03/04/2015

2.223.(6mar2010) PCP Alcobaça...Alguns apontamentos pessoais para história do PCP em Alcobaça

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16jan2017
16jan2017
Partido Comunista Português (Alcobaça) Rogério Raimundo preparou o depoimento que se transcreve integralmente:

A História do PCP, no concelho de Alcobaça, merece uma investigação pormenorizada, em respeito, com a memória da luta dos (as) comunistas ao longo da ditadura fascista, do chamado PREC e destes últimos anos de democracia. São muitos factos históricos que neste texto só posso resumir e pedir desculpa aos que não referir. Para exemplificar:
1. Não podemos esquecer o alcobacense que sofreu na prisão do Tarrafal (em Cabo Verde): João Faria Borda, do Movimento dos Marinheiros.
2. Não podemos esquecer os militantes do PCP que resistiram em Alcobaça no tempo do fascismo. De memória, lembro-me de alguns para recolher mais dados e escrever sobre cada um deles e sobre factos que eles viveram: Artur Faria Borda; Albino Serrano (editou 1 livro sobre a sua prisão); João Vasco; António Rosa; José Pinto; António Tereso (que morreu a 1jan2017) e que interpretou a fuga de Caxias no carro de Salazar, em 1961; Baltazar (d’ Aljubarrota), Georgina Alice (que foi eleita para a Comissão Administrativa da Junta após o 25 de abril), Rui Baltazar (Bárrio), Bertilde (Vestiaria), Maria Natividade Pinto, Maria Helena Cadillon, Estela Adão, Américo Areias (Bárrio), Timóteo de Matos…
3. Da Célula da Crisal lembro-me de alguns camaradas que faziam parte: António Dionísio, Fernando Mesquita, Carlos Amorim, Loureiro, Isabel Costa Santos, Luís Fialho da Silva, Teresa Costa Santos...Poucos sabem que houve uma comissão de angariação de fundos para apoiar as famílias dos camaradas (Carlos Amorim, Ganiço, Sismeiro…) presos pela PIDE…
4. As vendas do AVANTE na clandestinidade. Por exemplo, Álvaro Cabral tem histórias que merecem ser registadas e divulgadas.
5. Álvaro Cunhal viveu 2 anos na Cela, na clandestinidade, onde se fez importantes reuniões. Álvaro Cunhal escreveu um conto em que relata como alugaram a quinta que foi sua residência.
6. 17jul1974.No Pavilhão Gimnodesportivo foi eleita a Comissão Administrativa da Câmara após o 25 de abril. Alberto Serrano Silva foi o único comunista eleito.
7. Como Jorge Silvestre teve que abandonar as suas funções de Presidente de Câmara, a 6MAIO1975, José Pinto, militante do PCP, entrou como membro da Câmara, após negociações no Governo Civil,
8. Nomes que me recordo de grande militância posterior ao 25 de abril de 1974, na altura do chamado PREC: Professor Joaquim Oliveira; Manuel Beja (que é representante dos emigrantes na Suíça); José Carvalho, Maria de Jesus Tarquínio, António Emílio.
9. O 11 de Março de 1975 em Alcobaça. Lembro-me que os Professores Joaquim Oliveira e o António Emílio (e outros) foram para as barricadas nas entradas da Vila de Alcobaça...
10. Assalto aos Centros de Trabalho do PCP…Dia 21 de Junho de 1975 em Alcobaça e na Vestiaria…A versão que acredito vem, naturalmente, dos meus camaradas Américo Areias e Rui Baltazar que resistiram e que sofreram a pancadaria dos assaltantes arruaceiros e dos agitadores contra revolucionários que percorreram o país, bem pagos, para fomentar esta desordem, numa onda anticomunista e para instalarem o medo juntos dos que lutavam pelos ideais da Revolução de Abril. Há alguns dias que havia permanência dia e noite para defenderem a sede de Alcobaça. Estavam cerca de 30 camaradas na sede. Perto da hora de almoço o militar que comandava a defesa do Centro de Trabalho, conseguiu convencer que 28 fossem evacuados na “chaimite” porque ele nunca permitiria que alguém invadisse a sede do PCP: “Só por cima do meu cadáver”. Foi convincente.
O pior só se passou quando este grupo de militares foi substituído. O novo comandante das tropas destacado chegou a uma certa hora e abandonou a zona de protecção e foi o descalabro.
Rui Baltazar assume que houve alcobacenses que ocupam lugares importantes em Instituições de Alcobaça que foram com os agitadores até ao 2.º andar e se comportaram como energúmenos.
Quer o Américo quer o Rui naqueles instantes ouviram muitos gritarem: deixem-nos morrer para aí.
Quem levou o Américo Areias ao Hospital de Alcobaça foi o Carlos Carmo (atual membro da Polícia Judiciária), na sua viatura, que se impôs perante os que rodeavam o assalto.
O Rui Baltazar chegou a ser considerado como morto.
O Américo Areias esteve três semanas hospitalizado. Na brincadeira ainda o Rui dizia que tinham ganho 3-2. Houve 3 feridos do lado dos arruaceiros e 2 do PCP…
Só agora nos últimos anos, com os novos aparelhos de diagnóstico, foi vista com pormenor a agressão principal que o Américo sofreu no dia 21.6.1975, com uma barra de ferro, que lhe atacou a parte cervical da coluna.
Teve alta no dia do Comício com Álvaro Cunhal, Secretário-geral do PCP, em Alcobaça.
11. Sábado 16 de agosto de 1975. O comício começou com um discurso de António Dionísio, militante da célula da Crisal. Foi então o pandemónio com tiros e pedras.
Do comunicado de apoio, emitido pela Comissão Central do MDP/CDE, logo às 6h da madrugada da noite de 16 para 17 de agosto de 1975:
“O comício realizado pelo PCP, em Alcobaça, com a presença de Álvaro Cunhal, seu Secretário-Geral e ministro sem pasta dos quatro primeiros governos provisórios, marca uma nova escalada de violência reaccionária. As liberdades encontram-se ameaçadas. Mas quem as ameaças são os mesmos que durante quase 50 anos, as retiraram do povo. Em Alcobaça, os comunistas tiveram de defender o direito de reunião. Ao defenderem-no para si, neste caso concreto, estavam-no defendendo para todos os democratas, estavam defendendo as liberdades conquistadas após o 25 de Abril. Tiveram de o fazer, respondendo de armas na mão à violência reaccionária, dando uma primeira imagem do que poderá vir a ser este País se continuarem as hesitações que paralisam as forças militares e militarizadas, se continuar por concretizar uma firme política repressiva sobre a reacção. Esta noite em Alcobaça, correu sangue; não apenas dos provocadores contra-revolucionários mas também de militantes progressistas. (…) O MDP/CDE saúda os comunistas que, com risco da própria vida, defenderam o seu comício, os seus dirigentes e a sua (nossa também) liberdade. O perigo do fascismo paira novamente sobre o nosso país. Não é um perigo imaginário, pois que as acções de violência dia a dia desencadeadas, não são inventadas. Aos partidos e organizações progressistas e ao MFA cabe um grande esforço para intensificar a sua unidade e a sua disposição de dar luta comum às forças reaccionárias e neofascistas que põem em perigo a nossa revolução. (…) Que todos os patriotas saibam tirar as devidas lições das provocações reaccionárias ao comício do PCP em Alcobaça”.
O camarada Américo Areias considerou que naquele dia esteve quase a começar uma guerra civil em Alcobaça. Perante o tiroteio e o apedrejar da cobertura do Pavilhão Gimnodesportivo houve a mobilização de todas as forças do PCP. Ele diz que o que valeu foi a competência dos militares que vieram limpar toda a zona à volta do Pavilhão
12. Em 1980 (dia e mês?) estive no meu primeiro acto público de militante, ao lado de Álvaro Cunhal, na presidência da mesa do comício no cineteatro de Alcobaça…A Plateia e os balcões encheram completamente. Desde a cena violentíssima do comício do PCP em Alcobaça, no Pavilhão Gimnodesportivo, com tiroteio, podemos dizer que Alcobaça passou a ser uma terra que respeitou as diferenças partidárias…
13. Álvaro Cunhal (1985?) veio a um almoço no Centro Cénico da Cela, organizado pela Comissão Concelhia de Alcobaça e no qual além da situação política nacional, narrou alguns pormenores do que viveu na Cela. Tendo feito os percursos que fez da quinta para o centro da aldeia.
14. Autarcas após autárquicas de 12 de dezembro de 1976.
14.1. Na Câmara Municipal. O PCP só teve 1 eleito: Rogério Raimundo, no dia 12 de dezembro de 1997. (O camarada Gilberto Magalhães Coutinho discursou nesse dia das eleições e disse que: “só naquele dia tinha chegado o 25 de abril a Alcobaça”)! Desde 12 janeiro1998 até à tomada de posse da independente Vanda Furtado Marques nas eleições autárquicas de 2013. O PCP voltou a ter vereador do PCP, a partir de jan. de 2016, com a renúncia da Vereadora Vanda Marques e o assumir, de novo, da vereação de Rogério Raimundo.
14.2. Houve outras(os) autarcas  importantes, militantes do PCP e que vão merecer relevo oportunamente. Só para exemplificar: José Miguel Subtil (AMunicipal), Clementina Henriques (AM), e na Assembleia de Freguesia de Alcobaça: Alice Subtil, Ana Nazário, Rita Serrenho e Luísa Sena.
14.3. Tal como agora na CDU houve a participação de muitos independentes, sem partido, ao longo destes anos todos de democracia. Relevo, apenas, algumas mulheres: Ilda Fragata (que foi PJunta de Alcobaça), Edite Condinho (Bárrio), e na Assembleia Municipal: Helena Carvalho, Lúcia Serralheiro e Isabel Granada…
15. Como é evidente as lutas do PCP, tiveram vários factos importantes, nas lutas nas empresas, pela melhoria dos serviços públicos, em organização de manifestações, greves, em Alcobaça, no distrito e nas lutas nacionais.
16. Não podemos esquecer muitos homens e mulheres que trabalharam lado-a-lado com os comunistas, do MDP-CDE, muitos sem partido e que sofreram repressões, como se fossem militantes. Lembro alguns: Lameiras Figueiredo, Basílio Martins, Celeste Vilhena, António Eduardo Marques, Gilberto Magalhães Coutinho…
Quero pedir desculpa a todos (as) que esqueci de referir. Oportunamente, procuraremos fazer um relato histórico circunstanciado, desenvolvendo estes tópicos e outras pistas que vão com certeza interessar quem os ler.
Rogério Raimundo
16jan2017


