26/01/2017

8.784.(26jan2017.8.8') Kosovo

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19jan2017
José Goulão escreve:
O ex-primeiro-ministro do Kosovo, Ramush Haridinaj, foi detido em França com base num mandado de prisão internacional emitido pela Sérvia em 2004.
http://www.abrilabril.pt/num-pantano-fedorento-da-nato
«Assim, limpo e inocente, Ramush Haridinaj foi empossado pela NATO como primeiro-ministro do Kosovo, à cabeça de um governo dos terroristas do UCK aperaltados de fato e gravata.»


Nada de novo. Como disse há dias o actor norte-americano Denzel Washington, «se não lemos os jornais não estamos informados, se lemos os jornais ficamos mal informados». «Jornais», bem entendido, é um termo usado por Denzel Washington em sentido figurado, pois todos sabem que inclui televisões, rádio, os «observadores» acoitados na internet e outras corruptelas mediáticas.
Pelo que poucos se terão apercebido de que o secretário de Estado norte-americano cessante, John Kerry, confessou durante uma reunião com os «moderados» sírios – cuja gravação foi citada pelo The New York Times (mas não na íntegra) – que os Estados Unidos apoiaram o Daesh ou Estado Islâmico para que derrubasse o governo da Síria, «mas a intervenção dos russos, infelizmente, alterou a equação».
O facto era conhecido, mas exposto assim de voz própria começa a tornar legítimo que a Administração Obama seja associada a crimes contra a humanidade.
É também a propósito de crimes contra a humanidade que se evoca aqui a outra situação grave omitida ou, no máximo, apenas ciciada: o governo francês deteve e colocou em residência vigiada o ex-primeiro ministro dessa invenção da NATO chamada Kosovo, Ramush Haridinaj.
O chefe terrorista do Exército de Libertação do Kosovo (UCK) foi detido no aeroporto de Mulhouse na sequência de um pedido de captura internacional emitido pela República da Sérvia. Haridinaj já foi, entretanto, absolvido pelo Tribunal Internacional de Haia, a tal instituição onde a justiça é vesga e em cujas celas os réus, aguardando sentenças, morrem em série de «suicídio» ou por tomarem medicamentos assassinos, como aconteceu em 2006 com o dirigente sérvio Slobodan Milosevic.
No caso de Haridinaj, a absolvição foi facilitada pelo facto de a NATO se ter recusado a entregar à procuradora Carla dal Ponte a documentação que incriminava o chefe terrorista nas provocações sanguinárias que conduziram aos ainda mais sanguinários bombardeamentos de Belgrado pelos «libertadores atlantistas», em 1999.
Pegando por esta ponta do processo do antigo primeiro-ministro kosovar penetra-se, inevitavelmente, num dos mais fedorentos pântanos da NATO, que é o da secessão arbitrária e xenófoba do Kosovo por interesses estratégicos próprios e expansionistas.Ramush Haridinaj foi absolvido porque, além da sonegação de provas pela NATO, mais de uma dezena de testemunhas que se preparavam para depor contra ele tiveram contratempos em série que ceifaram a vida a cada uma delas.
Assim, limpo e inocente, Ramush Haridinaj foi empossado pela NATO como primeiro-ministro do Kosovo, à cabeça de um governo dos terroristas do UCK aperaltados de fato e gravata. Os mercenários islamitas do UCK foram criados e treinados na Turquia pela KSK alemã, a unidade de operações especiais do exército alemão, depois de recrutados pela mafia albanesa.
Tal como num dia de 1994, o próprio Bin Laden foi visto por jornalistas a entrar no gabinete do então presidente islamita do protectorado atlantista da Bósnia, Alija Izetbegovic, também a solução da NATO para o Kosovo foi encontrada através dos terroristas islâmicos.
Tanto Haridinaj como o actual primeiro ministro do Kosovo, Hacim Taci, têm demonstrado que a corrente ideológica a que chamam «fundamentalismo islâmico» é compatível com o tráfico de droga – neste caso como entreposto – e também com o tráfico de órgãos humanos.
Factos probatórios desta actividade assassina constam de uma investigação que jaz há longos anos no Conselho da Europa sem dar origem a qualquer apreciação, conclusão ou medida.
Por que foi então Haridinaj detido em território francês? Porque o mandado sérvio pretende fazer justiça em nome das testemunhas silenciadas antes de contarem em Haia o que sabiam sobre um dos fundadores do Kosovo. A decisão final sobre o envio ou não do terrorista Haridinaj para Belgrado será do governo francês, pelo que são escassas as hipóteses de que a justiça triunfe.
A polícia cumpriu a sua parte, mas é improvável que a política parisiense, apesar de estar «em guerra contra o terrorismo», contribua para remexer na pestilência que tem sido a acção da NATO na destruição da Jugoslávia, tal como do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria…

