22/04/2015

9.958.(22ab2015.21.12') António Rebordão Navarro

Nasceu 1ag1933
e morreu a 22ab2015
http://www.cmjornal.xl.pt/mais_cm/obituario/detalhe/antonio_rebordao_navarro_1933_2015.html
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antonioNavarro
http://paginaliterariadoporto.com/index.php/autor_main/pp/52
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De súbito o implorável, a mão está


De súbito o implorável, a mão está
presa para sempre à luva ou será esta
que sem remédio prende a mão suada?
“não importa” diremos, no entanto, convictos
de trágica importância da luva presa à mão,
da mão rígida, imbecil, fechada,
pronta para o atentado, incapaz de defesa,
da mão imprópria para o cumprimento,
para a carta de amor, para o poema,
da mão de gala, solene e enluvada.
A mão jaz decepada e, no entanto, vestida,
luxuosíssima mão de primeiríssima classe,
mas inútil, quebrada,
enluvada e distinta, na valeta.
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*

O mundo completo


Estes gestos de vento,
estas palavras duras como a noite,
estes silêncios falsos,
estes olhares de raiva a apertarem as mãos,
estas sombras de ódio a morderem os lábios,
estes corpos marcados pelas unhas!. . .

Esta ternura inventando desejos na distância,
esta lembrança a projectar caminhos,
este cansaço a retratar as horas!...

Amamo-nos. Sem lírios
sobre os braços,
sem riachos na voz,
sem miragens nos olhos.

Amamo-nos no arame farpado,
no fumo dos cigarros,
na luz dos candeeiros públicos.

O nosso amor anda pela rua
misturado ao buzinar dos carros,
ao relento e à chuva.

O nosso amor é que brilha na noite
quando as estrelas morrem no céu dos aviões.
*

A vida sem palavras

Entre riso e sangue,
cabeça e espada,
entrada e saída,
flor e escarro,
sempre a vida,
a vida sem mais nada,
entre estrela e barro.

Entre homens e bichos,
entre rua e escadas,
entre grito e nojo,
a vida com seus lixos
e mãos violadas,
entre mar e tojo.

Entre uivo e poema,
entre trégua e luta,
vida no cinema,
no café, na cama,
vida absoluta.
*

O leito

O leito conserva
o sono e o sonho
da mulher amada.
A macia espádua,
o ventre de lava,
o braço e a espada,
a mão e a chave,
a areia do seio.

No corpo da mulher,
o leito feito pássaro adormece.
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http://ocantinhodaspalavras.blogspot.pt/2009/07/dependencias-tabagismo.html
VÍCIO DE FUMAR

Dentro de um milhão de anos, 
ou talvez pouco menos compreendas 
que fumando assisti ao trânsito dos dias 
e em círculos de fumo percebi palavras de ternura. 

Então descobrirás que havia coisas simples, 
rostos, pedras e pernas 
quebrando a frialdade das manhãs 
e um mundo que era de homens, bichos, crianças. 

Então talvez entendas 
porque passei fumando as curvas dolorosas, 
porque fumando escrevi poemas 
e a fumar testemunhei a crueldade. 

Mesmo que nada digas – e mais vale o silêncio – 
mesmo que nada faças, mesmo que te comovas, 
– na distância de fumo a separar-nos – sentirás 
onde era o coração, um peso ou uma lágrima? 

Onde eram os lábios uma dor ou um fumo 
que deixei nos cafés, que entreguei nos beijos, 
que guardei, inútil património, nas gavetas com contas. 

Então calcularás quantas foram as vezes 
em que falei com Deus, em que estive sozinho, 
quantos crimes inúteis pratiquei, 
quando fui anjo sem o perceber. 

Na tua solidão, procurarás nos bolsos um cigarro 
e não o fumarás. 

António Rebordão Navarro, Amanhã
***
"Não saibas tu de cor os meus poemas
mas vê antes nas ruas e nos barcos
 no fumo dos cafés, nos bancos de avenida
 a poesia que eu quero"
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Biografia e livro
27 Poemas - Autor: António Rebordão Navarro
27 poemas
http://www.ediumeditores.org/livros/poesia/art-9789898169358/antonio-rebordao-navarro-27-poemas.aspx
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http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/antonio_rebordao_navarro/poetas_antoniornavarro_poemaquase01.htm
Via Cristina Correia:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=911102758909811&set=a.101373709882724.3060.100000302868790&type=1&theater
Poema quase triste
Os homens passam sem darem por nada
carregados assim como eles vão
com suas sombras a ganharem gibas,
com os seus olhos a ficarem baços,
cheios de presbitia e astigmáticos.
Não lhes importa que nos frutos estejam
confissões de poetas e de heróis.
Os homens passam e não vêem nada,
olham apenas para as suas vidas,
para a filha doente ou para os filhos mortos.
Não se apercebem das árvores e das rochas,
sangue e nervos da terra.
Seguem tristes e com os seus olhares
voltados para dentro,
para os seus crimes ou para os seus sonhos.
Não param a escutar o coração da terra
que bate, tranquilo, sob o chão.
Tristemente aguardam os eléctricos
que os hão-de levar a suas casas
de paredes forradas pelos retratos
dos fantasmas antigos e até próximos.
É sem amor que trincam os frutos
coloridos no sangue de todos os mortos
e nem pensam que a terra se abrirá
a seus corpos alheios, certo dia.
Procuram suas chaves
e, de cabeça baixa, penetram em casa,
sentam-se à mesa e choram
com suas mulheres, livros, diários íntimos,
mas não falam sequer à Natureza
que lhes oferece, em vão,
todos os seus segredos e mistérios.
Deitam-se sonolentos,
fecham a luz e dão-se aos pesadelos
ou aos sonhos de quando eram meninos. . .
Embriagam-se ou matam-se
e entregam-se aos vícios ou às lágrimas. . .
Tristes os homens passam
sem verem que a terra lhes oferece
juntamente com frutos e canções.

A Condição Reflexa
Imprensa Nacional Casa da Moeda

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AS CASAS (SINAIS GRÁFICOS)
Dispostas, cruciformes, sobre o linho,
desbotadas nos peitos e nas costas,
nos pratos,
vírgulas a esmo na paisagem,
urbanas reticências.
Feitas fotografia e problema,
circunspectas, circunflexas, as casas
com persianas, portadas e cortinas,
paroxítonas, reflexas.
Entre flores e aspas,
beliscaduras,
vícios e virtudes
e parêntesis..
Ponto final. Parágrafo.
Seus perfumes,
dois pontos:
a rio e mar, por certo os teus
cabelos,
as tuas mãos também
por onde passam, pousam estas letras.
in “27 Poemas”