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«Ser comunista – sublinha - não impede que se ria mais ou se ria menos, que se goste de estar em casa ou de passear ao ar livre, que se aprecie ou não se aprecie um bom petisco, que se fume ou não se fume, que se beba ou não se beba um copo, que se viva mais ou menos intensamente o amor (…) Amar o sol, o ar livre, a natureza, a terra e o mar, o ar e a água, as plantas e as flores, os animais, as pedras, a luz, a cor, o som,o movimento, a alegria, o riso, o prazer, é da própria natureza do ser humano (…) Que ninguém tenha vergonha de ser feliz. Alem do mais porque a felicidade do ser humano é um dos objetivos da luta dos comunistas.»
Álvaro Cunhal
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24 ab2015
Via Carlos Sá

e Observador
http://observador.pt/2015/04/24/vi-um-sapinho-talvez-nao/
Comentei assim:
Como militante do PCP assumo os erros do PCP, embora só tenha aderido em 1977. Este é 1 triste episódio!!! Tb tive cenas quentes com Gonçalves Sapinho, mas na sua esmagadora maioria, houve respeito mútuo, em 16 anos de vereação com ele a Presidente...Ainda me questiono quem soprou esta informação errada ao Octávio Pato? Gravíssima! Mas não podemos esquecer tb o que aconteceu nesse verão quente: nomeadamente o assalto à sede do PCP em Alcobaça que tb foi 1 acto gravíssimooooooooo!!!
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Eu vi um Sapinho – ou talvez não

O PCP cometeu um enorme erro político ao acusar um deputado do PPD de ter participado no ataque a uma das suas sedes. Era mentira. Ouviu uma resposta que falava de um "imbecil" que queria ser "órfão".
No Verão Quente de 1975, quando a “reacção” começou a mostrar os dentes caninos à revolução, a Assembleia Constituinte era um mau sítio para um comunista se mostrar: o PCP era muitas vezes atacado pelo PS, pelo PPD, pelo CDS e pela UDP. Mas por piores que as coisas estivessem no Palácio de São Bento estavam sempre melhor lá dentro do que fora. Estavam claramente melhor do que em Vale de Cambra, onde foi lançada uma granada contra o Centro de Trabalho do PCP. Estavam decididamente melhor do que em Fafe, onde foi colocada uma bomba numa casa de um militante comunista. Estavam indesmentivelmente melhor do que em Campanhã, onde foi apedrejada uma sede do partido. Estavam incomensuravelmente melhor do que em Barcelos, onde um militante do PCP foi agredido. Estavam infinitamente melhor do que em Peniche, onde foram lançados cocktails molotov contra um Centro de Trabalho. E bem melhor do que em Aveiro, em Espinho, em Esmoriz, em Famalicão e em todos os sítios onde o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) lançava panfletos a anunciar uma “cruzada branca para varrer a Frente Vermelha”.
Dentro do parlamento, pelo menos, a “Frente Vermelha” podia resistir. Encurralado no exterior da Assembleia, o PCP tentava encontrar culpados no interior. A 22 de Julho, tentou dar um tiro no porta-aviões. O líder parlamentar comunista, Octávio Pato, anunciou que iria falar da “acção directa de um Sr. Deputado” em “actos de banditismo fascista”. Na véspera, uma multidão tinha atacado a Câmara Municipal de Alcobaça e a sede do PCP na cidade. Depois dos tiros e do fogo, o dia acabara com vários feridos.
Octávio Pato tinha uma revelação a fazer: “Entre os reaccionários que cercaram ou participaram no cerco e no assalto encontrava-se um Sr. Deputado a esta Assembleia Constituinte. Estas são as informações que temos. Na nossa opinião, é absolutamente incompatível haver aqui nesta Assembleia alguém que participa aqui e ao mesmo tempo participa em actos de absoluto terrorismo fascista. Por isso, no caso de se provarem as acusações que me são transmitidas, nós pensamos que deve ser expulso desta Assembleia o deputado do PPD José Gonçalves Sapinho”.
Com estas quatro frases, os comunistas tentavam atingir quatro objectivos. Primeiro: provar, para lá de qualquer dúvida, que as violências dirigidas contra o PCP eram organizadas e não acções espontâneas do “bom povo”. Segundo: implicar nesses actos o PPD, o segundo partido mais votado nas eleições. Terceiro: colocar um alto dirigente social-democrata no centro da “reacção”. Quarto: provocar um escândalo e uma vergonha com a expulsão de um deputado “fascista” da Constituinte.
O facto de tudo isto ir falhar de forma espectacular era uma prova de amadorismo que só se explicava pela fragilidade em que naquele momento estava o PCP. O debate que se seguiu tornou-se histórico pelo seu simbolismo: era a prova de que a actividade anticomunista que se espalhava pelo país estava a levar o PCP a cometer erros fatais.
As coisas começaram a correr mal poucos minutos depois de Octávio Pato falar, quando o seu alvo decidiu levantar-se em vez de se esconder: “O deputado em causa, José Gonçalves Sapinho, sou eu mesmo.” E ele mesmo começou a defender-se de imediato: “No sábado passado, depois de presidir a uma reunião no Externato da Benedita, que dirijo há cinco anos, desloquei-me para o Sabugal, de onde regressei na segunda-feira, às 2 horas da manhã. Tudo isso eu posso testemunhar, e demonstrar que [se trata de uma] calúnia lançada nesta Assembleia contra um deputado”. Queria isto dizer que na altura dos tumultos o deputado estava a 250 quilómetros de Alcobaça, facto que o impedia de ter participado neles a não ser que possuísse poderes de teletransporte.
Antes de terminar, o social-democrata virou a mesa: “Se for comprovado tudo quanto afirmo e não comprovado o que diz o Sr. Deputado Octávio Pato, este Sr. Deputado não pode permanecer, por falta de idoneidade, nesta Assembleia”. Quem corria agora o risco de ser expulso era o líder parlamentar do PCP.
constituintes, josé gonçalves sapinho,
O deputado do PPD Gonçalves Sapinho provou que estava inocente e contra-atacou

