13/06/2016

3.450.(13jun2016.18.55') W.B. Yeats

***
Nasceu a 13jun1865
e morreu a 28jan1939
***

Sete poemas de W. B. Yeats

William Butler Yeats (1865-1939) foi daqueles raros poetas que, não satisfeitos em fechar uma era e iniciar outra - no que dominou dois estilos de poesia tanto quanto díspares -, emergiu com voz própria, a maior do século XX na língua inglesa segundo Haroldo Florescência.(...)

http://vulgatalatrina.blogspot.pt/2011/03/sete-poemas-de-w-b-yeats.html

*
QUEM VAI COM FERGO? (1893)Quem conduz com Fergo agora,
E pinça a alfombra de úmbreos troncos,
E dança sobre areias alvas?
Desfranze o rosto, jovenzinho,
E lentos olhos, ninfa, os alça,
E aquietas terna e não mais temas.

E não mais fujas nem aquietas
O acro lampejo dos amantes;
Pois conduz Fergo em áureas rodas,
E reina todos troncos úmbreos,
E o calmo seio do mar fosco,
E os andarilhos astros todos.

*
O BANDEAR DOS SIDHE. (1899)

O bando corre por Knockarea
E sobre a tumba de Clooth-na-Bare;
Caoilte agita sua crina em brasa
E Niahm chamando 
Acá, venha acá:
Teus sonhos mortais os deixa já.
Os ventos sustam, as folhas dançam,
O rosto é pálido, os cachos lançam,
A fronte pesa, os olhos esplendem,
Os braços rugem, os lábios fremem;
E se algum fitar tropel avante,
Ficamos entre ele e o feito de seu punho,
Ficamos entre ele e o pulso de seu peito,
A tropa por noite e dia errante,
E donde há maior impulso ou feito?
Caoilte agita sua crina em brasa
E Niahm chamando 
Acá, venha acá.
*
UM AVIADOR IRLANDÊS PREVÊ SUA MORTE. (1918)

Encontrarei meu fim no meio
Das nuvens de algum céu sobejo,
Os que combato, eu não odeio,
Também não amo os que protejo;
Kiltartan Cross é meu país,
Seus pobres são a minha gente,
Nada a fará mais infeliz
Do que já era, ou mais contente.
Não é por lei ou por dever,
Turba ou políticos, que luto,
Mas pelo afã de me entreter,
A sós, nas nuvens em tumulto.
Tudo na mente foi pesado:
Nada que espere ou que recorde
Vale-me a pena comparado
Com esta vida ou esta morte.

[In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia, São Paulo: Imago, 1998]
*
SEM SEGUNDA TRÓIA. (1916)

Por que culpá-la por encher minha existência
De miséria e, mais tarde, enquanto a ação expande,
Aos ignorantes ensinar a violência,
Ou atirar rua pequena contra grande,
Mesmo sem a coragem que o anelar reclama?
Como seria tranquila, com aquela mente
Que a nobreza moldou singela como a flama?
Ou com o encanto do arco retesado, um ente
Não natural em nosso mundo, por seu jeito
Muito severo e sempre altivo e singular?
Ora, sendo como é, que mais teria feito?
Havia nova Tróia para ela queimar?

[In: VIZIOLI, Paulo (trad.). Poemas de W. B. Yeats, São Paulo: Companhia das Letras, 1992]
*
OS ACADÊMICOS (1929 ver.)
Péla-cabeças, ciosos do pecado,
Doutos, vetustos, pélas admirados,
Editam e analisam verso-a-verso
Que outrora jovens em divãs largados
Rimaram em paixão e tibiez
À orelhinha ignorante da beleza.

Agitam-se e engasgam-se com tinta;
Arrastam o carpete nos sapatos;
Assumem o que todos outros pensam;
Afastam quem não têm averiguado;
Que diriam, a torto e a direito,
Se Catulo rebolasse desse jeito?

*
A SEGUNDA VINDA. (1919)

Rodando em giro cada vez mais largo,
O falcão não escuta ao falcoeiro;
Tudo esboroa; o centro não segura;
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Maré escura de sangue avança e afoga
Os ritos da inocência em toda parte;
Os melhores vacilam, e os piores
Andam cheios de irada intensidade.

