23/04/2018

4.657.(23abril2018.7.7' ) Manuel Resende

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Nasceu a 9mar1948
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26ABRIL2018
ENTREVISTA feita por Ricardo Duarte:

Como bom herdeiro das tradições literárias surrealista e anarquista, não se revê em grupos, nem em movimentos. E publicar também nunca se revelou uma urgência ou uma ambição. Apenas lhe interessam as palavras, as dos outros, que traduz com paixão, e as suas, que vai compondo em versos (torrenciais, épicos, humanos) que cruzam vida e História. A Cotovia acaba de lhe publicar a Poesia Reunida, volume que assinala os seus 70 anos de vida, celebrando ao mesmo tempo um percurso discreto e deslumbrado com o espetáculo do mundo

Quantos livros são necessários para se reunir uma poesia? Manuel Resende não publicou mais de três, a que juntou as experiências poéticas que atribuiu a um heterónimo (Mika Ahtisaari, nascido em 1960, em Tampere, na Finlândia) e três inéditos e esparsos. Mas a quantidade nada diz da qualidade de um verso. Lemos estes livros de poemas demorados e descobrimos a vibração de uma voz que se emociona com o curso da História que lhe coube viver, com os lugares que descobriu nas suas andanças pelo mundo, em particular na Europa, onde, através da tradução, contribuiu para um entendimento comum, e com a esperança que resiste à mecanização futurística da vida. Aos seus poemas acorrem massas populares, sonhos e utopias, mas também memórias, infâncias, redenções. Ou noutras palavras, as da sua filiação literária, aqui encontramos amor, poesia e revolução. Anarquista na forma, surrealista no conteúdo, a sua demanda é a da palavra certa, a que possa ter uma ressonância no mundo.
Manuel Resende nasceu no Porto, em 1948. Do pai, engenheiro, herdou o gosto pela poesia e as ideias de esquerda, que viriam a explodir, como luz em terra obscura, com o Maio de 68, que acompanhou, informado, à distância. Por essa altura já traduzia, paixão que nunca o abandonou, sendo hoje um dos grandes especialistas em grego moderno (é sua a recente edição dos poemas completos de Konstantínos Kaváfis, das edições Flop). Nunca exerceu engenharia, que cursou, mas passou pelas redações dos jornais (seis anos no Jornal de Notícias), e pelos corredores da União Europeia (duas décadas como tradutor). Estreou-se, em 1983, com Natureza Morta com Desodorizante, a que se seguiria Em Qualquer Lugar (1998) e O Mundo Clamoroso, Ainda (2004). Três etapas de uma vida traduzida em versos.
Jornal de Letras: Este volume assinala os seus 70 anos, os 50 do Maio de 68 e os 35 do seu primeiro livro. Que data foi mais preponderante para a reunião da sua poesia?
Manuel Resende:
 O Maio de 68, símbolo da minha geração. Tinha na altura 20 anos. Marcou-me muito.
Reformulando uma pergunta famosa: onde estava no Maio de 68?
No Porto, de onde segui tudo com muita atenção. Através de umas cooperativas culturais conseguíamos estar bem informados. Foi uma rutura total com a sociedade em que nasci, uma luz de revolta e insubmissão, sobretudo para quem, como eu, assumia uma filiação surrealista.
Define-se como surrealista? 
Não o posso dizer dessa forma, porque não se pode ser surrealista e alinhar em grupos. Essa contradição, aliás, foi um dos problemas do Surrealismo, a base de muitas das suas guerras internas. Em nada disso me revejo, apenas nas ideias essenciais.
Amor, poesia e revolução?
Sim. Imbuir-nos do espetáculo do mundo e sobretudo o acaso objetivo. Esquecemos frequentemente que nós estamos no mundo. Só na fusão entre nós e o mundo há conhecimento e sensações e amor.
É preciso baixar as armas da razão?
Ser racional é aceitar a nossa condição humana, as nossas emoções. A razão de que tanto se fala acaba muitas vezes em coisas completamente irracionais. O desejo de controlar o mundo, por exemplo. Nunca seremos capazes de dominar a natureza, também porque somos parte dela.
Bem, temos dado bons avanços no sentido de controlar ou, pelo menos, destruir o mundo...
Isso já é possível. Podemos destruir o ser humano, mas o planeta continuará. Será outro, é certo, mas ele não precisa de nós para se salvar.
Destaquei a valorização do Maio de 68 porque normalmente a fronteira, em Portugal, está no 25 de Abril. 
Para um slogan de badana, o 25 de Abril não dava conta certa em 2018... Sempre são 50 anos do Maio de 68... Mas, claro, o 25 de Abril foi muito importante, uma explosão. Eu estava na tropa, em Mafra. Tinha tudo preparado para desertar, com um contacto já feito com o passador. Não foi preciso. O curioso é que não nos informaram de nada.
Quando é que soube da Revolução? 