A vingança

Afirmando-se “contrariada”, uma comissão ad hoc liderada por António Arnaut, do PS, investigou o caso. Durante as suas diligências, recebeu uma carta de Octávio Pato. Entre as linhas, quase se ouvia o ranger de dentes do deputado comunista. No texto, afirmava que não tivera “qualquer intuito de insultar ou difamar” Gonçalves Sapinho. E concluía, com triste resignação: “Entretanto, e dado o desmentido feito pelo Sr. Deputado, procedemos a uma colheita de informações complementares, sucedendo que diversas pessoas, que assistiram aos cercos e assalto, informam não ter visto, entre eles, o referido Sr. Deputado. A ser isso certo, não teremos dúvidas em afirmar, digo, lamentar a ocorrência e os eventuais prejuízos morais causados ao Sr. José Gonçalves Sapinho, solicitando da Mesa da Assembleia Constituinte que dê o assunto por encerrado.”
O deputado do PPD não o deixaria escapar tão facilmente. Exigiu que o inquérito prosseguisse e, no final, a comissão considerou que a carta era “uma reparação moral à honra e dignidade do deputado Gonçalves Sapinho” e defendeu “que se declarasse não provada a acusação”.
Agora que estava decretada a sua pureza política, o social-democrata sentiu-se livre para avançar um pouco mais. Num discurso indignado, argumentou que o verdadeiro culpado dos ataques às sedes e aos militantes do PCP era, na realidade, o PCP: “Foi o próprio Partido Comunista que criou as condições para alimentar o anti-PCP. Foi o próprio Partido Comunista que lançou o ódio nas populações para agora dele colher os frutos amargos. Ao Partido Comunista cabe a responsabilidade de ter semeado ventos que originaram a tempestade.”
No seu arsenal retórico, ainda lhe restava uma frase de efeito. Entre “risos” e “aplausos”, Gonçalves Sapinho disse que “ao Partido Comunista não lhe sobra legitimidade para se queixar” e disparou, sentindo-se finalmente vingado: “As suas queixas fazem-me lembrar a história daquele imbecil que mata a mãe para depois ter possibilidade de se queixar de que é órfão.”

Fontes:Diários da Assembleia Constituinte
“A Invasão Spinolista”, de Eduardo Dâmaso
“A Revolução e o Nascimento do PPD”, de Marcelo Rebelo de Sousa
“Cenas Parlamentares”, de Victor Silva Lopes
“Diário de Lisboa” de 22 de Julho de 1975
“Povo Livre” de 23 de Julho de 1975
“Visão História” de Julho de 2010
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3ab2015
Bruno Januário postou esta foto no face:


e comentou assim:
Apesar de não me identificar com o PCP... Uma grande foto que me veio parar "às mãos" vindo do nada ... Álvaro Cunhal em digressão por Alcobaça em ~1970. Para colecionar Amigos Alvaro CabralVítor Hugo Vieira e Rogério Manuel Madeira Raimundo
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eu ripostei:


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A minha postagem no unir alocbaça:

06/03/2010

2.223.Hoje faz anos o "nosso" PCP: 89!!!é muito dia de luta pelas causas do Povo Português!!!

A política, para mim, começou em 1969 quando fui estudar engenharia mecânica para o Instituto Superior Técnico.
Uma das primeiras cenas empolgantes: almoçava na cantina nas calmas, quando o Presidente da Associação António Abreu (meu camarada de Partido, que foi vereador da Câmara de Lisboa durante muitos anos e candidato pelo PCP a Presidente da República) salta para cima duma mesa e passa a palavra da manifestação que iria acontecer, naquela tarde…Acho que o António Guterres também era dirigente associativo e também saltou para cima da mesa para agitar…
Recordo que se fazia esta agitação surpresa quando aconteciam jornadas contra a guerra colonial ou de Solidariedade com a luta dos estudantes de outras Faculdades de Lisboa ou Coimbra.
Em 1969 o alcobacense António Costa (que foi Ministro da Justiça de 2005 a 2009) era o Presidente da RIA (Reunião Inter-Associações de Estudantes).
Nesse ano de 1969 votei pela Oposição.
Recordo várias cargas da polícia a carregar nas manifestações estudantis.
As Balas de borracha ali bem perto de mim.
Os Gorilas às entradas da Cantina Universitária e nas Faculdades de Letras e Direito de Lisboa.


Só aderi ao PCP no final de 1977 pelo que o período após Revolução de Abril, o designado “PREC foi vivido como “independente”…

Estive na grandiosa manifestação do 1º de Maio de 1974, que encheu as ruas de Lisboa e o Estádio do INATEL em Lisboa…

No CCCela…
O Centro Cénico da Cela foi fundado em 1973 por um grupo de jovens com destaque para a liderança do José Cândido e em que eu tive uma participação importante. A minha disponibilidade coincidiu com a luta dos estudantes do Instituto Superior Técnico. Fechou um semestre e foi esse facto político que me levou à terra, à Cela e a me ocupar no movimento que originou o CCCela.
De Julho de 1973 a Outubro de 1973 fizemos de tudo um pouco: ensaios da peça de teatro “Médico à força”, Excursão para “Unir o povo dos Lugares com o da sede da freguesia”, futebol, pingue-pongue, atletismo…O teatro foi a estratégia que usámos para demonstrar o que éramos capazes de realizar.

Recordo uma cena política com o Presidente da Câmara de então, decorria o ano de 1973.
Foi a 1ª vez que entrei no edifício dos Paços do Concelho. Acho que foi na véspera, ou na manhã do dia da manifestação de apoio a Marcelo Caetano em Lisboa, no regresso da viagem dele a Londres (Em Londres tinha havido manifestações da oposição democrática e pelo fim da guerra colonial).
No actual salão nobre, sem divisória, esperei que o Presidente Tarcísio Trindade me atendesse. O gabinete dele era onde está agora o atendimento ao cima das escadas.
Vi panos brancos com dizeres ”Alcobaça apoia…”
Presidente Tarcísio foi correctíssimo comigo. Lembro-me que me perguntou porque escolhemos “O médico à força” de Molière e apoiou o espectáculo com empréstimo de bancos desmontáveis (de madeira e tubos) para o público se sentar.

Recordo que o Sargento da GNR, de então, perguntou a alguém se o CCC não era o Centro dos Comunistas da Cela.