Tanto mais que, enquanto os terroristas reconvertidos fazem o que querem no Kosovo, a NATO usufrui da transformação do território amputado à Sérvia numa esplêndida, ampla e funcional base militar balcânica defensora da democracia, da liberdade e da justiça. Uma mão lava a outra. Porque não há decomposição pantanosa que incomode o olfacto dos heróicos e viris generais atlantistas.
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De novo o Kosovo

O ano 2008 começa com o reacender dos perigos de guerra nos Balcãs. A questão do Kosovo, que serviu de pretexto para a guerra com que as potências imperialistas impuseram a sua presença militar e política no sudeste europeu, está de novo a ser atiçada por essas mesmas potências, e ameaça lançar os Balcãs de novo na guerra.

Nunca é de mais recordar que a agressão da NATO à Jugoslávia de 1999, sob a Presidência de Clinton e com as social-democracias no poder na União Europeia, constituiu uma violação flagrante da legalidade internacional e baseou-se numa montanha de mentiras. Foi uma espécie de antevisão da saga das «armas de destruição massiva», inventada por Bush para procurar justificar a sua invasão e ocupação do Iraque em 2003. A ficção mediática do «genocídio» dos albano-kosovares procurou legitimar a primeira guerra de agressão em solo europeu desde o final da II Guerra Mundial.

A NATO foi constituída em 1949, oficialmente como aliança «defensiva» das «democracias» contra uma pretensa «ameaça soviética». A sua verdadeira natureza ficou patente desde logo, com a presença do regime fascista de Salazar como membro fundador. Longe de desaparecer com a derrocada da União Soviética, expandiu-se em termos geográficos com a adesão de ex-países socialistas europeus como a Hungria, Polónia, Bulgária, República Checa, Eslováquia, Roménia e Eslovénia, e das ex-repúblicas soviéticas da Estónia, Letónia e Lituânia. Expandiu-se também em termos de «teatro de operações», que oficialmente se limitava ao território dos países membros, mas que após a Cimeira de Washington de Abril 1999 passou a extravasar essas fronteiras, o que se concretizava na prática, naqueles mesmos dias, com a agressão à Jugoslávia. Na nova correlação de forças mundial resultante do fim da URSS, a NATO despiu-se da ficção «defensiva» e passou a assumir a sua verdadeira natureza: a de organização de ingerência e ataque militar do imperialismo no plano global. A escolha da Jugoslávia como alvo militar da NATO deveu-se também ao facto de que, tal como a Bielorússia, esse país sempre se tinha recusado a obedecer às pressões para «aderir» à Aliança Atlântica.

A guerra de agressão à Jugoslávia terminou com a aprovação da Resolução 1244/99 do Conselho de Segurança da ONU. Essa resolução consagrou a ocupação do Kosovo pelas forças da NATO e a sua «administração interina» por uma força civil da ONU até que fosse acordada uma solução definitiva para o estatuto daquela província sérvia. A participação da ONU na tentativa de «legitimar» a guerra imperialista contra a Jugoslávia representou uma perversão flagrante e escandalosa dos princípios da organização constituída no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, e que tem como elemento constitutivo a «Carta da ONU».

As primeiríssimas palavras do Preâmbulo à Carta da ONU afirmam que «Nós, os povos das Nações Unidas [estamos] determinados a salvar as gerações vindouras do flagelo da guerra». O primeiro objectivo da ONU, segundo a Carta, é o de «Manter a paz e segurança internacionais». Logo no Artigo 2, ponto 4, afirma-se que «Todos os Estados membros abster-se-ão, nas suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado».