Aí vem por certo uma revelação.
Por certo próxima é a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Digo essas palavras,
E do 
Spiritus Mundi vasta imagem
Turba-me a vista: ao longe, no deserto,
Um corpo de leão com rosto de homem,
O olhar vazio e duro como o sol,
As lerdas coxas move, enquanto em torno
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Retorna a escuridão; mas ora eu sei
Que a vinte séculos de sono pétreo
Vexou o pesadelo de um bercinho;
E que rude animal, chegado o tempo,
Arrasta-se a Belém para nascer?
[In: VIZIOLI, Paulo (trad.). Poemas de W. B. Yeats, São Paulo: Companhia das Letras, 1992]
*
CUCHULAIN CONSOLADO. (1939)


Um homem tinha seis golpes mortais, um homem
Violento e meritório vagava entre os mortos;
Olhos despontam dos arbustos, logo somem.

Sudários uns que sussurravam ombro a ombro
Vieram e sumiram. Sobre sangue e golpes
Como se meditasse, se escorou num tronco.


Um Sudário cujo semblante era notório
Veio mediante os canoros seres, cedendo
Um feixe de linho. E os Sudários, pouco a pouco,

Ante o homem inofenso iam bruxuleando.
E o Sudário-linheiro aferiu sem demora:
'Tua vida será tão mais doce se fiando


'Um sudário seguires nossa velha norma;
Somente tanto e pelo pouco que sabemos
O agito daqueles braços nos atemora.'

'No olho d'agulha erramos; tudo que fazemos
Fazemos em conjunto.' Dito e feito, o manto
empunhou o mais próximo e trouxe o fiamento.

Agora cantaremos, e o melhor cantemos,
Porém antes lhe revelamos nosso ganho:
Covardes todos nós, talhados pelo sangue,

Ou dele expulsos, reles a morrer de pranto.'
Cantaram, mas não era humano o tom e o coro,
Contanto fora tudo feito como dantes;

Cingiram suas gargantas e tinham-nas canoras.
***
William Butler Yeats nasceu em 13 de junho de 1865, em Dublin, Irlanda, onde se desenvolveu em um meio culto e criativo. Poeta e autor teatral, Prêmio Nobel (1923) de Literatura. Foi o representante máximo do Renascimento irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX."

http://www.culturapara.art.br/opoema/williambutleryeats/williambutleryeats.htm
**
via Maria Elisa Ribeiro
De W. B. Yeats-in Net
Leda e o cisne
Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés; a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?
Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?
*Zeus tomou a forma de cisne para apossar-se de Leda, mulher de Tíndaro, rei da Lacônia
**Helena, então engendrada, seria a causa da ruína de Tróia; Clitemnestra, também filha de cisne, matou Agamêmnon, seu marido, ao voltar este de Tróia.
O soneto foi escrito em 18 de setembro de 1923
(Tradução e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos)
**
LEDA E O CISNE
Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.
Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?
Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim, 
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?
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RUMO A BIZÂNCIO
I
Este país não é para velhos. Jovens
Abraçados, pássaros que nas árvores cantam
- essas gerações moribundas -
Cascatas de salmões, mares de cavalas,
Peixe, carne, ave, celebrando ao longo do Verão
Tudo quanto se engendra, nasce e morre.
Prisioneiros de tão sensual música todos abandonam
Os monumentos de intemporal saber.

II
Um velho é coisa sem valor,
Um andrajo apoiado num bordão, a não ser que
A alma aplauda e cante, e cante mais alto
Cada farrapo da sua mortal veste.
Nem há escola de canto somente o estudo
Dos monumentos de seu próprio esplendor;
Por isso cruzei os mares e cheguei
À sagrada cidade de Bizâncio.


III

Oh, sábios que estais no sagrado fogo de Deus
Qual dourado mosaico sobre um muro,
Vinde desse fogo sagrado, roda que gira,
E sede os mestres do meu canto, da minha alma.
Devorai este meu coração; doente de desejo
E atado a um animal agonizante
Ele não sabe o que é; juntai-me
Ao artifício da eternidade.