Em 1973 abstive-me de votar como recomendou a Oposição Democrática. O meu saudoso pai pressionou-me, preocupadíssimo por eu ficar marcado como anti- Marcelo Caetano…


Eu passava a maior parte do meu tempo livre na colectividade.
Além de ser dirigente, e um dos principais animadores. do Teatro, estava em todas: no Basquetebol, no pingue-pongue e também alinhava como jogador da equipa de Futebol.
(...)
Uma das actividades principais que tive no chamado Processo Revolucionário em Curso, “PREC”, foi a edição do Boletim Informativo “Construir o Amanhã” que tem alguns pormenores políticos curiosos.


Na Escola Secundária de Alcobaça (a actual Escola Secundária Dona Inês) (que continha a Escola Agrícola) onde fui professor desde o ano lectivo 74/75 que só começou em 6 Janeiro, devido à Revolução de Abril de 1974…
Fui eleito Delegado Sindical. Quase todos os professores, então, eram sindicalizados.

Uma das lutas que não esqueço.
Prof. Mário Sá acumulava as funções de Professor com outras actividades no privado. Então, o Sindicato defendia que os professores não podiam acumular, para se poderem criar mais empregos…

Plenários de Escola no ginásio.

A luta dos estudantes teve a ousadia de esconderem os livros de ponto. O diálogo com a comissão de luta dos estudantes. A bem liderei a Comissão de Professores que conseguiu evitar os processos disciplinares aos alunos e recuperámos os livros de ponto e o respeito pelas lutas dos professores, dos alunos e dos trabalhadores não -docentes.

O 11 de Março de 1975 em Alcobaça.
Eu estava noutra luta. Enquanto os Professores Joaquim Oliveira e o António Emílio ( e outros) foram para as barricadas nas entradas da Vila de Alcobaça, eu estava a tentar mobilizar professores e alunos para respeitarem quem trabalha (não -docentes) e acabar com os escritos nas carteiras…Utilizava a canção do Zeca Afonso que estava na “berra”: “O que faz falta é avisar/animar a malta”…
Com o poli copiador a álcool fiz os A5 para cada sala, cada professor, cada delegado de turma…

Assalto aos Centros de Trabalho do PCP
Dia 21 de Junho de 1975 em Alcobaça e na Vestiaria…

A versão que acredito vem, naturalmente, dos meus camaradas Américo Areias e Rui Baltazar que resistiram e que sofreram a pancadaria dos assaltantes arruaceiros e dos agitadores contra revolucionários que percorreram o país, bem pagos, para fomentar esta desordem, numa onda anti-comunista e para instalarem o medo juntos dos que lutavam pelos ideais da Revolução de Abril.
Há alguns dias que havia permanência dia e noite para defenderem a sede de Alcobaça. Estavam cerca de 30 camaradas na sede. Perto da hora de almoço o militar que comandava a defesa do Centro de Trabalho, conseguiu convencer que 28 fossem evacuados na “chaimite” porque ele nunca permitiria que alguém invadisse a sede do PCP: “Só por cima do meu cadáver”. Foi convincente.
O pior só se passou quando este grupo de militares foi substituído. O novo comandante das tropas destacado chegou a uma certa hora e abandonou a zona de protecção e foi o descalabro.
Rui Baltazar assume que houve alcobacenses que ocupam lugares importantes em Instituições de Alcobaça que foram com os agitadores até ao 2º andar e se comportaram como energúmenos.
Quer o Américo quer o Rui naqueles instantes ouviram muitos gritarem: deixem-nos morrer para aí.
Quem levou o Américo Areias ao Hospital de Alcobaça foi o Carlos Carmo (actual membro da Polícia Judiciária), na sua viatura, que se impôs perante os que rodeavam o assalto.
Quando acabei as minhas actividades de Professor e treino no CCC é que ainda me desloquei a Alcobaça e ainda vi a fogueira que fizeram com os móveis e livros, entre a Farmácia Campeão e a Papelaria Império…
No dia seguinte, colegas da UDP e doutros “marxistas-leninistas” achavam que o PCP é que era culpado de ser atacado…
O Rui Baltazar chegou a ser considerado como morto.
O Américo Areias esteve três semanas hospitalizado. Na brincadeira ainda o Rui dizia que tinham ganho 3-2. Houve 3 feridos do lado dos arruaceiros e 2 do PCP…
Só agora nos últimos anos, com os novos aparelhos de diagnóstico, foi vista com pormenor a agressão principal que o Américo sofreu no dia 21.6.1975, com uma barra de ferro, que lhe atacou a parte cervical da coluna.
Teve alta no dia do Comício com Álvaro Cunhal, Secretário-geral do PCP, em Alcobaça.
Mais um acontecimento importante. O PCP fez vários comícios contra a reacção, pela liberdade, contra os assaltos das sedes do PCP e MDP, nas terras onde houve essas acções. Quis mostrar que não havia medo e que utilizava a força do direito de reunião. Curioso que os contra-revolucionários só atacaram o comício do PCP em Alcobaça.
O camarada Américo Areias considera que naquele dia esteve quase a começar uma guerra civil em Alcobaça. Perante o tiroteio e o apedrejar da cobertura do Pavilhão Gimnodesportivo houve a mobilização de todas as forças do PCP. Ele diz que o que valeu foi a competência dos militares que vieram limpar toda a zona à volta do Pavilhão

A adesão ao PCP é após PREC no final de 1977.
Na Comissão Sindical da Escola sempre alinhei com as posições do camarada do PCP Joaquim Oliveira.
No social de Alcobaça Timóteo de Matos, militante do PCP, foi a pessoa exemplar que me suscitava simpatia.
Nesse ano de 1977 houve a 2ª Festa do Avante, no Jamor. Foi o clic para aderir ao PCP.

Estive como professor Cooperante em Moçambique nos anos de 1978 e 1979.
Para o registo histórico de militante do PCP, uma curiosidade: em Moçambique tive a 1ª reunião de célula de partido. Dirigia a célula, o então camarada Mário Lino (que foi ministro das Obras Públicas do governo PS, 2005/9).
Quando regressei da cooperação é que me meti a fundo na luta político-partidária no nosso concelho de Alcobaça. Ainda não parei e nunca tive qualquer cena complicada ao longo de 30 anos. Respeitei e fui respeitado…

Em 1980 (dia e mês?) estive no meu primeiro acto público de militante, ao lado de Álvaro Cunhal, na presidência da mesa do comício no cineteatro de Alcobaça…A Plateia e os balcões encheram completamente.
Pormenor: enquanto outros camaradas discursavam, Álvaro Cunhal fazia um traço em cada vírgula, para destacar a pausa a fazer, quando fizesse a sua leitura…
Desde a cena violentíssima do comício do PCP em Alcobaça, no Pavilhão Gimnodesportivo, com tiroteio, podemos dizer que Alcobaça passou a ser uma terra que respeitou as diferenças partidárias…

A 1ª vez que concorro para um cargo político foi nas Autárquicas de 1980. Era o 1º da lista da Assembleia Municipal e fui eleito com mais 2 camaradas. Fui o 1º da lista da Assembleia Municipal em mais 2 eleições (1983 e 1986). Em 1989 é que iniciei o ser 1º da lista da Câmara.

