14/10/2018

6.576.(14ouTUbro2018.10.10') António Borges Coelho

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Nasceu a 7ouTUbro1928...Murça
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 O historiador António Borges Coelho vai receber a Medalha de Mérito Cultural, em reconhecimento de um percurso de vida caracterizado por uma intensa actividade política e académica.
 António Borges Coelho na sua casa, na Parede, em 4 de Outubro de 2018. O historiador, poeta e resistente antifascista foi entrevistado pela Lusa no mês em que cumpria 90 anos de vida.

António Borges Coelho na sua casa, na Parede, em 4 de Outubro de 2018. O historiador, poeta e resistente antifascista foi entrevistado pela Lusa no mês em que cumpria 90 anos de vida. CréditosMiguel A. Lopes / LUSA
O historiador António Borges Coelho vai ser distinguido na sexta-feira com a Medalha de Mérito Cultural, anunciou hoje o Governo, que justificou a atribuição pelo percurso de vida «caracterizado pela intensa actividade política e académica».
O anúncio foi feito pelo Ministério da Cultura que, em comunicado, destaca o percurso profissional e pessoal deste historiador, poeta e ensaísta, e enaltece também o seu «constante compromisso com a cultura e língua portuguesas, nas quais e para as quais ajudou a preservar e a compreender, com a sua obra, uma parcela fundamental da memória nacional».
«Para além da relevância do seu percurso científico no âmbito da historiografia portuguesa, foi sublinhada a grande erudição e acessibilidade da sua obra, e o seu comprometimento com a cultura e a língua, evidenciado no modo como integra na narrativa dos acontecimentos a caracterização detalhada de instituições, informações demográficas e estruturas económicas, sociais e culturais», acrescenta a nota.
António Borges Coelho. Foto de arquivo. Créditos
Nascido em Murça, Trás-os-Montes, a 7 de Outubro de 1928, António Borges Coelho frequentou o Seminário de Montariol (Braga), que abandonou por falta de vocação para o sacerdócio, segundo a nota biográfica disponibilizada pelo Ministério da Cultura.
Borges Coelho mudou-se para Lisboa para estudar Direito, mas acabou por frequentar o curso de História. Em 1962 retomou a sua licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, que concluiu, em 1969, com uma tese sobre Leibniz.
Ex-militante do Partido Comunista, António Borges Coelho actuou na clandestinidade antes do 25 de Abril, tendo feito parte da oposição ao regime político, o que lhe valeu perseguições e a prisão durante vários anos, para além do impedimento de dar aulas no ensino oficial.
Em 1974, após a revolução, iniciou a sua actividade de docente no Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leccionou largos anos e participou em numerosas provas de mestrado, de doutoramento e de agregação.
Passou a professor catedrático dessa faculdade, em 1993, com uma tese sobre a Inquisição de Évora.
A sua vasta bibliografia inclui, também, poesia, teatro e ficção. Foi também repórter do jornal A Capital, então dirigido por Norberto Lopes e Mário Neves, entre Fevereiro de 1968 e Dezembro e 1969.
António Borges Coelho desenvolveu também investigação de diversos temas da História de Portugal, de que resultaram obras como Raízes da Expansão Portuguesa (1964), A Revolução de 1383 (1965), Comunas ou Concelhos (1973), da série Questionar a História (seis volumes, 1983-2007),  Quadros para Uma Viagem a Portugal no Século XVI (1986), A Inquisição de Évora (dois volumes, 1987),  O Vice-Rei Dom João de Castro (2003), Ruas e gentes da Lisboa Quinhentista (2006).
Desde 2010 que, com Donde Viemos, iniciou a publicação de uma História de Portugal que conta, até agora, seis volumes publicados – o mais recente dos quais dedicado ao período que vai da Restauração ao Ouro do Brasil.
Nos anos 1970, organizou a obra Portugal na Espanha Árabe (1972-1975), em quatro volumes, considerada uma obra de referência nas investigações sobre o período árabe em Portugal.
Como ensaísta, é autor de títulos como Alexandre Herculano (1965), Leibniz. O Homem. A Teoria da Ciência (1969) e O 25 de Abril e o Problema da Independência Nacional (1975).
Como poeta publicou Roseira Verde (1962), Ponte Submersa (1969), Fortaleza (1974), No Mar Oceano (1981) e Ao Rés da Terra (2002), entre outros.
Escreveu ainda peças para teatro, como Príncipe Perfeito (1988) e Sobre os rios de Babilónia (2001). Na área da ficção é autor de Tempo de Lacraus (1999) e de Youkali é o País dos Nossos Desejos (2005), entre outros títulos.
Fundou e dirigiu a revista História e Sociedade, participou em diversos congressos e reuniões científicas, e durante 24 anos leccionou na Faculdade de Letras, onde deu a Última Lição no dia 11 de Dezembro de 1998.
Atualmente com 90 anos, António Borges Coelho continua a dedicar-se aos estudos de história e à investigação de novas temáticas para a sua História de Portugal e está a preparar uma antologia dos seus poemas.
No ano passado foi distinguido com o Prémio da Universidade de Lisboa, tributo de consagração pelo trabalho que desenvolveu naquela instituição, e com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, entregue pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
António Borges Coelho já havia sido agraciado anteriormente com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’lago da Espada e com o Prémio da Fundação Internacional Racionalista.

com Agência Lusa
https://www.abrilabril.pt/cultura/antonio-borges-coelho-distinguido-com-medalha-de-merito-cultural?fbclid=IwAR3T_y2nQDPVagwAcQmzBvqw499qcV5wpB0hWZSET200FE2h_6JNswG303g
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16dez2018

“Sem a prisão e a preocupação pelas minorias eu não teria ido para História”


Primeiro foi a fé em Deus, depois o choque com os homens e o sonho da escrita hipotecado por achar que teria de ser útil a uma sociedade que oprimia muita gente. O historiador António Borges Coelho saiu do seminário para as celas da PIDE onde conheceu Álvaro Cunhal e encontrou lá sua vocação. Sem a prisão nunca teria sido historiador, diz, aos 90 anos, a trabalhar em mais um volume da sua História de Portugal.

Uma reprodução das Tentações de Bosch apresenta-se discreta numa das paredes do escritório de António Borges Coelho. A luz da manhã não chega a iluminá-la, só o campo de visão do historiador é capaz de a detectar entre centenas de livros de história, filosofia, poesia, ficção, arte e muitas fotografias de família. Bosch ao lado de Borges e de costas para a linha do mar da Parede onde vive, no canto, a que chama “o buraco” e se senta todos os dias para escrever. Aos 90 anos, o historiador, poeta, ficcionista, ex-militante do Partido Comunista, catedrático jubilado da Universidade de Lisboa que este ano o distinguiu com um prémio de carreira, é um leitor compulsivo de ficção e está a escrever o 7.º volume da sua História de Portugal. Fomos encontrá-lo a restabelecer-se de ser o centro das atenções. Prefere o silêncio dos livros, a rotina do café pela manhã, a leitura dos jornais e a concentração em tudo o que ainda tem para fazer. Falou mais do seu passado do que do seu presente, como quem faz a sua historiografia pessoal, a que o levou a ser o historiador António Borges Coelho, um homem que perdeu a fé num deus dogmático, num partido dogmático e se diz um céptico, até mesmo um manipulador. Com muito riso pelo meio.
 2018 tem sido um ano especial para si.
 Descobriram que eu fazia 90 anos!
 E foi condecorado, continua a reedição da sua obra, saiu o 6.º volume da sua História de Portugal e debate-se o que é a historiografia de António Borges Coelho. Consegue defini-la?
Tenho muita dificuldade em falar do meu trabalho. Nasceu um pouco fora da academia. Tive sempre uma certa atracção pela História e o primeiro contacto foi excepcional. Já contei isto, mas repito: foi na instrução primária depois de ter lido o que o [filólogo Manuel] Rodrigues Lapa fez da Crónica de D. João I, do Fernão Lopes. Fiquei encantado com aquilo.
Que encanto foi esse?
De tal maneira, que no exame final da 4.ª classe fiz uma crítica à Leonor Teles. Coitadinha, até gosto muito dela.

A crítica baseava-se em quê?
Em ela não ser fiel ao marido. Mas era a flor da época. O Fernão Lopes traça um retrato fantástico dela, dá a mulher que era e que pôs as outras mulheres a serem respeitadas pelos maridos. E mostra que era uma política activa que se passou para o lado de Castela, mas depois queria ficar rainha e pôr também o rei de Castela fora. Era uma mulher muito rica e complexa; ainda por cima bela. Não terá de ser a mulher de que podemos mais gostar, mas...
Essa sua primeira abordagem foi moral.
É verdade. Mas hoje é pouco moral. Isto é, os factos têm intrinsecamente uma moral. Se estou a falar na escravatura não preciso de dizer que a escravatura é má. Digo que o escravo ia agrilhoado trabalhar, ou que era chicoteado. Isto é péssimo, mas não preciso de dizer que é péssimo. O [Alexandre] Herculano, por exemplo, na História de Portugal, a história política, é um moralista do arco-da-velha.
 Olha-se sempre o passado à luz do presente. Quando hoje se lê a escravatura é difícil fugir a esse julgamento.
Logo o século XVI, temos Fernando de Oliveira, um grande escritor que tinha sido frade e ido para Inglaterra, e que faz um ataque terrível à escravatura. Moralmente, eticamente. São as condições económico-sociais em que não há máquinas. A máquina é a enxada, são máquinas rudimentares; o trabalho físico do homem era essencial para reproduzir as condições da existência. E, nesse sentido, a escravatura avança. O Padre António Vieira é considerado o grande opositor da escravatura e nunca se opôs à escravatura do negro. Mesmo em relação aos índios, ele diz que nas aldeias não viviam melhor do que os escravos, porque tinham de trabalhar meio ano para os colonos e no outro meio garantir a sua subsistência, a da aldeia e a dos próprios padres.

Como se deve, então, contar hoje a escravatura? A responsabilização, ou até um assumir de culpa, deve estar implícita?
Não poria bem nesses termos. Há uma imagem que é do Marx segundo a qual o esqueleto do homem permite-nos escolher melhor o esqueleto do macaco. Porquê? Porque é mais complexo. A nossa realidade hoje é muito mais rica e mais complexa; podemos fazê-lo, embora com cuidado, para não transferir os nossos valores para o passado. Mas esses valores não nasceram do nada hoje. Já existiam. Outro exemplo: diz-se que a Inquisição foi fruto da época. Foi fruto da época para quem? Para as vítimas?! As vítimas iam a cantar satisfeitas? Os parentes das vítimas?! E aqueles que chegavam e sobre os quais depois se dizia que afinal eram mártires! Acontecia nos autos de fé. Porque é que a dada altura o rei D. João V não pode fazer os autos de fé no Campo das Cebolas? Porque houve um levantamento e não havia segurança para fazer o auto de fé. Passaram a fazê-lo na Igreja de S. Domingos ou ali à roda de S. Domingos. Esses valores não têm força nessa época, mas há valores que estão implícitos e começam logo. Nós hoje temos uma vista muito mais aguda para olhar em relação a esse passado, mas se partimos logo de uma atitude moral estamos a viciar e não vamos até ao fundo.