Mas a Resolução 1244 reafirmava repetidamente que a solução definitiva para o Kosovo teria de respeitar a «soberania e integridade territorial» da então República Federativa da Jugoslávia e «de outros países na região». O escândalo do colaboracionismo das estruturas da ONU com a operação de agressão, guerra e desmembramento pela força da ex-Jugoslávia, Estado fundador da ONU e cuja resistência heróica ao nazi-fascismo deu um contributo importante para a própria existência das Nações Unidas, conhece agora novo salto qualitativo, com a operação em curso para separar o Kosovo da Sérvia. Em nova violação aos princípios da sua Carta e ao próprio texto da Resolução 1244 aprovada no final da guerra, é o Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU, o ex-Presidente finlandês Marti Ahtisaari, que em Março de 2007 recomenda que a resolução do problema do Estatuto do Kosovo passe pela «independência, supervisionada pela comunidade internacional» (documento S/2007/168 da ONU). A sua recomendação é prontamente subscrita pelo novo Secretário-Geral, o sul-coreano Ban Ki-Moon, sempre enfeudado aos desígnios do imperialismo. De defensor da soberania e integridade territorial dos Estados, e da resolução por meios pacíficos dos conflitos, como manda a sua Carta constitutiva, a ONU está a ser transformada em braço político das intervenções armadas do imperialismo, visando desmembrar Estados independentes para abrir caminho à conquista imperial.

Para quem possa ainda acreditar que as acções do imperialismo são norteadas por preocupações relativamente aos albano-kosovares, importa chamar a atenção para os próprios termos do documento Ahtisaari.

O «Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU» não se limita a propor a independência do Kosovo. Numa «Proposta para uma Resolução Global do Estatuto do Kosovo», proclama que essa «independência» terá de prosseguir sob «supervisão internacional», com uma «presença internacional civil e militar» (explicitamente atribuída à NATO) durante um período não especificado, que «apenas poderá terminar quando o Kosovo tiver concretizado as medidas referidas na proposta de Resolução». E quais são essas medidas?

Além de pias declarações sobre respeito de direitos, do carácter multi-étnico (que deixou de ser uma realidade após a ocupação da NATO) e outros princípios altissonantes, a proposta vai ao que interessa: proclama explicitamente que tem de haver um «processo contínuo de privatizações», com «um substancial envolvimento internacional» (ponto 8, relativo à economia).

Além de prever a continuação da ocupação militar da NATO, a Proposta prevê também que a União Europeia exerça as funções de «Representante Civil Internacional», que será a «autoridade de supervisão máxima» no território «independente», com «fortes poderes correctivos», entre os quais os de «anular decisões ou leis aprovadas pelas autoridades do Kosovo e aplicar sanções e demitir autoridades públicas cujas acções ele/ela determine serem inconsistentes com a Resolução» (ponto 11, relativo ao Representante Civil Internacional). Mesmo no plano judicial, está prevista a existência de uma «Missão de Política Europeia de Segurança e Defesa» que deverá «fiscalizar, supervisionar e aconselhar em todas as áreas relativas ao Estado de Direito no Kosovo» e que terá «o direito de investigar e julgar de forma independente, crimes sensíveis».

Ou seja, longe de ser um país independente, o novo Kosovo será um bantustão europeu, sob ocupação colonial dos EUA/União Europeia/NATO, cujos dirigentes poderão, mesmo que eleitos democraticamente, ser afastados por ordem das autoridades coloniais. O poder real estará nas mãos dos representantes das potências imperialistas. E para quem pense que isto são apenas poderes teóricos, que não serão usados na prática, convém lembrar que poderes análogos, instituídos pelos Acordos de Dayton de 1995, já foram usados por várias vezes pelos ocupantes imperialistas desse outro bantustão pós-jugoslavo que é a Bósnia. Durante o ano de 2004, o governador colonial na Bósnia, o ex-militar britânico Paddy Ashdown, «demitiu 59 políticos [eleitos] na República Sérvia [da Bósnia] tendo forçado o próprio Presidente sérvio-bósnio a demitir-se em Abril de 2004. Em Março deste ano [2005] coube a vez ao membro croata da Presidência da Bósnia-Herzegovina, Dragan Covic, ser demitido devido a acusações nunca provadas de corrupção» (John Laughland, no jornal britânico Mail on Sunday, 22.5.05, disponível em http://www.bhhrg.org/pressDetails.asp?ArticleID=39). Até mesmo a Rádio Europa Livre (RFE/RL), com as suas conhecidas ligações ao imperialismo norte-americano, reconhece que a «Bósnia é, na realidade, um protectorado» (30.3.05, http://www.rferl.org/featuresarticle/2005/03/8d3c3abb-2c36-4d06-8644-985d86d86995.html ).  E é esse o futuro reservado pelo imperialismo para o Kosovo.

Desde sempre que os Balcãs, com a sua diversidade nacional e posicionamento estratégico, foram alvo da cobiça imperialista. As reais intenções do imperialismo sempre foram as de dividir os povos balcânicos para os poder dominar.