Li a proposta da APU…Livre de armas nucleares.
Interpretei a leitura duma proposta que era de aprovar que o nosso concelho não permitisse o trânsito de armas nucleares.
Baralhou toda a gente da Assembleia Municipal.
O deputado Franco dos Montes fez uma intervenção inesquecível:
“Não percebo para que é que estão a propor isso para Alcobaça…Essa Bomba de Neutrões não é aquela que escolhe quem mata?”…
A confusão foi tanta que o Sr. Tarcísio Trindade demite-se de Presidente da Assembleia Municipal, que “não tinha sido eleito para isto”.
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Via blogue do Fleming de Oliveira:
Versão +recente:
http://flemingdeoliveira.blogspot.pt/2014/04/quando-cunhal-podia-ter-sido-apanhado.html
(execertos)

segunda-feira, 28 de abril de 2014


QUANDO CUNHAL PODIA TER SIDO APANHADO À MÃO…. MAS CONSEGUIU FUGIR (Alcobaça 16 de agosto de 1975). O CDS EM ALQUEIDÃO DA SERRA



Fleming de Oliveira


O comício do PC marcado para a noite de sábado, dia 16 de agosto de 1975 em Alcobaça, constituiu a primeira sessão pública promovida por aquele partido, após a instauração do clima de violência a que o País, de norte a sul, assistiu no Verão Quente e concretamente em Alcobaça, dias antes, como contei.
Esta iniciativa, que pretendia ser de afirmação ou de desagravo protagonizado por Cunhal, não foi bem aceite em Alcobaça, cujas gentes em geral não se sentiram honradas com tal distinção, que reputaram de provocação.
Para Rogério Raimundo, segundo me contou ,“o PCP fez vários comícios contra a reação, pela liberdade, contra os assaltos das sedes do PCP e MDP, nas terras onde houve essas ações. Quis mostrar que não havia medo e que utilizava a força do direito de reunião. Curioso que os contra revolucionários só atacaram o comício do PCP em Alcobaça. O camarada Américo Areias considera que naquele dia esteve quase a começar uma guerra civil em Alcobaça. Perante o tiroteio e o apedrejar da cobertura do Pavilhão Gimnodesportivo houve a mobilização de todas as forças do PCP. Ele diz que o que valeu foi a competência dos militares que vieram limpar toda a zona à volta do Pavilhão”.
A avaliação do comportamento dos militares ao longo do PREC, suscita opiniões díspares.
Já notei  acusações de estarem com a reação, de não tomarem posição e de bom e competente trabalho!

O PC tinha feito uma ampla cobertura publicitária do comício, com panfletos, faixas nas ruas e caravanas auto com altifalantes a anunciar a presença do Secretário-Geral, o camarada Álvaro Cunhal, bem como de Joaquim Gomes, membro do Comité Central. Durante o dia correram em Alcobaça, os boatos mais desencontrados, que grupos provenientes de Alhandra e da cintura industrial de Lisboa, vinham assegurar a resposta aos “reacionários e fascistas alcobacenses”.
Por isso, as pessoas da vila, mesmo alguns afetos ao PC, retraíram-se de aparecer.

O ambiente no Pavilhão Gimnodesportivo de Alcobaça, com muitos militantes provenientes da Marinha Grande, Santarém, Alhandra, Seixal e Almada, era inicialmente de grande expectativa de acordo com Mário Vazão, que lá se deslocou e entrou para tomar algumas notas para O Alcoa. Como não era de rejeitar a hipótese de incidentes, estavam também presentes, repórteres nacionais e estrangeiros de França, Inglaterra e Canadá.
Até às 22h nada fazia prever, a uma pessoa mais desatenta ou desconhecedora do ambiente, o que se iria passar. Aos poucos, pequenos grupos, depois umas centenas de pessoas de vários pontos do Concelho e mesmo de fora, começaram a juntar-se no exterior e a apedrejar o pavilhão, bem como a cantar e proferir palavras de ordem provocatórias aos que chegavam e se preparavam para entrar.
De dentro houve resposta, com armas de fogo a disparar contra os contestantes, causando alguns feridos, transportados para o Hospital, um dos quais, Joaquim Elias Vicente, que ficou internado. No interior, Rui Baltazar, o grande animador de serviço, referindo-se ao recente ataque à sede do PC em Alcobaça, cujas consequências lhe deixaram mazelas, mas que não lhe retiraram o ortodoxo e inabalável fervor militante (hoje em dia sócio de uma panificadora de estrutura familiar em Valado de Frades), frisou-me que “a ação preparada meticulosamente durante um mês, não visava só aquele centro de trabalho, pois que a tomada da Câmara, do Hospital e da Cooperativa, estava nos objetivos dos fascistas alcobacenses”.
Aquele membro do PC, comunicou ainda que na altura em que ocorreram os incidentes de julho em Alcobaça, elementos do PS, de Valado de Frades, se prontificaram a ajudar os camaradas comunistas, a defender a casa de trabalho, o que não aconteceu, tanto quanto se sabe, nem porquê, mas que não obstante motivou vivas e aplausos.
Entretanto, o comício prosseguia. Cerca das 23h, depois do vidreiro António Dionísio ter falado e procedido à leitura (aliás segundo se diz com manifesta dificuldade…), de duas moções de apoio ao PREC, os acontecimentos precipitaram-se.
Alguns elementos afetos ao PC que, na entrada, montavam o serviço de segurança, em resposta às pedras e aos insultos que lhes eram dirigidos, começaram a atirar objetos contra os manifestantes de forma indiscriminada, usar instrumentos contundentes, um das quais atingiu Manuel Augusto Coelho e a disparar, para o ar, armas de fogo. Francisco Presciliano de Sousa, sofreu um ferimento na vista e tal como Fernando Laurentino foi evacuado para Lisboa, enquanto Segismundo Marques de Sousa, atingido com chumbo de uma caçadeira, teve de ser transportado de urgência para os HUC.
No interior do pavilhão, o ambiente era de excitação. A assistência (mais tarde se avaliada em cerca de 2.000 pessoas), entoava, para se reconfortar, “A Internacional” e o “Avante Camarada!.
Álvaro Cunhal subiu ao palco e dirigiu-se aos presentes, manifestando a esperança/certeza que, de novo, “seriam restauradas as liberdades democráticas em Alcobaça”, anunciando que na Vila se realizaria em breve uma grande festa-comício.
Os tempos nunca se revelaram adequados a essa festa, apesar de assegurar que “tenham confiança, camaradas, porque as dificuldades temporárias serão supridas e os criminosos fascistas receberão os castigos que merecem, pois o momento de crise da Revolução há de passar”.
Uma das ambulâncias que levava um ferido para o hospital, foi atingida à pedrada, já que os manifestantes julgaram, que ia escondido lá dentro e em fuga, o próprio Cunhal.
Mas não era verdade, este saíra previdentemente por outro lado, devidamente enquadrado pela sua encorpada segurança. No exterior do pavilhão havia agressões de parte a parte, o disparo de armas de fogo, de arremessos de cocktails molotov, que só vieram a terminar quando, pelas 2h30 chegaram forças do RI7 de Leiria, e RI5 de Caldas da Rainha que, com rajadas de metralhadora para o ar, dispersaram os manifestantes, que barricavam as saídas com pedregulhos, toros e postes de cimento e permitiram a evacuação final do pavilhão.
O Rádio Clube Português (conforme a sua linha editorial de vanguarda/progressista), acompanhou, quase em direto, e acicatou os acontecimentos de Alcobaça e pelas 5h da madrugada do dia 17 de agosto anunciou ao País que, no comício do PC, realizado em Alcobaça, com a presença de destacados elementos do partido, entre os quais Álvaro Cunhal e Joaquim Gomes, “bandos de fascistas estão a causar graves distúrbios de que podem resultar pesadas consequências, assinalando-se já vários feridos”. Apelou à solidariedade e ação dos trabalhadores e democratas com esta situação que, como “muitas outras que se vêm registando, parece visarem a destruição das liberdades”,bem como alertou para o perigo em que se encontraram os comunistas em Alcobaça.
Graças a este apelo, alguns automóveis transportando de comunistas da região, munidos de caçadeiras, matracas e barras de ferro, deslocaram-se à Vila de Alcobaça, em socorro dos camaradas, já nada tendo feito porque os incidentes haviam acabado e o pavilhão não tinha ninguém.

