes dos cargos para que foram eleitos, além da dispersão dos presos, o exílio e outras duras medidas – fazem da realidade basca uma situação de excepção no coração da União Europeia.
Uma das medidas mais recentes é uma chamada «doutrina Parrot», graças à qual os presos que cumpriram dois terços da pena e deviam, por isso, ser libertados, são mantidos em cativeiro por tempo indeterminado, lembrando as «medidas de segurança» que a PIDE e os tribunais fascistas aplicavam antes da nossa Revolução de Abril, para tornar as condenações de presos políticos em prisão perpétua.
http://www.avante.pt/pt/1702/emfoco/15231/
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13jan2005
Prioridade da izquierda abertzale
Desbloquear o conflito
O voto favorável dos deputados do grupo Sozialista Abertzaleak (SA) ao plano Ibarretxe (ver edição anterior do Avante!) foi determinado pela vontade de encontrar um solução para o conflito e não deve ser interpretado como um apoio à proposta de estatuto autonómico apresentada pelo presidente do governo.
Numa entrevista à Rádio Euskadi na quarta-feira, dia 5, citada pela Agência Efe, o porta-voz daquele grupo parlamentar, Arnaldo Otegi, manifestou a sua convicção de que o presidente do executivo basco «compreendeu o sentido do nosso voto», acrescentando que não existe de momento nenhum plano que reúna o consenso suficiente. Por isso, prosseguiu, «o que temos de fazer primeiro é elaborar um projecto entre todos que fixe as regras do jogo».
Referindo-se ainda à posição assumida no parlamento de Vitória, no passado dia 30 de Dezembro, Otegi sublinhou que ela não foi fruto de qualquer improvisação, mas que se insere na estratégia anunciada em 14 de Novembro, no comício do Velódramo de Anoeta, onde a izquierda abertzale (esquerda independentista) apontou como prioridade a resolução política do conflito basco.
Na opinião deste dirigente do ilegalizado Batasuna, os partidos políticos têm duas opções: «ou continuarem a insistir em dinâmicas eleitorais, tentação que podem ter o PNV (Partido Nacionalista Basco) e o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), ou apostar na solução do conflito».
Num documento divulgado em 31 de Dezembro, a Mesa Nacional do Batasuna considera que o plano Ibarratxe visava não «a superação do conflito», mas a aposta «no desgaste e na absorção da base eleitoral e social da izquierda abertzale».
O chumbo do plano «era a cartada perfeita para a obtenção da maioria absoluta nas próximas eleições autónomas, conseguida à custa da nossa ilegalização, para de seguida, negociar com Madrid a reforma estatutária. Esta jogada foi desmontada pela izquierda abertzaleno no plenário de ontem».
O Batasuna, que rejeita qualquer possibilidade de um novo estatuto, defende «um diálogo político multilateral cujo objectivo deve ser a construção consensualizada de um cenário que possibilite a transição para um novo marco democrático, onde sejam garantidos todos os direitos ao conjunto do povo basco. O referido acordo deve ser referendado, inevitavelmente, pelos cidadãos do País Basco. Os subscritores do acordo deverão também constituir-se como interlocutores do nosso povo, abrindo um processo de diálogo e negociação com o Estado espanhol e o Estado francês, para fazer respeitar o conteúdo do acordo».
Para que este processo se materialize, sublinha o texto, «é indispensável que o Batasuna tenha garantidos todos os seus direitos de representação e acção política, anulando a Lei dos Partidos, cuja responsabilidade é do PSOE e do PP, da qual no entanto tentaram aproveitar-se politicamente os mesmo partidos que bombardearam a sociedade basca com a necessidade de uma nova maioria absoluta à custa, precisamente, da ilegalização».
http://www.avante.pt/pt/1624/europa/8042/?tpl=37
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