Logo após a ocupação do Kosovo, os EUA procederam à construção de Camp Bondsteel, a maior base militar dos EUA construída de raiz após a guerra do Vietname, junto à fronteira do Kosovo com a Macedónia: tal como no Kuwait ou no Iraque, as «forças libertadoras» vinham para ficar. Antes e após a ocupação, promoveram os bandos mafio-criminosos do UÇK, envolvidos no tráfico de heroína e de pessoas para a Europa, para funcionar como sobas ao serviço do poder imperial.

A decisão dos EUA e União Europeia de acelerar o processo de «declaração da independência do Kosovo» está já tomada e pode ter sido já concretizada quando este número de O Militante chegar às bancas.

Vários órgãos de comunicação social publicaram «indiscrições» nesse sentido no final de 2007/início de 2008. O jornal esloveno Dnevnik publicou mesmo a Acta duma reunião secreta em que o Embaixador esloveno nos EUA se reuniu com representantes do MNE dos EUA para receber instruções sobre como o governo esloveno – que sucedeu a Portugal na Presidência da UE neste primeiro semestre de 2008 – se deve comportar durante o processo de «declaração da independência do Kosovo» (Corriere della Sera, 30.1.08). Mas as consequências poderão ser dramáticas.

O ex-Presidente italiano, Francesco Cossiga, ao procurar justificar a sua oposição a uma crise de governo em Itália, afirmou: «não se pode deixar a Itália sem governo agora que está a chegar uma crise económica e em que, além disso, vai ser preciso voltar a disparar no Kosovo» (Agência de imprensa italiana ANSA, 24.1.08).

A aceleração deste processo integra-se em objectivos muito mais vastos do que o próprio Kosovo. Faz parte do um cerco que os EUA estão a montar a uma Rússia riquíssima em recursos energéticos, cada vez mais consciente de que os objectivos do imperialismo passam pela sua desagregação (à semelhança do que foi feito à URSS e à Jugoslávia), e cada vez mais disposta a afirmar os seus interesses nacionais autónomos. Faz parte do processo que leva os EUA a estabelecer novas bases militares no Leste europeu (Bulgária, Roménia, fala-se já da Polónia) e a pretender instalar sistemas anti-míssil na Polónia e República Checa. Faz parte dos processos que levarão novos países do leste europeu a aderir, num futuro breve à NATO (Albânia, Croácia e Macedónia talvez já em Abril deste ano, durante a Cimeira da NATO em Bucareste; Geórgia, Montenegro, Bósnia num futuro mais distante). Faz parte do processo das «revoluções laranja» encetadas por Washington nas repúblicas ex-soviéticas e que conhece agora um segundo fôlego na enorme Ucrânia (cujos principais dirigentes, contrariando a vontade da maioria dos ucranianos, acabam de escrever uma carta pedindo a adesão à NATO). Faz também parte de um processo de crescente influência das personagens que no seio da estrutura de poder dos EUA sempre se destacaram pelo seu papel anti-russo e anti-eslavo. Convém não esquecer que os principais arquitectos da guerra contra a Jugoslávia, Madeleine Albright e Richard Holbrooke, são destacados conselheiros da candidata Hillary Clinton em política externa, enquanto que o famigerado Zbigniew Brzezinski, promotor do fundamentalismo wahabita – que gerou Bin Laden e os talibãs para combater os soviéticos no Afeganistão – é um dos principais conselheiros de política externa de Barack Obama.

No campo de um imperialismo em profunda crise, como resultado das aventuras militares no Iraque e Afeganistão, da crescente resistência de povos e países de todo o mundo, e da enorme crise económica (de consequências potencialmente devastadoras para o capitalismo mundial), há quem aposte na guerra como forma desesperada de enfrentar a situação. Não é casual que tenha surgido, no início de 2008, um «manifesto radical» para dar uma natureza ainda mais agressiva à NATO.

Esse Manifesto, assinado por ex-Chefes de Estado Maior General das Forças Armadas dos EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Holanda, defende a adopção da doutrina de ataques nucleares «pre-emptivos», o fim da unanimidade na tomada de decisões na NATO, a criação de um directório EUA/UE/NATO que tome decisões rápidas de intervenção, mesmo na ausência de decisões do Conselho de Segurança da ONU (Guardian, 22.1.08). É neste contexto de intensificação do militarismo e do aventureirismo imperialista que surge a decisão de dar novo fôlego à questão do Kosovo.

É indispensável e urgente que os povos travem o imperialismo – principal ameaça à Paz mundial – antes que, repetindo a História do Século XX, este conduza de novo a Humanidade para a catástrofe. 
http://omilitante.pcp.pt/pt/293/Internacional/213/De-novo-o-Kosovo.htm