José Alberto Vasco, que na verdura dos seus 20 anos esteve no Pavilhão, do comício guarda recordações interessantes, senão mesmo românticas. Era um jovem idealista (em reflexão auto crítica do trotsquismo como me disse), do qual conhecia alguns princípios e teoria.
Para José A. Vasco, leitor de alguns textos de divulgação, o trotskismo consistia fundamentalmente na defesa domarxismo, combatendo a burocracia noEstado Operário, fortalecido com a ascensão de Estaline ao poder, em 1924, a ideia de Revolução Permanente. Aqui residia a principal divergência em relação ao pensamento de Estaline, que defendia a tese do socialismo num só país. Para os puros, ingénuos e jovens do trotsquismo, a Revolução Permanente defendia a  expansão para além das fronteiras da URSS como prioridade, ao invés do seu primordial fortalecimento interno.
Para os comunistas portugueses (PC), o trotskismo era uma tentativa revisionistae heterodoxa de desvirtuar o marxismo-leninismo e corromper os valores realmente revolucionários, representados pelo regime de Estaline na União Soviética, aonde Cunhal fizera a sua formação política.

Essa semana, como me recordou José A. Vasco, fora interessante, embora ensombrada no seu dizer engajé, por um conjunto de assaltos a sedes de partidos, sindicatos e organizações de esquerda, no centro e norte do país, bem como pelo golpe da UDT, em Timor.
Após a publicação do Documento dos Nove, o CPCON apresentou o seu programa para salvar a Revolução Portuguesa.
Em 13 de agosto, uma lista liderada por Mário Contumélias e afeta ao MRPP/PS, venceu as eleições para o Sindicato dos Jornalistas, e dois dias depois foi emitido comunicado em que um grupo de jornalistas do Diário de Notícias, contestava a direção editorial de Luís de Barros, diretor, e José Saramago, subdiretor, acusando-os de estarem a conduzir o matutino para uma “crescente onda de descrédito” e de ter afastado dos seus quadros excelentes profissionais, que tinham tentado servir o jornal com uma informação verdadeiramente revolucionária, porque objetiva e desapaixonada.
Na manhã dessa sexta-feira, 15 de agosto, os jornalistas Manuela de Azevedo, Luís de Oliveira Nunes e José Sampaio haviam divulgado as posições do grupo de 30 jornalistas contestatários da linha editorial do Diário de Notícias, dando a conhecer o abaixo-assinado em que acusavam a dupla Luís de barros e Saramago de “evidente sectarismo de opinião publicada e de um gravoso silêncio em apoio ao documento Correia Jesuíno, que pretende restabelecer a censura à informação em Portugal”.
No mesmo dia, durante um comício do PS, em Lisboa, o antigo chefe de redação do República, João Gomes, atacou o governo de Vasco Gonçalves, acusando-o de que ficar “na história como um símbolo de incapacidade, de incompetência e um símbolo do fala-barato: um símbolo da nulidade”.
À mesma hora, num comício do PC, no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, Cunhal acusou o PS de, em vez de se unir às “forças progressistas”, se haver virado “contra as forças revolucionárias, alargando as suas alianças à direita e convergindo com as forças mais reacionárias”.

Ainda nessa sexta-feira, e depois de num comício do PPD, em Bragança, o secretário-geral Emídio Guerreiro ter clamado contra a inutilidade da chamada campanha de Dinamização Cultural do MFA na região, efetuou num comício de Cascais outro ataque ao governo de Vasco Gonçalves, terminando com o apelo “Basta, Companheiro Vasco!”, que se tornaria a manchete jornalística do dia seguinte.
Em Timor, a situação política agravou-se, pois o comandante da PSP em Dili, Maggiolo Gouveia, abandonou o posto, aderindo à UDT.

Na noite de sábado 16 de agosto de 1975, conta José Alberto Vasco “o meu período de reflexão política pessoal continuava e apesar das minhas já então muito abaladas convicções trotsquistas, não deixei de me deslocar àquele local, para muito democraticamente ouvir o que o meu suposto inimigo estalinista lá iria declarar, ali me deslocando bastante convicto do antiestalinismo, que mantenho”. Foi acompanhado pelo amigo Tó Filipe e quando chegou, viu que “aquela festa/comício pouco tinha a ver politicamente comigo”.
Era uma festa porque, “aquilo era isso mesmo, uma festa em que cantos, aclamações e bandeiras vitoriavam o partido mais fraturante da sociedade portuguesa e a sua figura maior, Álvaro Cunhal, que alguns minutos depois vi entrar na sala, com o ar simultaneamente esfíngico e irónico que a história reserva aos seus heróis”.
O comício começou com um discurso de António Dionísio, apresentado como delegado sindical na Crisal. “Foi precisamente”, continua José Alberto Vasco, “durante esse discurso que o comício foi interrompido por um monumental tiroteio vindo do exterior. Quase mecanicamente, foi montado no interior um bem treinado mecanismo de defesa, a cuja organização assisti tão impávido e sereno, como aterrorizado pela incerteza do que me esperaria lá fora, ou até se dali conseguiria sair. e a verdade é que esses temores se aprofundaram, quando confirmei que alguns militantes do PCP estavam armados, o que me levou a prever um agravamento da situação. A verdade é que o tiroteio foi aumentando e que eu então me desloquei para o setor do pavilhão onde ainda se situava Álvaro Cunhal, tendo mesmo estado a cerca de um metro daquele que eu já então considerava ser um dos principais responsáveis pelo enfraquecimento prático e teórico da esquerda portuguesa. Ali estive durante alguns minutos, ouvindo o aceso tiroteio que se desenrolava lá fora e as pedradas que amiúde batiam nos vidros do pavilhão gimnodesportivo”.
Em dado momento, José Alberto Vasco viveu o seu maior susto da noite, se não da sua ainda curta vida, “quando um estrondoso ruído anunciou a queda de uma das janelas situadas ao alto do pavilhão, poucos metros atrás do local onde se encontrava o líder comunista.Certo é que poucos minutos depois deixei de ver Álvaro Cunhal, que seguidamente constou ter conseguido abandonar o local dissimulado numa ambulância. E eu lá continuava, observando e vivendo aqueles marcantes acontecimentos e verificando que, apesar do cerco que lá fora se desenhava e anunciava, a defesa movida pelos militantes do PC fora entretanto reforçada com outros elementos armados, oriundos da Marinha Grande”.
Algum tempo mais tarde, tudo parecia acabado, numa versão não totalmente coincidente com o supra exposto, pelo que “começámos a sair muito calmamente do pavilhão e a dirigirmo-nos para casa, verificando que a nossa saída estava fortemente protegida por dezenas de militares oriundos do RI 7 de Leiria e do RI5 de Caldas da Rainha, que a PSP chamara em seu apoio. Viam-se também muitos vidros partidos e automóveis danificados, embora já não se registassem sinais de presença das pessoas que haviam ostensivamente cercado o pavilhão”.
Apenas no domingo seguinte, José Vasco confirmou o que tinha acontecido noJornal de Notícias, isto é, que centenas de pessoas haviam montado cerco ao comício do PC e erguido barricadas e fogueiras. “Soube também por esse jornal que, durante a confrontação a tiro e à pedrada, se haviam registado vinte feridos, quatro dos quais haviam recebido tratamento hospitalar”.                                   