De manhã fomos acordados por uma pessoa que entrou aos berros na camarata. Dizia: houve um golpe de estado! E sabe qual foi a reação geral?
Temeu-se um golpe de direita?
Mais engraçado: "Já nos lixaram o fim-de-semana!" No fim do dia, no entanto, já todos cantavam a portuguesa. No dia seguinte fomos para Lisboa ocupar o quartel do Trem Auto. Foram dias incríveis. As pessoas na rua, contentes, eufóricas. Pedíamos um café e era de graça. Nos museus também não pagávamos. Havia orgulho nos militares.
Mas não ficou muito tempo na tropa.
Fui expulso por causa de uns comités que vieram a dar origem ao SUV - Soldados Unidos Vencerão. Lutei por uma democratização total nos ramos militares. Fiz uma proposta ultra-radical: abolir as patentes, todos deviam fazer todos os serviços. Fui aplaudido. Havia uma excitação com aquelas propostas. Mas depois...
Guia de marcha para a rua?
Pois. Até a ideia de um sindicato de soldados, inspirado no que havia na Holanda, foi considerado subversivo.
Pelas histórias que conta e também pela sua poesia nota-se uma consciência política forte. De onde vem?
De casa. Embora não falasse muito de política, o meu pai era um homem de esquerda, engenheiro na Efacec. Numa greve foi instado pela PIDE a denunciar os grevistas. Foi convenientemente transferido para a filial belga da Efacec. A ditadura não era só para os políticos, entrava na vida do dia-a-dia.
Começamos pela política para chegar ao seu primeiro livro, Natureza Morta com Desodorizante, porque nele, como em toda a sua poesia, História e Poesia são indissociáveis. O título, aliás, parece um programa. 
Mas olhe que não é. Dei-lhe esse título para não dizer coisa nenhuma. Foi o mais esquisito que consegui arranjar. Há naturezas-mortas com violinos, açucenas, frutas... A minha tem um desodorizante.
Referia-me à ideia de evocar um tempo suspenso - o ano de 1974 está muito presente no primeiro livro -, mas por vezes também amargo (haverá mais tempos no passado). E nos restantes livros também se sente essa ligação da poesia com a vida. 
E tem de haver, sobretudo para quem se reivindica surrealista. Mas não é a vida comezinha. É a minha, a sua, a de todos nós. Só nos afirmamos com, pelos e contra os Outros. Mesmo na experiência individual, é esse todo que se busca.
Em alguns poemas seus essa visão individual e coletiva parece devedora de Walt Whitman. 
E é. Até tenho um poema intitulado Eu canto os momentos nativos. Poderia até dizer que a minha poesia é sobretudo uma colagem de muitos poetas, romancistas, músicos...
Não sofre da angústia da influência?
A Literatura, para mim, não é um combate, é um um ato de amor. Aceito todas as influências. Afirmo-me com o que recebo. É daí que vem o gosto pela tradução, a procura de me exprimir e ser outro pela voz alheia.
Quando começou a traduzir?
Muito cedo, ainda adolescente, mas aí só para mim. Mais tarde, durante o curso de engenharia, a tradução permitia-me ganhar algum dinheiro. A minha primeira tradução a sério, um ensaio de Jacques Rougerie sobre a Comuna de Paris, foi publicada em 1971. Sempre gostei de traduzir, mas a certa altura os editores começaram a atrasar-se nos pagamentos. Tive de encontrar uma alternativa.
Surgiu o jornalismo?
Sim, houve um concurso para o Jornal de Notícias e entrei. Fiquei lá seis anos. Aproximava-se a entrada na União Europeia. O meu interesse pelo grego moderno [a Grécia entrou na União Europeia em 1985, um ano antes de Portugal] começou aí: queria perceber melhor o que por lá se passava. O meu objetivo era ser correspondente do jornal lá durante alguns meses, mas não havia dinheiro para isso. Por isso, concorri ao cargo de tradutor, com a ideia de voltar passado um ano. Fiquei 20.
Regressando à poesia. Embora longos, publicou apenas três livros. 
A poesia acontece-me de vez em quando. Não forço nada, nem a publicação. Quando a oportunidade chegou, publiquei.
Publicar não era um objetivo?
Nunca foi. O primeiro livro surgiu de uma proposta que uns amigos do Porto fizeram à Imprensa Nacional Casa da Moeda para a Plural. O Vasco Graça Moura disse-lhes que a coleção, para começar, tinha de ter vários livros preparados e não apenas um. Chegaram a mim pelo Manuel António Pina, de quem era muito amigo e que sabia que eu escrevia uns versos. Em Qualquer Lugar, da &etc, foi publicado por iniciativa de um amigo meu que, sem me dizer nada, enviou os poemas que lhe mostrara para o Vitor Silva Tavares. Ao Osvaldo M. Silvestre, editor da Angelus Novus, onde saiu O Mundo Clamoroso, Ainda, cheguei mais uma vez através do Pina. E esta poesia reunida também se deve à conspiração de uns amigos, que prepararam tudo nas minhas costas.