Este é o seu sítio de escrita.
Este é o meu buraco. Aqui trabalho bem.

Quantas horas passa aqui?
Depende muito. Há uns meses ainda trabalhava bastantes horas, sobretudo da parte da manhã. Normalmente vou ao café de manhã e depois estou a trabalhar até ao almoço. É a parte mais criativa. À tarde continuo e, uma parte que para mim é importantíssima, é o café depois de almoço. Dá-me moleza. Na minha idade é essencial o café. De manhã e a seguir ao almoço. Mas continuo a trabalhar até aí às cinco. Ainda trabalho umas horas. O pior é esta máquina [aponta o portátil] que me dá cabo do juízo.

Escreve só ao computador?
Não. Escrevo também à mão. Mas à mão, para um longo texto, já não dá; demora muito tempo; mas para afinar a prosa tiro para o papel e depois brinco com aquilo. Aqui [no computador] não se brinca, é um ajudante e mais nada. E trabalho bastante a prosa. Ainda se fosse outro tipo de prosa, mas é a prosa histórica, tem cada pastilha monumental e para lhe dar um ar minimamente aceitável dá um trabalhão. Estou muito ligado à expressão oral e o que me vem à cabeça, em princípio, não está organizado. Gramaticalmente. Aquilo sai em torrente e acabou. Depois tenho de lhe dar sentido e gramática. Mas a primeira versão do texto escrito?! Onde é que ela fica! Se estou a contar a história de um indivíduo ou um acontecimento aí a prosa é mais fácil. E, sem prejudicar a verdade da História; até lhe dá, por vezes, mais realismo objectivo. Podemos libertar-nos um pouco na prosa. Agora imagine que estou a analisar um relatório económico, que prosa é que vou meter naquilo? Tenho de pôr os números, tem de ser chato, quer eu queira quer não. Claro que posso pôr uma ou duas frases no meio para amenizar sem trair o conteúdo. Mas ampliar a visão daquele pequenino pormenor aritmético… Enfim, a escrita da História dá um bocado de trabalho. Gosto quando as coisas estão a sair, mas a informação é tão vasta, temos de nos embeber numa tal informação, quase viver naquela época, ouvir a voz da época, até a frase da época que não é igual à frase actual. E a própria palavra, por vezes, já não tem o sentido que tem hoje.


Começou por dizer que não tinha começado na História da forma mais académica. Como olha para o seu trajecto de historiador?
A minha abertura para a História foi em Peniche [na prisão]. Eu já tinha tirado o primeiro ano do curso de Histórico-Filosóficas e considerava que aquele relato era um bocado vazio. 

Tem dito isso, por exemplo, em relação à presença dos muçulmanos na Península.
Isso nem sequer havia, nem sequer existiam. Para mim, era um absurdo. Como era possível, sobre uma civilização que nessa altura não era inferior em desenvolvimento à cristã? Não havia nada, não havia restos, documentos, não havia provas, nada. Isso levou-me à escrita, à tradução e à análise de um livro que me deu outro livro, Comunas ou Concelhos. Mas nunca teria sido escritor sem ter escrito o Portugal na Espanha Árabe

Pode-se dizer que sem a prisão de Peniche não teríamos o historiador Borges Coelho?
Com certeza. Sem a prisão e a preocupação pelas minorias eu não teria ido para História, embora eu já viesse de uma atitude revolucionária, a olhar para os oprimidos. A saída do seminário levou-me nesse sentido. Eu, que tinha sido atraído pela figura do fundador da Ordem Franciscana, saio e sou chocado com a miséria do final da II Guerra Mundial. Saí em 1945 e aquilo chocou-me. Fui sempre muito sensível e muito aberto às minorias e ao sofrimento dos outros.

Nasceu em Trás-os-Montes, em Murça...
A terra da porca, que é mãe dos de fora e madrasta dos da terra.

Como foi a sua infância?
Ainda vim a Lisboa, onde tirei a 2ª classe. O meu pai era guarda-fios e migrou para Lisboa. Mas foi um contacto fantástico com a natureza. Aquela paisagem marcou-me, vale e montanha, vale e montanha, ribeira, rio, os animais. Por vezes, brutal. A luta de cães era um fenómeno quase medieval. As pessoas de lado a incitarem os cães na luta quase até à morte. Era uma paisagem forte, com uma grandeza espantosa e isso marcou-me para toda a vida. 

Foi aí que nasceu a sensibilidade poética?
Tem muito a ver com isso. E também com a minha própria sensibilidade. E a beleza não está só na montanha; está na planície. Hoje adoro o Alentejo; acho uma paisagem espantosa. Sou menos sensível à paisagem minhota. Embora do alto do seminário franciscano onde andei se visse o Vale do Cávado até ao mar. Era um espectáculo fabuloso. 

Estamos a falar de uma altura em que muito pouca gente tinha acesso à educação. Vai parar ao seminário por vocação ou porque era a maneira de continuar a estudar?
Na altura, alguém com boa intenção, me deu a ler As Florinhas de S. Francisco, episódios que, aos olhos de hoje, fazem lembrar a vida de um hippie. S. Francisco é quase um hippie. Aquilo caiu-me no goto, a leitura marcou-me.


Que idade tinha?
Uns dez anos. Acabei a 4.ª classe, mas antes tive uma professora republicana... primeiro tive um professor ligado ao regime e ao fascismo, e depois tive uma professora republicana, e ela queria-me tirar da ideia ir para padre. E eu respondia: "Mas não vou para esses padres, esses padres não me interessam. Vou para os outros, para o Francisco." E lá fui. E aquele primeiro choque quando entro no seminário, à noite, a chover, em Outubro; o meu pai ficava à porta e lutou para dormir lá. E lá conseguiu. Entro no dormitório, cento e tal rapazes a despirem a roupa debaixo dos lençóis para tirarem as calças, um silêncio... e eu fiz uma pergunta e ficou logo tudo em pânico. Aquilo chocou-me. Aquelas imagens do Francisco com as chagas por tudo o que era sítio, nas paredes, nas portas... Eu vinha da montanha. Mas qual foi a minha resposta? Cristo também sofreu e temos de sofrer. E assim foi até ao quarto ano. No quinto ano já não era assim.

Foi perdendo a fé.
Não totalmente. Queria ir-me embora. Mas as pessoas sabiam por que é que eu tinha ido. Eu, no fundo, não tinha tido outra saída. Nós éramos seis. Os professores pediram à minha mãe para o meu irmão mais velho ir estudar. Ele foi para o liceu. Naquela altura, na minha terra, havia talvez seis pessoas no liceu em Vila Real. O segundo foi para a escola industrial. O terceiro para onde iria? Para a loja do meu pai onde se vendia tudo? Mas isso não foi o decisivo. O decisivo foi a fé. Quando contei à minha mãe ela ficou contentíssima da vida, ia ter um padre na família. Depois foi a desilusão completa.

Foi expulso do seminário. Como é que isso acontece e como é que depois isso muda completamente a sua vida?
Eu escrevia cartas para a família a dizer que me queria ir embora; os frades guardavam as cartas no capucho e vinham falar comigo. E eu mais outros tivemos a ideia de fugir. Quando as coisas chegaram a este extremo um dia foram-me buscar, retiraram-me do grupo, dormi separado e no dia seguinte fui enviado com a passagem para a terra e uma carta a dizer à minha mãe que as más leituras tinham dado cabo de mim.

Que "más" leituras eram essas e como lhe chegavam?
Eram notas dos livros que eu gostava de ler e que eram censurados. Os Maias, etc. Livros que eu gostaria de ler e nunca tinha lido. Tivemos um professor de literatura que nos leu duas coisas fabulosas: alguns contos do Torga, d'Os Bichos, e leu-nos A História da República Romana, do Oliveira Martins. Nesta segunda leitura tiraram-lhe o livro da cela e não houve mais leituras. Houve outro padre que escrevia motivos de ordem religiosa, e escrevia muitíssimo bem em língua portuguesa. E ainda houve outro por quem tive sempre uma ternura muito grande, muito velhinho, colaborador da Colecção Sá da Costa, tradutor de grego, que era um padre que já vivia noutro mundo. Os que estavam já em dúvidas iam-se confessar a ele. Ele dizia: "Diz. lá, diz lá." E começava a estremecer, desaparecia e a dada altura acordava: "Já que não dizes nada vai-te embora. Eu te abençoo..." Era o padre Eusébio Dias Palmeira, poeta da natureza e, pelos vistos, um homem sabedor de grego.

Que dúvidas punha na confissão?
A minha primeira grande dúvida foi a da eucaristia. Logo nos primeiros anos. Íamos à missa, e quando ia comungar tinha uma tentação na cabeça a dizer "a hóstia é pão, a hóstia é pão" e ao mesmo tempo eu dizia: "Sai da minha cabeça!" Aquilo marcava-me, era a ideia do realismo.


Contra a ideia do corpo de Cristo.
Exactamente. Que estava ali o corpo de Cristo, em que não se podia sequer tocar com os dentes, etc. Quando saio, a leitura das provas de São Tomás [a quinque viae, ou as cinco vias que provam a existência de Deus, de S. Tomás de Aquino] é que me levam ao ateísmo. Mas, afinal, é isto que prova a existência de Deus?! Isto são falácias, são cinco falácias. Aquelas perguntas que se fazem e continuamos a fazer. Como é que o mundo apareceu? Há sempre uma série de perguntas que podemos fazer, e a explicação, mais outra explicação não esgota. Agora, a religião que dita com base nos livros sagrados deixa-me completamente... não é inerte. Gosto muito de ler os salmos; os evangelhos são textos moralmente magníficos, digamos...

Quando diz que gosta muito de ler os Salmos, é literariamente?
Sim. O Deus do Velho Testamento é horrível. Ezequiel ter filhos de não sei quantas mulheres! Há coisas incríveis no Velho Testamento; dizer ao pai que vá matar o filho para mostrar a sua fidelidade a Deus; destruir toda uma cidade, Sodoma e Gomorra. Aquilo é a história de um povo, e as crenças e a organização ainda no início da História; não pode ser aceite racionalmente como a base de tudo. E durante séculos, a realidade e a visão da realidade tinha que não contradizer os dogmas do Velho Testamento e do Novo Testamento, que Cristo era Deus homem, etc. São ideias que não me dizem nada. Nem perante a morte. A morte sim, quem é que não tem medo da morte? Mas estou resignado com ela. Cá a espero, aqui no buraco, se possível. No hospital não me agradava nada, mas aqui no buraco, em paz, sossegado.