À tarde, a vida corria normalmente em Alcobaça, numa rotina de verão quente e soalheiro, sem que nada deixasse transparecer a ocorrência dos graves incidentes da noite anterior. Apenas em alguns pequenos grupos era tema de conversa, misturado com muita boataria e factos inverosímeis.
Os acontecimentos tiveram repercussão, no País e no estrangeiro. O Paris-Match fez uma reportagem sobre o acontecimento, onde Duarte Chita, diretor do LRA, aparecia muito sorridente. Dizia-se, que Alcobaça perdeu a oportunidade histórica de “apanhar Álvaro Cunhal à mão”.
Entre os mais de 20 manifestantes feridos na noite de 16 de agosto, dos quais 7 ficaram internados nos hospitais de Lisboa, Coimbra e até de Alcobaça, contava-se o jornalista do Daily Telegraph, o inglês Michael Field, de 54 anos de idade, que já estava há vários dias em trabalho de reportagem em Portugal.
A interpretação destes acontecimentos, por parte do PC e satélites, bem como dosmedia afetos, foi bem diferente da generalidade dos alcobacenses. Segundo um comunicado, emitido logo na manhã do dia 17 de agosto, pela secção de Informação do PCP, “por declarações feitas por alguns provocadores agarrados pelo serviço de ordem do Comício, averiguou-se que alguns tinham vindo bem de longe e recebido dinheiro para o efeito”.
Para registo, vou transcrever o comunicado de apoio, emitido pela Comissão Central do MDP/CDE, logo às 6h da madrugada da noite de 16 para 17 de agosto de 1975:
“O comício realizado pelo PCP, em Alcobaça, com a presença de Álvaro Cunhal, seu Secretário-Geral e ministro sem pasta dos quatro primeiros governos provisórios, marca uma nova escalada de violência reacionária. As liberdades encontram-se ameaçadas. Mas quem as ameaça são os mesmos que durante quase 50 anos, as retiraram do povo. Em Alcobaça, os comunistas tiveram de defender o direito de reunião. Ao defenderem-no para si, neste caso concreto, estavam-no defendendo para todos os democratas, estavam defendendo as liberdades conquistadas após o 25 de Abril. Tiveram de o fazer, respondendo de armas na mão à violência reacionária, dando uma primeira imagem do que poderá vir a ser este País se continuarem as hesitações que paralisam as forças militares e militarizadas, se continuar por concretizar uma firme política repressiva sobre a reação. Esta noite em Alcobaça, correu sangue; não apenas dos provocadores contrarrevolucionários mas também de militantes progressistas. (…) O MDP/CDE saúda os comunistas que, com risco da própria vida, defenderam o seu comício, os seus dirigentes e a sua (nossa também) liberdade. O perigo do fascismo paira novamente sobre o nosso país. Não é um perigo imaginário, pois que as ações de violência dia a dia desencadeadas, não são inventadas. Aos partidos e organizações progressistas e ao MFA cabe um grande esforço para intensificar a sua unidade e a sua disposição de dar luta comum às forças reacionárias e neo-fascistas que põem em perigo a nossa revolução. (…) Que todos os patriotas saibam tirar as devidas lições das provocações reacionárias ao comício do PCP em Alcobaça”.
É reconfortante ter amigos assim.

Ao começo da noite desse sábado de agosto e de férias, Rosalina Martins, havia regressado com o marido Ricardo de um passeio automóvel, na companhia da amiga Teresa.
Quando se preparava para a pé chegar a casa, situada perto do futuro Tribunal da Comarca, na esquina da rua Mariano Pina, viu muita gente, algumas pessoas que reconheceu, que se encontravam próximas do Pavilhão Gimnodesportivo. Para grande surpresa, ouviu vindo dessa zona, alguns tiros que lhe pareceram de caçadeira. Como lhe constava, assim como a muita gente de Alcobaça, que iria haver barulho no comício do PC, com a presença de Álvaro Cunhal, assustou-se e enervada, começou a dizer para o marido “ai, que não vejo mais os meus rico-filhos!”  Este, apesar de ser pessoa normalmente calma, mas nesse momento enervado, disse-lhe peremtoriamente para se calar, senão “ainda levas um par de chapadas”. Rosalina calou-se, acalmou-se e depois supôs que os tiros vindos do lado do Pavilhão e do seu interior, se destinavam a assustar e dispersar as pessoas que o estavam a cercar com a finalidade de boicotar a sessão.
A partir das 22h, encontrando-se em casa, notou que se continuava ainda a juntar mais gente no exterior ao Pavilhão, de ares ameaçadores e vozes exaltadas.
Era mais uma agradável noite de agosto português. Os acessos ao Pavilhão, a partir da Escola Primária, encontravam-se cortados com barricadas, compostas dos mais variados objetos.
Na opinião de Rosalina Martins e marido, este corte de estrada, tinha relação com o facto de se pensar que Cunhal, indo ao comício, teria de passar necessariamente por ali para sair. A certa altura, ouviu-se um conjunto de rápidos disparos de arma de fogo que, parecia ser de metralhadora. Rosalina que confessa nada saber de armas, não pode identificar a sua natureza, mas viu muitas pessoas a atirarem-se para o chão. Encontrava-se a ver, através dos estores da casa, “a roer as unhas” e com as luzes apagadas. Acontece que, depois dos disparos, uma pessoa ficou estendido no chão, sem se levantar. Disse então para o marido que deveria haver ali um ferido grave, senão mesmo um morto.

Ao fim de alguns minutos, umas pessoas bateram à porta de entrada da casa. Tendo ido abri-la, constatou que se tratavam de três estrangeiros a falar inglês, e a pedir ajuda para um ferido que vinha em mau estado. O marido que tinha alguns conhecimentos de inglês, abriu-lhes a porta e deixou-os entrar. Apurou-se, que se tratava de repórteres canadianos, e que o ferido, era um colega que além do ar assustado, tinha a cara coberta de sangue e alguns estilhaços do que veio a saber ser os restos de uma máquina fotográfica, que se partira. Foi-lhes explicado que o jornalista-fotógrafo, com o susto, tinha-se atirado para o chão, e na queda partiu a máquina, ferindo-se na cara. Os canadianos entraram em casa, mas não deixaram acender a luz, com o argumento que não queriam chamar a atenção, pelo que o primeiro curativo foi efetuado por Rosalina Martins na casa-de-banho, à luz de duas velas.

Terminado o comício, Rosalina ouviu dizer na rua que Cunhal conseguiu sair a pé, acompanhado de um grupo de fortes seguranças, “cubanos” que o protegiam e encobriam dos populares, muito pouco amistosos. Cunhal não saiu de carro, muito menos de ambulância, e ter-se-à dirigido para um ponto qualquer da estrada que passando pela Bemposta, vai dar a Aljubarrota e depois Lisboa.
O seu motorista, conhecido em Alcobaça, como o “Pobre Homem”, de onde aliás era natural e tem família, mas com quem não tem relações, estava à sua espera num ponto previamente combinado da estrada para o levar em segurança.
Segundo se soube mais tarde, sem aparato nem especiais cuidados de segurança, Cunhal terá vindo outras vezes à região de Alcobaça, para estar com os parentes do Pobre Homem, ou se encontrar com o proprietário da Farmácia do Juncal e respetiva família.

Luís Graça, da Ataíja, que pontualmente e por iniciativa própria colaborava com o PPD, também esteve presente junto ao pavilhão. Luís Graça considerou o ambiente como febril, tanto de um lado (de fora) como do outro (de dentro), e, contrariamente ao que se chegou a temer ou dizer mais tarde, só alguns populares que o cercavam, estavam armados com caçadeiras.
Luís Graça, deparou com muita gente das suas relações especialmente da Ataíja, Aljubarrota e Moleanos, que esteve envolvida na contestação ao PC, no assalto à sede, e desta vez à presença de Álvaro Cunhal que rotulavam de provocatória e acintosa. E se houvesse oportunidade apanhavam-no.
Manuel de Almeida, de Turquel, nos seus 23 anos e que havia regressado não há muito da Guiné de onde trouxe um louvor individual numa operação de fuzileiros realizada na zona do rio Cacine (fronteira com a Guiné-Conacri, tinha gizado um golpe de mão.
Embora os sitiantes não se tenham apercebido da saída, Luís Graça assegura que Cunhal se refugiou num barracão perto do Pavilhão, devidamente enquadrado por seguranças, os célebres “cubanos” que o depois o colocaram, são e salvo, no automóvel, frustrando assim o plano de Manuel Almeida, que a concretizar-se ficaria para a História, como “o homem que apanhou Álvaro Cunha à mão”!