IV

Da natureza liberto jamais de natural coisa
Retomarei minha forma, meu corpo,
Mas formas outras como as que o ourives grego
Em ouro forja e esmalta em ouro
Para que o sonolento Imperador não adormeça;
Ou em dourado ramo pousado, cantarei
Para damas e senhores de Bizâncio
Cantarei o que passou, o que passa, ou o que virá

(tradução: José Agostinho Baptista)

.
QUANDO FORES VELHA
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

.
A CANÇÃO DO DELIRANTE AENGUS (1899)
Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.

.
A ROSA DO MUNDO
Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

(tradução: José Agostinho Baptista)
.
VERSOS ESCRITOS EM DESALENTO
Quando é que eu vi pela última vez
Os olhos verdes redondos e os corpos longos vacilantes
Dos leopardos escuros da lua?
Todas as bruxas selvagens, aquelas senhoras muito nobres,
Por todas as suas vassouras e as suas lágrimas,
Suas lágrimas de raiva, fugiram.
Os santos centauros das colinas desapareceram;
Não tenho nada para além do amargado sol;
Banida mãe lua heróica e desaparecida,
E agora que cheguei aos cinquenta anos
Tenho que aguentar o tímido sol.

( tradução: António de Campos )
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COM O TEMPO A SABEDORIA
Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.

(tradução: José Agostinho Baptista)
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UMA CAPA
Uma capa fiz do meu canto
Debaixo a cima
Bordada
De antigas mitologias;
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
Como se por eles fora lavrada.
Deixa, canto, que a tomem
Pois maior feito existe
Em andar nú.

(tradução: José Agostinho Baptista)
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OS CINES SELVAGENS DE COOLE
Em sua outonal beleza estão as árvores,
Secas as veredas do bosque;
No crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem um céu tranquilo;
Nessas transbordantes águas sobre as pedras
Banham-se cinquenta e nove cisnes.

Dezenove outonos se passaram desde que
Os contei pela primeira vez;
E, enquanto o fazia, vi
Que de repente todos se erguiam
E em largos círculos quebrados revolteavam
As clamorosas asas.

Contemplei esses seres resplandecentes,
E agora há uma ferida no meu coração.
Tudo mudou desde o dia em que ouvindo ao crepúsculo,
Pela primeira vez nesta costa,
A alta música dessas asas sobre a minha cabeça,
Com mais ligeiro passo caminhei.

Infatigáveis, amante com amante,
Movem-se nas frias
E fraternas correntes ou elevam-se nos ares;
Os seus corações não envelheceram;
Paixão ou conquista solicitam ainda
Seu incerto viajar.
Mas vagueiam agora pelas quietas águas,
Misteriosos, belos;
Entre que juncos edificarão sua morada,
Junto a que lago, junto a que charco,
Deliciarão o olhar do homem quando um dia eu despertar
E descobrir que voando se foram?

(tradução: José Agostinho Baptista)
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MORTE
Nem temor nem esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim aguarda
Tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta de alento;
Ele conhece a morte até ao fundo —
O homem criou a morte.

(tradução: José Agostinho Baptista)
.
TUDO PODE TENTAR-ME
Tudo pode tentar-me a que me afaste deste ofício do verso:
Outrora foi o rosto de uma mulher, ou pior —
As aparentes exigências do meu país regido por tolos;
Agora nada melhor vem à minha mão
Do que este trabalho habitual. Quando jovem,
Não daria um centavo por uma canção
Que o poeta não cantasse de tal maneira
Que parecesse ter uma espada nos seus aposentos;
Mas hoje seria, cumprido fosse o meu desejo,
Mais frio e mudo e surdo que um peixe.

(tradução: José Agostinho Baptista)
.
A ESPORA
Parece-te horrível que luxúria e ira
Cortejem a minha velhice;
Quando jovem não me flagelavam assim;
Que mais tenho eu que me esporeie até cantar?


(tradução: José Agostinho Baptista)
***
Via Amélia Vieira
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Via Maria Elisa Ribeiro:

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O PRAZER DO DIFÍCIL
Tradução: Augusto de Campos

O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.