Aconteceu tudo por acaso?
O acaso faz bem às coisas. Se publicar, fico contente. Se não publicar, não há problema.
O volume também inclui uns poemas de um tal Mika Ahtisaari, finlandês radicado em Portugal... 
... Isso foi um heterónimo que a certa altura arranjei, mas nunca o desenvolvi muito. Estou a passar por um período muito pessimista.
Porquê?
Não sei se vai haver língua portuguesa daqui a algum tempo.
Isso remete-nos para o poema em prosa que encerra o seu terceiro livro de poesia, Apocalipse.
Sim, às vezes penso nele como um testamento. Preocupa-me a crise ambiental, a inteligência artificial, a robotização da vida, o futuro. Talvez um robot nunca venha a conseguir o salto do pensamento do ser humano. Com pouca informação conseguimos criar uma estrutura superior que nos permite observar o mundo de outra maneira. O problema é de outra ordem.
Qual? 
Os carros sem condutores, por exemplo. A Humanidade só aprende quando pratica. O ser humano vai ser cada vez mais burro. E quem mandará nas máquinas? Estão a sugar-nos a inteligência, a expropriar-nos da nossa própria vida.
Não poderá libertar o homem para a escrita, a arte?
Se não soubermos plantar não saberemos o que é a Natureza. A relação com o mundo desaparecerá e as palavras perderão o seu significado. A linguagem estará condenada.
"Deitámos tantas palavras sobre o mundo/ A ver se o mundo se arrepende", diz um dos seus poemas. O que pode, então, uma palavra, um verso, um poema?
Nada e tudo, depende da ressonância no presente. Sabe por que razão um exército não pode marchar por cima de uma ponte?
Não sei, na tropa não fui além da inspeção...
O movimento ordenado e cadenciado de um pelotão pode articular-se com a oscilação natural de uma ponte e levar ao seu colapso. Certas palavras ditas na altura certa têm uma força imensa, como se viu no Maio de 68. Mas para isso é preciso encontrar a música, e sobretudo o ritmo, de cada tempo. É muito difícil.
http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/2018-04-26-Manuel-Resende-Surrealista-e-mais-ainda
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Também o que é Eterno

Também o que é eterno morre um dia. 
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz; 
O doutor quer por força a ecografia, 
Mas eu não estou pra tantas precisões. 