Depois destes acontecimentos, que incomodaram muito os moradores da zona da Gafa, que não pretendiam mais “estar sujeitos a arruaças de consequências funestas e selváticas”reuniram-se e aprovaram que fosse transmitido à CA da CMA, “o desejo que o pavilhão não fosse mais cedido a qualquer organização política, para objetivos afins, de acordo com o respetivo Regulamento de Utilização”.

Para Timóteo de Matos segundo me contou, “atacar a sede do PC eradescer muito a sul. A sede de Leiria tinha sido destruída e a da Marinha Grande, ficava perto. A Marinha Grande era um dos grandes bastiões do PC, pelo que não se podiam correr riscos. Havia que agir e fazer uma demonstração de força que desanimasse o inimigo. Assim decidiu o PC pelo que foi programado, para o fim do verão, um comício, em Alcobaça, no pavilhão Gimnodesportivo. Anunciava-se a presença de Álvaro Cunhal e, deste modo, tanto para o PCP como para a direita, estava bem claro que muito se jogava ali. Ou os comunistas conseguiam fazer o comício e a direita sofria duro revés ou, pelo contrário, era impedida a realização do comício e a direita saía por cima e com força para continuar os assaltos a seu bel-prazer”.
Enfim, era um dilema do género, tudo ou nada. ELP, MDLP e CDS, organizaram-se mas também estavam presentes muitos elementos do PPD e do PS a aplaudir. “Rio Maior trocou o leão pela moca e uma direita trauliteira, armada de varapaus e espingardas (e fósforos), desceu do Minho em vinte autocarros, instigada pelos senhores abades reacionários e veio por esse país abaixo, rumo a Alcobaça, gritando Morte aos Comunistas”.
“Mas também por cá”, confessou-me Timóteo de Matos, “se organizou o festim, Vamos esfolá-los vivos!”
E continua que, chegado o dia, o Pavilhão ficou praticamente cheio. Iniciou-se o Comício do PC. Os sitiantes deram início ao ataque para a conquista do pavilhão. Foi dado o sinal com uma provocação e o arremesso de pedras para a porta. Mas as pedras não eram as únicas armas dos assaltantes que dispunham de caçadeiras e pistolas “em não menos quantidade das que tinham os defensores, que passaram imediatamente ao ataque. Foi uma luta desnecessária e estúpida que poderia ter tido consequências terríveis”, reconhece Timóteo de Matos. “Os comunistas, melhor organizados, apoiados e comandados por camaradas vindos da Marinha Grande, foram avançando a pouco e pouco, muro a muro, poste a poste, sempre ao som de tiros de um e do outro lado”.
Creio que não terá sido assim como conta Timóteo de Matos que acrescenta, que no Pavilhão, “fechado logo após a abertura das hostilidades, reinava uma boa organização e cantava-se para afastar nervos e receios. Entravam, trazidos pela segurança, de quando em vez, alguns prisioneiros ou feridos que ali eram assistidos por médico e enfermeiros.Quando chegaram os militares, já os sitiados tinham consumado o seu contra-ataque e lutava-se em baixo, junto ao prédio onde hoje está instalado o Snack Bar Gafa”.
Creio que talvez também não tenha sido bem assim, embora não o possa assegurar, pois nesse fim de semana estava ausente de Alcobaça.
“Os militares chegados safaram os atacantes de uma punição ainda maior até porque, às notícias da rádio de que o comício em Alcobaça, com Álvaro Cunhal, estava a ser atacado por elementos de direita, responderam os comunistas de Almada e Barreiro e a partir dessa hora começaram a chegar carros e carros, mais de trezentos contei eu carregados de gente”.
E se tivessem chegado mais cedo?
“Como estavam as coisas, a guerra civil poderia ter começado ali. Felizmente tudo ficou resolvido e às três da madrugada a calma reinava em Alcobaça. Conheço e sou amigo de alguns alcobacenses que estiveram neste ataque. Hoje não estão orgulhosos do seu feito, aliás não conseguido”.
Por sua vez, o MRPP, através da Comissão da Zona Engels, comunicava que
“(…) O Partido social-fascista do lacaio do social-imperialismo Barreirinhas Cunhal,  atua tomo um tonto. Pensa que à custa de tanto bater com a cabeça na parede há de resolver os seus problemas. Tarefa inglória. Atuando dessa forma, não conseguirá outra coisa senão dores de cabeça cada vez maiores.
(…) O P”C”P tem largas dezenas de sedes destruídas, perdeu o direito de falar em largas regiões, e a sua força e expresso nacional só é comparável à do seu filhote primeiro, o M”D”P/C”D”E.
(…) O P”C”P argumenta que os assaltantes “não passam de bandos de fascistas”, de “provocadores” reacionários”, etc. Toda esta argumentação não passa de uma provocação feita ao povo, visa atirar parte do povo contra outra parte do povo e acumular, assim, os fatores de uma provável guerra civil. É seguindo este raciocínio cunhalista que os apaniguados deste partido atiram a matar sobre os milhares do pessoas que assaltam as suas sedes, sob o pretexto de que são os fascistas.
(…) Na tentativa de justificar o que encontram, e no sentido de desviar a atenção dos operários das verdadeiras causas destes ataques, o P”C”P argumenta que os assaltantes “não passam de bandos de fascistas”, de “provocadores” reacionários”, etc. Foi seguindo tal raciocínio que para o comício de Alcobaça foram amados ate aos dentes, inclusivé com metralhadoras, cocktails molotov, etc. Será que foi preciso mobilizar as suas milícias social-fascistas do Norte a Sul rara convencer o povo de Alcobaça e arredores de que é reacionário e fascista?
Esta foi a mais nojenta das provocações feita ao povo de Alcobaça e arredores e a resposta dada a tal provocação foi a mais justa e correta, tão justa e correta que obrigou o testa-de ferro do social-imperialismo Barreinhas Cunhal a meter o rabo entre as pernas e a sofrer a maior humilhação que se pode ter, ser escorraçado pelo  povo. Ao perder o direito de falar em Alcobaça e logo a seguir ao Porto, o P”C”P sofreu duas das maiores derrotas da sua história e esses acontecimentos são a expressão do evidente isolamento completo e total desse partido (…)”.

(...) 

O PREC revelava, ao fim e ao resto, menos consistência do que aparentava.
Era patente o caráter pouco representativo de alguns grupos que exerciam o poder político e militar, tal como resultou das eleições para a Assembleia Constituinte. A luta no hemiciclo da Assembleia Constituinte, nos quartéis e nas ruas vai endurecer, o Conselho da Revolução recusar a entrega da Rádio Renascença à Igreja e do jornal República aos proprietários e redatores.
Foi por essa altura que o PS fez o Comício da Fonte Luminosa, em que pediu a demissão de Vasco Gonçalves e em seguida saiu do Governo, seguido uma semana depois pelo PPD.O clímax aproximava-se.
*
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

(II) QUANDO O CAMARADA CUNHAL IA SENDO APANHADO À MÃO EM ALCOBAÇA (AGOSTO DE 1975)