Diz que se sentiu ateu depois de ler S. Tomás de Aquino. Imagino que não tenha sido imediato. O que se passou na sua cabeça?
Estive mais de um mês para deixar de rezar o Acto de Contrição ao deitar. Estava uma hora, duas horas sem dormir e sempre com a cabeça a martelar: e se existir? E se existir? E acabava por rezar o Acto de Contrição...

...pelo sim pelo não
Exacto. Até que um dia disse "acaba lá com isso", e acabei. Até hoje. E quanta gente os rezou por mim! E que ainda hoje reza. Para eu, se não rezar o Acto de Contrição, falar menos sobre isto. É verdade.

O despertar da consciência política tem a ver com a morte do homem de fé?
O que tem a ver é o homem desencantado, o jovenzinho. Tinha uns 16 anos. E que começa a ler. Li A Relíquia. O primeiro livro que comprei foi do Balzac, A Mulher de Trinta Anos, imagine! Às escondidas da minha mãe. Havia uma lata enterrada no chão de onde me trouxeram A Relíquia.

Essa lata é famosa. Dela também vieram os livros de Marx.
Sim, e é uma coisa inteiramente verdadeira, a lata de um homem que tinha sofrido imenso com a PIDE; era pedreiro, tinham-lhe partido os dentes. Não tenho a certeza se foi ele quem me deu a ler Marx, mas é provável. Mas foi ali que li O Manifesto do Partido Comunista, que li com os rapazes do meu tempo, na minha terra. Li como quem lê um poema; uma tradução espanhola magnífica. A PIDE apanhou-a entre os livros que eu tinha.


Que efeitos teve isso em si?
O Partido Comunista levou-me o primeiro [jornal] Avante!; o primeiro Avante! que li foi em Murça.

Começou a ser catequizado.
Sim, mas vim para cá [Lisboa] e perdi o contacto, e o contacto era a leitura do Avante!; não era mais nada. Li dois ou três.

Vem para Lisboa para a Faculdade.
Exacto. Tive de fazer exame de admissão a Direito; fiz e entrei em Direito. Estive três meses sem dinheiro, sem emprego, sem quarto para dormir.

Como é que vivia?
No quarto de um amigo da minha terra. Ele estava a tirar Agronomia. Lá dormia, com grande protesto da dona da casa. E com estudantes de Medicina, um deles também da minha terra; pagavam-me sandes; apoiaram-me até eu arranjar emprego ao cabo de três meses. Eu era estudante-trabalhador. 

Fazer o quê?
Fui para a Junta Autónoma de Estradas. É uma história com piada. Fui à Junta Autónoma e perguntei a um contínuo quem é que mandava ali. Ele disse-me que era o senhor Esteves. Perguntei de onde era. Era de Trás-os-Montes. Então dei a volta, fui a outro contínuo e disse-lhe que queria falar com o senhor Esteves; que lhe dissesse que era um rapaz de Trás-os-Montes, e ele mandou-me chamar. Eu disse-lhe que não era da terra dele, mas que era transmontano: "Estou cheio de fome, há três meses que tenho esta vida e tenho estas habilitações". Ouviu. Pediu-me para ir trabalhar no dia seguinte e que metesse os papéis para o concurso. Assim fiz e comecei a trabalhar no dia seguinte. Era um completo ignorante de trabalho de escritório. Houve o concurso, fiquei em primeiro lugar e ele não ficou arrependido. O pior foi depois, quando a PIDE foi à minha procura e eu desapareci do mapa. 

Estava ligado ao MUD Juvenil.
Sim, liguei-me logo na faculdade. Eu era trabalhador-estudante e entrei no mundo dos jovens trabalhadores; controlei a fábrica de material de Braço de Prata. 

O que o atraiu? Não era só a oposição ao regime…
Não. Eu era extremamente sensível ao perigo da guerra atómica mundial. Houve umas imagens que me marcaram, as de uma revista norte-americana com Moscovo bombardeada atomicamente. Imagens infernais. Eu queria ser escritor e, naquela altura, perante aquilo, perguntei-me porquê. Que vida era essa? Era preciso era lutar.


Ser escritor parecia-lhe inútil?
Sim. 

E lutar ao lado do Partido Comunista?
Exactamente. No MUD Juvenil já tinha contacto com o PC, e depois fui funcionário do PC durante meio ano.

Tem dito que um historiador tem de estar envolvido na política. Envolveu-se de forma activa, a sua historiografia foi marcada pelo marxismo, mas Marx não foi o único a influenciá-lo na abordagem da História. Até que ponto essa marca subsiste?
A História é a história dos homens e a história dos homens envolve a política. A École des Analles, que me influenciou também muito, deu particular importância à história económica e à história social; e a história social vem também da influência de Marx. Sobre esta história do marxista e do não- marxista posso-lhe dizer que sou marxista. Mas sou, de facto, no terreno? O Marx criou um modelo de História? Tudo isso é muito complicado. O Marx influenciou-me. A luta de classes? Sim, há a luta de classes. A ideia de luta de classes não é dele, ele pô-la em primeiro plano. Isso foi fundamental no meu trabalho e é fundamental hoje. Inclusive os que negam a obra de Marx utilizam-na brutalmente para evitar os seus efeitos. Agora se tudo é Marx? Antes e depois? Que ele envolveu tudo o que veio antes e que parou ali o movimento filosófico, social e político? Isso para mim é um absurdo. Olhando para o que escrevi, inicialmente fui muito marcado, mas fui desde logo marcado pelos Analles; e pelo [Vitorino] Magalhães Godinho, que li em Peniche — não li Marx em Peniche, li-o cá fora, antes de ir para a prisão. Os leitores e os historiadores voltados para a historiografia dirão muito melhor do que eu o que foram as minhas influências. Porque as minhas influências no sentido filosófico vêm muito de trás. Eu tive uma cultura filosófica, desde os gregos aos filósofos modernos. Li menos os filósofos contemporâneos, mas da história da Filosofia, li originais, não li o que é que escrevem sobre os originais. Que moldam e moldaram o meu pensamento. O próprio Espinosa. Fui à procura da influência dele, dos cristãos novos para a cultura portuguesa, e o que encontrei mais profundamente foi a ele próprio.

Já falou de Peniche como determinante, mas não falou em concreto sobre o que o levou à prisão. É uma história cheia de detalhes que ajudam a defini-lo.
Fui parar a Peniche porque era funcionário do PC e porque me entraram em casa duas brigadas da PIDE. Eu vivia numa casa na Rua dos Ferreiros, a Santa Catarina, e a casa tinha uma pia para a cozinha e uma pia para os humanos; tinha na sala uma divisória onde eu tinha um divã e os donos da casa tinham um quarto e tinham a cozinha. Entraram duas brigadas aí ao meio-dia e fui levado para a PIDE. 

O que encontraram?
Uma mala cheia de papéis, impediram-me de chegar às janelas, mas quando cheguei ao poial da porta dei os gritos mais altos da minha vida. Viva a Liberdade! Viva a Democracia! E o último: Abaixo a PIDE! E quando disse “abaixo a PIDE!”, as pessoas que iam na rua viraram costas ao sentido de marcha e diziam "está ali um maluco qualquer"; "aquele gajo enlouqueceu". E lá vou eu lá para cima, para as salas da tortura. Mas quando ia a subir a escada, as calças tinham o bolso roto e o lenço começou-me a cair pelas pernas abaixo. Eu baixei-me para o apanhar e o PIDE dá um salto. "Onde é que está a pistola?" [risos] E lá vou, para fazer estátua, permanecer em pé. Estava lá uma cadeira e eu sentei-me na cadeira. O PIDE dizia-me que eu não podia estar ali sentado. Mas eu ficava, ate que vieram mais, viram que eu estava muito verde e acabaram o princípio da estátua e mandaram-me para as celas do Aljube, onde estive seis meses seguidos numa cela da largura do meu corpo, com muito pouca luz, com um bailique que descia à noite para eu dormir.

Como acha que sobreviveu a isso sem enlouquecer?
Eu tive um ataque. Fiz greve de fome nas celas, fui levado para a enfermaria, na enfermaria entrei em contacto com os vizinhos do Aljube e eles aperceberam-se e puseram-me numa cela durante uma semana em que não havia sequer luz. Era sempre escuro, sempre noite. A memória é a nossa defesa. Isso é pior do que o espancamento, porque o espancamento ou é cobardia ou uma reacção de esforço e de ódio. Ali não, é o nada. Então veio a memória, e a memória tem limites que eu não imaginava.

Refugiava-se na memória?
Sim. Andar na cela era um passo para a frente e outro para trás [faz o movimento com os dedos da mão]. 

Pensava em quê?
Na infância, nas mulheres que amei. É claro que havia um período em que saia da cela para despejar o balde. E foram seis meses. Depois fui para Caxias e de Caxias fui levado para o Porto onde fui julgado e condenado a dois anos e nove meses de prisão maior.

Em Peniche.
E estive lá cinco anos, e, ao todo, seis anos e meio no cárcere.

Peniche na altura não era a prisão mais simpática...
Não era não, era a prisão de alta segurança.

Onde conheceu Álvaro Cunhal.
Nessa altura, na alta segurança, estavam dois presos: o Álvaro Cunhal e o Rogério de Carvalho. E cheguei com mais três companheiros.

Qual era a relação entre vós?
Havia uma hora para escrever à família e um momento em que podíamos estar os seis. Quando isso acontecia havia um guarda, perguntávamos-lhe se podíamos perguntar qualquer coisa a outro. Ele pedia-nos para aguardar ou dizia simplesmente que não. Depois tínhamos a descasca da batata e a limpeza. Na limpeza podíamos falar, e havia uma hora de recreio quando não estávamos castigados ou não estava a chover. Nessa hora de recreio, podíamos falar, mas o guarda ia no meio e dizia: “Fale mais alto que eu também quero ouvir”. É claro que a gente falava e, conseguia falar mesmo sem o guarda ouvir, ou ouvindo não percebia o que estávamos a dizer.

Essas conversas deram para planear uma fuga...
Dão sempre. E deram para eu levar textos proibidos debaixo da camisola; um texto do Cunhal, por exemplo. E para levar livros de arte que ele estava autorizado a receber. Aprendi com eles alguma coisa de história da Pintura nesse sentido. 