Eu rio à morte com um riso largo: 
Morrer é tão banal, tão tem que ser! 
Disto ou daquilo, que me importa a mim? 
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos! 

A tanta exactidão mata o mistério. 
O pH, o índice quarenta... 
Não quero as pulsações, os eritrócitos, 
O temeroso alzaimer, ou o cancro, 
Nem sequer o tão raro, do coração. 

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração, 
A palpitar a cores no computador? 
Eu morro, eu morro, não se preocupem, 
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa, 
Ou doutra coisa. 
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Na Auto-Estrada

Ainda posso perceber 
Esses miúdos nos viadutos 
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada. 
É um gesto eficaz 
Que matou alguns caixeiros-viajantes, 
E até famílias inteiras, 
É pura malvadez 
E o mundo precisa de pureza. 

Mas como se justificam esses que nos acenam 
Com alegria ao passarmos? 

in 'O Mundo Clamoroso, Ainda'
 
http://www.citador.pt/poemas/a/manuel-resende
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8jun2008
É pena que a sua voz não se oiça mais vezes, porque Manuel Resende é uma pessoa com coisas a dizer. Começamos hoje a dar-lhe a palavra, a propósito ainda da edição do seu livro O Mundo Clamoroso, ainda, no ano de 2004. Pensámos ir ouvir de novo o poeta, mas fomos reler a entrevista que nos concedeu à data da edição do livro, e concluímos que é tão notável que não se justifica acrescentar coisas novas. Claro que, para «entrevista breve», como à data se intitulavam na Angelus Novus estas entrevistas que acompanhavam os nossos press releases, a peça tende ao longo… Mas o privilégio de ouvir uma voz como a de Resende, que é a de alguém que faz pensar, num tempo de excessivo pensamento único, justifica a extensão do que propomos aos nossos leitores.

AN O Mundo Clamoroso, ainda é apenas o seu terceiro livro. A que se deve um ritmo de edição tão entrecortado e dilatado no tempo? Falta de inspiração? Horacianismo compositivo? Desamor à letra impressa? Descaso pela república das letras?