A fuga de Peniche acontece a 3 de Janeiro, de 1960. Recusou-se a fugir com eles. Porquê?
É verdade. Havia várias razões. Eu não queria volta à vida de funcionário do PC e tinha o meu projecto.

Esse projecto definiu-se na prisão.
Sim. E era escrever História e escrever para lá da História. Isto é, ser escritor. Se eu fugisse a vida teria de ser a clandestinidade, não podia ser outra.

Os outros não olharam muito bem a sua opção...
Não, não olharam.

Como ficou a sua relação com Álvaro Cunhal?
Ele tentou convencer-me duas vezes. Leu-me um livro que ficaria célebre, Até Amanhã Camaradas, que naquela altura se chamava A Mulher do Lenço Preto. E eu disse-lhe: "Desculpa, mas não".

Ele desculpou?
Mais tarde, sim. Na altura não. Ficámos isolados, os que ficaram. Completamente isolados. 

Há outra história, é que casa em Peniche. Já tinha namorada quando foi para lá.
Já tinha uma companheira. 

Era uma enfermeira que lutava para que as enfermeiras tivessem autorização para casar. Como é que nasce essa história de amor e como é que ela evolui para um casamento na prisão depois de ela própria ter estado presa?
Ela esteve presa quatro anos. E nem sequer era comunista. Acusaram-na de ser comunista por, no julgamento, ter defendido a situação das enfermeiras: como viviam, o que ganhavam, o horário de trabalho. Era infernal. E não podiam casar. Alguém me vem dizer: há uma enfermeira ligada a uma luta e a recolher assinaturas e a ter encontros para conseguir que aprovem o casamento das enfermeiras. Consegui um encontro com ela, no café Realto. Foi aí que a conheci e daí a namorarmos não demorou muito tempo. Só que passados poucos meses ela vai a uma sede do MUD Juvenil e quando chegou estava lá a PIDE. Foi tudo preso. Ela ainda comeu um bilhete para um jantar que ia ser feito, mas descobriram que era ela a casamenteira e ficou lá uns seis meses; armaram-lhe um processo sem pés nem cabeça e o juiz presidente do tribunal considerou que ela era comunista. Houve um grande movimento cá fora para a sua libertação e no julgamento participaram a Maria Lamas, a Maria Isabel Aboim Inglez, o Alexandre O'Neill, uma série de intelectuais e de enfermeiras. Houve inscrições nas paredes, etc. Isso só irritou ainda mais a PIDE e foi condenada a dois anos de prisão maior.

Foi presa antes de si.
Foi presa em 1953 e eu em 57. Quando saiu não me podia visitar. Só se fosse casada comigo. 

Como foi o casamento?
Havia uma mesa, ela estava de um lado e eu do outro, separados. Estava o meu sogro, estavam os meus padrinhos de um lado —? o O'Neill e a Maria Amélia Padez — e estavam os meus cunhados do outro lado, que eram os padrinhos dela.  O meu sogro começou a passear na sala e a dizer que não havia direito e, por fim, passaram-na para o meu lado. Lá estivemos até ao fim da refeição que o meu sogro tinha levado. Depois ela foi embora, levava uma grande companhia de Lisboa e foi dormir com a mãe nessa noite e eu fiz um poema, O Casamento Branco.

Tem esse poema?
Tenho. Não sei de cor. Hoje é muito difícil ficar com esses textos na cabeça, porque a História deu-me cabo da memória. É terrível. É uma sanguessuga. A memória é dominada pela informação brutal que nos cai em cima. 

Sai de Peniche com a decisão de ser historiador...
E vou continuar as leituras e comecei a escrever. Escrevi quase ao mesmo tempo As Raízes da Expansão Portuguesa e A Revolução de 1383-85. Um foi censurado, o outro...

Foi polémico.
Fui ameaçado, porque havia gente conservadora que gostava do livro. 

[pede licença para se ausentar por uns momentos]
Aqui estou outra vez, o cadáver adiado [risos]
[Conta a história de duas fotografias]. Aquela foi feita por uma companheira de presídio da minha mulher. Essa colega era da comissão Central do MUD Juvenil, mulher do Pedro Ramos de Almeida. Eu não tinha fotografia no julgamento, éramos 52 e o único que não tinha fotografia era eu. Ela fez-me o “boneco” e foi exactamente aquele “boneco” que apareceu depois numa fotografia colectiva. 
Quando decide o que vai tratar na História, opta pela fundação, pela Idade Média. Porquê?
A decisão é um dos grandes problemas. É quase como o pintor que está a pintar e tem de compor, o que vai meter ali; ou o romancista. Tem de arranjar um enredo, só que em História o enredo não é inventado. Há protocolos de informação que se vão tirando dos documentos, dos depoimentos que existem mais na História Contemporânea. Depois desses protocolos é preciso começar a pensar qual é a importância para a evolução dos acontecimentos — porque a História é movimento. Nós, ao contar, queremos dar movimento e vamos pará-lo na descrição. Ao descrever, aquilo parou. E temos que ver o que é que parado traz em si a explicação do movimento anterior. É um trabalho muito complexo.

Nunca está feito.
Nunca. Isto é, nunca podemos dizer: isto é definitivo. Seria completamente dogmático. Claro que cair no cepticismo de que a História é puramente subjectiva é um discurso. 

Tem dito que é um céptico.
Eu disse mesmo que era um manipulador, estou a trabalhar com as mãos. Mas não é manipulador no sentido de que vou alterar, ou quero enganar, fazer notícias falsas. Não é nesse sentido. 

Estamos a falar de uma ciência humana que depende muito de ciências exactas...
A própria Física se renova, não é só a História. A metodologia avançou muito, mas o texto logo que acabou de ser escrito está morto; isto é, entrou no estado sólido. Já não está no estado líquido. Esse estado sólido vai sendo consumido, vai sendo destruído, ou envelhecido. Há sempre coisas novas que vão surgir na leitura de hoje daquilo que se escreveu no passado. Por exemplo, hoje não escreveria exactamente Comunas e Concelhos como escrevi.

O que mudaria?
A circunstância em que escrevi. Os livros no tempo do fascismo têm outra acutilância. Não estão zangados, mas estão com mais força na linguagem. Há épocas em que estão mais pacíficos. Não é que mude o que se quer dizer, mas estão menos zangados, digamos.


Quando olha para alguns dos seus livros mais marcantes, por exemplo a Revolução de 1383-85 consegue reconhecer-se naquela altura?
É um texto que continua absolutamente válido para mim passados 50 anos. Simplesmente os textos que se seguem — a discussão colectiva com as críticas que foram formuladas e a resposta a essas críticas — validam esse texto. E foi validado na década de 70, de 80 e agora não os alterei. Continuo a considerar válida aquela descrição. Hoje se fosse a escrever podia lá estar a mesma interpretação, mas a minha linguagem já não é exactamente igual. 

O que tem agora que não tinha?
Se calhar não é tão forte como era. Era muito mais forte. Às vezes até eu me admiro. Mas um dos livros, ou ensaios que me deu muito gozo foi aquele em que conto a morte do inquisidor geral. Não me deu gozo o facto de ser neto de um homem que admiro muito na História e na cultura portuguesa, o D. João de Castro, o homem que se aproximou da concepção do método experimental moderno. É um tipo fabuloso. E este era neto. O que é que vou dar do neto? Ele era bispo da Guarda e vou apresentá-lo na hora da morte, dar os objectos que ele tinha à volta, o cuspidor de ouro, as imagens, dando-o depois como inquisidor, o que ele fez. Escrevi esse texto para um congresso sobre a Inquisição organizado por dominicanos; foi a intervenção final, estava muita gente, e aquilo levou-me a perder a memória. Acabei a intervenção sem memória. Li, e as pessoas que me conheciam mais de perto perceberam que eu não estava bem. Telefonaram para o Hospital de Santa Maria e fui para lá. Só de madrugada é que recuperei, mas houve um lapso de tempo desde as duas da tarde à madrugada do dia seguinte de que não recordo nada. 

Sabe porquê?
Não.

Neste momento há muita gente a fazer revisionismo histórico. Já tem falado sobre o assunto, já defendeu por outro lado a existência de um Museu dos Descobrimentos...
O problema não é do museu. Não haver museu é não focarmos e não ensinarmos aos portugueses o que foi o período áureo da História de Portugal, um pequeno país, uma anedota de país, que são 89 mil quilómetros quadrados esteve na vanguarda do planeta. Chamem-lhe o que quiserem. Houve descobrimento. O Atlântico Sul foi descoberto pelos portugueses; os europeus descobriram os americanos e toda a África ao Sul do Equador, e deram a descobrir a si próprios que não se conheciam. Mas isso é o menos. O que quero é que nesse período ponham as navegações dos portugueses e o que eram as sociedades que os portugueses organizaram e toda a verdade dentro do museu. Ponham os povos contactados; como eram e como ficaram. O museu deve ter essas facetas todas. Esse museu deve existir e é essencial para uma cidade como Lisboa. Lisboa foi a cidade desta epopeia. 

Acabou de escrever o 6.º volume da sua História de Portugal. Já começou o 7.º?
Já. Estou a acabar o [Marquês] Pombal.

Já tem data?
Não, nem quero datas, porque o período agora é muito mais complexo para mim. Por um lado, na universidade dei menos este período que estou agora a dar. E é o período de revoluções, o dos jesuítas e o do Pombal. É um período muito contraditório. 

Continua a escrever poesia?
Às vezes, mas é muito raro. A minha intenção é fazer uma breve antologia dos poemas que acho mais significativos. Há alguns que não vou publicar e eram significativos. Por exemplo, um poema que foi traduzido em chinês na altura, Até Logo, dedicado à prisão e à minha mulher. "Há seis meses dissemos até logo, era uma tarde fria de Novembro, uma tarde como qualquer outra, gente regressando do trabalho, lancheiras, malas, rugas profundas no rosto. Até logo, disseste... " e continuava o poema. Mas esse não vou pôr.

Porquê?
Não sei, só se o mutilar. 

Sei que está cansado, não falámos da relação com Alexandre O'Neill que foi muito importante para si...
Muito intensa. Uma das casas onde dormi no MUD Juvenil foi em casa do O'Neill. 

E chegaram a ter um projecto poético conjunto.
Fazer poemas em conjunto. Estávamos em plena loucura, mesmo na minha clandestinidade ele foi lá arriscar. Eu pedir para ele ser meu padrinho de casamento e ele arriscou ir a Peniche. Eu tinha lido um poema dele, Toma Lá Cinco! [Encolhes os ombros, mas o tempo passa... / Ai, afinal, rapaz, o tempo passa! / Um dente que estava são e agora não, / Um cabelo que ainda ontem preto era..."] É um poema que me comoveu imensamente.

E fez um poema a Cunhal.
O Neruda tem um poema, A Lâmpada Marinha, dedicado a dois heróis meus naquele tempo — e ainda hoje são —, o Cunhal e o Militão Ribeiro. E eu, nessa altura, influenciado pelo poema do Neruda, escrevi um poema ao Cunhal. Em Peniche havia o ataque ao culto da personalidade, e quando eu lhe leio o poema ele diz-me: “Eh pá, podia-te dar para pior." E eu rasguei o poema e hoje estou arrependido. Desapareceu como desapareceu outro, Crime em Braço de Prata, por causa da explosão que houve em Braço de Prata que matou uns cinco ou seis jovens do MUD Juvenil. Escrevi um poema que tem uma palavra do O'Neill. Como é que começa? “A cabeça de Ilídio está no meio do largo, a rebotalho de carne e sangue". O rebotalho é do O'Neill.
https://www.publico.pt/2018/12/16/culturaipsilon/noticia/prisao-preocupacao-minorias-nao-ido-historia-1854781?fbclid=IwAR1y-BOKKkoqKg3CEfIsLOFSmOqIQ7VIl9Je9x70d4L5GcCql1iz1LY2Vtc

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LIBERDADE
... amo-te de menino
Encontrei-te
Num mundo de operários
Na prisão

É TEMPO ! É TEMPO!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!

http://ascausasdajulia.blogspot.com/2008/10/parabns-antnio-borges-coelho.html
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7ouTUbro2018...90 aninhos

SOU BARCO
António Borges Coelho nasceu precisamente há 90 anos, no dia 7 de Outubro de 1928. Fez-se poeta, historiador, catedrático e destacado anti-fascista.
Fez também estes versos, “Sou barco”, durante uma sua “visita” com a duração de seis anos ao forte-prisão de Peniche.
O Luis Cília, mal amado por alguns, mas de quem eu gosto (como cantautor e como ser humano) e do qual não esqueço o grande contributo para a canção de resistência, musicou-os e gravou a canção ainda em princípios dos anos 60. Quando era difícil. É uma grande versão original. Seguiram-se outras, pelo próprio autor e por outros intérpretes… mas esta é a “minha”… e fica aqui o convite para a ouvirem.

Parabéns, António Borges Coelho!

https://www.youtube.com/watch?v=8LIFCry38zE

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10213386214790628&set=a.3566896531881&type=3&theater

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Luís Cília

Letra de António Borges Coelho

Sou barco

Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar
 
Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater ao fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo

De seis passos
E o mar a bater ao fundo.
Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde
Teu brando chamamento
Ó mar, venha a onda forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.
https://www.youtube.com/watch?v=8LIFCry38zE
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Roseira Verde (1962)
Raízes da Expansão Portuguesa (1964)
O 25 de Abril e o Problema da Independência Portuguesa
A Revolução de 1383 (1965)
Ponte Submersa (1969)
Portugal na Espanha Árabe (1972-1975)
Comunas ou Concelhos? (1973)
Fortaleza (1974)
No Mar Oceano (1981)
Questionar a História (1983)
A Inquisição em Évora (1987)
Os Nomes das Ruas (1993)
Ao Rés da Terra (poesia) (2002)
História de Portugal I - Donde Viemos (2010)
História de Portugal II - Portugal Medievo (2010)
História de Portugal III - Largada das Naus (2011)
História de Portugal IV - Na Esfera do Mundo (2013)
História de Portugal V - Os Filipes (2015)
História de Portugal VI - Da Restauração ao Ouro do Brasil (2017)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Borges_Coelho

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Avante
11ouTUbro2018

Borges Coelho agraciado na sua universidade

O historiador António Borges Coelho foi distinguido com o Prémio da Universidade de Lisboa (UL), anunciou anteontem a instituição. Borges Coelho matriculou-se pela primeira vez na UL no ano lectivo de 1948/49, mas pouco depois foi preso por actividade no então Movimento de Unidade Democrática – Juvenil. Militante clandestino do PCP, passou seis anos e meio nas cadeias fascistas, tendo retomado a licenciatura em Histórico-Filosóficas na UL em 1962/63.

Já depois do 25 de Abril, leccionou História durante 24 anos (até 1998), tendo-se doutorado com uma tese intitulada «Inquisição de Évora», investigação, publicada em dois volumes em 1987, que levantou polémica por contrariar a historiografia oficial, tendencialmente benévola e acrítica, para um período que Borges Coelho defende ter sido brutal.

De resto, a sua primeira obra, «Raízes da Expansão Portuguesa», de 1964, também apresenta uma perspectiva contra-dominante sobre o período dos descobrimentos portugueses nos séculos XV e XVI.

António Borges Coelho, que completou 90 anos no dia 7 de Outubro, já foi agraciado com o Prémio da Fundação Internacional Racionalista, e pelo Estado português com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada.

http://www.avante.pt/pt/2341//151767/

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9ouTUbro2018

O Prémio Universidade de Lisboa foi atribuído ao historiador António Borges Coelho, 90 anos, autor, entre outras obras, de "Raízes da Expansão Portuguesa" e "Inquisição de Évora", divulgou o júri.


António Borges Coelho é “um nome singular na historiografia portuguesa contemporânea”, lê-se na ata do júri, ao qual presidiu o catedrático de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores António Cruz Serra, reitor da Universidade de Lisboa.

O júri, em ata, destaca o “trabalho inovador” do historiador, que foi aluno desta Universidade e, de 1974 a 1994, professor no Departamento de História da Faculdade de Letras, tendo ensinado centenas de alunos “nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas”.

“Além da relevância do seu percurso científico, muitas vezes perseguido em circunstâncias adversas, o júri sublinhou a grande erudição e acessibilidade da sua obra, e o seu comprometimento com a cultura e a língua, evidenciado no modo como integra na narrativa dos acontecimentos a caracterização detalhada de instituições, informações demográficas, e estruturas económicas, sociais e culturais”, lê-se no mesmo texto.

O júri, que foi ainda constituído por Paulo Macedo, António M. Feijó, Carlos Salema, David Diniz, Eduardo Paz Ferreira, José Pedro Sousa Dias, Leonor Beleza, Maria do Carmo Sousa, Teresa Patrício Gouveia e Vítor Caldeira, destacou a História de Portugal, atualmente com seis volumes, na qual Borges Coelho está a trabalhar.

Para o júri, nesta História de Portugal, António Borges Coelho “cumulativamente delineia uma interpretação global do percurso histórico nacional, das origens à atualidade”.


O Prémio Universidade de Lisboa, com o valor pecuniário de 25.000 euros, será entregue em cerimónia a anunciar pela instituição.

No ano passado, o galardão distinguiu a imunologista Maria de Sousa, uma das primeiras mulheres portuguesas reconhecidas internacionalmente pelas suas descobertas científicas.

O Prémio da Universidade de Lisboa foi instituído em 2006, pelo então reitor José Barata-Moura, tendo sido atribuído pela primeira vez à cientista Odete Ferreira, falecida no passado domingo, aos 93 anos.

António Borges Coelho, natural de Murça, em Trás-os-Montes e Alto Douro, estreou-se editorialmente em 1962, com um livro de poesia, “Roseira Verde”, ao qual se seguiu “Raízes da Expansão Portuguesa” (1964), tendo-se sucedido ensaios historiográficos, obras de poesia, teatro, romance e biografias.

O distinguido matriculou-se em Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no ano letivo de 1948/49, tendo interrompido o sue percurso académico para se dedicar à oposição ao regime do Estado Novo, o que lhe valeu vários anos preso, obras proibidas e terem-lhe sido retirados direitos de cidadania. Voltou à Faculdade de Letras no ano letivo 1962/63, e concluiu a licenciatura com uma tese sobre o pensamento filosófico de Gottfried Leibniz (1646-1716).

Da lista de distinguidos com o Prémio da Universidade de Lisboa fazem parte, entre outros, o químico Jorge Calado, o investigador Adriano Moreira, e o físico nuclear Filipe Duarte Santos.



https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/premio-universidade-de-lisboa-distingue-historiador-antonio-borges-coelho
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1jul2015
'Saí do seminário convencido de que ia para o inferno'


Aos 86 anos, o historiador lança o quinto volume da sua História de Portugal - Os Filipes e trabalha já no próximo. Desculpa para ouvirmos um vulto da Cultura falar não só sobre a História de Portugal, mas também da sua, da descoberta de Marx em Murça através de um pedreiro à prisão em Peniche, da primeira experiência nos jornais à entrada na Faculdade de Letras, dez anos depois de Raízes da Expansão Portuguesa ter feito furor e sido censurado.

Em Os Filipes há algum dado que tenha destapado?
Tem uma estrutura bastante diversificada e que partiu dos factos, uns mais conhecidos, outros menos, uns propositadamente esquecidos e fundamentais que ficaram no limbo e agora foram postos em relevo. Por exemplo, a resistência dos Açores aos Filipes durante três anos é conhecida, mas praticamente poucos portugueses, excepto os açorianos, terão consciência disso. Foi uma resistência terrível. Também não sendo uma novidade, subestima-se o que foi a repressão em Lisboa e o assalto espectacular à capital pelo exército do duque de Alba e pela esquadra do marquês de Santa Cruz. E fala-se na monarquia dual, mas não era nada, era o projecto da monarquia católica universal. É evidente que o elemento que sustentava essa guerra era o ouro e a prata produzidos na América espanhola. Há livros fundamentais e a História de Portugal dirigida por Damião Peres em 1940 tem grandes colaboradores e está em muitos aspectos inteiramente válida hoje.

Pensava que era datada, típica do Estado Novo.
É uma visão nacionalista, mas tem alguns autores que não perderam a actualidade na História política. Nos últimos anos tem havido uma subestimação da História Política. Nenhum autor, sobretudo isolado, pode abarcar toda a vastíssima informação que houve no passado. Também não é necessário lê-la toda, mas a mais significativa. Não é por deitar pedras daqui da janela que provo a lei da atracção universal. Já está provada. Não se pode é ignorar a História Política. Os homens fazem a História e herdam um passado. Foi assim e não assado porque intervieram, quer colectivamente, quer individualmente. O historiador tem de estar envolvido na política, não pode estar a sachar cebolas e se não acompanha o movimento colectivo não compreende os documentos que lhe aparecem à frente.

Voltando ao livro, há pormenores muito interessantes, como os falsos sebastiões.
É curioso e mostra como aquilo que alguns autores falaram da identidade hispânica e que se davam todos muito bem, ao nível popular, caramba, houve uma reacção que atingiu proporções… Oliveira Martins exagerou ao dizer que Portugal acordou com as bofetadas da França e de Inglaterra. Houve apoios e interesses dos ingleses e dos franceses, mas houve participação popular.