MR. Nunca procurei activamente publicar, pelo que tem sido pela simpatia de amigos e leitores atentos (abençoados sejam) que os meus versos chegaram à tipografia. Descaso pela república das letras? Talvez, mas a seguir se verá. Não há qualquer desamor pela letra impressa, pelo contrário, nem horacianismo compositivo consciente (acredite-se ou não, os meus poemas saem em geral praticamente tal qual dos dedos ou da cabeça para o papel; embora, embora não haja nenhum improvisador de jazz que não tenha uma longa prática no corpo).
É certo que a produção não é propriamente gigantesca. Falta de inspiração? Digamos antes que me paralisa o sentimento da precariedade da poesia na nossa sociedade e no nosso tempo, o que implica muitas hesitações e revisitas dos outros poetas, nomeadamente pela via da tradução.
Precariedade da poesia. Se hoje se falar de crise de poesia é muito provável que se apontem como causas fenómenos marginais, absolutamente secundários, ou melhor, derivados: os jovens não lêem, os editores não publicam.
Na relativa calma em que vivemos, estão já esquecidas, ou recalcadas, as dolorosas antinomias que marcaram o nascimento da poesia novecentista e que, ao invés do que se possa pensar, continuam a trabalhar subterraneamente. A manifestação mais imediata dessas antinomias é a convivência da busca de formas de expressão para os novos tempos (o verso livre, por exemplo, como libertação em relação às formas fixas centenárias que correspondiam a sociedades altamente ritualizadas) com a recusa apaixonada desses mesmos novos tempos.
Essa antinomia conjuga-se com outra: a oposição racionalismo/irracionalismo, que corresponde a uma cisão muito característica da idade contemporânea, quebrada que foi a linha directa que ligava o mundo “inferior” (a natureza) ao “superior” (deus) através do homem. Tivemos de tudo neste departamento: a razão razoável (princípio da incerteza, teoria da relatividade) e a razão louca (teorias “científicas” das raças, eugenismo), o irracionalismo saudavelmente louco (Antonin Artaud, por exemplo, salvo o sofrimento do próprio) e o irracionalismo raciocinante (Heiddegger), o que indica que não são os dois pólos que interessam, mas sim a sua interrelação. A primeira manifestação mais trágica desta trágica antinomia foi a primeira guerra mundial, pois a sua barbárie, a sua brutalidade, teve origem nas mais avançadas civilizações, depositárias das grandes conquistas do pensamento e da técnica e das mais requintadas tradições literárias (“infelicidade na civilização”). E, pior do que tudo, essa primeira guerra veio cronologicamente logo pegada a outra época que ousou chamar-se “belle époque”, época inebriada pela fada electricidade, época a que só pareciam opor-se os terroristas anarquistas e as classes perigosas depressa metralhadas pelas forças da ordem.
Vejo subtis paralelos entre esses tempos quase pré-históricos, se medidos pela bitola actual, e os nossos. E encontro a razão disso numa antinomia de base: pregoeira infatigável do indivíduo, a nossa sociedade tudo faz para o fagocitar e castrar nesse colectivo privado que é a empresa, a ponto de apontar, como nec plus ultra do sujeito actuante, o empresário (exactamente aquele que não pode sobreviver sem a sujeição voluntária de todos, e dele próprio, por consequência, pelo que soçobra na burocracia da sociedade anónima, nem mais). Arauta do universal como soma de todos os singulares, entrincheira, por outro lado, cada pessoa no seu círculo estreito de relações, num circo de comunidades (comunidade científica, comunidade techno, comunidade homossexual, comunidade internacional, que são alguns Estados privilegiados, comunidade porra).
Embora não pareça, a poesia de hoje está precisamente no centro do furacão, e isto por uma razão muito simples: as condições de produção dos tempos modernos (bem, não fujamos às palavras: capitalistas) exigem a organização industrial privada, a qual é mais consentânea com formas de arte como o cinema, o vídeo, o disco, do que com esse artesanato que é a poesia, isto é, é mais consentânea com o copyright (propriedade intelectual das empresas) do que com o direito de autor (propriedade intelectual do Luiz Francisco Rebello). Os grandes poetas tardo oitocentistas não se enganavam ao ver no jornal e nos jornalistas os seus inimigos e ao contrapor-lhes o livro (ora aí está uma boa interpretação para Mallarmé, escusam de agradecer).
E contudo, ela move-se. Digo isto porque: apesar de toda a enorme concentração de abstracções materiais que se propõem ao nosso consumo, perdão, ao consumo de quem pode, todas as máquinas calculadas pela mecânica racional, todos os computadores calculados pela electrónica e pela lógica, todos os lasers, todos os robots, tudo o que quiserem, todas as multinacionais, apesar disso tudo, o ser humano não pode sobreviver mais do que o permite a rotação anual do sol. O seu ciclo de vida inscreve-se necessariamente no ciclo, digamos, natural, precisa, para viver, de que a mais ínfima das plantas tenha tempo de crescer e de morrer e de dar o seu podre às outras que vierem.
Está bem, está bem. E que tem isto a ver com a poesia? Tudo. Afirmação por excelência do indivíduo, isto é, do contacto mais nu e simples possível de cada um com o mundo (sim, através da palavra, artefacto por essência social, mas isso não esqueci, descansem, e trata-se, aliás, de um postulado de base), ela obriga-nos (se quisermos ser coerentes e quisermos sobreviver, simplesmente) a questionar esta corrida desenfreada de todos contra todos.
Tudo isto é telegráfico, reconheço-o, mas trata-se de uma “entrevista breve”. Como o que nós escrevemos é sempre apenas uma ponta do iceberg, permita-se que passe já para uma vinheta tirada da actualidade: o direito, que reivindica para si a glória de ter ultrapassado a lei da força pela força da lei, cada vez mais se impõe pela lei da força. Não se trata apenas das guerras americanas contra o chamado terrorismo (“might is right”, ora nem mais), trata-se também de querer à viva força, é o caso de o dizer, substituir a luta política pela luta judicial. Os advogados em vez dos profetas, ou dos oradores da ágora? Os estipendiados (esperemos que paguem o IRS), em vez dos simples militantes amadores? Razão tinha o Shakespeare: “morte aos advogados”. “Já”, acrescento eu, salvaguardando, claro, as pessoas singulares.