O livro demonstra muitas mudanças de posição.
Não é só hoje. Se hoje fizermos um retrato dos políticos no 25 de Abril e agora há mudanças do arco-da-velha.



Cita muito uma fonte, Pero Roiz Soares, que tem um estilo muito romanceado. É totalmente crível?
A literatura não é inimiga da História. Fernão Lopes, João de Barros ou Alexandre Herculano são grandes escritores. A História não é uma linguagem matemática. Utilizo esta fonte que tem sido completamente ignorada, mas ela é confirmada por uma série de outras fontes. Ele faz um relato fantástico sobretudo de Lisboa num período determinante para a História dos Filipes.

Qual foi o grande erro da dinastia filipina? Não transformar Lisboa na capital do reino?
Isso é entrar muito nos 'ses'. Um dos 'ses' fundamentais é que a grande burguesia foi expropriada. Quem são as principais vítimas da Inquisição? A grande burguesia portuguesa e a que emigrou para Espanha e outros locais e à qual não lhe era permitida o desenvolvimento. Os que se mantiveram cá punham os capitais nos inimigos de Espanha. O grande problema é a derrota do projecto filipino, no final da Guerra dos Trinta Anos, com o Tratado de Vestfália que é a vitória da Europa do Norte, e a derrota do Papado e da monarquia habsburga. Isso de a capital ser Lisboa, especula-se, é uma coisa tradicional. Se tivesse acontecido seria mais difícil a Restauração, indiscutivelmente.

Disse que a História política é subestimada. Revê-se na corrente de Fernand Braudel?
Foi uma grande corrente. Eu fui sempre muito individualista. Se for ver as minhas referências vai ler que me põem sempre como marxista e nem sequer sabem o que li. Tive muita honra e muito orgulho em ler Marx, mas li muitos outros filósofos e muitos outros contemporâneos. A História não se faz através da ideologia, faz-se a partir dos factos e há ferramentas que são específicas da História. Pode-se dizer que Marx me influenciou no sentido de olhar para as pessoas? Sim, e todo o mundo contemporâneo. Há um autor contemporâneo por quem tenho uma admiração especial, o Eric Hobsbawm, que tem uma obra fantástica, A Era dos Extremos, e que é uma época mais difícil trabalhar, que é a época contemporânea. Agora menos, mas durante anos tinha sempre um livro de filosofia à cabeceira. Podia ser de um pré-socrático, podia ser dos dois filósofos que mais estudei na minha vida, Espinosa e Leibniz. Marx influenciou-me na minha vida política, o que não quer dizer que só falo depois de pedir opinião ao Marx.

Revê-se hoje em Marx?
Considero um livro como o primeiro volume de O Capital uma obra admirável. Para achar que tem razão em tudo? Não pode ser esse o espírito de leitura, que é a leitura crítica. Se me perguntar pelo Manifesto Comunista, está actual? Há coisas que estão actuais, outras não. O tempo amarelece as folhas.

Poria a pergunta de outra forma. Revê-se na aplicação do marxismo na política?
Isto vai escandalizar os meus amigos: a aplicação do marxismo é a introdução de um certo espírito religioso na política. Aceito que na política haja certos autores como modelos. Mas não vou pedir licença ao autor tal para aprovar uma certa lei. Temos de partir da realidade viva e temos instrumentos de pensamento e aí entra Marx e entram outros autores. E entra tudo o que foi o final do século XIX e o século XX. E quando entra tudo, meus amigos, temos de deitar a mão à cabeça e confessar que correu de uma forma… enfim, não quero mais falar sobre isso.

Quando é que Marx entrou na sua vida?
Muito cedo, tinha eu uns 17 anos, em Trás-os-Montes.

Não devia ser um autor muito lido em Murça.
Saí do seminário convencido de que ia para o Inferno, mas a achar que antes isso do que continuar ali. Acabei por ser expulso. Saí quase com dificuldade em falar com as pessoas. Depois tornei-me muito amigo de um sobrinho do Militão Ribeiro, um grande militante comunista, e um mártir do fascismo, a expressão que lhe cabe é essa. E foi através de um pedreiro que li o Manifesto Comunista, numa tradução espanhola. Tinha escondido numa lata do quintal várias obras e disse-me: 'Ó senhor Toninho, leia que vai gostar'. E de facto gostei, é um texto político fantástico.

Saiu do seminário porquê?
Sentia-me enclausurado. Disseram-me que perdi a vocação e que esse pecado, segundo o confessor, era imperdoável. O que até nem é correcto do ponto de vista religioso, porque todo o pecado é perdoável. Os nossos Descobrimentos foram fertilíssimos em pecados perdoáveis. Não sei se a consciência tinha aguentado tanto pecado mundo fora (risos).

Esteve lá quantos anos?
Cinco. Saí quando terminou a guerra, 1945. No quinto ano não estudei e escrevi uma História da Literatura Grega e Latina e queria ir embora. Estava a pensar fugir, mas acabei expulso.


Como vem parar a Lisboa?
Concorri a Direito e vim fazer o exame de admissão. Foi com o pretexto de que vinha estudar, mas já na altura tinha ideias revolucionárias, e a família não queria que viesse. Cheguei a Lisboa e não tinha dinheiro. Tive o apoio de estudantes de Medicina, que me matavam a fome e vivi no quarto de um conterrâneo. Só três meses depois consegui arranjar emprego.

Lisboa abriu-lhe os horizontes.
As eleições presidenciais e a faculdade também abriram… Entrei no MUD Juvenil.

Quem era a sua referência na altura?
O Carlos Aboim Inglez, que era meu colega de ano e de curso, e que me introduziu no MUD Juvenil. E um médico radiologista, que ainda hoje é vivo, que me matriculou em Histórico-Filosóficas porque desisti de Direito. Fiz o primeiro ano, depois vivi como membro do MUD Juvenil como quadro clandestino até ser chamado para funcionário do Partido Comunista durante meio ano.

Preferiu Lisboa a Coimbra, porquê?
Na minha terra não andavam na universidade sequer dez pessoas. Andava o meu irmão que era filho de uma lojista e de um guarda-fios, e depois havia os filhos dos senhores agrários e grandes comerciantes. Iam geralmente para Coimbra, para as estúrdias, era isso que atraía. Lisboa abria a porta para o mundo. E eu já tinha vivido em Lisboa durante dois anos. Os meus pais fixaram-se entre o largo do cemitério do Alto de São João e a Graça. A minha mãe abriu uma espécie de mercearia e o meu pai trabalhava como guarda-fios.

Por que voltaram para Murça?
A minha mãe tinha pequenas propriedades e havia diferenças no casal por causa disso. E o meu pai conseguiu ser colocado em Murça. Já antes tinha ajudado na construção das linhas da zona de Aveiro. O meu irmão mais velho foi gerado nessa linha (risos). A minha mãe voltou à terra e ficou muito conservadora, muito católica apostólica romana. Só no fim da vida é que ficou cheia de dúvidas.

E quanto a si, é crente?
Não. Houve coisas muito positivas na Igreja portuguesa e outras extremamente negativas. Respeito muito os homens da Igreja actual e ex-colegas meus. Por outro lado, em relação ao destino do homem, tenho a noção clara de que somos bocadinhos de nada no universo. A mitologia das religiões intelectualmente não me diz nada. Percebo, mas estou perto do Espinosa, quando escreveu que são instrumentos teórico-práticos de obediência. Sem ritual não há religião, não há crença. Eu mantenho algumas coisas. Às vezes gosto de cantar o cantochão. Gosto, é belo, acalma-me. Tive uma batalha muito grande para me libertar, tive conflitos e problemas gravíssimos na minha vida, mas esse não aflora.

É ateu?
Se lhe dermos o significado do Deus das religiões positivas, nesse sentido sou ateu. Tenho ternura por Jesus Cristo. Tive este sentimento ao longo da vida, gosto dos Salmos, não propriamente da História do povo de Israel. Agnóstico também não sou, porque significa que sobre este tema tenho dúvidas e se calhar o Deus de Israel existe e vai julgar-me. Essa conversa não é para mim. Há pessoas que têm necessidade de acreditar nos símbolos, etc., eu compreendo, tudo bem. Mas foram utilizados para fins nada brilhantes, como é o caso da Nossa Senhora de Fátima. Não brinquem comigo, vão lá com os três pastorinhos.

Acha que foi uma fraude?
Está provado pela documentação. Mas dirão: a razão não chega, a crença nasce do sentimento. No meu tempo houve uma segunda Nossa Sra. de Fátima em Trás-os-Montes. Não eram três pastorinhos, mas uma pessoa que tinha as chagas de Cristo. Um dia juntaram-se 50 mil pessoas e viram o sol a mudar de cor. Só que era gente a mais, uma concorrência muito grande para Fátima. E a senhora veio para a penitenciária de Coimbra. Esteve lá uma semana e continuou com as chagas. Proibiram as freiras de visitá-la, não chegou o nitrato de prata e as chagas acabaram. O padre e o médico seu irmão estavam na base de tudo isso.

Voltando atrás. Quem era o seu controleiro no MUD juvenil?
Era o Dias Lourenço, foi o homem da mais audaciosa fuga de Peniche. E tive um outro, Guilherme de Carvalho, que esteve no Tarrafal, era filho de um banqueiro e é sogro de outro banqueiro, o Pina Moura.

Esteve preso na mesma altura que Álvaro Cunhal?
Estive dois anos com o Cunhal em Peniche.

Foi logo para lá quando foi preso?
Não. Fui preso em Janeiro de 56 e estive meio ano nas celas do Aljube. Depois fui para Caxias, e daí fui levado em Dezembro para o Porto, onde fui julgado no processo do MUD Juvenil. O processo demorou cerca de sete meses, com sessões de manhã, à tarde, e algumas à noite, com 52 réus jovens e dois adultos, que eram o Óscar Lopes e um advogado. Fui condenado a dois anos e nove meses.

Peniche era a mais dura das prisões?
Claro que era. Era um regime celular, cada um na sua cela. Havia quatro faxinas diárias, limpeza, varrer, lavar a loiça e por vezes descascar a batata. Quando não havia castigo uma hora de recreio e havia uma hora à tarde, no refeitório, em que podíamos escrever à família, ler e fazer perguntas por intermédio do guarda: 'Ó senhor guarda, posso perguntar?'. Era este o regime que melhorou ligeiramente pouco antes da fuga. Houve um grande movimento internacional e uma visita de personalidades estrangeiras à prisão. Então deixaram entrar um gira-discos e as perguntas tornaram-se mais simples, mas de resto tudo na mesma.

Conversava com Álvaro Cunhal?
Cifrado. Tínhamos uma linguagem própria. Havia determinadas palavras que não eram as autênticas. No recreio o guarda estava sempre no meio e dizia 'Fale mais alto que eu também quero ouvir'. Mas nós tínhamos a voz treinada e a voz ia até determinado sítio. De vez em quando ia qualquer coisa para o alimentar. E havia contacto com o exterior. A fuga foi organizada no interior e no exterior. Foi uma fuga espectacular.

Teve hipótese de fugir?
Tive. Não quis porque nessa altura continuava no partido mas queria levar a vida que levei depois, isto é, queria escrever, etc. Depois da fuga foi muito difícil, fui parar ao Aljube e à estátua. Represálias. Foi um trauma muito grande na minha vida. Quando saí, mais tarde, estava em liberdade mas sentia uma mágoa pelos outros que lá estavam presos. Os laços que se criam com os companheiros da prisão são indestrutíveis.

Quando é que saiu da prisão?
Em Maio de 62, em plena luta académica.

Entretanto casara-se na prisão.
A minha mulher, Isaura Silva, esteve quatro anos presa. Não era comunista, era do MUD Juvenil, estava envolvida na luta das enfermeiras, pelo casamento das enfermeiras. Estava proibida de me visitar porque não era minha parente. Mas houve uma luta para nos casarmos e acabou por ser autorizado. Aí vai a noiva no carro com o filho do Monjardino, que era o patrão dela na maternidade, e com as testemunhas. As minhas eram a Maria Amélia Padez, uma antifascista casada com um polaco que ajudou muitos portugueses a emigrar para Paris; o Alexandre O'Neill; e os meus cunhados que eram os padrinhos da noiva. O meu sogro fez um escândalo porque eu estava de um lado da mesa e a noiva do outro. Lá ficámos ao lado um do outro e ao fim de uma hora tudo acabou.

A comida era a da prisão?
Não, os meus sogros levaram e também vinho. Nós podíamos beber vinho uma vez por ano, no Natal, uma canequinha.

Como conheceu o O'Neill?
No MUD Juvenil. Fui um dos homens de contacto dele. E foi uma das casas onde dormi. Andei dois anos sem salário nem residência fixa. Com ele discutia poesia. Tínhamos longas discussões e chegou a propor-me fazer poemas em conjunto.

Para as novas gerações a luta da sua mulher é algo de fantástico.
As enfermeiras e telefonistas não se podiam casar, é uma coisa incrível. As pessoas não têm ideia do que era o fascismo e há muita gente que acha que era bom, que havia autoridade.

Como foi quando saiu da prisão?
Tive à volta de 30 empregos. O essencial foi tradutor e explicador de História e Filosofia e fundador d'A Capital. Saí ao cabo de dois anos. Eu estava em liberdade condicional e queriam que eu fosse para a Rodésia cobrir a guerra colonial, e eu recusei. Depois mandaram-me a Peniche cobrir uma visita do Américo Tomás, a guarda de honra eram os guardas prisionais. Quando cheguei à redacção anunciei que me ia embora.

Como é que o tratam? Por professor?
Muita gente trata-me por professor. Estive como professor universitário durante 24 anos na Faculdade de Letras. E no período mais polémico, mais vivo e mais criador da alteração das estruturas, de reformas efectivas, com os estudantes e professores a terem um papel fundamental.

Foi um tempo apaixonante.
Apaixonante. Hoje até me dá alguma tristeza entrar nos corredores da universidade e vê-los quase desertos. Naqueles tempos estavam sempre cheios de gente. E não era só a namorar. Não havia gabinetes, o meu gabinete foram os corredores ou uma sala ad-hoc. A investigação era feita em casa.

Vivia em Lisboa?
Sim, mas coincidiu com o 25 de Abril vir para aqui (Parede). Fui um desalojado do 25 de Abril. A minha casa era de um cunhado meu que estava no exílio e voltou, pelo que vim para a minha casa de férias.

Havia muita discussão na faculdade?
Muita tensão. Mas isso fez parte e era gratificante.

Na altura tudo se punha em causa. Exactamente. Vou dar-lhe um exemplo, sobre um seminário criado em 1974 sobre o infante D. Henrique. Caiu-me por acaso em cima e eu cheguei à universidade com a fama de ser o diabo vermelho. Quando entrei na sala do seminário verifiquei que os alunos olharam para mim com o ar de 'só nos faltava aparecer este'. Limitei-me a dizer: 'Em relação às vossas opiniões não tenho nada com isso. A única coisa que vocês têm de fazer é basearem-se sempre em documentação e depois têm as opiniões que quiserem'. Sei que passados aí dois meses estavam muito mais exaltados do que eu no mundo social e político. Não que eu fosse discutir política para a aula, na aula discutia as matérias. Para mim foi importantíssimo porque aprofundei conhecimentos e voltei-me para o ensino sempre com a intenção de indagar, de ir ao fundo, de não ficar pelo que disseram todos até à data, mas sim encontrar coisas novas, com base na documentação, e levar os alunos a interessarem-se pela investigação.

Como eram as suas aulas?
Geralmente tinham uma introdução e depois havia um debate sobre a matéria. Havia efectivamente intervenção dos alunos. Eram aulas extremamente vivas.

De certo modo era uma novidade.
Era. No meu tempo, os professores debitavam, os alunos tiravam notas, faziam uma sebenta e empinava-se. Comigo havia uma bibliografia mínima e para avaliação havia um trabalho que podia ser individual ou de grupo.

A sua tese de doutoramento foi sobre a Inquisição de Évora. Porquê?
Começou por uma tentativa de mostrar como o pensamento moderno tinha a ver com a crise de cristãos-novos e cristãos-velhos e a emigração europeia a ela ligada. Tinha como centro a obra de Espinosa e o envolvimento dos cristãos-novos portugueses em Amesterdão. À medida que avancei à procura dos familiares de Espinosa levou-me a entrar a fundo na Inquisição de Évora. Alguns alunos meus fizeram o inventário dos processos da Inquisição de Évora até um determinado período e eu trabalhei sobre isso durante quase nove anos. Julgo não se ficar apenas pelo tribunal mas tenta verificar e qualificar as vítimas e dar ideia do que foi o imenso sofrimento das vítimas e do que isso significou para a cultura e para a História portuguesa e de que ainda hoje temos os restos em cima de nós.

Que restos são esses?
É o espírito da denúncia: o tribunal vivia da denúncia, o pensamento estava continuamente em análise, os próprios pensamentos secretos estavam sob alvo da pesquisa da Inquisição. Dizia-se antes que a Inquisição nos livrou das guerras da religião. E o que ela nos trouxe? Queimaram em praça pública três mil desgraçados, muitos deles inocentes. Isto é diabólico e nós como povo ainda não tomámos consciência do que foi. Nem a Igreja, que foi a principal responsável.

A Inquisição foi um dos factos mais tenebrosos da História de Portugal?
Em certo sentido foi o pior, porque se manteve quase durante três séculos. Ao nível criador é terrível. Não é um acidente como o terramoto de 1755 ou a guerra da Restauração, que foi muitíssimo violenta. A Idade Média foi muito dura mas pôs a região portuguesa e de certo modo a Península Ibérica num grande desenvolvimento, para os parâmetros da época. Foi uma época extremamente criadora, foi essa geração de Aljubarrota que lançou Portugal na expansão.

Estava a dizer que ficou nos portugueses o espírito da denúncia. E que mais marcas?
O medo.

Os portugueses continuam com medo?
Ainda há muito medo. A prova disso é que os movimentos cívicos em Portugal têm pouca força. A situação social actual, com desemprego em massa, cria um medo terrível. Esta é a situação real no inconsciente colectivo, sobretudo nas zonas mais conservadoras.

Tendo em conta que estudou a presença árabe no nosso território, surpreende-o a barbárie do Estado Islâmico?
Se regressarmos à Idade Média, há um islão criador, no sentido em que vai buscar o passado greco-romano, e que conservou algumas obras fundamentais. E do lado cristão, vamos à Restauração, e como era castigada uma conjura? Pescoço fora, forca de cabeça para baixo ou de cabeça para cima, arrastados depois de mortos pelas ruas e partidos aos bocados. Toda a prática do medo é bárbara, miserável é o termo, e o equivalente quando destroem a memória da humanidade. Na verdade o Ocidente tem também muita culpa no cartório. A exploração das matérias-primas com a conivência de pequenas dinastias e de ditaduras terríveis. O que não quer dizer que devemos ficar parados a olhar.

Também pelo facto de muitos desses combatentes serem ocidentais.
Porque é que na Europa tantos jovens se deixam atrair, embora muitos enganosamente, para a aventura? O número de jovens que nos países desenvolvidos não se acham realizados é extremamente preocupante.
cesar.avo@sol.pt
https://sol.sapo.pt/artigo/399972/antonio-borges-coelho-sai-do-seminario-convencido-de-que-ia-para-o-inferno
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18noVEMbro2012

3 poemas de António Borges Coelho


Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas
**
Quando a noite curva os ombros
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre

Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol
***
Balouça as folhas rústica a varrer
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios

que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste

dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água

curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
António Borges Coelho, Ao Rés da Terra, Lisboa: Caminho, 2002, p.39, 60, 93.
http://tulisses.blogspot.com/2012/11/3-poetas-de-antonio-borges-coelho.html
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4jul2008



Datas de batalhas, nomes e cognomes de reis: assim ensinada, a História nunca foi uma das minhas disciplinas preferidas. Talvez por isso, foi tão grande o prazer de ler o poema de Brecht, Perguntas de um operário letrado («Quem construiu Tebas de sete portas?/ Nos livros estão os nomes dos reis. / Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?»)

Talvez por isso, muitos anos depois, tendo conhecido, por circunstâncias diversas e feliz dever de ofício, muitas pessoas cujas contribuições para a História comum merecem ser «contadas às crianças e lembradas ao Povo», leia, com gosto, estas palavras de um historiador, José Mattoso, sobre outro historiador, António Borges Coelho: «Para ele, a História não é trabalho de coleccionador de nomes e datas nem registo descarnado de bases de dados; também não é História verdadeira se só fala da glória dos grandes e esquece o rasto dos soldados, marinheiros e comerciantes anónimos que em terras longínquas afrontavam, com medo ou sem ele, a solidão, a aventura e a morte.»