A isto tudo, oponho (em nome de quê ou quem? de mim, perdoem-me a insolência) a luta por revigorar a palavra, que para mim é igual à luta pela palavra de quem a não tem, é igual a procurar uma nova aliança com a natureza, é igual a andar mais devagar, a uma revolução que reivindique também o lugar do indivíduo, se fazem favor (e poderia citar Marx, mas o Pacheco Pereira não deixa e a um maoísta não se pode resistir). Poderia acrescentar imensos pontos a este caderno reivindicativo, mas prefiro deixar isso aos outros meus semelhantes, e sublinho “meus”.

https://angnovus.wordpress.com/2008/06/08/discurso-directo-manuel-resende-i/
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Poesia Reunida
https://www.wook.pt/autor/manuel-resende/25406
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Wook.pt - O Mundo Clamoroso, Ainda
https://www.wook.pt/livro/o-mundo-clamoroso-ainda-manuel-resende/108132
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"Porque os mortos deitaram o corpo
dentro de nós."
"E com a licença da Santa Madre Igreja, sabemos que não é o homem que é feito do barro, que o barro é que é feito do homem."
"Já vai faltando tempo para encerrar esta geração e já outras se aproximam,
outras na bicha já espreitam.

E a resposta? Onde está a resposta?"

https://sol.sapo.pt/artigo/591365/manuel-resende-uma-vida-de-leitura-e-escrita-ate-nao-restarem-segredos
*
Via Ricardo Duarte
HÁ UMA GRANDE NECESSIDADE DE VIDA
Há uma grande necessidade de vida
Parem os semáforos todos no lilás
E as lojas e as grandes cadeias e os pequenos mercados
E as grandes aldeias e as pequenas cidades
Há nestes tempos um consumo enorme de azul no céu
Há uma imensa necessidade de vida
Por exemplo nos teus olhos raticidas
Para podermos viver precisamos de vida
Há uma exacta necessidade de quê
Vida é pronto o gato o cão o espalha-fatos
O sempre intenso por mágica mão dispensável polícia
Tudo isso mas não é isso nem o constante o sempre
[presente o plastificado bolso onde guardo os tormentos
O inexistente segurança que me abre as cancelas
O plenipotenciário bêbado nas portarias
O chanceler de nenhures
É preciso não esquecer que
Há um consumo enorme de ar na terra
Insustentável
Há um consumo enorme de mar nos gestos
Insustável
Dêem-nos o susto o suco o cheiro o pasmo
Os sucos os olhos vidrados os braços e os lumbagos
E com isso nos bastaremos
Isso é que queremos
Isso é que precisamos
Ainda e sempre os mesmos rostos
Os dentes que não estão onde também falta
Perdoem-me a vulgar palavra o pão
E onde sobram sempre as mesmas lágrimas
E sempre as mesmas palavras antigas
Clamando justiça num deserto a que chamaram paz
in Poesia Reunida (livro "Um mundo clamoroso, ainda")
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Foto de Ricardo Duarte.
excerto do poema CASAS
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10155818715674440&set=a.10150689938879440.398183.674849439&type=3&theater
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