Foi numa homenagem, em Mértola, há pouco mais de um ano. Porque, historiadores, me merecem ambos profundo respeito; porque, historiadores, lutaram e lutam pela memória; porque, cidadãos, lhes conheci atitudes verdadeiramente exemplares; porque o conceito de «passagem de testemunho» que no texto se refere me parece muito próximo das razões que justificam este blogue, gostava de deixar aqui as palavras que José Mattoso (a quem agradeço a oferta que nos fez deste texto) usou então, lembrando que Borges Coelho «não se limitou a falar, escrever ou ensinar».

Texto de José Mattoso:
No princípio da sua vida adulta arriscou a vida e a liberdade lutando contra a ditadura salazarista. Não virou a cara às agressões da tortura, da humilhação, da violência física e da prisão. Por isso pôde falar, ainda há poucos meses, em nome das vítimas do tribunal da Boa Hora da época salazarista, «gravemente ofendidas na sua dignidade e no seu próprio corpo», e dizer que é preciso avivar a memória e lembrar as «mulheres e homens que nada tinham senão o corpo e a mente, e indicavam, com o seu sacrifício, que há momentos em que é preciso dizer não para que a água da vida corra limpa». Desprezou o cerco das ameaças, da marginalização e da vigilância da PIDE, viveu do seu trabalho como jornalista, e, sem bolsas, sem ajuda de ninguém, fez o seu curso de Histórico-Filosóficas.

Pedimos-lhe, enfim, professor Borges Coelho, que aceite esta homenagem por ter alcançado o mais alto lugar na hierarquia universitária, e por ter, como mestre, orientado, ajudado e encorajado muitos alunos e discípulos a desenvolver as suas capacidades. E ainda que a aceite por não ter esquecido os seus compromissos e o seu respeito pela cultura popular, por ter demonstrado sempre, na vida pública, uma atitude de clara e inteira responsabilidade cívica.
Prestamos-lhe, portanto, uma homenagem. No sentido que a palavra tem actualmente, a homenagem representa o reconhecimento público do mérito de alguém. Os méritos não faltam, na verdade, ao professor Borges Coelho. Enunciei aqueles que parecem mais verdadeiros e mais relevantes a quem se reuniu aqui nesta sala, para nela participar. Reconhecemo-los e proclamamo-los em alta voz, para que aquele a quem se dirigem tenha a certeza de que mereceu a pena enfrentar riscos e humilhações que só lhe fortaleceram a dignidade, mereceu a pena consagrar longas horas à investigação e à docência, mereceu a pena cultivar a força transfiguradora e simbólica da palavra poética e dramática. E, reciprocamente, para que, tendo recolhido os dons que ele com tanta generosidade espalhou no seu caminho, tomemos consciência do que dele recebemos, para medirmos a responsabilidade que da nossa parte devemos assumir, para proteger, cultivar e fazer frutificar a semente que com a sua vida lançou à terra.
O que neste momento fazemos tem alguma coisa de ritual de passagem. A luta, o trabalho e a acção criativa do professor Borges Coelho foram-se desenrolando ao longo de muitos anos. Eu, como menos cinco do que ele, sinto-me já, também, na fase dos balanços e da passagem de testemunho. Dou graças à vida (e creio que ele também), por me ter proporcionado alguns sucessos. Um daqueles que me é mais grato, e creio que a ele também, é o de perceber, em ocasiões como esta, que os nossos valores devem ser entregues a outras mãos, e que quem os percebe e recebe deve, por sua vez, transmiti-los a outros que deles façam semente de vida, de dignidade, de alegria e de liberdade. As palavras de agora destinam-se a conferir a este ritual a intensidade possível, para que ele fique gravado no nosso coração e na nossa memória e sirva de penhor a quem o guarda em si, para escolher, sem medo, o lugar justo nos combates de amanhã.

É neste sentido de ritual de passagem que estamos aqui para lhe prestar homenagem. Ocorre-me lembrar que a palavra, no seu sentido original, significava a cerimónia por meio da qual os cavaleiros se tornavam «homens» de um senhor, ou seja, seus vassalos. Reconheciam a sua condição e prometiam fidelidade. Apesar de esta comparação parecer incompatível com a acepção anterior, creio que afinal serve para reforçar o que com ela queria dizer. Não queremos, evidentemente, ser os vassalos de ninguém. Mas queremos, sem dúvida, ser solidários com o professor Borges Coelho, seguir os seus exemplos, lutar pelos mesmos valores, prolongar a sua obra. Ora ela contrasta de tal modo com os procedimentos que no nosso tempo se impuseram na vida profissional, na política, na vida pública e na educação, que só podemos imaginar uma atitude de combate para quem se sente do mesmo lado que ele. Não somos seus vassalos, nem seus cavaleiros, mas somos da sua família. Prestamos-lhe esta homenagem para afirmar isso mesmo.

Se comecei por enumerar as suas qualidades não foi para fazer o elogio que, na verdade, merece. Foi para dizer que esta cerimónia representa, da nossa parte, um compromisso: o de não nos conformarmos com as injustiças da sociedade em que vivemos, nem com a mediocridade que tantas vezes é garantia de sucesso, nem com as promessas de vantagens que corrompem e escravizam. Para dizer que representa, sobretudo, o compromisso de não ceder ao medo com que o frenesim da acumulação capitalista nos ameaça, ao projectar por todo o lado, não só nas empresas, mas também no sector público, nas escolas, na comunicação social, e até no mundo das artes, o fantasma asfixiante do medo – o medo dos despedimentos, o medo do desemprego, o medo da denúncia, o medo de ser diferente.

Queremos agradecer ao professor Borges Coelho ter-nos mostrado o caminho certo, seja o do combate frontal como o que ele travou na sua juventude, seja o da conquista de uma posição a partir da qual possamos fazer ouvir a nossa voz, como ele fez também, subindo, pela sua competência científica e a sua autoridade moral, ao topo da carreira universitária.

Queremos agradecer-lhe ter tido a coragem de, com risco da própria vida, militar no combate revolucionário de assim contribuir para eliminar um regime opressor e injusto.

Queremos agradecer-lhe ter feito da História uma demonstração de que o destino de Humanidade se decide de muitas e variadas formas, mas sobretudo no campo da luta de classes. Por isso estudou os vestígios concretos da cultura árabe entre nós, e demonstrou que a cultura nacional, longe de ter destruído os seus vestígios, os tinha incorporado sob a forma de técnicas de produção e trabalho próprios das classes trabalhadoras, e que elas representam a resistência popular à dominação aristocrática e burguesa. Por isso disse algures que «a luta social só perde o canto das armas nos braços que empurram a prensa, nos pés que calcam as uvas antes do mosto, nos troncos curvados ceifando as espigas».

Queremos agradecer-lhe ter demonstrado a falsidade da representação da história portuguesa como uma secular cruzada contra o Islão, e ter denunciado a iniquidade dos processos usados pelas instituições eclesiásticas que invocavam a fé para espalhar a destruição e a morte. Foi o que ele exprimiu quando perguntou: «Nas pinturas do Apocalipse de Lorvão, é a espada ou a cruz que corta as cabeças? Símbolo humano de redenção e sacrifício, a cruz virou espada que retalha e sacrifica, que abre os braços e logo crava o ferro». Por isso estudou a Inquisição de Évora, que, em nome da mesma cruz, esmagava o pensamento, espalhava o terror e a delação, e impedia o desenvolvimento cultural e económico.

Queremos, enfim, agradecer-lhe por não ter deixado que as marcas da repressão e tortura de que foi vítima, em vez de se traduzirem em ódio, antes desabrochassem em celebração da vida pela palavra poética, pela amizade do convívio, pela ironia bem humorada, pela disponibilidade e o optimismo. Às vezes, como dizia em nome do movimento Não apaguem a memória!, «é preciso dizer não para que a água da vida corra limpa». Outras vezes, porém, como esta em que estamos aqui e agora, ao celebrar, com toda a alegria e com todo o afecto, este ritual de passagem, queremos dizer «sim», para que a mesma água da vida continue a correr limpa, ainda para além da morte.
José Mattoso
https://caminhosdamemoria.wordpress.com/2008/07/04/um-texto-sobre-antonio-borges-coelho/
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7ouTUbro2008
Antonio Borges Coelho: 80 anos

Transmontano, nasceu em Murça a 7 de Outubro de 1928. Ingressou no Seminário mas bem cedo perdeu a Fé. A mesma fora substituida por uma crença maior: a crença no Homem, nas "gentes de Boa-Fé".

A sua vida é um exemplo, uma referência. Lutador antifascista, desde jovem militou e foi dirigente do MUD Juvenil, tendo sido funcionário do Partido Comunista Português. Preso no Aljube e em Peniche, passou anos nas prisões e sofreu as represálias infligidas pela PIDE aos que ficaram, após a fuga de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960. Foi ainda em Peniche que casou com a Isaura, também ela uma lutadora pelos direitos cívicos das Enfermeiras, e por isso presa, julgada e condenada. Pai e avô babadíssimo da Sónia e do Francisco.

Historiador e investigador incansável, ao seu labor honesto e meticuloso se devem os primeiros trabalhos que abriram caminhos e desfizeram mitos da História de Portugal, como bem recordou Cláudio Torres. Após o 25 de Abril ensinou na Faculdade de Letras de Lisboa (FLUL). Conheço ex-alunos que o recordam não só como Mestre e Pedagogo mas, sobretudo, como Humanista. Com um imenso respeito. O mesmo respeito com que o Professor Borges Coelho os tratava, mesmo quando as divergências ocorriam.

Perseguidor da utopia universalista, acredita que os Homens podem transformar o mundo e torná-lo melhor. Acredita no diálogo, nos consensos mínimos, no poder da(s) palavra(s) e na aproximação dos contrários se com boas-vontades. Como se todos pudessemos ser "crianças crescidas" e ter o dom da inocência dos primeiros olhares. Acreditar. Confiar. Perseguir. Lutar.

Amante da poesia, escreveu em Janeiro de 1957:

LIBERDADE
... amo-te de menino
Encontrei-te
Num mundo de operários
Na prisão

É TEMPO ! É TEMPO!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!

Foi este o poema escolhido para decorar o enorme bolo comemorativo dos 80 anos do professor António Borges Coelho. Um festa da iniciativa da equipa do Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, que Borges Coelho fundou e dirigiu entre 1999 e 2005.

Eu estive lá e foi emocionante ver e sentir aquela imensidão de pessoas dos mais variados quadrantes políticos e culturais irmanados num objectivo comum: homenagear um Homem e um Amigo de excepção. A mostrar que não existem barreiras que resistam, se os Homens quiserem. Pessoalmente sinto-me uma privilegiada pela sua amizade.

Assinalando a data, a Caminho reeditou Portugal na Espanha Árabe, uma obra pioneira, que foi apresentada por Cláudio Torres.


http://ascausasdajulia.blogspot.com/2008/10/parabns-antnio-borges-coelho.html

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